Romanos 8 – Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo

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Romanos 8 explica o modo como o cristão serve a Deus (em novidade de espírito), e estabelece um contraponto com a doutrina dos judaizantes (velhice da letra.


Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo

“PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.” (Romanos 8.1).

Introdução

Antes de prosseguir a análise do capítulo 8, da epístola aos Romanos, compare estes dois versículos:

“Mas agora estamos livres da lei, pois morremos para aquilo em que estávamos retidos, a fim de servirmos em novidade de espírito, e não na velhice da letra (Romanos 7.6);

“Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. De sorte que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne a lei do pecado” (Romanos 7.25).

Qual o motivo do apóstolo Paulo dar graças a Deus por intermédio de Cristo Jesus? Ele estava livre da lei (agora estamos livres da lei), uma vez que havia morrido para aquilo que estava retido: a lei.

Qual o objetivo do apóstolo Paulo ter morrido para aquilo que estava retido? A resposta é clara: a fim de servir a Deus em novidade de espírito (evangelho), o que era impossível através da velhice da letra (lei).

O apóstolo Paulo afirmou categoricamente que agora os cristãos estavam livres da lei, uma vez que haviam morrido para ela, e conclui que a liberdade alcançada em decorrência da morte para lei tem um único objetivo: servir a Deus em novidade de espírito, visto que, através da lei de Moisés era impossível servir a Deus (Romanos 8.7).

Os dois versículos apresentam contrapontos: ‘novidade de espírito’ contrapõe ‘velhice da letra’, assim como ‘entendimento’ contrapõe ‘carne’. A oposição ‘evangelho’ versus ‘lei’ é nítida, mas a oposição ‘entendimento’ versus ‘carne’ é muito sutil, o que ocasiona uma má leitura da proposta paulina.

O termo grego traduzido por ‘entendimento’ é νους [1] (nous), provavelmente derivado da raiz do verbo γινωσκω (ginosko). Ao estabelecer o contraponto ‘entendimento’ versus ‘carne’, somos compelidos a considerar o que foi dito pelo apóstolo Paulo mais adiante, que os judeus serviam a Deus sem entendimento (Romanos 10.2), isto porque a Lei, os Salmo e os profetas foram enfáticos:

“Porque são gente falta de conselhos, e neles não há entendimento.” (Deuteronômio 32.28);

“Portanto o meu povo será levado cativo, por falta de entendimento; e os seus nobres terão fome, e a sua multidão se secará de sede.” (Isaías 5.13);

“Deus olhou desde os céus para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento e buscasse a Deus. Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um. Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus.” (Salmo 53.2-4);

“O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria; bom entendimento têm todos os que cumprem os seus mandamentos; o seu louvor permanece para sempre.”  (Salmos 111.10).

O apóstolo Paulo dá graças a Deus no verso 25 porque morreu para lei e, agora, estava livre. No que implica servir em ‘novidade de espírito’? Liberdade para servir à vontade (lei[2]) de Deus com entendimento, uma vez que, com a carne, só é possível servir a lei do pecado.

“Porque esta é a aliança que depois daqueles dias Farei com a casa de Israel, diz o Senhor; Porei as minhas leis no seu entendimento, e em seu coração as escreverei; E eu lhes serei por Deus, E eles me serão por povo;” (Hebreus 8.10).

Nos dois versículos, o apóstolo Paulo utiliza o verbo ‘servir’, e suprime o mesmo verbo na parte final do verso:

“… a fim de servirmos em novidade de espírito, e não (servirmos) na velhice da letra” (Romanos 7.6);

“… com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne (sirvo) a lei do pecado” (Romanos 7.25).

Através desta análise é fácil diagnosticar que, por causa de leituras equivocadas, ou seja, sem considerar possível uso de certos recursos literários, como figuras de estilo, acabam surgindo inúmeros erros de interpretação.

Um exemplo claro de recursos pertinentes a escrita verifica-se nos versículos que acabamos de comparar, onde temos uma das figuras de linguagem (Brasil), ou figuras de estilo/figuras de Retórica (Portugal).

“Figura de Linguagem são estratégias literárias que o escritor pode aplicar no texto para conseguir um efeito determinado na interpretação. São formas de expressão mais localizadas em comparação às funções da linguagem, que são características globais do texto. Podem relacionar-se com aspectos semânticos, fonológicos ou sintáticos das palavras afetadas.” Wikipédia.

Que recurso o apóstolo Paulo utilizou nos versículos acima? Ele utiliza uma figura de estilo denominada elipse, que é:

“Elipse é uma supressão de uma palavra facilmente subentendida. É a omissão intencional de um termo facilmente identificável pelo contexto ou por elementos gramaticais presentes na frase. Essa omissão torna o texto conciso e elegante.” Wikipédia.

Não considerar princípios elementares de interpretação de texto distorce a ideia que o escritor procura transmitir, ocasionando erros doutrinários. Ora, se deixar de considerar elementos pertinentes à semântica é pernicioso, que se dirá se menosprezar elementos pertinentes à retórica (arte do bem falar), visto que o apóstolo Paulo era um homem versado na cultura da época.

Analisando a exposição do apóstolo Paulo, percebe-se que ele procura fazer com que o seu interlocutor, através de um raciocínio próprio, se convença de que o emissor está correto. A retórica como técnica de exposição não visa distinguir o que é verdadeiro ou certo, mas sim fazer com que o receptor da mensagem chegue sozinho à conclusão de que a ideia implícita no discurso representa o que é verdadeiro ou correto.

Soma-se a isto, problemas diversos pertinentes ao entendimento dos tradutores quando vertem os textos sagrados, visto que os textos bíblicos transcritos do original não possuíam sinais de pontuação, regras que foram introduzidas tardiamente.

Apesar de analisamos os textos bíblicos utilizando as referências capítulos e versículos, não podemos esquecer que estas divisões não foram feitas pelos escritores da Bíblia. Essas divisões foram introduzidas milhares de anos após a escrita dos livros originais objetivando facilitar a localização de passagens especificas, portanto, não se deve considerá-las durante a leitura e interpretação do texto.

A divisão da Bíblia em capítulos foi introduzida pelo professor universitário parisiense Stephen Langton, em 1227. A divisão da Bíblia em versículos foi introduzida em 1551, pelo impressor parisiense Robert Stephanus. As divisões tinham por objetivo facilitar a consulta e as citações bíblicas).

Boa leitura.

 

Nenhuma condenação

“1. PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.” (Romanos 8.1)

Este versículo dá sustentação às argumentações que o apóstolo Paulo apresentou nos capítulos anteriores, e através dele é possível compreendermos a estrutura da carta que o apóstolo Paulo endereçou aos cristãos em Roma.

Este verso introduz uma conclusão, através da conjunção conclusiva, ‘portanto’, tendo como base o que o apóstolo Paulo expressou anteriormente.

portanto – conjunção conclusiva equivalente a por isso, por conseguinte, por consequência, consequentemente. O emprego da conjunção, ‘portanto’ deve introduzir uma conclusão com base no que foi dito anteriormente – oração ou texto precedente – pelo que é um erro iniciar um período, intervenção ou resposta com esta conjunção.”

Para entender a estrutura da carta, se faz necessário se socorrer do advérbio de tempo (agora) que o apóstolo dos gentios introduz logo após a conjunção conclusiva, ‘portanto’: “Portanto, agora…” (Romanos 8.1).

Após demonstrar que todos os homens, sem exceção, estavam debaixo do pecado (Romanos 3.1-20), o apóstolo Paulo descreveu a da justiça de Deus concedida através do evangelho (fé) a todos que creem (sem distinção), e utilizou o advérbio de tempo ‘agora’ “Mas agora se manifestou, sem a lei a justiça de Deus…” (Romanos 3.21).

O apóstolo dos gentios demonstra a seus leitores que a graça de Deus é manifesta a todos os que creem, sem distinção alguma, e aponta através do advérbio de tempo ‘agora’ que a justiça de Deus é efetiva no tempo presente. O crente é justo ‘agora’, no tempo presente. É uma condição própria a quem creu em Cristo, e não uma dadiva que vai ser concedida somente no futuro (Romanos 3.26).

Por que a justiça de Deus se dá no ‘agora’, neste tempo presente, e é concedida a todos, sem distinção alguma? Primeiro porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus (Romanos 3.23). Observe que Paulo apresenta em primeiro lugar a graça de Deus (Romanos 3.21), para depois fazer referência à condição da humanidade sem Cristo (Romanos 3.23).

Com base nas informações transmitidas nos versos 21 a 27, do capítulo 3, da carta aos Romanos, o apóstolo Paulo chega à seguinte conclusão: todos os homens são justificados através do evangelho de Cristo.

“Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei. ” (Romanos 3.28).

A conclusão que o apóstolo Paulo apresenta no verso 2, do capítulo 3, faz com que ele apresente a pessoa de Abraão como exemplo de um gentio alcançado pela graça de Deus por meio da fé muito antes de ter sido dada a lei (Romanos 4.10). Após apresentar Abraão como prova cabal de que a graça de Deus também alcança os gentios, o apóstolo Paulo passa a demonstrar que a lei não foi a causa da bem-aventurança alcançada pelo pai Abraão, antes a promessa (Romanos 4.13).

Após demonstrar que tanto a circuncisão quanto a lei não são causas de justificação em Deus, o apóstolo Paulo apresenta uma nova conclusão, que retoma a argumentação apresentada no capítulo 3, verso 21: “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5.1). o apóstolo Paulo já havia anunciado que a justiça de Deus se manifestou sem a lei, conforme o testemunho da lei e dos profetas (Romanos 3.21, e conclui que a justificação pela fé estabelece a paz com Deus.

Após demonstrar que os cristãos alcançaram paz com Deus, visto que foram reconciliados com Deus por intermédio da morte do seu Filho (Romanos 5.10), o apóstolo Paulo passa a demonstrar como se deu a destituição da humanidade da glória de Deus (Romanos 5.12 -20); esclarece que é impossível aqueles que estão mortos para o pecado viverem no pecado (Romanos 6.2); que os cristãos estão libertos da lei (Romanos 7.6); apresenta a natureza da lei (Romanos 7.12), e a impossibilidade do homem carnal (Romanos 7.14).

O trecho da carta de Paulo aos Romanos entre o capítulo seis e sete demonstra como se dá à justificação pela fé, o que leva à seguinte conclusão: temos paz com Deus (Romanos 5.1), porque fomos justificados pela sua graça (Romanos 3.24), e, agora, nenhuma condenação há para os que andam segundo Deus (Romanos 8.1).

A salvação em Cristo é para o ‘agora’ (tempo presente) e não para o futuro. Hoje é o dia de salvação. Hoje é o dia sobremodo aceitável (2 Coríntios 6.2). O homem é salvo hoje (presente) da condenação que se deu no Éden (passado), e por isso está justificado hoje, agora.

O apóstolo Paulo enfatiza que NENHUMA condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Por que ele escreveu que não havia nenhuma condenação? O correto não seria: não há condenação para os que estão em Cristo Jesus? Se o apóstolo dos gentios diz que não há nenhuma condenação é porque era possível mais que uma condenação. Quantas condenações existem?

A Bíblia nos apresenta duas condenações:

a) a condenação em Adão, que se deu no Éden (passado), onde todos os homens passaram à condição de pecadores, alienados (mortos) de Deus (Romanos 5.18);

b) a condenação que se dará no Grande Tribunal do Trono Branco (futuro), com relação as obras (Apocalipse 20.12).

Quando o apóstolo Paulo disse que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo, ele fez alusão à condenação que destituiu o homem da glória de Deus, sem deixar de lado a condenação que se dará em decorrência das obras reprováveis da humanidade sem Cristo.

Todos que estão em Cristo, além de estarem livres da condenação à morte por causa da ofensa de Adão, também não comparecerão diante do Grande Tribunal do Trono Branco, antes comparecerão ante o Tribunal de Cristo para ser galardoado, onde não há condenação (Romanos 14.10; 2 Coríntios 5.10).

Levando-se em conta o que o apóstolo Paulo anunciou: “Portanto, agora nenhuma condenação há…” (Romanos 8.1), fica evidente que o novo homem em Cristo é bem-aventurado.

“Assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras, dizendo: ” (Romanos 4 e 8).

Aqueles que creem em Cristo tiveram as ‘maldades’ perdoadas, os pecados cobertos, ou seja, Deus não lhes imputa pecado. Ora, se é assim, como é possível ao cristão ainda ser um homem ‘desventurado’, ‘maldito’? Se não há nenhuma condenação para os que ‘estão em Cristo’ é pouco provável que o apóstolo Paulo tenha feito a declaração ‘maldito homem que sou’ acerca da sua nova condição em Cristo, e sim, com relação a sua antiga condição.

 

Nova criatura

Considerando que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, o que é estar ‘em Cristo’? Como estar ‘em Cristo’? Qual a realidade daqueles que estão ‘em Cristo’?

Ao escrever aos Cristãos em Corintos, o apóstolo Paulo fez a seguinte declaração:

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5.17).

  1. Nova criatura – por definição, quem está ‘em Cristo’ é nova criatura;
  2. Novo nascimento – só é possível estar em Cristo aqueles que foram gerados de novo através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus;
  3. Realidade – as coisas velhas já passaram e tudo se fez novo.

Quando lemos que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, subentende-se que não há condenação para a nova criatura que foi gerada de novo segundo a palavra da verdade, e que vive uma nova existência e uma nova realidade: tudo novo!

Compare:

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5.17);

“PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Romanos 8.1).

Com base nestes dois versículos, conclui-se que: ‘ser uma nova criatura’ é o mesmo que ‘estar em Cristo’, e vice-versa. Para quem ‘está em Cristo’ (nova criatura), não há nenhuma condenação. Para a nova criatura (alguém que está em Cristo) não há condenação nenhuma.

A parte ‘b’ dos dois versículos aborda o mesmo assunto. As ‘coisas velhas’ que passaram referem-se ao ‘andar segundo a carne’, do mesmo modo que ‘andar segundo o espírito’ refere-se a ‘tudo que se fez novo’.

 

Carne versus espírito

Para prosseguir a exposição, primeiro se faz necessário definir o que é ‘carne’ e o que é ‘espírito’ neste contexto, pois dependem desta definição uma boa leitura e compreensão segura do capítulo 8 de Romanos.

A primeira vez que o apóstolo Paulo faz uso do termo carne foi com relação a Jesus, para demonstrar que Ele é o descendente prometido por Deus a Davi (2 Samuel 7.14), o Verbo que se fez carne (João 1.14).

“Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne,” (Romanos 1.3).

O termo grego ‘σάρκα’ (sarx), traduzido por ‘carne’ foi utilizado para demonstrar que Jesus Cristo é da linhagem de Davi, através do vínculo de sangue decorrente de ter sido concebido pela virgem Maria.

O mesmo termo é utilizado no capítulo 2:

“Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne.” (Romanos 2.28).

Nesse verso, o apóstolo utiliza o termo para fazer referência a marca da circuncisão que os judeus carregam em função do sinal que Deus deu a Abraão (Gênesis 17.10-13).

“E o homem incircunciso, cuja carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela alma será extirpada do seu povo; quebrou a minha aliança.” (Gênesis 14.14).

Mais adiante, o apóstolo Paulo faz alusão a humanidade através do termo ‘carne’:

“Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado.” (Romanos 3.20).

Após citar os Salmos e os Profetas (Romanos 3.10-18), o apóstolo Paulo enfatiza que ‘nenhuma’ carne é justificada por intermédio das obras da lei, ou seja, através das obras da lei, nem judeu e nem gregos podem ser justificados.

O próximo uso do termo carne é feito com relação ao pai Abraão:

“QUE diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?” (Romanos 4.1) .

O termo é utilizado no sentido de descendentes, pois segundo a carne Abraão é pai dos judeus (João 8.37).

O apóstolo dos gentios evidencia que Abraão nada alcançou segundo a lei, pois se não fosse a promessa de que ele havia de ser herdeiro do mundo, quando recebeu o selo da justiça da fé ainda na incircuncisão, não seria o pai de todos os que creem (Romanos 4.10-13).

Se não fosse a palavra de Deus dada gratuitamente a Abraão, ele seria como os demais homens. Mas, através da palavra da fé, Abraão creu, sendo a sua crença na palavra de Deus causa de justificação.

“Então o levou fora, e disse: Olha agora para os céus, e conta as estrelas, se as podes contar. E disse-lhe: Assim será a tua descendência. E creu ele no SENHOR, e imputou-lhe isto por justiça.” (Gênesis 15.5-6).

A conotação do termo ‘carne’ é mais complexa no capítulo 6:

“Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne; pois que, assim como apresentastes os vossos membros para servirem à imundícia, e à maldade para maldade, assim apresentai agora os vossos membros para servirem à justiça para santificação.” (Romanos 6.19).

O apóstolo evoca o instituto da escravidão para demonstrar a condição do homem sob o pecado e sob a justiça, e em seguida, enfatiza a necessidade da argumentação: falo como homem, isto por causa da fragilidade da carne dos interlocutores.

“ανθρωπινον λεγω δια την ασθενειαν της σαρκος υμωνScrivener’s Textus Receptus (1894).

‘em termos humanos falo por causa de a fraqueza[3] da carne vossas’ Novo Testamento Interlinear Grego Português, SBB.

O pronome possessivo ὑμῶν está no genitivo, e vem na segunda pessoa do plural para demonstrar a fragilidade da carne dos interlocutores. O apóstolo estaria se referindo ao corpo constituído de matéria orgânica? Aos desejos e anseios humanos? As questões como ética, moral e caráter? Não! O apóstolo estava destacando quão frágil era o argumento humano que tem por base ser descendente da carne de Abraão.

O argumento evidenciado pelo apóstolo Paulo era comum os judeus apresentarem quando confrontados pelo evangelho:

“Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” (João 8.33), ou;

“Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão.” (João 8.39).

A fragilidade em comento diz daqueles que faziam da carne a sua salvação, ou seja, a sua força:

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jeremias 17.5).

Nesse sentido, o termo ‘carne’ serve para evidenciar a essência da doutrina judaica, e a má leitura das exposições paulinas, aliada ao pensamento filosófico grego, deu origem ao docetismo, corrente de pensamento herética que acreditava que o corpo de Jesus Cristo era uma ilusão e que sua crucificação teria sido apenas aparente, por entenderem que a matéria orgânica era essencialmente corrompida.

O docentismo deriva de certa corrente gnóstica que acredita quem o mundo material é mau e corrompido, e para tentar conciliar a Escritura com a filosofia grega, alegavam que Jesus era um espectro com aparência humana, mas que não possuía carne e nem sangue.

“Porque já muitos enganadores entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Este tal é o enganador e o anticristo.” (2 João 1.7).

O próximo uso do termo ‘carne’ encontra-se no capitulo 7:

“Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte.” (Romanos 7.5).

Neste verso, o apóstolo Paulo faz uso do termo ‘carne’ para nomear a doutrina judaica, demonstrando que, em um tempo passado, tanto ele quanto os seus interlocutores estiveram na carne. Mais adiante, o apóstolo Paulo enfatiza categoricamente que os cristãos não mais estavam na carne, e sim, no espírito:

“Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.” (Romanos 8.9).

A ênfase do apóstolo dos gentios tinha por alvo os cristãos convertidos dentre os judeus, diferente da abordagem aos cristãos das regiões da Galácia, que se converteram dentre os gentios:

“Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?” (Gálatas 3.2-3).

Enquanto os cristãos da Galácia haviam começado a servir a Deus segundo o evangelho (espírito), agora, por causa de um fascínio (Gálatas 3.1), estavam se achegando à doutrina judaizante (carne).

O cristão serve a Deus em novidade de espírito, e não através da velhice da letra (Romanos 7.6), de modo que, o ‘evangelho’ é contraponto a ‘lei’, assim como, respectivamente, ‘novidade de espírito’ é contraponto à ‘velhice da letra’, ou ‘pregação da fé’ é contraponto às ‘obras da lei’, ou ‘espírito’ é contraponto à ‘carne’.

Voltando o verso 1, do capítulo 8 da epístola aos Romanos, certo é que os que estão em Cristo são novas criaturas livres de condenação, pois não anda segundo os preceitos da lei, e sim, conforme a verdade do evangelho (espírito).

O termo grego πνεῦμα (pneuma), traduzido por espírito, nesse contexto refere-se ao evangelho de Cristo. Em razão dessa verdade, o apóstolo Paulo afirmou que era ministro de um Novo Testamento, ou seja, do espírito.

“O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.” (2 Coríntios 3.6).

O verso acima evidencia a oposição ‘espírito’ e ‘letra’, apresentando o espírito como o Novo Testamento, e a lei como letra, por ter sido gravada em pedras (2 Coríntios 3.7). A lei é apresentada como ministério da morte, o que contrapõe o evangelho, que é o ministério do espírito (2 Coríntios 3.7-8).

Daí a oposição ‘espírito’ e ‘letra’, pois o evangelho vivifica, enquanto a lei mata.

 

[1] “3563 νους nous provavelmente da raiz de 1097; TDNT – 4:951,636; n m 1) mente, incluindo igualmente as faculdades de perceber e entender bem como a habilidade de sentir, julgar, determinar 1a) faculdades mentais, entendimento 1b) razão no sentido mais estreito, como a capacidade para verdade espiritual, os poderes superiores da alma, a faculdade de perceber as coisas divinas, de reconhecer a bondade e de odiar o mal 1c) o poder de ponderar e julgar sobriamente, calmamente e imparcialmente 2) um modo particular de pensar e julgar, i.e, pensamentos, sentimentos, propósitos, desejos Sinônimos ver verbete 5917” Dicionário bíblico Strong.

[2] “3551 νομος nomos da palavra primária nemo (parcelar, especialmente comida ou pasto para animais); TDNT – 4:1022,646; n m 1) qualquer coisa estabelecida, qualquer coisa recebida pelo uso, costume, lei, comando 1a) de qualquer lei 1a1) uma lei ou regra que produz um estado aprovado por Deus 1a1a) pela observância do que é aprovado por Deus 1a2) um preceito ou injunção 1a3) a regra de ação prescrita pela razão 1b) da lei mosaica, e referindo-se, de acordo ao contexto, ao volume da lei ou ao seu conteúdo 1c) a religião cristã: a lei que exige fé, a instrução moral dada por Cristo, esp. o preceito a respeito do amor 1d) o nome da parte mais importante (o Pentateuco), é usado para a coleção completa dos livros sagrados do AT Sinônimos ver verbete 5918” Dicionário bíblico Strong.

[3] “769 ασθ εν εια astheneia de 772; TDNT – 1:490,83; n f 1) falta de força, fraqueza, debilidade 1a) do corpo 1a1) sua fraqueza natural e fragilidade 1a2) saúde debilidade ou enfermidade 1b) da alma 1b1) falta de força e capacidade requerida para 1b1a) entender algo 1b1b) fazer coisas grandes e gloriosas 1b1c) reprimir desejos corruptos 1b1d) suportar aflições e preocupações” Dicionário bíblico Strong.

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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