Romanos 7 – Mortos para a lei

No capítulo 7 da Epístola aos Romanos, Paulo utiliza a figura do matrimônio para destacar que os cristãos estão mortos para a lei. Já no capítulo 6, o apóstolo havia introduzido as figuras do batismo e da servidão para enfatizar que os cristãos morreram para o pecado ao participarem da morte de Cristo.


Mortos para a lei

Epístola aos Romanos – Capítulo 7:1–6

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus.”
(Romanos 7:4).

Recomendações

Devido à complexidade do tema abordado nesta exposição, recomendo aos leitores e estudantes que realizem um estudo sistemático e progressivo de alguns textos essenciais para a compreensão deste capítulo, os quais estão disponíveis neste portal.

Leia atentamente os comentários aos capítulos anteriores, especialmente aqueles que apresentam a metodologia de interpretação das cartas paulinas.

O leitor precisa compreender e distinguir o que implica o caminho largo e o caminho estreito. É necessário também reconhecer quais são as plantas que Deus plantou e quais não são. Da mesma forma, é importante entender a distinção entre vasos para honra e vasos para desonra, entre outras questões fundamentais.

Todos esses temas já foram abordados neste portal e permanecem disponíveis para consulta.

Desejo a todos uma boa leitura, e que o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo ilumine os olhos do nosso entendimento (Efésios 1:18).

Prefácio

Este é um dos capítulos mais complexos de toda a Bíblia no que diz respeito à sua interpretação. Ao longo dos séculos, o capítulo 7 da Epístola aos Romanos tem desafiado inúmeros teólogos e estudiosos quanto à sua compreensão.

Uma interpretação correta deste capítulo é essencial para a compreensão de toda a epístola. Para interpretá-lo adequadamente, será necessário considerar os elementos que foram destacados nas análises dos capítulos anteriores.

Antes de prosseguir na leitura deste capítulo, recomendo que seja feita uma leitura cuidadosa dos comentários referentes aos capítulos anteriores da carta aos Romanos.

Além da análise versículo por versículo, é importante observar também as introduções apresentadas em cada capítulo, pois nelas se encontram elementos fundamentais para a interpretação deste capítulo em particular.

Um ponto essencial a considerar é que Paulo escreveu uma carta, e ela originalmente não foi dividida em capítulos e versículos. Ao ler uma carta, o leitor não deve limitar-se a essas divisões posteriores, pois elas podem interferir na interpretação do texto.

Para um melhor aproveitamento do estudo da carta aos Romanos, recomendo, àqueles que tiverem essa possibilidade, imprimir o texto da epístola sem as divisões de capítulos e versículos. A leitura contínua do texto facilita a compreensão do fluxo do argumento paulino.

Quem analisa qualquer texto bíblico precisa adotar algumas premissas fundamentais para não perder o foco durante a interpretação. Muitas perguntas podem surgir ao longo da leitura, porém nem todas são pertinentes ao contexto do texto analisado.

Um exemplo clássico dessa perda de foco ocorre quando algumas pessoas se concentram excessivamente em questões secundárias, como a identidade da mulher de Caim, ao ler o Livro do Gênesis. Embora seja uma pergunta possível, ela não contribui diretamente para a compreensão do propósito do texto bíblico.

Diante de um texto bíblico, surgirão muitas perguntas. Contudo, é necessário levantar apenas aquelas que são pertinentes e que emergem diretamente do texto em análise. Antes de relacionar o texto com outras passagens das Escrituras, é essencial compreender claramente o texto base.

Por isso, algumas perguntas precisam sempre orientar o processo interpretativo:

  • A pergunta é pertinente ao texto?
  • Ela é necessária neste momento da análise?
  • Possui relação direta com a ideia central do texto?

Essas questões ajudam a evitar divagações desnecessárias, especialmente quando se analisa um texto complexo.

Voltando ao exemplo anterior: perguntar quem foi a mulher de Caim é plausível? Há alguma referência bíblica direta sobre ela? É possível responder a essa pergunta com base nas Escrituras, ou qualquer tentativa de resposta resultará apenas em especulação?

Se não há referência direta no texto bíblico, de que maneira poderíamos descobrir quem foi a mulher de Caim? E, mais importante ainda: que contribuição essa informação traria para a compreensão do texto?

Por essa razão, Paulo recomenda a Tito:

“Mas evita questões insensatas, genealogias, contendas e debates acerca da lei, porque são inúteis e vãos.” (Tito 3:9).

Muitos procuram demonstrar conhecimento bíblico levantando questões como:

  • Quem foi a mulher de Caim?
  • Quem eram os nefilins?
  • Qual seria o sexo dos anjos?

Embora essas perguntas despertem curiosidade, elas frequentemente desviam a atenção do propósito principal do texto bíblico.

Convite ao Raciocínio

“NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive? Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido” (Romanos 7:1 – 3).

Após demonstrar que os cristãos foram batizados em Cristo — isto é, tornaram-se participantes da sua morte — Paulo afirma que, estando mortos, não poderiam continuar vivendo no pecado (Romanos 6.6, 15). Com base nisso, o apóstolo convoca seus interlocutores ao raciocínio.

É importante lembrar: pecar é próprio daqueles que são servos do pecado (João 8:34).

Se os cristãos já haviam compreendido que, ao serem batizados em Cristo (Romanos 6;3), tiveram o corpo do pecado desfeito (Romanos 6:6), deixando de servir ao pecado, e que, por estarem debaixo da graça — e não da lei — não permaneciam no pecado, então essa questão estava resolvida. Contudo, permanecia outra questão a ser esclarecida: a relação entre lei e graça.

Se agora os cristãos estão debaixo da graça, e não mais debaixo da lei, isso significaria que poderiam pecar? De modo nenhum.

Antes de prosseguir, faz-se necessário revisitar alguns conceitos presentes no Capítuo 6:

O equívoco a ser corrigido

Esse esclarecimento – estar morto para o pecado – era necessário porque alguns interlocutores, especialmente aqueles influenciados por práticas judaicas, entendiam que não estar debaixo da lei resultaria em permissividade moral.

Um exemplo desse pensamento pode ser visto na seguinte afirmação:

“Se não vos circuncidardes conforme o costume de Moisés, não podeis salvar-vos.” (Atos 15:1).

Para muitos cristãos provenientes do judaísmo, a lei era vista como o elemento que restringia o pecado. Assim, entendiam o pecado como a transgressão de preceitos externos — “não toques, não proves, não manuseies” (Colossenses 2:21).

Entretanto, Paulo demonstra que o pecado não é meramente uma questão de comportamento externo, mas uma condição herdada da ofensa de Adão, que trouxe a morte sobre toda a humanidade.

A nova condição em Cristo

A questão do pecado já havia sido resolvida quando os cristãos se apresentaram como servos da justiça (Romanos 6:16). Ao obedecerem ao evangelho, foram libertos do pecado e se tornaram servos da justiça (Romanos 6:17–18).

Por isso, agora deveriam apresentar seus membros como instrumentos de justiça (Romanos 6:13).

Com o novo nascimento, o crente passa a pertencer à justiça e deve permanecer no evangelho, oferecendo seus membros como instrumentos dessa nova realidade. Um exemplo disso é viver de modo digno do Senhor, sem acepção de pessoas e frutificando em boas obras (Colossenses 1:10; 1 Tessalonicenses 2:12).

A figura da servidão

Para compreender melhor a linguagem de Paulo sobre servidão e apresentação dos membros, é útil considerar a concepção clássica de escravidão. Na obra Política, Aristóteles descreve o escravo como uma “propriedade animada”, pertencente ao senhor e funcionando como instrumento de sua vontade.

Nesse sentido, o escravo é visto como uma extensão do seu senhor.

Ao exortar os cristãos a apresentarem seus membros como instrumentos de justiça, Paulo enfatiza que suas ações devem refletir o senhor a quem pertencem. Por isso, é necessário que sejam cheios do conhecimento da vontade de Deus, com toda sabedoria e entendimento espiritual (Colossenses 1:9).

Conhecimento e insensatez

A plenitude do conhecimento de Deus se dá por meio do evangelho, em contraste com o conhecimento segundo a carne, que conduz à insensatez.

O apóstolo Pedro destaca a ignorância dos homens insensatos:

“Porque assim é a vontade de Deus: que, fazendo o bem, silencieis a ignorância dos homens insensatos.” (1 Pedro 2:15);

“Para que, no tempo que vos resta na carne, não vivais mais segundo as concupiscências dos homens, mas segundo a vontade de Deus.” (1 Pedro 4:2).

O termo “insensato” (louco, néscio) é frequentemente utilizado nas Escrituras para descrever os judeus, que ao longo da história, rejeitaram a Deus. Jesus emprega esse termo ao confrontar líderes religiosos (Mateus 23:17), e os profetas também o utilizam (Jeremias 4:22; Lucas 24:25).

“Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” (Deuteronômio 32:6).

Paulo igualmente faz uso dessa linguagem ao contrastar os sábios — aqueles que estão em Cristo — com os insensatos, que vivem nas obras infrutuosas das trevas (Efésios 5.15–17):

“Por isso, não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor.” (Efésios 5:17).

Esse contraste também se evidencia na situação dos gálatas, que, tendo começado pelo espírito, estavam retornando às práticas da lei (Gálatas 3:1).

O domínio da Lei

Se os cristãos em Roma desconheciam que todos os que foram batizados em Cristo (Romanos 6:3) tiveram, de uma vez por todas, o corpo do pecado desfeito (Romanos 6:6), e que, por isso, não mais serviam ao pecado, esse ponto já havia sido devidamente esclarecido no capítulo 6. Contudo, caso alguns permanecessem na ignorância, Paulo retoma os mesmos argumentos, agora por meio de uman nova figura.

Esse modo de exposição já havia sido utilizado anteriormente na própria carta. Basta observar os elementos apresentados por Paulo após tratar da justificação pela fé (Romanos 3:21–26), para compreender o método e a razão pela qual ele introduz os argumentos do capítulo 7.

Ao expor a doutrina da justificação no capítulo 3, ainda que de forma concisa, Paulo recorre, em seguida, à figura de Abraão — o homem que foi justificado por Deus mediante a fé na promessa (Romanos 4:1–5). Posteriormente, reforça sua argumentação com as palavras do salmista Davi (Rm 4:6–8).

Na sequência, ao retomar a justificação pela fé em Cristo (Rm 5:1), Paulo introduz, então, a primeira grande figura explicativa da carta: a escravidão. Por meio dela, esclarece qualquer possível ignorância acerca da relação do crente com o pecado:

“Ou, porventura, ignorais que (…) e não sirvamos o pecado como escravos” (Rm 6:3 e 6).

O crente, como instrumento da justiça, não pratica o pecado, pois não está sujeito nem ao pecado nem à lei.

Na lógica da servidão vigente à época, o servo era considerado uma extensão de seu senhor. Por isso, não é possível servir a dois senhores, pois cada servo executa a vontade daquele a quem pertence (Lucas 16:13; João 8:34).

Assim, aquele que pertence a Cristo manifesta, por meio de suas ações, a justiça daquele a quem agora serve.

Diante da possível ignorância dos seus leitores — “Porventura ignorais, irmãos…” (Romanos 7:1) — Paulo introduz uma nova figura: a mulher ligada ao marido pelo vínculo do matrimônio (Romanos 7:1–3).

1 NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive?

Paulo frequentemente introduz figuras, analogias ou desenvolvimentos argumentativos por meio de uma expressão interrogativa, como: “não sabeis?”. Esse recurso é uma espécie de padrão pedagógico paulino (γνωρίζω / οἶδα) que estrutura o argumento e tem a função de provocar o raciocínio do interlocutor a partir de um conhecmento que possuíam.

Observe alguns exemplos:

  1. “Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis” (1 Coríntios 9:24);
  2. “Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?” (1 Coríntios 5:6), e;
  3. “Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura diz de Elias, como fala a Deus contra Israel, dizendo:” (Romanos 11:2);

Esse recurso evidencia que Paulo tinha clara consciência do horizonte de conhecimento de sua audiência, a partir do qual estrutura e desenvolve sua argumentação.

A quem Paulo está se dirigindo?

A quem Paulo estava escrevendo? Sabemos que a epístola é dirigida aos cristãos em Roma. Contudo, ao observar a estrutura da carta, percebe-se que há distinções importantes quanto ao público-alvo ao longo da exposição.

No capítulo 1, versos 1 a 17 — que compreendem a apresentação, saudação, ações de graças e exaltação do evangelho — o texto tem como destinatário a totalidade dos cristãos. Entretanto, a partir do verso 18 do capítulo 1 até o capítulo 11, verso 13, a argumentação assume um diálogo mais direto com os cristãos provenientes do judaísmo.

Embora exista essa distinção quanto ao foco da exposição, o conteúdo da mensagem serve de instrução a todos os cristãos, desde que se percebam as nuances do texto e sua correta aplicabilidade a cada público.

Observe que o apóstolo dos gentios se dirige aos cristãos que conheciam a lei.

“… falo aos que conhecem a lei…” (Romanos 7:1).

Quem eram esses irmãos? Cristãos judeus ou gentios?

É evidente que Paulo se refere aos cristãos provenientes do judaísmo — aqueles que, antes de estarem no evangelho, tinham a lei como forma de conhecimento e verdade, e nela confiavam (Romanos 2:17, 20).

Mas, pela forma que estavam agindo, parecia que desconhecia algobasilar da lei:

“… que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive?” (Romanos 7:1).

Ou seja, embora conhecessem a lei, demonstravam não compreender plenamente um princípio fundamental: a lei só exerce domínio enquanto o homem vive.

Por ser uma carta intitulada Epístola de Paulo aos Romanos, muitos concluem que o apóstolo escreveu exclusivamente aos cristãos provenientes dos gentios. No entanto, uma leitura atenta revela que Paulo dialoga com dois grupos distintos:

  • cristãos provenientes do judaísmo;
  • cristãos provenientes dos gentios.

Entretanto, ao afirmar que fala aos que conhecem a lei, Paulo evidencia que esses interlocutores, embora familiarizados com a lei, demonstravam desconhecer um princípio essencial: o de que a lei estabelece vínculo enquanto há vida — como no caso da mulher ligada à lei do marido.

Esse argumento dialoga diretamente com cristãos de origem judaica que agora pertenciam à igreja em Roma, pois eram eles que possuíam formação e familiaridade com os preceitos da lei.

Ao longo da epístola, Paulo apresenta diversas evidências de que, em determinados momentos, está tratando especificamente com cristãos provenientes da circuncisão, ainda que sua exposição, como um todo, seja proveitosa a todos os que estão em Cristo.

  • “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso Pai segundo a carne?” (Romanos 4:1) – Aqui Paulo se inclui entre aqueles para quem Abraão é pai segundo a carne — ou seja, os judeus;
  • “… mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é Pai de todos nós” (Romanos 4:16) – Paulo amplia o argumento, e se inclui na exposição, mostrando que Abraão é pai de todos os que creem, tanto judeus quanto gentios.;
  • “… porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” (Romanos 6:14 ) – A expressão “debaixo da lei” diz respeito, primariamente, aos judeus, que viveram sob esse regime;
  • “Convosco falo, gentios” (Romanos 11:13 ) – Aqui Paulo explicita a mudança de foco, dirigindo-se diretamente aos gentios;
  • “Mas tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus” (Romanos 2:17) – Nesse verso, Paulo trata diretamente com os judeus, embora a mensagem do evangelho seja destinada a todos, sem distinção (Romanos 2:3).

Quando se compreende quem eram os cristãos a quem Paulo dirige a pergunta “Não sabeis…?”, a sua argumentação em Romanos 7 revela-se plenamente coerente.

Ele questiona aqueles que conhecem a lei, mas que aparentavam ignorar sua limitação: seu domínio se restringe à vida do homem.

Ora, se os cristãos morreram com Cristo — isto é, foram batizados na sua morte — como poderiam ainda estar sob o domínio da lei ou do pecado?

“Como viveremos ainda no pecado, nós que para ele morremos?” (Romanos 6:2).

Para aqueles que ainda não haviam compreendido plenamente que a lei não mais tinha domínio sobre eles — visto que morreram com Cristo — Paulo introduz a figura da mulher ligada ao marido.

A Figura da Mulher ligada ao Marido

2 Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido.

A impossibilidade de alguém que morreu para o pecado, por meio de Cristo, permanecer sujeito à lei é ilustrada por Paulo na figura da mulher vinculada à lei do marido — isto é, à lei estabelecida no matrimônio.

Enquanto o marido vive, a mulher permanece vinculada a ele pela lei. Contudo, uma vez morto o marido, qual é o papel dessa lei? Deveria a viúva continuar submissa à lei do marido mesmo após a sua morte?

Evidentemente, não.

É certo que a lei continua a existir; entretanto, a viúva não está mais sob o seu domínio. Embora essa mesma lei continue a reger outras mulheres casadas, ela já não se aplica àquela cujo marido morreu.

Quem não foi batizado em Cristo — isto é, quem não participou da sua morte — permanece vivo para o pecado e sob o domínio da lei; consequentemente, mesmo sem causa aparente, subsiste na condição de transgressor, como diz o salmista:

“Na verdade, não serão confundidos os que esperam em ti; confundidos serão os que transgridem sem causa” (Salmos 25:3).

Aqueles que esperam no Senhor — isto é, que confiam na salvação providenciada por Deus — não serão confundidos. Por outro lado, os que não confiam em Deus permanecem em sua condição de transgressores.

Isso evidencia que a transgressão não é apenas uma questão de comportamento externo, mas uma condição inerente ao homem em sua origem adâmica.

Todos os que nascem em Adão são, por natureza, transgressores, independentemente de sua conduta moral aparente. Mesmo quando não violam normas sociais ou religiosas, permanecem em condição de separação diante de Deus.

Em contraste, aquele que crê em Cristo morre para o pecado e ressurge como nova criatura. Sua salvação não decorre da observância de regras morais ou sociais, mas de uma nova realidade: ter sido gerado de novo como filho de Deus.

Por isso, não será confundido, pois sua esperança está na obra realizada por Deus, e não em si mesmo.

A morte quebra o vínculo

3 De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido.

Paulo convida seus interlocutores a refletirem e a chegarem a uma conclusão. Enquanto o marido vive, a mulher será considerada adúltera se se unir a outro homem; contudo, uma vez morto o marido, ela está livre da lei que a vinculava a ele e já não será considerada adúltera se se unir a outro.

As figuras utilizadas por Paulo — tanto a da escravidão quanto a da mulher ligada ao marido pela lei — são, em si mesmas, simples de compreender.

No âmbito jurídico da época, um escravo jamais seria considerado livre sem a anuência de seu senhor. Caso o senhor viesse a falecer, o escravo passaria a integrar os bens de seu antigo proprietário, mas não se tornaria livre por isso.

Somente a morte do escravo o libertaria de seu senhor, pois, após a morte, nem a lei nem o antigo senhor exerceriam qualquer domínio sobre ele. Do mesmo modo, o pecado é apresentado como um senhor tirano, que não concede liberdade aos seus servos. Assim, apenas a morte rompe esse vínculo; contudo, aquele que permanece sob o pecado e morre nessa condição segue para a eternidade sob condenação.

O cristão, porém, participa da morte de Cristo. Por isso, o pecado deixa de exercer domínio sobre ele.

O ponto central evidenciado por Paulo é que, após a morte do marido, a mulher está livre da lei que a vinculava a ele. Do mesmo modo, após a morte do escravo, cessa o vínculo com o seu senhor.

Assim, ao morrer para o pecado e para a lei, o cristão é liberto de ambos. A figura da escravidão demonstra que o cristão é livre do pecado (Romanos 6:6), enquanto a figura da mulher ligada ao marido evidencia que ele está livre da lei (Romanos 7:4).

A convergência das figuras: escravidão e matrimônio

A figura da mulher ligada à lei do marido (Romanos 7:2) e a figura da escravidão (Romanos 6:18), apresentada anteriormente, conduzem o leitor à conclusão exposta nos versos 4 e 5 de Romanos 7.

Paulo reafirma que os cristãos estão mortos (Romanos 7:4), que outrora estavam na carne (Romanos 7:5) e que morreram para aquilo que os retinha (Romanos 7:6). Esse argumento já havia sido amplamente desenvolvido nos capítulos anteriores:

“Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” (Romanos 6:2).

Desse modo, qualquer formulação doutrinária acerca do pecado, da justificação e da santificação deve necessariamente reconhecer este ponto central: os cristãos estão efetivamente mortos para o pecado.

A progressão argumentativa de Paulo

Paulo frequentemente apresenta os eventos de forma retrospectiva, partindo da condição atual do cristão para, em seguida, explicar como essa condição foi alcançada. Isso também ocorre ao descrever a experiência daqueles que morreram com Cristo:

  • “Nós, que estamos mortos…” (Romanos 6:2) – Refere-se à condição presente dos cristãos — sua nova realidade em Cristo. Para alcançar essa posição (morte para o pecado), foi necessário ressurgir com Cristo, tornando-se vivos para Deus.

  • “… todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?” (Romanos 6:3) – Antes da nova vida, houve participação na morte de Cristo. O batismo aqui mencionado refere-se à união com Cristo em sua morte, e não ao rito externo em si.

  • “… fomos sepultados com ele pelo batismo na morte…” (Romanos 6:4) – O sepultamento confirma a realidade dessa união: trata-se de uma participação efetiva na morte de Cristo.

  • “… fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte…” (Romanos 6:5) – A “semelhança” não indica mera representação simbólica, mas uma identificação real com a morte de Cristo.

  • “… o nosso velho homem foi com ele crucificado…” (Romanos 6:6) – A crucificação do velho homem precede a morte e o sepultamento, sendo o fundamento da libertação do domínio do pecado.

O método pedagógico paulino

É característico do apóstolo Paulo apresentar primeiro a condição atual do cristão, para depois explicar o processo pelo qual essa condição foi alcançada.

Isso pode ser observado também em outros textos:

“É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade,…” (Efésios 1:13).

Aqui Paulo afirma a realidade presente.

Em seguida, ele explica como essa realidade foi alcançada:

“Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados…” (Efésios 2:1).

Assim, o apóstolo estabelece um padrão:

  1. apresenta a nova condição em Cristo;
  2. explica como essa condição foi alcançada;
  3. relembra a condição anterior sem Cristo.

A figura da árvore e seus frutos

Paulo faz alusão a um princípio doutrinário do evangelho nos versos 3 a 5 do capítulo 7. Contudo, para compreendê-los adequadamente, é necessário relembrar o ensino de Jesus por meio da figura da árvore e seus frutos:

“Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” (Mateus 7:17).

Por meio dessa figura, Jesus demonstra que é impossível uma árvore boa produzir frutos maus, assim como é impossível uma árvore má produzir frutos bons. Trata-se de um princípio observável na natureza, mas que possui profunda aplicação no âmbito espiritual.

Jesus aplica essa figura à realidade dos falsos profetas — aqueles que têm aparência de ovelhas, mas não são. Ele evidencia que é impossível que um falso profeta produza frutos bons, isto é, que anuncie a verdade.

Por isso, nem todo aquele que diz “Senhor, Senhor” entrará no reino dos céus, pois seus frutos revelam sua natureza: não confessam a Cristo segundo a verdade do evangelho.

Mas qual é o fruto bom?

O fruto bom é o fruto dos lábios que confessam a Cristo:

“Ofereçamos sempre, por ele, a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome.” (Hebreus 13:15).

Aquele que confessa a Cristo conforme as Escrituras o faz porque nasceu da semente incorruptível. Trata-se de plantação do Senhor, árvore de justiça:

“… para que se chamem árvores de justiça, plantação do Senhor…” (Isaías 61:3).

Os nascidos em Adão são árvores más — plantas que o Pai não plantou — e, por isso, todos os seus frutos são maus.

Por outro lado, aqueles que creem na palavra da verdade são plantação do Senhor e, como árvores de justiça, produzem bons frutos, isto é, confessam a Cristo. Esse é o fruto que o próprio Deus cria:

“Eu crio o fruto dos lábios: paz, paz, para o que está longe e para o que está perto…” (Isaías 57:19).

É necessário relacionar Romanos 6.19 e 6.22 com Romanos 7.4, lembrando que, antes de serem libertos do pecado, os cristãos eram escravos do pecado e, portanto, só podiam produzir para o seu senhor.

Um servo não pode servir a dois senhores. Essa mesma impossibilidade se expressa na figura da árvore:

  • assim como o servo do pecado não pode servir à justiça,
  • também a árvore má não pode produzir frutos bons.

Diante disso, surgem perguntas inevitáveis:

  • Como pode um servo da justiça servir ao pecado, se é impossível servir a dois senhores? (Romanos 6:20);
  • Como pode alguém que morreu para o pecado viver ainda nele? (Romanos 6:2);
  • Como pode uma árvore gerada de semente incorruptível produzir frutos maus? (1 Pedro 1:23);
  • Como pode alguém que se refugiou em Cristo ainda ser achado pecador? (Gálatas 2:17);

O capítulo 7 da Epístola aos Romanos apresenta a resposta a essas questões.

Por meio da figura do matrimônio, Paulo demonstra que a morte rompe o vínculo anterior, tornando impossível a permanência na antiga condição.

Assim, aquele que morreu com Cristo não pode mais viver sob o domínio do pecado nem sob o vínculo da lei.

 

O Fruto para a vida e o fruto para a morte

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus. Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte. Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” (Romanos 7:4- 6).

Mortos para a lei e unidos a Cristo

4 Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus.

O comparativo estabelecido por Paulo é claro: assim como a mulher estava vinculada ao marido pela lei, também os cristãos estavam sob um vínculo anterior. Por isso ele afirma: “Assim, meus irmãos, também vós…” (v. 4).

Observe a correspondência com Efésios::

“É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade…” (Efésios 1:13);

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo…” (Romanos 7:4).

As expressões “estar em Cristo” e “estar morto para a lei” apontam para a mesma realidade: uma nova condição diante de Deus. Dizer que o cristão está ‘em Cristo’ é dizer que ele é uma nova criatura. Dizer que o cristão está ‘morto para a lei’ é o mesmo que dizer: as coisas velhas já passaram.

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.” (2 Coríntios 5:17).

Por que os cristãos estão mortos para a lei pelo corpo de Cristo? Porque, à luz do evangelho, conclui-se que, se um morreu por todos, logo todos morreram (2 Coríntios 5:14).

Ora, foi por meio da oferta do corpo de Cristo que os cristãos deixaram a condição de velha criatura e passaram à condição de nova criatura (Hebreus 10:10).

Essa oferta diz respeito ao corpo de Cristo — o corpo que o Verbo assumiu na encarnação. Foi por meio do corpo humano preparado por Deus para o seu Filho (Hebreus 10:5) que os cristãos passaram à condição de mortos para a lei.

Quando Paulo faz referência ao corpo de Cristo, ele aponta para a sua morte — isto é, para o corpo que foi oferecido a Deus como sacrifício perfeito. Assim, por causa do corpo de Cristo, entregue pelos pecadores, os cristãos estão mortos para a lei.

Paulo estabelece um paralelo entre a figura da mulher que estava ligada ao marido pela lei e que, após a morte dele, deixa de estar sujeita a essa mesma lei. Com isso, demonstra que a lei só teve alcance sobre os cristãos enquanto viveram na carne.

Observe que o “viver na carne”, nesse contexto, não se refere à existência humana terrena, mas a um regime ou esfera vinculada a um sistema que se opõe ao espírito (1 Pedro 4:2).

Nesse sentido, é relevante notar que Paulo, ao dirigir-se aos cristãos provenientes da circuncisão em Roma, emprega o termo “carne” em um campo semântico compatível com o utilizado por Pedro, o apóstolo da circuncisão, especialmente no que se refere à oposição entre regimes ou esferas de existência: carne vs. espírito.

Uma vez que todos os que creram em Cristo foram crucificados, mortos e sepultados com Ele, que relação ainda subsiste entre a lei e o cristão?

Nenhuma.

Da morte com Cristo emerge uma nova condição: liberdade em relação à lei e ao pecado.

A analogia do matrimônio esclarece:

  • a lei vincula enquanto há vida;
  • a morte rompe o vínculo jurídico.

Do mesmo modo, a lei teve alcance sobre os cristãos enquanto estavam na carne. Contudo, ao morrerem com Cristo, esse vínculo foi desfeito.

Surge então a pergunta: Que relação resta entre a lei e aquele que morreu com Cristo? Resposta: nenhuma.

Uma nova pertença

Antes de Cristo, os homens pertenciam:

  • ao pecado
  • ao mundo
  • às trevas
  • à condenação
  • e estavam debaixo da lei

Agora, porém, pertencem:

“… àquele que ressuscitou dentre os mortos…” (Romanos 7:4)

Ou seja, pertencem a Cristo ressuscitado.

“Assim que, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne…” (2 Coríntios 5:16).

Paulo apresenta o propósito dessa nova condição:

“… a fim de que demos fruto para Deus.”

Mas como isso é possível?

Assim como é próprio à árvore produzir fruto segundo sua natureza, também é próprio daqueles que nasceram de novo produzirem fruto para Deus.

Não se trata de esforço humano, mas de natureza.

“… árvores de justiça, plantação do Senhor…” (Isaías 61:3).

Como é próprio das árvores produzirem frutos segundo a sua espécie, assim também é próprio à natureza daqueles que morreram para a lei produzirem fruto para Deus. Não se trata de esforço humano, mas de uma consequência da nova natureza.

Os cristãos são descritos como árvores de justiça, plantação do Senhor; portanto, é próprio dessa nova natureza produzir fruto para Deus.

Recapitulando o argumeto:

  1. Os cristãos estão mortos para o pecado e, por isso, não podem viver nele. Paulo não apresenta uma recomendação — “não vivam no pecado” —, mas demonstra uma impossibilidade: Como viveremos ainda no pecado, nós que para ele morremos? (Romanos 6:2). Ou o homem vive para a justiça, ou vive para o pecado; é impossível viver para ambos;
  2. Os cristãos andam em novidade de vida porque ressurgiram com Cristo. “… para que, como Cristo ressuscitou dos mortos… assim andemos nós também em novidade de vida.” (Romanos 6:4; cf. Gálatas 5:25);
  3. Os cristãos foram plantados juntamente com Cristo na semelhança da sua morte e também o são na sua ressurreição (Romanos 6:5, 9; “…qual ele é, somos nós também aqui neste mundo” 1 João 4:17);
  4. O pecado não tem mais domínio sobre os cristãos, pois não estão debaixo da lei (Romanos 6:14 e 21).

É próprio à natureza daqueles que foram gerados de novo produzir frutos de justiça. Esse fruto não se origina do esforço humano, mas de Deus:

Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” (Isaías 57:19 ).

Os frutos que os cristãos produzem para Deus procedem do próprio Deus, e não das ações humanas.

Quem nasceu da semente incorruptível — a palavra de Deus (1 Pedro 1:23) — é plantação do Senhor (cf. Mateus 15:13). E toda planta produz segundo a sua espécie; logo, aqueles que são de Deus produzem frutos compatíveis com essa nova natureza.

Jesus afirma:

“Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” (Mateus 12:34).

Um coração corrompido produz palavras corruptas; contudo, um coração novo, criado por Deus (Salmos 51:10), produz fruto bom.

Somente Deus pode conceder um novo coração e um novo espírito. Assim, tudo o que procede desse novo coração tem origem em Deus. Por isso, o próprio Deus declara ser o autor do fruto.

Quem vive segundo a verdade do evangelho evidencia que está em Cristo. Suas obras são manifestas como sendo feitas em Deus:

“… para que se manifeste que as suas obras são feitas em Deus.” (João 3:21).

Por outro lado, aqueles que permanecem nas trevas rejeitam a luz, porque amam mais as trevas do que a luz, a fim de preservar suas próprias obras (João 3.19–21). Dar fruto para Deus não é resultado de esforço humano, mas expressão da nova natureza recebida em Cristo. Assim como a árvore não se esforça para produzir fruto, mas o faz por sua própria natureza, também aquele que nasceu de Deus produz frutos de justiça porque pertence a Ele.

A Carne e o seu Fruto

5 Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte.

Paulo, neste versículo, faz referência à antiga condição dos cristãos, quando estavam vivos para o pecado e mortos para Deus. Entretanto, ao recordar a condição de estar “na carne”, o próprio apóstolo — judeu, descendente de judeus — inclui-se nessa realidade, o que indica que essa condição se relaciona diretamente com os cristãos que viveram sob o regime da lei (2 Coríntios 11:22; Filipenses 3:5).

Ao longo do capítulo 6 até este ponto, Paulo faz referência ao pecado no singular, indicando a condição herdada de Adão, que estabeleceu o pecado como senhor. Contudo, neste versículo, ele menciona “as paixões dos pecados”, agora no plural, fazendo alusão às manifestações decorrentes da lei.

Essas “paixões dos pecados” dizem respeito aos comportamentos que a lei evidencia como transgressões — aquilo que, em vez de eliminar o pecado, faz com que a ofensa abunde (Romanos 5:20). Trata-se, portanto, de algo distinto do pecado que entrou no mundo por meio de Adão, o qual afetou a natureza humana e trouxe a morte sobre todos.

As paixões dos pecados estão relacionadas ao fato de que a lei não foi instituída para o justo, mas para os injustos, ímpios e pecadores (1 Timóteo 1:9–10). Um exemplo claro é a concupiscência: ao dizer “não cobiçarás”, a lei não elimina o desejo, mas o evidencia e, em certa medida, dá ocasião à transgressão.

Essas paixões dizem respeito àqueles que estavam debaixo da lei e, portanto, àqueles que estavam “na carne”. Essa condição revela uma dupla realidade: estavam sob o domínio do pecado e, ao mesmo tempo, sob a esfera da lei. Assim, todas as suas ações, ainda que realizadas no contexto da lei, resultavam em apresentar os membros à imundícia e à maldade, produzindo fruto para a morte (cf. Romanos 6:19).

Desse modo, quando os seguidores do judaísmo buscavam cumprir os preceitos da lei, na verdade se apresentavam como servos daquilo que não podia libertá-los. Seus membros tornavam-se instrumentos de injustiça, e o fruto dessa condição era a morte, pois, sendo descendentes de Adão, ainda possuíam o corpo do pecado ativo e sujeito ao domínio do pecado.

“Estar na carne” (ἐν τῇ σαρκί) é distinto de “viver na carne” (ζῆν ἐν σαρκί). O “viver na carne” refere-se à existência humana terrena (cf. Filipenses 1:22), enquanto “estar na carne” aponta, no contexto paulino, para uma condição ou regime ao qual o homem se encontra vinculado (cf. Romanos 7:5).

Nesse sentido, é próprio à carne produzir frutos para a morte, assim como é próprio do Espírito produzir frutos para a vida eterna (Romanos 6:16).

Os cristãos — tanto os convertidos dentre os judeus quanto dentre os gentios — estão livres do pecado, e seus frutos são para Deus, tendo por fim a vida eterna (Romanos 6:22). Antes, porém, eram servos do pecado: seus frutos eram para a morte, e esse era o seu destino.

De modo semelhante, os cristãos provenientes do judaísmo, além de libertos do pecado — por terem morrido com Cristo —, são agora instrumentos de justiça. Contudo, antes de crerem em Cristo, estavam sob a lei; por isso, seus membros produziam frutos para a morte.

Outra distinção importante refere-se ao corpo do pecado, que tem origem em Adão — denominado “homem velho” —, e às paixões dos pecados, que são evidenciadas pela lei.

Aquele que morre com Cristo tem o corpo do pecado desfeito, de modo que o domínio do pecado é abolido:

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.” (Romanos 6:6).

Além disso, por pertencerem a Cristo, os cristãos também crucificaram a carne com suas paixões e concupiscências:

“E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gálatas 5:24).

Essa realidade é comum a todos os cristãos, tanto judeus quanto gentios.

Todos, sem distinção, participaram da morte de Cristo; portanto, todos foram libertos do domínio do pecado. Consequentemente:

  • os judeus são chamados a abandonar a confiança no sistema da lei;
  • os gentios não devem submeter-se aos preceitos judaicos.

Isso porque há o risco de que elementos desse sistema comprometam a compreensão do evangelho, como advertido pelo próprio apóstolo:

“Um pouco de fermento leveda toda a massa.” (cf. Gálatas 5.9)

A morte com Cristo opera uma dupla realidade:

  • fim do domínio do pecado (natureza adâmica);
  • fim do vínculo com o sistema que evidencia e intensifica as paixões dos pecados (lei)

Assim, tanto o corpo do pecado quanto as paixões a ele associadas pela lei deixam de exercer domínio sobre aquele que está em Cristo.

As paixões dos pecados e suas concupiscências são evidenciadas por meio da lei. Nesse sentido, sujeitar-se à carne equivale a apresentar os membros como instrumentos de injustiça. Por isso se afirma que as paixões dos pecados operam nos membros — considerando que o servo é uma extensão do seu senhor — produzindo fruto para a morte.

Chega-se, assim, à seguinte conclusão: não são as paixões dos pecados, em si mesmas, que produzem fruto para a morte, pois isso implicaria afirmar que o comportamento humano é a causa última desse fruto. A morte (separação de Deus) decorre da ofensa de um só; contudo, o fruto para a morte está relacionado à sujeição à carne.

Desse modo, até mesmo práticas aparentemente simples — como lavar as mãos segundo preceitos religiosos — podem se tornar expressão dessa dinâmica, quando vinculadas a um sistema que não transforma a natureza. Conforme ensina Jesus, nada que vem de fora do homem pode contaminá-lo (Marcos 7.15). Assim, tais práticas, quando absolutizadas, não produzem vida, mas permanecem no âmbito da carne, cujo fruto é para a morte.

Considerando que a carne não se sujeita à lei de Deus (Romanos 8:7), conclui-se que a lei foi introduzida por causa das transgressões (Gálatas 3:19), tornando evidentes as paixões dos pecados. Ao estabelecer o contraste entre lei e graça, Paulo demonstra que o homem se constitui servo daquele a quem obedece (Romanos 6:16), ressaltando, assim, que os cristãos, já libertos, não devem retornar ao regime da lei.

Novidade de espírito e velhice da letra

6 Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.

Paulo apresenta aqui uma conclusão à sua exposição: agora, tendo sido libertos da lei — isto é, tendo morrido para aquilo em que estavam retidos —, os cristãos passam a servir a Deus em novidade de espírito.

Por que em novidade de espírito? Porque, ao crer em Cristo, o homem recebe um novo coração e um novo espírito, criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade (Salmos 51:10; Efésios 4:24).

Paulo demonstra que os judeus, embora tivessem zelo por Deus, não o serviam de fato, pois lhes faltava entendimento (Romanos 10:2). Isso ocorre porque só é possível servir a Deus em espírito e em verdade — ou seja, quando o homem é gerado do Espírito, o que corresponde à circuncisão do coração.

“Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.” (João 4:24).

A condição “em espírito” só é possível quando o homem nasce de Deus. Por isso Jesus declarou a Nicodemos:

“O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.” (João 3.6)

Somente após ser gerado de novo, mediante a fé em Cristo, torna-se possível servir a Deus.

Os judeus pensavam servir a Deus; contudo, a qualquer homem nascido de Adão — isto é, nascido da carne, do sangue e da vontade do varão — é impossível fazê-lo. Deus se relaciona com aqueles que o adoram em espírito e em verdade (cf. João 4:24; Gálatas 4:9).

Paulo está tratando diretamente com os cristãos provenientes do judaísmo, o que se evidencia pelo contraste que estabelece: novidade de espírito versus velhice da letra.

A “velhice da letra” refere-se à lei de Moisés, que não podia produzir o novo nascimento. Esse ponto diz respeito, primariamente, à experiência dos judeus, e não dos gentios.

Mas como é possível ao homem judeu morrer para aquilo em que estava retido (Gálatas 3:23), isto é, para a lei?

Por meio da circuncisão do coração.

Já no Antigo Testamento, Deus havia prometido essa obra:

“E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” (Deuteronômio 30:6).

Essa circuncisão não é física, mas espiritual: trata-se da ação de Deus que põe fim à antiga condição adâmica e concede um novo coração.

Antes dessa obra, os judeus eram incapaz de compreender plenamente a palavra de Deus:

“Porém não vos tem dado o SENHOR um coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje” (Deuteronômio 29:4).

Somente após receber um novo coração e um novo espírito — isto é, após o novo nascimento — o homem passa a compreender e servir a Deus corretamente.

Essa promessa é reafirmada:

“E vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo…” (Ezequiel 36:26–27)

A lei de Moisés — a “velhice da letra” — não podia gerar essa nova condição. Somente o evangelho de Cristo, operado pelo Espírito, torna possível o novo nascimento:

“Quem não nascer da água e do Espírito…” (João 3:5)

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus…” (João 1:12)

Assim, é por meio do evangelho que o homem é criado em verdadeira justiça e santidade (Efésios 4:24).

Após afirmar que os cristãos estão livres da lei (Romanos 7:6), assim como estão livres do pecado (Romanos 6:6), poderia surgir uma objeção: estaria Paulo equiparando a lei ao pecado?

Essa questão será respondida a seguir:

“Que diremos, pois? É a lei pecado?” (Romanos 7:7).

Verbos, flexões e Interpretação

Como interpretar este versículo:

“Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” ( Marcos 16:16 ).

Surge, a partir desse versículo, uma questão importante: aquele que crê em Cristo já está salvo ou ainda será salvo no futuro?

Alguns argumentam que a salvação ainda não é uma realidade presente, apoiando-se na expressão “quem crer será salvo”. Como o verbo “será salvo” está no futuro, concluem que a salvação só ocorrerá posteriormente.

Esse argumento, porém, não se sustenta.

A afirmação “quem crer será salvo” está correta, mas não exclui — antes, permite — a afirmação “quem crê está salvo”. Ambas não se contradizem, mas se complementam.

No texto original, o verbo “crer” não está no infinitivo, mas no particípio (ὁ πιστεύσας), que pode ser compreendido como “aquele que crê” ou “aquele que tiver crido”. Trata-se, portanto, de uma construção que define um sujeito de forma geral e universal: qualquer pessoa que crê.

Assim, a frase estabelece uma relação entre condição e resultado:

  • aquele que crê → será salvo;
  • aquele que não crê → será condenado.

O uso do futuro (“será salvo”) não indica necessariamente um evento distante no tempo, mas expressa o resultado certo e inevitável decorrente da fé.

Do ponto de vista bíblico, a salvação possui uma dimensão presente e outra futura.

Paulo afirma:

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é…” (2 Coríntios 5:17)

E também:

“Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação.” (2 Coríntios 6:2)

Nesses textos, a salvação é apresentada como uma realidade atual. Quem está em Cristo já participa dessa nova condição.

Do mesmo modo, João declara:

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus…” (João 1:12)

Ou seja, quem crê já recebeu — no presente — a condição de filho de Deus.

O futuro em “será salvo” expressa a consequência plena dessa nova condição. Trata-se da consumação daquilo que já foi iniciado no momento da fé.

Portanto:

  • quem crê → já está salvo (condição presente)
  • quem crê → será salvo (consumação dessa realidade)

Esse mesmo princípio aparece na argumentação de Paulo. Em Romanos 6:5, por exemplo:

“Se formos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição.”

A construção é argumentativa. O uso do futuro (“seremos”) decorre da estrutura condicional introduzida pelo “se”, e não significa que a realidade ainda não esteja estabelecida.

De fato, o próprio apóstolo afirma:

“Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.” (Colossenses 3:3)

Ou seja, a realidade espiritual já está efetivada, ainda que expressa, em certos contextos, por meio de construções futuras.

A expressão “quem crer será salvo” não ensina que a salvação ocorre apenas no futuro, mas que a fé introduz o homem em uma condição cuja consequência é, de forma inevitável, a salvação.

Assim, não há contradição entre dizer:

  • “quem crê está salvo”
  • “quem crer será salvo”

Antes, trata-se de duas formas complementares de descrever a mesma verdade: a salvação como realidade presente e como consumação futura.

Conclusão:

A expressão “quem crer será salvo” não deve ser interpretada como indicação de que a salvação se dará apenas no futuro, mas como uma construção que estabelece a relação entre fé e resultado. A fé introduz o homem imediatamente em uma nova condição — a de salvo — enquanto o futuro aponta para a consumação dessa realidade. Assim, “quem crê está salvo” e “quem crer será salvo” não são afirmações contraditórias, mas complementares, descrevendo a mesma verdade sob perspectivas distintas: a condição presente e a sua consumação final.

Tagged: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

0 thoughts on “Romanos 7 – Mortos para a lei

Leave comment

Your email address will not be published. Required fields are marked with *.