II Coríntios

2 Coríntios 7 – Tristeza para arrependimento

Ao examinar 2 Coríntios 7, percebe-se que a tristeza provocada pela advertência apostólica não constituía a finalidade da carta de Paulo. O apóstolo se alegrou porque os coríntios reconsideraram seu entendimento e demonstraram cuidado, zelo e amor fraternal. O capítulo esclarece a diferença entre tristeza e arrependimento, apresenta o consolo recebido mediante a chegada de Tito e evidencia a restauração da confiança entre Paulo e a comunidade cristã.


 Tristeza para arrependimento – 2 Coríntios 7

“Porque a tristeza, segundo Deus, opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende, mas, a tristeza do mundo opera a morte.” (2 Coríntios 7:10).

Introdução

“Abatidos”, “oprimidos”, “quebrantados”, “perturbados”, “cansados”, “tristes”, “aflitos”, “necessitados” e “pobres” são termos frequentemente empregados nas Escrituras para descrever diferentes condições humanas. Conforme o contexto, podem fazer referência às aflições experimentadas pelos homens ou adquirir um sentido espiritual, identificando aqueles que, ao ouvirem a Palavra de Deus, reconhecem sua condição e a necessidade da misericórdia divina.

A necessidade de salvação decorre da condição de sujeição ao pecado que alcançou a humanidade em consequência da ofensa de Adão. Nenhum descendente do primeiro homem pode libertar-se dessa condição por seus próprios recursos; por isso, a salvação depende da misericórdia de Deus, revelada em Jesus Cristo.

O salmista declara:

“Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” (Salmos 34:18).

Na linguagem dos profetas e dos demais escritores bíblicos, expressões relacionadas à pobreza, à aflição e ao quebrantamento podem adquirir significados que ultrapassam suas aplicações habituais. Determinados termos são empregados em figuras, parábolas, provérbios e outras construções literárias para representar a disposição daqueles que reconhecem a Palavra de Deus e se sujeitam à sua vontade.

Entretanto, esses significados não devem ser impostos indistintamente a todas as ocorrências. É o contexto que permite identificar quando uma expressão descreve uma circunstância concreta e quando representa uma condição espiritual.

Essa distinção é particularmente importante para compreender o capítulo 7 da Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios, no qual aparecem referências à tribulação, ao abatimento, ao consolo, à tristeza e ao arrependimento. Embora essas palavras pertençam ao mesmo campo de experiências humanas, não possuem necessariamente a mesma finalidade em cada passagem.

Além do significado das palavras, é indispensável considerar as características próprias da comunicação epistolar. Diferentemente de uma exposição elaborada para leitores desconhecidos, uma carta geralmente pressupõe informações compartilhadas entre remetentes e destinatários. Acontecimentos anteriores, preocupações comuns e experiências vividas influenciam a linguagem empregada, mesmo quando não são explicados detalhadamente.

Essa peculiaridade está presente nas epístolas paulinas. O apóstolo frequentemente retoma acontecimentos conhecidos pelas comunidades às quais escreve, responde a questões anteriormente levantadas e utiliza expressões cujo significado depende das circunstâncias que motivaram sua correspondência.

Em sua comunicação com os coríntios, Paulo faz referência a conflitos, adversários, orientações anteriores e notícias recebidas por intermédio de seus colaboradores. Para os destinatários originais, muitas dessas circunstâncias eram conhecidas; para os leitores posteriores, precisam ser reconstruídas a partir das informações preservadas nas próprias Escrituras.

Por essa razão, a interpretação de uma epístola exige atenção ao desenvolvimento da argumentação, à relação entre seus capítulos e aos conhecimentos bíblicos pressupostos pelo autor. As referências à Lei, aos Profetas, à promessa divina e ao evangelho de Cristo são especialmente importantes para compreender a linguagem empregada por Paulo.

Essa necessidade de considerar as particularidades da correspondência apostólica também é examinada no estudo Como interpretar as epístolas do Novo Testamento.

No capítulo 7, Paulo apresenta o consolo recebido mediante a chegada de Tito e explica os resultados de uma carta anterior que havia entristecido os coríntios. O apóstolo esclarece que não se alegrou simplesmente porque seus destinatários ficaram tristes, mas porque aquela tristeza produziu arrependimento (2 Coríntios 7:8–10).

Surge, portanto, uma questão fundamental: qual é a diferença entre a tristeza segundo Deus, que produz arrependimento, e a tristeza do mundo, que produz morte?

Para responder, é necessário distinguir a aflição experimentada pelos coríntios da mudança de entendimento e de disposição que resultou da advertência apostólica, considerando também as consequências práticas mencionadas por Paulo.

A exposição do capítulo permitirá compreender que o arrependimento não se confunde com o mero sentimento de tristeza, embora a tristeza possa acompanhar o reconhecimento de um erro. O significado da expressão “tristeza segundo Deus” deve ser determinado pela mensagem que produziu aquela reação e pelos resultados descritos pelo próprio apóstolo. 

Purificação e santificação – 2 Coríntios 7:1

“Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus.” (2 Coríntios 7:1)

Após recordar as promessas de Deus registradas nas Escrituras, especialmente a promessa de sua relação paternal com o povo que lhe pertence (2 Samuel 7:14; 2 Coríntios 6:16–18), Paulo exorta os cristãos de Corinto a se purificarem de toda imundícia da carne e do espírito. O apóstolo inclui a si mesmo na recomendação ao empregar “purifiquemo-nos”, na primeira pessoa do plural.

Da declaração do apóstolo surgem as perguntas: Quais são as imundícies da “carne” e do “espírito”? É possível ao homem purificar a si mesmo?

Antes dessa exortação, Paulo adverte: “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis” (2 Coríntios 6:14). Que jugo está em vista? À luz das denúncias posteriores contra falsos apóstolos e contra a pregação de outro evangelho (2 Coríntios 11:3–4,13–22), há fundamento para examinar, entre os perigos enfrentados pelos coríntios, a influência dos mestres judaizantes. Essa identificação, porém, decorre da leitura da epístola em conjunto; a expressão “jugo desigual” não se restringe lexicalmente ao judaísmo.

Os cristãos, que haviam recebido a promessa em Cristo, não deveriam submeter-se a ensinamentos que substituíssem a suficiência do evangelho pela confiança na Lei, na circuncisão ou na descendência natural. A advertência diz respeito à comunhão com a incredulidade e com a falsificação da verdade, não a uma proibição indistinta de convívio com pessoas judias (1 Coríntios 5:9–10).

Paulo utiliza contrastes conhecidos da linguagem bíblica — justiça e injustiça, luz e trevas, Cristo e Belial, templo de Deus e ídolos. Os profetas também empregaram imagens de infidelidade e idolatria para denunciar a rebeldia no próprio Israel. Na epístola, essas figuras reforçam a incompatibilidade entre o pertencimento a Cristo e a submissão à incredulidade ou a doutrinas que desviam do evangelho.

“Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos” (2 Coríntios 6:14-16);

“De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis.” (1 Coríntios 14:22);

“Contudo tentaram e provocaram o Deus Altíssimo, e não guardaram os seus testemunhos. Mas retiraram-se para trás, e portaram-se infielmente como seus pais; viraram-se como um arco enganoso. Pois o provocaram à ira com os seus altos, e moveram o seu zelo com as suas imagens de escultura.” (Salmos 78:56-58);

“Ainda que a minha casa não seja tal para com Deus, contudo estabeleceu comigo uma aliança eterna, que em tudo será bem ordenado e guardado, pois toda a minha salvação e todo o meu prazer está nele, apesar de que ainda não o faz brotar. Porém os filhos de Belial todos serão como os espinhos que se lançam fora, porque não podem ser tocados com a mão.” (2 Samuel 23:5,6).

Aquele que recebeu as promessas em Cristo é chamado a afastar-se de tudo o que profana a vida daquele que pertence a Deus. Como compreender, nesse contexto, a imundícia da “carne” e do “espírito”?

Uma aplicação importante diz respeito à confiança em elementos exteriores da identidade religiosa — Lei, circuncisão e descendência de Abraão — quando empregados como fundamento de justiça à parte de Cristo. Paulo denomina de confiança “na carne” esse tipo de pretensão (Filipenses 3:3–6). Isso não significa que a expressão “imundícia da carne”, em 2 Coríntios 7:1, seja um sinônimo lexical de doutrina judaizante; trata-se de uma aplicação apoiada na controvérsia mais ampla da epístola:

“Pois que muitos se gloriam segundo a carne, eu também me gloriarei. (…) São hebreus? também eu. São israelitas? também eu. São descendência de Abraão? também eu.” (2 Coríntios 11:18 e 22);

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne. Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível.” (Filipenses 3:3-6).

Nos profetas estava estabelecido que aquele que fizesse da “carne o seu braço” seria maldito, vez que, confiar em si mesmo é apartar-se de Deus.

“Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!” (Jeremias 17:5).

A confiança na carne, quando substitui a confiança em Cristo, torna-se incompatível com o evangelho. Por isso, entre as formas de impureza de que os cristãos deveriam afastar-se, deve ser considerada a pretensão de estabelecer justiça por tais credenciais religiosas.

E a imundícia do “espírito”? No desenvolvimento doutrinário da epístola, a corrupção do entendimento constitui uma preocupação expressa de Paulo, que teme que os coríntios sejam desviados da simplicidade que há em Cristo, assim como a serpente enganou Eva com sua astúcia (2 Coríntios 11:3–4). Portanto, a necessidade de renovar o entendimento e rejeitar os ensinamentos contrários ao evangelho oferece uma aplicação importante da exortação apostólica.

Nesse contexto, aquele que continua depositando sua confiança nos elementos da antiga aliança, gloriando-se na descendência de Abraão, na circuncisão ou na observância da Lei como fundamento de justiça diante de Deus, permanece vinculado àquilo que Paulo denomina confiança na carne (Filipenses 3:3–6). O próprio apóstolo denuncia aqueles que se gloriam segundo a carne, contrapondo essa atitude à glória que procede de Cristo (2 Coríntios 11:18,22).

Assim, a purificação recomendada pode ser relacionada ao abandono da confiança na carne e à rejeição das concepções que comprometem a compreensão do evangelho. Os cristãos não deveriam retornar aos elementos da antiga aliança como fundamento de sua aceitação diante de Deus, mas permanecer na verdade de Cristo, renovando seu entendimento segundo a Palavra recebida.

Entretanto, a expressão conjunta “carne e espírito”, dependendo do contexto, também pode designar a pessoa em sua totalidade, abrangendo sua conduta e sua disposição interior. Por isso, não é necessário atribuir exclusivamente à carne uma espécie de impureza e ao espírito outra. A advertência alcança o cristão integralmente, enquanto a oposição à confiança na carne e à corrupção do entendimento constitui uma aplicação especialmente relevante no contexto das controvérsias doutrinárias enfrentadas por Paulo.

Nesse sentido, a necessidade de afastar-se dos ensinamentos que corrompem a compreensão do evangelho encontra correspondência na exortação para renovar-se no “espírito da vossa mente” (Efésios 4:23). A renovação do entendimento constitui uma aplicação importante da purificação recomendada por Paulo, sem exigir que o termo “espírito”, em 2 Coríntios 7:1, seja identificado exclusivamente com a mente humana.

“Que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; E vos renoveis no espírito da vossa mente;” (Efésios 4:22-23).

A aplicação aos problemas doutrinários compreende, portanto, rejeitar os mandamentos humanos apresentados como fundamento de justiça (Colossenses 2:20–23) e renovar o entendimento segundo a verdade do evangelho (Romanos 12:2).

Vale destacar que os cristãos já eram puros, pois Cristo disse:

“Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado.” (João 15:3).

Um exemplo se verifica no apóstolo Pedro, que apesar de estar limpo pela palavra de Cristo, ainda precisava se purificar da imundície do espírito. Ao dissimular e deixar de comer e se afastar dos cristãos convertidos dentre os gentios quando chegou os cristãos convertidos dentre os judeus, o apóstolo Pedro ainda precisava se renovar no espírito da sua mente, ou seja, se transformar pela renovação do entendimento (Gálatas 2:12-14). Ou, quando recebeu a visão de um vaso como lençol atado pelas quatro pontas descendo dos céus cheio de animais imundos que os judeus não comiam (Atos 10:10-13).

É possível aperfeiçoar a santificação?

Jesus evidenciou que a santificação ocorre por intermédio da palavra de Deus: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (João 17:17), de modo que, pela crença em Cristo, o homem é separado para uso exclusivo de Deus.

“Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres à luz, e do poder de Satanás a Deus; a fim de que recebam a remissão de pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim.” (Atos 26:18).

Todos os cristãos, pela fé em Cristo, são remidos do pecado, ou seja, morrem para o pecado ao se tornarem participantes da morte de Cristo. Além de ser resgatado do pecado, Cristo confere herança aos que são justificados do pecado (Romanos 6:7), pelo fato de crerem que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. Ao crer, o crente morre com Cristo para ser justificado do pecado, e ao ressurgir uma nova criatura, é justificado (declarado justo), pois foi gerado de novo em verdadeira justiça e santidade (Efésios 4:24).

Da mesma forma que o novo nascimento e a justificação é obra exclusiva de Deus, assim também é a santificação, como se lê:

“Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” (Ezequiel 36:25-27).

É Deus quem promete e se encarrega de criar, justificar e santificar o homem, pois somente Ele pode dar um novo coração e um novo espírito (Salmo 51:10). Quando se tem uma ordem para o homem se santificar, certo é que o homem deve refugiar-se em Deus, que o santifica:

“Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel?” (Ezequiel 18:31 e 11:19).

Deus dá a ordem: “Perfeito serás, como o SENHOR teu Deus.” (Deuteronômio 18:13), ou: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz.” (Deuteronômio 10:16), coisas impossíveis ao homem, certo é que o homem tem que esperar em Deus, pois para Deus tudo é possível!

“E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas.” (Deuteronômio 30:6).

Da mesma forma que foi Deus quem resgatou os filhos de Israel do Egito para sua propriedade peculiar dentre todos os povos, e por isso eles eram ‘santos’, qualquer que crê em Cristo é santificado.

“Porque eu sou o SENHOR, que vos fiz subir da terra do Egito, para que eu seja vosso Deus, e para que sejais santos; porque eu sou santo.” (Levítico 11:45).

Se Cristo aperfeiçoou para sempre os santificados mediante sua oferta (Hebreus 10:14), como compreender a exortação a “aperfeiçoar” a santificação? A questão exige distinguir a condição espiritual concedida por Deus da conduta e da fidelidade à verdade que Paulo exige daqueles que já pertencem a Cristo.

O verbo grego relacionado a “aperfeiçoando”, ἐπιτελοῦντες (epiteloûntes, de epiteléō), admite os sentidos de levar a termo, completar e realizar plenamente. O verbo, por si só, não define a santificação como um processo de aperfeiçoamento ontológico da nova criatura; a extensão da exortação deve ser estabelecida pelo contexto.

Ao exortar os cristãos a levarem a termo a santificação no temor de Deus, Paulo dirige-se àqueles que já pertenciam ao Senhor. A pureza exigida na conduta e na fidelidade à verdade deve corresponder à condição recebida. Em Romanos 6:22, o apóstolo distingue a libertação do pecado, a condição de servos de Deus e o fruto para santificação. O “temor do Senhor”, por sua vez, está intimamente relacionado à instrução divina e à obediência à sua Palavra (Salmos 19:9; 34:11), sem que todas as ocorrências do termo possam ser reduzidas a um sinônimo lexical da Palavra ou de Cristo.

“Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça. E que fruto tínheis então das coisas de que agora vos envergonhais? Porque o fim delas é a morte. Mas agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna.” (Romanos 6:20-22).

Para os que estão em Cristo Jesus, todas as coisas são puras, diferentemente para os judaizantes, que por terem o entendimento e a consciência contaminados, nada era puro.

“Todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis; antes o seu entendimento e consciência estão contaminados.” (Tito 1:15).

A regeneração concede ao cristão uma nova condição espiritual mediante Cristo. Entretanto, muitas concepções e comportamentos anteriores podem permanecer, exigindo instrução e correção. Por isso, Paulo recomenda a renovação do entendimento (Romanos 12:2; Efésios 4:23), sem que essa necessidade implique considerar incompleta a nova natureza daqueles que foram gerados de novo.

“E vos renoveis no espírito da vossa mente.” (Efésios 4:23; Romanos 12:2).

É neste contexto que cabe ao homem regenerado purificar-se a si mesmo. Esta mesma recomendação foi passada a Timóteo pelo apóstolo Paulo, e o modo como foi redigido o alerta dá elementos suficientes para uma interpretação mais segura:

“Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra.” (2 Timóteo 2:21).

Enquanto Deus santifica ao purificar o homem do pecado (hamartia) de Adão, de onde adveio a condenação de toda a humanidade, a determinação do apóstolo Paulo refere-se a erros a que todos os cristãos estão sujeitos.

“Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo.” (Tiago 3:2).

É objetivo de todos cristãos se portarem honestamente em tudo, embora sejam passíveis de muitos erros conceituais e comportamentais.

“Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente.” (Hebreus 13:18).

Portar-se honestamente diz respeito à conduta humana e não visa alcançar salvação, pois a salvação é providência de Deus por meio do evangelho. A honestidade dos cristãos tem em vista os não crentes, para que não haja qualquer entrave ao anúncio da mensagem do evangelho.

“Para que andeis honestamente para com os que estão de fora, e não necessiteis de coisa alguma.” (1 Tessalonicenses 4:12 ).

Uma consideração histórica importante para compreender as orientações apostólicas acerca da conduta cristã é a relação entre a reunião dos apóstolos em Jerusalém e a redação da Primeira Epístola aos Tessalonicenses.

A reunião apostólica, registrada em Atos 15, é geralmente situada entre os anos 48 e 50 d.C., enquanto a Primeira Epístola aos Tessalonicenses foi provavelmente escrita por volta dos anos 50 ou 51 d.C., durante a permanência de Paulo em Corinto. Portanto, segundo a cronologia mais aceita, as orientações dirigidas aos tessalonicenses foram redigidas após a deliberação de Jerusalém.

Naquela reunião, ficou estabelecido que os gentios não deveriam ser submetidos à circuncisão e à observância da Lei de Moisés como condições para alcançar a salvação. Entretanto, foram apresentadas recomendações específicas quanto à abstenção da idolatria, do sangue, dos animais sufocados e da prostituição (Atos 15:19–29).

É significativo que, após essa deliberação, Paulo e seus companheiros percorressem as cidades comunicando às igrejas as decisões tomadas pelos apóstolos e presbíteros em Jerusalém (Atos 16:4–5). Somente depois o relato de Atos apresenta a chegada do apóstolo a Tessalônica (Atos 17:1–4).

Desse modo, quando Paulo declara aos tessalonicenses que a vontade de Deus é a santificação deles, recomendando que se abstenham da prostituição (1 Tessalonicenses 4:3–7), sua orientação encontra correspondência com o que havia sido estabelecido anteriormente em Jerusalém. A exortação não transforma a observância de preceitos em fundamento da salvação, mas evidencia que os cristãos, embora livres da imposição da Lei como condição para serem justificados, continuavam sendo instruídos quanto à sua conduta.

A mesma epístola recomenda o amor fraternal, uma vida sossegada, o cuidado com os próprios negócios e o trabalho com as próprias mãos, para que os cristãos andem honestamente perante os de fora (1 Tessalonicenses 4:9–12).

A expressão grega mēdenòs chreían échēte (μηδενὸς χρείαν ἔχητε), traduzida tradicionalmente por “não necessiteis de coisa alguma”, também admite, considerando a recomendação de trabalhar com as próprias mãos, o sentido de “não dependais de ninguém”. O propósito da exortação é que os cristãos procedam de maneira respeitável perante aqueles que não pertencem à comunidade, evitando a dependência desnecessária do sustento alheio. Trata-se de uma orientação prática para a vida em sociedade, e não de uma condição para alcançar a santificação espiritual.

Portanto, é necessário distinguir a condição espiritual daqueles que foram santificados mediante Cristo das orientações apostólicas destinadas à sua convivência e ao testemunho público do evangelho. A salvação não resulta da adequação dos costumes, mas aqueles que foram alcançados pelo evangelho recebem instruções para que sua maneira de viver não comprometa a comunhão fraternal nem ofereça obstáculos desnecessários à mensagem anunciada.

Geralmente, quando se lê a recomendação para os cristãos se ‘purificar da imundície da carne e do espírito’, é comum muitos leitores abstraírem que há tipos distintos de imundície e, que estas se subdividem em imundícies pertinentes à carne, e outras, ao espírito, mas não é assim. Há traduções que verte o termo ‘carne’, por corpo, e assim, comprometem ainda mais o entendimento.

‘Corpo’ e ‘espírito’ são entes distintos na essência, porém, a depender do contexto, ambos são utilizados pelo apóstolo Paulo para fazer referência a completude humana que o torna indivíduo.

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso SENHOR Jesus Cristo.” (1 Tessalonicenses 5:23).

O cristão, como indivíduo, deve se purificar de toda imundície, pois foi chamado à santificação.

“Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação (…) Porque também já assim o fazeis para com todos os irmãos que estão por toda a Macedônia. Exortamos-vos, porém, a que ainda nisto aumenteis cada vez mais. E procureis viver quietos, e tratar dos vossos próprios negócios, e trabalhar com vossas próprias mãos, como já vo-lo temos mandado.” (1 Tessalonicenses 4:7 e 12).

Em 1 Tessalonicenses 4, Paulo reúne exortações concretas sobre a conduta dos cristãos: a abstenção da porneía e a rejeição da impureza (versículos 3–8), o amor fraternal (versículos 9–10) e o cuidado com a própria vida e o trabalho (versículos 11–12). Não seria correto reduzir a “imundícia” do versículo 7 à falta de sossego ou à intromissão em assuntos alheios, pois o contexto imediato também apresenta expressamente a imoralidade sexual. A variedade das exortações confirma que os cristãos necessitavam de orientação prática, sem que isso, por si só, demonstrasse uma santificação espiritual recebida apenas parcialmente.

“Os quais também mataram o SENHOR Jesus e os seus próprios profetas, e nos têm perseguido; e não agradam a Deus, e são contrários a todos os homens, e nos impedem de pregar aos gentios as palavras da salvação, a fim de encherem sempre a medida de seus pecados; mas a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim.” (1 Tessalonicenses 2:15-16).

A impureza combatida nas recomendações aos tessalonicenses envolve práticas contrárias à vontade divina, distinguindo-se da condição de sujeição ao pecado que demanda a obra salvadora de Cristo. A regeneração é obra de Deus, que concede vida e um novo coração; as exortações apostólicas orientam aqueles que já creram a abandonar práticas incompatíveis com essa condição.

Em 2 Coríntios, o contexto acrescenta a preocupação com aqueles que corrompiam a mensagem e disputavam a confiança da comunidade. Paulo denuncia a falsificação da Palavra de Deus e adverte contra a aceitação de outro Jesus, outro espírito ou outro evangelho (2 Coríntios 4:2; 11:3–4). A advertência sobre a imundícia da carne e do espírito pode ser examinada nesse cenário, sem excluir sua abrangência quanto à conduta pessoal e comunitária.

A salvação do pecado torna o homem membro do corpo de Cristo, por meio do evangelho, que é dom de Deus, ou seja, a salvação não se dá por questões morais ou comportamentais. Concomitantemente com o advento da igreja (corpo de Cristo), surgiram muitas comunidades cristãs, formadas por pessoas provenientes de diferentes povos e nações, cujo comportamento difere de indivíduo para indivíduo, o que demanda por parte dos seus integrantes o recomendado pelo apóstolo Pedro:

“Mas o homem encoberto no coração; no incorruptível traje de um espírito manso e quieto, que é precioso diante de Deus.” (1 Pedro 3:4).

Nesse sentido, pontuou o apóstolo Paulo:

“E NÓS, cooperando também com ele, vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão (Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação). Não dando nós escândalo em coisa alguma, para que o nosso ministério não seja censurado; Antes, como ministros de Deus, tornando-nos recomendáveis em tudo; na muita paciência, nas aflições, nas necessidades, nas angústias,” (2 Coríntios 6:1-4).

Como compreender esse conjunto de exortações — viver de modo sossegado, cuidar das próprias responsabilidades, evitar escândalos e cultivar mansidão — diante dos conflitos doutrinários enfrentados pelas igrejas? A presença de falsos mestres e a pressão para confiar em credenciais religiosas constituíam riscos reais à comunhão e ao testemunho do evangelho.

“Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas. Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo,” (Filipenses 3:18-20).

É necessário distinguir a condição espiritual tratada na descrição do velho homem, despojado mediante a circuncisão de Cristo (Colossenses 2:11–12), das exortações dirigidas aos cristãos quanto à pureza da vida e à fidelidade ao evangelho (2 Coríntios 7:1). A primeira diz respeito à obra divina no novo nascimento; a segunda, à responsabilidade dos que já pertencem a Cristo. A crítica aos mestres que depositavam confiança na carne integra essa aplicação, sem esgotar o alcance da expressão paulina.

“Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também.” (Efésios 2:3);

“No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mãos, no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos.” (Colossenses 2:10-11).

A referência à vontade dos pensamentos em Efésios 2:3 permite considerar a importância do entendimento e das disposições humanas. Em 2 Coríntios 7:1, essa relação contribui para examinar a fidelidade doutrinária e a conduta do cristão, sem reduzir a expressão “carne e espírito” exclusivamente à psique.

“… e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar.” (Gênesis 4:7).

Paulo não apresenta essas orientações como requisitos para conquistar a justificação pela Lei. Suas recomendações e determinações visam à vida daqueles que já receberam o evangelho. A decisão apostólica registrada em Atos 15:28–29 também distingue a acolhida dos gentios das exigências de submissão integral à Lei de Moisés.

“Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes. Bem vos vá.” (Atos 15:28 -29).

A forma como os apóstolos encerraram a carta dirigida aos cristãos dentre os gentios merece atenção especial. Depois de apresentar as orientações consideradas necessárias, a mensagem conclui: “Das quais coisas bem fazeis se vos guardardes. Bem vos vá” (Atos 15:29).

A expressão grega ex hōn diatēroûntes heautoùs eû práxete (ἐξ ὧν διατηροῦντες ἑαυτοὺς εὖ πράξετε) pode ser traduzida por “das quais coisas, se vos guardardes, fareis bem”. O verbo práxete está no futuro do indicativo, enquanto érrhōsthe (ἔρρωσθε), traduzido por “bem vos vá”, constitui uma fórmula convencional de despedida empregada na correspondência grega.

É significativo que a carta encerre com a declaração de que os destinatários procederiam bem ao guardar aquelas recomendações. A construção possui um tom cordial, próprio de uma comunicação dirigida aos irmãos, sem apresentar sua observância como requisito para alcançar a salvação. Isso não significa que fossem orientações destituídas de autoridade, pois os próprios apóstolos as haviam considerado necessárias (Atos 15:28).

A distinção é importante: a reunião de Jerusalém rejeitou a exigência da circuncisão e da observância da Lei de Moisés como condições para a salvação dos gentios, mas preservou orientações relativas à conduta dos cristãos. Assim, a liberdade em relação à Lei como fundamento de justificação não eliminava a responsabilidade de viver de maneira correspondente ao evangelho recebido.

As exortações apostólicas não constituíam um novo sistema legal mediante o qual o homem pudesse alcançar a justificação ou produzir a regeneração. Paulo efetivamente apresenta mandamentos e orientações para o comportamento dos cristãos, mas os dirige àqueles que já haviam recebido vida em Cristo. A finalidade dessas instruções é preservar a comunhão, exercer o amor fraternal e evitar que a conduta dos membros da comunidade comprometa o testemunho do evangelho.

“ROGO-VOS, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados.” (Efésios 4:1).

As diferenças de comportamento observadas entre os integrantes das primeiras comunidades cristãs decorriam, em parte, da diversidade de origens, costumes e condições sociais daqueles que haviam recebido o evangelho. Judeus e gentios, gregos e bárbaros, servos e livres possuíam formações culturais distintas, cujos reflexos se manifestavam nas relações estabelecidas no seio da igreja.

Diante dessa diversidade, Paulo apresentou princípios gerais de conduta fundamentados no evangelho, cuja orientação central era que os cristãos suportassem uns aos outros em amor, preservando a unidade espiritual que já possuíam em Cristo. O propósito não era uniformizar costumes, mas orientar os membros de um mesmo corpo a conviver em humildade, mansidão e longanimidade.

Em Efésios 4:1–3, o apóstolo recomenda que andem de modo digno da vocação recebida, “suportando-vos uns aos outros em amor” e procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Observe-se que a recomendação é guardar essa unidade, e não produzi-la: há um só corpo, um só Espírito, um só Senhor, uma só fé, um só batismo e um só Deus e Pai de todos (Efésios 4:4–6).

A mesma orientação aparece em Romanos 14, diante das divergências acerca de alimentos e dias. Paulo recomenda que os irmãos não se desprezem nem se julguem por essas diferenças, pois Deus os recebeu (Romanos 14:1–6). Em seguida, declara que os fortes devem suportar as fraquezas dos fracos (Romanos 15:1) e conclui: “Portanto recebei-vos uns aos outros, como também Cristo nos recebeu para glória de Deus” (Romanos 15:7).

Em Colossenses 3:10–14, a exortação para suportar e perdoar uns aos outros também é dirigida aos que já se revestiram do novo homem e são identificados como santos e amados de Deus. Assim, a diversidade de costumes e a necessidade de corrigir comportamentos não demonstram, por si mesmas, diferentes graus de santificação espiritual. As instruções apostólicas visam fazer corresponder a convivência dos cristãos à unidade que possuem em Cristo.

Ao escrever a Tito, Paulo apresenta orientações de conduta e afirma que tais atitudes podem servir de “ornamento da doutrina de Deus” (Tito 2:10). A preocupação se aproxima de 2 Coríntios 6:3, onde o apóstolo recomenda não oferecer motivo de escândalo para que o ministério não seja censurado. Assim, a fidelidade à doutrina e a conduta correspondente não precisam ser colocadas em oposição: ambas fazem parte da responsabilidade daqueles que já foram santificados em Cristo.

“Não defraudando, antes mostrando toda a boa lealdade, para que em tudo sejam ornamento da doutrina de Deus, nosso Salvador.” (Tito 2:10).

O temor do Senhor é ensinado por sua Palavra (Salmos 19:9; 34:11), e a santificação procede da verdade divina (João 17:17). Por isso, as recomendações comportamentais podem ser compreendidas como uma exortação a que a vida dos cristãos corresponda à doutrina que professam, servindo-lhe de ornamento, e não como uma tentativa de adquirir por esforço próprio a condição espiritual concedida em Cristo (Tito 2:10).

“Confirma a tua palavra ao teu servo, que é dedicado ao teu temor.” (Salmo 119:38).

O testemunho cristão e os interesses políticos do primeiro século

As recomendações apostólicas para que os cristãos vivessem tranquilamente, cuidassem dos próprios assuntos e procedessem honestamente perante os gentios também podem ser examinadas à luz das tensões políticas e religiosas do primeiro século (1 Tessalonicenses 4:11–12; 1 Timóteo 2:1–2; 1 Pedro 2:12–13).

A história de Israel apresenta diferentes experiências de resistência ao domínio estrangeiro, entre elas a revolta dos Macabeus contra o poder selêucida. Posteriormente, sob a dominação romana, surgiram movimentos que defendiam a libertação nacional e rejeitavam a sujeição a governantes estrangeiros.

Uma dessas iniciativas foi liderada por Judas, o Galileu, que, segundo o relato preservado por Lucas, reuniu seguidores durante o recenseamento, mas pereceu, sendo dispersos aqueles que o acompanhavam (Atos 5:37). Flávio Josefo também relaciona Judas à resistência contra Roma, fundamentada na convicção de que Deus deveria ser reconhecido como o único governante de Israel.

Essa realidade permite considerar uma questão: diante da coragem com que os cristãos enfrentavam perseguições para anunciar o evangelho e da rápida expansão das comunidades cristãs, não poderiam determinados grupos interessados na libertação nacional enxergar nesse movimento uma oportunidade de ampliar sua influência e mobilizar seguidores?

A hipótese merece consideração porque o movimento cristão reunia judeus e gentios em torno de uma mensagem que anunciava um reino e reconhecia Jesus como Senhor. Entretanto, o reino anunciado pelos apóstolos não consistia em uma organização política destinada a expulsar os romanos.

Jesus já havia declarado que seu reino não procedia deste mundo e que, se assim fosse, seus servos pelejariam para impedir sua entrega (João 18:36).

É possível que essa diferença também ajude a compreender a insistência apostólica em recomendar aos cristãos uma vida tranquila, o cuidado com os próprios assuntos, o trabalho honesto e o respeito às autoridades. Essas orientações impediam que a liberdade anunciada pelo evangelho fosse confundida com uma convocação à insurreição.

A denúncia de Pedro contra os falsos mestres acrescenta um aspecto relevante à investigação. O apóstolo afirma que eles exploravam os cristãos mediante palavras fingidas (2 Pedro 2:3), desprezavam autoridade (2 Pedro 2:10), seduziam os ouvintes com discursos arrogantes e prometiam liberdade, apesar de permanecerem servos da corrupção (2 Pedro 2:18–19).

O texto denuncia expressamente a exploração, a corrupção e a falsidade desses mestres. A possibilidade de que alguns deles também procurassem utilizar os cristãos para fins políticos constitui uma hipótese histórica, pois Pedro não identifica diretamente a liberdade prometida com a independência nacional nem apresenta esses indivíduos como organizadores de uma revolta contra Roma.

Também não é possível demonstrar que Paulo e Pedro tenham evitado deliberadamente denúncias explícitas de conspiração política por receio de expor as comunidades às autoridades imperiais. Contudo, as cartas efetivamente contêm recomendações pontuais para que os cristãos evitassem escândalos, respeitassem as autoridades e não se envolvessem indevidamente em assuntos alheios.

Assim, considerando as tensões do período, essas recomendações podem ter contribuído também para preservar as comunidades cristãs de projetos político-religiosos incompatíveis com o evangelho.

A distinção fundamental é que os apóstolos resistiam às autoridades quando impedidos de anunciar Cristo, mas não convocavam os cristãos a estabelecer o reino de Deus mediante a força. A liberdade prometida pelo evangelho procedia de Cristo, e não da conquista de independência política.

Sem defraudar ninguém – 2 Coríntios 7:2-4

“2 Recebei-nos em vossos corações; a ninguém agravamos, a ninguém corrompemos, de ninguém buscamos o nosso proveito. 3 Não digo isto para vossa condenação; pois já antes tinha dito que estais em nossos corações para juntamente morrer e viver. 4 Grande é a ousadia da minha fala para convosco, e grande a minha jactância a respeito de vós; estou cheio de consolação; transbordo de gozo em todas as nossas tribulações.” (2 Coríntios 7:2-4).

A exortação apresentada em 2 Coríntios 6:14–7:1 constitui uma digressão na qual Paulo adverte os cristãos acerca da incompatibilidade entre a comunhão com Cristo e a submissão à incredulidade. Considerando as denúncias posteriores contra aqueles que anunciavam outro evangelho (2 Coríntios 11:3–4,13–15), essa advertência também pode ser examinada à luz da influência dos mestres judaizantes, embora seu alcance não se limite necessariamente a essa controvérsia.

No versículo 2, Paulo retoma o apelo iniciado em 2 Coríntios 6:11–13, no qual havia solicitado aos coríntios que correspondessem ao afeto demonstrado pelos ministros do evangelho:

“Ó coríntios, a nossa boca está aberta para vós, o nosso coração está dilatado. Não estais estreitados em nós; mas estais estreitados nos vossos próprios afetos. Ora, em recompensa disto (falo como a filhos), dilatai-vos também vós” (2 Coríntios 6:11–13).

A dificuldade não estava na disposição de Paulo em acolher os coríntios, mas na resistência que havia surgido entre eles em relação ao apóstolo. Enquanto o coração dos ministros permanecia aberto, os destinatários haviam restringido seus afetos.

Por isso, ao declarar “recebei-nos”, Paulo emprega novamente uma linguagem figurada, rogando que os cristãos abrissem espaço em seus corações para aqueles que lhes haviam anunciado o evangelho.

A expressão “nossa boca está aberta para vós” evidencia a franqueza com que Paulo se dirigia à comunidade. Da mesma forma, a referência ao coração dilatado demonstra a amplitude de seu afeto. O apóstolo não lhes falava com reservas, pois continuava disposto a acolhê-los, apesar das dificuldades que haviam comprometido a relação de confiança.

Embora a epístola seja apresentada em nome de Paulo e Timóteo (2 Coríntios 1:1), não é necessário restringir a ambos todas as ocorrências da primeira pessoa do plural. O apóstolo também utiliza essa forma para falar de seu ministério e daqueles que cooperavam com ele.

Para justificar seu pedido, Paulo apresenta três declarações: “a ninguém agravamos, a ninguém corrompemos, de ninguém buscamos o nosso proveito” (2 Coríntios 7:2).

O apóstolo afirma que seu ministério não havia sido conduzido mediante injustiça, corrupção ou exploração dos destinatários. Não havia procurado obter vantagens pessoais, mas anunciar-lhes o evangelho e promover seu bem espiritual.

Essa postura encontra correspondência em outra declaração da epístola:

“Eis aqui estou pronto para pela terceira vez ir ter convosco, e não vos serei pesado; pois que não busco o que é vosso, mas sim a vós” (2 Coríntios 12:14).

A defesa de sua integridade não tinha por finalidade condenar os coríntios. Paulo esclarece expressamente: “Não digo isto para vossa condenação” (2 Coríntios 7:3).

Ao contrário, procurava demonstrar que suas advertências procediam do amor que lhes dedicava. O mesmo sentimento havia sido declarado anteriormente:

“Porque em muita tribulação e angústia do coração vos escrevi, com muitas lágrimas, não para que vos entristecêsseis, mas para que conhecêsseis o amor que abundantemente vos tenho” (2 Coríntios 2:4).

Desse modo, a firmeza de suas palavras não deveria ser confundida com ausência de afeto. Paulo os exortava como um pai que deseja o bem de seus filhos, pois havia sido o instrumento mediante o qual receberam a mensagem do evangelho.

Essa relação paternal já havia sido apresentada na Primeira Epístola:

“Porque ainda que tivésseis dez mil aios em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; porque eu pelo evangelho vos gerei em Jesus Cristo” (1 Coríntios 4:15).

Quando afirma que os coríntios estavam em seu coração “para juntamente morrer e viver”, o apóstolo emprega uma expressão de profundo vínculo afetivo e solidariedade. Não se tratava de uma relação condicionada às circunstâncias favoráveis, mas de um compromisso que permanecia mesmo diante das tribulações e dos conflitos.

Assim, a expressão evidencia a disposição de Paulo de permanecer unido à comunidade nas adversidades e nas alegrias. Seu afeto não havia sido desfeito pelas dificuldades experimentadas.

No versículo 4, o apóstolo declara ter grande ousadia ao falar aos coríntios e grande motivo de gloriar-se a respeito deles. A ousadia corresponde à liberdade e à franqueza com que lhes dirigia suas palavras, enquanto o gloriar-se expressa a confiança e a satisfação que nutria em relação à comunidade.

Apesar das tribulações, Paulo estava cheio de consolação e transbordava de alegria. Essa declaração antecipa a explicação apresentada nos versículos seguintes, quando relata a chegada de Tito e as notícias favoráveis que recebeu acerca da resposta dos coríntios (2 Coríntios 7:5–7).

O apóstolo também havia relacionado anteriormente a consolação dos ministros à perseverança dos cristãos diante das tribulações:

“Mas, se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação; ou, se somos consolados, para vossa consolação e salvação é, a qual se opera suportando com paciência as mesmas aflições que nós também padecemos. E a nossa esperança acerca de vós é firme, sabendo que, como sois participantes das aflições, assim o sereis também da consolação” (2 Coríntios 1:6–7).

Essa comunhão nas aflições constituía uma expressão da solidariedade existente entre os ministros do evangelho e aqueles que haviam recebido sua mensagem. A perseverança diante das dificuldades também era reconhecida como uma experiência compartilhada pelos irmãos em Cristo:

“Ao qual resisti firmes na fé, sabendo que as mesmas aflições se cumprem entre os vossos irmãos no mundo” (1 Pedro 5:9).

Portanto, o apelo “recebei-nos” não era uma simples reivindicação de autoridade apostólica. Paulo desejava que os coríntios reconhecessem a sinceridade de seu ministério e correspondessem ao amor que lhes dedicava.

A correção apostólica não havia sido motivada pela intenção de condenar os destinatários, mas pelo propósito de preservar sua comunhão com a verdade do evangelho e restabelecer a confiança e o afeto que deveriam caracterizar a relação entre eles.

Deus consola os abatidos – 2 Coríntios 7:5-7

“5 Porque, mesmo quando chegamos à Macedônia, a nossa carne não teve repouso algum; antes em tudo fomos atribulados: por fora combates, temores por dentro. 6 Mas Deus, que consola os abatidos, nos consolou com a vinda de Tito. 7 E não somente com a sua vinda, mas também pela consolação com que foi consolado por vós, contando-nos as vossas saudades, o vosso choro, o vosso zelo por mim, de maneira que muito me regozijei.” (2 Coríntios 7:5-7).

Ao chegar à Macedônia, Paulo e seus companheiros não encontraram o descanso que esperavam. O apóstolo declara que sua carne não teve repouso e que, além das tribulações externas, experimentavam temores interiores.

Para compreender essa aflição, é necessário considerar o relato anterior da epístola. Quando chegou a Trôade, Paulo encontrou uma oportunidade para anunciar o evangelho, mas não teve descanso em seu espírito porque não encontrou Tito, de quem aguardava notícias dos coríntios.

“Ora, quando cheguei a Trôade para pregar o evangelho de Cristo, e abrindo-se-me uma porta no Senhor, não tive descanso no meu espírito, porque não achei ali meu irmão Tito; mas, despedindo-me deles, parti para a Macedônia” (2 Coríntios 2:12–13).

A ausência de Tito, portanto, contribuía para a inquietação do apóstolo. Embora estivesse empenhado na defesa e na proclamação do evangelho, Paulo também enfrentava preocupações relacionadas aos irmãos e à maneira como haviam recebido suas advertências.

Nesse contexto, destaca-se uma declaração fundamental:

“Mas Deus, que consola os abatidos, nos consolou com a vinda de Tito” (2 Coríntios 7:6).

A afirmação evidencia que Paulo reconhecia a ação de Deus no consolo recebido. A chegada de Tito não foi interpretada apenas como o reencontro com um companheiro de ministério, mas como um acontecimento mediante o qual Deus trouxe alívio à sua aflição.

Entretanto, a declaração também permite considerar uma questão mais ampla: quem são os abatidos que Deus consola?

Nas Escrituras, os termos “abatidos”, “oprimidos”, “quebrantados”, “perturbados”, “cansados”, “tristes”, “aflitos”, “necessitados” e “pobres” podem descrever diferentes condições humanas. Conforme o contexto, fazem referência a aflições concretas ou assumem um sentido espiritual, identificando aqueles que reconhecem sua condição diante de Deus e nele depositam sua confiança.

No Sermão do Monte, Jesus declara bem-aventurados os pobres de espírito e os que choram, prometendo-lhes o reino dos céus e a consolação (Mateus 5:3–4).

Os profetas também apresentam a consolação divina como uma promessa aos aflitos:

“A apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” (Isaías 61:2).

“A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do Senhor, para que ele seja glorificado” (Isaías 61:3).

Essa promessa encontra seu cumprimento messiânico em Cristo, que anunciou as boas-novas aos pobres e proclamou a libertação aos cativos (Lucas 4:18–21).

O profeta Isaías também declara:

“Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito, como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o coração dos contritos” (Isaías 57:15).

Nesse contexto, o abatimento e a contrição não devem ser compreendidos simplesmente como estados emocionais. A promessa divina está relacionada àqueles que, em vez de confiarem em seus próprios recursos, reconhecem a necessidade da misericórdia de Deus e se sujeitam à sua Palavra.

O salmista declara:

“Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” (Salmos 34:18).

A relação entre o quebrantamento e a salvação demonstra que a confiança em Deus, e não a suficiência humana, é fundamental na condição daqueles que se refugiam nele.

Da mesma forma, está escrito:

“Sara os quebrantados de coração, e lhes ata as suas feridas” (Salmos 147:3).

E o profeta Isaías anuncia:

“E os errados de espírito virão a ter entendimento, e os murmuradores aprenderão doutrina” (Isaías 29:24).

Essa última passagem acrescenta um elemento importante à exposição: a transformação da condição daqueles que estavam errados de espírito está relacionada ao entendimento e à instrução. Assim, o consolo divino não deve ser reduzido ao alívio de sentimentos, pois a mensagem profética também contempla a vivificação e o conhecimento da verdade.

Entretanto, é necessário distinguir essas promessas do acontecimento específico narrado por Paulo em 2 Coríntios 7:6.

O apóstolo não estava descrevendo sua conversão nem afirmando que precisava receber novamente a vida eterna. Ele relatava uma aflição experimentada no exercício de seu ministério e reconhecia que Deus o consolara mediante a chegada de Tito.

A consolação prometida aos que se refugiam em Deus encontra sua expressão decisiva na salvação concedida mediante Cristo. Essa salvação decorre da promessa divina, conforme declara o apóstolo João:

“E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna” (1 João 2:25).

Já a consolação experimentada por Paulo naquela ocasião estava relacionada às circunstâncias de seu ministério e às notícias que aguardava acerca dos coríntios.

A chegada de Tito, porém, não foi a única razão de sua alegria. O companheiro trouxe informações sobre a maneira como os cristãos haviam reagido à carta apostólica. Tito também havia sido consolado pela comunidade e relatou a saudade, o pranto e o zelo dos irmãos em relação a Paulo.

Desse modo, o consolo recebido pelo apóstolo possuía uma dimensão profundamente relacional. A notícia de que os coríntios continuavam demonstrando afeto e zelo por ele dissipou parte dos temores que havia experimentado.

O apóstolo reconheceu a ação de Deus tanto no reencontro com Tito quanto na resposta favorável dos destinatários de sua carta. O acontecimento demonstra que Deus também consola aqueles que já lhe pertencem, utilizando circunstâncias e pessoas para trazer alívio às suas tribulações.

É necessário, portanto, distinguir a consolação relacionada à salvação eterna daquela que se manifesta no alívio das aflições desta vida. Ambas podem ser reconhecidas como provenientes de Deus, mas não constituem acontecimentos idênticos.

Aquele que crê em Cristo possui a promessa da vida eterna. Isso, entretanto, não significa que esteja livre de dificuldades ou que necessariamente receberá, nesta vida, o alívio de todas as suas preocupações, a solução de seus problemas ou o reencontro com pessoas queridas.

No caso de Paulo, Deus o consolou mediante a chegada de Tito e as notícias acerca dos coríntios. Essa consolação explica sua alegria e prepara a declaração seguinte, na qual o apóstolo esclarece que a tristeza experimentada pelos destinatários de sua carta havia produzido arrependimento (2 Coríntios 7:8–10).

Contristados para arrependimento – 2 Coríntios 7:8-9

“8 Porquanto, ainda que vos contristei com a minha carta, não me arrependo, embora já me tivesse arrependido por ver que aquela carta vos contristou, ainda que por pouco tempo. 9 Agora folgo, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus; de maneira que por nós não padecestes dano em coisa alguma.” (2 Coríntios 7:8-9).

Sem entrar nas discussões acerca da identificação da carta mencionada por Paulo, ou da natureza exata da questão que provocou a tristeza dos coríntios, o texto permite afirmar que uma correspondência anterior havia causado aflição entre os destinatários.

Ao tomar conhecimento da tristeza produzida por aquela carta, Paulo experimentou pesar por tê-los entristecido. Entretanto, ao saber que a advertência havia alcançado seu propósito, declara que já não lamentava o ocorrido.

Essa mudança na avaliação do apóstolo não decorria de uma satisfação com o sofrimento dos cristãos, mas do resultado produzido pela mensagem que lhes havia enviado.

Para compreender a declaração, é necessário considerar uma distinção presente no texto grego.

No versículo 8, Paulo utiliza o verbo metamélomai (μεταμέλομαι), relacionado ao pesar, à reconsideração ou ao arrependimento diante de determinada ação. O apóstolo havia lamentado o sofrimento causado pela carta, mas deixou de lamentá-lo ao conhecer seus resultados.

Já para descrever a mudança experimentada pelos coríntios, Paulo emprega, no versículo 9, o substantivo metánoia (μετάνοια), relacionado ao verbo metanoéō (μετανοέω), que expressa arrependimento, mudança de entendimento ou de disposição diante de determinada realidade.

A distinção é significativa. Paulo reconsiderou o envio da carta em razão da tristeza que ela havia provocado; os coríntios, por sua vez, experimentaram uma mudança decorrente da advertência recebida.

O significado de metánoia não deve ser confundido com o mero sentimento de remorso nem reduzido à tristeza diante de erros de conduta. Embora o arrependimento possa envolver emoções e produzir mudanças comportamentais, essas manifestações não constituem, isoladamente, sua definição.

É necessário considerar a mudança de entendimento e de disposição diante da verdade apresentada, bem como as consequências que dela resultam. Essa distinção também é examinada no estudo O que vem primeiro: o arrependimento ou a fé?.

O próprio apóstolo evidencia essa diferença ao afirmar:

“Agora folgo, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento” (2 Coríntios 7:9).

O contentamento de Paulo não decorria simplesmente da tristeza experimentada pelos destinatários. O apóstolo se alegrou porque aquela tristeza conduziu a uma mudança efetiva na maneira como os coríntios compreenderam e responderam à questão abordada.

Essa preocupação com os resultados de suas advertências já havia sido apresentada anteriormente:

“Porque, se eu vos entristeço, quem é que me alegrará, senão aquele que por mim foi contristado?” (2 Coríntios 2:2).

Paulo não pretendia produzir sofrimento como finalidade de seu ministério. Seu propósito era instruir os cristãos e preservar a comunhão deles com a verdade do evangelho.

Por isso, ao afirmar que os coríntios foram entristecidos “segundo Deus”, acrescenta:

“… de maneira que por nós não padecestes dano em coisa alguma” (2 Coríntios 7:9).

A expressão demonstra que a advertência apostólica, embora inicialmente dolorosa, não lhes havia produzido o prejuízo que poderia resultar de uma tristeza sem arrependimento. Ao contrário, conduziu-os a uma resposta favorável.

A distinção também deve ser considerada à luz do versículo 6:

“Mas Deus, que consola os abatidos, nos consolou com a vinda de Tito” (2 Coríntios 7:6).

Naquele versículo, Paulo reconhece que Deus o consolou mediante a chegada de Tito. Nos versículos 8 e 9, explica que sua alegria também decorria da maneira como os destinatários haviam respondido à carta.

Embora as duas experiências estejam relacionadas no desenvolvimento da narrativa, não são idênticas. O consolo recebido por Paulo dizia respeito à sua aflição ministerial, enquanto a tristeza dos coríntios estava relacionada ao efeito da advertência apostólica.

O que distingue a tristeza segundo Deus não é simplesmente sua intensidade emocional, mas sua relação com a verdade divina e o resultado que produz.

As Escrituras demonstram que a aflição pode acompanhar o reconhecimento da necessidade de instrução e correção:

“Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos” (Salmos 119:71).

O salmista não apresenta a aflição como um bem em si mesma, mas reconhece seu resultado: o aprendizado dos estatutos divinos.

A expressão “tristeza segundo Deus” merece ser considerada à luz da distinção bíblica entre experimentar aflição e sujeitar-se à vontade divina. Nem toda tristeza resulta em arrependimento, assim como nem toda manifestação exterior de humilhação demonstra que alguém se sujeitou a Deus.

Essa distinção pode ser examinada a partir da ordenança de afligir a alma, apresentada na Lei de Moisés (Levítico 16:29; 23:32). No estudo Como afligir a alma?, a expressão é analisada considerando os diferentes empregos do verbo hebraico ʿanah (ענה), especialmente na narrativa de Sara e Agar.

Em Gênesis 16:6, Sara afligiu Agar, que fugiu de sua presença. Posteriormente, o anjo do Senhor ordenou que a serva retornasse e se humilhasse debaixo das mãos de sua senhora (Gênesis 16:9). A relação entre essas passagens permite considerar a aflição também sob a perspectiva da humilhação e da sujeição, e não exclusivamente como uma experiência emocional.

Essa interpretação oferece uma chave para examinar a repreensão divina registrada em Isaías 58. Os israelitas acreditavam que, ao jejuar, inclinar a cabeça e vestir-se de saco e cinzas, estavam afligindo suas almas conforme a vontade de Deus. Entretanto, suas práticas exteriores não correspondiam à disposição exigida pelo Senhor, pois continuavam seguindo seus próprios interesses e oprimindo aqueles que estavam sob sua autoridade (Isaías 58:3–5).

Assim, a aparência de tristeza ou de humilhação não constituía, por si mesma, demonstração de sujeição à vontade divina. O verdadeiro problema não estava na intensidade da aflição experimentada, mas na resistência em atender à Palavra de Deus.

Essa distinção também encontra expressão na declaração do salmista:

“Antes de ser afligido andava errado; mas agora tenho guardado a tua palavra” (Salmos 119:67).

A relação entre a aflição e a observância da Palavra permite considerar a importância da mudança que ocorre quando o homem abandona sua própria orientação e passa a atender à instrução divina.

É nesse sentido que a distinção pode iluminar a experiência dos coríntios. A carta apostólica os entristeceu, mas Paulo não se alegrou simplesmente porque experimentaram aflição. Seu contentamento decorreu do arrependimento produzido, isto é, da mudança de entendimento e de disposição em resposta à advertência recebida.

A relação com a ordenança de afligir a alma não implica que Paulo tenha empregado a mesma expressão de Levítico. Trata-se de reconhecer um princípio presente nas Escrituras: a aflição exterior não substitui a sujeição à verdade divina.

Na nova aliança, a obediência fundamental à mensagem de Deus consiste em crer em Jesus Cristo, conforme o mandamento anunciado em 1 João 3:23. Aqueles que recebem o evangelho sujeitam-se à verdade que Deus revelou acerca de seu Filho.

No caso dos coríntios, entretanto, Paulo se dirige a cristãos que já haviam recebido essa mensagem. O arrependimento descrito no capítulo não deve ser confundido automaticamente com uma nova conversão, mas compreendido como a resposta daqueles que, tendo sido advertidos, reconsideraram seu entendimento e sua disposição diante da instrução apostólica.

Portanto, a tristeza segundo Deus não deve ser identificada com a simples experiência de sofrimento, nem o arrependimento reduzido ao sentimento de remorso. A diferença fundamental está na resposta à verdade divina, conforme os resultados que Paulo apresenta em 2 Coríntios 7:11.

É nesse sentido que Paulo distingue a tristeza segundo Deus da tristeza do mundo, distinção que será desenvolvida no versículo 10.

A consolação prometida por Deus também está relacionada ao poder vivificador de sua Palavra:

“Isto é a minha consolação na minha aflição, porque a tua palavra me vivificou” (Salmos 119:50).

A declaração do salmista evidencia uma relação entre a aflição, a Palavra divina e a consolação. Nesse contexto, a consolação não depende simplesmente da remoção das circunstâncias adversas, mas da ação de Deus mediante sua Palavra.

No entanto, é necessário distinguir a consolação relacionada à salvação daquela que se manifesta no alívio das tribulações experimentadas pelos que já pertencem a Cristo, conforme observado anteriormente.

A resposta dos coríntios demonstra que a carta de Paulo havia produzido o resultado esperado. A comunidade não permaneceu indiferente à advertência, mas reagiu de maneira correspondente à instrução recebida.

Essa relação entre correção, tristeza e resultado favorável encontra um paralelo na Epístola aos Hebreus:

“Porque o Senhor corrige o que ama e açoita a qualquer que recebe por filho […] para sermos participantes da sua santidade. E, na verdade, toda correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” (Hebreus 12:6–11).

A passagem demonstra que a correção dirigida aos filhos de Deus pode provocar tristeza sem que essa tristeza constitua sua finalidade última. O objetivo é produzir um resultado correspondente à instrução recebida.

Esse paralelo é especialmente relevante porque Paulo escreve aos coríntios como a uma comunidade que já havia recebido o evangelho. A necessidade de correção não demonstra, por si mesma, que a regeneração dos destinatários fosse incompleta, mas evidencia a responsabilidade de compreender e responder adequadamente à verdade anunciada.

Assim, quando Paulo afirma que os coríntios não sofreram dano por sua causa, não está negando que a carta lhes tenha provocado tristeza. Está demonstrando que a advertência não resultou em prejuízo, mas em uma mudança favorável.

A tristeza segundo Deus, portanto, não deve ser confundida com o simples desgosto diante de circunstâncias adversas, tampouco com a prática de penitências destinadas a produzir merecimento diante de Deus. Sua característica distintiva, na argumentação paulina, é conduzir ao arrependimento.

Portanto, a tristeza experimentada pelos coríntios não era o arrependimento propriamente dito, mas a circunstância em que se manifestou uma mudança de entendimento e de disposição diante da advertência apostólica. A alegria de Paulo decorria dessa mudança, e não da aflição causada pela carta.

Arrependimento para salvação – 2 Coríntios 7:10-11

“10 Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte. 11 Porque, quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados! Que apologia, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vingança! Em tudo mostrastes estar puros neste negócio.” (2 Coríntios 7:10-11).

Se os cristãos de Corinto foram entristecidos pela carta apostólica, como Paulo poderia afirmar que não sofreram dano algum por sua causa? A resposta começa a ser esclarecida no versículo 10, quando o apóstolo distingue a tristeza segundo Deus, que produz arrependimento para a salvação, da tristeza do mundo, que produz morte.

No versículo anterior, Paulo havia declarado que não se alegrava simplesmente porque os coríntios ficaram tristes, mas porque foram contristados para arrependimento (2 Coríntios 7:9). Portanto, a tristeza não constituía a finalidade da advertência apostólica. O que importava era a mudança de entendimento e de disposição produzida pela mensagem recebida.

O substantivo grego metánoia (μετάνοια), empregado por Paulo, está relacionado ao verbo metanoéō (μετανοέω), que expressa arrependimento, envolvendo mudança de entendimento ou de disposição diante de determinada realidade. O termo não deve ser confundido com o mero sentimento de tristeza, tampouco reduzido à prática de penitências ou à tentativa de modificar comportamentos para alcançar a aceitação divina.

Entretanto, a mudança de entendimento não é necessariamente desprovida de consequências práticas. O próprio apóstolo demonstrará, no versículo 11, que o arrependimento dos coríntios produziu cuidado, defesa, indignação, temor, saudade e zelo. Essas manifestações não constituíam o fundamento da regeneração, mas evidenciavam a resposta da comunidade à advertência recebida.

A declaração de Paulo acerca do arrependimento para a salvação deve ser considerada à luz da mensagem anunciada por Cristo e pelos apóstolos.

Quando Jesus iniciou seu ministério, proclamou:

“Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mateus 4:17).

A ordem não estabelecia que os homens deveriam primeiro alcançar determinada condição moral para, posteriormente, serem aceitos por Deus. O anúncio exigia que os ouvintes reconsiderassem suas concepções acerca da promessa divina e reconhecessem em Jesus o Cristo anunciado nas Escrituras.

Essa mudança de entendimento era especialmente necessária àqueles que depositavam sua confiança na descendência natural de Abraão, como se essa condição lhes assegurasse participação na promessa de Deus.

João Batista já havia advertido:

“E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mateus 3:9).

A advertência demonstrava que a descendência natural não constituía fundamento suficiente para alcançar a salvação. Era necessário abandonar a confiança nessa condição e atender à mensagem divina.

O mesmo problema aparece quando determinados judeus afirmaram a Jesus:

“Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” (João 8:33).

Jesus respondeu:

“Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (João 8:34).

A declaração de Cristo demonstra que a verdadeira questão não era a liberdade política ou a posição social dos descendentes de Abraão, mas a condição de sujeição ao pecado. Essa condição não poderia ser modificada pela ascendência natural, pela observância de costumes ou pela confiança nas próprias obras.

Por isso, Jesus acrescentou:

“Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36).

A libertação anunciada não seria alcançada mediante uma reforma comportamental, mas pela ação do Filho de Deus. O arrependimento necessário à salvação exigia, portanto, reconsiderar as concepções que levavam os ouvintes a confiar na carne e reconhecer que somente Cristo poderia libertá-los do pecado.

Nesse sentido, a mudança de entendimento anunciada pelo evangelho possui um conteúdo determinado: Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, enviado para conceder vida àqueles que nele creem.

Quando perguntaram a Jesus o que deveriam fazer para executar as obras de Deus, ele respondeu:

“A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (João 6:29).

De modo semelhante, o apóstolo João declarou:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 João 3:23).

Portanto, o arrependimento para a salvação não deve ser entendido como a exigência de que o homem abandone previamente todos os seus erros comportamentais para merecer a vida eterna. A mudança fundamental ocorre quando, diante da verdade anunciada, abandona as concepções contrárias ao evangelho e reconhece em Jesus o Salvador prometido.

A obediência ao evangelho está relacionada à fé em Cristo, pois é mediante essa fé que o homem participa da salvação anunciada. Paulo demonstra que aqueles que eram servos do pecado obedeceram de coração à forma de doutrina que lhes foi entregue e, libertados do pecado, foram feitos servos da justiça (Romanos 6:16–18).

Essa obediência não consiste em produzir a regeneração mediante esforços humanos, mas em atender à verdade anunciada, crendo naquele que Deus enviou.

A necessidade dessa mudança de entendimento também é esclarecida pela linguagem dos profetas e dos salmistas acerca dos contritos e abatidos.

“Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” (Salmos 34:18).

Nessa linguagem, o quebrantamento e a contrição podem representar a disposição daqueles que reconhecem sua insuficiência e se refugiam em Deus, em vez de confiar em seus próprios recursos.

Em oposição a essa disposição, o profeta Jeremias declara:

“Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!” (Jeremias 17:5).

O contraste não se estabelece simplesmente entre pessoas tristes e pessoas alegres, nem entre pobres e ricos em sentido econômico. A oposição fundamental está entre confiar em Deus e fazer da carne o fundamento da própria segurança.

Por essa razão, expressões como “pobres”, “abatidos”, “contritos” e “quebrantados” podem assumir, conforme o contexto, um significado espiritual relacionado àqueles que reconhecem sua dependência da misericórdia divina. Da mesma forma, termos como “ricos”, “fartos” e “altivos” podem representar aqueles que presumem de sua própria suficiência.

Não se trata, contudo, de atribuir automaticamente esse significado a todas as ocorrências dessas palavras nas Escrituras, mas de considerar a função que desempenham no contexto em que são empregadas.

A relação entre o reconhecimento da própria condição e a sujeição à Palavra de Deus também foi examinada anteriormente à luz da ordenança de afligir a alma, da repreensão ao jejum exterior e da distinção entre a aparência de humilhação e a obediência à vontade divina (Levítico 16:29; Isaías 58:3–7).

Desse modo, a tristeza não constitui um mérito capaz de produzir salvação, assim como o sofrimento exterior não equivale necessariamente à sujeição a Deus. O que importa é atender à verdade anunciada.

É nesse contexto que se compreende o arrependimento para a salvação: o homem, confrontado com a mensagem do evangelho, abandona suas concepções equivocadas acerca do caminho da vida e crê em Jesus Cristo.

Essa relação é desenvolvida de maneira mais ampla no estudo O que pregar sobre arrependimento?.

O arrependimento dos coríntios e a salvação

Entretanto, é necessário distinguir a mudança de entendimento relacionada à salvação em Cristo daquela que Paulo descreve especificamente na experiência dos coríntios.

Os destinatários da carta já haviam recebido o evangelho. Paulo se dirigia a uma comunidade de cristãos, reconhecidos como pertencentes a Cristo e santificados nele (1 Coríntios 1:2; 6:11).

A advertência apostólica não tinha como finalidade conduzi-los novamente ao novo nascimento, como se a regeneração recebida mediante a fé fosse uma obra incompleta ou precisasse ser repetida.

A carta havia provocado tristeza porque tratava de uma questão que comprometera a relação da comunidade com Paulo. Ao receberem a advertência, os coríntios reconsideraram seu entendimento e sua disposição acerca do assunto, manifestando uma resposta favorável.

Assim, embora o apóstolo apresente o princípio de que a tristeza segundo Deus produz arrependimento para salvação, a experiência particular dos destinatários não deve ser confundida automaticamente com a conversão inicial.

A distinção é necessária porque o arrependimento pode envolver mudanças de entendimento acerca de diferentes questões. No anúncio do evangelho, a mudança fundamental diz respeito à verdade de Cristo e à necessidade de crer nele para salvação. No caso dos coríntios, a mudança estava relacionada à advertência dirigida a uma comunidade que já havia recebido essa verdade.

Isso não elimina a seriedade da correção apostólica. O fato de já pertencerem a Cristo não tornava os destinatários imunes a concepções equivocadas ou a comportamentos que necessitassem de correção.

Entretanto, a necessidade de corrigir o entendimento e a conduta não significa, por si mesma, que a nova natureza espiritual dos regenerados tenha sido concedida de maneira incompleta.

“Da qual ninguém se arrepende”

A expressão final da primeira parte do versículo 10 também merece atenção:

“Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende.”

No original grego, Paulo emprega o adjetivo ametamelēton (ἀμεταμέλητον), relacionado à ausência de pesar ou arrependimento posterior.

A construção grega — metánoian eis sōtērían ametamélēton (μετάνοιαν εἰς σωτηρίαν ἀμεταμέλητον) — admite uma consideração gramatical importante: o adjetivo pode ser relacionado tanto ao arrependimento quanto à salvação, embora sua associação ao arrependimento constitua uma leitura especialmente natural no desenvolvimento da frase.

Assim, a expressão pode ser compreendida como referência ao arrependimento que conduz à salvação e não deixa motivo de pesar. Também é possível considerar a ideia de que a própria salvação decorrente desse arrependimento não constitui motivo de arrependimento posterior.

Em qualquer dessas leituras, o contraste estabelecido por Paulo permanece: a tristeza segundo Deus produz um resultado favorável, enquanto a tristeza do mundo produz morte.

O emprego de ametamelēton também merece ser comparado ao verbo metamélomai, utilizado pelo apóstolo no versículo 8 ao tratar do pesar que havia experimentado por ter entristecido os coríntios.

Paulo havia sentido pesar diante do sofrimento provocado pela carta, mas deixou de lamentar seu envio quando reconheceu os resultados produzidos. Já o arrependimento associado à salvação é apresentado como algo que não constitui motivo de pesar.

Dessa forma, o contraste reforça a diferença entre o sofrimento experimentado em determinada circunstância e o resultado favorável produzido mediante a resposta à verdade.

A tristeza do mundo opera a morte

Paulo conclui o versículo 10 afirmando:

“Mas a tristeza do mundo opera a morte.”

A declaração estabelece uma oposição entre duas espécies de tristeza consideradas a partir de seus resultados.

A tristeza segundo Deus produz arrependimento para salvação; a tristeza do mundo produz morte.

A tristeza do mundo não deve ser definida exclusivamente como aquela decorrente de ódio, inveja, contenda ou decepção, embora tais sentimentos possam estar presentes em determinadas experiências humanas.

O contraste apresentado por Paulo considera principalmente o resultado produzido. Uma tristeza pode conduzir o homem a reconsiderar seu entendimento diante da verdade divina; outra pode permanecer vinculada à incredulidade, aos interesses contrariados e à resistência à vontade de Deus.

A mera existência de tristeza, portanto, não demonstra que alguém tenha se arrependido. O sofrimento pode acompanhar tanto a disposição de atender à Palavra quanto a resistência àquilo que foi anunciado.

Por isso, o que caracteriza a tristeza segundo Deus não é sua intensidade, mas o arrependimento que dela resulta.

Os resultados do arrependimento dos coríntios

No versículo 11, Paulo apresenta as consequências da tristeza experimentada pelos destinatários:

“Porque, quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós que, segundo Deus, fostes contristados! Que apologia, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vingança! Em tudo mostrastes estar puros neste negócio” (2 Coríntios 7:11).

O apóstolo não procura demonstrar que a tristeza, considerada isoladamente, possuía algum valor espiritual. Seu propósito é evidenciar os resultados da mudança produzida nos coríntios.

O primeiro resultado mencionado é o cuidado. A advertência apostólica não foi recebida com indiferença, mas despertou diligência e atenção à questão apresentada.

Em seguida, Paulo menciona a apología (ἀπολογία), termo relacionado à defesa ou à apresentação de justificativa. Os destinatários procuraram responder à situação que havia motivado a carta, demonstrando preocupação com sua posição diante do apóstolo.

A indignação expressa a reação da comunidade à questão levantada, enquanto o temor evidencia a seriedade com que passou a considerá-la.

As saudades e o zelo demonstram o desejo de restabelecer a relação com Paulo e de corresponder ao afeto que o apóstolo lhes havia manifestado.

Por fim, a palavra traduzida por “vingança”, do grego ekdíkēsis (ἐκδίκησις), pode expressar a disposição de fazer justiça ou de tomar as providências necessárias diante da situação.

Essas manifestações revelam que a mudança de entendimento não permaneceu restrita à compreensão intelectual dos destinatários, mas produziu uma nova disposição diante do assunto.

É importante observar que essas atitudes não constituíam meios de alcançar a regeneração. Eram consequências da resposta à advertência apostólica, dirigidas a uma comunidade que já havia recebido o evangelho.

Ao declarar que os coríntios se mostraram puros naquele negócio, Paulo reconhece a posição assumida pelos destinatários diante da questão.

A expressão não exige concluir que todos estivessem inteiramente alheios ao problema desde o princípio. O contexto permite compreender que a comunidade demonstrou, por sua resposta, a disposição de afastar-se daquilo que precisava ser corrigido e de restabelecer sua relação com o apóstolo.

Assim, a pureza mencionada no versículo 11 não deve ser confundida com a santificação espiritual recebida em Cristo. Trata-se da avaliação que Paulo faz da resposta dos coríntios a uma questão específica.

A tristeza experimentada pela comunidade produziu, portanto, uma mudança de entendimento e de disposição cujas consequências puderam ser reconhecidas pelo apóstolo.

Paulo não se alegrou porque os coríntios sofreram, mas porque, diante da advertência apostólica, reconsideraram seu entendimento e responderam de maneira correspondente à instrução recebida.

A declaração de que a tristeza segundo Deus produz arrependimento para salvação não estabelece a tristeza emocional como fundamento da salvação, tampouco apresenta a reforma dos comportamentos como condição para alcançar a vida eterna.

O arrependimento anunciado no evangelho exige que o homem abandone as concepções contrárias à verdade divina e reconheça em Jesus o Cristo, o Filho de Deus, mediante o qual recebe a salvação prometida.

Entretanto, a necessidade de mudar o entendimento não desaparece depois da regeneração. Os cristãos continuam sujeitos à instrução e à correção, pois podem conservar concepções equivocadas ou adotar comportamentos incompatíveis com a verdade que professam.

Foi o que ocorreu com os coríntios. A carta apostólica provocou tristeza, mas o resultado que alegrou Paulo não foi o sofrimento dos destinatários. Foi a mudança de entendimento e de disposição evidenciada pelo cuidado, pela defesa, pela indignação, pelo temor e pelo zelo.

Portanto, é necessário distinguir o arrependimento para salvação, cujo conteúdo fundamental é a verdade acerca de Cristo, das mudanças de entendimento exigidas daqueles que já foram regenerados.

Em ambos os casos, a tristeza não constitui o arrependimento propriamente dito. O elemento fundamental é a resposta à verdade anunciada, enquanto as consequências práticas demonstram como essa mudança se manifestou. 

O zelo dos cristãos – 2 Coríntios 7:12-13

“12 Portanto, ainda que vos escrevi, não foi por causa do que fez o agravo, nem por causa do que sofreu o agravo, mas para que o vosso grande cuidado por nós fosse manifesto diante de Deus. 13 Por isso fomos consolados pela vossa consolação, e muito mais nos alegramos pela alegria de Tito, porque o seu espírito foi recreado por vós todos.” (2 Coríntios 7:12-13).

Após descrever os resultados da tristeza segundo Deus, Paulo esclarece o propósito que o levou a escrever aos coríntios. Embora a carta estivesse relacionada a uma injustiça cometida e envolvesse tanto aquele que praticou o agravo quanto aquele que o sofreu, o apóstolo destaca que seu objetivo não se limitava à situação particular que havia motivado a advertência.

Sua preocupação era que o cuidado dos coríntios pelos ministros do evangelho se tornasse manifesto diante de Deus.

A declaração merece atenção:

“Portanto, ainda que vos escrevi, não foi por causa do que fez o agravo, nem por causa do que sofreu o agravo, mas para que o vosso grande cuidado por nós fosse manifesto diante de Deus” (2 Coríntios 7:12).

Ao empregar a construção “não foi por causa […] nem por causa […], mas para que”, Paulo desloca a atenção dos envolvidos diretamente no agravo para o resultado que pretendia alcançar na comunidade.

Isso não significa que a injustiça fosse irrelevante ou que o apóstolo não estivesse interessado em sua correção. Significa que sua preocupação ultrapassava a solução de uma controvérsia individual, alcançando a disposição dos coríntios diante da instrução apostólica.

Nos versículos anteriores, Paulo havia mencionado o cuidado, a defesa, a indignação, o temor, a saudade e o zelo produzidos pela tristeza segundo Deus (2 Coríntios 7:11). Agora, esclarece que essas manifestações tornaram evidente o cuidado que os destinatários nutriam por aqueles que lhes haviam anunciado o evangelho.

O arrependimento, portanto, não permaneceu restrito à mudança de entendimento acerca da questão abordada. Produziu uma disposição favorável à instrução recebida e contribuiu para restaurar a confiança que havia sido comprometida.

Essa relação permite compreender por que Paulo atribuiu tanta importância à resposta da comunidade. A controvérsia que motivara a carta não deveria obscurecer o vínculo estabelecido entre o apóstolo e os cristãos por meio do evangelho.

A finalidade da advertência não era simplesmente identificar o responsável pelo agravo ou defender aquele que o havia sofrido, mas conduzir os destinatários a reconhecer a importância da verdade anunciada e da comunhão com aqueles que a proclamavam.

Por isso, Paulo declara que o cuidado dos coríntios se tornou manifesto diante de Deus. A expressão ressalta a seriedade da resposta apresentada, pois a disposição da comunidade não se limitava à tentativa de agradar ao apóstolo, mas envolvia sua responsabilidade perante o Senhor.

No versículo 13, Paulo apresenta a consequência dessa mudança:

“Por isso fomos consolados pela vossa consolação, e muito mais nos alegramos pela alegria de Tito, porque o seu espírito foi recreado por vós todos” (2 Coríntios 7:13).

O consolo experimentado pelo apóstolo estava diretamente relacionado à resposta favorável dos coríntios. A notícia de que haviam acolhido a advertência e demonstrado cuidado dissipou os temores que anteriormente o haviam afligido.

Entretanto, a alegria de Paulo foi ampliada pela alegria de Tito.

O companheiro não apenas trouxe notícias favoráveis da comunidade, mas havia sido pessoalmente consolado pelos destinatários. Paulo declara que seu espírito foi recreado por todos, expressão que evidencia o alívio e o ânimo experimentados por Tito em razão da maneira como foi recebido.

Essa observação é importante porque o cuidado dos coríntios não ficou restrito a declarações de afeto dirigidas a Paulo. Manifestou-se concretamente na recepção dispensada àquele que o representava.

A mesma comunidade que havia sido entristecida pela advertência apostólica tornou-se motivo de consolação para os ministros do evangelho. A tristeza inicial, portanto, não permaneceu sem resultado, mas conduziu a uma resposta que produziu alegria e restabeleceu a confiança.

É significativo que Paulo não atribua essa consolação à simples solução de uma divergência entre indivíduos. Seu regozijo estava relacionado ao cuidado demonstrado pelos coríntios e à disposição favorável que manifestaram diante da mensagem recebida.

Assim, o zelo dos coríntios constitui uma das evidências do arrependimento descrito anteriormente. A carta não tinha a tristeza como finalidade, mas a mudança de entendimento e de disposição que permitiria restaurar a comunhão entre os destinatários e aqueles que lhes haviam anunciado o evangelho.

A confiança restaurada — 2 Coríntios 7:14–16

“14 Porque, se nalguma coisa me gloriei de vós para com ele, não fiquei envergonhado; mas, como vos dissemos tudo com verdade, também a nossa glória para com Tito se achou verdadeira. 15 E o seu entranhável afeto para convosco é mais abundante, lembrando-se da obediência de vós todos, e de como o recebestes com temor e tremor. 16 Regozijo-me de em tudo poder confiar em vós.” (2 Coríntios 7:14-16).

Ao concluir o relato sobre o consolo recebido mediante a chegada de Tito, Paulo reafirma a confiança que depositava nos cristãos de Corinto. Antes de enviar seu colaborador à comunidade, o apóstolo havia expressado uma avaliação favorável acerca dos irmãos, gloriando-se deles diante de Tito.

A maneira como os coríntios receberam o companheiro confirmou aquilo que Paulo havia declarado. Por isso, o apóstolo afirma que não ficou envergonhado, pois o que havia dito a respeito dos destinatários correspondeu à realidade encontrada por Tito.

“Porque, se nalguma coisa me gloriei de vós para com ele, não fiquei envergonhado; mas, como vos dissemos tudo com verdade, também a nossa glória para com Tito se achou verdadeira” (2 Coríntios 7:14).

Paulo estabelece uma relação entre a veracidade daquilo que havia anunciado aos coríntios e a sinceridade de sua avaliação acerca deles. Assim como lhes havia falado com verdade, também se mostrou verdadeiro ao expressar diante de Tito sua confiança na comunidade.

Essa declaração é particularmente significativa porque a correspondência apostólica revela que a relação entre Paulo e os coríntios havia enfrentado dificuldades. Entretanto, tais circunstâncias não impediram o apóstolo de reconhecer aquilo que havia de favorável entre os irmãos.

O resultado confirmou sua confiança. Tito encontrou uma comunidade disposta a acolhê-lo e a atender à advertência apostólica.

No versículo 15, Paulo acrescenta que o entranhável afeto de Tito pelos coríntios havia se tornado ainda mais abundante:

“E o seu entranhável afeto para convosco é mais abundante, lembrando-se da obediência de vós todos, e de como o recebestes com temor e tremor” (2 Coríntios 7:15).

A expressão “entranhável afeto” traduz o substantivo grego splánchna (σπλάγχνα), utilizado figuradamente para expressar afeição profunda. O sentimento de Tito pelos coríntios foi intensificado pela maneira como o receberam e pela obediência que demonstraram.

Essa obediência merece atenção especial. Paulo não está apresentando a submissão a Tito como uma condição para a salvação, tampouco estabelecendo que os cristãos deveriam obedecer aos ministros do evangelho como se estes fossem senhores de sua fé.

O que se observa é que os coríntios acolheram aquele que lhes havia sido enviado e corresponderam à instrução recebida. Considerando o mandamento de Cristo, essa atitude também pode ser compreendida como uma manifestação concreta de amor fraternal.

Jesus havia ordenado:

“Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João 13:34–35).

O mandamento não se limitava à manifestação verbal de sentimentos. Amar uns aos outros envolvia acolher os irmãos e dispensar-lhes consideração, cuidado e respeito, independentemente das diferenças existentes entre os membros da comunidade.

O apóstolo João apresenta a fé em Cristo e o amor fraternal como elementos centrais do mandamento divino:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1 João 3:23).

Dessa forma, os coríntios, que já haviam recebido o evangelho, deveriam conduzir suas relações conforme a verdade anunciada por Cristo. A maneira como receberam Tito demonstrou que não permaneceram indiferentes à instrução apostólica, mas corresponderam ao amor que deveria caracterizar aqueles que pertencem ao Senhor.

Essa orientação também aparece na Epístola aos Romanos:

“Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (Romanos 12:10).

A referência à honra dispensada aos irmãos ajuda a compreender a recepção oferecida a Tito. Não se tratava simplesmente de reconhecer sua posição como colaborador de Paulo, mas de acolhê-lo com a consideração devida a um irmão em Cristo.

É nesse contexto que se deve examinar a expressão “temor e tremor”.

No original grego, Paulo emprega metà phóbou kaì trómou (μετὰ φόβου καὶ τρόμου), expressão que pode transmitir a ideia de temor, reverência, seriedade e profunda solicitude, conforme o contexto em que aparece.

No caso dos coríntios, não há necessidade de concluir que estavam aterrorizados diante de Tito ou que o receberam por medo de sua autoridade pessoal. A expressão pode ser compreendida à luz da obediência mencionada pelo próprio apóstolo, indicando a seriedade com que os destinatários acolheram seu colaborador e atenderam à instrução recebida.

A recepção dispensada a Tito, portanto, pode ser considerada uma demonstração de obediência ao mandamento de Cristo de amar uns aos outros. O temor e o tremor caracterizam a seriedade dessa atitude, enquanto o acolhimento e o cuidado manifestados pela comunidade evidenciam o amor fraternal.

Essa distinção é importante porque a obediência ao evangelho não deve ser confundida com a observância de preceitos destinados à obtenção da regeneração. Os coríntios já pertenciam a Cristo; a necessidade de corrigir seu entendimento e sua disposição dizia respeito à maneira como deveriam proceder em suas relações.

Nos versículos anteriores, Paulo havia explicado que a tristeza provocada pela carta produziu arrependimento, manifestado em cuidado, defesa, indignação, temor, saudade e zelo (2 Coríntios 7:9–11).

Agora, ao mencionar a recepção de Tito, o apóstolo apresenta uma expressão concreta daquela mudança. Os coríntios não apenas reconsideraram a questão que havia motivado a advertência, mas demonstraram uma disposição favorável à comunhão fraternal.

A obediência e o amor manifestados pela comunidade também explicam por que o entranhável afeto de Tito se tornou mais abundante. Ao recordar a maneira como foi recebido, o colaborador reconhecia nos irmãos uma atitude correspondente à verdade que professavam.

Desse modo, a alegria de Tito não decorria simplesmente de ter sido respeitado como representante de Paulo, mas também do acolhimento e do cuidado que recebeu dos cristãos.

O resultado dessa experiência foi duplo: Tito passou a nutrir ainda maior afeto pelos coríntios, e Paulo teve confirmada a confiança que havia depositado neles.

Por isso, o apóstolo encerra o capítulo declarando:

“Regozijo-me de em tudo poder confiar em vós” (2 Coríntios 7:16).

A declaração constitui uma conclusão significativa para o desenvolvimento do capítulo. A mesma comunidade que havia sido entristecida pela advertência apostólica tornou-se motivo de alegria e consolação.

O apelo apresentado anteriormente — “Recebei-nos em vossos corações” (2 Coríntios 7:2) — encontra sua correspondência na confiança manifestada ao final do capítulo. Paulo desejava que os coríntios reconhecessem a sinceridade de seu ministério, enquanto a resposta dos destinatários demonstrou que a comunhão entre eles permanecia.

A finalidade da correção apostólica, portanto, não era produzir tristeza nem estabelecer uma relação de sujeição pessoal aos ministros do evangelho. O propósito era instruir os cristãos, corrigir seu entendimento e preservar a comunhão fundamentada na verdade de Cristo.

Assim, a recepção dispensada a Tito pode ser compreendida como uma manifestação concreta da obediência ao mandamento de Cristo de amar uns aos outros. A tristeza inicial produziu arrependimento, o arrependimento manifestou-se no zelo e no cuidado, e o amor fraternal demonstrado pelos coríntios fortaleceu o afeto de Tito e confirmou a confiança de Paulo.

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