Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito

‘Violência’ e ‘força’ são figuras que os profetas utilizavam para fazer referencia a falta de confiança em Deus e a disposição do povo em oferecer sacrifícios, Jesus também utilizou essas figuras para asseverar aos seus interlocutores, que, desde os dias dos profetas, até aquele momento, os homens se ‘apoderavam’ do reino dos céus à força, ou seja, confiados que eram descendência de Abraão e oferecendo sacrifícios!

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As bem-aventuranças e o ministério de Jesus Cristo

Uma mudança de concepção (metanoia) nos ouvintes de Jesus era imprescindível, pois tinham zelo de Deus, mas, como profetizou Davi, sem entendimento (Sl 53:3). Por não conhecerem a justiça de Deus, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeitando à justiça superior: a que vem de Deus: “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:3).


Parte II

Introdução

Este texto é a segunda parte do artigo “O Sermão da Montanha e o espírito inatingível da Lei”, disponível no Portal Estudos Bíblicos. Caso não tenha lido a primeira parte desse artigo, recomendamos a leitura da primeira parte, a fim de se ter compreensão plena da exposição a seguir.

Na primeira parte do artigo, foram analisadas as beatitudes, através do registro no Evangelho segundo Mateus e, agora, daremos continuidade à análise das beatitudes, por meio do registro efetuado pelo apóstolo Lucas, com especial destaque no público alvo do discurso de Jesus.

Vale salientar que a condição de ‘pobres bem-aventurados’ não tem relação com a condição financeira do indivíduo, pois, entre os apóstolos, havia um médico e um cobrador de impostos e, mesmo assim, Jesus classificou os seus discípulos como pobres.

Se a condição ‘pobre’ bem-aventurado fosse decorrente de questões socioeconômicas, no mínimo, Lucas e Mateus seriam exceções à regra. A bem-aventurança é uma espécie de hebraísmo[1], expressão linguística muito usual nas Escrituras, como encontramos no Salmo 32:

BEM-AVENTURADO aquele cuja transgressão é perdoada e cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não imputa maldade e, em cujo espírito, não há engano” (Sl 32:1-2).

Para um judeu da época de Jesus, falar no aramaico asheré ou no grego makários (bem-estar, abençoados, felizes, bem-aventurados,ditosos, venturosos), pelo contexto, teria o mesmo efeito: seriam remetidos às exclamações enfáticas que permeiam as Escrituras.

 

O evangelista Lucas e as beatitudes

“E, descendo com eles, parou num lugar plano e, também, um grande número de seus discípulos e grande multidão de povo de toda a Judéia, de Jerusalém e da costa marítima de Tiro e de Sidom; os quais tinham vindo para ouvi-lo e serem curados das suas enfermidades, como, também, os atormentados dos espíritos imundos; e eram curados. E toda a multidão procurava tocar-lhe, porque saía dele virtude e curava a todos. E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem e vos injuriarem e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas” (Lc 6:17-23).

Enquanto o evangelista Mateus registrou o Sermão da Montanha focado na mensagem do discurso, o evangelista Lucas incluiu no registro da mensagem uma descrição do local onde o discurso foi feito, bem como dá detalhes pertinentes ao público que estava ouvindo o Mestre e quando Ele muda a abordagem, em função dos grupos de pessoas que compunham a multidão.

O evangelista Lucas narra que Jesus subiu em um monte para orar e que Ele passou a noite em oração (Lc 6:12). Quando amanheceu, chamou os seus discípulos (seguidores) e, dentre eles, escolheu doze e deu-lhes o nome ‘apóstolos’ (Lc 6:13).

Após a escolha dos doze, Jesus desceu do monte, juntamente com os apóstolos e seus discípulos, e parou em um lugar plano, onde encontrava-se uma outra grande quantidade de discípulos, juntamente com uma grande multidão de diversas regiões da Judéia, Jerusalém e da costa marítima de Tiro e Sidom (Lc 6:17).

Muitos da multidão vieram para ouvir e serem curados por Jesus, pois bastava tocá-Lo para serem livres do mal que lhes afligia (Lc 6:18-19).

O evangelista Mateus enfatiza que Jesus se assentou, ato que indicou à multidão que Ele ia falar, pois à época os mestres ensinavam assentados (Lc 4:20). O evangelista Lucas, por sua vez, evidencia que Jesus selecionou o público alvo da sua mensagem, através de um olhar: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres…” (Lc 6:20).

Jesus olhou para os seus discípulos e enfatizou que eles eram bem-aventurados porque o tão almejado reino dos céus pertencia aos seus seguidores. Entretanto, Jesus não falou abertamente esta verdade, antes disse: “Bem-aventurados vós, os pobres…” (Lc 6:20).

Se os discípulos eram ‘os pobres’ e aos pobres ‘pertence o reino dos céus’, certo é que os discípulos eram ditosos, venturosos, pois estavam de posse do reino dos céus – Cristo (Jo 1:12).

E o que dizia os profetas acerca do reino de Deus?

“Do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto” (Is 9:7).

Os profetas anunciavam que o Messias seria firmado e fortificado com juízo e justiça sobre o trono de Davi. Como o reino é firmado e fortificado em juízo e justiça, e a essência do reino é o principado d’Aquele que se assenta sobre o trono de Davi, quem recebeu o rei está farto de justiça (Jo 1:12).

Os seguidores de Cristo que eram famintos, agora são ditosos, por serem fartos de justiça. A tristeza, o abatimento, foram substituídos por alegria, ou seja, eles foram consolados (Is 61:3).

Ao profetizar acerca do reino do Messias, o Salmista declarou que o rei se compadecerá do necessitado que clamar, como também do aflito e dos necessitados. O rei não fará acepção: atenderá o necessitado que clamar, de modo que todas as nações o servirão: “E todos os reis se prostrarão perante ele; todas as nações o servirão. Porque ele livrará ao necessitado quando clamar, como também ao aflito e ao que não tem quem o ajude. Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará as almas dos necessitados” (Sl 72:11-13).

Quem são os pobres, aflitos e necessitados? Responde-se: – Aqueles que invocam o nome do Senhor!

“E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque no monte Sião e, em Jerusalém, haverá livramento, assim como disse o SENHOR e, entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar” (Jl 2:32);

“Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará as almas dos necessitados (Sl 72:13).

O publicano, quando orou, de pé e ao longe, no templo, portou-se como necessitado, pois invocou a Deus, dizendo: – “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!”  (Lc 18:13). O publicano invocou o Senhor como pobre, tradução do termo grego ‘ptojói’, que remete a alguém em absoluta miséria, penúria total. Reconheceu a sua condição miserável: – ‘Sou pecador’!

E os necessitados serão livres do que? Da opressão econômica? Do descaso social? Das políticas governamentais opressoras? Das lutas de classes? Da discriminação racial? Não! Ele libertará o homem que clamar – do engano, da violência (Sl 72:14).

Mais adiante, abordaremos essas duas figuras: ‘engano’ e ‘violência’, que compõem a parábola do Salmo de Salomão.

Cristo é a pedra de tropeço, a rocha de escândalo, colocada em Israel por Deus e todo aquele que n’Ele cresse, não seria confundido. Enquanto os filhos de Israel esperavam um rei que estabelecesse um governo, o rei veio para estabelecer um santuário. Antes de restaurar o reino de Israel, Ele veio edificar um templo – a Igreja – um santuário, uma casa de oração para todos os povos: “Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço e rocha de escândalo às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” (Is 8:14); “Também os levarei ao meu santo monte e os alegrarei na minha casa de oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar; porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56:7).

Os discípulos creram em Cristo – a rocha de escândalo para as duas casas de Israel (Judá e Israel) – portanto, os discípulos não foram confundidos, daí o título de bem-aventurados. Ao crerem no enviado de Deus, os discípulos estavam de posse do reino dos céus, portanto, eram fartos de justiça e consolados por Deus. Por terem recebido o grande rei, o Filho de Davi, foram feitos filhos de Deus (Jo 1:12).

Jesus frisou que os discípulos eram bem-aventurados quando odiados e quando os homens buscassem separá-los, injuriando e rejeitando-os como maus, por causa d’Ele. Quando acontecesse de serem injuriados e rejeitados, era para os discípulos não se entristecerem, antes deveriam exultar, folgar, porque a recompensa do Pai celeste seria grande (Mt 6:19-20), visto que, os filhos de Israel, no passado, também haviam perseguido os profetas de Deus.

Diferente dos escribas e fariseus que ajuntavam tesouro na terra, os discípulos, quando perseguidos, estariam ajuntando tesouro nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem e nem está ao alcance de ladrões (Mt 6:19, compare com Mt 5:12).

 

Peso

O evangelista Lucas registrou alguns ‘ais’ anunciados por Jesus, durante a exposição do Sermão do monte e o evangelista Mateus, por sua vez, não faz esse registro. Somente no capítulo 23 o evangelista Mateus registra a censura do Senhor Jesus contra os líderes judaicos, porém, em outro contexto.

Após anunciar a venturosa alegria dos discípulos, o evangelista Lucas registra uma censura através de imprecações de ‘ais’, que Jesus fez, desfavorável a algumas pessoas que estavam ouvindo o discurso.

Seria contrassenso os discípulos serem congratulados e censurados no mesmo discurso. Os seguidores de Cristo não poderiam ser ‘pobres’ e ‘ricos’, portanto, a censura de Jesus torna evidente que o público alvo do Sermão mudou. Observe:

“Mas ai de vós, ricos! Porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós, quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” (Lc 6:24-26).

A conjunção adversativa ‘mas’ e o peso ‘ai’, indicam que Jesus deixou de falar com os seus seguidores e que o juízo que estava sendo anunciado tinha por alvo um outro grupo de pessoas. Isto significa que Jesus deixou de olhar para os seus discípulos e direcionou o seu olhar para um outro público, em meio à multidão: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós…” (Lc 6:20).

Para censurar certo grupo de pessoas em meio à multidão, Jesus introduz a figura do ‘rico’. Jesus estava falando da condição social de algumas pessoas em meio à multidão? Não!

Qual o significado da figura dos ‘ricos’ no discurso de Jesus?

O salmista Asafe fez uma descrição das pessoas que se enquadram no perfil dos ‘ricos’:

“3 Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios.

4 Porque não há apertos na sua morte, mas firme está a sua força.

5 Não se acham em trabalhos como outros homens, nem são afligidos como outros homens.

6 Por isso a soberba os cerca como um colar; vestem-se de violência como de adorno.

7 Os olhos deles estão inchados de gordura; eles têm mais do que o coração podia desejar.

8 São corrompidos e tratam maliciosamente de opressão; falam arrogantemente.

9 Põem as suas bocas contra os céus e as suas línguas andam pela terra.

10 Por isso, o povo dele volta aqui e águas de copo cheio se lhes espremem.

11 E eles dizem: Como o sabe Deus? Há conhecimento no Altíssimo?

12 Eis que estes são ímpios e prosperam no mundo; aumentam em riquezas (Sl 73:3-12).

Para ler esse salmo e compreender as figuras utilizadas pelo salmista Asafe é necessário conhecimento básico de alguns recursos utilizados para a construção da poesia hebraica.

Os salmos, provérbios e a maioria das profecias são construídos através de um elemento formal denominado paralelismo. A poesia hebraica não possui rima, mas, sim, um encadeamento lógico que substitui a rima e o ritmo, que muitos chamam de “ritmo de sentido”.

O verso 3: “Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios”, foi construído através de um paralelismo sintético (ou: formal, construtivo), em que a segunda frase do verso amplia e acrescenta um conceito à primeira frase.

Asafe, profeticamente, diz que ‘tinha inveja dos néscios’, dos loucos e, em seguida, a justificativa: por causa da prosperidade dos ímpios! Se a inveja decorre da prosperidade, certo é que os ‘néscios’ são ‘ímpios’ e vice-versa.

Tudo o que é descrito nos versos seguintes rementem aos ímpios, por conseguinte, aos néscios e/ou loucos. Daí outra pergunta? Quem são os loucos? Ou, quem são os ímpios?

Considerando o que o apóstolo Paulo asseverou: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” (Rm 3:19), visto que os judeus se achavam excessão, e que o termo ‘lei’ empregado por ele engloba a lei, os profetas, os provérbios e os salmos (Escrituras), os ‘loucos’ em questão refere-se aos filhos de Israel, como foi dito por Moisés:

“Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai, que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” (Dt 32:6).

Quando é dito no Salmo 74: “Lembra-te disto: que o inimigo afrontou ao SENHOR e que um povo louco blasfemou o teu nome” (Sl 74:18). O inimigo que afrontou ao Senhor diz da Babilônia que derribou o tempo e ateou fogo ao santuário. Já o povo louco que ‘blasfemou’ o nome do Senhor diz dos filhos de Israel, como diz o profeta: “Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós” (Rm 2:24).

A censura de Deus recai sobre o seu próprio povo:

“Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22);

“Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus” (Jr 5:4);

“Chegarão os dias da punição, chegarão os dias da retribuição; Israel o saberá; o profeta é um insensato, o homem de espírito é um louco; por causa da abundância da tua iniquidade, também haverá grande ódio” (Os 9:7).

Retornando ao Salmo 73, o salmista descreve os ‘loucos’, ou o povo de Israel com outras figuras: a ‘soberba’ os envolvem como um colar, vestidos de ‘violência’ (Sl 73:6), ‘prosperam’ no mundo e aumentam em ‘riqueza’ (Sl 73:12).

O salmista estaria falando do acumulo de riquezas materiais? Não! A figura possui outro significado.

O que seria a violência que usam como vestimenta? O profeta Isaias responde:

“As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade e obra de violência há nas suas mãos” (Is 59:6).

Em lugar de vestes de justiça produzidas por Deus, os ‘loucos’ se cobrem com obras de iniquidade, trapos de imundície que, diante de Deus, são obras de violência. Em lugar do espírito do Senhor (palavra), preferem a força: “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” (Zc 4:6).

Por que violência? Porque a palavra do Senhor na boca dos ‘loucos’ é transtornada em ‘opressão’ e ‘engano’, como se lê: “Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do SENHOR um opróbrio e ludíbrio todo o dia” (Jr 20:8).

Um exemplo de violência é trocar a obediência pelo sacrifício. Enquanto Deus requer do homem a obediência, os sacerdotes incitavam o povo ao sacrifício. Deus requer que o homem seja pobre, abatido de espírito, ou seja, que obedeça (tremer) a sua palavra, porém, cada qual seguiam os desvarios dos seus próprios corações e acabavam praticando a ‘violência’ do sacrifício, como se lê:

“Porque a minha mão fez todas estas coisas e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito e que treme da minha palavra. Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão; quem oferece uma oblação é como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos e a sua alma se deleita nas suas abominações” (Is 66:2-3).

A violência de quem mata um homem é comparável à violência de quem sacrificava um boi a Deus, mas que não se sujeita a Ele.

Por toda a Escritura é utilizada a figura do rico, do violento, do mentiroso, do perverso, do maligno, etc.

“Porque os seus ricos estão cheios de violência, e os seus habitantes falam mentiras e a sua língua é enganosa na sua boca” (Mq 6:12);

“Porque o dia do SENHOR dos Exércitos será contra todo o soberbo e altivo, e contra todo o que se exalta, para que seja abatido” (Is 2:12);

“Estas seis coisas o SENHOR odeia e a sétima a sua alma abomina: Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, a testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos” (Pv 6:16-19).

Em função de outras passagens do Novo Testamento, verifica-se que a figura dos ‘ricos’, à época de Jesus e dos apóstolos, fazia referência aos escribas, aos fariseus e aos príncipes do povo de Israel. Os homens que condenaram e mataram a Cristo e arrastavam os seus seguidores aos tribunais eram ‘ricos’!

“Porventura, não vos oprimem os ricos e não vos arrastam aos tribunais? Porventura, não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?” (Tg 2:6-7).

“EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas de traça. O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós e comerá como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras e que por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos exércitos. Deliciosamente, vivestes sobre a terra e vos deleitastes; cevastes os vossos corações, como num dia de matança. Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” (Tg 5:1-6).

Os textos de Lucas e de Tiago contra os ricos não possuem viés marxista, não abordam lutas de classes, não visam questões trabalhistas e sindicalistas e nem dão suporte à teologia da libertação.

Os ‘ricos’ como figura nas Escrituras não são decorrentes da ordem socioeconômica com base escravocrata, não deriva do capitalismo selvagem e nem decorre de ideologias de governo, etc.

‘Rico’ é uma figura empregada pelos profetas, para fazer referência àqueles que confiavam em si mesmos, que faziam da carne a sua força e o coração se apartava do Senhor (Jr 17:5).

Os profetas na Antiga Aliança descreveram tais homens como insensatos, loucos, que ajuntavam riquezas, mas não retamente (Jr 17:11; Sl 49:5-6 e 12-13; Sl 52:7).

O profeta Amós anunciou o peso do Senhor sobre homens ímpios que estavam em repouso na cidade de Jerusalém. Que, apesar da invasão inimiga iminente por causa da transgressão em Israel, continuavam deitados em camas de marfim, comiam cordeiros e bezerros cevados, cantavam ao som da lira, bebiam vinho e se ungiam com o mais excelente óleo, mas não se afligiam pela ruina da casa de Israel (Am 6:1-7).

Apesar da aparente segurança, os que viviam uma vida regalada em Jerusalém seriam conduzidos ao exílio (Am 6:7).

A figura do ‘rico’ foi utilizada pelos profetas para compor inúmeros símiles e diversas parábolas, e é com base no que foi anunciado na lei, profetas e nos salmos, etc., que Jesus apresentou a parábola do homem rico:

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros e edificarei outros maiores, ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi à minha alma: alma, tens em depósito muitos bens, para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas, Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus” (Lc 12:16 -21).

A quem Jesus propôs a parábola do homem rico? Para entendermos a parábola, primeiro temos que identificar quem era o público alvo da mensagem, pois pela quantidade de parábolas, até mesmo os discípulos ficaram confusos e perguntaram: “Senhor, dizes esta parábola a nós, ou a todos” (Lc 12:41).

Havia ajuntado milhares de pessoas ao redor de Jesus, tanto que empurravam uns aos outros (Lc 12:1). Inicialmente, Jesus fala com os seus discípulos, utilizando o fermento com figura para alertá-los da perniciosidade contida na doutrina dos fariseus (Lc 12:1).

Mas, enquanto falava aos seus discípulos, um homem O interrompeu, rogando: – “Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança” (Lc 12:13). Após repreender o homem, deixando claro que a sua função não era de juiz ou divisor de herança, ordenou aos seus ouvintes que se abstivessem da ‘avareza’.

Seria a ‘avareza’ abordada por Jesus um dos sete pecados capitais? Jesus estava falando de quem tem excessivo apego ao dinheiro?

Ora, anteriormente Jesus havia determinado cautela para com o ‘fermento’ dos fariseus, que era a hipocrisia (Lc 12:1; Mt 16:12). Jesus não estava falando de fermento biológico ou fermento químico ou de pão feito de trigo.

Jesus, também, não estava dizendo que a hipocrisia dos escribas e fariseus se resumia em fingirem ter crenças, virtudes, ideias ou sentimentos que não possuíam.

Na verdade, Jesus estava alertando quanto ao preceito de homens que era ensinado pelos escribas e fariseus. Substituir a palavra de Deus por preceitos de homens é o que os profetas declaravam como sendo ‘hipocrisia’. Mesmo que o homem creia piamente que o seu posicionamento seja correto, se não é conforme o mandamento de Deus, é hipocrisia: “Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mt 15:9).

A ‘hipocrisia’ não diz da falsidade, dissimulação, fingimento, etc., nas relações interpessoais. Certo é que, do ponto de vista das relações humanas, a hipocrisia é perniciosa e reprovável, porém, a hipocrisia abordada por Cristo tem relação com o que foi anunciado pelos profetas:

“Porque os guias deste povo são enganadores e os que por eles são guiados são destruídos. Por isso o Senhor não se regozija nos seus jovens e não se compadecerá dos seus órfãos e das suas viúvas, porque todos eles são hipócritas e malfazejos e toda a boca profere doidices; e nem com tudo isto cessou a sua ira, mas ainda está estendida a sua mão” (Is 9:16-17);

“O hipócrita com a boca destrói o seu próximo, mas os justos se libertam pelo conhecimento” (Pv 11:9).

O ‘hipócrita’ é o que diz ‘doidices’, que em lugar de anunciar a palavra do Senhor, que satisfaz o faminto e sacia o sedento, profere o engano, preceitos de homens que não satisfazem a alma faminta por justiça: “Porque o vil fala obscenidade e o seu coração pratica a iniquidade, para usar de hipocrisia e para proferir mentiras contra o SENHOR, para deixar vazia a alma do faminto e fazer com que o sedento venha a ter falta de bebida” (Is 32:6).

Se a ‘hipocrisia’ diz da doutrina de engano, certo é que a ‘avareza’ não diz daquele que está em busca do lucro econômico mas, sim, do que busca a falsidade, seguindo o devaneio do seu coração corrompido: “E eles vêm a ti, como o povo costumava vir e se assentam diante de ti, como meu povo e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza” (Ez 33:31); “Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade” (Jr 6:13).

Ter zelo de Deus, mas não ter entendimento, ou seja, o conhecimento, é o mesmo que hipocrisia e avareza (Rm 10:1-3; Pv 19:2). Não é possível servir a dois senhores, lisonjear um com a boca e o coração seguir a avareza, ou seja, servir a Deus e a Mamom: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Ninguém pode servir a Deus e seguir a sua avareza. Aquele que segue a sua ‘avareza’ elegeu o seu próprio ventre como deus. Lisonjeia a Deus com a boca, mas permanece sendo senhor de si mesmo, ou seja, não se humilha (se faz servo) debaixo das potentes mãos de Deus: “Porque, os tais, não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” (Rm 16:18).

Jesus destaca que a vida do homem não consiste na abundância de bens que possui (Lc 12:15), isso porque, as Escrituras evidenciam que a vida está em ser um abatido de espírito (Is 57:15), ou seja, alguém que se humilha a si mesmo para servir a Deus. A vida está na palavra de Deus e não no pão cotidiano (Dt 8:3).

Após Jesus anunciar que certo homem alcançou grande lucro e arrazoava consigo mesmo, que construiria celeiros maiores para poder dizer: – “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos. Descansa, come, bebe e folga” (Lc 12:19) e que Deus lhe disse: – “Louco, esta noite te pedirão a tua alma. Então, o que tens preparado, para quem será?”, Jesus compara ao homem louco qualquer que ajunta tesouro na terra e não é rico para com Deus (Lc 12:21).

O homem rico da parábola é louco por não ajuntar tesouro nos céus e não por ser abastado economicamente. A parábola introduz uma similitude entre aquele que ajunta bens materiais e não sabe quem desfrutará, com aqueles que ajuntam recompensa aqui, e não são ricos para com Deus (Mt 5:19-21).

A parábola do homem rico deriva do que escreveu o Salmista Davi: “Todo homem anda como uma sombra: em vão se inquieta; amontoa riquezas, sem saber quem as levará” (Sl 39:6). O homem rico foi nomeado ‘louco’ por causa do que foi anunciado por Jeremias: “Como a perdiz, que choca ovos que não pôs, assim é aquele que ajunta riquezas, mas não retamente; no meio de seus dias as deixará e no seu fim será um insensato (Jr 17:11).

O homem rico era um insensato, um louco, pois o que estava ajuntando não o tornava rico para com Deus. O termo ‘louco’ é uma figura que se aplica aos filhos de Israel, desde Moisés: “Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” (Dt 32:6); “Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios?” (Sl 94:8).

Como tudo o que a lei diz, diz aos que estão debaixo da lei, ou seja, refere-se aos judeus, a figura do ‘louco’ aplica somente aos judeus, o que demonstra que a parábola do homem rico tinha como figurante um judeu (Rm 3:19). Quando é dito: “Todo homem anda como uma sombra”, o texto é inclusivo, demonstrando que os judeus não são exceção à regra, como equivocadamente achavam.

A parábola do homem rico era instrução para os discípulos, mas, como Jesus falava por parábolas ao povo e expôs um grande número de parábolas, isso trouxe um questionamento: – “Senhor, dizes esta parábola a nós, ou a todos?” (Lc 12:41).

Quando era anunciado algo à multidão, o evangelista Lucas deixou frisado: “Disse também à multidão: Quando vedes a nuvem que vem do ocidente, logo dizeis: Lá vem chuva e assim sucede” (Lc 12:54), o que evidencia a importância de se observar o público alvo da mensagem.

Retornemos às beatitudes anunciadas por Jesus aos seus discípulos, segundo o que foi registrado pelo evangelista Lucas:

“Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque, eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas” (Lc 6:20-23).

Após anunciar as bem-aventuranças, Jesus anuncia um peso contra algumas pessoas, em meio à multidão que estava ouvindo o discurso, ou seja, os ‘ais’ (peso) não eram em desfavor aos discípulos:

“Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” (Lc 6:24-26).

Os escribas e fariseus deviam observar que, enquanto todos os homens diziam coisas boas acerca deles, assim também fizeram no passado os filhos de Israel aos falsos profetas. Os líderes da religião judaica eram os fartos que, em breve, sentiriam o quanto eram miseráveis. Agora estavam alegres, mas em breve haveriam de se lamentar e chorar.

Após anunciar o peso do Senhor através de ‘ais’ contra os líderes da religião, Jesus se dirige à multidão, mudando o público alvo da sua mensagem novamente, dizendo: “Mas a vós, que isto ouvis…” (Lc 6:27).

Após estabelecer um contraponto entre a condição dos Seus seguidores e os mestres da religião judaica através das beatitudes e dos ‘ais’, Jesus se volta à multidão para expor a sua doutrina.

Do capítulo 6 do evangelho de Lucas, dos versos 27 em diante, o público alvo da mensagem de Cristo é a multidão que os escribas e fariseus consideravam maldita: “Mas esta multidão, que não sabe a lei, é maldita” (Jo 7:49).

 

Cristo, a lei e os profetas

“17 Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir.

18 Porque, em verdade, vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido” (Mt 5:17 -18).

O evangelista Mateus não registrou a censura dos escribas e fariseus e o evangelista Lucas, por sua vez, não registrou a relação de Cristo com a lei e os profetas. Lucas não registrou a censura e a lembrança do que foi determinado nas Escrituras e vai direto para a ordem à multidão de amar os inimigos, o que foi feito por Mateus somente a partir do verso 44 do capítulo 5.

A transição do público alvo da mensagem de Cristo é mais perceptível através do registro do evangelista Lucas, como vemos no seguinte apelo: “Mas a vós, que isto ouvis, digo: Amai…” (Lc 6:27), no entanto, essa mesma transição de público ocorre no evangelho de Mateus, quando Jesus diz: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas…” (Mt 5:17).

O pronome na terceira pessoa do plural ‘vós’, e a referência ao que foi dito: beatitudes e censura, indica que Jesus passou a tratar com um outro público: a multidão, deixando de fora os seus discípulos e os líderes da religião judaica (escribas e fariseus).

O público alvo da mensagem de Cristo mudou, pois ele não está mais falando da condição dos seus discípulos (pobres, tristes, mansos, puros de coração, etc.), visto que é impossível ser bem-aventurado e ter grande galardão nos céus (Mt 5:12), quando não se compreende a relação de Cristo com a lei e os profetas.

Ele também não estava falando aos escribas e fariseus (ricos, fartos, etc.), uma vez que a mensagem de Cristo dá uma solução: entrem pela porta estreita (Mt 7:13), pois qualquer que ouvisse a sua doutrina e obedecesse, seria comparável ao homem prudente que constrói a sua casa sobre a rocha (Mt 7:24).

Do capítulo 5 do evangelho segundo Mateus, versos 17 em diante, o leitor terá um discurso voltado para a multidão que, em primeiro lugar, visa esclarecer a relação de Jesus com a lei e os profetas (não vim destruir a lei e os profetas) e, em seguida, alertar que o reino dos céus estava vetado à multidão, caso não adquirissem justiça superior à justiça dos escribas e fariseus (Mt 5:20).

Lembrando que a temática da mensagem de Jesus, desde quando João Batista foi preso, era revolucionar o modo de pensar dos seus concidadãos (Mt 4:12-17), o leitor do Sermão da Montanha precisa estar cônscio de que o sermão tem o escopo de operar uma mudança de compreensão (metanoia) nos judeus.

Mas, para entender o arrependimento (metanoia) exigido por Cristo, primeiro se faz necessário compreender quem eram os judeus e o entendimento que possuíam da lei, pessoas a quem, primeiramente, Jesus foi enviado (Jo 1:11; Mt 15:24; Jr 50:6).

Para o leitor ter noção de quem eram os judeus, basta ler o capítulo 7 do livro dos Atos dos apóstolos, onde o mártir Estêvão faz um resumo preciso da origem e crescimento do povo Judeu.

Os judeus são descendentes do patriarca Abraão, um gentio que veio da Mesopotâmia, antes de fixar residência em Harã. Quando em Harã, Deus apareceu a Abraão e disse-lhe: – “Sai desta terra e dentre a tua parentela para uma terra que Eu te mostrarei” (At 7:2-3).

Abraão deixou os seus parentes e passou a peregrinar nas terras de Canaã (Gn 12:1-5). Deus não deu herança a Abraão em Canaã (At 7:5), pois Abraão viveu como peregrino na terra da promessa (Hb 11:9). Abraão não herdou terras, antes era herdeiro da seguinte promessa: “À tua descendência darei esta terra” (Gn 12:7).

Abraão gerou Isaque, segundo a promessa e Isaque gerou a Jacó e Jacó os doze patriarcas. Os patriarcas cheios de inveja venderam José como escravo, porém Deus o fez governador do Egito e tudo o que foi revelado a Abraão cumpriu-se (At 7:6-7; Gn 15:13-14).

Os filhos de Israel foram feitos escravos no Egito e Deus levantou um profeta – Moisés – e o comissionou para resgatar o seu povo do jugo da servidão, como foi revelado a Abraão. O resgate do povo foi feito com poderosa mão, sendo realizado por Deus muitos prodígios e sinais memoráveis (At 7:34-35).

Moisés profetizou que, dentre os filhos de Israel, Deus levantaria um profeta como Moisés, e que o povo deveria ouvi-Lo (At 7:37). Mas, quando Moisés subiu ao monte Sinai para falar com Deus e ficou quarenta dias e quarenta noites. O povo achou que Moisés estava demorando e que poderia ter morrido e rebelou-se, pois intentou retornar ao Egito (At 7:39).

Por causa da rebeldia do povo, Deus se afastou e os abandonou à própria sorte. Em outras palavras, o Senhor que os seguia no deserto (a pedra) e que concedeu comida e bebida espiritual ‘escondeu’ o seu rosto: “Assim se acenderá a minha ira naquele dia contra ele e desampará-lo-ei, esconderei o meu rosto dele, para que seja devorado; e tantos males e angústias o alcancem, que dirá naquele dia: Não me alcançaram estes males, porque o meu Deus não está no meio de mim? Esconderei, pois, totalmente o meu rosto naquele dia, por todo o mal que tiver feito, por se haverem tornado a outros deuses” (Dt 31:17-18; Dt 32:20; Is 64:7); “E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” (1Co 10:4).

Onde há relato nas Escrituras de uma pedra que seguia os filhos de Israel no deserto e contra quem se rebelaram?

“Porque apregoarei o nome do SENHOR; engrandecei a nosso Deus. Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos são justos; Deus é a verdade e não há nele injustiça; justo e reto é” (Dt 32:3-4 e 15).

A mesma Rocha que serviu de tropeço às duas casas de Israel, visto que os edificadores a rejeitaram (1Pe 2:6-8; Is 8:14; Is 28:16; Sl 118:22). A Rocha que os seguia é o Senhor, que escondeu o seu rosto da casa de Israel, para que aprendessem a esperar n’Ele: “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó e a ele aguardarei” (Is 8:17), pois, só há salvação quando Deus manifesta a sua glória na face de Cristo: “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2Co 4:6).

Manifestar o rosto é o mesmo que resplandecer, de modo que o resplendor da face de Deus é misericórdia e salvação: “O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti” (Nm 6:25); “Faze-nos voltar, ó Deus e faze resplandecer o teu rosto e seremos salvos” (Sl 80:3).

Embora os filhos de Israel oferecessem sacrifícios no deserto por quarenta anos, dizendo que serviam ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó, continuamente eram censurados e repreendidos como transgressores (At 7:42-43).

Deus não se agradou da MAIORIA deles quando percorriam o deserto por serem cobiçosos (torpe ganancia), idólatras, promíscuos (prostituiam), tentadores e murmuradores (1Co 10:5-10).

Havia em Israel aqueles que cobiçavam coisas materiais, reverenciavam outros deuses, que se prostituiam, etc., porém, havia os religiosos que diziam seguir a lei de Deus (como o fariseu que orava no templo agradecendo a Deus por não ser como os demais homens, pois não matava, não roubava, não se prostituía, etc.), e mesmo assim Deus os denominava cobiçosos, idolatras, promíscuos, etc.

Ora, todos esses comportamentos, perniciosos do ponto de vista da moral humana, foram utilizados como figuras para apontar uma realidade espiritual, assim como tudo o que sobreveio sobre Israel foi feito para a Igreja de Cristo como figura (1Co 10:6 e 11).

Moisés protestou contra Israel, dizendo:

“Porque conheço a tua rebelião e a tua dura cerviz; eis que, vivendo eu ainda hoje convosco, rebeldes fostes contra o SENHOR; e quanto mais depois da minha morte?” (Dt 31:27).

O que é a rebelião? A rebelião não é o mesmo que feitiçaria? A mesma feitiçaria que os religiosos tanto apontavam como prática reprovável entre os gentios? Que são a iniquidade e a idolatria? A iniquidade e a idolatria não são o mesmo que persistir no erro (porfiar)? O mesmo julgamento que os filhos de Israel emitiam com relação aos povos vizinhos como iníquos e idólatras, arguia contra eles por rejeitarem a palavra de Deus (Rm 2:1-3).

“Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (1Sm 15:23).

Ao chamar os filhos de Israel de rebeldes e de dura cerviz, Moisés estava chamando-os de feiticeiros, de iníquos e de idólatras. Por que? Ora, basta analisarmos a confissão de Neemias:

“E recusaram ouvir-te e não se lembraram das tuas maravilhas, que lhes fizeste, e endureceram a sua cerviz e, na sua rebelião, levantaram um capitão, a fim de voltarem para a sua servidão; porém tu, ó Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-te e grande em beneficência, tu não os desamparastes” (Ne 9:17).

Em outras palavras, os filhos de Israel, na sua ‘feitiçaria’ (rebelião), levantaram um líder tencionando voltar ao Egito. Queriam permanecer escravos, ou seja, porfiar, o mesmo que iniquidade e idolatria.

É em função da transgressão e da iniquidade que os filhos de Israel são denominados de ‘loucos’, como já vimos acima: “Os loucos, por causa da sua transgressão e por causa das suas iniquidades, são aflitos” (Sl 107:17).

Ora, a maioria das figuras utilizadas pelos profetas para censurarem os filhos de Israel, primeiramente, foram utilizadas por Moisés em seu cântico profético: loucos, dura cerviz, ignorantes, perversos, depravados, Sodoma, Gomorra, veneno, peçonha, víboras, etc. (Dt 32:5-6 e 28-29 e 32-33).

Isaias clamou contra Israel dizendo: “Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra” (Is 1:10). Semelhantemente, clamou Jeremias: “Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer  o mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22). Ezequiel chamou os filhos de Israel de prostituta: “Portanto, ó meretriz, ouve a palavra do SENHOR” (Ez 16:35).

As figuras utilizadas pelos profetas para falar contra os filhos de Israel eram nomes que se davam aos comportamentos desregrados, do ponto de vista de convivência social, porém, essas figuras apontavam para uma realidade espiritual.

Equivocadamente, os filhos de Israel tornaram-se moralistas, legalistas e ritualistas, reprimindo comportamentos humanos desregrados (figuras) e se esqueciam da realidade: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” (Mt 23:23).

Dessa prevaricação surgiram judeus religiosos que percorriam o mar e a terra para tornar um gentio seguidor do judaísmo (prosélito), e, quando conseguiam, o estado do prosélito se tornava duas vezes pior do que os seus instrutores: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós” (Mt 23:15).

Como mestres, os escribas e fariseus eram prevaricadores, ou seja, os interpretes não sabiam interpretar a lei e os profetas “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” (Is 43:27); “Os sacerdotes não disseram: Onde está o SENHOR? E os que tratavam da lei não me conheciam, e os pastores prevaricavam contra mim, e os profetas profetizavam por Baal e andaram após o que é de nenhum proveito” (Jr 2:8); “Lembrai-vos disto, e considerai; trazei-o à memória, ó prevaricadores” (Is 46:8); “Como o prevaricar e mentir contra o SENHOR, e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” (Is 59:13).

Os escribas e fariseus achavam que eram salvos por terem Abraão por pai e não atinavam que, somente, os que tem a mesma fé que Abraão são filhos de Abraão: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mt 3:9); “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque, eu vos digo que, até destas pedras, pode Deus suscitar filhos a Abraão” (Lc 3:8); “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” (Jo 8:33); “Responderam e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão” (Jo 8:39); “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão” (Gl 3:7).

O entendimento dos escribas e fariseus era de que bastava ser descendente da carne e do sangue de um judeu para ter direito à bem-aventurança prometida a Abraão, ou que um gentio se circuncidasse e guardasse as tradições dos anciões.

“1 E AJUNTARAM-SE a ele os fariseus e alguns dos escribas, que tinham vindo de Jerusalém.

2 E, vendo que alguns dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar, os repreendiam.

3 Porque os fariseus, e todos os judeus, conservando a tradição dos antigos, não comem sem lavar as mãos muitas vezes;

4 E, quando voltam do mercado, se não se lavarem, não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal e as camas.

5 Depois perguntaram-lhe os fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem o pão com as mãos por lavar?

6 E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim;

7 Em vão, porém, me honram, Ensinando doutrinas que são mandamentos de homens.

8 Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas.

9 E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição.

10 Porque Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e quem maldisser, ou o pai ou a mãe, certamente morrerá.

11 Vós, porém, dizeis: Se um homem disser ao pai ou à mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta ao Senhor;

12 Nada mais lhe deixais fazer por seu pai ou por sua mãe,

13 Invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas” (Mc 7:1-13).

É em função da má leitura que se faz das Escrituras que muitos não conseguem compreender porque Saul foi rejeitado por Deus, e Davi, um homicida e adúltero, foi considerado um homem segundo o coração de Deus.

Aos olhos de Deus, Saul era feiticeiro, iniquo e idolatra, pois era um homem de torpe ganancia (queria a presença do profeta e sacerdote Samuel somente para ser honrado diante do povo), e hábil em mentir, desviar da palavra do Senhor e conceber e proferir do coração palavras falsas (1Sm 13:12; 1Sm 15:30; 1Sm 15:20 e 24-25).

Davi, por sua vez, portou-se de modo inconveniente e reprovável (2Sm 11:4 e 15), e recebendo a pena pelos seus crimes (2Sm 12:10-12). O comportamento de Davi deu azo aos inimigos de Deus blasfemarem, não só no seu tempo, pois onde a história de Davi tornar-se conhecida até hoje, questionam o Deus de Israel.

Mas, em que Davi é melhor que Saul? Errou, porque não foi instruído corretamente segundo a lei, mas quando Deus matou Uzá, de pronto buscou instrução nas Escrituras.

Certa feita os levitas receberam carros de bois, assim como os filhos de Israel receberam a arca da aliança dos filisteus sobre carros de bois, porém, à época de Moisés, somente os filhos de Coate nada receberam, pois o santuário estava a seu encargo e deveriam levá-lo sobre os ombros (2Sm 6:5-7; Nm 6:9).

Davi temeu ao Senhor e questionou como viria a ele a arca do Senhor (2Sm 6:9), e assim buscam ao Senhor segundo o que Deus prescrevera na lei (1Cr 15:2 e 12-15). No mesmo dia que trouxe a arca, Davi entregou pela primeira vez a Asafe e seus irmãos um Salmo de ações de graças ao Senhor onde ele instrui os filhos de Israel a jamais se esquecerem da aliança de Deus e das palavras que prescreveu (1Cr 16:7 e 15-17).

Ora, a multidão ao pé da montanha que estava ouvindo o discurso de Jesus era composta de judeus, descendentes do patriarca Abraão e que foram liderados por Moisés quando saíram do Egito. Desde sempre, aquela multidão foi instruída por prevaricadores que mentiam, pois concebiam e proferiam do coração palavras de falsidade dizendo que os filhos de Jacó efetivamente eram uma nação santa, um povo escolhido por Deus, pelo fato de serem descendentes da carne de Abraão: “Como o prevaricar, e mentir contra o SENHOR, o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e o proferir do coração, palavras de falsidade” (Is 59:13).

Entretanto, a Escritura que os mestres da lei liam para afirmar falsamente que os filhos de Israel eram possessão do Senhor, na verdade era condicional, pois dizia: se diligentemente ouvissem a voz de Deus e guardassem a aliança ENTÃO SERIAM propriedade peculiar: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar, dentre todos os povos, porque toda a terra é minha” (Êx 19:5).

As pessoas que estavam ouvindo o discurso de Jesus pensavam que eram salvas por serem descendentes da carne de Abraão (Mt 3:9; Jo 8:39). Achavam que eram mais justas e melhores que os outros povos vizinhos, simplesmente porque os seus pais receberam a lei de Deus das mãos de Moisés (Dt 9:4; Rm 3:9). Embora os seus antecessores tivessem matado os profetas que anunciavam a vinda de Cristo, eles religiosamente edificavam e adornavam os túmulos dos profetas sob pretexto de serem melhores que os seus pais (At 7:51-53; Lc 11:47-48). Eles religiosamente ouviam a lei, mas não seguiam os preceitos de Deus (At 7:53; Jo 7:19; Ml 3:7; Rm 2:13), etc.

Os ouvintes de Jesus foram instruídos a cumprir mandamentos de homens e, ao ouvirem a doutrina de Cristo, haveria conflito de ideias, pois o que Jesus haveria de ensinar não era conforme estavam acostumados a ouvir, daí o alerta de Jesus à multidão: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas…” (Mt 5:17).

É nesse ponto que entra a questão do arrependimento, no seu sentido grego: ‘metanoia’. Quando Jesus apregoava ‘arrependei-vos’, não estava buscando uma reação emocional de pesar dos seus interlocutores por atos realizados ou não, quer fossem atos bons, por não terem sido realizados ou ruins, que foram realizados.

O arrependimento apregoado por Jesus diz da ‘metanoia’ dos gregos, ou seja, significa mudança de mente, mudança de concepção em vista de um novo conhecimento ou evento. Não é o arrependimento traduzido por ‘paenitentia’, que invoca sofrimento, fazer penitencia, pagar indulgência, etc.

A ordem era: arrependei-vos (mudem a concepção de vocês), porque é chegado o reino dos céus (a chegada do reino dos céus – Cristo – é o evento ou o conhecimento que deveriam mudar o modo de pensar dos judeus).

Como mudar a concepção de pessoas que eram acostumadas a ouvir que eram bem-aventuradas, por terem por Pai a Abraão? (Mt 3:9) Como mudar o pensamento de pessoas que estavam acostumadas a ouvir que eram filhos de Abraão e que nunca foram escravos de ninguém? (Jo 8:33) Como mudar o modo de pensar de pessoas acostumadas a ouvirem que era necessário fazer prosélitos, sob o argumento de que só assim os gentios seriam ditosos?

Jesus não podia dizer abertamente ao povo: – “Eu sou o Cristo”, por isso, Ele fez uso de parábolas, de modo que a multidão pudesse, pelas figuras utilizas no Sermão da Montanha, compreender pela Escrituras, que Ele era o Cristo: “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava (Mc 4:33-34).

Jesus não podia dizer abertamente que era o Cristo, porque quem testifica de si mesmo é mentiroso: “Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro” (Jo 5:31). Também era impossível os seus ouvintes reconhecerem o Cristo pela aparência, muito menos alguém iria indicá-lo: “E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós” (Lc 17:20-21).

Os sermões de Jesus visavam a mudança de concepção dos seus interlocutores, portanto, precisavam ser conduzidos genuinamente através da lei, dos profetas e dos salmos a Cristo. Para reconhecerem Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo, assim como confessou o apóstolo Pedro (Mt 16:16), os discursos de Jesus apontavam através de parábolas e figuras o testemunho (revelação) de Deus nas Escrituras.

O apóstolo Pedro confessou que Jesus é o Filho de Deus, porque Deus revelou a ele. Como? Quando? A revelação de Deus se deu pela manifestação de Cristo aos homens, conforme o testemunho das Escrituras (1Jo 5:9-11).

Não foi carne e sangue que revelou ao apóstolo Pedro que Jesus é o Filho de Deus, ou seja, não foram os seus concidadãos, os seus parentes, os judeus que deram o conhecimento necessário para o apóstolo chegar àquela confissão que lhe concedeu a bem-aventurança. ‘Carne’ e ‘sangue’ neste contesto remete a parentesco, nacionalidade: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não to revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16:16-17).

Para os escribas e fariseus, a lei e os profetas estavam intimamente ligados à guarda da tradição dos anciões (Mc 7:5), consequentemente, não conseguiam entender como era possível Jesus ser um mestre judaico e comer com os publicanos e pecadores (Mt 9:11), muito menos entender como era possível os discípulos de Jesus não jejuarem (Mt 9:14). Como era possível um seguidor da lei não guardar o sábado? (Mt 12:2)

Por questões semelhantes a essas, facilmente o povo poderia entender que Jesus estava destruindo a lei e os profetas. É em função da falta de compreensão dos seus interlocutores que Jesus enfatiza qual o seu papel em relação à lei e os profetas: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” (Mt 5:17).

Quando Jesus disse que veio para ‘cumprir’ a lei e os profetas, não estava enfatizando os ritos e cerimoniais da lei, antes destacou que Ele era o cumprimento da lei e dos profetas. Jesus deixou claro que nada do que constava na lei acerca d’Ele (nem um jota ou um til) deixaria de se cumprir.

Quando Jesus disse: “Vim para cumprir” (v. 17), temos que interpretar esse verso segundo essa perspectiva: “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos” (Lc 24:44), ou seja, nem um jota ou til deixaria de se cumprir “Porquanto vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os malfeitores foi contado. Porque o que está escrito de mim terá cumprimento” (Lc 22:37).

Jesus estava preparando o entendimento do povo para que pudessem compreender, que todas as promessas que constam das Escrituras, sem exceção, estavam vinculadas à pessoa de Cristo: “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim e por ele o Amém, para glória de Deus por nós” (2Co 1:20).

Jesus não veio cumprir os preceitos dos escribas e fariseus que, pela tradição oral, compõem a Mishnah ou o comentário posterior que deu origem ao Talmud. Por Ele ser a realidade, vez que a lei era sombra, não precisava guardar os sábados (dias de descansos), pois Ele é o descanso que Deus prometeu à humanidade, cujos sábados simbolizavam.

O objetivo da lei era o Cristo, pois através do nascimento, morte e ressurreição Ele é a propiciação para todo que crê “Porque o fim (objetivo) da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:4). A lei é santa, justa e boa, porém, através da lei era impossível o homem se justificar, pois a lei era sombra da realidade que se encontra em Cristo “Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, Que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (Cl 2:16-17); “PORQUE sendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, podem aperfeiçoar os que a eles se chegam” (Hb 10:1).

Certa feita, Jesus e os discípulos estavam caminhando em um dia de sábado, e passando por uma seara, os discípulos de Jesus colheram espigas. Os fariseus de ponto criticaram a atitude dos discípulos de Jesus, ao que Ele respondeu apontando para Davi que, quando esteve em aperto e com fome, entrou no templo e comeu os pães da propiciação juntamente com os seus homens.

Jesus deixa claro que o sábado foi instituído por causa dos homens e não o homem por causa do sábado. E ao final da exposição, Jesus deixa claro que Ele é o Senhor que instituiu o sábado (Mc 2:23-28).

Ora, o sábado foi instituído para que o povo soubesse que precisavam de descanso para a alma, assim como precisavam de descanso para o corpo físico. Os filhos de Israel só teriam descanso quando perguntassem pelas veredas antigas e andassem nela, mas se faziam de rogados e rejeitavam andar segundo a palavra de Deus: “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos,  vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” (Jr 6:16).

Jesus veio revelar a vontade de Deus aos homens e orientou a todos dizendo: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:29).

A instituição de sábados de festas tinha como foco a raiz de Jessé, ou seja, o Cristo – o Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel – “E acontecerá naquele dia que a raiz de Jessé, a qual estará posta por estandarte dos povos, será buscada pelos gentios; e o lugar do seu repouso será glorioso” (Is 11:10); “E o efeito da justiça será paz, a operação da justiça, repouso e segurança para sempre” (Is 32:17).

De que adiantava guardar sábados e dias de festas, se eles não entrariam no repouso estabelecido por Deus? “Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim jurei na minha ira: Que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo” (Hb 4:3).

O escritor ao Hebreus deixa claro que Josué não deu descanso aos filhos de Israel, embora eles tivessem entrado na terra prometida com ele:

“Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim jurei na minha ira Que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo. Porque em certo lugar disse assim do dia sétimo: E repousou Deus de todas as suas obras no sétimo dia. E outra vez neste lugar: Não entrarão no meu repouso. Visto, pois, que resta que alguns entrem nele e que aqueles a quem primeiro foram pregadas as boas novas não entraram por causa da desobediência, Determina outra vez um certo dia, Hoje, dizendo por Davi, muito tempo depois, como está dito: Hoje, se ouvirdes a sua voz, Não endureçais os vossos corações. Porque, se Josué lhes houvesse dado repouso, não falaria depois disso de outro dia. Portanto, resta ainda um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas. Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” (Hb 4:3-11)

Como poderia Josué ter dado repouso aos filhos de Israel, se Davi, muito tempo depois, profetiza acerca de um dia – hoje – quando haveria de ser dado o descanso? Como poderiam ter alcançado descanso, se Deus jurou que aquele povo não entraria no descanso de Deus?

Mas, se ouvissem a voz de Deus anunciada por Davi – hoje – e não endurecessem o coração, certamente entrariam no descanso do Senhor. Se é dito para dar ouvidos à voz de Deus, certo é que há um descanso.

Enquanto os escribas e fariseus ordenavam ao povo que se lavassem antes das refeições, Jesus deixa claro que todos os que o ouviam já estavam limpos pela palavra. Ele deixa claro que o que sai pela boca é o que contamina o homem e não o que entra “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15:3).

Cristo é a água limpa providenciada por Deus que purifica o homem de toda imundície, portanto, não é a agua natural que purifica o homem, mas, sim, o Verbo de Deus: “Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” (Ez 36:25).

A lei e os profetas testificavam do Cristo e Jesus deixa claro essa função das Escrituras: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (Jo 5:39).

A lei foi dada aos filhos de Israel para que reconhecessem que eram pecadores, porém, por causa da carne (sou filho de Abraão) a lei se tornou enferma, ou seja, não produzia o seu efeito, visto que os filhos de Israel se achavam justos, por serem descendentes da carne de Abraão (Rm 8:3).

Por mais que a lei arguisse os judeus como transgressores encerrando tanto judeus quanto gentios debaixo do pecado (Gl 3:22), pois essa era a função da lei, ela tornou-se inócua (enferma) frente ao argumento: ‘Temos por pai Abraão’ (carne).

A lei serviu de ‘aio’ para que os judeus fossem conduzidos a Cristo (Gl 3:24), os judeus, por sua vez, buscavam ser justificados por meio do que foi dado para preservá-los até a vinda do Cristo: “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gl 3:23).

 

O dever dos mestres

“19 Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus” (Mt 5:19).

Jesus evidencia a importância da lei e dos profetas, ao destacar que, qualquer que aviltar (transtornar) um dos mandamentos, por menor que fosse e ensinasse aos homens, será nomeado ‘menor’, ‘sem expressividade’ (ἐλάχιστος)[2] no reino dos céus. Porém, aquele que obedecer e ensinar, será chamado ‘grande’ no reino dos céus.

Torcer o mandamento de Deus é violentar a própria alma, pois o peso decorre de suas próprias palavras: “Porém, ele lhe disse: Mau servo, pela tua boca te julgarei. Sabias que eu sou homem rigoroso, que tomo o que não pus, e sego o que não semeei”  (Lc 19:22); “Mas nunca mais vos lembrareis do peso do SENHOR; porque a cada um lhe servirá de peso a sua própria palavra; pois torceis as palavras do Deus vivo, do SENHOR dos Exércitos, o nosso Deus” (Jr 23:36; Ez 22:26; Pv 8:32-36).

O apóstolo Paulo é exemplo de alguém que é chamado ‘grande’ no reino dos céus, pois creu que Jesus é o Cristo (cumpriu o exigido na lei e nos profetas) e ensinava o evangelho de Cristo aos seus ouvintes, através da lei de Moisés e dos profetas: “E, havendo-lhe eles assinalado um dia, muitos foram ter com ele à pousada, aos quais declarava com bom testemunho o reino de Deus e procurava persuadi-los à fé em Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde a manhã até à tarde” (At 28:23).

 

Justiça superior

“20 Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus (Mt 5:20)

Do mesmo modo que era impossível Nicodemos ver o reino de Deus, apesar de ser juiz, príncipe e fariseu, se não nascesse de novo, também era impossível à multidão que ouvia Jesus entrar no reino dos céus.

O reino dos céus estava vetado ao povo, do mesmo modo que o reino dos céus estava vetado aos escribas e fariseus, ou seja, a justiça deles era equivalente. Daí a ordem: se a justiça do povo não excedesse a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrariam nos céus.

Através desta colocação, Jesus estava demonstrando que os líderes da religião judaica não podiam entrar no reino dos céus, apesar de parecerem justos aos olhos dos homens (Mt 23:28).

Levando-se em conta a seguinte parábola: “E dizia-lhes uma parábola: Pode porventura o cego guiar outro cego? Não cairão ambos na cova?” (Lc 6:39), certo é que a multidão estava em igual condição à dos seus líderes religiosos (Mt 15:12).

Qual a justiça superior à dos escribas e fariseus? A justiça pela qual os seguidores de Jesus haveriam de ser perseguidos e injuriados (Mt 5:10-12).

Uma mudança de concepção (metanoia) nos ouvintes de Jesus era imprescindível, pois tinham zelo de Deus, mas, como profetizou Davi, sem entendimento (Sl 53:3). Por não conhecerem a justiça de Deus, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeitando à justiça superior: a que vem de Deus: “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:3).

A justiça da lei descrevia os seus ouvintes como mortos, pois o homem que fizesse o estipulado na lei haveria de viver pelo que cumprisse (Rm 10:5; Lv 18:5).

No evento das serpentes ardentes, temos uma alegoria que aponta para condição dos filhos de Israel, mortos em delitos e pecados, visto que qualquer que olhasse para a serpente de metal, viveria: “E disse o SENHOR a Moisés: Faze-te uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela” (Nm 21:8).

Para viver, era necessário cumprir a lei, que foi interposta com maldição: “Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo. E todo o povo dirá: Amém” (Dt 27:26). Para viverem, teriam que olhar para a serpente, segundo o que Deus ordenará ao povo, por intermédio de Moisés.

Os filhos de Israel desconheciam que a justiça superior foi dada gratuitamente a Abraão, quando Deus prometeu que, em seu Descendente, todas as famílias (judeus e gentios) da terra seriam benditas: “Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé” (Rm 4:13).

Apesar de os filhos de Israel horarem a Deus com os lábios, o coração deles estava longe de Deus (Mt 15:8), e justamente quem veio explicar tudo acerca da lei e dos profetas (Jo 5:25), não foi reconhecido por eles, porque a mensagem de Jesus era contrária a religiosidade judaica (formalismo, legalismo e ritualismo).

Os judeus não se consideravam transgressores da lei e nem atinavam que, qualquer que tentasse guardar a lei, mas tropeçasse em um único ponto dela, era transgressor de toda lei (Tg 2:11). Os descendentes de Jacó não analisavam o motivo pelo qual a lei protestava contra eles, como povo rebelde e fazia referência a eles como injustos, tanto que Moisés deixou claro que os judeus não eram melhores e nem mais justos que os povos vizinhos (Dt 9:4 e 6), principalmente, porque os judeus eram ouvintes da lei, mas nenhum deles a praticavam (Jo 7:19; Rm 2:13).

 

Continua: ‘Não matarás’ e o Sermão da Montanha

 


[1] Hebraísmos –  refere-se a termos ou expressões exclusivas da linguagem dos hebreus (algo semelhante as expressões idiomáticas) que, pela peculiaridade da língua ou do contexto, pode trazer certa dificuldade aos tradutores para verterem o texto em outra língua.

[2] “1646 ελαχιστος elachistos superlativo de elachus (curto); usado como equivalente a 3398; TDNT – 4:648,593; adj 1) o menor, o mínimo 1a) em tamanho 1b) em valor: de administração de negócios ​1c) em importância: que é o momento mínimo 1d) em autoridade: de mandamentos 1e) na avaliação de seres humanos: de pessoas 1f) em posição e excelência: de pessoas” Dicionário Bíblico Strong; “1. elachistos (ελαχιστος). “o mínimo, o menor”, o grau superlativo formado da palavra elachus, “pequeno”, de cujo lugar foi tirado por mikros (o grau comparativo de elassõn, “menos” ). É usado acerca de: (a) tamanho (Tg 3.4. “bem pequeno” ); (b ) quantidade, a administração dos negócios (Lc 16.10. duas vezes; Lc 19.17); (c) importância (1 Co 6.2); (d) autoridade, de mandamentos (Mt 5.19); (e) avaliação, sobre pessoas (Mt 5.19. segunda parte: Mt 25.40,45; 1 Co 15.9): sobre uma cidade (Mt 2.6); sobre atividades ou operações (Lc 12.26; 1 Co 4.3, “mui pouco” ). 2. eiachistoteros (éXaxicrrÓTepoç), grau comparativo formado do n° I , é usado em Ef 3.8. “o mínimo”. 3. mikros (piicpóç). “pequeno, pouco”, é usado em At 8.10 (“o mais pequeno” ) e Hb 8.11 (“o menor”). com referência a hierarquia ou influência. Veja PEQUENO (1), A. n° 1.” Dicionário VINE.

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O Sermão da Montanha e o espírito inatingível da lei

A expressão ‘os tristes’ bem-aventurados, não possui relação com o sentimento de desilusão, frente aos infortúnios da vida e nem decorre da ebulição das emoções a que todos homens estão sujeitos. Os ‘tristes’ enquanto figura que compõe um quadro profético, tem conexão com o advento do Messias, que, segundo o profeta Isaías, foi ungido para apregoar boas novas nos seguintes termos: a tristeza é substituída por glória, gozo e louvor com o objetivo de Deus ser glorificado (Ef 1:12).


As Bem-aventuranças – Parte I

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e dos fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mateus 5:20)

Como compreender o Sermão da Montanha? Nele, Jesus apresenta princípios éticos e morais[1] do seu reino? O núcleo da mensagem do Sermão da Montanha é de cunho sociocultural? Além dos mandamentos cunhados na lei mosaica, Jesus apresentou novos mandamentos?

Antes de explicarmos algumas nuances pertinentes ao ensino de Cristo à multidão, primeiro faremos análise de alguns textos, que são essenciais à leitura do Sermão da Montanha.

Essa análise é imprescindível à leitura do Sermão da Montanha, vez que trará o conhecimento essencial de algumas peculiaridades pertinentes às Escrituras, que possibilitam a compreensão do discurso de Jesus à multidão.

 

Parábolas

Uma característica intrínseca à mensagem anunciada pelos profetas da Antiga Aliança era as visões, as parábolas e os enigmas: “Falei aos profetas e multipliquei a visão; e pelo ministério dos profetas propus símiles” (Os 12:10).

Os profetas anunciavam visões, propunham parábolas ou apresentavam enigmas, pelo fato de Deus não falar abertamente ao povo. Moisés era exceção à regra, visto que, nem mesmo os profetas, tinham o privilégio de falar cara a cara, boca a boca com Deus, a não ser por sonhos: “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” (Nm 12:8).

Nas Escrituras, encontramos alguns profetas que foram taxados pelo povo de contadores de parábolas, entretanto, os profetas se resignavam em falar estritamente o que Deus ordenou: “Então disse eu: Ah! Senhor DEUS! Eles dizem de mim: Não é este um proferidor de parábolas?” (Ez 20:4); “Filho do homem, propõe um enigma e profere uma parábola para com a casa de Israel” (Ez 17:2).

Deus falou, muitas vezes, ao povo de Israel, utilizando-se dos seus mensageiros, e, na plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho Unigênito para anunciar aos homens as boas novas (Hb 1:1-2), porém, algo não mudou: assim como os profetas da Antiga Aliança, Jesus falou ao povo utilizando parábolas: “E falou-lhe de muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear” (Mt 13:3).

Por que Jesus falava por parábolas? Uma das pistas é o anunciado pelos profetas:

“Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem” (Mt 13:13).

Falar à multidão por parábolas é uma das características mais importantes a se observar nos discursos de Jesus. O evangelista Marcos é contundente: Jesus só falava ao povo por parábolas! Esta observação do evangelista nos obriga a analisar com cuidado todos os discursos de Jesus, principalmente, quando identificamos o público alvo da mensagem: “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” (Mc 4:34).

Se o discurso de Jesus tem como público a multidão, os escribas ou os fariseus, provavelmente, haverá uma parábola ou um enigma a ser interpretado.

Se o discurso tem os discípulos como público alvo, faz-se necessário analisar se Jesus falou abertamente ou expôs uma parábola: “E ele disse-lhes: a vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora, todas estas coisas se dizem por parábolas” (Mc 4:11).

Para fixar o que foi exposto, faça a seguinte análise: leia o capítulo 13 de Mateus, analise a mensagem de Jesus e qual era o público alvo. O discurso é uma parábola? Jesus estava falando com os discípulos, os escribas, os fariseus, os pecadores, a multidão? Seria possível compreender a mensagem de Jesus, sem a explicação que foi dada em particular aos discípulos?

O evangelista Mateus, assim como Marcos, deixou registrado que Jesus nada dizia à multidão, sem fazer uso de parábolas e, em seguida, apresenta o motivo: “Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão e nada lhes falava sem parábolas. Para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta, que disse: Abrirei em parábolas a minha boca; Publicarei coisas ocultas, desde a fundação do mundo” (Mt 13:34-35); “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” (Sl 78:2); “Inclinarei os meus ouvidos a uma parábola; declararei o meu enigma na harpa” (Sl 49:4).

Através da explicação do evangelista Mateus, conclui-se que o Salmo 78 não se refere ao salmista, antes que o Salmo é uma predição que aponta para o Messias. O salmista predisse que o Messias abriria a boca propondo parábolas e enigmas: “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” (Sl 78:2 compare com Mt 13:35).

Atentar para o público alvo da mensagem é de tamanha importância para a compreensão da mensagem, que até os discípulos questionaram se a mensagem era para todos, ou só para eles: “E disse-lhe Pedro: Senhor, dizes essa parábola a nós, ou também a todos?” (Lc 12:41).

Diante do que foi exposto, o leitor deve considerar se o que foi dito no Sermão da Montanha é um discurso ‘aberto’, ou se o discurso é uma grande parábola composta de enigmas e símiles, tendo em vista o público alvo tratar-se de uma multidão.

Certa vez, Deus mandou Moisés reunir os filhos de Israel ao pé do Monte Sinai para quando Deus falasse com Moisés, eles também pudessem ouvir. Quando o povo viu o monte fumegando, trovões e relâmpagos, se retiram do local onde deviam ficar reunidos e disseram a Moisés: “Fala tu conosco e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos” (Ex 20:18-21).

O povo ficou com medo de morrer quando vislumbraram a glória do Altíssimo, evidenciando o quanto eram rebeldes, incrédulos e descrentes. Tremenda injustiça não confiar naquele que é imutável e que não mente, ao que Moisés disse: “Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis” (Ex 20:20).

Deus se relaciona com o homem através da sua fidelidade, e o homem pela confiança, portanto, não pode ter medo de Deus. Deus somente estava colocando eles à prova, para apresentar a sua palavra (temor) para que não pecassem contra o Senhor.

O contexto da lei era para instruir o povo judeu em justiça, mas, dali em diante, Deus continuou enviando os seus santos profetas que utilizavam parábolas e enigmas. Jesus veio com o mesmo propósito: revelar Deus aos homens, por isso utilizou as mesmas figuras e parábolas anunciadas pelos profetas.

As parábolas e os enigmas serviam para facilitar a compreensão, mas os filhos de Israel rejeitavam a doutrina de Jesus “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender” (Mc 4:33).

Portanto, para uma boa interpretação do Sermão da Montanha é imprescindível essa análise inicial!

 

Divisões e títulos

As Bíblias oferecem o recurso de divisões em capítulos e versículos para facilitar a localização e citação de determinadas passagens, desde o Século XIII[2]. Embora úteis à localização e indicação de uma citação, não faz parte do original, portanto, o leitor não pode se pautar nessas divisões e subdivisões para determinar quando inicia ou encerra um assunto ou argumento.

Hoje, além das divisões em capítulo e versículo, introduziram títulos e subtítulos que, invariavelmente, influencia a leitura, ou acaba sugerindo ao leitor uma mudança de assunto ou desmembramento do discurso.

O palavra de Jesus no Sermão da Montanha é una e coesa, com começo meio e fim. Com a introdução de divisões, subdivisões, títulos e subtítulos, a ideia inicial que se tem é de que se trata de um discurso fragmentado, que aborda diversos temas, portanto, sem coesão.

A concepção de que Jesus aborda diversas questões ao longo do Sermão da Montanha é totalmente perniciosa para uma boa interpretação do discurso.

 

As bem-aventuranças

“1 E JESUS, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos;

2 E, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo:

3 Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;

4 Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;

5 Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;

6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;

7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;

8 Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;

9 Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;

10 Bem-aventurados os que sofrem perseguição, por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus;

11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa.

12 Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas, que foram antes de vós” (Mateus 5:1-12).

 

Após subir em um monte, por causa da multidão, Jesus assentou-se –  ação que indicou a todos que iria ensinar – quando se aproximaram dele os seus discípulos (Lc 4:20).

Jesus iniciou o seu discurso apresentando nove características essenciais aos bem-aventurados: pobres de espírito, tristes, mansos, famintos e sedentos de justiça, misericordiosos, puros de coração, pacificadores, perseguidos por causa da justiça e injuriados (Mt 5:3-11).

Todas estas características decorrem de parábolas e figuras utilizadas pelos profetas do Antigo Testamento, portanto, registradas nas Escrituras, ou seja, Jesus não inventou nenhuma delas.

‘Pobre de espírito’ é uma figura que remete a uma peculiaridade do bem-aventurado, assim como triste, manso, faminto e sedento de justiça, etc. É impossível ser manso e não ser pacificador. As peculiaridades do bem-aventurado são indissociáveis, pois os pobres de espírito também são identificados como aqueles que choram, ou que tem sede e fome de justiça, ou por serem puros de coração, ou por serem mansos, etc.

Considerando alguns aspectos do ministério de Jesus e o que foi anunciado pelos profetas, conclui-se que as bem-aventuranças anunciadas não visavam questões de cunho social. É um equívoco considerar que a bem-aventurança anunciada por Jesus, visava alcançar os pobres e marginalizados do seu tempo.

Quando Jesus anunciou as Bem-aventuranças, na verdade estava fazendo referência às profecias incrustadas nas Escrituras, ou seja, utilizou alguns elementos principais das profecias, como sujeito da promessa, para fazer o povo lembrar das promessas que apontavam um tempo de refrigério pela presença do Messias (At 3:19-20).

Como Deus anunciou a Abraão, que, em sua descendência, seriam benditas todas as famílias da terra (At 3:25), e essa promessa foi reiterada diversas vezes pelos profetas, e foram utilizados diversos recursos como figuras, parábolas, enigmas, símiles, etc., portanto, uma simples referência fez com que o povo se lembrasse das beatitudes decorrentes da presença do Cristo.

A abordagem de Cristo no Sermão da Montanha não possui viés socioeconômico ou de reestruturação política, pois a bem-aventurança anunciada no discurso decorre da promessa feita a Abraão, que Deus cumpriu quando ressuscitou o Senhor Jesus Cristo dentre os mortos.

 

Quem são os pobres de espírito?

“Porque a minha mão fez todas estas coisas e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito e que treme da minha palavra” (Is 66:2; Is 57:15).

Segundo o profeta Isaias, o ‘pobre’, o ‘abatido’ ou o ‘humilde’ de espírito é aquele que obedece (treme) a palavra de Deus. Ao dizer: “Bem-aventurados os pobres de espírito”, Jesus está anunciado que Deus é favorável (olharei) àqueles que Lhe obedecem (Mt 7:24).

Aquele que obedece (inclina o ouvido) o mando de Deus alcança vida, pois lhe é concedido por Deus as firmes beneficências prometidas a Davi: o Cristo, o reino dos céus: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim; ouvi e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” (Is 55:3; Mt 10:7).

O que Deus prometeu a Davi? Um descendente! A aliança eterna de Deus com os que inclinam os ouvidos (atende, obedece) é conceder o Cristo, o Filho de Davi, poderosa salvação na casa (descendência) de Davi (Lc 1:69).

Através da definição dada pelo profeta Isaias, é possível compreender quem são os pobres de espírito, quesito essencial para compreender o símile: “Bem-aventurado os pobres de espírito…”, visto que Jesus nunca falava abertamente ao povo, somente por parábolas (Mt 13:34).

Através do profeta Isaias verifica-se que Jesus não está tratando de questões sociais, políticas ou econômicas. Na verdade, Ele está tratando, tanto com pessoas ricas, quanto com pessoas pobres, do ponto de vista econômico, tanto com servos, quanto com reis, do ponto de vista social, tanto sábios, quanto com ignorantes, do ponto de vista cultural (Sl 49:2), para que reconheçam, através da mensagem de Cristo, que são miseráveis, necessitados, pobres.

A miserabilidade socioeconômica não dá ao homem a condição de pobre, abatido ou humilde diante de Deus. Deus reconhece o homem como pobre, abatido ou humilde, quando o homem se submete a Ele na condição de servo, ou seja, obediente. É humilde, ou antes, se humilha aquele que deixa de se guiar pela vaidade dos seus pensamentos e que se apresenta diante de Deus, na condição de servo, para obedecê-lo.

Neste ponto, o evangelho não se propõe a sujeitar o homem a Deus, através de ritos, leis e formas impostos pela religião. O evangelho não se propõe a controlar a existência do homem em sociedade, quanto ao que comer, beber, vestir, casar, procriar, comprar, vender, trabalhar, etc., antes, em que o homem creia que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, que havia de vir ao mundo.

O humilde de espírito, no advento da Nova Aliança, é aquele que se sujeita à seguinte ordenança de Deus:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

Príncipes, cavalos, cavaleiros, força, violência, braço, etc., são figuras utilizadas pelos profetas para apontar os soberbos, altivos, ricos, abastados, etc. (Sl 49:13), mas, qualquer que confia no Senhor, é descrito como oprimido, faminto, pobre, abatido, etc., figuras utilizadas pelos profetas para propor símiles e compor parábolas (Sl 146).

Não há ninguém (rico ou pobre, judeu ou gentil) que possa dar o resgate por sua própria alma ou de outrem (Sl 49:6-8). Todos os homens necessitam da salvação providenciada por Deus, portanto, todos precisam de reconhecer que são necessitados. Os judeus, por sua vez, não reconheciam que eram necessitados, pobres, etc., antes se comportavam como ricos, abastados, etc., pois se vangloriavam da descendência (somos filhos de Abraão), se vangloriavam da carne (circuncisão) e se vangloriavam da lei (Moisés).

Quem obedece a Deus, se posiciona diante d’Ele, na condição de humilde, necessitado e pobre, portanto, é agradável ao Senhor, como fez o publicano:

“O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Lc 18:13); “O SENHOR se agrada dos que o temem e dos que esperam na sua misericórdia” (Sl 147:11; Mt 9:13).

‘Esperar’ na misericórdia, significa ‘confiar’. Para o homem alcançar a misericórdia de Deus, basta obedecê-Lo. Quando o homem obedece a Deus, demonstra, efetivamente, que espera em Deus, ou seja, que confia na sua palavra, que diz: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6).

 

Quem são os que choram?

“A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes. A ordenar acerca dos tristes de Sião, que se lhes dê glória, em vez de cinza, óleo de gozo, em vez de tristeza, vestes de louvor, em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” (Is 61:2-3).

Quando é dito que os tristes são bem-aventurados, os ouvintes de Jesus deveriam lembrar-se da promessa de alegria registrada pelo profeta Isaias aos tristes!

A expressão ‘os tristes’ bem-aventurados, não possui relação com o sentimento de desilusão, frente aos infortúnios da vida e nem decorre da ebulição das emoções a que todos homens estão sujeitos.

Os ‘tristes’ enquanto figura que compõe um quadro profético, tem conexão com o advento do Messias, que, segundo o profeta Isaías, foi ungido para apregoar boas novas nos seguintes termos: a tristeza é substituída por glória, gozo e louvor com o objetivo de Deus ser glorificado (Ef 1:12).

O anúncio da bem-aventurança dos que choram indica a chegada do tempo de refrigério (salvação). A mensagem de boas novas anunciada por Cristo aos pobres era para possibilitar aos seus ouvintes elementos para que identificassem, pelas Escrituras, o reino de Deus, em meio aos homens: Cristo. “Respondendo, então, Jesus, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: que os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho” (Lc 7:22).

Ao dizer ‘Bem-aventurados os tristes…’, Jesus estava dando a entender que a profecia de Isaias naquele dia se cumpriu nos ouvidos dos que ali estavam e produziria refrigério naqueles que dessem crédito: “Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” (Lc 4:21); “O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos pobres; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” (Is 61:1-2); “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o coração dos contritos” (Is 57:15).

Os tristes bem-aventurados são os quebrantados, o mesmo que contritos de espírito “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado e salva os contritos de espírito” (Sl 34:18; Sl 51:17). O ‘quebrantado’ é aquele que deixa de ser ‘altivo’ e se faz ‘servo’, ou seja, obedece ao mandamento de Deus, que, na nova aliança, é crer em Cristo: “A minha alma está quebrantada de desejar os teus juízos em todo o tempo” (Sl 119:20).

 

Quem são os mansos?

“Guiará os mansos em justiça e aos mansos ensinará o seu caminho” (Sl 25:9; Mt 11:29).

Os mansos são aqueles que se deixam instruir como as crianças e aprendem de Cristo: o humilde e manso de coração. Os mansos são os humildes de espírito e vice-versa: “Melhor é ser humilde de espírito com os mansos, do que repartir o despojo com os soberbos” (Pv 16:19).

O Senhor convida os ‘meninos’ à instrução (Sl 34:11), não os ‘tolos’, porque diferente do tolo, a criança se deixa instruir. O mesmo Senhor, em outra passagem, diz: “Eis-me aqui, com os filhos que me deu o SENHOR, por sinais e por maravilhas em Israel, da parte do SENHOR dos Exércitos, que habita no monte de Sião” (Is 8:18); “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” (Sl 34:11); “Ainda que repreendas o tolo como quem bate o trigo com a mão de gral entre grãos pilados, não se apartará dele a sua estultícia” (Pv 27:22); “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela” (Pv 22:15).

Daí o imperativo: “Em verdade vos digo que, qualquer que não receber o reino de Deus como menino, não entrará nele” (Lc 18:17).

Os mansos são os que obedecem a Deus, ou seja, que põem por obra o seu mandamento: “Buscai ao SENHOR, vós todos os mansos da terra, que tendes posto por obra o seu juízo; buscai a justiça, buscai a mansidão; pode ser que sejais escondidos no dia da ira do SENHOR” (Sf 2:3).

 

Quem são os que tem fome e sede de justiça?

“E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR nosso Deus, como nos tem ordenado” (Dt 6:25).

Aquele que se acorrenta a uma árvore defendendo uma causa ecológica? Quem abraça uma causa social? Que levanta uma bandeira à não beligerância? Não!

Na verdade, tem fome e sede de justiça aquele que anseia por obedecer ao mandamento de Deus, pois está escrito: Se cuidar em cumprir o mandamento como foi ordenado é justiça, ou seja, quem anseia por justiça é aquele que obedece, tem ‘fome’ e ‘sede’ de cuidar em cumprir como foi ordenado!

Quem tem fome e sede e justiça crê no enviado de Deus, pois este é o seu mandamento: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29); “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

É no evangelho que se descobre a justiça de Deus, e somente nele é possível ao homem que tem sede e fome de justiça ser saciado!

A fome e a sede são figuras que remetem ao pobre, ao necessitado de espírito. O órfão, a viúva e o estrangeiro também são figuras que remetem aos necessitados, aos pobres de espírito, aqueles a quem Deus toma por filhos “Pai de órfãos e juiz de viúvas é Deus, no seu lugar santo” (Sl 68:5).

Deus fartará os necessitados, segundo a promessa que foi feita a Davi: o Cristo, como bem reitera o profeta no Salmo 132:

“O SENHOR jurou com verdade a Davi e não se apartará dela: Do fruto do teu ventre porei sobre o teu trono. Se os teus filhos guardarem a minha aliança e os meus testemunhos, que eu lhes hei de ensinar, também os seus filhos se assentarão perpetuamente no teu trono. Porque o SENHOR escolheu a Sião; desejou-a para a sua habitação, dizendo: Este é o meu repouso para sempre; aqui habitarei, pois o desejei. Abençoarei abundantemente o seu mantimento; fartarei de pão os seus necessitados” (Sl 132:11-15).

 

Quem são os misericordiosos?

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia, até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Dt 7:9)

As pessoas que nutrem um sentimento de dor e de solidariedade em relação a alguém que sofre uma tragédia pessoal ou que caiu em desgraça? Dó? Compaixão? Piedade?

Quando Saul desobedeceu a Deus e deixou de eliminar Agague, rei dos amalequitas, bem como, o melhor do interdito, o que foi que Deus disse? Obedecer é melhor do que sacrificar, ou seja, melhor era exterminar todos os amalequitas que apresentar a Deus bois e ovelhas! (1Sm 15:22).

Essa passagem bíblica de Saul evidencia que a misericórdia de Deus decorre da obediência à Sua palavra, e não a um sentimento de solidariedade, compaixão ou piedade “Todas as veredas do SENHOR são misericórdia e verdade para aqueles que guardam a sua aliança e os seus testemunhos” (Sl 25:10).

Quando poupou a vida de Agague, Saul não exerceu misericórdia. Ele estava sendo misericordioso, enquanto estava exterminando os amalequitas, estava cumprindo o mandamento de Deus, que diz: Misericórdia quero! “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:6).

Deus deixa claro a quem a sua misericórdia e amor é direcionado: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6), ou seja: “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

A misericórdia de Deus é só para os que O obedecem, portanto, os ‘misericordiosos’ bem-aventurados, que alcançam misericórdia, são os que ‘amam’ a Deus, ou seja, que O obedecem.

Deus já havia instruído Israel, quando disse a Moisés que teria misericórdia de quem Ele tivesse misericórdia, um trocadilho para evidenciar que Deus tem misericórdia dos que O obedecem.

Os que obedecem a Deus são recebidos como filhos, portanto, são nomeados misericordiosos, assim como o Pai Celeste é misericordioso.

A misericórdia de Deus foi evidenciada a todos os homens, inclusive aos gentios, na pessoa do seu Filho – Jesus Cristo – entretanto, os desobedientes, iníquos e pérfidos não estão sob o abrigo da misericórdia de Deus: “Tu, pois, ó SENHOR, Deus dos Exércitos, Deus de Israel, desperta para visitares todos os gentios; não tenhas misericórdia de nenhum dos pérfidos que praticam a iniquidade. (Selá.)” (Sl 59:5).

 

Quem são os limpos de coração?

“Tal é a geração daqueles que o buscam, daqueles que buscam a tua face, ó Deus de Jacó” (Sl 24:6).

O Salmo 24 tem resposta para essa pergunta!

Os limpos de coração são aqueles que buscam a face do Senhor, ou seja, os gerados de novo da semente incorruptível (1Pd 1:23). É através do novo nascimento que o homem se torna geração do Senhor, portanto, limpo de coração, tal qual Ele é neste mundo “Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” (1Jo 4:17).

São limpos de coração, porque foram circuncidados pelo Pai celeste! Através da circuncisão de Cristo o coração de pedra é extraído e Deus concede um novo coração de carne limpo: “E dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 36:26).

É através da aspersão da água pura, pelo Espírito Eterno, que o homem alcança um coração novo e limpo, ou seja, o homem nasce de novo da água e do Espírito, pois Deus diz: “Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” (Ez 36:25).

Os que creem veem a salvação de Deus, pois Deus se manifestou ao mundo na pessoa do seu Filho (Jo 1:18), pois Cristo veio revelar o Pai aos homens: “E pôs um novo cântico na minha boca, um hino ao nosso Deus; muitos o verão e temerão e confiarão no SENHOR” (Sl 40:3); “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21); “E a glória do SENHOR se manifestará e toda a carne juntamente a verá, pois a boca do SENHOR o disse” (Is 40:5); “O SENHOR desnudou o seu santo braço, perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” (Is 52:10).

É através do resplendor do rosto de Cristo – o Senhor que escondeu a sua face da casa de Israel – que o homem é salvo: “Faze-nos voltar, ó Deus, e faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos” (Sl 80:3); “Esconderei, pois, totalmente, o meu rosto naquele dia, por todo o mal que tiver feito, por se haverem tornado a outros deuses” (Dt 31:18); “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó e a ele aguardarei” (Is 8:17).

 

Quem são os pacificadores?

“Ah! se tivesses dado ouvidos aos meus mandamentos, então seria a tua paz como o rio e a tua justiça como as ondas do mar!” (Is 48:18).

Qualquer que dá ouvidos (crédito, obedece) ao mandamento de Deus é pacificador!

Aquele que se deixa instruir pelo Senhor Jesus, que é manso e humilde de coração, cumpre o mandamento de dar ouvidos ao anunciado por Deus, portanto, são filhos ensinados do Senhor, e a paz deles é abundante: “E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR; e a paz de teus filhos será abundante” (Is 54:13); “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:29).

O termo grego ειρηνοποιος, traduzido por ‘pacificador’, significa ‘que ama a paz’, ou seja, que honra, que obedece a paz, e Cristo é a nossa paz (Ef 2:14). Cristo concede filiação divina a todos os que O recebem: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” (Jo 1:12); “Aparta-te do mal e faze o bem; procura a paz e segue-a” (Sl 34:14).

Cristo é o tema da mensagem de paz anunciada pelos ‘pacificadores’: paz para os que estão longe (gentios) e paz para os que estão perto (judeus): “Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” (Is 57:19); “Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio” (Ef 2:13-14); “Escutarei o que Deus, o SENHOR, falar; porque falará de paz ao seu povo, e aos santos, para que não voltem à loucura” (Sl 85:8); “Muita paz tem os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço” (Sl 119:165).

Aqueles que têm fome e sede de justiça são pacificadores, pois Deus diz: “Até que se derrame sobre nós o espírito lá do alto; então o deserto se tornará em campo fértil e o campo fértil será reputado por um bosque. E o juízo habitará no deserto, e a justiça morará no campo fértil. E o efeito da justiça será paz, e a operação da justiça, repouso e segurança para sempre” (Is 32:15-17); “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” (Is 26:12).

 

A quem pertence o reino dos céus?

“E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2Tm 3:12)

O reino dos céus pertence a todos quantos sofrem perseguição, por causa da justiça, ou seja, do evangelho de Cristo. Todos quantos são injuriados e perseguidos, ou que, mentindo, disserem em desfavor deles toda sorte de mal, são bem-aventurados por causa de Cristo: “Mas também, se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados” (1Pd 3:14-16).

As bem-aventuras decorrem de Cristo, pois Ele é a justiça de Deus e o rei estabelecido para reinar em Sião: “Eu, porém, ungi o meu Rei, sobre o meu santo monte de Sião. Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Sl 2:6-7); “Porque o trono se firmará em benignidade, e sobre ele, no tabernáculo de Davi, se assentará, em verdade, um que julgue e busque o juízo e se apresse a fazer justiça” (Is 16:5); “EIS que reinará um rei com justiça e dominarão os príncipes segundo o juízo” (Is 32:1); “Justiça e juízo são a base do teu trono; misericórdia e verdade irão adiante do teu rosto” (Sl 89:14; Sl 97:2; Sl 98:2).

Cristo é o louvor e a mão direita (destra) de Deus cheia (plena) de justiça, o santo braço desnudado perante todos os povos: “Segundo é o teu nome, ó Deus, assim é o teu louvor, até aos fins da terra; a tua mão direita está cheia de justiça” (Sl 48:10); “Do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto” (Is 9:7); “Perto está a minha justiça, vem saindo a minha salvação e os meus braços julgarão os povos; as ilhas me aguardarão e no meu braço esperarão” (Is 51:5); “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça e paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14:17).

Quando anunciou as beatitudes, Jesus fez uso de algumas figuras utilizadas pelos profetas da Antiga Aliança, que fazem referência àqueles que obedecem a Deus.

Pobres, tristes, mansos, famintos e sequiosos de justiça, misericordiosos, limpos de coração, pacificadores, perseguidos, são figuras que remetem aos obedientes.

As beatitudes são um anúncio de que as profecias das Escrituras estavam se cumprindo.

Observe o que foi profetizado por Isaias:

“E naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro e dentre a escuridão, dentre as trevas, os olhos dos cegos as verão. E os mansos terão gozo sobre gozo no SENHOR; e os necessitados entre os homens se alegrarão no Santo de Israel. Porque o tirano é reduzido a nada e se consome o escarnecedor e todos os que se dão à iniquidade são desarraigados; Os que fazem culpado ao homem por uma palavra e armam laços ao que repreende na porta e os que sem motivo põem de parte o justo. Portanto, assim diz o SENHOR, que remiu a Abraão, acerca da casa de Jacó: Jacó não será agora envergonhado, nem agora se descorará a sua face. Mas, quando ele vir seus filhos, obra das minhas mãos no meio dele, santificarão o meu nome; sim, santificarão ao Santo de Jacó e temerão ao Deus de Israel. E os errados de espírito virão a ter entendimento e os murmuradores aprenderão doutrina” (Is 29:18-24).

Jesus Cristo é o Senhor que foi convidado a se assentar à destra da Majestade nas alturas (Sl 110:1), a quem os filhos de Israel deveriam santificar o nome, conforme profetizou Isaias e o apóstolo Pedro evidenciou ao falar da perseguição que sofre os que seguem a Cristo: “Mas também, se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados. E não temais com medo deles, nem vos turbeis; Antes, santificai ao SENHOR Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1Pe 3:14-15); “Não chameis conjuração a tudo quanto este povo chama conjuração; e não temais o que ele teme, nem tampouco vos assombreis. Ao SENHOR dos Exércitos, a Ele santificai; e seja Ele o vosso temor e seja Ele o vosso assombro” (Is 8:12-13).

É impossível alguém ser manso e não ser misericordioso ou ter o coração limpo e não ser pacificador, pois as beatitudes são características que remetem à pessoa que ouve a doutrina de Cristo e a pratica (Mt 7:24). Todas essas figuras se complementam e remetem àqueles que se sujeitam a Deus, como servo, crendo em Cristo como o enviado de Deus.

Os profetas utilizaram essas figuras para anunciarem a vinda do Cristo, pois Cristo é a base da nova aliança, perpétua, estabelecida por Deus com os povos, segundo o que foi prometido a Davi: um Renovo justo, o rebento da raiz de Jessé, o Descendente, etc., sendo que todos os profetas da Antiga Aliança foram perseguidos por falarem a seus compatriotas dessa Nova Aliança: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim; ouvi e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” (Is 55:3; Jr 31:31-34; Hb 8:13).

Os profetas, ao darem testemunho de Cristo, utilizaram as mesmas figuras que Cristo empregou, quando anunciou as beatitudes. Os profetas da Antiga Aliança somente sabiam (porque foi revelado a eles), que o que ministravam não pertencia a Israel e por isso se questionavam sobre o tempo, ou ocasião de tempo, que se dariam as maravilhas anunciadas (1Pe 1:10 -12).

Esta é a essência do Sermão da Montanha:

“E dizendo: O tempo está cumprido e é chegado o reino de Deus. Arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1:15).

No Sermão da Montanha, Jesus revela ao povo, através das figuras utilizadas pelos profetas, que o tempo de refrigério que constava nas Escrituras foi inaugurado pela presença do reino de Deus em meio aos homens – Cristo – que anunciava o reino dos céus, um reino que não era desse mundo: “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” (Is 28:12); “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados e venham, assim, os tempos do refrigério pela presença do SENHOR” (At 3:19).

O que aquela multidão esperava? O que foi ensinado pelos escribas e fariseus: que o reino de Israel seria restaurado com a vinda do Messias! Para os judeus, profecias como a de Joel: “PORQUE, eis que naqueles dias e naquele tempo, em que removerei o cativeiro de Judá e de Jerusalém” (Jo 3:1), se cumpriria com o advento do Cristo.

Mas, não foi o que ocorreu, pois a restauração prevista nas Escrituras não era primeiramente nacional, mas sim, para os gentios, para que se cumprisse a bem-aventurança prometida a Abraão, que diz: “… e em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:3); “E, respondendo ele, disse-lhes: Em verdade, Elias virá primeiro, e todas as coisas restaurará; e, como está escrito do Filho do homem, que ele deva padecer muito e ser aviltado” (Mc 9:12).

Quando anunciou que faria casa (descendência) a Davi, Deus anunciou que o Descendente de Davi edificaria uma casa a Deus e, em seguida, prometeu que estabeleceria o trono do descendente dado a Davi para sempre.

Como Deus não habita em casa feita por mãos de homens, o Descendente prometido a Davi – Cristo – está a edificar a Sua Igreja como templo santo ao Senhor, do qual todos os que creem se constituem ‘pedras vivas’ edificadas sobre a pedra angular, para morada de Deus em Espírito.

Somente após o advento da igreja, quando se dará o encerramento do tempo dos gentios, que será restaurado o reino prometido a Israel (1Sm 7:13). O povo de Israel estava tão fixo na promessa de restauração do reino de Israel, que se esqueceu de que havia uma promessa a Abraão, acerca de todas as famílias da terra.

Quando Jesus veio, João Batista o precedeu – o Elias – e a restauração implementada não era de um reino visível, mas, sim, de um reino que não era deste mundo, do qual todos os que creem em Cristo, não importando a nação, podem ser participantes.

Mas, como mudar a concepção de um povo que estava fito na promessa: “À tua semente darei esta terra” (Gn 12:7), e não dava ouvidos à voz de Deus, para que o juramento feito aos pais fosse confirmado? (Jr 11:4-5). Como mudar a concepção de um povo que, por circuncidar o prepúcio da carne, mas não deixava Deus circuncidar o coração, achava que era melhor que as nações vizinhas? (Jr 9:26) Como mudar o entendimento de um povo que tinha a lei de Moisés chegada à boca, mas longe do coração? (Jr 12:2; Is 29:13).

A mensagem do Sermão do Monte visa produzir uma mudança de concepção (metanóia) no povo, por isso, Jesus não deu testemunho abertamente de Si mesmo, dizendo: “Eu sou o Cristo”, antes, teve que anunciar por parábolas e símiles o testemunho que Deus deu acerca do Filho do homem. Os filhos de Israel deveriam comparar a doutrina de Cristo com as Escrituras e reconhecer que Jesus era o enviado de Deus, por conseguinte, reconhecendo Cristo como o Filho de Davi, estariam crendo no testemunho de Deus “Jesus lhes respondeu, e disse: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo” (Jo 7:16-17).

Enquanto o povo aguardava o reino messiânico, Jesus – o Renovo Justo prometido a Davi – se apresenta como a justiça, pela qual os seus seguidores seriam perseguidos e injuriados: “Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente e praticará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias Judá será salvo e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA” (Jr 23:5-6).

Nas entrelinhas, Jesus se revela como a justiça, que dá direito ao reino dos céus, e qualquer perseguido por causa d’Ele seria recompensado: “Não rejeiteis, pois, a vossa confiança, que tem grande e avultado galardão” (Hb 10:35), mas, a multidão pensava, equivocadamente, que o reino estava na iminência de se manifestar, quando Jesus chegou próximo de Jerusalém. Por causa da cegueira espiritual, não perceberam que o reino de Deus já estava manifesto: “E, ouvindo eles estas coisas, ele prosseguiu e contou uma parábola; porquanto estava perto de Jerusalém, e cuidavam que logo se havia de manifestar o reino de Deus” (Lc 19:11).

A causa de Cristo é a causa da justiça e todos que seguirem a Cristo serão perseguidos e injuriados, do mesmo modo que os profetas foram perseguidos: “E neste teu esplendor cavalga prosperamente, por causa da verdade, da mansidão e da justiça; e a tua destra te ensinará coisas terríveis” [assombrosas] (Sl 45:4).

 

As similitudes

“13 Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens.

14 Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte;

15 Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador e dá luz a todos os que estão na casa.

16 Assim, resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 5:13-16).

A leitura que se faz das similitudes deve ser extensão das beatitudes, portanto, o entendimento de que as ‘figuras’ (sal, luz) aplicadas aos discípulos não decorrem das bem-aventuranças, como se o discurso de Jesus fosse estruturado em divisões e subdivisões, como se não fosse coeso e uno, não é uma boa leitura.

Na verdade, as características enumeradas nos versos 3 ao 9: pobre, triste, manso, faminto e sedento por justiça, misericordioso, puro, pacífico, definem os seguidores da doutrina de Cristo, ou seja, aqueles que serão perseguidos e injuriados por causa de Cristo, mas que serão recompensados entrando no reino dos céus.

Vale destacar que Abel foi perseguido por Caim; Isaque foi perseguido por Ismael; Jacó foi perseguido por Esaú, etc., eventos que servem de alegoria, pois com os seguidores de Cristo não é diferente, serão perseguidos por serem filhos da promessa: “Dei-lhes a tua palavra e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo” (Jo 17:14; Gl 4:29).

As características pertinentes aos bem-aventurados descrevem os obedientes, os humildes, os servos, portanto, a obediência a Cristo é o que torna os seus seguidores ‘sal da terra’ e ‘luz do mundo’.

Na lei, estava estabelecido que todas as vezes que fossem ofertados alimentos a Deus, que a oferta deveria ser temperada com sal: “E todas as tuas ofertas dos teus alimentos temperarás com sal; e não deixarás faltar à tua oferta de alimentos o sal da aliança do teu Deus; em todas as tuas ofertas oferecerás sal” (Lv 2:13).

As ofertas de alimentos eram voluntárias, pois Deus nunca requereu holocaustos e sacrifícios dos filhos de Israel, porém, quando, voluntariamente, fossem oferecer algo a Deus, o sal era obrigatório. A oferta era voluntária, mas o sal era obrigatório! Por que? Porque é a obediência que torna o ofertante agradável e aceito por Deus, consequentemente, a oferta será aceita (Gn 4:4-5).

Acrescer sal à oferta demandava obediência por parte do ofertante, uma ordenança para que os filhos de Israel entendessem que Deus quer a obediência, mais que o sacrifício, assim como o fato de os filhos de Israel permaneceram 40 anos no deserto, sendo guiados por Deus, para que entendessem que o homem vive pela palavra de Deus “Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel: Ajuntai os vossos holocaustos aos vossos sacrifícios e comei carne. Porque nunca falei a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios” (Jr 7:21 -22); “E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o SENHOR teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não. E te humilhou,  te deixou ter fome e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt 8:2-3; Sl 50:9; Mq 6:6-7).

Vale destacar que Deus se agrada da obediência, pois obedecer é melhor que o sacrifício “Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1Sm 15:22).

A ordenança acerca do sal demonstra que a obediência é superior ao sacrifício, pois a aliança é selada pela obediência e o homem aceito por Deus, porém, através do sacrifício ninguém é aceito por Deus.

O profeta Miquéias ilustra essa questão:

“Com o que me apresentarei ao SENHOR e me inclinarei diante do Deus altíssimo? Apresentar-me-ei diante dele com holocaustos, com bezerros de um ano? Agradar-se-á o SENHOR de milhares de carneiros, ou de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu ventre pelo pecado da minha alma? Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça e ames a benignidade e andes humildemente com o teu Deus?” (Mq 6:6-8).

A determinação para acrescer sal ao alimento ofertado remetia o ofertante a não se esquecer de, diligentemente, guardar a aliança. Toda ação voluntariosa em apresentar a Deus oferta, holocausto, sacrifício, etc., no momento de adicionar sal, o ofertante estava sendo instruído sobre o que Deus realmente requer do homem: obediência: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha” (Êx 19:5); “Disse, mais, o SENHOR a Moisés: Escreve estas palavras; porque conforme ao teor destas palavras tenho feito aliança contigo e com Israel” (Êx 34:27).

Assim como o sal era imprescindível à oferta de alimentos, a obediência é imprescindível ao homem, para estar sob a proteção da aliança. O que preserva o homem é a aliança estabelecida por Deus e não uma oferta, mesmo que temperada com sal.

O ‘sal’ que o ofertante não deveria deixar faltar ao sacrifício era a obediência à aliança estabelecida por Deus, o que refletiria no ato ímpar de não se esquecer de acrescentar sal à oferta.

Exemplo vivo de obediência encontramos nos patriarcas, pois foi a aliança de Deus que preservou Noé durante o dilúvio (Gn 6:18), que, sendo justo, sujeitou-se à ordem de Deus para construir uma arca e se abrigar nela. Quando entrou na arca que construíra sob ordem de Deus, Noé honrou a aliança, o que demonstra a sua plena confiança em Deus: “Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade, tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim, perpetuamente; porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados” (1Sm 2:30).

De nada serviria o trabalho árduo de construir a arca e aguentar a oposição dos pecadores, se no momento em que Deus ordenasse a Noé entrar na arca, ele deixasse de entrar sob o argumento de que Deus era poderoso para preservá-lo, mesmo fora da arca.

Deus ordenou a Abraão que saísse de sua parentela, sob a promessa de que seria grandemente recompensado. Abraão obedeceu ao Senhor (Gn 12:4) e Deus firmou uma aliança com juramento (Gn 26:4-5). Abraão foi escolhido para ordenar os seus filhos e a sua casa para obedecerem a Deus, pois só quando o homem honra a Deus como Senhor e Pai é que se alcança a bênção de Deus, contida na promessa (Gn 18:19).

Já os filhos de Israel desprezaram a aliança e foram levados cativos, ou seja, não foram ‘preservados’, porque não permaneceram sob a aliança (Ex 6:4: Jz 2:20-22; Sl 78:10; Jr 11:8; Jr 31:32).

O sacrifício do qual Deus se agrada, é um espírito quebrantado, ou seja, um coração contrito, obediente à palavra de Deus, portanto, o ofertante não poderia esquecer o sal da aliança, ou seja, de obedecer: “E todas as tuas ofertas dos teus alimentos temperarás com sal; e não deixarás faltar à tua oferta de alimentos o sal da aliança do teu Deus; em todas as tuas ofertas oferecerás sal” (Lv 2:13).

Quando foi dito: “Vós sois o sal da terra…”, Jesus estava apontando para os seus discípulos e dizendo: “Vocês são os que obedecem a Deus na terra”! “Vocês ouviram as minhas palavras e as praticam”! (Mt 7:24)

Quando foi dito: “e se o sal for insípido, com que se há de salgar?”, temos uma breve alusão aos desobedientes – à nação de Israel. Como não obedeceu à aliança, a nação de Israel foi rejeitada e lançada fora, uma alusão à dispersão de Israel, quando perdeu a proteção de Deus e passou a ser governada pelos gentios: “E persegui-los-ei com a espada, com a fome e com a peste; e dá-los-ei para deslocarem-se por todos os reinos da terra, para serem uma maldição, um espanto, um assobio e um opróbrio entre todas as nações para onde os tiver lançado” (Jr 29:18; Hb 4:6 e 11;1Pd 2:8).

Com relação aos sacerdotes, por estatuto Deus deu todas as ofertas dos filhos de Israel a eles, visto que não possuíam possessão de terra e nem herdade, a não ser o próprio Deus (Nm 17:20). Essa aliança estabelecida com os sacerdotes foi chamada de ‘aliança perpétua de sal’, ou seja, que Deus havia dado as coisas santas ofertadas pelos filhos de Israel para preservá-los: “Todas as ofertas alçadas das coisas santas, que os filhos de Israel oferecerem ao SENHOR, tenho dado a ti e a teus filhos e a tuas filhas contigo, por estatuto perpétuo; aliança perpétua de sal perante o SENHOR é, para ti e para a tua descendência contigo” (Nm 18:19).

Pelas Escrituras, verifica-se que as alianças que Deus fez com os homen, tinham o fito de preservá-los, dando mandamentos para que observassem cuidadosamente. Mas, o cuidado de Deus somente é efetivo sobre a vida dos homens que são obedientes, de modo que, através da obediência, o homem fica sob a aliança.

Deus disse: “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17), e também: “…porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados” (1Sm 2:30), pois aquele que cumpre o mandamento de Deus – que na Nova Aliança é crer que Jesus é o Filho de Deus – em si mesmo tem sal, como foi dito: “Bom é o sal; mas, se o sal se tornar insípido, com que o temperareis? Tende sal em vós mesmos e paz uns com os outros” (Mc 9:50).

Na palavra de Deus está expresso o cuidado de Deus pelo homem e em obedecê-la, o homem se coloca debaixo da proteção de Deus. O sal representa tanto o cuidado de Deus quanto o dever de obediência, pois onde há mandamento tem que haver obediência.

O cuidado de Deus pela humanidade foi manifesto em Cristo e todo o que crê será salvo. Os apóstolos testemunharam a vinda do Filho de Deus ao mundo e eles testificaram acerca dessa verdade, de sorte que qualquer que também confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus: “Vimos e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo. Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele e ele em Deus” (1Jo 4:14 -15).

Quem crê em Cristo, deve militar pelo evangelho, pois no evangelho se descobre a justiça de Deus – Cristo – ou seja, aquele que crê e anuncia ao mundo o evangelho de Cristo é sal da terra. Se o crente não desempenha a sua função de levar Cristo ao mundo, torna-se insípido e será lançado fora, assim como o sal, quando perde a sua propriedade: “Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto” (Jo 15:2; Lc 14:34-35).

A perseguição por causa do evangelho de Cristo, revela aqueles que são o sal do mundo e a luz do mundo. A perseguição por causa do evangelho vem somente sobre aqueles que levam a preciosa semente incorruptível: “Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina!” (Is 52:7).

Os pacificadores são filhos de Deus e, como filhos da Luz, são luz no Senhor, portanto, luz do mundo: “Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” (Jo 12:36); “Porque, noutro tempo, éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” (Ef 5:8).

Assim como o sal tem a sua serventia, a luz também. Assim como é impossível esconder uma cidade quando edificada sobre um monte, também é impossível deixar um crente em Cristo camuflado aos olhos do mundo.

Da mesma forma que uma lamparina (candeia) não é colocada debaixo do alqueire (pote, vaso, vasilhame) ou debaixo da cama, mas no velador, assim é com os seguidores de Cristo: são luz que alumiam no mundo que está em densas trevas: “LEVANTA-TE, resplandece, porque vem a tua luz e a glória do SENHOR vai nascendo sobre ti; Porque eis que as trevas cobriram a terra e a escuridão os povos; mas sobre ti, o SENHOR virá surgindo e a sua glória se verá sobre ti. E os gentios caminharão à tua luz e os reis ao resplendor que te nasceu” (Is 60:1-3); “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” (Is 9:2).

Todos os que creem em Cristo são feitos filhos da luz e, por conseguinte, despenseiros de Deus (1Co 4:1-2; 1Pe 4:10), portanto, quando abrem a boca para anunciar o evangelho, faz com que a sua luz brilhe diante dos homens: “E se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita; então, a tua luz nascerá nas trevas e a tua escuridão será como o meio-dia” (Is 58:10); “Atendei-me, povo meu e nação minha, inclinai os ouvidos para mim; porque de mim sairá a lei e o meu juízo farei repousar para a luz dos povos” (Is 51:4).

A boa obra que Jesus ordena ao cristão, para que deixe os homens verem, não se refere ao comportamento do cristão – embora um despenseiro da glória de Deus deva ter um bom comportamento diante dos homens – mas, sim, manifestar ao mundo a boa nova que o Senhor realizou ao manifestar Cristo ao mundo: “O SENHOR trouxe a nossa justiça à luz; vinde e contemos em Sião a obra do SENHOR, nosso Deus” (Jr 51:10); “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” (Is 26:12).

O bom porte do crente não se refere ao bom perfume de Cristo, que é o mesmo que a boa obra, que se refere ao que Deus realizou: “Jesus respondeu e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29); “E graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo, e por meio de nós manifesta em todo o lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque para Deus somos o bom perfume de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem” (2Co 2:14-15).

É Deus que deu Cristo – a paz – portanto, Ele realizou no crente todas as obras, de modo que, a obra que o mundo vê no crente refere-se ao testemunho que Deus deu acerca do seu Filho Jesus Cristo. Só é luz do mundo aquele que fala segundo a palavra de Deus, ou seja, aquele que anuncia as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz: “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles” (Is 8:20).

A leitura do verso: “Assim, resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5:16), demanda uma compreensão da linguagem judaica, pois ‘obra’ refere-se ao resultado do cumprimento de um mandamento, de modo que crer em Cristo é uma obra.

Jesus mesmo disse: “A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29). Qualquer que atenta para o evangelho, a lei perfeita da liberdade, e persevera, ou seja, crê que Jesus é o Filho de Deus, é bem-aventurado, pois executou a obra: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25).

A obra está ligada às palavras que os homens proferem: “Por isso, se eu for, trarei à memória as obras que ele faz, proferindo contra nós palavras maliciosas” (3 Jo 1:10). Portanto, a boa obra que os homens devem ver naqueles que são luz é o anúncio desta verdade:

“Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque, todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” (Jo 3:17:21).

Continua: As bem-aventuranças e o ministério de Jesus Cristo


[1] “Todos iam a Ele para ouvir sobre o Reino; Jesus, em vez disso, falava sobre o estilo de vida daqueles que queriam viver no Reino. 0 Sermão do Monte contém a essência do ensinamento moral e ético de Jesus” O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao alcance de todos. Editores: Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H.Wayne House, Editora Central Gospel, Rio de Janeiro: 2010, Pág. 27.

[2] Os judeus utilizavam as letras PE e SAMECH para apontar os parágrafos há muito tempo. Já na era cristã, primeiro foi introduzida uma divisão por capítulos pelo Arcebispo Estêvão Langton e outra pelo Cardeal Hugo de Sancto Caro, ambas realizadas no século XIII, porém, a divisão do Arcebisbo Langton, realizada em 1205 acabou prevalecendo. Somente 300 anos mais trade foi introduzida a divisão em versículos pelo italiano Santi Pagnini (1470-1541), e em 1551, Roberto Estienne propôs uma divisão diferente que acabou prevalecendo, sendo aplicada na sua edição grega do Novo Testamento e depois na versão em francês de 1553, e é utilizada até hoje.

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As fábulas de C. S. Lewis

Ora, não pode haver confusão entre parábola e fábula. Cristo veio anunciando o reino dos céus utilizando-se de parábolas porque estava previsto nas Escrituras que o Cristo utilizaria este recurso ao falar ao povo ( Mc 4:34 ; Mt 13:34 ). Jesus mesmo cita o profeta Isaias ao dar justificativa porque falava por parábolas ( Mt 13:13 ), e o evangelista Mateus deixou claro que ele falava por parábolas para que se cumprisse o que fora dito pelo salmista ( Mt 13:35 ).


As fábulas de C. S. Lewis

Após ler um artigo intitulado: ‘Os significados bíblicos em As Crônicas de Nárnia’ disponível na Web < http://bibliacomentada.com.br/index.php/2014/1/1/significados-biblicos-cronicas-narnia > consulta realizada em 04/01/14, não pude deixar de tecer um comentário.

O escritor aos Hebreus deixou claro que, na antiguidade Deus falou de muitas maneiras ao povo de Israel através dos seus profetas e na plenitude dos tempos falou a todos através do seu Filho, Jesus Cristo ( Hb 1:1 ).

Jesus Cristo deixou claro que águas vivas correm apenas do interior (ventre) daqueles que creem n’Ele conforme diz as Escrituras ( Jo 7:38 ), evidenciando que as palavras dos profetas são o testemunho que Deus deu acerca do seu Filho ( Jo 5:37 e 39), e que Ele, Jesus, não aceitava testemunho de homens ( Jo 5:34 ).

O apóstolo Pedro teve o cuidado de enfatizar que não se utilizou de fábulas artificialmente compostas quando notificou aos cristãos da dispersão a virtude e a manifestação de Cristo ( 2Pe 1:16), antes Ele teve por firme a palavra dos profetas ( 2Pe 1:19 ).

Se o apóstolo Pedro não se utilizou de nenhuma fábula para apresentar Cristo aos homens, com que autoridade um defensor de Lewis lança mão do argumento de que Lewis evangelizava crianças através de fábulas?

Quando escreveu a Timóteo, o apóstolo Paulo deixa claro que, desde a infância Timóteo conhecia as Escrituras, e que somente a palavra de Deus notificada pelos seus santos profetas fazem o homem sábio para salvação pela fé que há em Cristo Jesus ( 2Tm 3:15 ).

Alegar que fábulas possibilitam que as crianças percebam Cristo é negar as Escrituras, visto que somente as Escrituras é perfeita e somente ela refrigera a alma ( Sl 19:7 ). Somente a Escritura é pura, verdadeira, justa e permanece para sempre ( Sl 19:9 ).

Se a Escritura não estivesse ao alcance das crianças, Deus não teria ordenado ao povo de Israel que ensinasse aos seus filhos as ordenanças de Deus ( Dt 6:7 ).

As escrituras é Deus se revelando aos homens através da pessoa de Cristo, ou seja, alcançar a compreensão de Deus não deve ficar a cargo da imaginação do homem, seja ela ampla ou restrita, quer seja criança ou adulto, quer seja judeu ou grego, etc.

Somente as Escrituras desvenda o mistério de Deus que pelos séculos esteve oculto, pois ela apresenta riquezas insondáveis ( Ef 3:9 ), visto que é através da igreja, o corpo de Cristo que tornou-se conhecido aos principados e potestades a multiforme sabedoria de Deus ( Ef 3:10 ).

Quem disse que as crianças precisam de fábulas, estórias (crônicas), magia, etc., para compreender o evangelho, sendo que muitos homens, inclusive os doutores da lei, não reconheceram que Jesus era o Cristo, e as criancinhas O reconheceram como aquele que veio em nome do Senhor? ( Mt 21:15 )

Ora, não pode haver confusão entre parábola e fábula. Cristo veio anunciando o reino dos céus utilizando-se de parábolas porque estava previsto nas Escrituras que o Cristo utilizaria este recurso ao falar ao povo ( Mc 4:34 ; Mt 13:34 ). Jesus mesmo cita o profeta Isaias ao dar justificativa porque falava por parábolas ( Mt 13:13 ), e o evangelista Mateus deixou claro que ele falava por parábolas para que se cumprisse o que fora dito pelo salmista ( Mt 13:35 ).

O apóstolo Pedro enfatiza que a Escritura é firme porque não foi produzida pela vontade dos homens, antes eles falaram inspirados por Deus ( 2Pe 1:21 ), anunciando de antemão os sofrimentos de Cristo e a glória que se seguiria ( 1Pe 1:11 ). As escrituras apresenta Cristo aos homens, a base do testemunho dos apóstolos e dos profetas ( Ef 2:20 ).

Toda a Escritura divinamente inspirada possui o fito de fazer que o homem creia que Jesus Cristo é o Filho de Deus que havia de vir ao mundo “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” ( Jo 20:31 ).

Evidenciar a pessoa de Cristo nem sempre é o mesmo que pregar o evangelho. Pregar o evangelho não é dizer que Jesus foi um homem bom, um profeta, um líder, um psicólogo, um marceneiro, um judeu, o filho de Maria, nazareno, etc. Pregar o evangelho é ensinar a doutrina de Cristo, ou seja, ensinar a obedecer tudo o que foi mandado “Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém!” ( Mt 28:20 ).

Estabelecer um arquétipo (Aslam) que transmita as qualidades de Jesus não cumpre o papel de anunciar o evangelho, pois a salvação da humanidade repousa sobre o fato de Jesus ser o servo e o cordeiro de Deus ( Is 49:6 ).

Anunciar o evangelho não é o mesmo que promover uma crença em Deus ou apenas levantar uma bandeira contra o ateísmo, antes é imprescindível anunciar a mensagem imperativa do evangelho, que é crer em Cristo. Quando o homem crê em Cristo é porque verdadeiramente crê em Deus que enviou a Cristo “E Jesus clamou, e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” ( Jo 12:44 ). Qualquer que diga que crê em Deus, mas não crê em Cristo, não está salvo, pois não crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou. Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” ( Jo 5:23 -24).

O irmão Tiago abordou esta questão da crença em Deus demonstrando que os demônios também creem em Deus. Ora, os judeus criam em Deus, porém, apesar de terem tal fé, não possuíam a obra “Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem” ( Tg 2:19 ).

E qual é a obra que os judeus não possuíam, apesar de dizerem que tinham fé em Deus? Não criam em Cristo, pois está é a obra de Deus “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ). É por isso que Jesus disse aos seus discípulos: “NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim ( Jo 14:1 ).

Para alcançar salvação não adianta crer que Jesus foi um profeta. É necessário crer que Jesus é o descendente prometido a Abraão, o Filho de Davi, o Filho de Deus, como asseguram as Escrituras.

Os judeus criam que Jesus era um dos profetas, mas ao ouvir que Ele é o Eu Sou, e que existia antes mesmo que Abraão, pegaram em pedras para apedreja-Lo “Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou” ( Jo 8:58 ); “E, chegando Jesus às partes de Cesaréia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas” ( Mt 16:13 -14); “E a multidão dizia: Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galiléia” ( Mt 21:11 ).

Deus anunciou a Davi que, depois da sua morte, levantaria um da sua descendência cujo reino seria estabelecido para sempre. Este descendente de Davi seria o Filho de Deus, uma flecha na aljava de Deus “Quando teus dias forem completos, e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens, e com açoites de filhos de homens” ( 2Sm 7:12 -14; Is 49:2 ; Sl 127:5 ).

O evangelho não possui relação alguma com magia, feitiçaria, encantamento, etc., antes é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus que nasceu da descendência de Davi segundo a carne e foi declarado Filho de Deus em poder pela ressurreição dentre os mortos ( Rm 1:2 -4 ; Rm 1:17 ).

Se as Crônicas de Lewis ‘possuem figuras com significados muito mais amplos do que se pode imaginar na primeira leitura’, se as crianças ‘têm imaginação ampla e pronta para mais novidades do que os adultos’, e nos livros de Lewis ‘não é comentado claramente o verdadeiro significado ou a base bíblica de qualquer cena ou personagem’ (Os significados bíblicos em As Crônicas de Nárnia), percebe-se que o trabalho de Lewis não apresenta ao leitor o evangelho de Cristo.

Primeiro que não há paralelo algum entre Deus e o Imperador do Além Mar. Deus não é protetor das crianças do nosso mundo, antes é Ele é o salvador dos que O temem “Assim como um pai se compadece de seus filhos, assim o SENHOR se compadece daqueles que o temem” ( Sl 103:13 ). Não vemos Deus preservando nenhuma criança da destruição de Sodoma e Gomorra, nem tão pouco do dilúvio. Segundo, que não há com que comparar o Criador, pois Ele mesmo diz: “A quem me assemelhareis, e com quem me igualareis, e me comparareis, para que sejamos semelhantes?” ( Is 46:5 ).

Segundo que não há semelhança entre Cristo e o leão Aslam, pois Cristo morreu em obediência ao Pai. As Escrituras mesmo previam que Deus jamais quis sacrifício, antes a obediência. O sacrifício é caracterizado pela voluntariedade, diferente da obediência, que exige sujeição “E, indo segunda vez, orou, dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade” ( Mt 26:42 ).

O que ocorreu com Cristo foi obediência, pois um pecou desobedecendo a Deus, e muitos são justificados porque um obedeceu “Por isso, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, Mas corpo me preparaste; Holocaustos e oblações pelo pecado não te agradaram. Então disse: Eis aqui venho (No princípio do livro está escrito de mim), Para fazer, ó Deus, a tua vontade. Como acima diz: Sacrifício e oferta, e holocaustos e oblações pelo pecado não quiseste, nem te agradaram (os quais se oferecem segundo a lei). Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo. Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” ( Hb 10:5 -10).

O que atribuem ao sacrifício, na verdade diz de obediência: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” ( Rm 5:19 ). Seria um contra senso Deus demonstrar aos homens que o melhor é a obediência, e não exigir do Seu Filho o melhor: obediência “Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ).

A redenção da humanidade se dá pela obediência, pois o Pai deu o seu único Filho ( Jo 3:16 ), e o Filho em obediência realizou a vontade do Pai: entregou-se a Si mesmo em sacrifício.

É torcer a verdade bíblica afirmar que o tal Aslam é uma figura de Cristo porque nas crônicas de Lewis o leão Aslam morre no lugar de Edmundo para salvá-lo do seu erro: a traição. A base da ideia das fábulas de Lewis remonta ao pensamento filosófico dito cristão dos primeiros sete séculos (Patrística), de que o pecado decorre de questões comportamentais comprometidas por vícios.

Enquanto a bíblia demonstra que todos pecaram porque um pecou, a ideia que consta da fábula é que cada indivíduo se faz pecador após praticar um delito contrário a moral (platonismo).

Enquanto a bíblia demonstra que todos são pecadores por causa da ofensa de um só homem, a fábula aponta que as condutas tidas reprováveis do ponto de vista da moral e dos bons costumes é o que separa o homem de Deus.

Se Lewis escrevesse suas fábulas como o fazem Walt Disney, Joanne Rowling, e muitos outros, não caberia a reprimenda acima, pois não induzem as pessoas as pensarem a bíblia através de suas mistificações. Agora, com relação ao Sr. Clive Staples Lewis fica o alerta do apóstolo Paulo: “Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa? Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade. Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem; Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo” ( 1Co 5:6 -10); “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” ( Cl 2:8 ).

Para saber mais acerca de Lewis, acesse: < http://www.espada.eti.br/narnia.asp > Problemas com Nárnia: O Lado Ocultista de C. S. Lewis, de Mary Ann Collins, acessado em 04/01/14.

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Quem veio matar, roubar e destruir?

Os lideres de Israel eram ladrões, salteadores por subtraírem a palavra de Deus que concede vida aos homens. Sob o pretexto de sacrifícios (orações prolongadas, jejuns, festas, dias, luas) extorquiam a casa dos necessitados (viúvas, órfãos) ( Mt 23:14 ). ‘prolongadas orações’ é figura de sacrifícios, e viúvas e órfãos são figuras utilizadas para ilustras os necessitados, os pobres de espíritos.


 

Na verdade, na verdade vos digo que aquele que não entra pela porta no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador” ( Jo 10:1 )

 

Quem veio matar, roubar e destruir? A resposta é simples e fácil: o ladrão! “O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir” ( Jo 10:10 ).

Porém, há quem divulgue que o diabo é quem veio matar, roubar e destruir. Seria o diabo o ladrão que Jesus faz referência?

É comum ouvirmos mensagens enfatizando que o diabo veio para matar, roubar e destruir a saúde, a família e as finanças do homem. Outros alegam que o diabo veio para matar, roubar e destruir a paz, a fé, a esperança, o amor, a salvação, etc., do cristão.

Seria isto verdade?

A bíblia nos garante que Cristo é a nossa paz, fé, esperança, amor e salvação. O diabo seria capaz de roubar, matar e destruir o cristão?

 

As parábolas e a missão de Jesus

Após dizer aos escribas e fariseus qual era a sua missão, Jesus propõe uma parábola a eles.

A missão de Jesus é clara: “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos” ( Jo 9:39 ). O que Jesus quis dizer com estas palavras, se Ele mesmo disse que a ninguém julga ( Jo 8:15 ).

Ora, os textos abordam aspectos diferentes da missão de Jesus. Quando Ele diz que ‘a ninguém julga’, evidência que o mundo já foi julgado e está sob condenação ( Rm 5:18 ; Jo 16:11 ; Jo 3:18 ). E, quando Ele diz que ‘veio ao mundo para juízo’, demonstra que a sua presença neste mundo é cumprimento cabal das Escrituras.

Jesus veio ao mundo conforme o previsto nas Escrituras, de modo que por diversas vezes Ele sinaliza que veio ao mundo em função da sua missão prevista “Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento” ( Mc 2:17 ); “Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz” ( Jo 18:37 ); “E se alguém ouvir as minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo” ( Jo 12:47 ); “Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas” ( Jo 12:46 ); “Agora a minha alma está perturbada; e que direi eu? Pai, salva-me desta hora; mas para isto vim a esta hora” ( Jo 12:27 ); “O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância” ( Jo 10:10 ).

Ou seja, todas as vezes que Jesus faz referência ao motivo pelo qual veio, tal motivo vincula-se a salvação dos homens. Como a salvação é promessa exarada nas Escrituras, Cristo veio para salvar cumprindo e sendo o cumprimento das Escrituras, de modo que, os que não veem passam a ver e, os que veem, torna-se cegos ( Sl 146:8 ; Is 29:8 ; Is 42:7 ; Is 43:8 ; Is 56:10 ).

Ao dizer: “Eu vim a este mundo para juízo”, Jesus estava dizendo por parábola que convinha cumprir toda a justiça ( Mt 3:15 ), pois Ele não veio ab-rogar, pois é o cumprimento das Escrituras “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido” ( Mt 5:17 -18).

Quando os fariseus ouviram as palavras de Jesus, entenderam que era algo pejorativo ser cego, mas Cristo lhes fala novamente por parábola, segundo o que profetizou o profeta Isaias: “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece” ( Jo 9:41 ; Is 56:10 ).

Lembrando que nada Jesus falava aos fariseus sem utilizar parábolas “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ), propôs um nova parábola “E ele disse: A vós vos é dado conhecer os mistérios do reino de Deus, mas aos outros por parábolas, para que vendo, não vejam, e ouvindo, não entendam” ( Lc 8:10 ).

 

A parábola

“Na verdade, na verdade vos digo que aquele que não entra pela porta no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador. Aquele, porém, que entra pela porta é o pastor das ovelhas. A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas, e as traz para fora. E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas de modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos” ( Jo 10:1 -5).

A parábola é um recurso que estabelece um quadro vivo na mente de quem ouve e impede o ouvinte de esquecer a exposição, esse foi o meio previsto nas Escrituras que o Cristo utilizaria para ensinar.

E ainda, as parábolas contêm enigmas, e os enigmas dificultava, para o povo, a compreensão das parábolas, mas aos discípulos Jesus desvendava o enigma de modo que lhes era ensinado abertamente a palavra de Deus “Inclinarei os meus ouvidos a uma parábola; declararei o meu enigma na harpa” ( Sl 49:4 ); “Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem” ( Mt 13:13 ).

Com os fariseus, Jesus só falava por meio de parábolas, como se lê: “E ele disse-lhes: A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas” ( Mc 4:11 ); “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ).

Aos fariseus Jesus diz:

  • Aquele que não entra no curral das ovelhas pela porta, mas que se utiliza de outros artifícios é ladrão, salteador;
  • Aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas;
  • O porteiro abre a porta somente para o pastor;
  • As ovelhas ouvem a voz do pastor e o segue para fora do curral, pois conhecem a voz do pastor, e;
  • As ovelhas de modo algum seguem o estranho, pois não conhecem a voz do estranho e fogem do estranho.

Quando Jesus contou a parábola com os elementos elencados acima, os fariseus não compreenderam. Apesar de terem questionado o Senhor Jesus por tê-los chamados de cegos, não perceberam que, pelo fato de não compreenderem o exposto por Cristo, verdadeiramente eram cegos, de modo que a profecia cumpria-se cabalmente neles “Jesus disse-lhes esta parábola; mas eles não entenderam o que era que lhes dizia” ( Jo 10:6 ).

Apesar de lerem nos salmos que só Deus pode abrir os olhos aos cegos, desconsideram o milagre e não compreenderam a parábola de Jesus “O SENHOR abre os olhos aos cegos; o SENHOR levanta os abatidos; o SENHOR ama os justos” ( Sl 146:8 ).

Diante da cegueira dos fariseus em não considerarem o milagre operado, Jesus explica a parábola desvendando o enigma.

Jesus disse estar dizendo a verdade em verdade e lhes expõe que era necessário entrar pela porta do curral das ovelhas para não ser um ladrão, um salteador. Sem a explicação de Jesus a parábola ficaria vaga, pois ela contém enigmas indecifráveis “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” ( Sl 78:2 ).

Jesus dá o significado da enigmática parábola ao dizer: “Eu sou a porta das ovelhas” (v. 7), ou seja, Jesus identifica-se como a porta. Já o ladrão, o salteador são os que vieram antes de Cristo (v. 8).

Ora, o Bom pastor diz de Cristo, o Servo do Senhor, portanto, um homem. De igual modo, os que vieram antes de Cristo só podem ser homens e não o diabo. Ora, o diabo não é o ladrão, o salteador que a parábola apresenta diz dos lideres de Israel, homens que tinham a função de ‘cuidar das ovelhas do Pai’, porém, prevaricaram nas suas atribuições.

Jesus enfatiza que todos os que vieram antes d’Ele são ladrões, salteadores, mas as ovelhas não os ouviram (v. 8). Novamente Jesus identifica-se como a porta e faz um convite na condição de Bom Pastor: “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” (v. 9). Diversas vezes os fariseus leram acerca da porta que os justos deveriam entrar, mas diante da porta estavam como que cegos: “Esta é a porta do SENHOR, pela qual os justos entrarão” ( Sl 118:20 ).

Por terem nascidos segundo a carne e o sangue de Abraão, consideram que já haviam entrado pela porta dos justos, porém, como não tinha a mesma fé que o crente Abraão que creu que no seu Descendente as famílias da terra seriam bem-aventuradas para ser justificado, ainda continuavam sendo filhos da ira e da desobediência, porque haviam entrado pela porta larga, que é Adão.

Por terem entrado pela porta larga, que é Adão, os fariseus haviam se desviado desde a madre, em iniquidade e em pecado foram formados, de modo que estavam em igual condição a todos os homens ( Sl 58:3 ; Sl 51:5 ; Sl 53:2 -3).

Quando Jesus se apresenta como a porta, apresentou-se na condição de último Adão, a porta dos justos. Os fariseus rejeitaram a pedra de esquina, a vítima, a luz, o bendito que veio em nome do Senhor ( Sl 118:1 -29).

Enquanto os que vieram antes de Cristo somente roubavam, matavam e destruíam, Jesus contrasta a sua missão com a deles “O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância” (v. 10). Por que eles eram ladroes? Porque eles eram obreiros da iniquidade, que se alimentavam do povo como se fosse pão “Acaso não têm conhecimento os que praticam a iniquidade, os quais comem o meu povo como se comessem pão? Eles não invocaram a Deus” ( Sl 53:4 ).

Os lideres de Israel eram ladrões, salteadores por subtraírem a palavra de Deus que concede vida aos homens. Sob o pretexto de sacrifícios (orações prolongadas, jejuns, festas, dias, luas) extorquiam a casa dos necessitados (viúvas, órfãos) ( Mt 23:14 ). ‘prolongadas orações’ é figura de sacrifícios, e viúvas e órfãos são figuras utilizadas para ilustras os necessitados, os pobres de espíritos.

Quando os fariseus ensinavam que não era necessário aos filhos de Israel dar aos seus pais o que pediam sob o pretexto de que fora oferecido como oferta ao Senhor, criaram um subterfugio para não observarem a lei que tanto idolatravam ( Mt 15:5 ; ). Além de roubar, as palavras que proferiam eram palavras de morte, pois todos os que ingeriam os seus ‘ovos’, tornavam-se serpentes ( Is 59:5 ). Todos que se tornavam prosélitos, tornavam-se duas vezes mais filhos do inferno ( Mt 23:15 ).

As ovelhas pertencem ao Pastor e o Pastor tem cuidado delas. Já o mercenário, por não ser o pastor, a quem as ovelhas pertencem, vê o perigo e o risco, mas não se interpõe de modo a proteger o rebanho. Diante do perigo, deixa as ovelhas e foge ( Jo 10:12 ).

Os lideres de Israel foram os responsáveis pela dispersão (diáspora) dos filhos de Israel por não acatarem o contido nas Escrituras e a maldição predita por Moisés sobreveio ao povo ( Dt 29:27 -28). Mesmo após terem percorrido o deserto sobre a liderança de Moisés, Deus já protestava contra eles que não lhes foi dado olhos para ver, ou seja, estavam cegos “Porém não vos tem dado o SENHOR um coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje” ( Dt 29:4 ).

O peso do Senhor contra os lideres de Israel que fazia o povo desviar-se de cumprir a sua palavra foi reiterado por diversas vezes pelos profetas “Uivai, pastores, e clamai, e revolvei-vos na cinza, principais do rebanho, porque já se cumpriram os vossos dias para serdes mortos, e dispersos, e vós então caireis como um vaso precioso” ( Jr 25:34 ).

O povo tornou-se comparável a ovelhas perdidas, pois deixaram o Senhor (lugar de repouso) e passaram a confiar na proteção oferecida pelas nações (montes e outeiros) vizinhas através de alianças “Ovelhas perdidas têm sido o meu povo, os seus pastores as fizeram errar, para os montes as desviaram; de monte para outeiro andaram, esqueceram-se do lugar do seu repouso” ( Jr 50:6 ; Os 7:1 e 11 ; Sl 50:16 -18).

Da mesma forma que os profetas falavam ao povo por enigmas e parábolas, Jesus retransmite a mesma mensagem demonstrando que haviam transformado a casa de Deus em uma ‘caverna de salteadores’, um ‘covil de ladrões’ “É pois esta casa, que se chama pelo meu nome, uma caverna de salteadores aos vossos olhos? Eis que eu, eu mesmo, vi isto, diz o SENHOR” ( Jr 7:11 ); “Os teus príncipes são rebeldes, e companheiros de ladrões; cada um deles ama as peitas, e anda atrás das recompensas; não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa da viúva” ( Is 1:23 ); “E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões” ( Mt 21:13 ); “Como as hordas de salteadores que esperam alguns, assim é a companhia dos sacerdotes que matam no caminho num mesmo consenso; sim, eles cometem abominações” ( Os 6:9 ); “SARANDO eu a Israel, se descobriu a iniquidade de Efraim, como também as maldades de Samaria, porque praticaram a falsidade; e o ladrão entra, e a horda dos salteadores despoja por fora” ( Os 7:1 ).

Como os lideres de Israel prevaricaram em suas atribuições, estavam surrupiavam o povo da Verdade que Deus lhes dissera. Em nenhuma das referências bíblicas do A. T. ha Deus fazendo referência aos demônios como os ladrões, ou salteadores, porque Deus trata na sua palavra com os homens e não com os demônios ou com os animais.

O apóstolo Paulo é claro: Tudo o que a lei diz, diz aos que estão debaixo da lei ( Rm 3:19), de modo que tanto os judeus quanto os gentios são escusáveis diante de Deus. Portanto, quando se lê os profetas, verifica-se que eles protestavam contra o povo de Israel declarando-os como ladrões e salteadores. Enquanto Deus requer o amor, os lideres de Israel impunha ao povo sacrifícios ( Os 6:6 ), de modo que eram transgressores como Adão. Por serem transgressores, as suas mãos são descritas figurativamente como ‘manchadas de sangue’, ou seja, eram homicidas ( Os 6:8 ).

Por terem as mãos manchadas de sangue, são descritos também como uma horda de salteadores, pois há violência em suas mãos ( Os 6:9 ). Isto não quer dizer que o povo de Israel e os seus sacerdotes eram reprováveis moralmente por cometerem homicídios, antes os profetas apresentam uma figura que representam o povo como transgressores mesmo quando aplicavam os seus corações nos sacrifícios e nas guarda de dias sagrados ( Is 1:13 -15).

Tudo que não for segundo a palavra de Deus (pelo meu espírito) é denominado ‘violência’, ‘homicídio’, ‘mãos manchadas de sangue’ ( Zc 4:6 ; Is 59:2 -10). Isaias, ao descrever este quadro demonstra que, por o povo de Israel ‘possuir’ uma justiça própria, ou seja, não reconhecendo a Cristo como Senhor, são descritos profeticamente como cegos: “Por isso o juízo está longe de nós, e a justiça não nos alcança; esperamos pela luz, e eis que só há trevas; pelo resplendor, mas andamos em escuridão. Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos” ( IS 59: 9 -10).

Esperavam o juízo “Todos nós bramamos como ursos, e continuamente gememos como pombas; esperamos pelo juízo, e não o há; pela salvação, e está longe de nós” ( Is 59:11 ), e quando o Juízo disse: “Eu vim a este mundo para juízo” ( Jo 9:39 ), estavam completamente cegos!

Como o Salmo 118 apresenta a porta, a pedra de esquina e a destra do Senhor que faz proezas, Jesus também se apresenta como a vítima do altar. Quando Jesus identifica-se como o Bom Pastor, apresentou-se como o Senhor que mostrou a luz e, ao mesmo tempo o cordeiro que foi morto, pois Ele deixa claro que o Bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas (v. 11) “Deus é o SENHOR que nos mostrou a luz; atai o sacrifício da festa com cordas, até às pontas do altar” ( Sl 118:27 ). O mesmo Senhor que veio mostrar a luz para os que jaziam em trevas, tornou-se o sacrifício da festa.

Jesus complementa a parábola inicial ao destacar que os mercenários ou o que não é o pastor, se evadem e deixam as ovelhas à mercê da sanha dos lobos (v. 12). O motivo pelo qual o mercenário foge é porque é mercenário, ou seja, não é comprometido com as ovelhas (v. 13 ).

Novamente Jesus destaca que é o Bom Pastor, sendo que Ele ‘conhece’ as suas ovelhas e delas é ‘conhecido’. A palavra conhecer neste verso não é o mesmo que ‘saber acerca de’, antes diz de comunhão íntima. Jesus tornou-se um só corpo com as suas ovelhas, de modo que passaram a ter comunhão íntima, porque as ovelhas são os membros do corpo de Cristo, que é a igreja (v. 14).

Do mesmo modo que o Pai conhece o Filho de modo que ambos são um, a igreja conhece o Pai e o Filho, pois em Cristo são um só corpo “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” ( Jo 17:22 ). ‘Conhecer’ é o mesmo que tornar-se um (v. 15).

Jesus foi enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel “E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” ( Mt 15:24 ), mas não ouviram aquele que se apresentou como descanso e refrigério ao cansado. Como não deram ouvido, o Bom Pastor lançou mão de ovelhas tiradas dentre os gentios.

As ‘ovelhas que não são deste aprisco’ é uma referencia aos gentios que, após ouvirem a mensagem do evangelho, tornaram-se coerdeiros da mesma promessa (v. 16).

Quando Jesus declarou que ‘Deus o amava’ em virtude de dispor da sua vida e que lhe foi dado autoridade para tornar a toma-la, os judeus nada compreenderam e houve dissensão entre eles por causa destas palavras (v. 19). Uns passaram a dizer que Jesus tinha demônio e estava louco, enquanto outros consideravam que tais palavras não podiam ser de um endemoninhado, pois tinha poder de dar vista aos cegos (v. 21).

Novamente outra profecia cumpriu-se neles: “O melhor deles é como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos; veio o dia dos teus vigias, veio o dia da tua punição; agora será a sua confusão. Não creiais no amigo, nem confieis no vosso guia; daquela que repousa no teu seio, guarda as portas da tua boca. Porque o filho despreza ao pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra, os inimigos do homem são os da sua própria casa” ( Mq 7:4 -6).

 

O diabo não pode roubar, matar ou destruir o corpo de Cristo

Em primeiro lugar, vale destacar que é impossível ao diabo roubar o cristão, pois o cristão está escondido com Cristo em Deus, e esta é a certeza do cristão: “Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Rm 8:38 -39); “Mas fiel é o SENHOR, que vos confirmará, e guardará do maligno” ( 2Ts 3:3 ).

Em segundo, lugar é impossível o diabo roubar a paz, a esperança, o amor, etc., pois as ‘qualidades’ enumeradas referem-se ao ‘fruto’ do Espírito, e não do cristão, de modo que é impossível ao diabo roubar a Deus “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança” ( Gl 5:22 ).

É o Espirito que produz amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança naqueles que estão ligados à Videira verdadeira ( Jo 15:5 ). Ou seja, sem Cristo é impossível ao homem produzir fruto, pois Deus diz: “…de mim é achado o teu fruto” ( Os 14:8 ).

Em terceiro lugar, quem veio matar, roubar e destruir não foi o diabo, como já demonstramos. Como o diabo roubaria aquele que está escondido com Cristo em Deus?

Em quarto lugar, mesmo que o cristão sofra algumas contingências em relação aos bens materiais ou em relação à sua existência neste mundo, não é o diabo que provoca, pois tais contingências às vezes decorrem dos desatinos dos homens entenebrecidos no entendimento, que andam segundo o curso deste mundo e estão separados de Deus pela ignorância que há neles ou, por decisões equivocadas que tomamos.

A parábola faz referência aos líderes de Israel quando fala do ladrão, portanto, é um erro aplicar a passagem de João 10, verso 10 como sendo o diabo o ladrão que consta na parábola.

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A carne para nada serve

‘Provar os espíritos’ ou ‘os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas’ não envolve questões de ordem psíquica. Provar os espíritos não é verificar se o profeta é nervoso, intolerante, agitado, agressivo, etc., ou verificar se o profeta controla as suas emoções, desejos e ansiedades. Tais questões são pertinentes a psique humana e alguns psicólogos rotulam como sendo nuances do ‘espírito’. Portanto, a análise deve recair única e exclusivamente sobre a palavra do profeta, pois é pelo ‘fruto’ que se identifica a árvore ( Mt 7:16 ).


“E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 )

Introdução

O evangelista Marcos apresentou uma informação que não pode ser desprezada como parâmetro essencial à contextualização e interpretação de algumas passagens bíblicas:

“E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ).

Neste verso o evangelista deixou registrado de modo claro que, tudo o que Jesus dizia à multidão era dito através de parábolas, o que contrasta com a maneira de Jesus ensinar os seus discípulos em particular.

De posse desta informação, é salutar ao interprete da bíblia analisar qual é o público alvo das palavras de Cristo, pois se for a multidão, teremos parábolas e enigmas, mas se o público alvo for os discípulos e em particular, teremos a elucidação das parábolas e dos enigmas ( Sl 78:2 ).

Neste artigo, faremos um exercício de análise e interpretação bíblica utilizando como base o verso 63 de João 6: “O espírito é que vivifica, a carne para nada serve”, levando em conta a informação dada pelo evangelista Marcos, ou seja, de que Jesus só falava ao povo utilizando-se de parábolas, mas quando em particular com os seus discípulos, declarava o significado do que havia dito.

Demonstraremos a importância de se determinar o público alvo da mensagem de Jesus, se judeus ou discípulos, o que possibilitará uma interpretação segura das Escrituras.

João 6

O evangelista João destaca que Jesus discursou a uma grande multidão que O seguia em função do milagre da multiplicação dos pães ( Jo 6:24 e 59), e no verso 61 em diante, o evangelista destaca que, quando Jesus ficou a sós com os seus discípulos, ensinou-os em função do que havia discursado ao povo.

O texto demonstra que muitos dos discípulos, ao ouvirem o discurso que Cristo fez à multidão, argumentaram: ‘- Duro é este discurso, quem o pode ouvir?’ ( Jo 6:60 ). Ao perceber que os seus discípulos murmuravam a respeito do que fora dito à multidão, Jesus os questiona dizendo: ‘- Isto vos escandaliza?’ (v. 61) e complementa ‘- Que aconteceria então se vísseis o Filho do homem subir para onde primeiro estava?’ Foi quando Jesus apresentou a seguinte explicação: “- O espírito é que vivifica, a carne para nada serve. As palavras que eu vos disse são espírito e vida. Mas alguns de vós não creram” ( Jo 6:63 ).

Levando em conta o que o evangelista Marcos disse: “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” ( Mc 4:34 ), e que Jesus ensinou os discípulos em particular quando disse: “- O espírito é que vivifica, a carne para nada serve. As palavras que eu vos disse são espírito e vida. Mas alguns de vós não creram” ( Jo 6:63 ), devemos perguntar: Jesus propôs alguma parábola ao povo? Jesus contou à multidão alguma história do cotidiano para expor a sua doutrina? O que é uma parábola?

 

Definição secular de parábola: s.f. Trata-se de uma história curta, cujos elementos são eventos e fatos da vida cotidiana que ilustram uma verdade moral ou espiritual.

Se o interprete levar em conta a definição acima, jamais encontrará no capítulo 6 do evangelho de João uma história curta que faça referencia a eventos e fatos do cotidiano. Mas, como o evangelista Marcos foi contundente ao dizer que Jesus só falava a multidão por parábolas, faz-se necessário reler com acuidade o capítulo 6 do evangelho de João, para descobrirmos se há realmente uma parábola no texto.

Outro ponto a se destacar é o predito pelo salmista: “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” ( Sl 78:2 ). Os enigmas que seriam propostos através de parábolas pelo Messias estavam vinculados as questões da antiguidade, ou seja, não estava vinculado ao cotidiano das pessoas. Se os enigmas são os mesmos da antiguidade, a própria parábola não dependia do formato de uma história curta.

Através de um elemento próprio às poesias hebraicas, o paralelismo, verifica-se que o enigma profetizado pelo salmista e, que seria proposto ao povo através das parábolas pelo Messias, refere-se à lei mosaica anunciada na antiguidade ( Sl 78:1 ), com o objetivo de que os filhos de Israel cressem em Deus ( Sl 78:7 ).

“Escutai a minha lei, povo meu; inclinai os vossos ouvidos às palavras da minha boca.
Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade.
Os quais temos ouvido e sabido, e nossos pais no-los têm contado”
( Sl 78:1-3)

O evangelista João narra que Jesus multiplicou cinco pães e dois peixinhos ( Jo 6:9 ) e que uma multidão de quase 5.000 mil pessoas comeram a fartar, de modo que sobejaram e sobraram 12 cestos de pães. Diante daquela maravilha, a multidão pretendia fazer Cristo rei, ao que Ele se retirou sozinho para um monte ( Jo 6:15 ).

Mas, o interesse da multidão em se alimentar de pão era tamanho que os judeus procuraram Jesus em toda parte e, como não O encontraram, atravessaram o mar e foram em busca de Jesus na cidade de Cafarnaum ( Jo 6:24 ).

Quando a multidão encontrou Jesus, foi repreendida: “Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes” ( Jo 6:26 ). E em seguida lhes dá uma ordem: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou” ( Jo 6:27 ).

Diante da proposta de Cristo, o povo questionou o que era necessário fazer para ser servo de Deus, pois queriam ter direito ao pão cotidiano ( Jo 6:28 ). Quando Jesus indicou como eles se tornariam servos (executores da obra de Deus), a multidão, que havia comido pão a fartar e que queriam no dia anterior fazer de Cristo seu rei, pediu um sinal visível para que pudessem crer no que Jesus propôs “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

A exigência de um milagre teve por pretexto a lei de Moisés, quando disseram: “Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer o pão do céu” ( Jo 6:31 ). Menosprezaram o milagre operado no dia anterior, em que uma multidão de quase 5.000 pessoas famintas foi saciada com cinco pães e dois peixes, pois entenderam que Cristo só teria autoridade de apresentar-lhes o exigido por Deus se lhes desse comida equivalente ao maná do deserto e por muitos dias.

Foi quando Jesus contraria a crença dos seus ouvintes ao dizer que não fora Moisés que dera o pão do céu e, por fim, identificou-se como o pão que dá vida aos homens ( Jo 6:35 ).

A multidão que inicialmente queria servir a Deus (apresentar-se por servo) para ter direito a comida que perece ( Jo 6:34 ), ficou apreensiva porque Jesus disse ser Ele mesmo o pão vivo que desceu do céu, e passaram a murmurar dizendo: “Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Então como diz ele: Desci do céu?” ( Jo 6:42 ).

Em seguida Jesus reafirma: – ‘Eu sou o pão da vida! Mas aqui está o pão que desceu do céu, do qual se o homem comer não morre! Se alguém comer deste pão, viverá para sempre. Este pão é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo’ ( Jo 6:48 -51).

Apesar de deixar claro que a sua carne seria entregue para que o mundo obtivesse vida, a declaração de Jesus fomentou uma discussão entre os judeus, e eles começaram a questionar entre si: ‘- Como nos pode dar este homem a sua carne a comer?’

Através das perguntas dos judeus diante da declaração de Cristo, fica evidente que não compreenderam a proposta de Cristo, ou seja, Jesus havia proposto ao povo uma parábola, pois a função da parábola é específica: que o povo ‘vendo não veem e ouvindo não ouvem e nem compreendem’Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis, E, vendo, vereis, mas não percebereis” ( Mt 13:13 -14; Sl 78:2).

Ora, a multidão não compreendeu o que Cristo disse quando se apresentou como o pão vivo enviado dos céus. Eis a parábola, o enigma proposto. Ficaram escandalizados quando foi dito que a carne de Jesus era comida e o seu sangue bebida ( Jo 6:53 -56), ou seja, a proposta de Jesus foi feita por parábola e envolvia um grande enigma!

Tudo o que Jesus disse à multidão em Cafarnaum por parábola, em particular expôs o significado aos Seus discípulos.

A explicação da parábola

A sós com os Seus discípulos, Jesus explica porque Ele é o pão vivo que desceu dos céus, e; porque a sua carne é verdadeiramente comida e o seu sangue verdadeiramente bebida. A explicação resume-se na seguinte fala: ‘- O espírito é que vivifica, a carne para nada serve. As palavras que eu vos disse são espírito e vida!’

Analisando algumas declarações que Jesus fez ao povo, temos que Ele é o pão que desceu do céu e que dá vida ao homem, pois quem se alimenta de Cristo viverá em função d’Ele ( Jo 6:51 e 57). Sobre esta verdade o apóstolo Paulo disse que Jesus é o último Adão, o espírito vivificante, o espírito que dá vida.

À multidão, Jesus anunciou que somente o ‘pão vivo que desceu dos céus concede vida’, e aos discípulos, em particular, deixa claro que o que vivifica é ‘o espírito’. Por fim ele arremata: ‘- As palavras que eu vos disse são espírito e vida’.

O interprete deve estar atento a toda explicação de Jesus, pois quando ele diz: ‘as palavras que eu vos disse são espírito e vida’, está definindo qual o significado do termo ‘espírito’. Ou seja, o que vivifica o homem são as palavras ditas por Cristo, pois as suas palavras são juntamente espírito e vida. Ou melhor, Cristo por ser o Verbo de Deus encarnado, é espírito vivificante ( 1Co 15:45 ).

O apóstolo Pedro ao recomendar a palavra aos cristãos, apresenta a palavra de Deus como alimento, pois exorta a crescerem fazendo uso do ‘leite racional’ “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo” ( 1Pe 2:2 ).

Quando Jesus fez o convite ao povo para que comessem da sua carne e bebessem do seu sangue dizendo que a sua carne era verdadeiramente comida e os seu sangue verdadeira bebida, estava ensinado ao povo por parábolas. Por enigma Jesus estava dando a entender ao povo que somente suas palavras proporcionam vida aos Seus ouvintes, e não os milagres operados. Jesus estava conclamando o povo que provassem a sua palavra do mesmo modo que o paladar prova a comida, pois veriam que Cristo, o Senhor do salmista, que se assentou a destra do Senhor do Salmista, é bom “Porque o ouvido prova as palavras, como o paladar experimenta a comida” ( Jó 34:3 ); “Provai, e vede que o SENHOR é bom; bem-aventurado o homem que nele confia” ( Sl 34:8 ).

Os cegos e surdos que provam as palavras de Cristo, crendo “Bem-aventurado o homem que nele confia” ( Sl 34:8 ), passa a enxergar. São os meninos que aprendem o temor do Senhor, os mansos que atendem o convite: vinde a mim vós todos que estais cansados e sobrecarregados ( Sl 34:11 ; Mt 11:28 ; Sl 34:2 ).

Se os ouvintes de Cristo ouvissem a sua palavra e cressem, seriam participantes do Espírito que vivifica ( 1Co 15:45 ), ou seja, tornar-se-iam um só corpo com Ele ( Jo 6:51 e Lc 22:20 ). Na palavra de Cristo está a vida dos homens ( Jo 1:4 e 7), mas por causa da parábola, os ouvintes de Cristo entenderam que Ele estava dando a comer o seu corpo físico, pois o que buscavam era pão de cevada. Cristo não queria que bebessem do sangue que estava em suas veias e que foi derramado na cruz, antes Jesus queria que cressem em suas palavras, pois as suas palavras faria com que os seus ouvintes se tornassem um com Ele, participantes do seu corpo ( Jo 17:21 ; Ef 3:6 ).

Quando disse em particular: “- O espírito é que vivifica, a carne para nada serve”, Jesus estava revelando a natureza do Seu discurso “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” ( 1Jo 5:3 ; Jo 6:61), antes que o que estava sendo proposto era que cressem em sua palavra, pois especificamente a sua palavra era espírito e vida “Ele, porém, respondendo, disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” ( Mt 4:4 ).

A palavra é espírito? Sim! É em função desta verdade que interpretamos passagem como: “E os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” ( 1Co 14:32 ). Ou seja, a palavra do profeta é sujeita ao profeta. De igual modo, quando lemos: “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” ( 1Jo 4:1 ), a palavra ‘espírito’ nestes textos não diz de um ‘demônio’, ‘espírito imundo’ ou ‘fantasma’, antes diz especificamente da mensagem do falso profeta.

‘Provar os espíritos’ ou ‘os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas’ não envolve questões de ordem psíquica. Provar os espíritos não é verificar se o profeta é nervoso, intolerante, agitado, agressivo, etc., ou verificar se o profeta controla as suas emoções, desejos e ansiedades. Tais questões são pertinentes à psique humana e alguns psicólogos rotulam como sendo nuances do ‘espírito’. Portanto, a análise deve recair única e exclusivamente sobre a palavra do profeta, pois é pelo ‘fruto’ que se identifica a árvore ( Mt 7:16 ).

Assim como o paladar prova a comida, o ouvido deve provar as palavras, pois da boca dos homens procede o ‘fruto’ que permite identificá-los se são árvores boas ou más “Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre; dos renovos dos seus lábios ficará satisfeito” ( Pr 18:20 ); “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ).

Compreendendo que a palavra ‘espírito’ às vezes possui o significado de ‘palavra’, torna-se fácil compreender o que o apóstolo Paulo disse com o seguinte verso: “O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica” ( 2Co 3:6 ). Ou seja, o cristão é ministro da palavra de Cristo (evangelho), o espírito que vivifica, e não ministro da lei de Moisés, que é morte.

Mas, de onde Cristo e os apóstolos tiram tal significado para o termo espírito? A resposta encontra-se nas Escrituras, como se lê: “O Espírito do Senhor é sobre mim, Pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados do coração” ( Lc 4:18 ; Is 61:1 ). Ora, o espírito do Senhor que estava sobre Cristo diz da palavra de Deus, pois a palavra era a unção necessária para se evangelizar os pobres e curar os abatidos de espírito.

O espírito do Senhor que repousou sobre Cristo diz da palavra de Deus, pois ela é juntamente sabedoria, conselho, conhecimento, temor, etc. “E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR” ( Is 11:2 ).

A palavra do Senhor é distinta do Espírito Santo, o consolador prometido e enviado, que veio sobre Cristo em forma de uma pomba quando Ele foi batizado por João Batista ( Jo 16:7 ; Mt 3:16 ).

Quando a bíblia diz que Deus pesa o espírito do homem, não diz de um julgamento (análise) do ‘ser’, da essência do homem, antes que Deus pesa as suas palavras “Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos, mas o SENHOR pesa o espírito” ( Pr 16:2 ); “Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado” ( Mt 12:37 ). Através do provérbio, verifica-se que os homens possuem um entendimento acerca dos seus caminhos, porém, Deus os prova (julga) segundo o que ‘professam’, assim como deve fazer os seguidores de Cristo “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” ( 1 Jo 4:1).

Os homens desconhecem a sua condição decorrente do nascimento natural. Quando nascem entram por uma porta larga que lhes dá acesso a um caminho de perdição. Quando Deus pesa o homem, não pesa segundo o que os homens entendem por puro, antes Deus pesa o homem segundo a porta que entrou ao nascer da semente de Adão, pois o que o homem natural anuncia segundo o seu conhecimento natural é mentira desde que foi lançado da madre ( Sl 58:3 ; Rm 3:4 ).

Mas, se tal homem crer em Cristo, morre com Cristo e é gerado de novo, ou seja, nasceu de novo. Por crer passa a falar segundo a verdade do evangelho, o espirito (palavra) que é pesado e não é achado em falta diante do Senhor ( Rm 8:9 ; Lc 4:1 ). É por isso que Jesus disse que julgava segundo a reta justiça e não segundo a aparência, ou seja, julgava segundo o que ouvia, pois Ele provava as palavras daqueles que o cercava. Os homens juntamente se desviaram e tornaram-se imundos em Adão e são pesados segundo as suas palavras em decorrência da mentira que proferem desde o nascimento ( Sl 53:3 ; Sl 58:3 ), e não segundo o comportamento e a moral humana que a religiosidade impõe ( Jo 7:24 ; Jo 5:30 ).

É por isso que Jesus disse que o que contamina o homem é o que sai da boca, e não o que entra, portanto é necessário provar os espíritos se eles procedem de Deus ou não, pois aquele que procede de Deus é porque ouviu as palavras de Deus ( Mc 7:15 -20; Jo 3:34 ; Jo 8:47 e 1Pe 4:11 ).

É por isso que Jesus disse que o que contamina o homem é o que sai da boca, e não o que entra, pois o coração enganoso e corrupto é proveniente do nascimento natural, portanto é necessário provar os espíritos se eles procedem de Deus ou não. Aquele que procede de Deus é porque ouviu as palavras de Deus e fala as palavras de Deus ( Mc 7:15 -20; Jo 3:34 ; Jo 8:47 e 1Pe 4:11 ).

Deste modo, o dom de discernir os espíritos diz da capacidade que é concedida ao cristão de analisar as palavras ditas por aqueles que se posicionam como profetas, se as palavras são de Deus ou não “E a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas” ( 1Co 12:10 ).

Resta-nos a pergunta: como ser cheio do espírito? “E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito” ( Ef 5:18 ). Como ser ‘mais’ cheio do Espírito Santo se Ele foi enviado e habita o crente? Ser cheio do espírito diz do Consolador que Cristo enviou, do qual somos templo, ou da palavra? “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” ( 1Co 3:16 ); A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração ( Cl 3:16 ).

“… enchei-vos do Espírito; Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração” ( Ef 5:18 -19).

A carne para nada serve

O que causou escândalo ao povo e a alguns discípulos de Cristo foi o discurso: “- Eu sou o pão que desceu do céu!”; “- A minha carne é verdadeiramente comida e bebida!” ( Jo 6:41 e 52). Os discípulos se escandalizaram e concluíram que o discurso de Cristo era duro ( Jo 6:60 -61).

Para um judeu, determinados tipos de alimentos eram proibidos, quanto mais comer a carne de um homem. Do mesmo modo que os judeus desprezaram Jesus por ter demonstrado sabedoria ao expor as Escrituras ( Mc 6:2 ), escandalizaram-se por Ele ter apresentado a sua carne como comida e o seu sangue como bebida.

Por não compreenderem a parábola, o povo escandalizou-se por entenderem que Jesus estava lhes propondo uma espécie de canibalismo.

Em particular com os seus discípulos, Jesus demonstrou que o que estava apresentando ao povo era a sua doutrina, pois o que dá vida ao homem é a palavra, e arrematou: a carne para nada serve!

O que Jesus deu a entender aos seus discípulos com a frase: ‘a carne para nada serve’?

Quando Jesus disse que ‘a carne para nada servia’, estava explicando aos discípulos que a sua carne não era ‘degustável’. Jesus estava esclarecendo que era equivocada a ideia que abstraíram de sua palavra, pois estavam escandalizados com a ideia de que a vida prometida estava vinculada a degustarem uma porção da carne de Cristo como se fosse pão.

Jesus descontrói a ideia que alguns discípulos equivocadamente construíram em função da parábola. Ele esclarece que a vida decorre de participarem do seu espírito (palavra) e, que a carne d’Ele não tinha tal serventia. Ou seja, em relação ao corpo físico de Jesus, que foi feito em semelhança da carne do corpo do pecado, não possuía as propriedades que os seus ouvintes equivocadamente entenderam através da parábola.

A carne de Cristo não tinha valor algum? A carne de Cristo tinha valor, pois foi através dela que Jesus aniquilou o que tinha o império da morte quando entregou ao Pai o seu espírito ( Hb 2:14 ). Foi através do seu corpo físico que Jesus tornou-se semelhante aos seus irmãos ( Hb 2:17 ), de modo que hoje Ele é misericordioso e fiel sumo sacerdote. Foi através do seu copo físico que Ele pode ser tentado e padecer todas as aflições ( Hb 2:18 ). Somente quando participante da carne e do sangue, tornou-se possível o Filho do homem ser entregue nas mãos dos pecadores ( Lc 24:7 ).

No contexto de João 6, verso 63, a carne de Cristo não possuía a propriedade de proporcionar vida caso alguém comesse da sua carne como se fosse pão, mas no contexto de Hebreus 10, verso 10, vê-se a serventia, o valor do corpo de Cristo “Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” ( Hb 10:10 ).

É em função da parábola proposta por Cristo aos judeus, que muitos interpretam literalmente a parábola proposta e, se esquece que, para interpretar uma parábola, antes se faz necessário elucidar o enigma: o pão proposto é o espírito, a palavra de Cristo, e não a carne d’Ele. Este erro se vê nas declarações do ex-pastor Batista, Francisco Almeida Araújo, conforme o exposto no DVD intitulado “Nossa Senhora do Marrom Glacê”, pois como a carne de Cristo para nada serve, segue-se que os fundamentos da eucaristia, a transubstanciação, estão equivocados, pois o que dá vida é o espírito, a palavra.

Mas, como convencer alguém da verdade? Somente lhe anunciado a verdade “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Zc 4:6 ). Zorobabel viu um castiçal todo de ouro, um vaso de azeite no seu topo, com as suas sete lâmpadas, sete canudos, um para cada uma das lâmpadas que estão no seu topo e, por cima dele, duas oliveiras, uma à direita do vaso de azeite, e outra à sua esquerda, porém, não compreendeu a visão: a resposta estava no espírito, na palavra do Senhor, que faz o que é aprazível e não volta vazia ( Is 55:11 ).

Ao anunciar que a sua carne era verdadeiramente comida e o seu sangue verdadeiramente bebida, apresentando o enigma de que o seu corpo era o pão a ser comido “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo” ( Jo 6:51 ), Jesus queria que compreendessem que lhes era necessário serem participantes da sua palavra, crendo n’Ele como confessou o discípulo Pedro: ‘- Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras de vida eterna!’

Portanto, qualquer que crê em Cristo conforme diz as Escrituras, alimentou-se de Cristo, ou seja, é participante do pão, do seu corpo, da sua carne e do seu sangue que foi entregue pela vida do mundo ( Jo 6:51 e 57).

A ideia que abstraíram da palavra de que Cristo estava dando literalmente a sua carne a comer foi descontruída quando Jesus alertou os seus discípulos de que ‘a carne d’Ele não tinha serventia para conceder vida’, antes o que concede vida é o seu espírito, ou seja, a sua doutrina, a sua palavra.

Qualquer que aceitasse a doutrina de Cristo não se escandalizando d’Ele, é o que renovou o espírito da sua mente. É naquele que não se escandaliza que ocorre a ‘metanoia’, a mudança de mente, de espírito. Enquanto alguns discípulos estavam escandalizados a ponto de se retirarem ( Jo 6:66 ), somente aqueles que mudaram a sua concepção diante da mensagem do evangelho puderam confessar: ‘- Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras de vida eterna. Nós cremos e conhecemos que tu és o Cristo, o Santo de Deus!’ ( Jo 6:68 -69).

Aquele que não renova a sua compreensão buscará motivos para se escandalizar. À época de Cristo, uns se escandalizam da doutrina, outros do conhecimento de Cristo, pois apenas viram Jesus como um dos filhos de José e Maria e, que tinha por oficio ser carpinteiro ( Mc 6:3 ). Mas, os que não se retiram escandalizados permanecem, pois creem que Jesus é o Filho de Davi prometido segundo as Escrituras.

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O primeiro e grande mandamento na lei

Para ouvir e compreender a mensagem de Cristo é necessário comparar coisas espirituais com coisas espirituais (novo testamento com antigo testamento) e lembrar sempre do seguinte versículo: “Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão, e nada lhes falava sem parábolas” ( Mt 13:34 ). Até mesmo a resposta que Jesus deu ao fariseu era uma parábola, pois Cristo é o ‘braço’ do Senhor, a luz do Senhor manifesto aos homens, e os homens não O compreenderam ( Jo 12:41 ; Jo 1:5 ).


“Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” ( Mt 22:36 -40).

Certa feita Jesus foi questionado pelos discípulos porque falava aos seus ouvintes por parábolas. E Jesus lhes respondeu: “Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem” ( Mt 13:13 ).

Jesus falava ao povo por parábolas, pois neles se cumpria a profecia de Isaias, uma vez que o coração deles estava endurecido ( Mt 13:15 ).

No diálogo que Jesus teve com certo doutor da lei se faz necessário descobrir se Jesus também falou por parábolas, para que, o doutor da lei e fariseu ouvindo, não ouvisse e nem compreendesse ( Jo 1:5 ).

Os profetas anunciaram que o Cristo haveria de propor enigmas e parábolas aos seus ouvintes ( Sl 49:4 ; Sl 78:2 ), e Jesus não trouxe nada de diferente do que constava na lei, salmos e profetas ( Jo 5:39 ; Lc 24:44 ).

A pergunta capciosa de um fariseu foi: “Mestre, qual é o grande mandamento na lei?”.

Jesus, por sua vez, demonstrou que o primeiro e grande mandamento na lei é: “Amará o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” ( Mt 22:37 ), e que o segundo, semelhante ao primeiro é: “Amará o teu próximo como a ti mesmo” ( Mt 22:39 ).

O mestre dos fariseus deu-se por satisfeito, pois era isto mesmo que ele queria ouvir. Ele escutou e aprovou a resposta de Cristo. Ele já havia lido e ouvido esta passagem bíblica inúmeras vezes, mas não ‘ouviu’ e nem ‘compreendeu’.

A pergunta que o doutor da lei precisava fazer para Jesus era: como se ama a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento?

As Escrituras nos revelam que cumprir todos os mandamentos assim como certo príncipe judeu cumpria a lei desde a mocidade, não é o mesmo que amar a Deus de todo coração, de toda a alma e de todo o entendimento ( Mt 19:20 ; Lc 18:18 -24).

“- Tudo isto tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?” Se o Jovem rico amasse a Deus de todo o seu coração, não teria se retirado triste ( Mt 19:22 ). Se ele entendesse a proposta da lei, jamais teria perguntado: “Que bem farei para herdar a vida eterna” ( Lc 18:18 ), pois saberia que não há bem algum a ser realizado pelo homem que dê direito a salvação, antes, para que o homem possa herdar a vida eterna é necessário somente crer no Autor da salvação.

Mesmo sendo príncipe dos judeus, fariseu, juiz e mestre em Israel, Nicodemos também não amava o Senhor Deus de todo coração, de toda alma e de todo entendimento, uma vez que Jesus lhe disse: necessário vos é nascer de novo ( Jo 3:1 -5 ).

Outro fariseu subiu ao templo, e em oração disse: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo” ( Lc 18:11 -12).

Mesmo ‘seguindo’ o que preceituava a lei, o fariseu que subiu ao templo não foi justificado! Não roubar, não matar, não furtar, não ser injusto ou adultero não é o mesmo que amar a Deus de todo coração, de toda a alma e de todo o entendimento, pois aqueles que amam a Deus e cumprem os seus mandamentos são declarados justos ( Dt 7:9 ).

Se os fariseus, apesar de serem religiosos, legalistas, formalistas e ritualistas, não cumpriram o primeiro e grande mandamento na lei, como esperar que qualquer do povo cumpriria o mandamento que diz: “Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças” ( Dt 6:4 -5)?

A resposta está em Deuteronômio, verso 6, capítulo 30: “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ).

Para que o homem possa ‘amar o Senhor Deus de todo o coração, de toda alma, de todas as forças e de todo o entendimento’ é necessário que o coração do homem seja circuncidado por Deus.

A circuncisão do coração feita por Deus tem dois objetivos definidos:

  • Que o homem obtenha vida, e;
  • Que o homem possa amar ao Senhor de todo o coração, de toda a alma, etc.

Somente um coração circuncidado pelo Senhor pode amá-Lo de todo. Somente após Deus realizar a sua obra, que é a circuncisão do coração, torna-se possível ao homem e a mulher amar a Deus de todo o coração, de toda a alma, de todo entendimento, etc “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração (…), para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma” ( Dt 30:6 ).

Um coração incircunciso está morto diante de Deus. Somente um coração circuncidado vive perante Ele “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração (…) para que vivas ( Dt 30:6 ). Nada representa diante de Deus os sentimentos de um coração incircunciso, ou seja, que está morto! A circuncisão de Deus é para que o homem tenha vida, pois Deus é Deus de vivos, e não de mortos.

O amor a Deus não se vincula a sentimentos humanos, à voluntariedade, aos serviços, aos sacrifícios ou esforço próprio, antes só é possível amar a Deus após a intervenção cirúrgica de Deus: a circuncisão do coração!

Havia um enigma no primeiro e grande mandamento da lei! Muitos leram, outros ouviram, porém, não entenderam e nem compreenderam como se cumpre o primeiro e grande mandamento na lei: circuncidai, pois o vosso coração!

Antes de entregar pela segunda vez as tábuas dos dez mandamentos, Deus orientou o povo a amá-lo ( Dt 10:12 ). De que modo? Circuncidando o prepúcio do coração ( Dt 10:16 ). Ou seja, o cumprimento da lei dependia diretamente da circuncisão do coração, o que só é possível através da ação divina, sem o auxílio de mãos humanas: obra exclusiva de Deus “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração…” ( Dt 30:6 ; Cl 2:11).

Da mesma forma que, segundo a carne, Abraão circuncidou Isaque, quando Deus recebe dentre os homens filhos para si, Ele circuncida o prepúcio do coração dos seus filhos. É o pai que circuncida o filho, e a circuncisão promovida por Deus demonstra que Ele recebeu o circuncidado por filho.

Os fariseus não amavam a Deus de todo o coração porque acreditavam que eram filhos de Deus por serem descendentes da carne de Abraão. Por serem circuncidados na carne ao oitavo dia após nascerem, acreditavam que tal prática os tornava filhos de Deus.

Porém, Deus só recebe por filhos aqueles que ele circuncida. A circuncisão do coração é necessária para que o homem viva, ou seja, volte a ser participante da glória de Deus. Sem a circuncisão que Deus efetua no coração o homem está morto, continua na incircuncisão da carne herdada de Adão, mesmo após cumprir os quesitos da lei, como o é a circuncisão do prepúcio.

Enquanto a circuncisão do prepúcio era quesito para ser membro da nação de Israel, a circuncisão do coração é imprescindível para que fossem participantes do Israel de Deus ( Rm 9:6 ). Somente Deus pode realizar a circuncisão do coração do homem “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ).

Após ser circuncidado pelo Senhor, o homem recebe um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ). É tirado o coração de pedra e concedido um coração de carne ( Ez 36:26 ). O criado em verdadeira justiça e santidade um novo homem( Ef 4:24 ). Tudo se faz novo!

Somente após receber um novo coração e um novo espírito, o homem regenerado passa a adorar a Deus em espírito e em verdade, ou seja, consegue amar a Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.

O profeta Ezequiel anunciou que Deus haveria de espargir água pura sobre os homens, ou seja, através da sua palavra Deus haveria de conceder um novo coração e um novo espírito.

Após o novo nascimento, Deus haveria de habitá-los, condição imprescindível para que os homens andem, guardem e cumpram os estatutos de Deus ( Ez 36:25 -27 ). Para amar a Deus de todo o coração é necessário que Deus habite o homem.

Diante da lei e do protesto veemente dos profetas, o povo de Israel aplicavam-se a cumprir os mandamentos como guardar o sábado, utilizar os filactérios, jejuns, orações, sacrifícios, etc. Valorizavam a circuncisão ao oitavo dia, porém, o coração deles permanecia na incircuncisão, longe de Deus “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 At 7:51 ).

O jovem rico era um perfeito retrato da nação de Israel, visto que a maioria seguia o estipulado nos dez mandamentos: “Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho; Honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo” ( Mt 19:18 -19 ; Ex 20:2 – 17), porém, sentiam que faltava alguma coisa.

Elogiar a Cristo não é o mesmo que amar a Deus de todo o coração: “Muito bem, Mestre, e com verdade disseste…!” ( Mt 12:32 -33). Para o escriba ainda faltava alguma coisa também, pois não basta reconhecer que Jesus apresentou um ensino verdadeiro: “Não estás longe do reino de Deus” ( Mt 12:34 ).

Se o escriba observasse melhor, veria que a porta para se entrar no reino de Deus estava aberta bem a sua frente! Se ele abandonasse os seus conceitos (arrependimento), veria o quão próximo estava o reino dos céus “Arrependei-vos, pois está próximo o reino dos céus” ( Mt 3:2 ).

Após observarmos o jovem rico e o escriba, precisamos entender porque não basta guardar os mandamentos da lei “Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?” ( Mt 19:20 ). É essencial descobrir porque mesmo após admitir qual é o maior dos mandamentos, muitos ainda não tem acesso ao reino dos céus “Não estás longe do reino de Deus” ( Mt 12:34 ).

Embora fosse ferrenho seguidor da lei por ser fariseu, exemplo em Israel como mestre, conhecedor da lei como juiz, Nicodemos não podia entrar no reino dos céus, pois lhe faltava nascer de novo! ( Jo 3:2 ). Só é possível nascer de novo após morrer! Quando Deus oferece ao homem e a mulher a circuncisão do coração, ele demonstra a necessidade de se exterminar a velha natureza herdada de Adão, condição essencial para que ocorra o novo nascimento.

Para ser circuncidado pelo Senhor basta crer na palavra que diz: “Ouve, ó Israel…”, pois a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus ( Sl 81:8 ).

Para ouvir e compreender a mensagem de Cristo é necessário comparar coisas espirituais com coisas espirituais (novo testamento com antigo testamento) e lembrar sempre do seguinte versículo: “Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão, e nada lhes falava sem parábolas” ( Mt 13:34 ). Até mesmo a resposta que Jesus deu ao fariseu era uma parábola, pois Cristo é o ‘braço’ do Senhor, a luz do Senhor manifesta aos homens, e os homens não O compreenderam ( Jo 12:41 ; Jo 1:5 ).

 

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