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A sabedoria dos profetas em Israel que profetizam que haveria paz e segurança em Jerusalém e Samaria foi transtornada em loucura quando os filhos de Jacó foram levados para o exílio.


Conhecimento cientifico, confissão de fé e razão

“Antes, santificai ao SENHOR Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós,” (1 Pedro 3.15).

Introdução

O médico amado registrou a fala de Festo, que fez uso do termo απολογια (apologia) ao argumentar com os judeus que não era costume dos romanos entregar uma pessoa à morte, sem que o acusado estivesse na presença dos seus acusadores, o que possibilita ao acusado se defender da acusação (Atos 25.16).

Imagine alguém se defender dos seus acusadores, mas que não saiba argumentar de modo razoável e lógico? O termo απολογια evoca a razão, o que envolve a racionalidade, dentro do que estabelece a lógica.

O apóstolo Pedro concita os cristãos a estarem preparados para defender[1], com mansidão e temor, a qualquer que solicitar a razão[2] da esperança que possuem.

O apóstolo faz uso de dois termos gregos: απολογια (apologia) e λογικος (logikos), sendo este um substantivo que evoca a razão, o que é razoável, lógico, e aquele, um substantivo que aponta para uma defesa verbal argumentativa racional.

Apesar da recomendação do apóstolo Pedro, muito me espanta que muitos cristãos acreditam que a fé cristã, por princípio, se opõe à razão. Considerando que só através de uma argumentação lógica é possível ensinar e compreender a esperança proporcionada por Cristo, como é possível o evangelho se opor a razão?

O apóstolo Paulo alertou os cristãos de Colossos a não se deixarem engendrar por filosofias e vãs sutilezas, e se alguém tenta explicar o evangelho fazendo um contraponto à filosofia, por mais versado que seja, se fez presa.

“Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo;” (Colossenses 2.8).

Já no terceiro século, a discussão entorno do tema fé versus razão foi matéria de um escritor e teólogo, Tertuliano de Cartago, que ao registrar: “Crucifixus est Dei Filius, non pudet, quia pudendum est; et mortuus est Dei Filius, prorsus credibile est, quia ineptum est; et sepultus resurrexit, certum est, quia impossibile.”[3] Tertuliano, De Carne Christi V, 4, deu azo que se condensasse o seu na célebre frase “Credo quia absurdum” (Creio porque é absurdo!).

Apesar da controvertida, a frase que atribuem a Tertuliano, influenciou pensadores ao longo da história da cristandade, tanto que me deparei com um artigo de um estudante de direito, Thárik Uchôa, de Goiânia, intitulado ‘Creio porque é absurdo!’, que afirma que a frase em si encerra um princípio do evangelho: o absurdo[4]. O absurdo se avoluma, quando o apóstolo Paulo é citado para dar peso ao alegado:

“Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos.” (1 Coríntios 1.23).

Ao reputar que o apóstolo Paulo apresentou a loucura, o escândalo e o absurdo em conexão com a fé, o estudante de direito viola a exposição paulina, e evolui o disparate ao afirmar que diante da impossibilidade de uma solução, considera loucura (não devaneio ou delírio) a confiança em Deus.

O texto paulino é claro: eram os gregos que consideravam o evangelho como loucura, e os judeus que consideravam o evangelho como escândalo, e não que o apóstolo Paulo ao fazer alusão ao evangelho considerava um absurdo que sobressaltava os olhos e a concretude.

Embora o evangelho fosse loucura para os gregos, e escândalo para os judeus, para os salvos o evangelho é poder de Deus:

“Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.” (1 Coríntios 1.18 e 24).

Se o apostolo Paulo não se fez entender ao afirmar o posicionamento dos gregos e judeus diante do evangelho, que se dirá dos versículos:

“Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.” (1 Coríntios 1.25);

“Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia.” (I Coríntios 3.19).

Através desse artigo, o leitor será capaz de concluir se o evangelho de Cristo contrapõe ou não, o saber cientifico e a razão.

 

O conhecimento cientifico e a Bíblia

O que é o conhecimento cientifico? Ciência é o nome dado a esse conhecimento?

O conhecimento cientifico é decorrente das experimentações do ser humano enquanto procura resposta diante de uma problemática.  A observação e a repetição de experimentos acerca de eventos reais conduzem o ser humano a determinado entendimento que estabelece se uma determinada teria é verdadeira ou falsa.

Dá-se o nome ciência a todo saber ou prática sistematizada, ou, em sentido estrito, se refere a sistemática utilizada para desenvolver um conhecimento baseado no método científico. Tudo que há na natureza é objeto de estudo do homem através de métodos desenvolvidos pela ciência, que produzirá m conhecimento científico.

É devido ao acumulo de conhecimento cientifico através da ciência que a humanidade evoluiu o seu patrimônio tecnológico, que são técnicas, habilidades, métodos e processos usados na produção de bens ou serviços, ou de instrumentos que aceleram as investigações científicas.

No Gênesis, Moisés destaca o nome de três pessoas e as suas especialidades técnicas: a) Jabal, pecuária; b) Jubal, musicista; c) Tubalcaim, siderurgia.

“E Ada deu à luz a Jabal; este foi o pai dos que habitam em tendas e têm gado. E o nome do seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e órgão. E Zilá também deu à luz a Tubalcaim, mestre de toda a obra de cobre e ferro; e a irmã de Tubalcaim foi Noema.” (Gênesis 4.20-22).

Esses três homens começaram a desenvolver suas técnicas através de um conhecimento empírico, através da interação e observação do meio. Cada qual, na sua esfera de atribuição, acabaram se tornando um cientista, pois evoluíram as suas técnicas através da observação e experimentação.

Quando Moisés foi construir a Tenda da Congregação e a Arca do Testemunho, Deus comissionou Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, que tinha sabedoria, entendimento e ciência como artífice e artesão para desenvolver os trabalhos, e foi incumbido, juntamente com Aoliabe, filho de Aisamaque, da tribo de Dã, de transmitirem aos outros o conhecimento que possuíam.

“Depois disse Moisés aos filhos de Israel: Eis que o SENHOR tem chamado por nome a Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá. E o Espírito de Deus o encheu de sabedoria, entendimento, ciência e em todo o lavor, E para criar invenções, para trabalhar em ouro, e em prata, e em cobre, e em lapidar de pedras para engastar, e em entalhar madeira, e para trabalhar em toda a obra esmerada. Também lhe dispôs o coração para ensinar a outros; a ele e a Aoliabe, o filho de Aisamaque, da tribo de Dã. Encheu-os de sabedoria do coração, para fazer toda a obra de mestre, até a mais engenhosa, e a do gravador, em azul, e em púrpura, em carmesim, e em linho fino, e do tecelão; fazendo toda a obra, e criando invenções.” (Êxodo 35.30

Percebe-se através desses trechos bíblicos, que Deus nunca se opôs ao desenvolvimento de técnicas e ferramentas de trabalho pelos homens. Inclusive, Moisés, como príncipe do Egito, foi instruído em toda ciência dos egípcios.

“E Moisés foi instruído em toda a ciência dos egípcios; e era poderoso em suas palavras e obras.” (Atos 7.22).

Mas, o que dizer de versículos como este:

“Que desfaço os sinais dos inventores de mentiras, e enlouqueço os adivinhos; que faço tornar atrás os sábios, e converto em loucura o conhecimento deles;” (Isaías 44 : 25)

Antes de prosseguir, tenho que destacar o pensamento acerca desse, e de muitos outros versículos que abordam o tema, e o prejuízo que uma má leitura causa ao evangelho de Cristo.

A maioria dos comentaristas partem do pressuposto que a ‘sabedoria’ do homem leva ao orgulho, o que o afasta ainda mais de Deus[5]. Estes se esquecem que por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, evento que destituiu a humanidade da glória de Deus (Romanos 5.12), estabelecendo uma parede de separação, donde se conclui que é impossível aos homens se afastarem ‘mais’ de Deus, pois não há como o homem estar mais morto, ou menos morto, diante de Deus.

Outros citam personagens históricos ou personalidades conhecidas, podendo ser políticos, artistas, cientistas, pensadores, etc., e apontam o triste fim que tiveram como o cumprimento de uma passagem bíblica: “Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos entendidos.”[6].

Observe esse parágrafo introdutório de um sermão:

“A sabedoria do homem nos tem trazido muitos benefícios; aumento da expectativa média de vida; a medicina biomolecular, com muitas perspectivas de tratamento para doenças até então incuráveis conseguiu muitos avanços na última década; a sofisticação tecnológica, entre outras coisas têm ajudado a humanidade a ter mais privilégios, coisas que outrora eram inimagináveis. Com todos os benefícios, entretanto desta suposta sabedoria humana, que iremos chamar doravante de humanismo, ela se perdeu em muitas vielas e gerou muitas anomalias no próprio homem que se julga sábio.” [7] Fares Camurça Furtado, Sabedoria louca e loucura sábia.

Para Camurça, o conhecimento humano em duas vertentes: a) proporciona inúmeras benesses e conforto; b) e fez surgir anomalias no próprio homem, que se julga sábio.

Depois ele afirma que:

“A priori, a causa da sabedoria humana ter se tornada louca é a queda do homem, como consequência do pecado. A posteriori, à medida que ia crescendo em sua sabedoria, o homem tentava tomar o lugar de Deus; medida que o homem tentava de maneira inescrupulosa se apossar da glória que é única e exclusivamente devida a Deus, então o Senhor Deus mostrou que o Todo-Sábio e Todo-Glorioso é Ele próprio, subvertendo desta forma a sabedoria humana, tornando-a louca e nula em seus efeitos e ganhos.” Idem.

Analisando o Gênesis, o a priori e o posteriori nunca ocorreu. Antes da queda, o homem era perfeito, e não possuía uma sabedoria, pois ele somente adquiriu tal conhecimento quando comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Não havia como a sabedoria do homem tornar-se louca antes da ofensa, pois somente após a desobediência, quando o homem comeu do fruto da árvore, passou a ser como Deus, conhecedor do bem e do mal. Antes da ofensa não havia como Adão crescer em sua sabedoria, pois o conhecimento ainda estava no fruto da árvore do conhecimento.

Não há no Gêneses, ou no Livro de Jó, qualquer alusão a Deus subvertendo a sabedoria humana, nem mesmo o conhecimento advindo do fruto da árvore do conhecimento. Ofensa foi a desobediência de Adão, e pecado a condição de separado da vida que há em Deus que é o legado da humanidade, e não o conhecimento que o homem adquiriu no momento que pecou.

Deus jamais subverteu a sabedoria humana, e nunca rotulou como louca a ciência ou o conhecimento cientifico. Esse tipo de pensamento é uma falácia que percorre os corredores dos templos cristãos por falta de conhecimento das Escrituras.

Quando Elifaz diz que Deus apanha os sábios na sua própria astúcia, não tinha em mente a ciência:

“Ele aniquila as imaginações dos astutos, para que as suas mãos não possam levar coisa alguma a efeito. Ele apanha os sábios na sua própria astúcia; e o conselho dos perversos se precipita. Eles de dia encontram as trevas; e ao meio dia andam às apalpadelas como de noite (Jó 5.12-14).

Na verdade, é uma forma de dizer que os homens, no texto denominados astutos, sábios e perversos, não conseguem satisfazer a justiça exigida por Deus. Ao protestar contra os filhos de Israel, o profeta Isaías utiliza as mesmas figuras para destacar que o povo de Israel não encontrou justiça e salvação (Isaías 59.11).

“Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos. (Isaías 59.10).

“Nas trevas andam às apalpadelas, sem terem luz, e os faz desatinar como ébrios.” (Jó 12.25).

A narrativa do Livro de Jó é anterior ao Livro do Gênesis, portanto, anterior a lei mosaica, e já relatava a presença de homens que se diziam reverentes a Deus, mas que não passavam de astutos, sábios e perversos.

Quando Deus diz por intermédio do profeta Isaías:

“Portanto eis que continuarei a fazer uma obra maravilhosa no meio deste povo, uma obra maravilhosa e um assombro; porque a sabedoria dos seus sábios perecerá, e o entendimento dos seus prudentes se esconderá.” (Isaías 29.14);

Os sábios são envergonhados, espantados e presos; eis que rejeitaram a palavra do SENHOR; que sabedoria, pois, têm eles?” (Jeremias 8.9).

Os sábios, os prudentes, que o texto faz referência diz dos religiosos em Israel, e não dos homens da ciência ou do conhecimento científico que há no mundo.

O contexto é claro, pois Deus repreende os filhos de Israel, dizendo:

“Tardai, e maravilhai-vos, folgai, e clamai; bêbados estão, mas não de vinho, andam titubeando, mas não de bebida forte. Porque o SENHOR derramou sobre vós um espírito de profundo sono, e fechou os vossos olhos, vendou os profetas, e os vossos principais videntes.” (Isaías 29.9-10);

No fato de Deus ter derramado um espírito de profundo sono e vedado os profetas em Israel, pereceu a sabedoria e se escondeu a prudência. Como os filhos de Jacó se aproximavam de Deus somente com a boca e honravam somente com os lábios, e o coração estava longe de Deus, visto que guardavam somente mandamentos de homens e desprezavam o mandamento de Deus, Deus alerta que faria uma obra maravilhosa e um assombro.

Deus jamais se propôs a converter em loucura o conhecimento que os homens da ciência adquiriram ao longo dos tempos.

“Que desfaço os sinais dos inventores de mentiras, e enlouqueço os adivinhos; que faço tornar atrás os sábios, e converto em loucura o conhecimento deles;” (Isaías 44.25).

Os inventores de mentias, os adivinhos e os sábios diz dos profetas que não profetizavam da parte de Deus:

Nos profetas de Samaria bem vi loucura; profetizavam da parte de Baal, e faziam errar o meu povo Israel.” (Jeremias 23.13).

“Porquanto fizeram loucura em Israel, e cometeram adultério com as mulheres dos seus vizinhos, e anunciaram falsamente, em meu nome uma palavra, que não lhes mandei, e eu o sei e sou testemunha disso, diz o SENHOR.” (Jeremias 29.23);

“Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel, acerca de Acabe, filho de Colaías, e de Zedequias, filho de Maaséias, que vos profetizam falsamente em meu nome: Eis que os entregarei na mão de Nabucodonosor, rei de Babilônia, e ele os ferirá diante dos vossos olhos.” (Jeremias 29.21).

Como o conhecimento dos sábios seriam convertidos em loucura? Entregando os filhos de Israel nas mãos dos babilônicos. A sabedoria dos profetas em Israel que profetizam que haveria paz e segurança em Jerusalém e Samaria foi transtornada em loucura quando os filhos de Jacó foram levados para o exílio.

A má leitura desses versículos influencia o entendimento de várias narrativas do Antigo Testamento, como a confusão das línguas quando da construção da Torre de Babel, o Dilúvio, a destruição de Sodoma e Gomorra, etc., como se Deus estivesse punindo os homens por serem zombadores, cheios de orgulho, paixões, lascívia, etc.

Poucos se dão conta que a interferência divina na história da humanidade visou tão somente o cumprimento da promessa feita no Éden:

“E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Gênesis 3.15).

A reunião dos habitantes da terra em um só lugar acabaria com os recursos naturais rapidamente e uma pestilência poderia dizimar a humanidade, pondo em risco a linhagem do Messias.

No diluvio, a linhagem do Messias afunilou-se tanto que restaram somente oito pessoas justas, e somente elas foram preservadas, bem como a linhagem do Cristo.

A destruição de Sodoma e Gomorra se deu por causa da linhagem de Cristo, bem como por causa da medida do pecado dos seus habitantes, pois ao preservar Ló e suas duas filhas, surgiram dois povos: os moabitas e os amonitas, consequentemente, não existiriam Rute e nem Salomão.

De uma das filhas de Ló vieram a existência os moabitas, e dos moabitas vieram duas mulheres: Rute e Orfa, que se casaram com os filhos de Noemi (Rute 1:4). Da outra filha surgiram os amonitas, de onde veio Naamá, a mãe de Roboão, um dos filhos de Salomão. Sem a amonita Naamá, Salomão, Roboão e Abias, não figurariam na linhagem de Cristo.

 

A Ciência e o Evangelho de Cristo

A má leitura também afeta a leitura do Novo Testamento, e versículos que se assemelham a este a seguir, acabam sedo transtornados:

“Ó Timóteo, guarda o depósito que te foi confiado, tendo horror aos clamores vãos e profanos e às oposições da falsamente chamada ciência,” (1 Timóteo 6.20).

O apóstolo Paulo recomenda a Timóteo que guarde o deposito[8], ou seja, algo de valor que lhe foi concedido. O que seria esse deposito? O evangelho, a fé que foi dada aos santos, que o apóstolo Paulo guardou até acabar a carreira (2 Timóteo 4.7; Judas 1.3; Filipenses 1.27).

Timóteo tinha que se desviar, não ter comunhão, com os incrédulos (profanos) e não participar das suas discussões vazias. Quem eram esses incrédulos? Que discussões seriam essas?

“Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas, e nos debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs.” (Tito 3.9);

“Nem se deem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora.” (1 Timóteo 1.4).

A recomendação paulina vetava ter comunhão com os judaizantes, bem com entrar em embates acerca de genealogias e debates acerca da lei. Determinando o contexto geral da instrução, é possível determinar que a pseudociência não tem relação com o conhecimento científico, e sim, com a doutrina do judaísmo em suas várias vertentes.

Os judeus se achavam instrutores e mestres, e tinha a lei como conhecimento e verdade. Se utilizassem a lei legitimamente (1 Timóteo 1.8), a lei seria realmente conhecimento e verdade, mas como eram recalcitrantes em obedecer, seguiam mandamentos de homens, uma falsa ciência.

“Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; E sabes a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído por lei; E confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei;” (Romanos 2.17-20).

Ao se referir a chamada falsa ciência, o apóstolo Paulo estava criticando a doutrina judaica, e não o conhecimento cientifico. Como os judaizantes tinham por loucura o evangelho de Cristo, o apóstolo Paulo faz uso do termo para rebatê-los:

“Ninguém se engane a si mesmo. Se alguém dentre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se louco para ser sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia. E outra vez: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são vãos. Portanto, ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso;” (1 Coríntios 3.18-21).

A defesa do apóstolo dos gentios tem início pelas divisões que surgiram na comunidade de Corintos, pois alguns diziam que foram batizados por fulano, e outros por bertano. O apostolo destaca que não foi enviado a batizar, mas a evangelizar, e que não fazia uso de palavras de sabedoria, vez que faria vã a cruz de Cristo.

Ao contrastar o evangelho (cruz de Cristo) com palavras de sabedoria (judaísmo), o apóstolo Paulo evidencia a oposição evangelho versus mandamentos de homens, e dá o motivo:

“Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus. Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, E aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?” (1 Coríntios 1.18-20).

O evangelho era visto pelos judaizantes como loucura porque tropeçaram na pedra de tropeço, mas para os que creem se fez santuário (Isaías 8.14-15). Por que perecem? Porque foram enlaçados e presos, e estão destinados às trevas (Isaías 8.22).

“E uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados.” (I Pedro 2.8).

A sabedoria dos sábios que seria destruída diz dos filhos de Israel que se diziam sábios. A sabedoria deste mundo que Deus tornou louca diz do conhecimento produzido pela falsa pena dos escribas.

Analisando a argumentação paulina a seguir:

“Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus. Todavia falamos sabedoria entre os perfeitos; não, porém, a sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que se aniquilam; Mas falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória; A qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória.” (1 Coríntios 2.5-8).

Verifica-se que a confiança dos cristãos tem por base o poder de Deus, que é o evangelho, e não a sabedoria dos homens. É a sabedoria deste mundo e a sabedoria dos seus príncipes que se aniquilam, pois foram os príncipes deste mundo que crucificaram a Cristo, o Senhor da glória.

Perceba que foram os sábios segundo o judaísmo que crucificaram a Cristo, e não os cientistas ou aqueles que detinham o conhecimento científico, por isso, é completamente falacioso o argumento que se segue:

“No seu estado natural, pecaminoso, o homem não tem entendimento sobre as realidades das dimensões celestes: «Ora, o homem natural não aceita as cousas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente» (I Cor. 2:14). Isso posto, a sabedoria deste mundo, o conhecimento que os homens são capazes de adquirir, usando dos poderes de observação, raciocínio e da intuição, são reduzidos nas Escrituras, à mais perfeita nulidade: «…expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada» (I Cor. 2:6).” Champlin, R.N., Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, 11ª Ed., Ed. Haginos, 2013, Pág. 618. Grifo nosso.

 

A proposta do evangelho

O evangelho centra-se na pessoa de Cristo, e por isso mesmo, quando se fala do evangelho, se faz necessário destacar os patriarcas, a profecia dos profetas, o nascimento, ministério, morte e ressurreição de Jesus.

Jesus é o Cristo, e é a verdade segundo as Escrituras, por isso temos:

“PAULO, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus. O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor,” ( Romanos 1.1-4).

Se Jesus não fosse filho de Abraão e de Davi, não seria o Cristo, e portanto, não haveria evangelho.

“LIVRO da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.” (Mateus 1.1).

Para o cristão basta crer que Deus ressuscitou a Cristo dentre os mortos e confessar com a boca que Jesus é o Filho de Deus para ser salvo.

“A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação.” (Romanos 10.9-10).

A doutrina (fé) cristã têm os pressupostos acima. Quando alguém se converte a Cristo, tem que crer nas premissas acima, tudo conforme predito pelos profetas e relatado pelos seus santos apóstolos. Deste modo, vale destacar que o evangelho é a confissão de fé dos cristãos.

Um exemplo do que consiste a fé, vemos na pessoa do discípulo Pedro quando andou sobre as águas. Se, por conta própria, Pedro resolvesse andar sobre as águas, ou se outro dos seus amigos o desafiasse a andar sobre as águas, caso Pedro se lançasse nessa empreitada, seria lunático. Mas, Pedro já havia observado Jesus operar diversos milagres, e estava vendo Jesus andar sobre as águas, nesse sentido, ao colocar os pés sobre as águas quando foi chamado pelo Mestre, Pedro sabia muito bem que andaria sobre as águas.

Como pescador, Pedro pela observação, raciocínio e intuição sabia muito bem que era impossível a qualquer homem andar sobre as águas. Mas, pelas mesmas faculdades mentais, observação, raciocínio e intuição, ao ver Jesus se deslocando sobre as águas, ele se pôs a andar sobre as águas pela palavra de Jesus que o chamou.

Pedro passou a acreditar na palavra de Jesus a partir da observação e raciocínio, e ao colocar os pés nas águas, a palavra de Jesus, que disse: – Vem!, tornou-se o sustentáculo do crer daquele pescador. Perceba que Pedro andou sobre as águas em função da palavra de Jesus, e não porque, sem base alguma, passou a acreditar.

Isto posto, quando analisamos as declarações de Tertuliano, de que a experiência da fé escapa e transcende a lógica racional, percebe-se que ele não compreendeu no que consiste a fé. A fé não é desprovida de sentido e está associada à ignorância, antes a fé se evidencia como a verdade e o fundamento do que se espera.

Crer sem entender verdadeiramente é um absurdo, irracional e não passa de crendice.

Todo agricultor quando planta uma semente tem por fundamento o milagre da vida, isto pela observação e o raciocínio associado a intuição, e mesmo não vendo o que espera, a planta produzindo, tem um firme fundamento: o potencial da terra e da semente aliado ao trabalho.

Absurdo é alguém querer colher sem antes plantar, ou querer que a terra produza sem trabalhar e plantar, ou querer que uma terra ruim e uma semente ruim produzam uma boa colheita. Esperar do potencial que a semente e a terra possuem sem trabalhar, isso sim é irracional e absurdo.

Jesus Cristo, ao ser tentado no deserto, destacou a sua confiança em Deus ao não pular do pináculo do templo. Para quem não conhece o que é fé, pular seria uma evidencia de que Jesus cria em Deus, porém, a verdadeira evidencia de alguém que crê está em obedecer a palavra de Deus, e não em eventos miraculosos.

Se Jesus se comportasse segundo os pressupostos de Tertuliano, de que crer tem que substituir o entender, seria vencido na tentação, pois seria levado a acreditar em algo sem a devida garantia.

Outra falácia é dizer que se deve crer na palavra de Deus porque é mistério. Pode ser mistério a forma como Deus age, porém, a palavra d’Ele é conhecida porque foi revelada.

“Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é encoberto, e tampouco está longe de ti.” (Deuteronômio 29.11).

A resposta de Cristo foi dentro do que já estava expresso: – ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’ (Deuteronômio 6.16), e essa palavra por si só é garantia suficiente para pautar as decisões e o comportamento de quem crê em Deus, mesmo quando há uma promessa de proteção bem evidente: “porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, E tomar-te-ão nas mãos, Para que nunca tropeces em alguma pedra.” (Mateus 3.6-7; Salmo 91.11-12).

Pela observação, raciocínio e intuição, o agricultor acredita que a semente vai germinar quando semeada na terra e devidamente cuidada, embora todo o processo que envolve o germinar de uma planta seja desconhecido. Um agricultor, ou um cientista, por mais especialista que for, desconhece o fenômeno da vida latente em uma semente. Por causa desse ‘mistério’, é sensato não crer no potencial que as sementes possuem, mesmo após ver muitas germinarem, simplesmente por desconhecer como os processos químicos se desenvolvem ao germinar de uma semente?

“Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas.” (Eclesiastes 11.5).

A filosofia não errou a qualificar a proposta do pensamento fideísta como irracional, bem como de agregar a esse pensamento crenças religiosas absurdas, e as superstições.

Mesmo que o absurdo sugerido por Tertuliano não se referisse ao objeto da fé cristã, que é Cristo, como se dissesse que crer em Cristo é absurdo, não se pode tomar algo como absurdo somente porque está além dos limites do entendimento, ou do analisado e apreendido pela investigação racional e comprovado pelo método científico.

É um absurdo acreditar que os ossos de uma criança se formam no ventre materno? Não! Por mais que a ciência evolua, não é possível precisar como se desencadeia o processo de formação óssea de uma criança. Um grande mistério! Conclui-se que acreditar no desenvolvimento ósseo é absurdo? Evidente que não.

A mensagem do evangelho de que Cristo é o salvador do mundo é impossível de ser alcançada pelo processo dedutivo próprio a ciência, por isso foi anunciada por Deus pelos patriarcas e os santos profetas, e para crer é imprescindível compreender a mensagem através da inteligência, portanto, racionalidade.

“Mas, o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro sessenta, e outro trinta.” (Mateus 13.23).

O posicionamento de Tertuliano fomenta comentários como: “Refletir é negar aquilo em que se acredita.” (Réfléchir, c’est nier ce que l’on croit.) F. Rieder et cie, Propos sur le christianisme, 1924., precisamente contrário ao que o apóstolo Paulo ensina:

“E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber.” (I Coríntios 8.2).

O evangelho requer somente que os homens creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e aponta como evidencia dessa filiação a história do povo de Israel, que passa pelo pai Abraão e pelo rei Davi, bem como a ressurreição de Cristo dentre os mortos, o que foi testemunhado pelos seus discípulos e muitos outros seguidores.

Para crer em Cristo não é exigido desprezar o conhecimento cientifico e nem desdenhar a evolução tecnológica.

O evangelho não exige que os seguidores de Cristo defendam o geocentrismo como dogma, apesar de muitos, no passado, terem defendido esse posicionamento como se fosse essencial ao evangelho.

O evangelho não obriga os cristãos a defenderem o movimento Terra Plana, concepção arcaica do formato da Terra como um plano ou disco, como se esse pensamento fosse imprescindível à salvação.

O evangelho de Cristo não impõe aos cristãos serem ativistas de movimentos antivacina, ou que se proíba a doação de sangue, ou que se dediquem a uma vida de ascetismo, etc., simplesmente para se opor à ciência moderna.

Também não é bandeira do evangelho se opor a ideologia de gênero, aos ateus, aos gays, aos comunistas, etc., pois o ide do evangelho não se ocupa das questões deste mundo.

O evangelho não impõe aos seus seguidores fazerem passeatas contra o aborto, a eutanásia, as drogas, os jogos de azar, etc., de modo que a essência do evangelho não é difícil de obedecer.

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados.” (1 João 5.3);

“Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é encoberto, e tampouco está longe de ti.” (Deuteronômio 29.11).

A única ordem no evangelho é o ide por todo mundo, não importando etnia, língua, preferencias políticas, seguimentos econômicos, estado civil, etc.

A proposta do evangelho nem mesmo se ocupa de provar a existência de Deus aos descrentes, pois de nada adianta acreditar na existência de Deus e não crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus bendito.

“NÃO se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.” (João 14.1).

O apóstolo Paulo é claro quanto ao que pensar do comportamento dos não cristãos:

“Porque, que tenho eu em julgar também os que estão de fora? Não julgais vós os que estão dentro?” (1 Coríntios 5.12).

Se como cristão não é dado julgar outro cristão, visto que o outro não é meu servo, e sim, de Cristo, que se dirá julgar quem é servo do pecado.

“Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu próprio SENHOR ele está em pé ou cai. Mas estará firme, porque poderoso é Deus para o firmar.” (Romanos 14.4).

O que causa prejuízo ao evangelho não é o comportamento desregrado de quem não é cristão, e sim aqueles que se dizem cristãos e adotam esse posicionamento com base em uma má leitura de um versículo:

“O homem moderno jacta-se dos grandes avanços de sua ciência. Isso foi até mesmo previsto nas Escrituras: «…o saber se multiplicará» (Dan. 12:4).” Champlin, R.N., Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, 11ª Ed., Ed. Haginos, 2013, Pág. 618. Grifo nosso.

O versículo citado não é uma previsão em desfavor da ciência ou da evolução tecnológica. Quando é dito que muitos correrão de uma parte para outra, prevê confusão, comportamento de quem está perdido e não encontra uma saída. A ‘ciência que se multiplicará’ diz da interpretação do próprio livro que foi selado, de modo que se avolumará as teorias acerca do significado da previsão dada a Daniel.

“Tu, porém, Daniel, cerra as palavras e sela o livro, até o fim do tempo; muitos correrão de uma parte para outra, e a ciência se multiplicará.” ( Daniel 12:4 ).

Esse verso de Daniel tem conexão com o predito por Jesus, e não com o saber cientifico. Com o surgimento de muitos falsos profetas, multiplicasse a iniquidade, o conhecimento produzido, de modo que o amor também se arrefece.

“E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará.” (Mateus 24.12).

Os dilemas de muitos pseudocristãos, principalmente os filósofos, é quererem analisar a divindade através da filosofia, como se verifica nos escritos de alguém que assinou sua obra como Dionísio Areopagita, lá pelos idos do século IV ou V. Influenciado pelo conhecimento acadêmico, acreditava que era impossível nomear Deus com precisão por causa da sua natureza.

Para Dionísio, algo que não pode ser nomeado está longe, portanto, é indecifrável, inexplicável. Ora, Deus jamais requereu dos filhos de Israel que estabelecessem uma exata correlação entre o que Deus é e a realidade, antes Deus se deu a conhecer aos filhos de Jacó como o Deus de seus pais.

“Disse mais: Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó. E Moisés encobriu o seu rosto, porque temeu olhar para Deus.” (Êxodo 3.6).

É impensável o finito decifrar a natureza do infinito, de modo que Moisés cobriu o rosto para não olhar para Deus. Mas, Deus não requer que o deciframos, antes que se obedeça aos seus mandamentos.

“Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não te é encoberto, e tampouco está longe de ti.” (Deuteronômio 29.11).

Como é impossível aos homens alcançar a divindade, Deus, na pessoa de Cristo, se fez carne e se revelou aos homens. O que é impossível aos homens, Deus Todo poderoso se deu a conhecer.

“Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.” (João 1.18);

“Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu.” (João 1.9-10).

 

Fé e razão

O maior problema do teólogo/filosofo é o seu objeto de estudo: Deus. Por mais que digam que Deus é não detectável, não demonstrável, não param de propor teorias acerca de Deus.

Como não tem acesso ao objeto de estudo, os teólogos/filósofos lançam mão da evolução cientifica de outras áreas do conhecimento humano para alimentar as suas teorias. Um exemplo é a evolução da psicologia como ciência, que aponta que cada ser humano é um universo, e alguns teólogos passam a afirmar, a partir desse conhecimento humano, que Deus também está situado no nível profundo da interioridade humana.

São vários termos teológicos/filosóficos utilizados para fazer referência à natureza de Deus, como: transcendente, imanente, místico, etc., simplesmente para alegar que Deus é objeto de fé, e não de ciência, ou que a fé é de ordem mística, e não de inteligência.

Nesses pensamentos teológicos há alguns erros, e destacaremos dois:

  1. Pensar a fé com base no homem, e não como dom proveniente de Deus;
  2. O objeto da teologia tem que ser a Bíblia, e não a divindade.

Quando se pauta a fé como experiência, e ao mesmo tempo classifica a fé como sendo de ordem mística, temos um problema. Como é possível a fé ser experiência e, ao mesmo tempo, de ordem mística?

Vamos divisar bem a fé, partindo do termo fé, e o seu uso nas Escrituras.

A fé é apresentada na Bíblia como se referindo a um dom de Deus, concedido aos homens na pessoa de Cristo. Neste aspecto, a fé diz de um ente pessoal, e verdadeiro, pois Cristo homem é a fé manifesta, o dom de Deus, o firme fundamento.

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.” (Gálatas 3.23);

“ORA, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem.” (Hebreus 11.1);

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.” (Efésios 2.8).

Cristo esteve ao alcance dos homens, pois habitou entre nós. O evangelista João deu testemunho que tocou a fé, viu a fé e

“O QUE era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida (Porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada);” (I João 1.1-2).

O que se pode ouvir, ver e tocar é de ordem mística? Dar testemunho de algo se viu não é da inteligência? Os apóstolos e os demais seguidores de Jesus não tiveram consciência e não se relacionaram com Ele?

Neste ponto é imprescindível pontuar que Jesus é a fé, o dom de Deus pelo qual o justo viverá, e d’Ele decorre o evangelho, a doutrina, a mensagem, o querigma, que é rotulado como fé.

Até aqui não falamos do homem como indivíduo e a sua capacidade de acreditar em algo. Notadamente destacamos uma pessoa – Cristo – que é autor e consumador de uma mensagem, que não depende de indivíduos acreditarem ou não, para ser verdade.

Por que a Bíblia apresenta Jesus como a verdade, por conseguinte, a fé, assim como a lei da gravidade? Porque Jesus é Jesus independentemente de acreditarem ou não, saberem acerca dele ou não, assim como a lei da gravidade atua independente de acreditarem ou não, tê-la descoberto ou não.

A natureza do evangelho ou a pessoa de Cristo não muda ao sabor de quem acredita ou não, e nem se altera em função dos indivíduos.

“Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente.” (Hebreus 13.8).

A fala do Pr. Ed René Kivitz, no artigo ‘Creio porque é absurdo’, embaralha a fé como pessoa e doutrina, com a faculdade humana de acreditar em algo, quer seja verdadeiro ou falso:

“Sendo transcendente, Deus é objeto de fé, não de ciência. A experiência da fé é da ordem mística, não da inteligência. Sendo também imanente, Deus exige consciência e relação.”[9] Kivitz, Ed René, ‘Creio porque é absurdo’, Artigo disponível na Revista Veja.

Com relação ao personagem histórico Jesus de Nazaré e da sua natureza divina, o debate a respeito da relação entre fé e razão se esvazia, pois é razoável acreditar na história que existiu o personagem Jesus, bem como acreditar no testemunho dos apóstolos acerca da sua morte e ressurreição.

O evangelho enquanto doutrina, querigma, portanto, fé cristã, satisfaz as exigências da razão, que é próprio a racionalidade e inteligência humana. O evangelho enquanto fé não é absurdo, como são as fábulas, os mitos, as estórias, tanto que pessoas inteligentes, razoáveis e coerentes como o apóstolo Paulo passaram a anunciar o evangelho.

Tentar tornar palatável a declaração atribuída a Tertuliano, do latim “credo quia absurdum”, de que o absurdo se refere aquilo ‘que está além dos limites do entendimento, do apreendido pela investigação racional, apropriado e comprovado pelo método científico’ Idem, é dizer que o evangelho não pode ser compreendido, não pode ser ensinado e aprendido e, que o testemunho de pessoas, em hipótese alguma, é válido.

Jesus Cristo seria irracional ao dar uma ordem clara e direta para que se divulgasse um absurdum:

“E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos. Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras. E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dentre os mortos, e em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém. E destas coisas sois vós testemunhas.” (Lucas 24.45-48).

Se falarmos da natureza de Deus, certo é que o objeto de fé é suprarracional, pois se trata de um ser que não conseguimos apanhar, possuir, dissecar, dominar, etc., mas por todas as evidencias que nos cercam, muitos filósofos, apesar de não serem cristãos, procuram racionalizar Deus.

Mas, se o objeto de fé é o evangelho, mesmo não sendo alcançado mediante processo dedutivo da razão, com mandamento de uma pessoa comprovadamente histórica, e sob o testemunho dos seus discípulos, é possível apanhar, possuir, dissecar, dominar, etc., de onde se conclui que o evangelho, como objeto de fé, não é suprarracional.

Assim como é impossível compreender a natureza de Deus, é impossível compreender a natureza humana, mas de ambos é possível traçar um padrão na relação. Enquanto Deus é imutável, o homem é mutável sempre.

No Éden Deus deu um mandamento ao homem expressando o seu cuidado, e de tudo o que lhe foi providenciado, o que se esperava era a obediência:

“E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” (Gênesis 2.16-17).

Ao se relacionar com o patriarca Abraão, Deus deu-lhe uma ordem:

“ORA, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção.” (Gênesis 12.1-2).

Ao se relacionar com a humanidade, cumprindo a promessa feita a Abraão, Deus dá uma ordem:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento.” (I João 3.23).

E quando se diz que Deus amou a humanidade, não se pode esquecer que o amor de Deus está em se guardar os seus mandamentos:

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados.” (1 João 5.3).

O objeto de fé do cristão é o mandamento de Deus, e como há o testemunho das Escrituras, de Cristo e dos apóstolos, de modo que aquilo que se crê passa pelo crivo da razão, o que torna possível dar a razão da esperança que há no cristão: Cristo, esperança da glória.

“Antes, santificai ao SENHOR Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós,” (1 Pedro 3.15).

Destacamos o evangelho como fé, como em grande parte é destacado nos escritos do apóstolo Paulo:

“PAULO, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus. (…) Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome, (…) Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé. (…) Isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua, assim vossa como minha.” (Romanos 1.1, 5, 8 e 12).

E a capacidade de crer do indivíduo, que também se nomeia como fé? Essa capacidade subjetiva de acreditar, que é própria a cada indivíduo, é capaz de acreditar tanto naquilo que é verdadeiro, quanto no que é falso.

Do ponto de vista da subjetividade própria ao crer, o ato de acreditar ou não, pode ser contrária à ciência e à razão. O indivíduo pode acreditar em fatos científicos, ou não. Pode acreditar em deuses, mitos, fantasias, sonhos, etc., ou em razões contrárias à razão, o senso comum.

Enquanto o evangelho como fé não se opõe a ciência e a razão, posto que o evangelho não apregoa a destruição da ciência ou que se persiga os cientistas, filósofos e técnicos, o acreditar do indivíduo pode ser opor ao razoável e a ciência, resultado em perseguições, inquisições, destruição, etc.

Se não for pontuado a diferença entre fé (πιστις/pistis/fé) e fé (πιστευω/pisteins/crer), a filosofia continuará dizendo que a fé é contrária a razão, e a teologia, por sua vez, dizendo que a fé e a razão não se conflitam.

Em seu significado religioso, fé é acreditar em Deus, ou em um Ser supremo ou superior, o que envolve todas as crenças: hinduísmo, budismo, judaísmo, cristianismo, etc. No sentido religioso, fé e crença se confundem, por mais que o indivíduo de um lado racionalize ou, de outro, se deixe levar por superstições.

Já do ponto de vista Bíblico, a crença do indivíduo em Deus não configura a fé, vez que a fé só é verdadeira quando o indivíduo obedece ao mandamento de Deus: crer em Cristo. Só é possível de fato crer em Deus por intermédio de Cristo. Qualquer outro posicionamento não passa de meras palavras.

E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus;” (1 Pedro 1.21).

Segundo a Bíblia, não é fé dizer: acredito na existência de Deus, antes só é fé quando se crê que Jesus é o enviado de Deus, vez que, o liame entre crer e fé está vinculado à verdade do testemunho das Escrituras.

“Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu.” (1 João 5.10).

A má leitura dos textos bíblicos acerca da fé estabelece absurdos como entender que viver da fé é viver de donativos dos cristãos. Enquanto o texto diz que o justo viverá da fé, ou seja, que é justo quem vive segundo tudo o que sai da boca Deus, muitos cristãos se esquecem que Deus determinou que o homem comerá do suor do seu rosto.

Há cristãos que tem receio de procurar um médico, pois acreditam que se socorrer da medicina é falta de fé. Se soubessem que Cristo é a fé manifesta, e que crer em Cristo como o Filho de Deus é descansar em Deus, não importando as circunstâncias da vida, teríamos cristãos sadios na fé.

A má leitura e a falta de compreensão acerca das Escrituras somente promovem escândalos contra o evangelho, e causa mais prejuízo à divulgação do evangelho do se atribuí à filosofia dos ateísta.

“E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples.” (Romanos 16.17-18).

 

 

[1] “627 απολογια apologia do mesmo que 626; n f 1) defesa verbal, discurso em defesa 2) uma afirmação ou argumento raciocinado” Dicionário bíblico Strong.

[2] “3050 λογικος logikos de 3056; TDNT – 4:142,505; adj 1) que pertence ao discurso ou fala 2) que pertence à razão ou à lógica 2a) espiritual, que pertence à alma 2b) que concorda com a razão, que segue a razão, razoável, lógico” Dicionário bíblico Strong.

[3] “O Filho de Deus foi crucificado, não há vergonha, porque ele é vergonhoso; o Filho de Deus morreu, o que é crível justamente por ser inepto; e ressuscitou do sepulcro, o que é certo porque é impossível” De Carne Christi V, 4.

[4] “Esquivando-me do contexto, a frase exposta por Tertuliano de Cartago, escritor cristão do século III, contém em si um princípio do Evangelho: o absurdo.” Uchôa, Thárik, Creio porque é absurdo! < http://www.abub.org.br/compartilhe/informativos/blog-abub/2012/10/creio-porque-e-absurdo > Consulta realizada em 07/04/20.

[5] Anderson Pires, A Sabedoria de Deus e a sabedoria do homem < http://alimentodiario.net/a-sabedoria-de-deus-e-a-sabedoria-do-homem/ > Consulta realizada em 09/04/20.

[6] Pr Cleber Fontinele Lima, Deus tornou louca a sabedoria do mundo < https://jornalibia.com.br/colunistas/comunidadeevangelicademontenegro/deus-tornou-louca-a-sabedoria-do-mundo/ > Consulta realizada em 09/04/20.

[7] Fares Camurça Furtado, Sabedoria louca e loucura sábia < https://farescamurcafurtado.wordpress.com/2018/01/14/sabedoria-louca-e-loucura-sabia/ > Consulta realizada em 09/04/20.

[8] “3866 παρα θη κη paratheke de 3908; TDNT – 8:162,1176; n f 1) depósito; algo valioso confiado ao cuidado de alguém 1a) usado do conhecimento correto e da pura doutrina do evangelho, manter firme e fielmente, e transmitir conscienciosamente para outros” Dicionário bíblico Strong.

[9] Kivitz, Ed René, ‘Creio porque é absurdo’, Artigo disponível na Revista Veja < https://complemento.veja.abril.com.br/pagina-aberta/creio-porque-e-absurdo.html > Consulta realizada em 13/04/2020.

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

Um comentário em “Conhecimento cientifico, confissão de fé e razão

  • 15/04/2020 em 20:31
    Permalink

    É o tipo de pregação que se deveria ouvir nas igrejas. Muitos membros de igrejas usa a Bíblia como um amuleto, e fica repetindo versículos como se fosse um manterá, crendo que assim serão abençoados; sem esquecer de mencionar aquelas famosas “frases feitas” que viram regra de vida para essas pessoas. É claro que isso dá margem para muitos oportunistas ganhar muito dinheiro explorando a crença de tais ingênuos.

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