A πίστις (fé) na teologia de Rudolf Bultmann

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A fé (πίστις) é firme porque se reveste da fidelidade e imutabilidade de Deus, portanto, apesar de distinta da crença (πιστεύω) humana, é a fé (πίστις) que promove e sustem a crença (πιστεύω).


A πίστις (fé) na teologia de Rudolf Bultmann

Introdução

Esse artigo visa desmistificar a ‘aura’ que emana de certos mestres e doutores em teologia como se fossem detentores intocáveis do saber acerca das coisas de Deus.

Não sou contra o estudo sistemático das Escrituras, mas entendo que não é salutar um estudioso lançar mão dos seus títulos acadêmicos para apresentar as suas teses como verdadeiras, sendo que a única expressão da verdade nas coisas concernente a Deus são as Escrituras.

Entendo que o trabalho desenvolvido por lexicógrafos, arqueólogos, exegetas, críticos textuais, tradutores, etc., são indispensáveis para termos à disposição textos bíblicos excelentes, mas não são eles os afiançadores da autenticidade das Escrituras.

Isto posto, analisaremos alguns parágrafos do livro ‘Teologia do Novo Testamento‘, de Rudolf Bultmann, que dedicou um capítulo para tratar o tema πίστις (fé).

Por que Rudolf Bultmann (1884-1976)?

A escolha se deu muito mais por ele ter sido um catedrático aclamado como um dos teólogos mais influentes do século XX, do que por seu esquema interpretativo filosófico baseado no existencialismo, pois a leitura que ele fez do termo πίστις no texto de Romanos 1, verso 18, é repetida por muitos outros teólogos de várias correntes doutrinárias: católica, protestante, luterana, evangélica, etc.

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Espero que os nossos amigos leitores não se iludam com propagandas e promoções de enciclopédias e livros redigidos por teólogos famosos e aclamados pela crítica, pois os seus autores, na sua grande maioria, citam Bultmann de modo superficial para dar destaque a bibliografia, e outros até tecem críticas a pessoa do Bultmann por questões filosóficas, mas não apontam se há equívocos de interpretação nos seus escritos que culminam em teses espúrias.

 

 A Teologia do Novo Testamento de Rudolf Bultmann

Toda exposição de Rudolf Bultmann no seu livro Teologia do Novo Testamento depende da definição que ele adota acerca do que é πίστις (fé).

No subtítulo 35, ‘A estrutura da πίστις’[1], Bultmann menciona que já teve que abordar o tópico πίστις ao tratar do tema ‘a justiça de Deus’, e que por meio do tema ‘graça’ a natureza da πίστις (fé) foi esclarecida indiretamente, mas que no subtítulo em comento o tema seria apresentando ‘em sua plena estrutura e importância’.

Para começar a sua abordagem sobre πίστις (fé), Bultmann afirma que ‘simplesmente’ πίστις é a condição para o recebimento da δικαιοσύνη (justiça), ou que ‘simplesmente’ πίστις, no uso linguístico do cristianismo helenista, é a aceitação da mensagem cristã[2], e arremata que o conceito de πίστις (fé) foi cunhado pelo apóstolo Paulo de modo característico e decisivo.

As asserções de Bultmann acerca do termo πίστις parecem inofensivas, mas no item 1 a seguir os argumentos apresentados não se sustem diante das bases bíblicas que ele apresenta.

Observe:

“1. Paulo entende a πίστις primariamente como ὑπακοὴ [obediência}, o ato da fé como ato de obediência. Isso o mostra o paralelismo de Rm 1.8: ὅτι ἡ πίστις ὑμῶν καταγγέλλεται ἐν ὅλῳ τῷ κόσμῳ [que a vossa fé é anunciada em todo o mundo] e 16.19: ἡ γὰρ ὑμῶν ὑπακοὴ εἰς πάντας ἀφίκετο [pois a vossa obediência chegou ao conhecimento de todos]. Assim pode estabelecer a ligação ὑπακοὴν πίστεως [obediência da fé], para com ela designar a finalidade de seu apostolado (Rm 1.5).” BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã, 2008, p. 353-358.

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Bultmann afirma que o apóstolo dos gentios entende πίστις primariamente como ὑπακοὴ (obediência). Discordo, pois o apóstolo Paulo não adota primariamente o substantivo πίστις (fé) como obediência, como veremos mais a frente. Continuemos analisando a exposição de Bultmann.

Bultmann afirma que há um paralelismo em Romanos 1:8 e Romanos 16:19 que mostra πίστις como obediência, de modo que, segundo ele, esse suposto paralelismo estabelece a ligação ‘obediência da fé’.

Após destacar o exposto por Bultmann, o que resta é afirmar que ele cometeu um tremendo equívoco de interpretação que afeta e compromete toda exposição que ele fez nos capítulos anteriores sobre a justiça de Deus e a graça, pois não há qualquer paralelismo em Romanos 1:8 e Romanos 16:19 que dê sustentação a conclusão de que a πίστις (fé) de Romanos 1:8 seja um ato de fé (πιστόω/crer), embora Romanos 16:19 destaca πιστόω (crer), e não πίστις (fé), como ‘ato de obediência’.

 

Obediência da obediência?

Em primeiro lugar, o apóstolo Paulo utiliza o substantivo  πίστις (fé) primariamente como querigma, doutrina, mensagem, o que contraria por completo a asserção inicial de Bultmann, de que o apóstolo Paulo entende a πίστις (fé) primariamente como ὑπακοὴ (obediência).

Em Romanos 1:8, o substantivo πίστις (fé) remete a ideia de doutrina, ensinamento, evangelho, verdade, etc., algo objetivo e compartilhado pelos cristãos (Romanos 1:12), diferentemente da ideia que o termo ὑπακοὴ (obediência) remete, que mergulha no campo da subjetividade.

Apresentação do apóstolo Paulo aos seus leitores em Roma dá destaque ao evangelho, uma doutrina com conteúdo objetivo pelo qual o apóstolo dos gentios se declara servo de Cristo e chamado para apóstolo.

“PAULO, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus.” (Romanos 1:1).

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O apóstolo Paulo afirma que o Cristo do qual é servo e e que foi comissionado como apóstolo se refere a promessa de Deus conforme registrado pelos profetas nas Escrituras, que diz acerca do Filho de Deus, descendente de Davi segundo a carne e declarado Filho de Deus em poder pela ressurreição dentre os mortos.

“O qual antes prometeu pelos seus profetas nas santas escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor,” (Romanos 1:2-4).

Em seguida, o apóstolo Paulo afirma que  recebeu a graça (salvação) e o apostolado de Cristo, objetivando a ὑπακοὴν πίστεως (obediência da fé) entre todas as gentes pelo nome de Cristo.

Se πίστις (fé) é primariamente obediência, temos um primeiro entrave na abordagem de Bultmann, pois seria incompreensível entender ὑπακοὴν πίστεως como ‘obediência da obediência’.

“Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome, entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo.” (Romanos 1:5-6).

Parafraseando o apóstolo Paulo, a frase ‘para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome’, se entende ‘para que, pelo nome de Cristo, entre todas as gentes se creia na fidelidade de Deus’. ὑπακοὴν (obediência) no verso remete ao verbo πιστόω (fé/crer), o que é próprio ao individuo (subjetivo), diferente do substantivo πίστις (fé), que remente a verdade do evangelho que tem por base a fidelidade de Deus (objetivo).

Dai a pergunta: os cristãos foram chamados dentre todas as gentes para serem de Jesus Cristo pela ὑπακοὴν (obediência), ou pela πίστεως (fé)? É obvio que os cristãos são chamados para serem de Jesus Cristo pela ἀκοῆς πίστεως (pregação da fé), e não pela ὑπακοὴν πίστεως (obediência da fé).

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Em todo o mundo é anunciada a vossa fé

Diferentemente do exposto por Bultmann, no verso 8, de Romanos 1, temos o apóstolo Paulo primeiramente agradecendo a Deus por Cristo por causa de todos cristãos que estavam em Roma.

E qual é o mote do agradecimento? Em todo o mundo era anunciada a fé deles!

“Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé.” (Romanos 1:8).

A πίστις (fé) apresentada como ὑμῶν (pertencente aos cristãos de Roma) estava sendo καταγγέλλεται (anunciada) em todo o κόσμῳ (mundo), ou seja, κόσμῳ deve ser entendido como ‘a todas as gentes’, ‘sem distinção de povos’, pois no contexto εν ολω τω κοσμω (em todo mundo) não se trata de abrangência geográfica, e sim, de não se fazer acepção de pessoas.

“Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações…” (Mateus 28:19);

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” (Marcos 16:15).

O apóstolo Paulo agradece a Deus por causa dos cristãos em Roma porque eles eram prova de que o evangelho de Cristo estava sendo anunciado efetivamente a todas as gentes (Romanos 1:6). Que embora o apóstolo fosse impedido até aquele momento de ir ter com os cristãos de Roma, para ter entre os romanos algum fruto, restava ao apóstolo agradecer a Deus, pois os cristãos em Roma evidenciavam que o evangelho era anunciado em todo o mundo.

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A questão sublinhada pelo apóstolo Paulo no capítulo 1 de Romanos não é a obediência dos cristãos em Roma, e sim, o fato de que a fé (πίστις) alcançou não só judeus, gregos e bárbaros, mas também, romanos. Os cristãos em Roma era evidencia do pleno alcance do evangelho, com principal destaque para a premissa de não se fazer acepção de tribos, povos ou língua.

“Pelo qual recebemos a graça e o apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes pelo seu nome, entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo.” (Romanos 1:5-6).

“Não quero, porém, irmãos, que ignoreis que muitas vezes propus ir ter convosco (mas até agora tenho sido impedido) para também ter entre vós algum fruto, como também entre os demais gentios. Eu sou devedor, tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes.” (Romanos 1:13-14).

Entre todas as gentes os cristãos de Roma também foram chamados para serem de Jesus Cristo, e embora não tenha conseguido boa ocasião de ir a Roma para ter entre os romanos algum fruto, o apóstolo podia agradecer a Deus ao constatar que o evangelho também estava sendo anunciado em Roma.

O apóstolo destaca que sempre esteve pronto para anunciar o evangelho em Roma, e que se fosse possível ter ido a Roma, tanto o apóstolo Paulo quanto os cristãos podiam se consolar mutuamente no fato de compartilharem a mesma fé (πίστις).

“Isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua, assim vossa como minha.” (Romanos 1:12).

Ao confessar que muitas vezes se propôs ir a Roma anunciar o evangelho, mas que surgiram obstáculos que o impediu, o apóstolo Paulo queria que todos soubessem que ele não se envergonhava do evangelho de Cristo. Como ainda não tinha ido anunciar o evangelho aos seus patrícios romanos, alguém poderia acreditar que se tratava de vergonha, e para evitar conclusões precipitadas,  apóstolo disse:

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“E assim, quanto está em mim, estou pronto para também vos anunciar o evangelho, a vós que estais em Roma. Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.” (Romanos 1:15-16).

Em suma, se dependesse do apóstolo Paulo, ele estava pronto a ir à Roma anunciar o evangelho aos romanos, pois não se envergonhava do evangelho. Mas, como os cristãos em Roma era evidencia de que barreiras de nacionalidade e cultura não impediram o evangelho de chegar em Roma, restava ao apóstolo agradecer a Deus.

Contestando Bultmann, primariamente o apóstolo Paulo apresenta a πίστις (fé) como evangelho, tanto no início da epístola quando no seu encerramento:

“Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto, mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé;” (Romanos 16:25-26).

Ao final da epístola, o apóstolo Paulo destaca que:

  • o evangelho que apregoava não era diferente da pregação de Jesus Cristo;
  • o evangelho apregoado pelo apóstolo era a revelação do mistério que esteve oculto desde tempos eternos;
  • apesar de ser manifesto agora, havia sido notificado pelas Escrituras dos profetas, e;
  • o evangelho anunciado pelo apóstolo Paulo era segundo o mandamento do Deus eterno objetivando alcançar todas as nações para que obedecessem (ὑπακοὴν) o evangelho (fé/πίστις).

 

Obediência conhecida de todos

O paralelismo que Bultmann afirma existir em Romanos 1:8 e Romanos 16:19 não existe, pois da ὑπακοὴ (obediência) em Romanos 16:19, é dito que ela é alcançada (ἀφίκετο) por todos, uma questão subjetiva, diferentemente do que ocorre em Romanos 1:8, que a πίστις (fé) é anunciada (καταγγέλλεται) a todo mundo, uma questão objetiva.

Em Romanos 1:8, o apóstolo Paulo agradece a Deus pois a πίστις (fé) enquanto mensagem proclamada (καταγγέλλεται) alcançou a todos em todo mundo, inclusive os romanos, já em Romanos 16:19, o apóstolo se alegra (χαίρω) nos cristãos em Roma, pois era divulgado (ἀφίκετο) a ὑπακοὴ (obediência) de todos eles.

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“Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé.” (Romanos 1:8);

“Quanto à vossa obediência, é ela conhecida de todos. “ (Romanos 16:19).

A obediência conhecida de πάντας (todos) remete a um grupo específico de pessoas: ὑμῖν (vós), dos quais o apóstolo se alegrava, diferente da πίστις (fé) proclamada, que indistintamente alcançava pessoas em todo o mundo.

Como não há paralelo entre os dois textos apontados por Bultmann, segue-se que a ligação ὑπακοὴν πίστεως (obediência da fé), não satisfaz o pressuposto inicial de que πίστις (fé) é ὑπακοὴ (obediência).

A leitura equivocada de Bultmann não se restringe a essas duas citações, pois em seguida ele aponta outros textos para dar suporte a argumentação inicial sobre a πίστις (fé), e o erro persiste. Vejamos!

“Confira ademais 1Ts 1.8: ἐν παντὶ τόπῳ ἠ πίστις ὑμῶν ἡ πρὸς τὸν θεὸν ἐξελήλυθεν [a vossa fé em Deus chegou a toda parte], e Rm 15.18: ου γαρ τολμησω λαλειν τι ων ου κατειργασατο χριστος δι εμου εις υπακοην εθνων [pois não ouso falar algo que Cristo não efetuou através de mim para a obediência dos gentios]. Além disso, Rm 10.3 a respeito dos judeus descrentes: τῇ δικαιοσύνῃ τοῦ θεοῦ οὐχ ὑπετάγησαν [não se submeteram à justiça de Deus]; 10.16: ou ού πάντες ὑπήκουσαν τῷ εὐαγγελίῳ [nem todos obedeceram ao evangelho]. Analogamente a descrença dos judeus é designada em Rm 11.30-32 por meio de ἀπειθηειν [desobedecer] e ἀπείθειᾳ [desobediência]: cf. Rm 15.31; GI 5.7. Em 2Co 9.13 a fé é descrita como a ὑποταγῇ τῆς ὁμολογίας ὑμῶν εἰς τὸ εὐαγγέλιον τοῦ Χριστοῦ [submissão da confissão do evangelho de Cristo]. Se de acordo com 2Co 10.5s. é tarefa do apóstolo submeter πᾶν νόημα εἰς τὴν ὑπακοὴν τοῦ Χριστοῦ [toda cogitação à obediência a Cristo], e se ameaça os coríntios desobedientes que ele irá εκδικησαι πασαν παρακοην οταν πληρωθη υμων η υπακοη [punir toda desobediência, quando se completar a vossa obediência] (pois a obediência ao apóstolo e a obediência a Cristo são idênticas, § 34,1), ele espera em 10.15: αὐξανομένης τῆς πίστεως ὑμῶν ἐν ὑμῖν μεγαλυνθῆναι [aumentar entre vós, à medida que cresce a vossa fé].” Idem.

A leitura que Bultmann faz do verso 8, de 1 Tessalonicenses 1, é descabida, observe:

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“Porque por vós soou a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e Acaia, mas também em todos os lugares a vossa fé para com Deus se espalhou, de tal maneira que já dela não temos necessidade de falar coisa alguma;” (1 Tessalonicenses 1:8).

Primeiro o apóstolo afirma que o evangelho anunciado aos Tessalonicenses foi em palavra e poder (v. 5), e em seguida, é dito que os cristãos de Tessalônica se fizeram imitadores do apóstolo, pois receberam o evangelho (palavra) em muita tribulação e gozo do Espírito Santo (v. 6), e se tornaram exemplos para os fiéis de Acaia e Macedônia (v. 7).

Por que se tornaram exemplo? Porque através dos cristãos de Tessalônica o evangelho (palavra do Senhor) foi anunciado não somente na Macedônia e Acaia, mas também em todos os lugares a fé (πίστις) deles em Deus se difundiu.

O que os cristãos de Tessalônica difundiram não foi a obediência deles, e sim, a palavra do Senhor, que fizeram ecoar não somente pelas regiões da Macedônia e Acaia, como também em todos os lugares. Os cristãos de Tessalônica saíram anunciando que Jesus era o Cristo, e não, que eles acreditavam em Deus. O trabalho evangelístico dos Tessalonicenses foi bem feito que o apóstolo Paulo enfatiza que não tinha necessidade de falar coisa alguma acerca da fé (evangelho).

Com relação a passagem de Romanos 15, verso 18, o apóstolo deixa claro que não ousaria falar qualquer coisa, como inventar estória, expor fábulas, etc., antes tudo o que era falado foi realizado por Cristo por intermédio de Paulo. Já no versículo 16, é evidenciado que o apóstolo Paulo era ministro de Jesus e ministrava o evangelho aos gentios, de modo que, por palavra ou por ação, o apóstolo buscava a ὑπακοὴν (obediência) dos gentios.

“Porque não ousarei dizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha feito, para fazer obedientes os gentios, por palavra e por obras;” (Romanos 15:18).

O apóstolo Paulo queria fazer os gentios obedientes, e por isso, desde Jerusalém e arredores até o Ilirico, pregava o evangelho, e se esforçava por anunciar o evangelho (Romanos 15:19-20). Pregar o evangelho era a única formar de fazer os gentios ou os judeus obedientes, de modo que o texto não admite a ideia de que o apóstolo Paulo entendia a πίστις primariamente como ὑπακοὴ (obediência), ou seja, o ato da fé como ‘ato de obediência’.

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Embora a descrença dos judeus seja designada ἀπειθηειν (desobedecer) e ἀπείθειᾳ (desobediência), em Romanos 11, versos 30 a 32, e em Romanos 10, verso 3 e 16, respectivamente, é dito que os judeus descrentes ‘não se submeteram à justiça de Deus’ e ‘nem todos obedeceram ao evangelho’, portanto, nenhum desses versículos corrobora a ideia de que o apóstolo Paulo entendia a πίστις primariamente como ὑπακοὴ (obediência).

Analisaremos mais um versículo apontado por Bultmann:

“Visto como, na prova desta administração, glorificam a Deus pela submissão, que confessais quanto ao evangelho de Cristo, e pela liberalidade de vossos dons para com eles, e para com todos;” (2 Coríntios 9:13).

O apóstolo Paulo estava tratando com os cristãos de Corintos a respeito da contribuição para os cristãos da Macedônia (2 Coríntios 9:2), e ele explica que a contribuição, além de suprir as necessidades deles, redundaria em muitas graças a Deus (2 Coríntios 9:12).

O apóstolo conclui que, através do que contribuíram em favor dos cristãos da Macedônia se evidenciaria a submissão deles ao evangelho de Cristo que professavam. Isto quer dizer que, o que admitiam (ὁμολογίας) acerca do evangelho de Cristo,  através da contribuição exibiam uma δοκιμῆς (prova) da ὑποταγῇ (submissão).

Pela má leitura, todas as asserções de Bultmann restam equivocadas, como se observa:

“A ὑπακοὴν πίστεως [obediência da fé] é a obediência autêntica, a qual, na verdade, a lei havia exigido, mas que havia sido negada pelos judeus ao fazerem mau uso da lei para o estabelecimento de sua ἰδία δικαιοσύνῃ [justiça própria]…” Idem.

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A ὑπακοὴν πίστεως (obediência da fé) não possui relação alguma com necessidade de autenticidade, de modo a sinalizar que há obediência autentica e outra falsa. Em ὑπακοὴν πίστεως (obediência da fé) o termo ὑπακοὴν (obediência) significa somente sujeição, assim como termo ἀκοῆς (pregação) em ἀκοῆς πίστεως (pregação da fé) significa somente instrução, ensino, anuncio.

Se admitirmos que ὑπακοὴν πίστεως (obediência da fé) se refere a uma obediência autêntica, forçosamente teríamos que admitir que a construção ἀκοῆς πίστεως (pregação da fé) se refere a uma pregação autentica, o que não é em ambos os casos.

Como desconhece o que é a ὑπακοὴν πίστεως (obediência da fé), Bultmann acaba inventando a ideia de obediência autentica, pois ele não quer vincular a obediência a uma experiencia emocional ou religiosa, e nem atrelar a obediência a um estado da alma, como disposição ou virtude.

Embora tenha afirmado que apresentaria a πίστις (fé) ‘em sua plena estrutura e importância’, Bultmann desconhece tanto a natureza quanto a estrutura da πίστις (fé). Se πίστις é obediência, como Bultmann afirma, o que seria a δικαιοσύνης πίστεως (justiça da fé)?

“Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé.” (Romanos 4:13).

Abraão não recebeu a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo pela lei, e nem a sua posteridade, entretanto, a promessa de que ele seria herdeiro do mundo foi feita pela δικαιοσύνης πίστεως (justiça da fé).

Se πίστις (fé) é obediência, como quer Bultmann, como ficaria a leitura do verso a seguir:

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“Porque, se os que são da lei são herdeiros, logo a fé é vã e a promessa é aniquilada.” (Romanos 4:14).

Obediência é algo subjetivo, diz do indivíduo, porém, a natureza da πίστις (fé) que o versículo apresenta é algo objetivo, pois a sua natureza decorre da promessa, que é algo objetivo e foi feita dada por Deus à posteridade visando alcançar todas as famílias da terra.

 

Fortalecido pela fé

Considerando que πίστις (fé) é obediência, como afirmou Bultmann, como é possível ser ἐνεδυναμώθη τῇ πίστει (fortificado na fé)? De outro modo, no que consiste μὴ ἀσθενήσας τῇ πίστει (não enfraquecendo na fé)? Πίστις (fé) está relacionado a obediência ou a promessa?

Para entender a abordagem do apóstolo Paulo com relação a Abraão ser fortificado na fé se faz necessário voltar um pouca na epístola, quando ele apresenta a existência de duas leis[3]: a ‘lei das obras’ e a ‘lei da fé’.

“Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé.” (Romanos 3:27).

Se há νόμου πίστεως (lei da fé), segue-se que πίστις (fé) não pode ser obediência, embora a νόμου πίστεως (lei da fé) exija obediência. A partir deste ponto da epístola, o apóstolo Paulo faz um contraponto entre a ‘lei das obras’ e a ‘lei da fé’, ou seja, dois sistemas doutrinários antagônicos, evidenciando a eficácia deste e a inutilidade daquele.

A πίστις (fé) não é resposta à palavra pregada, antes é a essência da pregação. Quando é dito ἀκοῆς πίστεως (a pregação da fé), a πίστις assume valor de mensagem, doutrina, evangelho, etc., e é na mensagem pregada que está o poder para salvação daquele que crê.

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Mas, antes de analisar estes dois sistemas doutrinários, voltemos ao início da epístola, quando o apóstolo Paulo demonstra que o homem, quer seja judeu ou gentio, descobre a justiça de Deus no evangelho de Cristo de πίστις (fé) em πίστις (fé) (Romanos 1:16-17).

Considerando a teoria de Bultmann que πίστις (fé) é obediência, seria o caso de se descobrir a justiça de Deus no evangelho de Cristo de obediência em obediência? É isso que está escrito: o justo viverá da obediência? Evidente que não!

O apóstolo Paulo apresenta um fundamento escriturístico para o seu argumento para evidenciar que o justo viverá da πίστις (fé) enquanto firmeza/fidelidade, o que remete à palavra de Deus. Πίστις (fé) na citação de Habacuque não se refere a um elemento subjetivo próprio ao homem, a obediência, e sim, a algo objetivo, firme e fidedigno, que é a palavra de Deus.

“E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem.” (Deuteronômio 8:3).

Considerando o que Deus disse ao povo por intermédio de Moisés, certo é que a πίστις (fé) pela qual o homem viverá refere-se a tudo o que Deus diz, e por isso é dito que no evangelho se descobre a justiça de Deus de fé em fé.

Por má leitura, a impressão que se tem é que o homem viverá da sua confiança em Deus, porém, observando o proposto pelo texto, conforme a versão dos LXX, tem-se a ideia de movimento figurado de dentro para fora/a partir de, indicando que: “o justo, a partir de fé (ἐκ πίστεως) viverá” (Romanos 1:17).

Segue a mesma leitura o versículo que diz: “Mas aquele que tem dúvidas, se come está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de fé é pecado.” (Romanos 14:23), e o significado é: tudo o que não é proveniente/a parti de πίστις (fé) é pecado.

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É significativo que em Romanos 1, versos 17 e 18 o termo πίστις (fé) aparece quatro vezes, sendo três na forma substantivada, e uma na forma verbal: πίστις (fé) e πιστεύω (crer, acreditar). O que dá vida ao homem não é a πιστεύω (crer), e sim, a πίστις (fé), e por isso é dito:

“O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida.” (João 6:63).

“Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé.” (Romanos 1:18).

Quando é dito: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.” (Efésios 2:8), verifica-se que a salvação é graciosa, e por isso é dada por meio da πίστις (fé), ou seja, por meio da palavra de Deus. A πίστις (fé) é dom de Deus, e por isso, é graça, e só consegue compreender a verdade acima expressa quem compreende que Cristo é tanto a πίστις (fé) quando a justiça de Deus manifesta.

“Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes. Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.” (Gálatas 3:22-23).

Ao compreender πίστις (fé) como obediência, Bultmann e muitos outros interpretes, leem equivocadamente que ser salvo ‘por meio da fé’ é ser salvo por acreditar, sendo que o meio da salvação é o evangelho, e o modo como se alcança a salvação é crendo. O meio para salvação é a πίστις (fé), e o modo que se alcança é πιστεύω (crer), como exposto a seguir:

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade πίστις (fé), o evangelho πίστις (fé) da vossa salvação; e, tendo nele também crido πιστεύω (crer), fostes selados com o Espírito Santo da promessa.” (Efésios 1:13).

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O meio utilizado por Deus para salvação é a fé (πίστις), a palavra da verdade (πίστις), o evangelho (πίστις), e o modo como o homem alcança é crendo (πιστεύω).

Nesse sentido, o apóstolo Paulo não se envergonhava da sua fé (πίστις), pois a fé (πίστις) do apóstolo é poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (πιστεύω), não importando se judeu ou grego.

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.” (Romanos 1:16).

Contrariado o que foi dito por Bultmann, o apóstolo Paulo utilizava o termo fé (πίστις) primariamente como εὐαγγέλιον (evangelho), que manifesta graciosa justiça de Deus aos homens. O ato de fé (πίστις) como ato de obediência (ὑπακοὴ), já que essencialmente o evangelho é o mandamento do Deus eterno, é descrito pelo apóstolo Paulo através do verbo πιστεύω (crer, acreditar).

 “Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé;” (Romanos 16:26).

A ligação ὑπακοὴ πίστεως (obediência da fé) torna-se compreensível quando se compreende a fé (πίστις) como querigma, um sistema doutrinário, o que não é possível quando se entende fé (πίστις) como ὑπακοὴ (obediência).

Isto posto, podemos afirmar com plena certeza que a atitude do ser humano pela qual recebe a dádiva da δικαιοσύνη θεοῦ (justiça de Deus) e Deus realiza nele o ato salvífico é πιστεύω (crer, acreditar). Πιστεύω (crer, acreditar) é a condição a ser satisfeita para o recebimento da δικαιοσύνη, a resposta humana diante do apelo contido na fé (πίστις).

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No Novo Testamento a aceitação da mensagem do evangelho é um ato de obediência, pois é indispensável que o indivíduo reconheça (confissão[4]) que o Cristo crucificado é Senhor (1 João 3:23). A obediência ao evangelho é submissão; é negar-se a si mesmo; é humilhar-se a si mesmo, se fazendo servo; portanto, acreditar que Jesus é o Cristo conforme o estabelecido nas Escrituras é obediência autentica, diferente daquele que diz crer em Cristo segundo convicções que não estão pautadas nas Escrituras.

Bultmann chega a dizer que o conceito da πίστις (fé) está protegido de mal-entendidos, mas ele fez uma exposição eivada de mal-entendidos. Πίστις (fé) não é ὁμολογέω (confissão), e sim πιστεύω (crer). Πίστις (fé) refere-se a palavra que está junto do indivíduo, na boca e no coração, ou seja, a palavra da πίστις (fé) que se prega (anuncia).

Πίστις (fé) é a mensagem apregoada que concita o ouvinte a πιστεύω (crer) e ὁμολογέω (confessar). Πιστεύω (crer) e ὁμολογέω (confessar) é resposta a palavra pregada: creia que Jesus é o Senhor e acredite que Deus o ressuscitou dentre os mortos para ser salvo.

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação.” (Romanos 10:8-10).

Crer em Cristo, a ‘obediência da fé’, é crer no testemunho que Deus deu acerca do Seu Filho nas Escrituras (1 João 5:10-11), portanto, é o mesmo que realizar a obra de Deus (João 6:29). Crer em Cristo exclui qualquer jactância, pois é um ato de sujeição. Considerando que amar a Cristo é obedecer, logo a jactância é excluída, pois no amor não há soberba.

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele. (…) Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada. Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou.”  (João 14 : 21 e 23-24);

“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” (1 Coríntios 13:4-7);

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“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.” (Mateus 6:24);

Obedecer é o mesmo que servir, dedicar, amar, honrar. Quem crê em Cristo se sujeitou a um Senhor, portanto, guarda a Sua palavra, ou seja, O ama. E, quem ama guardando a Sua palavra, significa que não busca os seus interesses, portanto, não tem como se ensoberbecer.

O medo que Bultmann tinha de que a ‘obediência da fé’ fosse confundida com ‘obras’, resulta da má leitura, pois o medo só ronda quem não é perfeito em amor. Crer em Cristo é a obra que a fé exige, e por isso tem-se a ligação ἔργον πίστεως (obra da fé).

Por má leitura do que é a fé (πίστις), ao longo da história da cristandade tem-se demonizado o termo ἔργον (obra). ἔργον por sí só nada representa, mas quando vinculada a um sistema doutrinário, aí ela se torna relevante, podendo assumir um valor positivo ou negativo.

“Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé.” (Romanos 3:27).

ἔργον (obra) só é relevante quando atrelada a um sistema de lei. O apóstolo Paulo apresenta dois sistemas legais: de modo explícito a νόμου πίστεως (lei da fé) e, implicitamente, a νόμου ἔργων (lei das obras).

A lei da fé por si só exclui a jactância, pois sem fé (πίστις), que é Cristo, a palavra de Deus manifesta, ninguém pode agradar a Deus.

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“Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam.” (Hebreus 11:6).

O que torna possível ao homem agradar a Deus é a fé (πίστις) ou acreditar (πιστεύω) que Deus existe? Segundo a definição do próprio escritor aos Hebreus, a fé (πίστις) que torna o homem agradável a Deus diz do ‘firme fundamento do que se espera’ e diz ‘da prova do que não se vê’.

“ORA, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem.” (Hebreus 11:1).

A fé (πίστις) é base e garantia, diferente de πιστεύω (acreditar), ou seja, o acreditar depende da fé (πίστις). Traduções bíblicas que seguem o conceito de Bultmann rezam que a fé é ‘a certeza das coisas que se esperam’, porém, convicções pessoias não é fundamento e nem prova de nada.

“Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” (Romanos 10:14).

Por não compreenderem a essência da fé (πίστις) é que sistemas doutrinários como o calvinismo e o arminianismo afirmam a necessidade da predestinação para salvação, quer seja pela soberania ou pela presciência, pois para eles a fé (πίστις) seria a infusão de uma potência que possibilita ao homem acreditar e se arrepender.

A fé (πίστις) como evangelho é a resposta para a indagação: como crerão naquele de quem não ouviram? Basta o anuncio do evangelho, a fé manifesta, que os que ouvirem poderão crer, invocando a Cristo como Senhor.

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A lei da fé estabeleceu que em Abraão todas as famílias da terra seriam benditas (Gálatas 3:8), diferentemente da lei das obras, que estabeleceu que aqueles que fizessem as coisas estabelecidas na lei mosaica viveriam por elas (Levítico 18:5).

“E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé. Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá.” (Gálatas 3:11-12).

A ‘lei da fé’ estabelece que o homem viverá pela palavra de Deus, restando ao homem descansar (acreditar) no que foi proposto por Deus, diferente da ‘lei da obra’ que se faz necessário ao homem executar o que foi estabelecido por mão de um medianeiro (Gálatas 3:19).

Aqui se faz um resumo do início da carta aos Romanos, com especial atenção ao que é exposto após a declaração de que a justiça de Deus se revela no evangelho.

A partir do verso 18, do capítulo 2, da epístola aos Romanos, o apóstolo Paulo descreve a apostasia dos judeus que, tendo conhecido a Deus não O glorificaram como Deus, antes se perderam em seus discursos, e se dizendo sábios, tornaram-se loucos (Romanos 2:18-31), de modo que a afirmação paulina que a lei foi imposta por causa das transgressões se torna compreensível (Gálatas 3:19).

Por intermédio da lei os judeus conheciam a justiça de Deus, pois sabiam que era digno de morte quem praticasse as coisas elencadas anteriormente (Romanos 1:32), porém, além de fazerem o que era contrário à lei, os judeus consentiam com os que também faziam, de modo que se pressupõe que a lei foi feita para injustos.

“Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros, e para o que for contrário à sã doutrina,” (1 Timóteo 1:9-10).

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Mas, como era conhecedor de que os judeus eram catedráticos em julgarem os outros como transgressores, o apóstolo Paulo deixa claro que a justiça que há na lei estabelece que é digno de morte quem pratica o que é reprovável na lei, de modo que, a lei não faz distinção entre homens, sendo todos inescusáveis diante de Deus (Romanos 2:1).

Daí a máxima:

“Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados.” (Romanos 2:13).

Os judeus se consideram justos por ouvirem a lei, e, ademais, se gloriavam na lei, mas o apóstolo Paulo demonstra que, na verdade, os judeus eram tidos pelas Escrituras como transgressores da lei (Romanos 2:23-24).

Em seguida o apóstolo destaca as vantagens e utilidade dos judeus, mas ao final, deixa claro que tais vantagens não tornavam os judeus melhores que os gentios (Romanos 3:1 e 9), e para isso invoca o testemunho das Escrituras (Romanos 3:10-18).

O apóstolo Paulo conclui que nenhuma carne (judeu ou gentio) é justificada através das obras da lei, mas que a justiça de Deus foi manifesta sem a lei, tendo os profetas e a lei por testemunho, e destaca que a justiça de Deus vem por Cristo sobre todos os que creem, sem distinção alguma (Romanos 3:20-22).

Neste ponto entra o divisor de águas do discurso paulino, quando ele destaca dois sistemas doutrinários: a lei das obras e a lei da fé. Ao enfatizar o evangelho, a lei da fé, ou como queira, a lei da liberdade, o apóstolo tem plena certeza de que não anulava a lei, antes estabelecia o que expunha a lei (Romanos 3:31).

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Para esclarecer o que disse, o apóstolo Paulo introduz a figura do patriarca Abraão, e como os judeus se vangloriavam de serem descendentes da carne de Abraão, o apóstolo questiona: – ‘QUE diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne?’. Se Abraão na condição de patriarca não obteve nada da carne, visto que com cem anos a sua condição nada tinha a oferecer e muito menos a condição da sua mulher, como os judeus podiam se gloriar de terem Abraão por pai?

“Então caiu Abraão sobre o seu rosto, e riu-se, e disse no seu coração: A um homem de cem anos há de nascer um filho? E dará à luz Sara da idade de noventa anos?” (Gênesis 17:17).

Se Abraão riu da sua condição, ou seja, o patriarca não se gloriou da sua carne, por que os que se diziam filhos de Abraão se gloriavam de serem filhos de Deus por causa da carne de Abraão? Abraão não confiava na sua carne, tanto que apresentou seu mordomo como herdeiro.

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem (em si mesmo), e faz da carne o seu braço (faz da carne a sua força), e aparta o seu coração do SENHOR!” (Jeremias 17:5).

Além de não se gloriar da sua carne, Abraão também não realizou obra alguma, antes ele somente creu em Deus, quando lhe foi dito:

“Este não será o teu herdeiro; mas aquele que de tuas entranhas sair, este será o teu herdeiro. Então o levou fora, e disse: Olha agora para os céus, e conta as estrelas, se as podes contar. E disse-lhe: Assim será a tua descendência. E creu ele no SENHOR, e imputou-lhe isto por justiça.” (Gênesis 15:4-6).

A justiça de Deus veio sobre Abraão porque ele creu em Deus, o que significa que Abraão não considerou a sua condição e nem a da sua mulher, mas somente a palavra de Deus. Diante da palavra de Deus, que lhe proporcionava um galardão segundo a graça, Abraão se resignou em crer, e o crer na palavra de Deus lhe proporcionou justiça.

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Se não fosse dada a palavra acerca da descendência de Abraão, ele poderia crer na existência de Deus, em milagres, no impossível, em anjos, etc., mas tais crenças não seriam justiça diante de Deus. A base da crença de Abraão foi a palavra de Deus acerca do seu herdeiro e da sua descendência descrita como numerosa como as estrelas do céu.

Geralmente o substantivo fé (πίστις) é utilizado pelo apóstolo Paulo para fazer referência ao evangelho, mas, em raras ocasiões o termo é utilizado para nomear o ato de crer. Uma das ocasiões se vê no seguinte versículo:

“Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua lhe é imputada como justiça.” (Romanos 4:5).

Nas ocasiões que o termo fé (πίστις) nomeia o ato de crer, geralmente o substantivo fé (πίστις) vem acompanhado de um pronome possessivo ou vem acompanhado de um complemento nominal.

“Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada.” (Gálatas 2:16).

Nas frases: ‘pela fé em Jesus e ‘justificados pela fé em Cristo, ‘em Cristo’ é um complemento nominal, e o termo ‘fé’ assume o valor de ‘crer’ (πιστεύω). Nesse sentido, o substantivo fé (πίστις) acaba por nomear o ato de atribuir crédito (πιστεύω) ao que é firme, verdadeiro e fidedigno.

“Porque, ainda que esteja ausente quanto ao corpo, contudo, em espírito estou convosco, regozijando-me e vendo a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo.” (Colossenses 2:5).

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O pensamento dos judeus era de que a bem-aventurança divina só era possível a eles por causa da carne e do sangue de Abraão, mas o apóstolo contesta tal premissa ao destacar a condição de Abraão quando foi justificado, o que contraria completamente o pensamento judaico.

“Vem, pois, esta bem-aventurança sobre a circuncisão somente, ou também sobre a incircuncisão? Porque dizemos que a fé foi imputada como justiça a Abraão. Como lhe foi, pois, imputada? Estando na circuncisão ou na incircuncisão? Não na circuncisão, mas na incircuncisão.” (Romanos 4:9-10).

Outro ponto que o apóstolo Paulo destaca é a promessa que tornava Abraão herdeiro do mundo e, por meio da promessa veio a justiça a Abraão. A promessa não foi dada pela lei, mas pela fé, de modo que os que pertencem à lei não são os herdeiros da promessa, visto que, se assim fosse, a palavra de Deus (fé) anunciada a Abraão seria sem utilidade e não existiria a promessa (Romanos 4:13-14).

A promessa não decorre da lei, e sim, da fé (πίστις), ou seja, a palavra que Deus anunciou a Abraão. A fé (πίστις) que é firme e alcança toda posteridade de Abraão (quer seja a posteridade sujeita a lei, quer seja a posteridade pertencente a fé), refere-se ao anunciado graciosamente a Abraão.

“Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós, (Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem. O qual, em esperança, creu contra a esperança, tanto que ele tornou-se pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência. E não enfraquecendo na fé, não atentou para o seu próprio corpo já amortecido, pois era já de quase cem anos, nem tampouco para o amortecimento do ventre de Sara. E não duvidou da promessa de Deus por incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória a Deus, e estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para o fazer.” (Romanos 4:16-21).

Abraão creu em Deus que o constituiu pai de muitas nações, e como Deus disse: ‘Assim será a tua descendência’, ele se fortificou na palavra que foi dita, tendo plena certeza de que Deus era poderoso para fazer o que prometera. Se diante da palavra que disse: ‘Assim será a tua descendência’, Abraão tive atentado para o seu amortecimento e para o amortecimento do ventre da Sara, acabaria desprezando a palavra de Deus e não alcançaria a justiça de Deus.

Quando o escritor aos Hebreus diz: ‘pela fé Abraão’, o substantivo fé (πίστις) encontra-se no dativo, que era usado para indicar o nome dado a algo. Neste caso, fé (πίστις) não se refere a convicção de Abraão, e sim, a palavra de Deus que visa persuadir o homem.

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Na palavra que Deus chamou Abraão tem-se uma ordem que requer obediência: “Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.” (Gênesis 12:1), e uma promessa: “E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra.” (Gênesis 12:2-3).

Quando Abraão partiu como Deus lhe havia dito (chamado), significa que Abraão obedeceu (πιστεύω). Abraão obedeceu indo para um lugar prometido, mas que não sabia onde era. Diferentemente de muitos que creem na existência de Deus, ou de um ser superior por convicções pessoais, Abraão obedeceu um chamado e foi em busca de um lugar que receberia por herança.

Quando saiu da parentela obedecendo ao chamado de Deus, Abraão se aproximou de Deus, pois a sua ação evidenciou que Ele cria na existência de Deus e que havia de dar um local por herança, ainda que desconhecia para onde ia (Hebreus 11:6 combinado com vv. 8-9). Há muitos que creem em Deus por convicções própria, mas que não seriam crentes como Abraão, pois não se sujeitam ao que Deus manda. O que torna o homem crente em Deus é a palavra de Deus, pois só através dela se evidencia se o homem de fato crê ao obedecer.

“Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia.” (Hebreus 11:8).

O que Abraão fez teve por base a fé, ou seja, a ordem divina e a promessa de ser galardoado. Sem a palavra de Deus que persuadiu (πίστις) Abraão, se ele tivesse saído do meio da sua parentela e fosse em busca de uma terra acreditando que Deus haveria de dá-la por herança, no mínimo estava tentando Deus.

Em nossos dias quantas pessoas se lançam em realizar ações em nome de Deus por alegarem que creem em Deus, mas que não se resignam em obedecer especificamente o que Ele ordenou: crer que Jesus é o Cristo. Fazer caridade e praticar boas ações não é o mesmo que crer em Deus, pois só crê em Deus quem crê que Jesus é o Cristo, pois esse é o testemunho de Deus.

“E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus;” (1 Pedro 1:21).

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É pela pessoa de Cristo que o homem efetivamente crê em Deus, de modo que através da fé (πίστις) manifesta que é Cristo, a fé, no sentido de crer, e a esperança do crente esteja balizada em Deus. Observe que o apóstolo Pedro faz uso do substantivo fé (πίστις) da mesma forma que o evangelista João.

Pela palavra de Deus (πίστις) Sara recebeu poder de conceber, e deu à luz sendo idosa. Diante da persuasão (πίστις) divina, Sara se resignou em confiar em Deus que lhe prometera, o que significa que ela teve Deus por fiel e não atentou para as limitações da sua idade.

Pela fé Abraão ofereceu Isaque em sacrifício, ou seja, pela palavra de Deus que lhe disse: – “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi.” (Gênesis 22:2). E por que ofereceu? Porque também havia a promessa anterior, que dizia: – “Em Isaque será chamada a tua descendência”.

Como os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis, Abraão considerou a promessa e obedeceu a ordem para oferecer o seu herdeiro em holocausto. A oferta de Isaque estava pautada na confiança que Abraão tinha na promessa de Deus, e por isso considerou o poder de Deus, que podia ressuscitar Isaque dentre os mortos para cumprir a promessa. As atitudes de Abraão sempre foram pautadas nas ordens e nas promessas de Deus, e por isso é dito: pela fé Abraão…

A fé (πίστις) não é obediência, e sim, a palavra de Deus, portanto é dom de Deus, e os dons de Deus são sem arrependimento. A fé (πίστις) para o homem é garantia, no sentido de prova. A fé (πίστις) é firme porque se reveste da fidelidade e imutabilidade de Deus, portanto, apesar de distinta da crença (πιστεύω) humana, é a fé (πίστις) que promove e sustem a crença (πιστεύω).

A fé (πίστις) não diz de uma convicção que Deus existe e que é criador e soberano (João 14:1; Tiago 2:19), antes a fé (πίστις) é o testemunho de Deus estabelecido nas Escrituras acerca do Seu Filho. A fé (πίστις) é o evangelho, mandamento de Deus a todos os homens para que creiam em Cristo com único salvador (Tito 1:3), e o galardão é a vida eterna (1 João 2:25).

Quem crê que Jesus é o Filho de Deus também creu em Deus, pois esse é o testemunho que Ele deu do Seu Filho. E, assim como Abraão ao confiar (πιστεύω) na palavra de Deus lhe foi imputado como justiça, qualquer que crê como o crente Abraão é justificado.

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Além de confundir a fé (πίστις), que é a palavra de Deus, com confiar (πιστεύω), que é a resposta que o homem dá à palavra de Deus, Bultmann, como bom acadêmico, lança mão do conceito agostiniano da graça preveniente pela má leitura de Filipenses 1, verso 29:

“Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele,” (Filipenses 1:29).

O apóstolo Paulo estava instruindo os cristãos de Filipos que criam em Cristo, a fé manifesta, que Deus estava permitindo que padecesse por causa de Cristo, uma espécie de privilégio (Atos 9:16; 1 Pedro 5:9).

Deus não dá ao homem uma capacidade para crer, antes Ele dá a sua palavra que é firme, de modo que diante de uma palavra digna de toda aceitação o homem tem elementos suficientes para crer.

O último versículo que Bultmann cita para apoiar o pensamento da graça preveniente é:

“Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor.” (Gálatas 5:6).

Πίστις δι’ ἀγάπης ἐνεργουμένη (a fé que opera pelo amor) é o mesmo que ἀληθείᾳ μὴ πείθεσθαι (obediência à verdade), pois o termo ἀγάπη (amor) remete à obediência e πίστις (fé) remente à verdade, conforme o que enfatiza o apóstolo Paulo:

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A circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus.” (1 Coríntios 7:19).

A ‘observância dos mandamentos de Deus’ é a ‘fé que opera pelo amor’, de modo que considerando o paralelismo existente em 1 Coríntios 7:19 e Gálatas 5:6, verifica-se que ‘observância’ está para ‘amor’, assim como a ‘fé’ está para ‘mandamentos’, e por isso, só é nova criatura aqueles que creem em Cristo, ou seja, que observam os mandamentos de Deus.

“Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura.” (Gálatas 6:15).

Os três versículos citados acima abordam a mesma questão, com uma diferença na ênfase, pois em Gálatas 5:6 e 1 Coríntios 7:10 temos o meio (fé/mandamento) para salvação e o modo como se alcança a salvação (amor/observância), e em Gálatas 6:15 temos a condição daquele que amou/observou a fé/mandamento de Deus.

A exigência de confiar (πιστεύω), obedecer (ὑπακοὴν) que se faz acompanhar de uma promessa é intrínseco ao anuncio do evangelho (João 1:7; 3:15-16 e 36; 20:31). Na doutrina do evangelho, crer que Jesus é o Cristo é mandamento que implica obediência, portanto, crer (πιστεύω) não é um evento incidental, superveniente e nem preveniente, no sentido de habilitar alguém a crer.

Lembrando que, Cristo é mediador entre Deus e os homens, o enviado de Deus para que os homens compreendam a vontade de Deus (Jó 33:23). Por causa da ofensa de Adão no Éden, uma barreira se ergueu entre Deus e os homens, e Deus obrou maravilhosamente revelando-se aos homens na pessoa do Seu Filho.

O apóstolo Paulo é enfático: “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens,” (Tito 2:11), mas a notícia alegre, a essência do evangelho, para certos círculos doutrinários não é tão alegre assim, pois possui subdivisão, surgindo a ideia de uma ‘graça comum’ e e uma ‘graça especial’.

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Diante desses posicionamentos, resta questionar: considerando que havia uma barreira entre Deus e os homens, seria plausível Deus enviar um mediador com a incumbência de trazer uma mensagem que os seus interlocutores estão impossibilitados de ouvir, entender e responder? É mais estranho ainda que, mesmo que a salvação se dá por meio do evangelho, Deus ter que habilitar o indivíduo a crer através de uma suposta graça especial, senão o indivíduo não responderá a mensagem poderosa para salvar?

“Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei.” (Isaías 55:11).

O pior é lançar mão do argumento que o pecador não pode responder a mensagem do mediador enviado por Deus porque está morto. Que primeiro é necessário Deus operar a regeneração no indivíduo para que possa crer em Cristo. À luz das Escrituras tais argumentos não se sustem, pois quando é dito que o pecador está morto para Deus evidencia-se somente que o homem não tem comunhão com Deus e não pode servi-lo. Ademais, o pecador está vivo para o pecado e serve ao pecado, e Cristo foi enviado justamente para salvar aqueles que estão vivos para o pecado.

“O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor;” (Colossenses 1:13).

É por isso que é dito dos pecadores: “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz.” (Isaías 9: 2), demonstrando que o homem, apesar de morto para Deus, anda em trevas e habita na região da sombra, o que indica que está vivo para o pecado. Cristo foi enviado como mediador, a luz que resplandeceu e os pecadores viram-na!

Quem rejeita a verdade do evangelho não o faz por inabilidade em crer, mas porque as suas obras são más e não querem ser reprovados.

“E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas.” (João 3:19-20).

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É por entender que a πίστις (fé) é confiar (πιστεύω), obedecer (ὑπακοὴν) que calvinistas afirmam que a regeneração precede a fé (πιστεύω), mas se compreendessem a πίστις (fé) como a verdade do evangelho, veriam que a πίστις (fé) precede o crer (πιστεύω), pois esta surge e depende daquela.

Crer (πιστεύω) não é a base da salvação, e sim, a πίστις (fé). A πίστις (fé) vem primeiro porque é mandamento, e crer (πιστεύω) é obediência ao mandamento, o que evidencia que crer (πιστεύω) jamais precede a πίστις (fé).

 

A abordagem de Paulo e João

O evangelho deve ser entendido como mandamento, conforme vários termos utilizados para indicar a ordem divina que resulta em salvação: vir a Cristo, seguir a fé, entrar por Cristo, receber a fé, servir a Cristo, amar a Cristo, etc., de modo que é possível distinguir a diferença na abordagem que os apóstolos Paulo e João fazem do evangelho.

Os escritos joaninos utilizam predominantemente o verbo crer (πιστεύειν), de modo que só uma vez o substantivo πίστις (fé) é utilizado, quando ele afirma que a vitória que vence o mundo é ἡ πίστις ἡμῶν (a nossa fé) (1 João 5:4). Embora crer em Cristo torne o crente vitorioso, a ênfase do evangelista João não está no ato de crer, e sim a fé manifesta – Cristo – que venceu o mundo (João 16:33).

O evangelista João sempre aborda a necessidade de seus leitores darem uma resposta positiva à mensagem do evangelho, de modo que tudo o que foi redigido pelo evangelista tem por objetivo que os seus leitores creiam em Cristo, ou seja, que realizem a obra de Deus (João 6:29).

“Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” (João 20:31).

A abordagem de Paulo possuiu um outro tom: a necessidade de defender a doutrina de Cristo. As epístolas paulina não se centram em concitar os seus leitores a darem uma resposta ao evangelho, até porque eles já haviam dado esse passo ao crerem. O foco do apóstolo Paulo é a defesa da doutrina, de modo que o uso do substantivo πίστις (fé) é utilizado com frequência, e geralmente com o sentido de evangelho, doutrina.

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“Mas outros, por amor, sabendo que fui posto para defesa do evangelho.”  (Filipenses 1:17);

“… combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho.” (Filipenses 1:27).

O apóstolo não estava defendo algo subjetivo, a crença no evangelho, e sim, algo objetivo: a fé do evangelho, a doutrina.

Milita a boa milícia da fé, toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado, tendo já feito boa confissão diante de muitas testemunhas. Mando-te diante de Deus, que todas as coisas vivifica, e de Cristo Jesus, que diante de Pôncio Pilatos deu o testemunho de boa confissão, que guardes este mandamento sem mácula e repreensão, até à aparição de nosso Senhor Jesus Cristo;” (1 Timóteo 6:12-14).

A ἀγῶνα τῆς πίστεως (milícia da fé) não é uma batalha pelo direito de acreditar, e sim, uma batalha que visa preservar a fé que foi dada aos crentes inconspurcada (1 Timóteo 4:16).

Se não souber distinguir a diferença de abordagem dos apóstolos Paulo e João, a diferença do público alvo e o uso que eles fazem dos termos, resultará em equívocos como o exposto a seguir:

“Como para Paulo, também para João a fé é o caminho para a salvação, e somente a fé. No entanto, esse “somente pela fé” é algo natural para João e não é enfatizado expressamente.” Idem. Pág. 510.

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Qual é o caminho para salvação? Cristo! O caminho para salvação é objetivo e único e ele é apresentado na mensagem do evangelho, o poder de Deus. O caminho para a salvação não é a fé no sentido de crer, é a fé no sentido de persuasão, doutrina, mensagem, e o homem só tem acesso a esse caminho (Cristo) quando crê.

Quando se crê no evangelho, o crente passa a estar na fé, mas se der ouvidos a doutrinas várias pode se desviar da fé, ou seja, de Cristo, da doutrina (1 Timóteo 6:21). A fé que o apóstolo Paulo trata pode ser relembrada porque é doutrina, e ao mesmo tempo faz morada nos cristãos porque é Cristo (2 Timóteo 1:5).

As conjecturas que Bultmann faz sobre a fé como crer beira ao absurdo[5] quando ele afirma que a ‘certeza da fé é simultaneamente subjetiva e objetiva’, talvez por ele compartilhar da premissa ‘Credo quia imposibile est’[6], atribuída a Tertuliano.

Crer jamais pode ser simultaneamente subjetivo e objetivo, e o mesmo podemos dizer da fé como doutrina. É da natureza da coisa assumir tão somente um valor quando eles são antagônicos: ou se é subjetivo ou se é objetivo, pois este exclui aquele e vice-versa.

“Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado com água limpa,” (Hebreus 10:22).

Deus se achegou a humanidade ao dar o seu Filho unigênito cumprindo o que prometeu a Abraão: em ti serão benditas todas as famílias da terra. Na dádiva de Deus não há nada de subjetivo, pois a sua maravilhosa graça é manifesta objetivamente no mandamento estabelecido em Cristo que proporciona esperança (Hebreus 10:23).

Diante do convite: ‘Cheguemo-nos com verdadeiro coração…’, estamos diante da fé subjetiva, que é πιστεύειν (crer). A inteira certeza de fé deriva da premissa que Deus é fiel e poderoso para cumprir o que prometeu. Essa inteira certeza de fé se firma na palavra daquele que é fiel, e a ressurreição de Cristo dentre os mortos é a razão e a garantia da validade da palavra.

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[1] “A atitude do ser humano, na qual recebe a dádiva da δικαιοσύνη θεοῦ [justiça de Deus] e na qual se realiza nele o ato salvífico divino é a πίστις [fé]. Ela já teve que ser abordada na discussão da δικαιοσύνη θεοῦ (§ 30), e sua natureza foi esclarecida indiretamente por meio da análise do conceito da χάρις [graça] (§ 32-34). Ela tem que ser apresentada agora em sua plena estrutura e importância.” Idem.

[2] “De início pode-se dizer simplesmente que a πίστις é a condição para o recebimento da δικαιοσύνη, que vem substituir os ἔργα [obras], nos quais, segundo compreensão judaica, consiste aquela condição. De início também deve ser dito simplesmente que essa πίστις, de acordo com o uso linguístico do cristianismo helenista formado na missão)’ é a aceitação da mensagem cristã (§ 9,5). A compreensão dessa aceitação ou o conceito da πίστις, desenvolvido múltiplas vezes também nas demais passagens além de por Paulo (p. 135ss.), foi cunhada por ele de modo característico e decisivo.” BULTMANN, Rudolf. Teologia do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã, 2008, p. 353-358.

[3] “Como resposta à palavra pregada, a ἀκοῆς πίστεως [a pregação da fé], a πίστις faz parte, como esta, do evento salvífico, do evento escatológico. Ela é, como possibilidade, o novo caminho salvífico aberto, e nesse sentido se pode contrapor ao νόμου ἔργων [lei das obras] o νόμου πίστεως [lei da fé] (Rm 3.27). E também se pode falar da “chegada” da fé e de sua “revelação” (GI 3.23,25). Com isso naturalmente não se tirou da πίστις [fé] concreta seu caráter como decisão, que lhe é próprio essencialmente como ὑπακοὴ [obediência] (§ 35,1).” Idem, Pág. 401.

[4] “Contra tais mal-entendidos, o conceito da πίστις está protegido ainda pelo fato de que a πίστις é, ao mesmo tempo, ὁμολογέω [confissão]. A πίστις é fé em…; isto é, ela sempre está relacionada com seu objeto, ao ato salvífico de Deus em Cristo. Assim se correspondem “confessar” e “crer”:” Idem, Pág. 386.

[5] “A certeza da fé é simultaneamente subjetiva e objetiva. Ela é caracterizada como certeza subjetiva nas palavras do discurso pastoril quando diz: as ovelhas conhecem a voz do pastor e, num instinto seguro, não seguem ao chamado de um estranho (10.3-5,8). Essa certeza é própria da fé porque é simples ouvir e obedecer; se perguntasse por razões para seu direito, por uma garantia para sua validade, teria perdido sua certeza. Como fé ouvinte, ela própria é prova de sua certeza para si mesma: pela aceitação do testemunho ela confirma a verdade de Deus (3.33; 1Jo 5.10; p. 502s.). Mas como fé ouvinte, ela não encontra sua certeza em si mesma, e sim naquilo em que crê.” Idem, Pág. 514.

[6] ‘Natus est dei filius; non pudet quia pudendum est; et mortuus est dei filius; prosurs credibile est, quia ineptum est: et sepultus resurrexit; certum est, quia impossibile’ (Creio porque é impossível (ou absurdo). Morreu o filho de Deus, isto é perfeitamente crível, porque é absurdo. E, sepultado, ressuscitou; isto é certo porque é impossível).

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