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É impossível ao homem se salvar sem a providência divina, não pelo fato de gozar de livre-arbítrio, mas, sim, pelo fato de ter nascido sob condenação.


Deus providenciou salvação poderosa na casa de Davi

“E nos levantou uma salvação poderosa Na casa de Davi seu servo.” (Lucas 1.69).

 

Introdução

Na tentação, Satanás pediu prova de que Cristo, realmente, era filho de Deus, incitando-O a se jogar do ponto mais alto do templo e apresentou o Salmo 91, para convencê-Lo.

“Porque, aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem, em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão, nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra.” (Salmo 91.11-12; Mateus 4.6).

O texto citado é verdadeiro, bíblico e messiânico, portanto, se aplicava à pessoa do Cristo. A promessa citada era exclusiva para o Cristo, portanto, a aplicação parecia irrefutável. Jesus, por sua vez, não se atirou do pináculo do templo e contra-argumentou, dizendo:

“Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus. ” (Mateus 4.7);

“Não tentareis o SENHOR vosso Deus, como o tentastes em Massá;” (Deuteronômio 6.16).

Se esse diálogo fosse com alguns preletores de hoje, a questão não estaria resolvida, pois, contra argumentariam: – ‘Você não crê no milagre? ’; – ‘Você não crê no impossível?’; – ‘Pular dessa altura não é nada, para quem não pode ser ferido por cobras e escorpiões’!; – ‘Então você não confia que Deus é providência’?, etc.

Se fosse um embate com alguns teólogos, quando fosse dito: – ‘Mas, também, está escrito’, interromperiam a Jesus e não o deixariam citar o texto, sob o argumento: – ‘Você está querendo aplicar lógica humana’. Se cita o texto, contra argumentariam – ‘Por que citar a lei, se estamos falando de promessas? ’.

De longa data, a Bíblia deixou de ser a justa medida de muitos doutores e mestres. Para afirmar suas doutrinas, muitos teólogos têm preferência por alguns trechos da Bíblia e não consideram que é necessário comparar os textos, ao interpretá-la.

“As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas, com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais.” (1 Coríntios 2.13).

São mestres que fogem da premissa: – ‘Também está escrito! ’. Comparar ‘as coisas espirituais com as espirituais’ é ter uma visão sistematizada das Escrituras. Nesse diapasão, considerando o exposto por Cristo, verifica-se que a promessa que o Pai fez ao Filho era firme, imutável e absoluta, porém, o Filho deveria descansar na palavra do Pai e não colocar o Pai a prova.

“E chamou aquele lugar Massá e Meribá, por causa da contenda dos filhos de Israel e porque tentaram ao SENHOR, dizendo: Está o SENHOR no meio de nós, ou não? (Êxodo 17.7).

 

Vocação antes da fundação do mundo

“Que nos salvou e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas, segundo o seu próprio propósito e graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos dos séculos;” (2 Timóteo 1.9).

Na criação do homem, Deus implementou o seu propósito eterno: a preeminência de Cristo em tudo! A criação do homem não teve por base a salvação, antes, visou, única e exclusivamente, a preeminência de Cristo, em todas as coisas.

“Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus, nosso Senhor,” (Efésios 3.11).

O eterno propósito de Deus é cristocêntrico, mas, ao pensar na criação do homem, tendo como objetivo a salvação, é estabelecer o propósito de Deus como antropocêntrico. O eterno propósito de Deus foi estabelecido em Cristo Jesus e visou a preeminência de Cristo, em todas as coisas.

“E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que, em tudo, tenha a preeminência.” (Colossenses 1.18).

Além de Cristo ressurgir dentre os mortos, para a justificação dos que tem fé (creem) n’Ele, Ele é o primogênito dentre os mortos, para ter preeminência em tudo. Além de ser a cabeça da Igreja (Colossenses 1.8), que é o seu corpo, Cristo é o cabeça de todo principado e potestade (Colossenses 2.10), o que evidencia que, em tudo, Ele tem a preeminência.

O propósito que Deus estabeleceu em Cristo, se deu na eternidade, antes dos tempos dos séculos. Antes que o homem fosse criado, antes mesmo da criação do mundo, Deus propôs (segundo o seu próprio propósito e graça) criar o homem, pois só, assim, Cristo seria preeminente:

  1. O cabeça da igreja;
  2. O primogênito entre muitos irmãos;
  3. O mais elevado dos reis da terra;
  4. O cabeça dos principados e potestades.

“Que nos salvou e chamou com uma santa vocação; não, segundo as nossas obras, mas, segundo o seu próprio propósito e graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos dos séculos;” (2 Timóteo 1.9).

Além de salvar os homens em Cristo, Deus chamou cada salvo, com santa vocação. Essa vocação não é segundo as obras, antes, é segundo o próprio propósito e graça de Deus, que concedeu aos salvos em Cristo, muito antes de criar todas as coisas, que cada salvo seria membro do corpo de Cristo, sendo Ele a cabeça.

Sem a igreja, Cristo não seria a cabeça. Mesmo que todas as coisas estivessem sujeitas aos pés de Cristo, somente com a igreja, que é constituída de homens salvos e com uma vocação especifica, que Cristo se torna preeminente sobre todas as coisas: a cabeça da igreja.

“E sujeitou todas as coisas a seus pés e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja,” (Efésios 1.22).

 

Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo

“E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro, que foi morto, desde a fundação do mundo.” (Apocalipse 13.8).

Cristo foi amado e conhecido, antes da fundação do mundo (1 Pedro 1.20; João 17.24) e os crentes em Cristo foram eleitos n’Ele, antes da fundação do mundo, para serem santos e irrepreensíveis (Efésios 1.4). Esses versículos evidenciam o eterno propósito que Deus estabeleceu em Cristo, diferentemente, do verso 8, do capítulo 13, do Livro do Apocalipse, que trata, exclusivamente, da salvação.

Na eternidade, houve um acordo entre as três pessoas da divindade, de que o Verbo eterno, ao ser introduzido no mundo, seria o eleito de Deus e que, em tudo, teria a preeminência.

“Ele edificará uma casa ao meu nome, me será por filho, eu lhe serei por pai e confirmarei o trono de seu reino sobre Israel, para sempre.” (1 Crônicas 22.10).

Porém, quando da criação do mundo, em função da queda do homem, o eleito de Deus foi morto como o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Deus não foi surpreendido com a queda do homem, pois, Ele é onipotente, onipresente e onisciente. Conhecedor de que o homem cairia, interpôs seu próprio Filho, como propiciação pelo pecado e, ao resgatar homens perdidos, o eterno propósito em Cristo permaneceu firme.

Apesar da queda de Adão, o propósito de Deus permaneceu firme: a preeminência de Cristo, em todas as coisas. Em momento algum, o propósito de Deus ficou sob risco de não se concretizar, por causa da queda do homem, pois, o propósito eterno de Deus foi proposto em Cristo, o último Adão e não no primeiro homem, Adão.

“Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus, nosso Senhor,” (Efésios 3.11).

É imprescindível divisar bem: por causa da salvação do homem, Jesus é o cordeiro de Deus, desde a fundação do mundo, já, em razão do propósito eterno estabelecido em Cristo, Jesus é o eleito de Deus, antes dos tempos dos séculos (eternidade).

Salvar o homem não é o propósito eterno estabelecido em Cristo, pois, um dia ‘o tempo aceitável e sobremodo oportuno’ não haverá mais. O propósito eterno foi estabelecido em Cristo, porque Ele é pré-existente e será o mesmo hoje e eternamente, o homem, por sua vez, não é pré-existente, mais um motivo pelo qual o propósito eterno não é a salvação do homem.

“Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados, em tempo oportuno.” (Hebreus 4.16);

“(Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui, agora, o tempo aceitável, eis aqui, agora, o dia da salvação).” (2 Coríntios 6.2).

 

Deus é salvação

“Porque para isto trabalhamos e lutamos, pois, esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente, dos fiéis.” (1 Timóteo 4.10).

Ao criar o homem, Deus já sabia que Ele desobedeceria, consequentemente, passaria à condição de morto, separado de Deus e impróprio para o seu propósito. Onisciente e onipotente, Deus estabeleceu o seu único Filho, como mediador entre Deus e os homens.

“Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.” (1 Timóteo 2.5);

“Se com ele, pois, houver um mensageiro, um intérprete, um entre milhares, para declarar ao homem a sua retidão, então, terá misericórdia dele e lhe dirá: Livra-o, para que não desça à cova; já achei resgate.” (Jó 33.23-24).

Eliú, um dos amigos de Jó, deixou registrado que, se o homem está a caminho da perdição, seria necessário um mensageiro escolhido entre milhares que anunciasse aos homens a sua retidão, evidenciando a sua misericórdia. Cristo é esse intérprete, o mensageiro que veio revelar Deus aos homens.

“Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.” (João 1.18).

Além de ser o anunciador de boas novas, Cristo foi posto por propiciação pelos pecados de todo o mundo, pois, sem remissão dos pecados não haveria a justiça em Deus, ao salvar a humanidade. Através da remissão, segundo a propiciação, Deus é justo e, simultaneamente, justificador do homem.

“Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.” (Romanos 3.26).

Observe que Deus justo e todo poderoso não poderia salvar o homem, somente por ser poderoso. Deus não poderia salvar o homem, por ser soberano, sem satisfazer as exigências da sua própria justiça.

Quando Deus deu o Seu único Filho, foi em prol do mundo, ou seja, de todos os homens. O termo grego da frase ‘ἀλλὰ καὶ περὶ ὅλου τοῦ κόσμου’ traduzido por mundo, deve ser compreendido como todas as gentes, todas as etnias, todos os povos. O termo kosmos remete a promessa feita a Abraão, que em Cristo, o descendente, se cumpre:

“E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra.” (Gênesis 12.3).

Isso não significa que todos os homens serão salvos ou, que Deus se obrigou a salvar todos os homens. Quando a Bíblia diz que Deus é salvador de todos os homens, significa que Ele não faz acepção de pessoas ou, que não tem preferência por alguma etnia, povo ou língua.

“Porque para isto trabalhamos e lutamos, pois esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis.” (1 Timóteo 4.10).

Por má leitura desses versos, há quem acredite que Deus salvará todos os homens e aqueles que acreditam que Jesus morreu somente por algumas pessoas (expiação parcial). No entanto, a Bíblia afirma que Jesus é a propiciação pelos pecados de todo o mundo, não somente dos que creem, demonstrando que a salvação de Deus se destina a todas as pessoas.

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos, mas, também, pelos de todo o mundo.” (1 João 2.2).

A salvação foi estabelecida por Deus, desde a fundação do mundo, portanto, foi uma iniciativa de Deus prover propiciação para a humanidade. Nesse sentido, o homem não tem participação alguma na salvação, pois, Deus quis salvar e providenciou o meio para resgatar o homem, apresentando Cristo, o cordeiro perfeito, em resgate de muitos.

“Porque o Filho do homem, também, não veio para ser servido, mas, para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.” (Marcos 10.45).

Por causa desses versos, há um embate entre seguimentos teológicos, pois, há segmento que defende que Jesus veio somente para os salvos (resgate de muitos) e há segmento que defende que Jesus veio para todos os homens (mas também pelos de todo o mundo).

Entretanto, considerando a premissa ‘também está escrito’, verifica-se que a promessa de salvação é inclusiva, portanto, destina-se a todos os homens, sem qualquer ideia de seleção prévia ou, especifica. Nesse diapasão, Cristo conduzirá muitos filhos a Deus, ou seja, Cristo deu a sua vida e resgatará muitos.

“Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles.” (Hebreus 2.10).

Como é impossível precisar quantas pessoas serão salvas, é dito ‘muitos’ e como toda a humanidade se perdeu, é dito que a salvação se destina a todos os homens, sem contradição alguma. Embora Jesus salvará a muitos, comparado à quantidade dos que se perderam (todos pecaram), poucos serão os salvos.

“Assim, os derradeiros serão os primeiros e os primeiros, os derradeiros; porque muitos são chamados, mas, poucos escolhidos.” (Mateus 20.16);

“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem.” (Mateus 7.14).

Jesus veio ao mundo em resgate de muitos que entram pela porta larga, ou seja, todos os descendentes da carne de Adão. Mas, como Cristo é a porta estreita e poucos são os que entram por Ele, certo é que poucos são os que encontram a vida, embora sejam muitos os que Jesus conduz à glória.

Isso posto, passemos as considerações calvinistas e arminianistas, sendo que esses dizem que, com relação, à salvação é Deus que livremente provê salvação para todos os homens e a parte do homem é se tornar disposto para aceitá-la e a ala mais radical daqueles, alegam que não há a necessidade da ação humana na salvação.

Em certos aspectos, ambos os segmentos: calvinistas e arminianistas estão certos e equivocados, porque se esquecem da regra de ouro: também, está escrito.

A Bíblia, claramente, apresenta Deus como autor da salvação, isso, quando, implicitamente, entregou o seu Único Filho como cordeiro, ao fundar o mundo. Como nenhum homem existia, quando da criação do mundo, claro está que é impossível qualquer homem figurar como ator coadjuvante da salvação.

Por outro lado, o primeiro homem é o responsável pela queda da humanidade, quando da ofensa no Éden. Adão foi criado perfeito e posto em um lugar perfeito. Possuía livre arbítrio e plena liberdade, tanto que, ao ser colocada a árvore do conhecimento do bem e do mal, no meio do jardim, Deus deu a possibilidade e a garantia de que Adão precisava para exercer plenamente o seu livre-arbítrio e gozar de liberdade.

Observe que liberdade difere de independência. Adão não era independente de Deus, antes, tinha liberdade. A liberdade envolve confiabilidade e a árvore do conhecimento do bem e do mal foi posta no meio do jardim para tornar plena a liberdade do homem.

Ademais, foi dado o conhecimento necessário para que Adão se relacionasse com Deus, livremente, quando Adão foi instruído para não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Embora isento de pecado, por ter sido instruído, Adão não era inocente, ou seja, simples, sem conhecimento.

Qual era o conhecimento que Adão possuía? Que podia comer de todas as árvores do jardim, livremente, mas, que não podia comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, pois, se comesse, certamente, morreria. Adão não era inocente, portanto, a chamada ‘dispensação da inocência’, jamais existiu. Adão estava avisado e, mesmo assim, desobedeceu, por isso, a consequência: morte.

“O avisado vê o mal e esconde-se; mas, os simples passam e sofrem a pena.” (Provérbios 27.12).

A ofensa de Adão trouxe morte para toda a sua descendência, por isso, é dito que todos pecaram. Ao introduzir o unigênito no mundo, Jesus veio sem pecado e, pela obediência de Cristo, Ele trouxe vida a todos os seus descendentes, que são gerados de novo pelo poder que há no evangelho.

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim, também, a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram.” (Romanos 5.12);

“Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim, pela obediência de um, muitos serão feitos justos.” (Romanos 5.19).

Observe que é pela obediência de Cristo que os homens são feitos (criados e declarados) justos, portanto, o homem não possui participação na salvação. É Deus quem deu o Seu Filho, e o Filho, por sua vez, quem obedeceu.

Por causa da morte, decorrente da ofensa de Adão, todos os homens, sem exceção, são escravos do pecado. Embora gozem do livre-arbítrio, estão presos ao pecado, por força da lei, que disse: certamente, morrerás e não porque a vontade do homem é má.

Mesmo que um dos descendentes de Adão fosse moralmente corretíssimo e nunca tivesse cometido um erro, por menor que fosse, ainda, assim, seria escravo do pecado, por ter entrado neste mundo por Adão, a porta larga, que dá acesso ao caminho largo, que conduz à perdição.

É impossível ao homem se salvar sem a providência divina, não pelo fato de gozar de livre-arbítrio, mas, sim, pelo fato de ter nascido sob condenação. Como a condenação decorre de lei, a condição do homem sem Deus se assemelha à dos escravos, na antiguidade, de modo que o homem nunca disporá de meios para se livrar da escravidão, pois, tudo o que produz, pertence por direito ao seu senhor, o pecado. De outra banda, como o pecado é um senhor mal, jamais despedirá fora seus servos.

Além da condenação, existem alguns agravantes: o homem natural desconhece a sua condição, portanto, não terá interesse em mudá-la. Há pecadores que, por causa da consciência, se sentem pecadores, porém, buscam caminhos errados, como religião, filosofias, práticas, etc., que tem em vista somente a mudança de comportamento, segundo o conhecimento do bem e do mal, adquirido do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, mas que jamais mudará a sua condição, decorrente da ofensa de Adão.

O problema da humanidade está na desobediência de Adão, porém, a pessoas acham que o problema está no bem e no mal, sendo que o conhecimento do bem e do mal não é o que tornou o homem mau (vil, inferior, plebe, escravo), mas, sim, a ofensa de Adão. Os homens buscam remediar a atual condição sob domínio do pecado, atuando nos efeitos do fruto do conhecimento do bem e do mal, que deixou o homem igual a Deus, conhecedores do bem e do mal, e se esquecem que o que subjuga a humanidade é a morte, por força da lei.

O maior problema de se criar um sistema doutrinário, é ter de adequar todas as passagens bíblicas a essa doutrina. Quando Calvino ‘criou’ a doutrina da predestinação para a salvação, outros textos bíblicos tiveram de ser acomodados à nova doutrina. Quando se nega que a salvação é por meio do poder que há no evangelho e se passa a pregar que a salvação decorre de uma escolha soberana de Deus, de quem será salvo, o próximo passo é dizer que a vontade humana está subjugada à sua natureza humana má.

Quando a Bíblia diz que o homem é mau, não está dizendo que o homem, por natureza, é maldoso, antes, que é mau, por não ser nobre, bom, verdadeiro. Quando Jesus disse aos escribas e fariseus que eles eram maus, não os acusou de serem de índole ruim, mas, que não eram livres, ou seja, que eram servos do pecado.

“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mateus 7.11).

Os arminianistas, por sua vez, ao dizerem que os homens são salvos pela presciência, visto que Deus antevê aqueles que irão crer e os predestina à salvação, também, contrariam as Escrituras, que declaram que o homem é salvo pelo poder que há no evangelho.

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e, também, do grego.” (Romanos 1.16).

O maior erro dos arminianistas não é com relação à vontade do homem, mas, quando alegam que Deus predestina alguns a serem salvos pela presciência, diferentemente, dos calvinistas, que apontam a soberania divina.

 

O que o homem precisa fazer para ser salvo?

Para descrever o que o homem precisa fazer para ser salvo, analisaremos vários versículos.

Utilizando-se de uma linguagem teológica, o homem não precisa fazer nada para ser salvo. Isto mesmo, nada, pois Deus já fez tudo o que é necessário para a salvação.

“Moisés, porém, disse ao povo: Não temais; estai quietos e vede o livramento do SENHOR, que hoje vos fará; porque aos egípcios, que hoje vistes, nunca mais os tornareis a ver.” (Êxodo 14.13);

“Porque o Egito os ajudará em vão e para nenhum fim; por isso, clamei acerca disto: No estarem quietos será a sua força.” (Isaías 30.7).

Estar quieto, descansar, nada fazer, é a contribuição do homem para ser salvo. Quem descansa, fica quieto, é porque confia que Deus é poderoso para salvar. Portanto, quando se pergunta: “Que devo fazer para ser salvo”? A resposta será: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo”.

O que significa crer? Em outras palavras, significa descansar, esperar em Cristo. Há outras definições bíblicas para crer? Sim! Invocar o Senhor. Só invoca o Senhor quem crê que Ele é salvador, pois quem não acredita não O invoca.

“Buscai ao SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto.” (Isaías 55.6).

Quem busca, quem invoca, é porque crê, de modo que o crer é polo passivo na salvação, enquanto, que Deus é polo ativo, visto que Ele providenciou salvação poderosa na casa de Davi e por meio de Cristo salva o vil pecador.

Mas, por má leitura das Escrituras, muitos pregadores apresentam duas questões para alguém ser salvo: arrepender e crer no evangelho.

Para ser salvo é imprescindível arrepender-se. Mas, o que é arrepender? Arrepender-se é mudar de concepção, transformar o entendimento, expressão  do termo grego metanoia. Arrepender-se não é ficar triste, não é mudança de comportamento, não é desejar não ter feito algo. O arrependimento bíblico é uma transformação do entendimento, tendo em vista a presença de Cristo, em meio aos homens.

“E dizendo: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.” (Mateus 3.2).

O arrependimento não é por causa de má conduta, da prática de coisas erradas, mas, porque chegou o reino dos céus. O reino dos céus, Cristo em meio aos homens, é o mote do arrependimento, ou seja, da mudança de concepção.

A má exegese do termo metanoia foi tão terrível no passado da cristandade, que era dito ‘fazei penitência’, ou seja, por arrependimento, as pessoas entendiam como  pagar indulgências, fazer caridade, etc., quando bastava mudar a concepção de como ser salvo.

A concepção dos judeus era de que bastava ser descendente da carne de Abraão, ou seja, um judeu de sangue, ou ser um prosélito, para ser salvo. À luz do evangelho, tem-se uma nova concepção, um renovo na mente: para ser salvo é necessário crer em Cristo.

Isso posto, quem crê que Jesus de Nazaré é o Cristo, de fato se arrependeu.

É por isso que o apóstolo Pedro disse:

“E dizendo: O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho.” (Marcos 1.15).

O tempo estava cumprido e Cristo próximo dos homens, portanto, que mudassem (abandonassem) de concepção e cressem no evangelho. Para ser salvo é necessário crer que Jesus é o Cristo, porém, os judeus precisavam mudar a concepção deles, pois, somente, assim, eles poderiam crer.

Quem crê em Deus, deixa de presumir que é salvo, por ter Abraão como Pai (arrependimento), e se refugia (crê) em Cristo como salvador.

“E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão.” (Mateus 3.9).

Mas, o erro não é só com relação ao arrependimento, mas, também, com relação ao crer.

Quando é dito: um homem não será salvo, sem arrependimento e fé, qual o significado de fé? Já dissemos que, para o homem ser salvo, é necessário se arrepender e crer, de modo que, se o termo ‘fé’ foi empregado no sentido de crer, a colocação ‘arrependimento e fé’ está correta.

Entretanto, o homem é salvo por meio da fé, ou seja, através do evangelho, a mensagem que promove arrependimento e confiança (crer, descanso). Sem Cristo, a fé manifesta, é impossível agradar a Deus. Sem a pregação da fé não há arrependimento, ou seja, mudança de entendimento à luz do evangelho, consequentemente, não há confiança em Cristo.

Há muitos equívocos, por má interpretação de alguns textos bíblicos, pois, onde está escrito fé como firme fundamento, as pessoas acabam lendo como se fosse crer.

“Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou, pela pregação da fé?”  (Gálatas 3.2).

“Mas, antes, que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.” (Gálatas 3.23).

Sem a pregação da fé, ou seja, sem o evangelho, não há arrependimento, portanto, é impossível crer em Deus, pois, só é possível crer em Deus, por intermédio de Cristo.

“E por ele credes em Deus, que o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus;” (1 Pedro 1.21).

Há uma diferença intransponível entre o substantivo grego πίστις (pistis), traduzido por ‘fé’, ‘doutrina’, ‘kerigma’, ‘dogma’, e o verbo grego πιστεύω (pisteuó), comumente é traduzido por ‘crer’, ‘acreditar’, ‘confiar’. O crer deriva da fé, que é fundamento, base, essência, e, jamais, o crer precede a fé.

Nesse sentido, é verdadeiro que todo aquele que se arrepende (muda de concepção, abandona, entende) e crê no evangelho será salvo. Não há exceção: toda alma que responde à ordem do evangelho, ou seja, que obedece ao mandamento do evangelho, que é crer em Cristo como salvador, se achegou a Cristo, recebeu a Cristo, portanto, será recebido e perdoado pelo Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome;” (João 1.12).

Mas, há outra afirmação que, aparentemente, diz a mesma coisa, porém, se o entendimento acerca do termo ‘fé’ for distorcido, dará azo a um erro que compromete a verdade do evangelho.

Quando se diz: ‘Arrependimento e fé são atos livres do homem’, se arrependimento for ‘mudança de entendimento’ e fé for ‘acreditar’, ‘ter fé em Cristo’, a colocação é verdadeira. Mas, quando se diz que, para ser salvo é necessário ‘arrependimento’ e ‘fé’, mas, se entende que fé se refere a um dom ou, a uma graça especial, o pensamento já não está em conformidade com o evangelho.

Desse erro, surgem outros, como: ‘Os homens com mente, coração e vontade devem renunciar ao pecado e receber a Cristo’. Parece ser uma frase correta, porém, não há como renunciar ao pecado, sem receber a Cristo. Renúncia ao pecado é consequência de receber a Cristo, ou seja, não são coisas diferentes ou, independentes.

De fato, é impossível um escravo ‘renunciar’ ao seu senhor, pois, a única coisa que torna um escravo livre de um senhor é a morte. Quando o pecador aceita a Cristo, como senhor, crendo que Ele é o Filho de Deus, é crucificado com Cristo, morre e é sepultado. É ao crer, que se ‘renuncia’ ao pecado, pois, só crendo é que se morre para o antigo senhor.

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.” (Romanos 6.6).

Se for desfeito o corpo do pecado, não há como rejeitar o pecado. Somente sendo crucificado com Cristo é possível se livrar do pecado. O pecado não é apenas um fardo que se deixa aos pés da cruz, como muitos dizem. O pecado é senhor, exerce domínio, portanto, é equivocada a ideia de renunciar ao pecado.

“Mas, graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça.” (Romanos 6.17-18).

Mas, alguém dirá: – “Não é isso que o arminianismo ensina?” Não! Embora digam que, para ser salvo, é necessário crer em Cristo, os arminianos alegam que os homens são salvos pela presciência de Deus, que antevê aqueles que irão crer no futuro e os elegeu para serem salvos no passado.

Embora Deus saiba de todas as coisas, pela sua onisciência, o que engloba quais pessoas serão salvas e as que estão perdidas, a salvação, não se dá por escolha divina, mas, sim, pelo poder que há no evangelho. Observe:

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa.” (Efésios 1.13).

Os arminianistas cometem o mesmo erro dos calvinistas, atribuir a salvação à eleição, sendo que a eleição visa o propósito eterno de Deus estabelecido em Cristo: a preeminência de Cristo em tudo, não a salvação, que é por conta do poder que há no evangelho.

 

A doutrina do livre-arbítrio

A Bíblia declara, claramente, que um homem deve se arrepender (mudar de entendimento) e crer para ser salvo. Essa verdade é inconteste!

Como é impossível descaracterizar a verdade de que é imprescindível ao homem crer para ser salvo e que crer é um ato humano de passividade, pois, o que se requer é confiar, esperar, aguardar, descansar, etc., em Cristo, os calvinistas tentam distorcer outras passagens bíblicas para dar a entender que:

  • O homem não pode ver – até que ele tenha nascido de novo;
  • O homem não pode entender – até que lhe seja dada uma nova natureza;
  • O homem não pode vir – até que ele seja eficazmente chamado pelo Espírito Santo.

A Bíblia ensina, claramente, que era impossível ao homem ir a Deus. Isso não significa que o homem não tivesse vontade de se achegar a Deus, mas, que não havia um caminho que o conduzisse a Deus.

Por falta de um caminho, Deus enviou o Seu Filho Unigênito como mediador, como sumo sacerdote, cordeiro, servo, caminho, luz, verdade, vida, advogado, etc., de modo a estabelecer, por meio da sua carne, um caminho para Deus.

“Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne,” (Hebreus 10.20).

Note-se que havia uma barreira de separação entre Deus e os homens, mas, Deus, por sua infinita misericórdia, enviou o seu Filho, como mediador e sumo sacerdote de uma nova aliança e os calvinistas dizem que os homens não podem vir a Cristo[1] se não forem, eficazmente, chamados pelo Espírito Santo.

Cristo veio ao mundo com uma mensagem de reconciliação, restabelecendo a paz entre Deus e os homens, e alegam que esses mesmos homens não podem ver, ouvir, entender e se achegarem ao mediador, que foi enviado, justamente, para revelar Deus aos homens.

A má leitura do texto bíblico é criminosa. Observe:

“Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6.44);

“E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido” (João 6.65).

Há um motivo pelo qual Jesus disse que ninguém poderia ir a Ele, se o Pai que O enviou não o concedesse. Jesus havia acabado de anunciar: “Porquanto, a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho e nele crê, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.” (João 6.40), mas, os judeus estavam questionando a filiação de Cristo, perguntando entre si, se Ele não era filho de José e Maria.

“Murmuravam, pois, dele os judeus, porque dissera: Eu sou o pão que desceu do céu. E diziam: Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos? Como, pois, diz ele: Desci do céu? Respondeu, pois, Jesus, e disse-lhes: Não murmureis entre vós.” (João 6.41-43).

Como viram o Verbo da vida e não creram, antes, buscaram uma desculpa para rejeitá-Lo, mesmo após verem o sinal da multiplicação dos pães; portanto, Jesus declara que não podiam ir a Ele, se pelo Pai não fosse concedido, isso, em função do que constava nas Escrituras:

“Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que, do Pai ouviu e aprendeu, vem a mim.” (João 6.44-5).

Estava escrito nos profetas que todos haveriam de ser ensinados por Deus, de modo que somente aqueles que ouviram e aprenderam do Pai, nas Escrituras, ou seja, nos profetas, viriam a Cristo. Daí a fala: – “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer”, ou seja, se não ouviu e nem aprendeu de Deus, através dos profetas.

Após enfatizar a incredulidade dos seus concidadãos, Jesus conclui:

“Mas, há alguns de vós que não creem. Porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os que não criam e quem eram os que o haviam de entregar. E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido.” (João 6.64-65).

O motivo pelo qual Jesus disse que ‘ninguém pode vir a mim’ é especifico: havia alguns dos judeus que não creem e os calvinistas anunciam que o que foi dito, se deve ao fato de os homens não verem, não ouvirem e nem entenderem.

Os calvinistas alegam que um pecador, absolutamente, não pode vir a Cristo, até que Deus faça primeiro alguma coisa na natureza do pecador. Mas, conforme as Escrituras, antes mesmo de criar Adão, quando fundou o mundo, Deus fez, prioritariamente, o necessário para a salvação do homem, ofereceu Cristo como cordeiro e Ele foi morto na fundação do mundo. O que Deus fez para salvar o homem foi entregar o Seu único Filho, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, e não, como dizem, que Deus, para salvar o homem, primeiramente, faz ‘algo’ na natureza do pecador.

A Bíblia, claramente, descreve a regeneração ou, o novo nascimento, como decorrente da palavra de Deus, que é comparada a uma semente, de modo que é impossível ao homem promover a regeneração ou, ser parte ativa na regeneração.

“Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas, da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre.” (1 Pedro 1.23).

Da mesma forma que Adão não tinha poder de transtornar a sua natureza santa em morte, antes, foi o pecado que, pelo mandamento santo e bom enganou o homem e o matou, o homem no pecado não tem poder de transformar a sua natureza imunda em vida, de modo que precisa do poder que há no evangelho, que opera a regeneração.

“Porque o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, me enganou e por ele me matou. E, assim, a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom. Logo, tornou-se-me o bom em morte? De modo nenhum; mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem; a fim de que, pelo mandamento, o pecado se fizesse, excessivamente, maligno.” (Romanos 7.11-13).

Pelo mandamento bom que era para vida: ‘De todas as árvores do jardim comerás, livremente, mas, da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente, morrerás’ (Gênesis 2.16-17), o pecado se mostrou, excessivamente, maligno porque, pelo mandamento bom, operou no homem a morte.

Adão não tinha poder algum sobre a sua própria natureza, para transformá-la em morte, antes, foi necessário o poder que há na palavra de Deus, que dizia ‘certamente morrerás’, para o pecado subjugar o homem na morte, através da força da lei.

“Ora, o aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a lei.” (1 Coríntios 15.56).

Hoje, de igual modo, os homens não têm poder algum sobre a natureza, para transformá-la em vida e, por isso, precisa do poder que há na palavra de Deus, que é semente. É essa palavra que concede vida, bastando, para isso, o homem se refugiar, descansar, esperar, crer, estar quieto, etc., na palavra de Cristo, que é espírito e vida.

“Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas, segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo,” (Tito 3.5).

O homem não tem como se purificar, se limpar, mas, através da palavra de Cristo, Deus limpa o homem (João 15.3). O homem não tem como se salvar, mas, através da lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, Deus salva o homem. Porém, como a salvação é segundo a misericórdia de Deus, que tem misericórdia de quem Ele tiver misericórdia, basta ao homem crer em Cristo, ou seja, guardar o seu mandamento, pois Deus tem misericórdia de quem guarda os seus mandamentos.

“E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.” (Êxodo 20.6).

Moisés, certa feita, queria que Deus fizesse misericórdia aos filhos de Israel, que haviam pecado, mas, como ele já havia sido instruído que Deus só faz misericórdia aos que O amam, ou seja, aos que guardam o seu mandamento, Deus respondeu a Moisés que não riscaria o nome de Moisés do livro da vida e nem perdoaria o pecado do povo, visto que Ele faz misericórdia a quem Ele faz misericórdia, ou seja, aos que o obedecem.

“Porém, ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer.” (Êxodo 33.19).

Quando Deus disse essa palavra a Moisés, estava apontando para o que foi dito em Êxodo 20, verso 6, mas, os calvinistas transtornam o sentido do texto, para afirmar que Deus escolhe de quem terá misericórdia, com base na sua soberania, sendo que a escolha de Deus é exercer misericórdia aos que O obedecem, ou seja, aos que O invocam.

“E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque, no monte Sião e em Jerusalém, haverá livramento, assim, como disse o SENHOR, e entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar.” (Joel 2.32).

Para defender a suposta salvação, segundo a soberania divina, os calvinistas desembocam em erros mil, como afirmar que o homem é totalmente incapaz de se arrepender e de crer, por causa da natureza pecaminosa, de modo que a mente, o coração e a vontade, que deveriam ser receptivos à verdade do evangelho, não tem a capacidade de receber tal verdade e nem mesmo o desejo de ter tal capacidade.

Se assim fosse, por causa da natureza santa e justa, Adão seria, totalmente, incapaz de mudar de concepção e de se deixar guiar pela mentira de Satanás, vez que, pela sua natureza, a mente, o coração e a vontade de Adão, que deveriam ser receptivos à mentira, não teriam a capacidade de receber tal mentira e, nem mesmo, o desejo de ter tal capacidade. Mas, não é o que demonstram as Escrituras, pois, Adão e Eva foram receptivos à mentira e tiveram o desejo de serem iguais a Deus, conhecedores do bem e do mal.

Um calvinista dirá que, ‘rejeitar a Cristo como Senhor e Salvador, não é uma ação passiva, mas, uma escolha deliberada da vontade’, uma colocação verdadeira, mas, que será usada para enfatizar uma inverdade: que, se o homem tivesse a capacidade de ‘aceitar’ a Cristo como Senhor, estaria realizando uma obra e que, portanto, teria do que se gloriar, pois, participou, ativamente, da salvação.

De fato, aceitar ou rejeitar a Cristo é uma escolha deliberada da vontade do homem, frente à verdade do evangelho. Porém, confessar (admitir) que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, não é uma obra da lei, mas, uma obra, segundo a pregação da fé. Quem realizar a obra de Deus, que é crer em Cristo, na verdade, se fez servo de Deus, ou seja, humilhou-se a si mesmo, deixando de andar segundo o seu coração enganoso e passou a andar segundo o mandamento de Deus.

“Aquele, pois, que vos dá o Espírito e que opera maravilhas entre vós, o faz pelas obras da lei ou, pela pregação da fé?” (Gálatas 3.5).

Quem crê em Cristo, realizou a obra de Deus, portanto, se fez servo, ao obedecer ao mandamento de Deus e quem se faz servo, não tem como se jactar de ter obedecido. Para ser salvo é indispensável ao homem se sujeitar a Deus, crendo em Cristo, de modo que é impossível alguém se gloriar pelo fato de se fazer servo.

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento.” (1 João 3.23);

“Jesus respondeu e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou.”  (João 6.29).

É por isso que o apóstolo Paulo escreveu que o amor não se vangloria:

“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;” (1 Coríntios 13.4-6).

Se o amor de Deus é que se cumpra os seus mandamentos e quem guarda os seus mandamentos é o que ama a Deus, certo é que, quem cumpre a obra de crer em Cristo, jamais será tido por soberbo, pois, Abraão realizou a obra de crer em Deus e foi tido como aquele que não tinha do que se gloriar.

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos e os seus mandamentos não são pesados.” (1 João 5.3);

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama e aquele que me ama, será amado de meu Pai e eu o amarei e me manifestarei a ele.” (João 14.21);

“Porquanto, Abraão obedeceu à minha voz e guardou o meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis.” (Gênesis 26.5).

Observe:

“QUE diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne? Porque, se Abraão foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, mas, não diante de Deus. Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus e isso lhe foi imputado como justiça. Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão, segundo a graça, mas, segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.” (Romanos 4.1-5).

Para compreender essa passagem, temos de ter em mente que a abordagem do apóstolo Paulo tem em vista as obras decorrentes da lei mosaica e conclui que ninguém, nenhuma carne, seria justificada, através das obras da lei.

“Por isso, nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque, pela lei, vem o conhecimento do pecado. (…) Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei.” (Romanos 3.20 e 28).

Quando é dito que nenhuma carne é justificada pelas obras da lei, isso inclui os judeus, que se gloriavam de serem salvos, por descenderem da carne e do sangue de Abraão. Ao questionar se Abraão alcançou algo segundo a carne, o apóstolo Paulo evidencia os principais elementos que os judeus se apoiam na lei: a circuncisão, as tribos, os dias, as festas, etc., pois esses eram os elementos, segundo a carne:

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito e nos gloriamos em Jesus Cristo e não confiamos na carne. Ainda que, também, poderia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, segundo a lei, fui fariseu;” (Filipenses 3.3-5).

Se Abraão tivesse sido justificado por se circuncidar ao oitavo dia, ser da linhagem de Israel ou, de alguma tribo, por ser hebreu, etc., teria do que se gloriar pelas suas obras, mas, a Escritura diz que Ele creu em Deus e, por isso, foi justificado.

A incredulidade é um ato deliberado da mente, do coração e da vontade, da mesma forma como é o acreditar. O incrível era que os judeus incrédulos, deliberadamente, acreditavam em Deus, mas, rejeitaram o Filho e essa rejeição ao Filho, mesmo crendo na existência de Deus, é o mesmo que incredulidade.

Observe que a incredulidade não diz de uma ausência de crença, antes, é a crença no erro, no ensino falso, em mandamentos de homens, etc. Os judeus criam em Deus, mas não creram em Cristo, por isso, é dito que eram incrédulos.

“E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou. E quem me vê a mim, vê aquele que me enviou. Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas.” (João 12.44-46).

A capacidade que os discípulos dispunham, de crerem em Deus, na lei, em Moisés e na descendência de Abraão, é a essa mesma capacidade que a mensagem do evangelho tem por alvo, para que se mude de entendimento e se passe a crer que Jesus é o Cristo.

Quando Tiago diz que não adianta dizer que se crê (tem fé) sem as obras, enfatizou o posicionamento dos judeus, que diziam crer em Deus, porém, não realizaram a obra de Deus, que é crer em Cristo.

“Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem e estremecem. Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras é morta?” (Tiago 2.19-20).

Quem é o ‘tu’ que crê que há um só Deus? Diz dos judeus. Eles criam em um só Deus, tinham zelo de Deus, mas, sem conhecimento (Romanos 10.2). Até os demônios creem em Deus, pois eles sabem da existência de Deus, porém, dizer que crê e não obedecer é uma crença sem obras ou, uma crença morta.

O incrédulo na Bíblia não é o ateu. Segundo o apóstolo Paulo, seguir o judaísmo é o mesmo que ignorância e incredulidade.

“A mim, que dantes fui blasfemo, perseguidor e injurioso; mas, alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade.” (1 Timóteo 1.13).

A maioria dos judeus foram incrédulos, mas, a incredulidade deles não acabou com a fidelidade de Deus, pois, o propósito de Deus prevalece e a sua palavra permanece viva e eficaz.

“Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?” (Romanos 3.3).

O calvinismo, no seu desvio doutrinário, sempre apontará para a incredulidade, como resultado de se estar morto no pecado. Não! Estar morto no pecado é resultado de uma só ofensa e, por essa ofensa de um homem, entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte passou a todos os homens.

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim, também, a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram.” (Romanos 5.12).

O sistema escravagista nunca sujeitou a vontade dos escravos. A lei estabelecia o domínio dos senhores, sobre os corpos dos seus escravos, não domínio sobre a vontade dos escravos. Quando a Bíblia fala de escravidão ao pecado, ela não diz que a vontade do homem está subjugada, antes, diz que o corpo do homem pertence ao pecado. O que deve ser desfeito é o corpo do pecado e não uma transformação na vontade do homem.

“Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.” (Romanos 6.6).

A Bíblia é clara, ao demonstrar que a vontade do homem é livre, pois, é o homem que se apresenta para obedecer e se fazer servo. O apóstolo dos gentios agradece a Deus pelo irmãos de Roma, pois, eles, antes, eram servos do pecado, mas, ao obedecerem à forma de doutrina que lhes foi ministrada, se fizeram servos da justiça.

“Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, do pecado para a morte ou, da obediência para a justiça? Mas, graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues. E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça.” (Romanos 6.16-18).

É a forma de doutrina que foi entregue aos cristãos, que promove o arrependimento e o crer, e essa mesma doutrina tem o poder regenerador, pois, Deus pega a mesma massa que fez o corpo do pecado e faz vasos, para honra, por Cristo Jesus.

“Ou, não tem o oleiro poder sobre o barro para, da mesma massa, fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Romanos 9.21).

Para a salvação do homem, primeiro é dada a fé, a palavra de Deus. Diante dessa palavra, o homem deve mudar a sua concepção e crer que Jesus é o Cristo. Quando crê, o homem é conformado com Cristo na sua morte, sendo sepultado e ressurge uma nova criatura, criada, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade.

A parte de Deus, na salvação, foi dar o seu Filho unigênito, para que todo aquele que crê não pereça. Se o homem crer, Deus opera o novo nascimento, que é a glorificação dentre os mortos, daqueles que morreram com Cristo.

E a parte do homem na salvação é passiva, pois, basta descansar, estar quieto, confiar na promessa que Jesus fez, para ser salvo, pois, Deus já fez tudo o que era necessário à salvação.

“E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna.” (1 João 2.25).

 

Confissão segundo as Escrituras evidencia a regeneração

A doutrina calvinista diz que ‘a fé e o arrependimento são as evidências e não a causa da regeneração’, outra grande mentira para transtornar a verdade do evangelho.

Quando João Batista anunciou, no deserto, o arrependimento, porque era chegado o reino dos céus, muitos vieram a ele para serem batizados. Dentre os que vieram ao batismo de João, haviam muitos escribas e fariseus.

A mensagem apregoada por João Batista instava as pessoas a mudarem a concepção delas, acerca de como serem salvas, pois, o reino dos céus era chegado (Mateus 3.2), ou seja, o Cristo. Mas, ao ver os escribas e fariseus que vinham ao batismo, João os repreendeu, dizendo: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento;” (Mateus 3.7-8).

Como João Batista descobriu que os escribas e fariseus, que vinham ao seu batismo, não se arrependeram? Porque eles continuavam professando que tinham por pai a Abraão, segundo uma presunção própria, e não segundo as Escrituras. Enquanto as Escrituras protestavam contra eles, dizendo que já não eram filhos de Deus, mas, uma mancha, uma geração corrompida e mentirosa, os escribas e fariseus alegavam, abertamente, que tinham Abraão por pai, ou seja, que eram filhos de Deus.

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas, a sua mancha; geração perversa e distorcida é.” (Deuteronômio 32.5);

“Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres? (…) Responderam e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. (…) Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus.” (João 8.33).

Com a mensagem: ‘arrependei-vos’, João Batista estava instando a abandonarem a concepção (metanoia) de que eram filhos de Deus, por descenderem de Abraão, e que era necessário crerem no Cristo, o enviado de Deus, para alcançarem a filiação divina. Mas, por mais que João Batista pregasse ‘arrependei-vos’, os escribas e fariseus se apoiavam na premissa de pai Abraão.

“E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão.” (Mateus 3.9).

O fruto do arrependimento que era esperado dos escribas e fariseus, era a confissão: agora, somos filhos de Deus, pois, o reino dos céus chegou. O fruto que o arrependimento apresenta, diz do fruto dos lábios, ou seja, diz de uma confissão. Admitir que Jesus Cristo é o Senhor, é o verdadeiro fruto da mudança de concepção (arrependimento).

“Portanto, ofereçamos sempre, por Ele, a Deus, sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome.” (Hebreus 13.15).

A Bíblia apresenta o arrependimento e o crer, segundo as Escrituras, como imprescindíveis à salvação:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que, com o coração se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação.” (Romanos 10.8-10).

É com o coração que se crê, para que a justiça de Deus se efetive sobre o indivíduo, pois, como está determinado que a alma que pecar essa morrerá, se faz necessário crer com o coração, para ser crucificado com Cristo, morto e sepultado. Ao morrer com Cristo, se evidencia que Deus é justo e, ao confessar que Jesus é o Cristo, se evidencia que Deus é justificador.

“Para demonstração da sua justiça, neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.” (Romanos 3.26).

Para a salvação do homem, primeiro é necessário a palavra da fé, ou seja, o evangelho. Cristo é o dom de Deus. É por intermédio de Cristo, a fé manifesta, que o homem é salvo. É por isso que o apóstolo Paulo faz referência à palavra da fé que os apóstolos pregavam (Romanos 10.8).

Essa palavra, por sua vez, opera arrependimento e confiança, de modo que se crê com o coração que Deus ressuscitou a Cristo e com a boca se produz o fruto do arrependimento: que Jesus é o Senhor. Quando o homem crê em Cristo, segundo o que está expresso acima, morre com Cristo e é sepultado com o batismo, na morte de Cristo (Romanos 6.3).

“No corpo da sua carne, pela morte, para, perante ele, vos apresentar santos e irrepreensíveis, e inculpáveis,” (Colossenses 1.22).

O arrependimento e o crer promove a morte do homem e Deus, por sua vez, é quem traz à vida um novo homem, criado segundo a natureza divina, portanto, santo, irrepreensível e inculpável. A causa da regeneração é o poder de Deus, o mesmo poder que trouxe Jesus dentre os mortos.

“E qual a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus.” (Efésios 1.19-20).

Deus é a causa da regeneração, enquanto o arrependimento e o crer em Cristo é o mesmo que ser participante da carne e do sangue de Cristo, o que é imprescindível para Deus operar a regeneração.

“Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade, vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne, verdadeiramente, é comida e o meu sangue, verdadeiramente, é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também, viverá por mim.” (João 6.53-57).

O evangelho é notório em demonstrar que é necessário o pecador morrer para, depois, ser ressuscitado com Cristo, já, o calvinismo ignora a questão da morte com Cristo, pois, diz que Deus elegeu e predestinou alguns pecadores para serem salvos, mas, não diz se os eleitos e predestinados para serem salvos são aqueles que devem morrer com Cristo ou, se são aqueles que ressurgiram com Cristo.

Se fosse verdadeira a doutrina calvinista, quem Deus predestina à salvação: o velho homem ou, o novo homem? A velha criatura ou, a nova criatura? O eleito para a salvação é o homem no pecado ou, o homem regenerado?

Se alguém que está em Cristo é uma nova criatura, sendo certo que as coisas velhas são passadas, certo é que a doutrina calvinista não consegue responder quem foi predestinado à salvação, pois, o velho homem tem de ser crucificado e o novo homem é criado, segundo Deus.

“E vos revistais do novo homem que, segundo Deus, é criado em verdadeira justiça e santidade.” (Efésios 4.24).

Enquanto a Bíblia diz que o novo nascimento resulta de uma nova criação, o calvinismo diz que a regeneração é uma capacidade para desejar a salvação, uma graça irresistível, que atua sobre a vontade humana, capacitando o homem morto a crer.

Regeneração diz do novo homem ressurreto com Cristo, sendo certo que, antes, de ressurgir, teve de morrer e ser sepultado. A doutrina calvinista ignora essa verdade, ao dizer que o homem morto, através da regeneração, recebe capacidade, tanto para desejar, como para receber a salvação.

Como é possível ao homem operar a própria salvação? O apóstolo Paulo responde:

“De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas, muito mais, agora, na minha ausência, assim, também, operai a vossa salvação, com temor e tremor;” (Filipenses 2.12).

Analisando algumas passagens do Antigo Testamento, fica evidente que ‘temor’ é uma referência à palavra de Deus e que ‘tremor’ é um modo de enfatizar a obediência à palavra de Deus.

“Servi ao SENHOR com temor e alegrai-vos com tremor.” (Salmos 2.11);

“Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra.” (Isaías 66.5);

“E disse Moisés ao povo: Não temais, Deus veio para vos provar e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis.” (Êxodo 20.20);

“Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR.” (Salmos 34.11).

O homem pode operar a sua salvação, crendo em Cristo, ou seja, obedecendo (tremor) a sua palavra (temor), pois, a palavra de Deus diz:

“Por isso, também, na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido.” (1 Pedro 2.6).

E em seguida, vem a declaração paulina de que é Deus, segundo a sua boa vontade, é que opera, tanto o querer, quanto o efetuar.

“Porque Deus é o que opera em vós, tanto o querer, como o efetuar, segundo a sua boa vontade.” (Filipenses 2.13).

Os calvinistas utilizam esse versículo para dizer que, com relação à salvação, é Deus que opera, tanto o querer do homem, quando é Ele quem efetua a salvação, porém, o texto não diz isto. O texto tem a seguinte premissa:

“Por isso também rogamos sempre por vós, para que o nosso Deus vos faça dignos da sua vocação, e cumpra todo o desejo da sua bondade, e a obra da fé com poder;” (2 Tessalonicenses 1.11);

“Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável, por Cristo Jesus, ao qual seja glória para todo o sempre. Amém.” (Hebreus 13.21).

A salvação se alcança com temor e tremor e, nos salvos, Deus aperfeiçoa a Sua boa obra, de modo que os crentes façam a sua vontade, operando o que é agradável a Deus, por Cristo. Enquanto o querer e o efetuar dizem do conselho de Deus, que é firme (o desejo da sua bondade), e que Ele fará a Sua própria vontade (a obra da fé com poder), os calvinistas transtornam o texto, ao dizerem que Deus interfere na vontade dos homens, para aceitá-lo.

“Que anuncio o fim desde o princípio e desde a antiguidade as coisas que, ainda, não sucederam; que digo: O meu conselho será firme e farei toda a minha vontade.” (Isaías 46.10).

Olha o equívoco de John G. Reisinger, um calvinista:

“No momento em que perdermos de vista esta distinção entre ser salvo pela fé (o ato do homem) e ser nascido de novo pelo Espírito Santo (o ato de Deus), estaremos nos dirigindo para a confusão e o problema.” John G. Reisinger, A Parte de Deus e a Parte do Homem na Salvação < http://www.monergismo.com/textos/eleicao/partesalvacao.htm > Consulta realizada em 20/06/20.

Observe que Ele confunde ‘ser salvo pela fé’, com o ato do homem crer em Cristo. Ele entende que ser ‘salvo pela fé’ é ato do homem, porém, a Bíblia claramente diz que a fé, por meio da qual o homem é salvo, diz do evangelho, Cristo, o dom de Deus.

“Porque, pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.” (Efésios 2.8).

‘Fé’, em Efésios 2, verso 8, não diz da crença do indivíduo, pois, essa crença é subjetiva. ‘Fé’, nesse verso, diz da pregação da fé, diz do evangelho, que é poder de Deus para salvação, diz de Cristo, a fé manifesta, diz da fé que foi entregue aos cristãos, pela qual devem batalhar.

“Somente deveis portar-vos dignamente, conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós, que estais num mesmo espírito, combatendo, juntamente, com o mesmo ânimo, pela fé do evangelho.” (Filipenses 1.27; Judas 1.3).

O que John diz ser ato do homem, na verdade é ato de Cristo, o autor e consumador da fé, o firme fundamento, a fé manifesta aos homens.

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé, que havia de se manifestar.” (Gálatas 3.23).

Já o ato de crer, descansar, confiar, etc., na promessa de Deus, que é próprio ao homem, John atribui a Deus, alegando que tal confiança decorre do novo nascimento. Outra fala de John, é:

“Isto não somente faz do homem um sócio com os mesmos méritos de Deus na obra da salvação, mas também credita ao homem o papel decisivo no assunto.” Idem.

Ao crer em Cristo, o homem toma sobre si o julgo de Cristo e passa a carregar o fardo de Cristo. É um ato de humilhação se render à verdade de que Cristo é o Senhor, portanto, desprovido de mérito ou, usurpação do que pertence a Deus.

É Deus que deu o mandamento para salvação e, ao obedecer, o homem não pode ser acusado de querer ser sócio dos méritos de Deus na obra redentora, antes, se vê que quem crê se sujeitou ao mando de Deus, se fazendo servo.

“Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (Mateus 11.29-30).

 

Predestinação calvinista versus predestinação bíblica

Deus deu um mandamento para os homens, pelo qual serão salvos, que é crer em Cristo, mas os calvinistas alegam que, se os homens são capazes de crer no evangelho sem uma graça irresistível, se está dando aos pecadores o crédito pela obra do Pai na eternidade, que é a eleição e a predestinação.

A Bíblia diz que Deus propôs, na eternidade, a preeminência de Cristo em todas as coisas, sendo uma delas, a posição de o mais elevado dos reis da terra e outra, Cristo como a cabeça da igreja.

“Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra.” (Salmos 89.27);

“E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência.” (Colossenses 1.18).

Para Deus levar a efeito o Seu propósito de tornar Cristo o mais elevado do que os reis da terra, Cristo veio ao mundo, através da linhagem de Abraão, e nasceu na casa de Davi, seu pai, de modo a ter direito sobre o trono de Davi, em Israel.

Para levar a efeito o Seu propósito de tornar Cristo a cabeça da igreja, Deus escolheu a geração de Cristo, constituída de homens espirituais, que fossem semelhantes a Ele, em tudo. Enquanto Deus elegeu o Cristo e, portanto, a sua geração, para constituí-lo cabeça de um corpo, o calvinista apregoa eleição para salvação.

“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;” (1 Pedro 2.9).

Além de escolher a geração de Cristo na eternidade, para serem santos e irrepreensíveis (Efésios 1.4), Deus predestinou todos os que creem em Cristo, a serem conforme a imagem de Cristo.

A predestinação, na eternidade, visava, única e exclusivamente, dar aos salvos, a mesma imagem de Cristo ressurreto, mas, os calvinistas passaram a divulgar que Deus predestinou alguns à salvação e outros à danação.

Enquanto a predestinação é a doutrina que trata da transformação do corpo abatido, dos que creem para serem conforme o corpo glorioso de Cristo, os calvinistas alegam que a predestinação tem em vista a salvação.

“Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar, também, a si todas as coisas.” (Filipenses 3.21).

Os calvinistas ignoram, completamente, o fato de que os homens naturais possuem, exatamente, a mesma imagem do primeiro Adão, de modo que os homens espirituais terão a mesma imagem do homem espiritual, Cristo, o último Adão.

“E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim, também, traremos a imagem do celestial.” (1 Coríntios 15.49).

A má leitura dos calvinistas é tamanha, que um dos versículos mais utilizados para enfatizar a doutrina calvinista não trata da salvação, mas, da imagem que terão os que creem, objetivando o propósito eterno de Deus: a preeminência de Cristo.

“Porque os que dantes conheceu, também, os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.”  (Romanos 8.29).

O texto, evidentemente, trata da imagem que terá os que creram em Cristo, quando da ressurreição dentre os mortos ou, do arrebatamento, e o objetivo é claro: a primogenitura de Cristo, pois, o primogênito se sobressai sobre os demais irmãos.

Enfim, rogo a Deus que dê a muitos que seguem a doutrina calvinista a oportunidade de  entenderem o propósito eterno de Deus estabelecido em Cristo e, assim, possam compreender o real propósito da eleição e da predestinação, o que permitirá compreender a salvação em Cristo.

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

 

[1] “E estas palavras simples de Cristo são tão ofensivas aos homens hoje como o foram quando Ele as falou pela primeira vez. Para que não houvesse nenhum mal entendimento sobre o que queria dizer, repetiu tudo outra vez, mudando as palavras só o bastante para tornar claro o significado e enfatizar a escravidão da vontade humana nas coisas espirituais.” C. D. Cole, Todo homem pode vir a cristo? < https://www.palavraprudente.com.br/estudos/cdcole/sermaov2/cap24.html > Consulta em 19/06/20.

 

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

Um comentário em “Deus providenciou salvação poderosa na casa de Davi

  • 27/06/2020 em 18:09
    Permalink

    Artigo muito bem fundamentado, acerca da salvação, que dá um norte, abordando várias facetas dessa bênção concedida em Cristo.

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