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Deus amou o mundo

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:19).

Introdução

Um dos versículos mais conhecido e citado da Bíblia é, sem dúvidas, João 3, verso16, porém, pouco compreendido. O versículo contém em si a essência do evangelho: Cristo, o unigênito de Deus como expressão do cuidado de Deus para com a humanidade, mas o que não falta são desvios doutrinários.

Através desse versículo os calvinistas acreditam que somente os eleitos serão salvos, daí a ideia de expiação limitada. Os arminianistas entendem que a expiação é universal, vez que a morte de Cristo tornou a redenção possível para todos. Outro posicionamento vem dos universalistas, que entendem que Deus ama a todos igualmente, por isso, todos os homens serão salvos.

A questão se agrava quando as pessoas adeptas dos posicionamentos acima defendem o seu posicionamento com base na paixão, como se estivessem torcendo por um atleta ou um time de desporto.

Ao final da nossa abordagem, citaremos e analisaremos o posicionamento de dois teólogos segundo o que positivaram em dois textos: Hermes C. Fernandes e John MacArthur.

Em ti serão benditas todas as famílias da terra

A fala de Jesus a Nicodemos deve ser vista no contexto das Escrituras, pois Deus prometeu a Abraão que em Seu descendente seriam benditas todas as famílias da terra.

“E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra.” (Gênesis 12:3).

Por causa da promessa feita a Abraão se fez necessário Deus dar o seu Filho unigênito para ser levantado, assim como Moisés levantou a serpente no deserto.

“E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado;” (João 3:14).

Quando Moisés levantou a serpente no deserto, assim o fez porque os filhos de Israel que foram picados por serpentes ardem e estavam condenados à morte, e Cristo, por sua vez, foi levantado porque a humanidade estava condenada à morte.

Mas, quem pode se beneficiar do Cristo crucificado? A resposta vem a seguir:

“Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16).

‘Todo aquele’ é inclusivo, e não comporta exceção. É o mesmo que ‘qualquer’, ou seja, não importa se judeu, grego, romano, bárbaro, servo, senhor, homem, mulher, rico, pobre, nobre, plebeu, etc., pode se beneficiar do Cristo crucificado.

‘Nele crê’ é condição que se impõe a ‘qualquer que’, ou a ‘todo aquele’, de modo que esse quesito também não comporta exceção. É imprescindível crer em Cristo para ser salvo, e esse quesito deve ser satisfeito por judeu, grego, romano, bárbaro, servo, senhor, homem, mulher, rico, pobre, nobre, plebeu, etc.

A salvação é Cristo, e a salvação é concedida a qualquer um que creia, por isso, a ênfase em três pontos principais: a) crer; b) não haver diferença entre judeu e grego, e; c) descendência de Abraão, como evidencia o apóstolo Paulo:

“Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.” (Gálatas 3:26-29).

Por que Deus amou o mundo?

“Porque Deus amou o mundo…” (João 3:16).

Para compreender o motivo pelo qual Deus amou o mundo, primeiro temos que entender o amor de Deus. Para isso, voltemos ao Deuteronômio.

Quando explicou aos filhos de Israel que eles eram um povo santo porque foram escolhidos dentre todos os povos para serem o Seu povo especial (Deuteronômio 7:6), o profeta Moisés explicou que Deus não tomou prazer neles por serem numerosos, ou mais justos que os demais povos (Deuteronômio 7:7 e 9:4-6).

O motivo de serem escolhidos é objetivo: o Senhor vos amava (Deuteronômio 7:8). Neste caso o amor de Deus seria afeição, sentimento ou emoção? Não! O amor de Deus está atrelado ao juramento que foi feito aos pais: Abraão, Isaque e Jacó.

“Porque povo santo és ao SENHOR teu Deus; o SENHOR teu Deus te escolheu, para que lhe fosses o seu povo especial, de todos os povos que há sobre a terra. O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos; Mas, porque o SENHOR vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão forte e vos resgatou da casa da servidão, da mão de Faraó, rei do Egito.” (Deuteronômio 7:6-8).

Ao cumprir a promessa feita a Abraão, os filhos de Israel conheceriam que Deus é fiel, pois guarda a aliança e demonstra misericórdia até mil gerações aos que o amam, ou seja, que guardam os seus mandamentos.

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos.” (Deuteronômio 7:9).

Como Abraão foi obediente a voz de Deus e saiu do meio da sua parentela, e diante da promessa divina creu, isto lhe foi imputado como justiça, de modo que Abraão acabou sendo chamado de amigo de Deus.

“Porém tu, ó Israel, servo meu, tu Jacó, a quem elegi descendência de Abraão, meu amigo;” (Isaías 41:8).

A alcunha ‘amigo’ decorre de duas coisas: a) Abraão fez o que Deus ordenou, e; b) Deus deu a conhecer a Abraão tudo o que Ele haveria de realizar.

“Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer.” (João 15:14-15).

“E disse o SENHOR: Ocultarei eu a Abraão o que faço, visto que Abraão certamente virá a ser uma grande e poderosa nação, e nele serão benditas todas as nações da terra? Porque eu o tenho conhecido, e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR, para agir com justiça e juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado.” (Gênesis 18:17-19).

Dentro do contexto das Escrituras amar a Deus é obedece-Lo, ou honrá-Lo, pois essa é a definição de Jesus:

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele.” (João 14:21).

De outra banda, aquele que obedece a Cristo será amado de Deus, ou seja, Deus cumprirá a promessa estabelecida em Cristo: vida eterna. Qualquer que crê em Cristo guardou a palavra de Deus, portanto, amou a Deus, consequentemente, o Deus fiel cumpre a Sua palavra concedendo ao crente a bem-aventurança prometida a Abraão.

“Mas qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele verdadeiramente aperfeiçoado; nisto conhecemos que estamos nele.” (1 João 2:5).

Qualquer que guarda a palavra de Deus O ama, e o amor de Deus, por sua vez, alcançou a sua finalidade, propósito. O verbo grego traduzido por ‘aperfeiçoado’ é τελειόω (teleioó), que indica um proposito, um objetivo ou um fim alcançado: estar em Deus, e Deus no crente.

“E aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado.” (1 João 3:24).

Enquanto o homem ama a Deus guardando os seus mandamentos, o amor de Deus está atrelado à fidelidade da Sua palavra, que concede aos que amam a Deus estar n’Ele, e vice versa.

O amor de Deus aos filhos de Israel decorre da fidelidade de Deus aos pais, e o amor de Deus ao mundo decorre do Seu proposto eterno estabelecido em Cristo.

Deus escolheu Abraão e os seus descendentes segundo a carne para trazer o Seu Filho unigênito ao mundo, e a escolha de Abraão se fez necessária por causa do propósito eterno que Deus fez em Cristo:

  1. Torná-Lo primogênito entre muitos irmãos;
  2. Mais elevado do que os reis da terra, e;
  3. Para que em tudo tenha a preeminência.

“Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra.” (Salmos 89:27);

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8:29);

“E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência.” (Colossenses 1:18).

Deus criou o homem para congregar todas as coisas na plenitude dos tempos em Cristo, para em tudo Ele ter a preeminência, mas com a queda do homem tal propósito não poderia ser levado a efeito, e por isso, Deus através da sua multiforme sabedoria proveu redenção ao homem.

O propósito eterno de Deus estabelecido em Cristo é a causa do amor de Deus pela humanidade, semelhante ao amor de Deus pelos filhos de Israel, que visava guardar a boa palavra anunciada aos pais.

Deus tem um eterno propósito em Cristo: faze-Lo preeminente, e por isso criou o homem, mas ao fundar o mundo, por causa da queda, desde a fundação do mundo Cristo se tornou cordeiro morto (Apocalipse 13:8).

“Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus, segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor,” (Efésios 3:10-11).

Se Deus amou Israel para guardar a promessa feita a Abraão, quando grande não é o amor de Deus pela humanidade para promover o seu eterno propósito segundo o conselho da sua vontade que na eternidade propusera em Si mesmo?

“Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra;” (Efésios 1:9-10).

O justo juízo de Deus foi estabelecido no Éden quando Adão passou à condição de morto para Deus por causa da ofensa, porém, em vista do seu eterno propósito, aprouve a Deus demonstrar misericórdia a todos quantos O amam obedecendo o Seu mandamento.

“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida.” (Romanos 5:18).

Para ser justo e poder justificar os pecadores, Deus enviou o seu Filho unigênito para através de um ato de justiça (obediência), trouxesse graça sobre todos os homens, substituindo assim a desobediência de um só que pecou: Adão (Romanos 3:26).

“Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.” (Romanos 5:19).

Todos os perdidos que obedecem ao mandamento de Deus e creem no testemunho que Deus deu do Seu Filho são salvos da condenação estabelecida em Adão, e na qualidade de nova criatura é chamado ao propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo: ser conforme a imagem de Cristo ressurreto, para que Ele seja primogênito entre muitos irmãos, a cabeça da igreja, que é o seu corpo.

Extensão da expiação, ou magnitude do amor?

No pequeno artigo ‘Você compreende João 3:16?’[1], John MacArthur se propõe explicar nuances do amor de Deus, porém, lança mão do argumento ‘mistério’ para dizer que o amor de Deus é ‘uma maravilha imensa e incompreensível’.

Se MacArthur argumenta que o amor de Deus é incompreensível, como pode distinguir que João 3, verso 16 diz da magnitude do amor de Deus, e não da extensão da expiação?

“Além disso, João 3.16 não trata da extensão da expiação, o versículo é uma declaração sobre a magnitude do amor de Deus. Aqui está uma profunda maravilha: Deus amou “o mundo” (este reino perverso da humanidade caída) de tal maneira que sacrificou o seu Filho unigênito para pagar o preço de redenção para todos os que creem nele.” MacArthur, John “Você compreende João 3:16?

Ora, a explicação de Jesus a Nicodemos trata tanto do amor quanto da expiação, de modo que, como importava o Filho do homem ser levantado para não perecer qualquer que crer, Deus deu o seu Filho unigênito porque amou o mundo.

O mundo que Deus amou não se trata de um ‘reino perverso da humanidade caída’, antes refere-se a todas as famílias da terra. O termo ‘mundo’ (κόσμος/kosmos) é utilizado para demonstrar que Deus, no quesito amor e redenção, não tem uma nação em preferência, antes todos os povos são igualmente alvos do seu amor.

O termo κόσμος no contexto não diz de um arranjo, ou do universo, ou da terra, e sim, dos habitantes do planeta. Tem o sentido de ‘ide por todo mundo’, ou seja, Deus amou todas as criaturas, não importando se judeu, grego, romano, bárbaro, servo, senhor, homem, mulher, rico, pobre, nobre, plebeu, etc.

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado.” (Marcos 16:15).

Se Deus tivesse amado ‘o reino perverso da humanidade caída’, não transportaria os que creem para o reino do Filho do seu amor, antes transformaria aquele reino perverso (potestade das trevas) em outro (Colossenses 1:13).

‘Ide por todo mundo’ é o mesmo que ‘… ide, fazei discípulos de todas as nações…’ (Mateus 28:19).

“E em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém.” (Lucas 24:47).

Deus amou todas as nações, ou seja, o mundo, o que demonstra a abrangência da expiação: todas as famílias da terra, e não somente os judeus. A magnitude do amor de Deus está em Ele dar o Seu Filho unigênito, e o mundo diz da extensão do seu amor.

“E quando o apóstolo Pedro menciona “coisas essas que anjos anelam perscrutar” (1Pedro 1.12), uma das principais questões que eles certamente devem ponderar é por que Deus derramaria seu amor sobre a humanidade caída. Por que ele escolheria amar seres humanos finitos, caídos e pecadores ao custo da vida de seu próprio Filho? Por que Deus não apenas nos descartou como pecadores miseráveis, fez-nos objetos de sua ira e exibiu sua glória em juízo contra nós? É um mistério que até mesmo os anjos podem achar desconcertante. Apenas seres humanos caídos são receptores da misericórdia divina: (…) Alguma vez você já realmente refletiu sobre o mistério de tão grande amor? Por que o maior amor de Deus não é concedido aos anjos que jamais caíram e que fielmente ao longo do tempo têm sido leais em amar e adorar ao Deus que os criou? Em suma, por que Deus sequer nos amaria, e mais ainda, pagaria um preço tão alto para demonstrar o seu amor? Francamente, a resposta a essa questão ainda está envolta em mistério. É uma maravilha imensa e incompreensível. Além do fato de que o seu amor pelos pecadores redundará em sua glória, não sabemos por que Deus escolhe amar pecadores caídos. E devo confessar, juntamente com cada verdadeiro filho de Deus, que eu não sei por que Deus escolheu me amar.” MacArthur, John “Você compreende João 3:16?”

MacArthur admite que não sabe por que Deus escolheu amar a humanidade, e mesmo assim se aventura a explicar João 3, verso 16. Não há mistério algum, pois se houvesse algum segredo não poderíamos ser chamados de amigos.

“Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer.” (João 15:15).

O desconhecimento de MacArthur se dá por má leitura das Escrituras, pois os ‘anjos’ que querem compreender (perscrutar) não se refere aos seres angelicais, e sim, aos profetas da antiga aliança, que por serem mensageiros de Deus, também são designados anjos.

Os ‘anjos’ que o apóstolo Pedro faz referencia no versículo 12, do capítulo 1 da sua primeira epístola, diz dos ‘profetas’ do versículo 10, que profetizavam acerca da graça que seria concedida aos gentios, mas que não era para eles.

“Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem perscrutar.” (1 Pedro 1:10-12).

Os profetas desejavam perscrutar (entender) o que ministravam, diferente da ideia de que os seres angelicais desejaram pregar o evangelho.

Esse equívoco de leitura à parte, por intermédio da igreja, que é o corpo de Cristo, os seres celestes puderam compreender a multiforme sabedoria de Deus que tudo criou por meio de Cristo.

“E demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo; Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus,” (Efésios 3:9-10).

Mas, por que Deus amou os pecadores e não amou os anjos que nunca caíram, ou por que Deus não amou e providenciou resgate para os anjos caídos? Porque os anjos não fazem parte do propósito eterno que Deus estabeleceu em Cristo de fazê-lo preeminente em tudo!

Deus amou os seres humanos finitos e pecadores e não os descartou, embora todos sendo filhos da ira em função do juízo no Éden, por causa do que propôs em Si mesmo ao projetar criar o homem:

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.” (Gênesis 1:26).

Para fazer o homem a imagem e conforme a semelhança da divindade, Deus em Cristo criou o primeiro homem, Adão, conforme a imagem que Ele haveria de vir ao mundo (Romanos 5:14). Cristo-homem veio ao mundo segundo a imagem e semelhança que concedeu ao primeiro homem e, ao ressurgir dentre os mortos como primogênito,  na condição de último Adão Cristo concede aos que ressurgem com Ele dentre os mortos a mesma imagem que Ele possui.

“O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o SENHOR, é do céu. Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial.” (1 Coríntios 15:47-49).

Deus amou o mundo porque os homens como criaturas são essenciais ao seu propósito eterno. O homem foi criado para Cristo alçar a posição de cabeça de um corpo constituído de pessoas semelhantes a Ele, para que em tudo Ele tenha preeminência.

“E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus.” (Colossenses 1:18-20).

Por causa do eterno propósito em Cristo, Deus amou a humanidade entregado o seu Filho, porém, a misericórdia de Deus, apesar de graciosa, é concedida aos que O amam. Semelhantemente, Deus amou os filhos de Israel segundo a eleição dos pais, pois através deles veio o Cristo ao mundo.

O amor de Deus alcança a coletividade: na Antiga Aliança Israel e, na Nova Aliança, as nações. A salvação, porém, decorre da misericórdia divina, que recai somente sobre os que obedecem. Nesse quesito, o universalismo e o arianismo estão equivocados, porque Deus ama todos os povos indistintamente, mas a salvação é para os que alcançam misericórdia, ou seja, creem.

Serão poucos os que se salvarão, portanto, o universalismo é falácia (Lucas 13:23-24). Os arminianista, embora estejam corretos com relação a expiação universal, se equivoca quando acreditam que a salvação se dá pela eleição e predestinação através da presciência.

Os calvinistas se equivocam porque acreditam que a expiação é limitada, isto porque acreditam na eleição e predestinação para salvação segundo a soberania de Deus.

A expiação é para todos os homens, pois Deus deseja que todos se salvem e venham ao conhecimento do evangelho, contudo a misericórdia é somente para os que obedecem (1 Timóteo 2:4), diferentemente do propósito eterno, que se dá por eleição e predestinação e se destina a todos os salvos.

Calvinistas e arminianistas estão equivocados, pois a salvação de dá por meio do evangelho, mandamento de Deus a todos os homens de todas as nações que, se obedecerem, crendo, serão salvos. Deus salva os crentes através da loucura da pregação, e não através da eleição ou predestinação.

“Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa.” (Efésios 1:13);

“Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação.” (1 Coríntios 1:21).

Ninguém nasceu eleito e predestinado à salvação, antes nasceu como filho da desobediência e da ira. Somente os gerados de novo segundo a semente incorruptível, o evangelho, são eleitos para serem santos e irrepreensíveis e predestinados para serem conforme a imagem de Cristo.

Eleição e predestinação têm relação com o propósito eterno, e não com a salvação. Primeiro Deus salva, depois os salvos são chamados para o seu propósito.

“Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos;” (2 Timóteo 1:9).

Redenção de tudo?

Hermes C. Fernandes, no artigo ‘Salvação para além do calvinismo, arminianismo e universalismo’, condena o calvinismo, o arminianismo e o universalismo[2], porém, apresenta um entendimento acerca da salvação igualmente espúrio.

Hermes argumenta que:

“O propósito de Deus abarca a realidade como um todo. Uma vez que o pecado trouxe danos a toda criação, a redenção proposta em Jesus deve ter a mesma abrangência, conforme lemos em Paulo (…) O Criador almeja restaurar Sua obra por completo. A salvação do indivíduo é parte do processo e consiste em recrutá-lo como agente parceiro nesta obra de restauração.” Fernandes, Hermes C., ‘Salvação para além do calvinismo, arminianismo e universalismo’.

Não está na Bíblia que o propósito de Deus abarca a realidade como um todo, nem que o Criador que restaurar a sua obra, ou que a salvação de indivíduos seria parte do processo de restauração da sua obra. O que a Bíblia diz é que:

“Mas o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão. (…) Aguardando, e apressando-vos para a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão? Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça.” (2 Pedro 3:10 e 12-13).

Se aguardamos novos céus e uma nova terra, tendo em vista que o velho céus e a velha terra serão destruídos, como será possível restaurá-los? Deus não faz restauração, Deus cria!

“Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão.” (Isaías 65:17).

Na visão de Hermes a salvação tem a ver com salvar o homem da sua condição de predador insaciável da natureza[3], sendo que a Bíblia diz que o homem precisa ser salvo da condenação em Adão que trouxe a separação entre Deus e os homens.

As citações que Hermes faz das Escrituras não tem correlação com as ideias defendidas por Ele. Depois do evangelho social, vê-se em Hermes um evangelho de restauração da natureza, tendente ao naturalismo[4].

Para Hermes os que viverem uma vida sem desperdício, ou seja, pesando na próxima geração de homens e na preservação do planeta, terá sua consciência e individualidade preservada e ganhará um novo corpo. Mas, se não, se viveu exclusivamente para os prazeres, deixará de existir para sempre. Que?

“Com a essência, nossa consciência será preservada juntamente com nossa individualidade, e receberá um novo corpo, apto às condições da criação restaurada. Se nossa existência não houver sido desperdiçada, ela será absorvida por nossa essência. Nas palavras de Paulo, o mortal será absorvido pela imortalidade (2 Co.5:4). Porém, se a houvermos desperdiçado vivendo exclusivamente em função de nossos prazeres e interesses, então, nossa existência se perderá para sempre.” Idem.

Vale destacar que Platão teve uma imaginação mais fértil, pois Hermes cita as Escrituras somente para dar vazão as suas conjecturas, e assim, é mais pernicioso do que o filosofo grego.

Claramente a Bíblia ensina a ressurreição de justos e ímpios!

“E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno.” (Daniel 12:2).

Hermes chega ao ponto de questionar qual a vantagem de ser salvo com base em uma má leitura de uma visão do Apocalipse.

“Ora, se todos serão integrantes deste coral, qual a vantagem de sermos salvos? Esta pergunta vem contaminada pela premissa que apresentei logo no início deste artigo. Não podemos pensar em termos de vantagens e desvantagens. Todavia, os que houverem sido alcançados pela salvação em sua existência serão aqueles cujas obras seguir-lhes-ão depois que partirem (Ap.14:13). Enquanto os demais terão suas obras dissolvidas pelo fogo do juízo divino.” Idem.

Hermes ignora completamente textos bíblicos que enfatizam a necessidade de se porfiar por entrar pela porta estreita, e que não se deve negligenciar tão grande salvação.

“Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram;” (Hebreus 2:3);

“Mas uma certa expectação horrível de juízo, e ardor de fogo, que há de devorar os adversários.” (Hebreus 10:27).

Erros doutrinários calvinistas, arminianistas ou universalista não são desculpa para conjecturar sobre o que não se compreende das Escrituras.

Uma coisa é certa: Jesus não veio salvar abolicionista, sufragista, pró-democracia, antiabortivo, vegano, defensores da biodiversidade, humanitário, feminista, protetor dos animais, defensor dos direitos humanos, etc., e nem condenar escravagista, abortista, carnívoros, machista, homofóbico, racista, etc.

Deus enviou o Seu Filho ao mundo, ou seja, às nações para que fossem salvos por Ele. Jesus não veio condenar, pois os homens já estão sob condenação e apenados com a morte. Jesus é o braço do Senhor desnudado (revelado) a todas as nações!

“O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus.” (Isaías 52:10).

Quem crê que Jesus é o Filho de Deus não é condenado, antes terá vida eterna, diferentemente daquele que não crê, que já está condenado. Em função do Seu eterno propósito Deus amou todas as nações e Cristo foi evidenciado como justiça, de modo que a bem-aventurança prometida a Abraão alcança os que creem em Cristo.

[1] MacArthur, John “Você compreende João 3:16? < https://ministeriofiel.com.br/artigos/voce-compreende-joao-3-16/ > Consulta realizada em 19/08/21.

[2] “Nossas abordagens evangelísticas caminham nesta direção. O calvinista crê que no final das contas, somente os eleitos serão salvos, significando com isso que terão seu lugar assegurado no céu. O arminiano se esforça para poder levar o máximo de pessoas, tendo em vista que a responsabilidade por sua salvação é do próprio indivíduo. Portanto, quantos mais ‘aceitarem’ a oferta de salvação, melhor. Seus esforços resultariam num saquear o inferno e povoar o céu. O universalista prefere apostar no amor de Deus que no final das contas vai liberar o céu para todo mundo.” Fernandes, Hermes C., ‘Salvação para além do calvinismo, arminianismo e universalismo’ < http://hermesfernandes.blogspot.com/2013/11/salvacao-para-alem-do-calvinismo.html > Consulta realizada em 19/08/21.

[3] “Para que a terra seja restaurada, o homem deve ser salvo de sua condição de predador insaciável e redescobrir seu papel original de cuidador, destinado a ser seu guardião, que tanto lavra quanto protege, tanto cuida quanto desenvolve (Gn.2:15). Era assim que Paulo se enxergava: alguém que foi alcançado por Deus para trabalhar em Sua lavoura (2 Tm.2:6; 1 Co.3:6-9) e ser participante de Seu projeto redentor. (…) Uma vez salvo, o homem deixa de viver para si mesmo, errando o alvo de sua existência (tal é o peado essencial), e passa a viver em função da glória de Deus e das gerações futuras (2 Co.5:15; Ef.2:7). O que lhe interessa não é mais aproveitar ao máximo o que a terra lhe oferece, mas garantir que as próximas gerações não sejam privadas da vida abundante proporcionada no encontro entre céu e terra, entre espiritualidade e vocação.” Fernandes, Hermes C., ‘Salvação para além do calvinismo, arminianismo e universalismo’ < http://hermesfernandes.blogspot.com/2013/11/salvacao-para-alem-do-calvinismo.html > Consulta realizada em 19/08/21.

[4] “Livre da alienação, o homem compreende que a vida continua após sua partida deste mundo. A vida prossegue naqueles que receberão seu DNA e que serão imbuídos do mesmo propósito. A tocha que houvermos carregado durante nossa carreira existencial será passada a outros que darão continuidade ao projeto de restauração do mundo, conscientes de que não poderão deixar que sua chama se apague (1 Sm.3:3).” Idem.

Claudio Crispim

É articulista do Portal Estudo Bíblico (https://estudobiblico.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web. Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, Brasil, em 1973. Aos 2 anos de idade sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai, ‘in memória’, exerceu o oficio de motorista coletivo e, a mãe, é comerciante, sendo ambos evangélicos. Cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco, se formando em 2003, e, atualmente, exerce é Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. Casado com a Sra. Jussara, e pai de dois filhos: Larissa e Vinícius.

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