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Judas sentiu a necessidade de concitar os cristãos a batalharem pela fé, ou seja, a lutarem em defesa da doutrina do evangelho (Filipenses 1.27), tendo em vista que algumas pessoas, que se diziam cristãs, estavam transtornando a mensagem do evangelho.


Judas em defesa da fé

“JUDAS, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago, aos chamados, santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo: Misericórdia, e paz, e amor vos sejam multiplicados”(Judas 1.1)

 

Apresentação

Judas se apresenta aos destinatários da carta como servo (δοῦλος – doulos) de Cristo e irmão de Tiago.

Ambos, Judas e Tiago, eram filhos de José e Maria, e, por sua vez, irmãos de Cristo segundo a carne por parte de Maria.

“Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas?” (Mateus 13.55).

Na apresentação fica evidente que Judas, apesar de ser irmão de sangue de Jesus, não se considerava privilegiado em relação aos demais cristãos quanto à salvação, pois a salvação em Cristo é comum a todos quantos crerem em Cristo como Senhor.

“À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:” (1 Coríntios 1.2).

Observe que o crente Judas não se arroga no direito de escrever aos cristãos na condição de apóstolo de Cristo, embora reunisse em si todas as condições necessárias para fazê-lo, pois ele viu Jesus em carne. Mas, como não figura no rol dos doze discípulos escolhidos por Jesus (Mateus 9.1-4), Judas não se apresenta como apóstolo. Apesar de ser irmão de Jesus, com vínculo de sangue por causa de Maria, Judas demonstra através desta apresentação que se submeteu ao senhorio de Jesus Cristo como todos os demais cristãos.

“Judas, servo de Jesus Cristo…” (v. 1).

Foi na condição de servo obediente a Cristo que Judas escreveu aos cristãos (chamados), ou seja, àqueles que ouviram a mensagem do evangelho e creram. Através da mensagem do evangelho os cristãos foram chamados para serem propriedade (pertencerem) peculiar de Deus.

“Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” (Romanos 1:6).

Os cristãos estavam em Deus (1 João 3.24; 4.16), portanto, sobre a proteção do amor (cuidado) do Pai, e em Cristo Jesus guardados.

“Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Colossenses 3.3; 1 Pedro 1.5; Romanos 1.6; Êxodo 16.5).

 

Santos em Cristo

Toda e qualquer pessoa que ouve, crê e confessa a essência do evangelho são santos (2 Coríntios 1.1), pois o evangelho é água limpa que purifica o homem (Atos 26.18; João 15.3). Por ‘santificado’, ‘santo’ entende-se ‘separado’, uma propriedade para uso exclusivo de Deus. Por pertencer a Deus os cristãos são nomeados ‘santos’.

“E ser-me-eis santos, porque eu, o SENHOR, sou santo, e vos separei dos povos, para serdes meus” (Levítico 20.26);

“Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” (Romanos 1.6).

O nome ‘santo’ decorre única e exclusivamente da condição da nova criatura, que está ’em Cristo’. Ser santo não decorre de questões morais ou de caráter (Romanos 1.7). O cristão alcançou a santificação ao crer em Cristo, mas como ocorre a santificação?

Nas Boas Novas de salvação há um convite, um chamado, e em função deste convite é dito que muitos são ‘chamados’. Mas, como são poucos os que atendem o ‘chamado’, é dito que poucos são escolhidos. A ordem ‘entrai’ pela porta estreita é direcionado a todos os homens, mas são poucos os que a encontram, ou seja, os que encontram a porta estreita são os escolhidos.

“Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos (Mateus 22.14; 7.13-14; 1 Coríntios 1.26);

“Esta é a porta do SENHOR, pela qual os justos entrarão.” (Salmos 118.20).

Observe que Cristo é a porta do Senhor, mas quem entra por Cristo é justo. ‘Escolhido’ e ‘justo’ são designações pertinentes a quem entrou por Cristo, e não uma seleção de quem entrará, ou que só quem já é justo entra por Cristo.

Os cristãos foram chamados quando evangelizados, e se tornaram escolhidos quando creram na mensagem do evangelho. No entanto, a Bíblia apresenta um outro chamado, que é diferente da ordem para entrar por Cristo, a porta estreita. Com relação ao convite do evangelho muitos são chamados, mas aqueles que estão em Cristo todos são designados ‘escolhidos’, ‘chamados’, ‘eleitos’.

Todos os salvos são nomeados ‘chamados’, ‘escolhidos’ e ‘eleitos’ em vista da vocação em Cristo, pois todos em Cristo são eleitos e predestinados. Cristo é o eleito de Deus, e os cristãos, por serem geração de Cristo, são santos e irrepreensíveis (Efésios 1.4). Por causa da vocação em Cristo, todos os salvos estão predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, objetivando a primogenitura de Cristo, pois Ele é e será o primogênito entre muitos irmãos.

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8.29).

Os que são ‘chamados’, ou seja, aqueles que ouvem a mensagem do evangelho (poder de Deus) e creem (escolhidos), recebem poder para serem feitos (criados) filhos de Deus. Agora, na condição de salvos em Cristo, todos são chamados com santa vocação segundo o eterno propósito de Deus: a preeminência de Cristo em todas as coisas. Para salvação tem-se o evangelho, para o propósito estabelecido em Cristo, temos a eleição e a predestinação (João 1.12; 2 Timóteo 1.8-9; Efésios 3.11).

A nova criatura proveniente do poder criativo de Deus pertence exclusivamente a Deus (Efésios 4.24; 2 Coríntios 5.17), diferentemente da velha criatura, que é proveniente da semente corruptível de Adão e que pertence ao pecado. Como a nova criatura proveniente da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, é gerada em verdadeira justiça e santidade, agora, ela é designada ‘santa’, ‘irrepreensível’ (1 Pedro 1.23; Efésios 4.24).

A raiz da qual se origina a palavra ‘santificados’, e outras correlatas, é proveniente do vocábulo grego “hágios”, que na tradução do grego significa ‘o sublime’, ‘o consagrado’, ‘o venerável’, sem qualquer referência às questões de ordem moral ou comportamental. O termo ‘hágios’ aponta especificamente para questões de ordem funcional, pois entre os gregos tudo era definido pela função[1].

Quando o ‘servo’ de Jesus, Judas, nomeou os cristãos de ‘santos’, utilizou a raiz do vocábulo grego ‘hagios’, para enfatizar que os cristãos são propriedade de Deus, por pertencerem a Deus são verdadeiramente e inteiramente santos. Os cristãos, por serem gerados de novo, criados segundo a palavra da verdade e participantes da natureza divina (2 Pedro 1.4), são declarados santos porque Deus os separou por Seu.

Assim como os cristãos são nomeados ‘santos’, também são nomeados ‘primícias’ e ‘primogênitos’, porque funcionalmente são propriedades do Senhor. Nomear os cristãos de ‘primícias’ e ‘primogênitos’ são hebraísmo, que remetem a propriedade.

“À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hebreus 12.23);

“Mas o primogênito de um animal, por já ser do SENHOR ninguém o santificará; seja boi ou gado miúdo, do SENHOR é” (Levítico 27.26);

“Porque meu é todo o primogênito entre os filhos de Israel, entre os homens e entre os animais; no dia em que, na terra do Egito, feri a todo o primogênito, os santifiquei para mim (Números 8.17).

Em momento algum a santificação é apresentada na Bíblia como gradual ou processual. A ideia de que a santificação é processual decorre do trabalho e do entendimento de alguns lexicógrafos, que ao longo dos anos ‘amalgamaram’ ao termo ‘hagios’ a ideia de que santo é ‘aquilo que merece e exige reverência moral e religiosa’, sendo que esta não era a proposta dos apóstolos.

Para ser salvo basta ao homem crer na mensagem do evangelho, a graça de Deus que é ofertada através da revelação de Cristo Jesus aos homens, e é Deus que opera o milagre da Regeneração, a sua obra perfeita, visto que, para ser salvo é necessário nascer de novo (João 6.29).

Desta forma, segue-se que os de novo nascidos segundo a semente de Deus são guardados em Jesus Cristo, como bem demonstrou o apóstolo Paulo:

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoará, confirmará, fortificará e fortalecerá” (1 Pedro 5.10).

É Deus quem chama os cristãos à sua eterna glória por intermédio do evangelho de Cristo, e Ele mesmo há de conservá-los irrepreensíveis até a vinda de Cristo (1 Tessalonicenses 5.23-24).

 

Saudação

Quando o irmão Judas saudou os cristãos nos mesmos moldes que os apóstolos, ele o fez confiado em Deus que multiplica misericórdia, paz e amor. Após se identificar, Judas identifica os destinatários da carta como ‘chamados’, e os saúda com a misericórdia, a paz e o amor de Deus (v.2).

“A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (Romanos 1.7).

A misericórdia (prover de bem a quem merecia o mal), a paz (comunhão com Deus) e o amor (o cuidado de Deus) decorrem do evangelho de Cristo. Quando Judas solicita a Deus que benesses se multipliquem, ele tem em mente a mesma oração do apóstolo Paulo:

“E oro para que, estando arraigados e fundados em amor, possais perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” (Efésios 3.18).

O amor de Cristo já foi derramado sobre os cristãos em misericórdia, paz e amor, porém, é necessário compreender qual a dimensão deste amor. A compreensão revelará quais foram as benesses concedidas sem medida.

 

“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos. Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (Judas 1.2-4)

Este verso demonstra que a epístola de Judas é fruto de uma necessidade, e não de mera frivolidade. Judas envidou todo esforço para escrever está epístola acerca da salvação que todos haviam alcançado, mas ao perceber que havia algumas pessoas mal-intencionadas infiltradas entre os cristãos, teve por necessidade exortar os cristãos a defenderem o evangelho.

Ao perceber que alguns homens ímpios estavam dissimuladamente introduzindo na comunidade cristã heresias de perdição, Judas viu o quanto era necessário concitar os cristãos a batalharem pela ‘fé’, ou seja, a se engajarem na luta pela doutrina do evangelho.

Estes indivíduos se introduziram em meio aos que professavam o evangelho e ensinavam doutrinas provenientes de uma concepção carnal, pois pervertiam a graça de Deus ao negar que Jesus era o Cristo. Judas descreve esses homens como ímpios, cuja atuação foi prevista no passado: perverter a graça de Deus em dissoluções, negando a essência da fé: Jesus Cristo Soberano Senhor (2 Pedro 2.1-2).

“Saiba, pois, com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.” (Atos 2.36).

Não podemos confundir o ajuntamento solene de pessoas, onde os ímpios também podem comparecer, com a Igreja de Cristo, que é formada somente por aqueles que efetivamente são membros do corpo de Cristo. Para fazer parte do corpo de Cristo como membro é necessário comungar da fé (doutrina) dos apóstolos: crer que Deus ressuscitou Cristo dentre os mortos e confessar a Cristo como Senhor (Romanos 10.9).

Os homens somente se tornam membros da igreja de Cristo quando batizados em um só espírito, ou seja, nas palavras de Cristo que são espírito e vida (João 6.63). É possível que haja heresias, mas jamais o corpo de Cristo, a Igreja de Deus, será maculado, pois, só é membro do corpo o batizado no único e verdadeiro batismo: batismo na morte de Cristo (Efésios 4.4 -6; Romanos 6.3; 1 Coríntios 12.13).

A exortação no início da epístola de Judas remete à recomendação do apóstolo Paulo aos Filipenses:

“O que é mais importante, deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo. Então, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais firmes em um mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho” (Filipenses 1.27).

 

“Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (Judas 1.4)

 

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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