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Ímpios

Os homens que dissimuladamente se introduziram na comunidade cristã negavam a Cristo, único Soberano e Senhor, são nomeados ‘ímpios’. Eles procuravam transtornar o evangelho ao impor as suas sujidades (doutrinas de engano). Quando Judas fez alusão aos ímpios, não estava se referindo aos descrentes, mas aqueles que se diziam irmãos e eram devassos.

“Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem; Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” (1 Coríntios 5.10-11).

A partir do momento que se iniciou a proclamação do evangelho aos povos, os seguidores de Jesus foram perseguidos e confrontados pelos judaizantes. Em um primeiro momento, os cristãos foram confrontados pelos judaizantes, ao imporem a necessidade de os cristãos convertidos dentre os gentios se circuncidarem segundo a lei de Moisés (Atos 15.1), embora Jesus e os apóstolos não tenham dado mandamento algum neste sentido.

“Porquanto ouvimos que alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras, e transtornaram as vossas almas, dizendo que deveis circuncidar-vos e guardar a lei, não lhes tendo nós dado mandamento” (Atos 15.24).

Os judaizantes queriam introduzir no evangelho elementos da lei mosaica, ou seja, deitar fermento à massa dos ázimos da sinceridade (evangelho), quando concitavam os cristãos a se circuncidarem. O apóstolo Paulo, porém, alerta que tal apelo é fruto de um outro evangelho (Gálatas 1.6-7), e que tal chamado não é proveniente de Cristo (Gálatas 5.8), e que estes homens queriam submeter novamente os cristãos à escravidão.

“Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade” (1 Coríntios 5.7-8);

“Um pouco de fermento leveda toda a massa” (Gálatas 5.9).

Os judaizantes negavam a eficácia da obra de Cristo, uma vez que, para se salvar, os cristãos convertidos dentre os gentios precisavam adotar práticas da lei, dentre elas a circuncisão do prepúcio da carne. Para ser salvo é suficiente crer que Jesus é o Filho de Deus, uma vez que, a salvação não está em ser descendente da carne de Abraão e nem em se tornar um prosélito (Gálatas 5.13).

Jesus alertou: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.” (Mateus 10.37), ou seja, quem dá mais valor à sua descendência ou nação não é digno de Cristo. O apóstolo Paulo deixou claro que, para ganhar a Cristo, abriu mão de todo conhecimento e práticas judaicas que, por tradição, herdou dos seus (Filipenses 3.4; Romanos 9.3).

Os ‘infiltrados’ entre os cristãos são descritos como transtornadores (perverter) da graça que se revela em Cristo Jesus, o único Soberano e Senhor. Como? Negando-O como Soberano Senhor, ou seja, contrariando o testemunho das Escrituras:

“Ao SENHOR dos Exércitos, a ele santificai; e seja ele o vosso temor e seja ele o vosso assombro” (Isaías 8.13; 1 Pedro 3.15).

Temos na epístola de Judas uma confissão da deidade de Cristo, pois o próprio irmão de Jesus segundo a carne se refere a Cristo como Soberano Senhor, em consonância com o anunciado pelos profetas na Antiga Aliança: Deus conosco, nosso Salvador (Romanos 10.9).

O intuito dos que desejavam transtornar o evangelho de Cristo é flagrante ação do anticristo, visto que, a ação do anticristo é negar que Jesus de Nazaré é o Cristo, o Filho do Deus vivo, negativa que compromete a verdade do evangelho.

“Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega o Pai e o Filho” (1 Jo 2.22).

O apóstolo João chama os ‘infiltrados’ de anticristos porque negavam a Jesus como Senhor e Cristo (1 João 2.22-23).

Judas adverte que as Escrituras já haviam previsto que haveria tais homens ímpios, e nos versos 5 à 6 demonstra onde tal predição se encontra nas Escritura. Assim como o apóstolo Paulo entendia que tudo o que consta nas Escrituras foi deixado para o ensino dos cristãos, Judas demonstra, através da história de Israel, que em meio aos cristãos também haveria enganadores (2 Pedro 2.1).

“Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança” (Romanos 15.4).

A sentença dos que rejeitam a verdade (não creem) foi prevista há muito tempo: destruição. Os que odeiam a Deus, ou seja, que não guardam o seu mandamento, estão destinados à perdição, pois permanecem na iniquidade.

“Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êxodo 20.5-6; Salmos 81.11-12).

Quando Moisés rogou a Deus para perdoar o pecado do povo de Israel por fazerem um bezerro de ouro, foi dito por Deus: “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro” (Êxodo 32.33), dando a entender o que foi anunciado posteriormente pelo profeta Ezequiel: ‘A alma que pecar, esta mesma morrerá’.

“Eis que todas as almas são minhas; como o é a alma do pai, assim também a alma do filho é minha: a alma que pecar, essa morrerá” (Ezequiel 18.4).

Embora Deus tenha dado ordem a Moisés para conduzir o povo de Israel pelo deserto, mais tarde foram destruídos no deserto, entrando somente dois dos que saíram do Egito na terra prometida, porque Deus disse: “porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado” (Êxodo 32.33), ou seja, nesta palavra estava predito a destruição dos que não creram.

“Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado. Assim feriu o SENHOR o povo, por ter sido feito o bezerro que Arão tinha formado” (Êxodo 32.34-35).

Ora, rejeitar a Cristo como Senhor é causa de eterna perdição (2 Tessalonicenses 1.8-9), o que também foi predito pelos profetas acerca dos líderes de Israel, como se lê:

“A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a cabeça da esquina” (Salmos 118.22);

“Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e rocha de escândalo, às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” (Isaías 8.14).

Há muito tempo estava previsto, por boca dos profetas, que aqueles que rejeitassem a verdade seriam passíveis de destruição, leitura semelhante a que foi feita pelo apóstolo Pedro:

“E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, A pedra que os edificadores reprovaram, Essa foi a principal da esquina, e uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados (1 Pedro 2.7-8). Compare:

“Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo…” (Judas 1.4).

Na segunda carta do apóstolo Pedro é feito alusão aos mesmos homens ímpios que se infiltraram em meio aos cristãos:

“E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita (2 Pedro 2.1 -2).

A sentença de destruição sobre os filhos de Jacó é enfatizada pelos escritores do Novo Testamento todas as vezes que apresentam o povo de Israel como exemplo de desobediência. 

 

“Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram; E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia; Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno” (Judas 1.5).

 

Exemplos de incredulidade

Embora os cristãos já soubessem da necessidade de estarem engajados na defesa da verdade do evangelho, Judas escreveu para trazer à lembrança algo que já sabiam: o que ocorreu com o povo que foi tirado do Egito (Judas 1.5; Filipenses 3.1; Hebreus 3.14).

Para relembrá-los da necessidade de perseverarem firme no evangelho (fé que foi dada aos santos), Judas apresenta três questões pertinentes aos filhos de Israel que saíram do Egito:

  1. a) a destruição dos que não creram após o povo de Israel ser resgatado do Egito (v. 5; Hebreus 4.11);
  2. b) e os anjos que não guardaram a sua posição, estão na escuridão e em cadeias até o dia do juízo (v. 6), e;
  3. c) os que não creram e foram destruídos são comparados aos habitantes das cidades de Sodoma e Gomorra, e cidades adjacentes, que se entregaram a prostituição, são exemplo de punição (v. 7).

O Senhor Jesus, àquele que os homens ímpios estavam negando, é o mesmo Senhor que resgatou o povo de Israel da escravidão no Egito, mas escondeu o Seu rosto deles.

“E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” (1 Coríntios 10.4).

Por causa da incredulidade dos filhos de Israel, o Senhor, que os resgatou do Egito, escondeu o Seu rosto deles.

“E disse: Esconderei o meu rosto deles, verei qual será o seu fim; porque são geração perversa, filhos em quem não há lealdade” (Deuteronômio 32.20).

O profeta Isaías, ao falar da salvação, aponta para o Senhor que esconde o seu rosto da casa de Jacó, pois o resplendor da glória de Cristo é a misericórdia de Deus manifesta aos homens.

“E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei” (Isaías 8.17);

“O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti” (Números 6.25);

“Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2 Coríntios 4.6; Salmos 80.3).

Através desta pequena alusão à desobediência do povo de Israel, Judas trouxe à memória dos irmãos uma lição que eles já haviam aprendido (v. 5). Uma lição que o escritor aos Hebreus também enfatiza:

“Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram” (Hebreus 4.2).

Sobre o resgate de Israel do Egito e os que foram destruídos no deserto, podemos nos socorrer dos ensinamentos do apóstolo Paulo. Embora tenha sido resgatado do Egito um povo, nem todos eram israelitas de fato “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas” (Romanos 9.6). Da mesma forma, nem todos que se apresentavam na assembleia solene dos santos eram verdadeiramente membros do corpo de Cristo.

Os que pereceram no deserto eram descendentes da carne de Abraão, porém, pela incredulidade que havia neles, não eram contados como filhos de Abraão. Na condição de descendentes da carne de Abraão foram resgatados do Egito, porém, por não terem a mesma fé que o crente Abraão, não foram contados como filhos de Deus.

Através desta pequena referência a Israel, Judas esperava que os cristãos considerassem que Deus resgatou Israel da escravidão do Egito transtornando os pensamentos de Faraó para tornar conhecido o seu nome em toda a terra, e cumprir a palavra dada aos pais: Abraão, Isaque e Jacó. Deus fez de Israel sua propriedade particular dentre todos os povos da terra.

“Mas, deveras, para isto te mantive, para mostrar meu poder em ti, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra” (Êxodo 9.16).

Embora saiu do Egito um povo livre da escravidão do Egito, contudo, cada membro do povo de Israel, em particular, ainda era prisioneiro do pecado, pois não confiavam verdadeiramente em Deus (Deuteronômio 9.4 e 6). Tomando Israel como exemplo, os cristãos deveriam considerar que, para serem participantes do corpo de Cristo, é imprescindível crer na verdade do evangelho e permanecer no evangelho (Colossenses 2.7).

Da mesma forma que foram destruídos os descrentes dentre o povo de Israel, visto que somente dois homens entraram na terra prometida (Números 26.65), os ímpios à época de Judas igualmente haveriam de ser destruídos por não crerem em Cristo (1 Pedro 4.17; Romanos 2.8).

Os filhos de Israel não eram salvos porque pesava sobre eles a condenação proveniente de nascimento segundo a maldição que há na semente corruptível de Adão (Salmos 53.3; Salmos 58.3). A circuncisão do prepúcio da carne não livrava os filhos de Jacó da condenação herdada de Adão. Somente quando circuncidassem o prepúcio do coração estariam livres do pecado, o que é realizado por Deus, sem auxílio de mãos humanas (Colossenses 2.11).

O irmão Judas propôs reavivar na lembrança dos cristãos um conhecimento que já dispunham, pois amplamente era lido nas Escrituras o que ocorreu com os desobedientes de Israel. O exemplo de desobediência dos filhos de Israel é apresentado aos cristãos para não incorrerem no mesmo erro:

“Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência. Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram (…) Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” (Hebreus 4.1-2 e11).

O apóstolo Paulo também faz referência a Israel como exemplo negativo:

“E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a beber, e levantou-se para folgar. E não nos prostituamos, como alguns deles fizeram; e caíram num dia vinte e três mil. E não tentemos a Cristo, como alguns deles também tentaram, e pereceram pelas serpentes. E não murmureis, como também alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor. Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos” (1 Coríntios 10.6-11).

 

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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