Avivamento, de onde vem?

O ‘avivamento’ bíblico, no sentido de ‘realizar’, ‘implementar’, decorre do que Deus estabeleceu, por meio da sua palavra. À parte da palavra de Deus, não há obra e nem ‘avivamento’. Deus ‘avivou’ a sua obra, quando os filhos de Israel foram levados cativos para a Babilônia, cumprindo a sua palavra, anunciada pelos profetas, desde Moisés.


Introdução

Basta uma pesquisa na internet, para encontrar algumas definições de ‘avivamento’:

“Avivamento é o ato de se avivar, ou seja, de se tornar mais vivo, mais ativo, mais intenso, despertado e nítido”[1];

“Avivamento é, simplesmente, aquele momento, quando Deus se manifesta diretamente no meio dos homens; quando Ele ‘rasga os céus e desce’”[2].

Desde garoto ouço, nos púlpitos das igrejas evangélicas, pregações cujo tema é o ‘avivamento’. No decurso dos anos, presenciei inúmeras cruzadas, congressos, eventos, festividades, vigílias, que tiveram por tema a necessidade de um avivamento na igreja, porém, nada de significativo e duradouro se estabeleceu ao término desses eventos.

Muitos preletores congressistas citavam eventos históricos como fruto de um avivamento, tendo como ícones líderes cristãos da antiguidade, como o clérigo anglicano e teólogo cristão britânico John Wesley que, no século dezoito, supostamente, ajudou a Inglaterra a evitar uma revolução sangrenta, semelhante à revolução que dizimou a França; ou, a suposta diminuição de índices de criminalidade em algumas comunidades, como no país de Gales, em 1905, ou, ainda, no Zaire, em 1976, ou, Pensacola – Flórida (EUA), em 1995; a erradicação do trabalho infantil e da prostituição infantil, na Inglaterra, supostamente promovida pelo Exército da Salvação, liderado pelo William Booth, no século 19, etc.

Com o tempo, muitos ‘avivamentos’ passaram a ser denominados por ‘moveres espirituais’, sendo que tais movimentos caracterizaram-se pelo grande número de pessoas envolvidas e pela ocorrência de fenômenos considerados sobrenaturais, como: curas, revelações, profecias, danças, êxtase, etc., muitas vezes acompanhados por experiências sensoriais, como tremores, fraquezas, desmaios, etc. Tais fenômenos não se restringem às denominações evangélicas e neopentecostais, pois, também, ocorrem em meio a alguns seguimentos católicos, como a renovação carismática e a teologia da libertação; no hinduísmo, nas religiões orientais, com o crescente número de gurus, lamas e mestres; e no islamismo, com a proposta de expansão pelo continente europeu, etc.

A partir dos chamados ‘movimentos espirituais’, o que se constata é o surgimento de doutrinas e práticas diversas, como ‘cair no espirito’, ‘unção do riso’, ‘movimento profético’, ‘unção do paletó’, práticas e ensinamentos que não possuem respaldo bíblico.

Um crente em Cristo não deve nortear a sua crença, a partir de transcrições ou, de interpretações das experiências humanas ou, ainda, se apoiar em alguma experiência sensorial. O apóstolo Pedro viu o Cristo se transfigurar, quando estava no monte e ouviu uma voz dos céus, porém, a sua crença não estava apoiada no que viu e no que ouviu, mas, no que é firme: a palavra dos profetas, a qual todos devem estar atentos.

“Porquanto, ele recebeu de Deus Pai, honra e glória, quando da magnífica glória lhe foi dirigida a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me tenho comprazido. E ouvimos essa voz, dirigida do céu, estando nós com Ele no monte santo; E temos mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça e a estrela da alva apareça em vossos corações” (2 Pe 1:17-19).

O cristão tem de se restringir a seguir somente o que está estabelecido nas Escrituras. Como não encontramos no Novo Testamento os apóstolos fazendo alusão a ‘avivamentos’ na Igreja de Cristo, faz-se necessário apreciar tais movimentos à luz das Escrituras.

Jesus não deu mandamento aos seus discípulos, para que aguardassem por um avivamento. A única ordem dada a seus seguidores, foi para ficarem em Jerusalém, até que do alto fossem revestidos de poder (At 1:4) e, após a descida do Espírito Santo, já não há o que se esperar, a não ser a volta de Cristo.

A Bíblia fala somente da necessidade de um novo nascimento e o nascimento, segundo o evangelho, é imprescindível a quem não crê em Cristo. Quem é nova criatura não necessita nascer de novo, pois há quem confunda o ‘novo nascimento’ com o que denominam de ‘avivamento’.

 

Aviva, ó Senhor!

Não adianta alguém gritar da tribuna: – ‘Aviva, ó Senhor, a tua Igreja’, pois não há suporte bíblico para tal petição.

Alguém dirá: – “Mas, Habacuque fez esse pedido a Deus” e apresentam esse versículo:

“Ouvi SENHOR a tua palavra e temi; aviva, ó SENHOR, a tua obra no meio dos anos, no meio dos anos faze-a conhecida; na tua ira lembra-te da misericórdia” (Hc 3:2).

Em primeiro lugar, temos que considerar que a oração de Habacuque pedindo a Deus para ‘avivar’ a sua obra não se refere à Igreja de Cristo, antes tinha por alvo a nação de Israel. Em segundo lugar, a petição do profeta Habacuque teve por base a revelação de que Deus iria punir os filhos de Israel, por causa da apostasia.

Que obra Deus haveria de realizar no transcorrer do tempo (no meio dos anos), que deixou o profeta perplexo? Deus levantaria os caldeus, um povo feroz, de língua desconhecida e de terras bem distantes, que guerrearia contra Israel e os levaria cativos (Hc 1:6-11).

“Vede entre os gentios,  olhai, maravilhai-vos e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada. Porque eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa, que marcha sobre a largura da terra, para apoderar-se de moradas que não são suas” (Hc 1:5-6).

O profeta Habacuque via que os filhos de Israel eram homens ímpios e ele questiona por que Deus não agia (Hc 1:1-4). Mas, quando Deus respondeu, dizendo que traria a guerra sobre Israel e quando apontou para as nações gentílicas, dizendo que faria uma obra que ninguém acreditaria quando fosse anunciada (Hc 1:5), Habacuque ficou perplexo! O temor apoderou-se do profeta, por causa do que Deus haveria de fazer, tendo em vista que uma nação ímpia seria utilizada por Deus, como vara, para corrigir os filhos de Israel (Hc 1:12).

Então, Habacuque se postou como vigia, esperando uma resposta de Deus, pois ele não compreendia como Deus poderia tolerar um povo perverso (caldeus) devorar outro povo (judeus) que, a seu ver, era mais justo (Hc 1:12). Deus respondeu a Habacuque e garantiu que, depois de realizada a Sua obra, punindo os filhos de Israel, os caldeus não sairiam impunes das suas maldades, apesar de terem sido utilizados como vara de correção de Israel (Hb 2:6).

Ao ficar a par do que Deus faria com o seu povo, o profeta Habacuque ora ao Senhor, dizendo: – ‘Ouvi Senhor as tuas palavras e estou alarmado’! Apesar de saber o que haveria de ocorrer com os filhos de Jacó, Habacuque clama: – ‘Aviva, ó Senhor, a tua obra’!

Que obra Deus haveria de ‘avivar’? A obra que Ele prometeu realizar no capítulo 1 do Livro de Habacuque:

“Vede entre os gentios, olhai, maravilhai-vos e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não crereis, quando for contada” (Hb 1:5).

Essa obra seria executada nos dias dos filhos de Israel e não nos dias da Igreja.

Ao dizer: ‘Aviva’, Habacuque estava dizendo: ‘execute’, ‘implemente’, ‘realize’, a sua obra, ó Senhor! A oração de Habacuque é transcrita na forma de cântico e contém, em si, alguns elementos pertinentes à poesia hebraica. Através do paralelismo sinônimo, que é próprio à poesia hebraica, depreendemos da segunda linha do poema a ideia expressa na linha anterior, porém, com palavras diferentes:

Aviva, ó SENHOR, a tua obra no meio dos anos,

no meio dos anos, faze-a conhecida

O termo hebraico חיה transliterado ‘chayah’, comumente traduzido por ‘viver, ter vida, permanecer vivo, sustentar a vida, viver prosperamente, viver para sempre, reviver, estar vivo, ter a vida ou, a saúde recuperada’, procede de outra palavra hebraica primitiva חוה, também, transliterada ‘chavah’, que significa ‘contar, declarar, mostrar, tornar conhecido’. Assim, por ‘avivar’, Habacuque estava dizendo: ‘torna conhecida, mostra, declara, realiza, conta a sua obra’. No contexto, ‘avivar’, é Deus ‘fazer conhecida’ a obra que prometeu!

Certo de que Deus haveria de enviar os caldeus para combater contra Israel, o profeta Habacuque roga a misericórdia de Deus. Se o ‘avivar’ da obra de Deus fosse uma benesse para os filhos de Israel, o profeta não rogaria por misericórdia. Ele rogou por misericórdia, porque visualizou a ira de Deus:

“… na tua ira lembra-te da misericórdia” (Hc 3:2).

A obra anunciada a Habacuque, Deus a realizou quando a Babilônia, através de Nabucodonosor II, invadiu, destruiu Jerusalém e levou os filhos de Israel cativos. A primeira deportação teve início em 609 a.C. e os filhos de Israel foram feitos escravos dos seus inimigos.

O alerta no Livro de Habacuque aplica-se aos judeus, tanto que o apóstolo Paulo, ao pregar, num sábado, na sinagoga de Antioquia, na Pisídia, citou um verso do livro de Habacuque, após demonstrar que Jesus é o Cristo, alertando-os, caso não cressem em Cristo:

“E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por Ele é justificado todo aquele que crê. Vede, pois, que não venha sobre vós o que está dito nos profetas: Vede, ó desprezadores, espantai-vos e desaparecei; Porque opero uma obra em vossos dias, obra tal que não crereis, se alguém vo-la contar” (At 13:39-41).

Diante disso, caberia se perguntar se o Livro de Habacuque teria alguma aplicação prática para a Igreja de Cristo? A resposta é – sim, como todas as Escrituras, conforme o exposto pelo apóstolo Paulo:

“E estas coisas nos foram feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram (…) Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos” (1 Co 10:6 e 11);

“Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir e para instruir em justiça” (2 Tm 3:16).

O ‘avivamento’ bíblico, no sentido de ‘realizar’, ‘implementar’, decorre do que Deus estabeleceu, por meio da sua palavra. À parte da palavra de Deus, não há obra e nem ‘avivamento’.

Deus ‘avivou’ a sua obra, quando os filhos de Israel foram levados cativos para a Babilônia, cumprindo a sua palavra, anunciada pelos profetas, desde Moisés:

“O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás” (Dt 28:49).

Deus ‘avivou’ a sua obra, quando enviou o Cristo ao mundo, cumprindo o que prometera a Abraão e a Davi: um descendente em quem todas as famílias da terra seriam benditas.

“E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:3; Gl 3:16);

“Quando teus dias forem completos e vieres a dormir com teus pais, então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência, o qual sairá das tuas entranhas e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome e confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu lhe serei por pai e ele me será por filho; e, se vier a transgredir, castigá-lo-ei com vara de homens e com açoites de filhos de homens” (2 Sm 7:12-14).

Deus ‘avivou’ a sua obra, quando Cristo passou a ser anunciado a todas as gentes, com a descida do Espírito Santo, pois se cumpriu a palavra anunciada por Joel: o espírito de Deus foi derramado como orvalho sobre toda carne, pois toda carne é como a flor da erva (Dt 32:2; Is 40:6).

“Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: E, nos últimos dias, acontecerá, diz Deus, Que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; E os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, Os vossos jovens terão visões, E os vossos velhos terão sonhos; E, também, do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e as minhas servas, naqueles dias, e profetizarão; E farei aparecer prodígios em cima, no céu; E sinais embaixo, na terra, Sangue, fogo e vapor de fumo” (At 2:16-19).

No dia do Pentecostes, uma festa judaica, houve a descida do Espírito Santo, o Consolador, e também o conhecimento (espírito) do Senhor foi anunciado (derramado) a todas as gentes, que estavam em Jerusalém, pois cada um ouviu em suas próprias línguas nativas as grandezas de Deus.

O espírito do Senhor derramado sobre toda carne é o mesmo que a doutrina de Deus, sendo gotejada como a chuva sobre a erva, pois toda carne é como a erva e o evangelho anunciado é o espírito derramado sobre toda carne (1 Pe 1:24; Is 40:6).

Cristo ‘avivou’ a sua obra, quando enviou o Consolador, cinquenta dias (Pentecostes) após a sua assunção aos céus (Jo 16:7). Cristo ‘avivará’ a sua obra quando vier para arrebatar a sua Igreja, conforme o que prometera (At 1:11).

 

A Igreja de Cristo

 

Há quem proclame que Deus quer dar um ‘avivamento’para a Sua Igreja hoje, porém, o apóstolo Pedro deixou registrado que Deus já concedeu tudo o que diz respeito à vida e piedade:

“Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e à piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude” (2 Pe 1:3).

O apóstolo Paulo afirma que nenhum dom falta à Sua Igreja, pois os cristãos foram abençoados com todas as bênçãos espirituais:

“De maneira que nenhum dom vos falta, esperando a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Co 1:7);

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Ef 1:3).

Muitos preletores, ‘avivalistas’, chegam a afirmar que é necessário um avivamento, quando a igreja está fraca, prestes a morrer.

“Avivamento é o Espírito Santo enchendo um corpo prestes a tornar-se um cadáver.” – D. M. Panton;

“Um avivamento espiritual sugere a ideia de que houve, antes, um declínio espiritual.” – Charles Finney;

Tais posicionamentos são temerários, com relação à Igreja de Cristo, pois não há, na Bíblia, qualquer suporte que dê sustentabilidade à ideia de que a Igreja, como corpo de Cristo, necessite de avivamento hoje, ou, até à volta de Cristo. Como é possível a Igreja necessitar de avivamento, se Cristo prometeu estar com os que crêem, todos os dias até à consumação de todas as coisas?

“Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco, todos os dias, até à consumação dos séculos. Amém” (Mt 28:20).

São estarrecedoras algumas frases que procuram promover a necessidade de movimentos avivalísticos. De que corpo o Dr. Panton está falando? Como é possível o corpo de Cristo, que é a sua Igreja, estar prestes a se tornar um cadáver? Qual o sentido da palavra ‘encher’, aplicada à pessoa do Espírito Santo, por Panton? O que é um declínio espiritual, segundo a concepção de Finney?

Das asserções acima, tenho que concluir que Panton não está falando da Igreja, como o corpo de Cristo, pois é impossível o corpo de Cristo definhar, quando tem por cabeça o Salvador do corpo – Cristo. Se a Igreja chegar a definhar, o problema deriva da cabeça e não do corpo. É infeliz a ideia de considerar que o corpo de Cristo precisa de uma intervenção do Espírito Santo, por estar ‘prestes a tornar-se um cadáver’. A vida da Igreja decorre de Cristo e o Espírito Santo é o guia de cada membro, em particular, à verdade (Jo 16:13).

Quando falamos da Igreja de Cristo, jamais podemos entender que ela sofra declínio ‘espiritual’, vez que Deus, como agricultor, poda aqueles ramos que dão frutos para que deem mais fruto e corta fora os que não dão frutos. Aqueles que pertencem ao mundo é que declinam, pois vão de mal a pior, enganando e sendo enganados (2 Tm 3:13).

Por avivamento[3], os avivalistas entendem que se trata de Deus conceder ‘nova vida em um corpo que já está morrendo’. É possível aos membros do corpo de Cristo estarem quase deixando de ser sal e luz da terra? Se assim é, não é o caso de Deus os lançarem fora, para serem pisados? Se alguém é membro de Cristo, também, é sal e luz do mundo, portanto, se alguém deixa de ser sal e luz do mundo é porque não está mais ligado a Cristo, a videira verdadeira.

A maior estratégia de Satanás é enganar os cristãos, fazendo com que acreditem que não estão de posse das bênçãos prometidas por Deus. Embora de posse de todas as bênçãos espirituais, de modo que nenhum dom lhes falte, rogos e cânticos proliferam em meio aos cristãos, com a seguinte mensagem:

“Envie o fogo

Olhe para baixo e veja esta multidão esperando.

Dê-nos o prometido Espírito Santo

Queremos um novo Pentecostes”[4]

Os discípulos foram instruídos a deixarem de olhar para o alto, pois o que se espera do céu é que o mesmo Jesus, assim como subiu, há de vir (At 1:11). O que devemos esperar é a volta de Cristo, pois a promessa do Espírito Santo já foi cumprida e não haverá uma nova ‘descida’ do Espírito Santo (novo Pentecostes). Os dons de Deus são irrevogáveis! O apóstolo Pedro disserta, dizendo que nenhum dom falta àqueles que estão em Cristo (1 Co 1:7), pois, foram abençoados com todas as bênçãos espirituais (Ef 1:3).

“Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo” (Tt 2:13).

Como carece de suporte bíblico, não raras vezes, um avivalista lançará mão da Bíblia para dar suporte à sua doutrina. O Pr. Paul David Cull, conforme consta do portal ‘www.avivamentoja.com’, cita Malaquias 3, versos 1 a 5 e dá a seguinte explicação:

“Neste trecho em Malaquias capítulo 3 nós temos uma profecia sobre a visitação divina – uma profecia que se cumpriu com a primeira vinda de Jesus, que se cumprirá na Sua segunda vinda, mas que também se cumpre nas “vindas” do Senhor através do Seu Espírito (João 14:16 e 18). Estas “vindas” ou derramamentos do Espírito Santo, são chamados de renovação, despertamento, avivamento etc… Podemos ver neste trecho em Malaquias as fases destas visitações do Espírito Santo”. Pr. Paul David Cull<http://www.avivamentoja.com/pmwiki.php?n=Avivamento.Fases> Consulta realizada em 17/05/17.

De onde surgiram essas vindas entre aspas? Onde elas estão previstas nas Escrituras e os tais derramamentos do Espírito? Jesus deixou claro que chamava os seus discípulos de amigos (servos ladinos), por eles terem sido informados de tudo, portanto, é de se estranhar que Ele não dissesse de outras vidas!

“Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai, vos tenho feito conhecer” (Jo 15:15).

Para embasar a sua fala, o Pr. Paul cita João 14, verso 16, em que Jesus garante que o Espirito Santo haveria de ser enviado e permaneceria com a Igreja para sempre “E eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (Jo 14:16).

Ao apresentar algumas frases para o avivamento, com base em Malaquias 3, o Pr. Paul afirma que, antes de um avivamento, há uma voz, e cita a profecia que predisse a vinda do mensageiro do Senhor, João Batista (Mt 3:3; Ml 3:1). No entanto, quando João Batista veio, ele não apregoou uma mensagem avivalística, mas, sim, uma mudança de concepção (arrependimento).

Os judeus, ante à mensagem de João Batista, que anunciava a chegada do reino dos céus, deviam abandonar as suas crenças, de que eram salvos por serem descendentes da carne de Abraão e crerem em Cristo, como o enviado de Deus.

Em seguida, o Pr. Paul aponta homens como Evan Roberts no País de Gales, Frank Bartleman na Rua Azusa, Peggy e Christine Smith (de 84 e 82 anos de idade) nas Ilhas Hébridas, etc., como se desempenhassem o mesmo papel que João Batista. João Batista foi o precursor de Cristo e depois dele jamais haverá outro, pois não há previsão bíblica para tal.

O Senhor que os filhos de Israel buscavam (indagavam), diz do Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel: a Rocha de Israel (Dt 32:20; Is 8:17). De repente, ao seu tempo, viria o Senhor e Cristo veio na plenitude dos tempos, cumprindo-se, cabalmente, a profecia, portanto, não se deve esperar por um ‘avivamento’, tendo por base essa passagem de Malaquias.

Observe o que alguns líderes[5] dizem, acerca do avivamento:

“Mesmo tendo um teor místico muito acentuado, reavivamento é muito mais que isso. É o motor de coisas novas, de realizações extraordinárias e de certa duração, na área da educação religiosa, na área de evangelização e missões, na área de socorro ao sofrimento humano. Forçosamente, o reavivamento sempre gera preocupação com os não-salvos, pela graça de Deus e com os moralmente marginalizados. A história dos reavivamentos mostra que este sopro do Espírito induz os crentes a fazerem obras de caridade e a levantar a sua voz contra a injustiça social, seja ela qual for e custe o preço que custar” (Entrevistas com Ashbel Green Simonton, p. 107.)

“Reavivamento é uma visitação inteiramente sobrenatural do Espírito soberano de Deus, pela qual uma comunidade inteira toma consciência de sua santa presença e é surpreendida por ela. Os inconversos se convencem do pecado, arrependem-se e clamam a Deus por misericórdia, geralmente em números enormes e sem qualquer intervenção humana. Os desviados são restaurados. Os indecisos são revigorados. E todo o povo de Deus, inundado de um profundo senso de majestade divina, manifesta em suas vidas o multifacetado fruto do Espírito, dedicando-se às boas obras.” John Stott, A Verdade do Evangelho, p. 119.

Dentre muitos comentários que há acerca do avivamento, pois não há um consenso sobre o que é ‘avivamento’, percebe-se que tal pensamento não possui relação com a Igreja, o corpo de Cristo, do qual são membros todos quantos creem que Jesus é o Cristo segundo as Escrituras.

O que entendem por avivamento, geralmente está atrelado a uma igreja local, comunidade, ajuntamento, assembleia, instituição, etc., e tais avivamentos se mostram um movimento local conduzido sob a liderança de uma pessoa, e geralmente, se evidencia em um congresso, festividade, evangelismo, etc. Se tais avivamentos se dão em igrejas locais, isso significa que não possui relação com a Igreja de Cristo, que é universal.

A ideia de que o avivamento está atrelado a profundas mudanças políticas, econômicas, sociais e morais, geralmente decorre de uma liderança politica que se diz cristã e que impõe os seus valores à sociedade. Eventos históricos que pontuam a intervenção de alguns cristãos, que proporcionaram mudanças sociais, como o fim de regimes escravocratas ou uma luta pelo fim da cobrança de juros exorbitantes, etc., não pode ser tido como base para afirmar um avivamento.

Por que não? Porque Jesus deixou claro que os pobres sempre existiriam, ou seja, Jesus não veio transformar as condições socioeconômicas da humanidade (Mt 26:11; Dt 15:11). O apóstolo Paulo, em momento algum, emitiu juízo de valor aos meios de produção da sua sociedade, que era escravagista, o que demonstra que quem levanta tais bandeiras não é por ação sobrenatural de Deus.

Na Bíblia, não encontramos nenhuma alusão ao avivamento do corpo de Cristo, antes, há uma única referência às sete cartas enviadas aos anjos das igrejas locais, que estavam na Ásia, quando Jesus instrui, exorta, repreende e consola os líderes daquelas sete igrejas (Ap 2:1 a 3:22).

Nas cartas de João às sete igrejas da Ásia, Jesus trata, pontualmente, com cada bispo, o que nos leva a compreender que, pontualmente, um líder de uma igreja local pode sofrer uma repreensão, para não ser dizimado pelo inimigo de nossas almas. Mas, esta é uma questão pontual e não global, de modo que envolva o corpo de Cristo, o templo santo do Senhor.

 

Nova Vida versus avivamento

Deus concedeu à humanidade vida abundante, em Cristo. Quem crer em Cristo, como diz as Escrituras, recebe de Deus uma nova vida, pois é gerado de novo, segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade (Ef 4:24).

O novo nascimento não é uma reformulação do velho homem, pois, para o homem ser de novo gerado, primeiro o velho homem tem que ser crucificado, morrer e ser sepultado com Cristo. O corpo que pertence ao pecado precisa ser desfeito, através da morte com Cristo, para que o pecado não mais tenha domínio sobre o homem.

Após ser sepultado com Cristo, o homem ressurge uma nova criatura, designada pelo apóstolo Pedro ‘pedra viva’. Se cada cristão é pedra viva, assim como Cristo é a pedra viva de esquina, a Igreja de Cristo, que é o seu corpo, constitui-se templo santo para habitação de Deus em espírito.

“No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” (Ef 2:22).

A Igreja, como corpo de Cristo, jamais necessita de avivamento, pois Cristo é a cabeça e o salvador do corpo.

“Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo” (Ef 5:23).

O crente, como membro do corpo não precisa de avivamento, pois quem come e bebe de Cristo, nunca mais terá fome e sede:

“E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome e quem crê em mim nunca terá sede” (Jo 6:35).

A Igreja, como corpo de Cristo, compara-se a uma lavoura ou a um edifício e todos que trabalham são somente cooperadores, pois quem dá o crescimento apropriado é Deus. Qualquer crítica ao crescimento do corpo é feita a Deus e não aos homens!

“Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1 Co 3:7).

Quem cuida da Igreja é Deus, como um agricultor, que poda os ramos que dão fruto e corta e lança fora os que não dão fruto.

“EU sou a videira verdadeira e meu Pai é o lavrador. Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto” (Jo 15:1-2).

Com base na obra que Deus realiza junto à Igreja, vez que os poderes do inferno não prevalecem contra ela, a ideia de avivamento não subsiste (Mt 16:18).

O evento da descida do Espírito Santo, que coincidiu com a festa judaica do Pentecostes, não foi um ‘avivamento’ aos moldes do anunciado pelos avivalistas, mas, sim, o cumprimento da promessa de Deus (Lc 24:49), pois os discípulos foram ‘vestidos’ da habilidade necessária para a missão a que foram incumbidos: ir por todo mundo (povos e gentes) ensinando-as a guardar os ensinos de Cristo (Lc 24:47). Que habilidade seria? Intrepidez e compreensão das Escrituras, segundo o que aprenderam de Cristo.

A promessa de Deus, anunciada por intermédio de Joel, era que o seu espírito (palavra) seria derramado sobre toda a carne (At 2:17), assim como foi anunciado a Moisés que a doutrina de Deus deveria ser destilada como orvalho, como chuva sobre a erva (Dt 32:2). Não podemos esquecer que todos os homens são erva e que a doutrina de Deus seria derramada sobre toda carne (Is 40:6).

A essência da descida do Espírito Santo não estava no som, como de um vento impetuoso, que encheu a casa onde os discípulos estavam e nem na visão das línguas repartidas como de fogo, que era visível sobre cada discípulo (At 2:2); a marca da descida do Espírito Santo não estava nas diversas línguas que cada cristão falou e que deixou perplexas as pessoas, que visitavam Jerusalém; a essência e marca da descida do Consolador estava na mensagem que cada visitante de Jerusalém ouviu, em suas próprias línguas nativas, por boca dos discípulos de Cristo. As línguas que os discípulos falaram só foi um sinal para os incrédulos (judeus), portanto, não é a essência da virtude prometida pelo Pai.

“De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis” (1 Co 14:22).

Quando Pedro se apresentou diante dos líderes judaicos e dos homens religiosos, vindos dentre todas as nações (At 2:5), e anunciou abertamente que Jesus de Nazaré era o Cristo, ai estava a essência do derramamento do ‘espírito’ do Senhor sobre toda carne, pois naquela pregação do apóstolo Pedro o ‘espírito’ do Senhor estava sendo gotejado como chuva sobre toda carne.

No seu primeiro discurso, o discípulo Pedro citou o profeta Joel e os Salmos e dissertou a respeito, demonstrando que as Escrituras haviam se cumprido na pessoa de Cristo, o que demonstra que o entendimento do apóstolo Pedro fora aberto para compreender as Escrituras (Lc 24:45) e ele tornou-se testemunha de Cristo (At 1:8).

Devemos ter cuidado para que ninguém nos engane com palavras persuasivas, pois a Igreja de Cristo jamais estará às portas da morte, a ponto de ser necessário um avivamento.

“Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por estas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” (Ef 5:6).

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1]<https://www.significados.com.br/avivamento/> Consulta realizada em 25/05/17.

[3] “A palavra ‘avivamento’ (ou ‘reavivamento’, como está traduzida no Inglês) significa a entrada de nova vida em um corpo que já está morrendo. Quando a igreja de Cristo no mundo para de ser o verdadeiro sal e luz da sociedade, quando não vemos mais as verdadeiras obras de Jesus em nosso meio, quando a igreja parece ter muita fumaça mas pouco fogo, está na hora de pedir por um novo avivamento dos Céus” Por Que Precisamos do Avivamento?<http://www.avivamentoja.com/pmwiki.php?n=Avivamento.Porqueprecisamos> Consulta realizada em 17/05/17.

[4]General William Booth – ThouChristofBurning, Cleansing Flame.

Ler mais

Isaías 1 – Filhos rebeldes

Após ‘ajudar’ os oprimidos, ‘fazer’ justiça aos órfãos e ‘cuidar’ das viúvas, ou seja, obedecer a palavra de Deus, por mais funesta que seja a condição do homem, no momento em que se submete à palavra de Deus, Deus faz do homem uma nova criatura, pois está é a sua promessa: ‘Ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã’ (v. 18).


 

1  VISÃO de Isaías, filho de Amós, que ele teve a respeito de Judá e Jerusalém, nos dias de Uzias, Jotão, Acaz, e Ezequias, reis de Judá.

A visão do profeta Isaias neste capítulo tem por alvo o povo de Judá e a cidade de Jerusalém antes do exílio Babilônico. O termo ‘visão’ ou ‘profecia’ refere-se a uma revelação ou comunicação de uma mensagem divina aos homens. Apesar das grandezas que constam nas visões de Isaias, somente com o profeta Moisés Deus falou cara a cara e sem enigmas ( Nm 12:6 ).

Como as visões foram concedidas por Deus a Isaias, temos o próprio nome do profeta cedendo título ao livro. O termo traduzido por visão era utilizado para fazer referencia ao profeta como vidente.

Uzias ( 2Rs 15:1 -7), Jotão ( 2Rs 15:32 -38), Acas ( 2Rs 16:1 -20) e Ezequias ( 2Rs 18:1 -20 ) foram quatro reis que governaram sobre Judá em Jerusalém antes do exílio Babilônico.

 

2  Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, tu, ó terra; porque o SENHOR tem falado: Criei filhos, e engrandeci-os; mas eles se rebelaram contra mim.

Aparentemente o verso dá a entender que Deus está dando ‘publicidade’ à sua mensagem, porém, não é este o único objetivo da ordem que convoca os céus e a terra por testemunha: ‘Ouvi, ó céus, e dá ouvido, tu, ó terra’. Esta introdução na profecia era para remeter o povo de Israel à lei dada por Moisés, lembrando o que estava previsto a destruição do povo, caso não se convertessem a Deus “Hoje tomo por testemunhas contra vós o céu e a terra, que certamente logo perecereis da terra, a qual passais o Jordão para possuí-la; não prolongareis os vossos dias nela, antes sereis de todo destruídos” ( Dt 4:26 ).

Ao convocar os céus e a terra por testemunha, Deus esta demonstrando que o seu protesto tinha um público alvo específico: o povo que fez um concerto com Deus e se comprometeu cumprir as palavras de Deus.

Além de ter evocado os céus e a terra por testemunha, Deus lhes informou das pragas e moléstias que seriam acometidos por não obedecerem a Deus, conforme o registrado em Deuteronômio 28, versos 15 à 68. Após vários avisos, havia chegado o momento predito pelo Senhor, pois já não adiantava castiga-los, já estavam completamente feridos, mas não atinavam que era em decorrência de não terem obedecido a Deus (v. 5 ; Sl 50:4 ; Dt 4:36 ; Sl 76:8 ).

Qual a mensagem divina em que Deus interpõe os céu e a terra por testemunha? O Senhor disse por intermédio do profeta Isaias: “Criei filhos, e engrandeci-os, mas eles se rebelaram contra mim” (v. 2). O poro de Israel teve origem em Abraão e, após peregrinarem no Egito, Deus os resgatou com mão poderosa, mas já nos primeiros dias após serem resgatados do Egito, o povo de Israel mostrou-se rebelde à palavra de Deus ( Dt 1:43 ).

A mensagem de Deus é de cima e Ele mostra sinais na terra para que os homens se deixem instruir “Desde os céus te fez ouvir a sua voz, para te ensinar, e sobre a terra te mostrou o seu grande fogo, e ouviste as suas palavras do meio do fogo” ( Dt 4:36 ). Toda a criação é testemunha de que Deus de muitas maneiras falou ao homem ( Hb 1:1 ).

Os filhos que foram criados e engrandecidos referem-se ao povo de Israel que se tornou um grande povo, porém, desviaram do Senhor “Mas eles foram rebeldes, e contristaram o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles” ( Is 63:10 ).

 

3  O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende.

Deus faz uma comparação entre os animais irracionais e o povo de Israel para expor uma realidade terrível: o povo que devia ser pleno de sabedoria por ter sido instruído por Deus, não conhecia o seu Deus. O boi, um animal irracional, conhece o seu dono da mesma forma que o jumento a sua manjedoura, mas Israel não conheceu e nem conhecia o seu Deus  e Libertador “O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo a prudência” ( Pv 9:10 ).

Diferente dos animais irracionais, que reconhecem o seu dono e o seu lugar de descanso, o povo de Israel não entendeu que Deus estava repreendendo para que entendesse que necessitavam do cuidado do Senhor, pois Ele é, juntamente, sustento e descanso para o seu povo.

Faltava ao povo de Israel o ‘conhecimento’ do Santo, não entendiam, não compreendiam a palavra do Senhor, e quem deveria ensiná-los, os mestres da lei, estavam devorando o povo como se fosse pão “O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos” ( Os 4:6 ; Sl 53:4 ; Rm 10:2 ; Is 30:1 ).

O povo devia crer que Deus os justificava por aguardar o Descendente prometido a Abrão, porém, acreditavam que eram justos por descenderem da carne de Abraão ( Is 53:11 ). Construíram veredas tortuosas para si quando repousaram na carne e no sangue de Abraão ( Is 59:8 ).

 

4  Ai, nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao SENHOR, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás.

O profeta destaca algumas características pertinentes ao povo de Israel:

  • Nação pecadora;
  • Povo iníquo;
  • Descendência de homens maus, e;
  • Filhos corruptores.

 

Eles são nomeados de pecadores, iníquos, homens maus e corruptos. Não quiseram o Senhor, voltaram atrás e blasfemaram do Santo de Israel “Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós” ( Rm 2:24 ).

À época de Cristo, ele mesmo enfatizou que nenhum dos escribas e fariseus cumpria a lei, apesar de guardarem o sábado, fazerem a circuncisão, não matarem, não roubarem, dizimarem, jejuarem, etc. “Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” ( Jo 7:19 ); “O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano” ( Lc 18:11 ).

Deus deixou claro que Israel não tinha conhecimento, ou seja, que o seu povo não entendia (v. 3), e o apóstolo Paulo também enfatizou “Porque lhes dou testemunho de que têm zelo de Deus, mas não com entendimento. Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus” ( Rm 10:2- 3).

O desconhecimento era tamanho que Jesus igualmente protestou: “Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” ( Mt 22:29 ). Tudo o que o povo sabia não passava de preceitos de homens que decoraram “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, e com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” ( Is 29:13 ).

Como isto é possível, se o povo de Israel continuamente oferecia sacrifícios e buscavam cumprir a lei?

 

5  Por que seríeis ainda castigados, se mais vos rebelaríeis? Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco. 6  Desde a planta do pé até a cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, e inchaços, e chagas podres não espremidas, nem ligadas, nem amolecidas com óleo.

Se o povo de Israel se recordasse da lei, veriam que já estava previsto que, caso se rebelassem contra os preceitos de Deus, seriam acometidos de diversos castigos ( Dt 28:15 -69).

O povo de Israel era avesso a Deus, e quando castigados, rebelava-se ainda mais. Deus demonstra que a correção já não adiantava, pois todo o Israel estava acometido de pecado. Quando recebe o homem por filho, Deus o corrige e deixa claro o motivo: porque ama “Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho” ( Hb 12:6 ), mas o povo de Deus ignorava esta característica Dele.

Deus descreve o povo de Israel com problemas na cabeça e no coração (v. 5), e aponta que todo o corpo estava enfermo desde os pés até a cabeça e que nunca se submeteram a qualquer tipo de tratamento que mudasse a condição deles. Bastava o povo abrir mão do argumento de que eram povo de Deus por serem descendentes de Abraão reconhecendo que eram miseráveis como todos os outros homens, que Deus haveria de curá-los. Esta condição do povo é retratada em provérbios: “Há uma geração que é pura aos seus próprios olhos, mas que nunca foi lavada da sua imundícia” ( Pv 30:12 ).

 

7  A vossa terra está assolada, as vossas cidades estão abrasadas pelo fogo; a vossa terra os estranhos a devoram em vossa presença; e está como devastada, numa subversão de estranhos. 8  E a filha de Sião é deixada como a cabana na vinha, como a choupana no pepinal, como uma cidade sitiada. 

A cidade de Jerusalém assolada por guerras e intrusos desfrutando do que o povo de Israel haviam plantado era o último estágio da gama de castigos descritos por Moisés antes de serem levados cativos ( Dt 28:39 ).

Com o castigo, a terra foi assolada e as cidades queimadas. Os estrangeiros tinham livre circulação na cidade e o povo de Jerusalém nada podia fazer para impedir.

Em função da correção, tudo foi devastado e subvertido por estrangeiros. A cidade de Jerusalém estava sitiada, semelhante a uma cabana na vinha cercada de uvas, ou uma choupana em meio ao pepinal: abandonada a própria sorte.

Neste ponto o castigo já não era alternativa, pois apesar da condição deplorável do povo, não reconheciam a sua miserabilidade e não se socorriam de Deus.

 

9  Se o SENHOR dos Exércitos não nos tivesse deixado algum remanescente, já como Sodoma seríamos, e semelhantes a Gomorra. 10  Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra.

Isaias faz referência a um remanescente preservado por Deus para evitar a extinção de Judá e, consequentemente, a extinção da linhagem do Messias. Um povo remanescente tem resistido ao longo dos tempos em função da fidelidade de Deus que prometera a Davi o Descendente ( 2Sm 7:12 ).

Se não fosse a misericórdia de Deus em preservar um remanescente o povo de Judá havia desaparecido da face da terra “Porque eu, o SENHOR, não mudo; por isso vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos” ( Ml 3:6 ).  Após esclarecer o povo de que se não fosse a misericórdia, há muito Jerusalém teria deixado de existir, o profeta introduz Sodoma e Gomorra como figura de Judá. Moisés já havia feito referencia a Israel como Sodoma e Gomorra: “Porque a sua vinha é a vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas venenosas, cachos amargos têm” ( Dt 32:32 ; Gn 18:16 e 19:28 ; Rm 9:29 ).

O povo e os lideres de Jerusalém não atentaram para a palavra de Deus e novamente Deus lhes dá o aviso que ecoou em Israel ( Jr 23:14 ; Ez 16:46 -58). Enquanto Sodoma e Gomorra tornou-se símbolo de promiscuidade, Israel e Judá tornaram-se adúlteros, visto que transtornaram, adulteraram as palavras de Deus e os sacerdotes ensinaram o povo somente preceitos de homens ( Jr 23:16 ).

Em função dessas duas figuras (Sodoma e Gomorra), o povo de Israel é nomeado diversas vezes como adúlteros. O termo ‘adultero’ é empregado como figura para retratar a condição espiritual do povo, por ter abandonado o seu Deus ( Tg 4:4 ). Dt 4.2

A apostasia do povo de Jacó teve dois extremos. Na época dos reis houve uma apostasia enorme, pois não buscavam a Deus e seguiam após outros deuses conforme o costume das nações, tornando-se um povo idólatra e promiscuo, etc. Após o retorno do cativeiro, houve algumas reformas religiosas, com seu ápice no período dos Macabeus, quando, provavelmente, surgiu a seita dos fariseus e saduceus, porém, mesmo conservadores e legalistas, continuaram distantes da verdade revelada na lei ( Lc 18:11 ).

Com figuras como Sodoma e Gomorra, Deus passa a falar com o povo utilizando-se de adágios, parábolas e enigmas. Para compreender a mensagem de Deus, primeiramente se faz necessário desvendar os enigmas para depois interpretar as parábolas (v. 21).

 

11  De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o SENHOR? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; nem me agrado de sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. 12  Quando vindes para comparecer perante mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis a pisar os meus átrios?

O elemento de culto que os habitantes de Jerusalém julgavam de maior valor, o sacrifício, é posto em xeque pelo próprio Deus. Deus faz a pergunta: – ‘De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios?’

Além de deixar claro que estava farto dos holocaustos, Deus enfatiza que não se agrada de sangue de animais. Esta verdade permeia os livros do A. T., pois o salmista diz: “Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos” ( Sl 51:16 ). O profeta Samuel também anunciou: “Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ).

Como ofereciam tantos holocaustos, era de se presumir que ao menos Deus houvesse pedido aos homens que oferecessem holocaustos, porém, Deus é enfático: – ‘Quem requereu isto?’. Quando lemos os livros do Pentateuco, vemos Deus requerendo do seu povo que obedeça a sua palavra, sem diminuir ou acrescentar ( Dt 4:2 ), e não encontramos Deus requerendo sacríficos, antes disciplinando como deveriam proceder caso se propusessem oferece-los “Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando algum de vós oferecer oferta ao SENHOR, oferecerá …” ( Lv 1:2 ).

Desde Abel e Caim voluntariamente os homens oferecem sacrifícios a Deus, porém, Deus nunca requereu isto das mãos dos homens, pois Deus tem interesse no homem (ofertante), e não na oferta (sacrifícios). O povo de Israel estava como Caim, oferecendo sacrifício debalde, pois Deus não tem interesse no sacrifício ou na oferta, antes no ofertante.

Em primeiro lugar Deus atenta para o ofertante e depois para a oferta. E se Deus rejeita o ofertante, consequentemente a oferta está rejeitada “E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou” ( Gn 4:3 -5).

 

13  Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembleias; não posso suportar iniquidade, nem mesmo a reunião solene. 14  As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer.

O alerta de Deus é solene: – ‘Não continueis a trazer ofertas vãs’. Após avisá-los, vêm os motivos: o incenso é abominação. As luas novas, os sábados (dias de festas solenes), datas tão importantes ao povo de Jerusalém também eram abominações.

Da mesma forma que Deus não pode suportar a iniquidade, também não podia suportar a reunião solene. Enquanto o homem não se submete à palavra de Deus sem alterá-la, os seus sacrifícios e ofertas são vãos. Deus não muda com o passar do tempo, então, desde o primeiro holocausto Deus repudiava os seus sacrifícios. Deus odiava, não suportava e sofria com as solenidades.

Um povo que se dizia servo de Deus, ignorava a vontade do seu Senhor, o que nos remete ao exposto nos versos 2 e 3.

 

15  Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. 16  Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. 17  Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas.

Deus apresenta o motivo pelo qual não atendia as suplicas do povo. Quando estendiam as mãos suplicando por socorro, Deus não voltava o rosto para observá-los. Mesmo que aumentasse em quantidade o número de orações (multiplicando), Deus não os atenderia. Somente a oração de um justo pode muito em seus efeitos, visto que a iniquidade do ímpio separa o homem de Deus para que não seja ouvido. Enquanto o homem não ouvir a palavra de Deus e crer, Deus não o ouve, porque somente após ouvir e crer é que o homem se torna justo diante de Deus.

O apóstolo Paulo deixou registrado que o seu povo “… têm zelo de Deus, mas não com entendimento” ( Rm 10:2 ). Os sacrifícios, jejuns, orações e ofertas era um zelo de Deus sem entendimento, mas ainda em nossos dias muitos procuram aproximar-se de Deus através desses mesmos elementos.

O motivo pelo qual Deus não atendia o povo: – ‘As vossas mãos estão cheias de sangue!’ ( Is 59:3 ).

Estes três versos constituem uma parábola repleta de enigmas e, para compreender a parábola, primeiro é necessário desvendar os enigmas.

As mãos manchadas de sangue é figura de violência contra Deus. Não diz de agressão contra o semelhante, antes da violência em querer se apoderar do reino de Deus por sua própria força. É por isso que Deus alerta: “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Zc 4:6 ).

Enquanto João Batista apregoava o reino dos céus, os seus ouvintes não se arrependiam, e continuavam a fazer da carne e do sangue (descendência da carne de Abraão) o seu braço (salvação), portanto, o que professavam não era segundo o Espírito, antes obras de iniquidade, obras de violência “E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele”  ( Mt 11:12 ; Is 59:6 ). As práticas como os jejuns, orações, sacrifícios, ofertas, etc., era o que manchavam as suas mãos de sangue.

Como a palavra de Deus é: “Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” ( 1Sm 15:22 ), e no início da visão Isaias disse: “Ouvi a palavra do Senhor, vós príncipes de Sodoma; dai ouvidos à lei de nosso Deus, vós o povo de Gomorra” (v. 10), para lavarem-se, purificarem-se, tirando a maldade dos seus atos (obras) das suas mãos, deveriam cessar de fazer o mal, ou seja, ouvirem (obedecerem) a palavra de Deus.

Somente a palavra de Deus para lavar e purificar o homem. Somente após ser lavado através da palavra de Deus, o homem retira a maldade dos seus atos. Deus olhou do céu para os filhos dos homens e não havia um que fizesse o bem. Mesmo o povo de Israel que haviam recebido as escrituras e a promessa, não havia quem fizesse o bem, pois apesar de terem recebido a palavra, cada um seguia os seus próprios conceitos e conjecturas ( Is 58:13 ).

Como a palavra de Deus é espírito, o homem que obedece a Deus compreendeu a mensagem dita a Zorobabel: “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Zc 4:6 ).

Ou seja, Deus disse a Zorobabel o mesmo que foi dito por Samuel e Isaias: Obedecer é melhor que sacrificar, pois sacrificar é violência, força, diz da ação do homem em busca de agradar a Deus. Mas, o espírito diz da palavra de Deus, pois somente a palavra de Deus lava e purifica completamente o homem.

Para compreender estes dois versos: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas” (v. 16 -17), faz-se necessário analisar os seguintes versos:

  • “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” ( Jo 15:3 );
  • “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” ( Jo 6:63 );
  • “Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro” ( 1Pe 1:22 ).

Ou seja, quem obedece a verdade, que é a palavra de Deus, deixa a violência dos seus atos e passa a servi-lo pelo seu espírito: está limpo pelas palavras dita por Cristo, que é espírito e vida.

Mas, os enigmas e figuras não se restringem aos dois versos analisados. O verso seguinte possui muitos outros enigmas que compõem a parábola: “Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas” (v. 17).

Os que deixam de fazer o mal aprendendo a fazer o bem são os que obedecem a Deus. Os que aprendem e obedecem a Deus automaticamente deixam de fazer o mal e passam a fazer o bem. É da natureza dos que são vivificados pelo espírito (palavra de Cristo) fazer o bem, pois a árvore boa dá fruto bom “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 ).

Aprender a fazer o bem é o mesmo que obedecer a Deus procurar o que é justo, pois obedecer a Deus é a justiça e o bem. Fazer o bem e procurar o que é justo é o mesmo que ajudar o oprimido, fazer justiça ao órfão e cuidar das viúvas. Os oprimidos, os órfãos e as viúvas são figuras que remente o homem a considerar a sua real condição diante de Deus: necessitados. São figuras que demonstra a condição do pecado, uma forma de apontar e fazer referência à condição do povo e dos seus lideres. Ajudar os oprimidos, fazer justiça aos órfãos e cuidar das viúvas é o mesmo que falar a palavra de Deus com verdade ( Zc 8:16 ; Ef 4:25 ; Is 58:13 ), ajudarem a si mesmos obedecendo à palavra do Senhor, pois Adão abandonou toda a sua geração quando se vendeu ao pecado, e todos estão separados de Deus até que creiam em sua palavra.

Se o leitor não se aperceber que está diante de uma parábola repleta de figuras e enigmas, interpretará como se Deus estivesse tratando de questões socioeconômicas. Neste ponto, em vez de converter-se a Deus obedecendo a sua palavra, o leitor aplicar-se a religiosidade e os seus sacrifícios, pois reputará que Deus o aceitará por estar cuidando dos órfãos e das viúvas.

Outros consideram que o sacrifício de sangue não era aceito porque as pessoas não estavam apresentando o melhor do rebanho no altar, e se esquecem que o sacrifício que Deus não rejeita é um coração contrito “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” ( Sl 51:17 ). Somente quando o homem é aceito por Deus é que suas ofertas e sacrifícios são aceitos “Então te agradarás dos sacrifícios de justiça, dos holocaustos e das ofertas queimadas; então se oferecerão novilhos sobre o teu altar” ( Sl 51:19 ).

 

18  Vinde então, e argui-me, diz o SENHOR: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã.

Após ‘ajudar’ os oprimidos, ‘fazer’ justiça aos órfãos e ‘cuidar’ das viúvas, ou seja, obedecer a palavra de Deus, por mais funesta que seja a condição do homem, no momento em que se submete à palavra de Deus, Deus faz do homem uma nova criatura, pois está é a sua promessa: ‘Ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã’ (v. 18).

Mesmo que os pecados fossem como a escarlata, certo é que se tornariam brancos como a neve! O proposto por Deus é simples, mas o homem tem que querer. Se o homem quiser e ouvir a voz do Senhor, alcança a promessa: ainda que os vossos pecados sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã.

 

19  Se quiserdes, e obedecerdes, comereis o bem desta terra. 20 Mas se recusardes, e fordes rebeldes, sereis devorados à espada; porque a boca do SENHOR o disse.

Este verso demonstra a misericórdia e longanimidade de Deus que, antes de impingir o castigo, apresenta uma oportunidade. Isto foi posto para exemplo, pois no dia em que se chama hoje, se ouvires a vos do Senhor, não endureças o coração ( Hb 4:11 ).

Após a promessa do perdão dos pecados, caso quisessem e obedecessem, também haveriam de comer do melhor da terra. Não havia como se estabelecerem na terra da promessa sem antes ser extirpado o pecado do meio do povo.

Como Deus está falando diretamente com os judeus, a promessa divide-se em duas: a) salvação individual, e; b) salvação nacional. Ao serem resgatados do Egito, o povo foi resgatado nacionalmente, porém, permaneceram escravos do pecado. Agora Deus quer resgatá-los do pecado e, se quisessem e obedecessem, seriam salvos nacionalmente “Nos seus dias Judá será salvo, e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA” ( Jr 23:6 ).

Mas, haverá um tempo de refrigério para Israel quando as duas casas serão redimidas pelo Senhor Jesus, e Deus o nomeará de: O Senhor justiça nossa ( 2Co 3:16 ).

Mas, por que é necessário o homem querer obedecer a sua palavra? A resposta encontra-se o seguinte verso: “Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” ( 2Co 3:17 ). O Senhor é Espírito, ou seja, o Verbo que se fez carne, e onde está a palavra da Vida, aí há liberdade ( 1Jo 1:2 ).

No Éden diante da expressa Imagem de Deus que tudo criou pelo poder de sua palavra ( Jo 1:1 -3), o homem teve a liberdade de permanecer na vida e rejeitar a morte; hoje, a oportunidade e dada, porém, o homem tem a liberdade de querer a vida obedecendo, ou permanecer na morte.

 

21  Como se fez prostituta a cidade fiel! Ela que estava cheia de retidão! A justiça habitava nela, mas agora homicidas.

A palavra de Deus entregue a Israel por mão de um medianeiro é perfeita, reta, justa, mas os interpretes amalgamaram os seus próprios conceitos e criaram preceitos que, em vez de vida, tornou-se palavra de engano, palavra de morte.

A condição da cidade de Jerusalém era de se admirar. A cidade plena de retidão, onde a justiça estabeleceu a sua morada, agora estava cheia de homicidas (homens violentos, mãos manchadas de sangue).

Por que a cidade era fiel, plena de retidão e justiça? Porque Deus a escolheu para ali habitar “E habitarei no meio dos filhos de Israel, e lhes serei o seu Deus” ( Êx 29:45 ); “Então haverá um lugar que escolherá o SENHOR vosso Deus para ali fazer habitar o seu nome” ( Dt 12:11 ); “Por que saltais, ó montes elevados? Este é o monte que Deus desejou para a sua habitação, e o SENHOR habitará nele eternamente” ( Sl 68:16 ).

Como os habitantes de Jerusalém não deram crédito à palavra de Deus, não foram gerados de novo da semente incorruptível, portanto, não eram servos de Deus e nem amaram a Deus “E herdá-la-á a semente de seus servos, e os que amam o seu nome habitarão nela” ( Sl 69:36 ).

O verso 21 de Isaias 1 complementa o salmo 132: “Porque o SENHOR escolheu a Sião; desejou-a para a sua habitação, dizendo: Este é o meu repouso para sempre; aqui habitarei, pois o desejei. Abençoarei abundantemente o seu mantimento; fartarei de pão os seus necessitados” ( Sl 132:13 -15).

Como o povo não se resignou a ser os ‘necessitados’ do Senhor, pois confiavam que eram salvos por serem descendentes da carne de Abraão, a cidade fiel tornou-se prostituta, promiscua, Sodoma e Gomorra!

 

22  A tua prata tornou-se em escórias, o teu vinho se misturou com água. 23 Os teus príncipes são rebeldes, e companheiros de ladrões; cada um deles ama as peitas, e anda atrás das recompensas; não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa da viúva.

Deus havia dado ao seu povo a sua palavra (prata pura), porém, como não a receberam integralmente, antes foram rebeldes transtornando o mandamento ( Dt 4:2 ), o que seguiam não passava de escória, mandamentos de homens “As palavras do SENHOR são palavras puras, como prata refinada em fornalha de barro, purificada sete vezes” ( Sl 12:6 ); “Prata escolhida é a língua do justo; o coração dos perversos é de nenhum valor” ( Pv 10:20 ).

O vinho é figura da alegria, da salvação, e Deus protesta contra eles demonstrando que a alegria proveniente da aliança foi desfeita “Porque são gente falta de conselhos, e neles não há entendimento. Quem dera eles fossem sábios! Que isto entendessem, e atentassem para o seu fim (…) O seu vinho é ardente veneno de serpentes, e peçonha cruel de víboras” ( Dt 32:28 -29 e 33). Diz do vinho da contenda que o apóstolo Paulo veta aos cristãos ( Ef 5:18 ). Israel misturou a palavra da verdade (vinho) com preceitos de homens (água).

Como o vinho misturou-se com a água, a aliança de Deus com os que titubeavam foi desfeita “Tardai, e maravilhai-vos, folgai, e clamai; bêbados estão, mas não de vinho, andam titubeando, mas não de bebida forte” ( Is 29:9 ); “Tanto mais que, por ser dado ao vinho é desleal; homem soberbo que não permanecerá; que alarga como o inferno a sua alma; e é como a morte que não se farta, e ajunta a si todas as nações, e congrega a si todos os povos” ( Hb 2:5 ; Rm 9:6 ).

Como transtornaram a palavra do Senhor sendo rebeldes a aliança, os príncipes de Jerusalém não passavam de ladrões, salteadores ( Jo 10:8 e 10). Os lideres de Israel não eram pastores, mas mercenários, visto que andavam atrás de recompensas. Por negarem aos homens que necessitavam (órfãos, viúvas) a palavra da verdade, a justiça de Deus não era estabelecida.

Por sua vez, Cristo quando veio denunciou os ladrões, os mercenários e como pastor fez justiça aos oprimidos pelo pecado ( Mt 11:28 ; Sl 146:5 -10 compare com Mt 5:3 -11). Jesus, o servo do Senhor, veio fazer justiça aos oprimidos ( Mt 11:28 ).

 

24  Portanto diz o Senhor, o SENHOR dos Exércitos, o Forte de Israel: Ah! tomarei satisfações dos meus adversários, e vingar-me-ei dos meus inimigos.

Neste verso, Cristo toma a palavra, pois Ele é o Senhor dos Exércitos, o Deus Forte, o braço do Senhor.

Há um dia estabelecido em que o Senhor Jesus glorificado há de vingar-se dos seus adversários, aqueles que transtornaram a sua palavra.

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Um inocente também é justo?

A Bíblia afirma que os homens alienaram-se de Deus desde a madre, e que andam errados desde que nascem, e segundo os seus corações falam mentiras ( Sl 58:3 ; Mt 12:34 ). Dentre os filhos dos homens não há ninguém que tenha entendimento e que busque a Deus ( Sl 53:2 ), e nem mesmo as crianças são apontadas como exceção a regra.

 


“Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles” ( Gn 18:26 )

O Problema

É comum a ideia de que uma pessoa ‘inocente’ também é ‘justa’, como se estas duas palavras ‘inocente’ e ‘justo’ fossem sinônimas, porém, do ponto de vista bíblico não é correta está correlação entre as duas palavras.

A Bíblia ensina que inocente é o mesmo que justo? Uma criança recém nascida é inocente e justa? Um inocente pode não ser justo? O ímpio pode ser inocente?

Analisemos algumas passagens bíblicas.

 

As Crianças de Sodoma e Gomorra

Observe este diálogo entre Deus e o patriarca Abraão: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra? Então disse o SENHOR: Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles” ( Gn 18:25- 26 ).

Este diálogo é muito conhecido, porém, é comum não serem feitas as seguintes perguntas: havia inocentes nas cidades de Sodoma e Gomorra? As crianças das cidades de Sodoma e Gomorra não eram inocentes, e por que elas foram destruídas? Elas, apesar de serem inocentes, também eram ímpias, uma vez que foram destruídas?

Consideremos o que Deus disse a Abraão: “Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles ( Gn 18:26 ). Deus garantiu a Abraão que, se houvesse dentro dos portões das cidades de Sodoma e Gomorra pelo menos dez justos, não destruiria as cidades! ( Gn 18:32 )

Como bem sabemos, as cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas, pois os três justos que haviam na cidade foram resgatados de lá, ou seja, Deus demonstrou que jamais destrói o justo com o ímpio, e que o juiz de toda a terra efetivamente faz justiça, pois não trata os justos como trata os ímpios ( Gn 19:16 ).

Após observar as garantias que Deus concedeu a Abraão “Não a destruirei por causa dos dez” ( Gn 18:36 ), e o resultado final, a destruição de Sodoma e Gomorra ( Gn 19:25 ), chega-se a seguinte conclusão: diante de Deus, ser ‘inocente’ não é o mesmo que ser ‘justo’, pois, se os inocentes fossem justos, ambas as cidades não seriam subvertidas devido às inúmeras crianças que haviam naquelas cidades.

Neste mesmo diapasão, o que dizer de milhares de crianças ‘inocentes’ que foram mortas no dilúvio, sendo que somente Noé foi declarado justo por Deus ( Gn 6:9 ; Gn 7:1 ; Hb 11:7 ).

Que dizer dos filhos de Acã? Eles também eram ímpios, mesmo sendo inocentes? ( Js 7:24 ). Os primogênitos do Egito não eram inocentes? ( Ex 12:29 ).

Através destes eventos é possível determinar que, ser inocente não e o mesmo que ser justo, e que ser justo não é o mesmo que ser inocente.

 

Os inocentes

Geralmente a Bíblia utiliza a palavra ‘inocente’ para designar uma pessoa ingênua, ou desavisada, como se lê: “Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” ( Ex 20:7 ), ou seja, após receber o alerta solene “Não tomarás o nome do Senhor em vão”, o homem deixa de ser inocente.

Qualquer que utilizasse o nome de Deus em vão não mais seria considerado inocente, pois foi alertado.

Ora, se qualquer que for avisado pelo Senhor deixa de ser inocente, temos que Adão nunca foi inocente, pois ele foi avisado por Deus do mau, mas resolveu por si mesmo passar, e como conseqüência sofreu a pena “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Por causa do alerta solene Adão deixou de ser inocente, porém, continuava sendo um homem justo e sem conhecer o bem e o mal. Após desobedecer, Adão deixou de ser justo e passou a ser como Deus, conhecedor do bem e do mal.

O alerta divino acerca das conseqüências em ser participante da árvore do conhecimento do bem e do mal arrancou a inocência de Adão. Adão deixou de ser justo após desobedecer e passou a ser como Deus: conhecedor do bem e do mal, em virtude de ser participante (comer) da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Ou seja, a inocência de Adão foi perdida muito antes de ele conhecer o bem e o mal. A inocência não se perdeu após a transgressão, ou seja, antes mesmo da ofensa Adão já não era inocente por causa do alerta solene de Deus.

Salomão alertou: “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena” ( Pv 27:12 ). Ou seja, o aviso torna o homem apto para ver o mal, e este, por sua vez, deve se esconder. Em contra partida, o simples, o desavisado, o inocente, passa e sofre a pena! Por quê?

É comum os homens atinarem que o inocente não deva sofrer a pena, mas a Bíblia demonstra que a pena não passa do simples (inocente) “O prudente prevê o mal, e esconde-se; mas os simples passam e acabam pagando” ( Pv 22:3 ).

Mesmo os inocentes são passíveis de punição, mesmo as criancinhas inocentes são tratadas como os adultos, pois ambos são ímpios diante de Deus, e sofrem a pena: destituídos da glória de Deus.

 

Uma Criança pode ser considerada justa?

Após esta abordagem inicial, sobrevêm inúmeras perguntas: como é possível uma criança não ser justa, se ela é inocente? A partir de que idade uma criança é considerada ímpia? Qual a base da justiça de Deus ao destruir crianças e adultos? Etc.

As alegações de Abraão são verdadeiras: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25 ), pois Deus mesmo diz: “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ).

  • O juiz de toda a terra faz justiça;
  • Ele faz distinção entre justos e ímpios;
  • Deus não mata o justo com o ímpio, e;
  • Deus não declara (justifica) o ímpio como sendo justo.

Quando Deus recomendou ao povo de Israel algumas questões de direito, Ele orientou para que guardassem da falsa acusação, e que a pena capital não devia ser aplicada ao inocente e ao justo “De palavras de falsidade te afastarás, e não matarás o inocente e o justo; porque não justificarei o ímpio” ( Ex 23:7 ).

Este verso estabelece uma diferença significativa entre justo e inocente, pois se ‘justo’ e ‘inocente’ fossem maneiras distintas de fazer referência a uma mesma condição, Deus não estabeleceria a distinção: não matarás o inocente e o justo ( Ex 23:7 ).

Tudo começou com Adão, o primeiro pai da humanidade. Através dele a humanidade lançou mão de uma condição miserável. Por causa da ofensa dele todos os homens pecaram, e em um só evento, todos juntamente se desviaram de Deus ( Sl 14:3 ).

Adão foi criado por Deus santo, justo e bom, ou seja, ele compartilhava da natureza de Deus. Adão existia em comunhão com a Vida e compartilhava da glória de Deus.

Porém, Adão foi avisado por Deus que, no dia em que comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, que estava no meio do jardim, haveria de morrer ( Gn 2:17 ).

Embora santo, justo e bom, Adão nunca foi inocente (ingênuo), pois foi alertado quanto as conseqüências de sua decisão “O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena” ( Pr 27:12 ).

Adão foi avisado e não se escondeu do mal, ou seja, por ter sido avisado, ele já não era simples, ou seja, inocente.

Há diferença entre ‘inocência’, que é ingenuidade e pureza, e ‘inocência’, que é estado de quem não é culpado, significado que é próprio aos tribunais. Não podemos confundir os significados da designação ‘inocência’, pois é essencial para a interpretação bíblica.

Para o Dr. Scofield houve a dispensação da inocência, ou seja, ‘o homem foi criado em inocência, colocado em um ambiente perfeito (…) e advertido das conseqüências da desobediência’ Bíblia de Scofield com Referências, explicação a Gn 1:28 . Ora, como foi avisado por Deus, Adão já não era mais ‘simples’ (inocente, ingênuo), mas não era culpado, ou melhor, segundo a linguagem utilizada nos tribunais ‘inocente’.

Deus criou o homem do pó da terra ( Gn 2:7 ), colocou-o no Jardim do Éden para lavrá-lo e guardá-lo ( Gn 2:15 ), e foi alertado por Deus quanto a árvore que estava no meio do jardim ( Gn 2:17 ). Adão foi criado puro (inocente, inculpável), santo e bom, e alertado (não mais inocente) quanto ao perigo de se comer da árvore do conhecimento do bem e do mal.

Porém, apesar de avisado, tanto a mulher quanto o homem preferiram dar ouvidos à serpente: “Certamente não morrereis” ( Gn 3:4 ). Não dar ouvidos (credito) a palavra de Deus alienou (extraviou) o homem do seu Criador. Após atender a palavra de Satanás, o homem deixou de compartilhar da vida e da glória que há em Deus.

O Homem morreu conforme a palavra do Senhor ( Gn 2:17 )! A justiça divina não tardou: o homem foi julgado e apenado com a morte “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:18 ).

A morte é alienação de Deus. Por causa da lei santa justa e boa que diz: ‘… certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), o pecado encontrou ocasião na força da lei estabelecida por Deus, e por ela aprisionou o homem ( 1Co 15:56 ). Sem a lei que diz: ‘certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), não existia para o homem a possibilidade de alienação de Deus, ou seja, o pecado estaria morto ( Rm 7:8 ).

 

Os ímpios

Mas, porque os infantes de Sodoma e Gomorra, mesmo sendo inocentes, mentalmente e fisicamente incapazes de fazer o bem ou o mal não foram poupados por Deus? Por que não foram tidos por justos?

É fato: Deus prometeu que se houvessem dez justos nas cidades de Sodoma e Gomorra não a destruiria, porém, apesar de inúmeros inocentes, a cidade foi completamente destruída, o que nos deixa uma mensagem clara: as crianças não são justas, apesar de serem inocentes!

As cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas porque todos os homens foram formados em iniquidade, todos foram concebidos em pecado ( Sl 51:5 ).

O salmista Davi profetizou dizendo que todos os homens se desviaram e que juntamente se fizeram imundos ( 1Cr 25:1 ; Sl 53:3 ). Mas, onde e quando ocorreu o desvio, ou seja, a alienação da humanidade de Deus? Qual a idade que o homem passa a estar alienado de Deus?

A Bíblia afirma que os homens alienaram-se de Deus desde a madre, e que andam errados desde que nascem, e segundo os seus corações falam mentiras ( Sl 58:3 ; Mt 12:34 ).

Dentre os filhos dos homens não há ninguém que tenha entendimento e que busque a Deus ( Sl 53:2 ), e nem mesmo as crianças são apontadas como exceção a regra.

Profeticamente o salmista Davi escreve uma oração ao Senhor que retrata o anseio do Messias: “Ó Senhor, com a tua mão, livra-me dos homens do mundo, cuja porção está nesta vida. Enche-lhes o ventre da tua ira entesourada. Fartem-se delas os seus filhos, e dêem ainda os sobejos aos seus pequeninos” ( Sl 17:14 ).

Os ‘homens deste mundo’ referem-se aos filhos de Adão, e tudo que possuem restringe-se a este mundo. A ira de Deus está reservada aos homens deste mundo, conforme demonstra o apóstolo Paulo “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça” ( Rm 1:18 ).

A informação acima é de conhecimento geral, porém, o mais interessante é a informação a seguir: “Fartem-se delas os seus filhos, e dêem ainda os sobejos aos seus pequeninos” ( Sl 17:14 ). Os filhos dos homens deste mundo também se fartarão da ira de Deus, e mesmo os seus pequeninos sobejarão da ira entesourada por Deus.

 

Julgamento e Condenação

O apóstolo Paulo traz a lume que a humanidade foi julgada e está sob condenação “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação…” ( Rm 5:17 ), o que difere de qualquer sistema religioso, pois todas as religiões dão conta que o juízo de Deus ainda está por vir.

Através de uma única ofensa Adão trouxe o juízo de Deus sobre todos os homens para condenação, ou seja, em Adão todos os homens se desviaram de Deus e juntamente se fizeram imundos ( Sl 53:3 ).

Todos os homens, sem exceção: homens, mulheres, crianças e velhos tornaram-se imundos e sob condenação.

A ofensa de Adão foi não crer na palavra de Deus que lhe preservaria a vida, o que o levou comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, que o tornou como Deus, conhecendo o bem e o mal. A ofensa se deu antes do conhecimento do bem e do mal, portanto, a condenação não depende da consciência, ou da capacidade do homem em realizar o bem e o mal.

Quando a Bíblia afirma que o homem é escravo do pecado, ela demonstra que assim como os filhos de escravos eram escravos, todos os descendentes de Adão também são escravos. Não importa a idade ou condição social, se criança ou velho, uma vez descendente de Adão são escravos do pecado.

A escravidão é uma condição que se estabelecia sobre homens, mulheres, jovens e crianças, da mesma forma que o pecado. Não é porque as criancinhas de Sodoma e Gomorra não possuíam consciência e nem dispunham de condições para realizar bem ou mal, que eram justas. Embora inocentes, simples, sofreram a mesma pena que foi imposta aos adultos, pois já estavam condenados à perdição por serem descendentes de Adão, e, portanto, por serem servos do pecado (ímpios).

Que ação, que entendimento, que compreensão, do que era capaz um infante que o tornava escrava? Bastava simplesmente nascer de pais escravos para ser escravo. Não havia nenhuma ação ou omissão por parte da criança, e neste aspecto, todos os descendentes de Adão são escravos do pecado.

A condição é própria a todos os homens, e não se vincula a questões de méritos. O apóstolo Paulo ao falar da condição do homem em sujeição ao pecado utiliza o vocábulo ‘doulos’, indicando escravidão em oposição à condição do homem livre, que é ‘eleutheria’.

‘Doulos’ é um termo que não possui conotação moral ou ética, e que data de um período histórico anterior a Sócrates, e que, portanto, também já era de conhecimento do apóstolo. O apóstolo Paulo preferiu o vocábulo ‘Doulos’ em lugar de ‘eleutheria’, o que demonstra que a escravidão ao pecado não depende de questões morais ou comportamentais.

‘Doulos’ possui sentido diferente de ‘enkráteia’, que é um conceito socrático, que introduziu o conceito de liberdade ética. Este conceito estabelece a liberdade como possuidora de senhorio sobre a existência orgânica e psíquica do homem, indicando a virtude como sendo ‘conhecimento’ e fundamentando a liberdade do homem no conhecimento e na racionalidade: conhecer o bem implica praticá-lo.

Observe: “Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues” ( Rm 6:17 ). O homem é servo do pecado sem qualquer conotação moral, uma vez que o apóstolo dos gentios utiliza o vocábulo ‘doulos’ e despreza o termo ‘eleutheria’.

 

O Caminho Largo

Quando Jesus orientou os seus ouvintes a entrarem por Ele: “Entrai pela porta estreita” ( Mt 7:13 ), ou seja, que nascessem de novo ( Jo 3:3 ), Ele também alertou acerca da porta larga.

Jesus é o último Adão, sendo necessário ao homem nascer de novo para ser participante da natureza divina ( 1Pe 1:2 e 22 -23 ; 1Co 15:45 ).

Mas, como não é primeiro o espiritual, senão o animal (o terreno), pois primeiro os homens carnais são gerados através de Adão, que é a porta larga, por onde todos os homens entram ao nascer neste mundo, para depois entrarem pela porta estreita, segue-se que a porta larga é o primeiro Adão “… porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( MT 7:13 ).

Jesus alertou que a porta é larga e que o caminho que conduz a perdição é espaçoso. Ir à perdição não depende da vontade, da consciência, do conhecimento ou da volitividade do indivíduo. O que conduz à perdição é o caminho largo que o homem se encontra após ter nascido segundo a vontade da carne, do sangue e da vontade do varão ( Jo 1:12 ).

De modo semelhante, é Cristo, o caminho, que conduz o homem a Deus, e, portanto, é necessário nascer de novo para trilhar o novo e vivo caminho.

 

Conclusão

Deus destruiu Sodoma e Gomorra porque não havia dez justos em ambas as cidades, o que nos faz lembrar dos infantes que nelas habitavam.

Como Deus garantiu que não destruiria as cidades se houvesse nela dez justos, e acabou subvertendo Sodoma e Gomorra, conclui-se que as crianças não eram justas, embora fossem inocentes.

Devemos ter em mente também que a palavra inocente no Antigo Testamento tem o sentido de alguém ‘simples’, ‘desavisado’, diferente do sentido que passou a predominar ao longo dos anos, devido aos tribunais.

A ação de Deus no Antigo Testamento reitera a declaração do Salmista Davi, que diz: “E não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não se achará justo nenhum vivente” ( Sl 143:2 ). O apóstolo Paulo reitera: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer” ( Rm 3:10 ), nem os infantes.

Em nenhuma das referências bíblicas excetua as crianças, que embora sejam inocentes, diante de Deus são ímpias.

Esta distinção entre justo e inocente se fez necessária porque muitos cristãos, embora admitam que a humanidade sem Cristo seja réu do inferno por causa da sua natureza pecaminosa, entendem que os infantes não se enquadram neste quesito, pois entendem que os infantes não são lúcidos e não possuem consciência para diferenciar o bem do mal, o que impede que exteriorizem uma ação ou omissão pecaminosa.

Ou seja, contraria totalmente a mensagem de Cristo: os homens são sujeitos do verbo ‘hamartia’ porque são escravos do pecado, e não o contrário: são pecadores por causa de suas ações e omissões.

Qual a condição dos inocentes de Sodoma e Gomorra? “Se eu em Sodoma achar cinqüenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles” ( Gn 18:26 ). Eram ímpias, pois Abraão argumenta: “Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” ( Gn 18:25 ).

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