As misericórdias do Senhor nas Lamentações de Jeremias

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Com relação a nação de Israel a misericórdia de Deus é incondicional e irrestrita, por isso ela é descrita como novas a cada manhã e que não tem fim. A fidelidade de Deus à sua palavra anunciada a Abraão é imutável!


“Jubilai, ó nações, o seu povo, porque ele vingará o sangue dos seus servos, e sobre os seus adversários retribuirá a vingança, e terá misericórdia da sua terra e do seu povo.” (Deuteronômio 32:43)

Introdução

Esse artigo é uma análise do devocional de John Piper, extraído do livro Uma Vida Voltada para Deus, sob o título ‘As Misericórdias de Hoje para os Problemas de Hoje’, disponível no site Voltemos ao Evangelho.

A proposta do artigo é verificar se o devocional de Piper reflete a verdade das Escrituras ou não, pois esse é o dever de todos os cristãos: julgar os espíritos!

“AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.” (1 João 4:1).

O que as pessoas professam (espírito, mensagem, doutrina), ou seja, o fruto é o que define se o profeta é verdadeiro ou falso, daí a necessidade de ‘provar’ os espíritos.

“Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos?” (Mateus 7:15-16).

Como o ouvido prova as palavras, como o paladar prova a comida, certo é que o fruto que possibilita identificar os falsos profetas é o que dizem, e não as suas ações.

“Porventura o ouvido não provará as palavras, como o paladar prova as comidas?” (Jó 12:11).

 

Fé salvadora

Jonh Piper argumenta no seu devocional que:

“Uma parte da fé salvadora é a segurança de que amanhã teremos fé. Confiar em Cristo hoje inclui o crer que Ele lhe dará a confiança de amanhã, quando o amanhã chegar. Com frequência, sentimos que nossa reserva de forças não será suficiente para mais um dia. E, de fato, não será. Os recursos de hoje são para hoje; e uma parte desses recursos é a confiança de que novos recursos nos serão dados amanhã.” John Piper, Uma Vida Voltada para Deus, As Misericórdias de Hoje para os Problemas de Hoje < https://voltemosaoevangelho.com/blog/2010/09/devocional-john-piper-as-misericordias-de-hoje-para-os-problemas-de-hoje/ > Consulta realizada 18/09/21.

A fé jamais pode ser dividida em partes se Cristo é a nossa fé. O Senhor Jesus é a fé manifesta por meio do qual os homens são salvos, portanto, Ele é o firme fundamento ontem, hoje e eternamente de todos os que creem no testemunho que Deus deu acerca do Seu Filho.

“Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.” (Gálatas 3:23).

A fé manifesta é Cristo, e não há outro pelo qual os homens devam ser salvos, portanto, não há subdivisão em Cristo.

Quando o apóstolo Paulo disse que os cristãos são salvos pela graça de Deus, por meio da fé, fez referência a Cristo, o dom de Deus. O homem é salvo por meio de Cristo, o autor e consumador da fé.

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.” (Efésios 2:8).

A segurança do Cristão não repousa na expectativa de que continuará confiando amanhã, antes que fiel é Aquele que prometeu salvação e que Ele não muda. Mesmo que o homem seja infiel, Ele permanecerá fiel, pois não pode negar a si mesmo.

“Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.” (2 Timóteo 2:13).

A ideia de que ‘confiar em Cristo hoje inclui crer que Ele dará a confiança de amanhã’ é apócrifa, pois seria tão somente confiar na confiança, sendo que confiar em Cristo é crer no testemunho que Deus deu acerca do Seu Filho.

“Se recebemos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior; porque o testemunho de Deus é este, que de seu Filho testificou. Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu. E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em seu Filho.” (1 João 5:9-11).

Não há na Bíblia qualquer referência a ideia de que confiar em Cristo inclui crer que Ele dará a confiança de amanhã, antes é dito que quem crê que Jesus é o Cristo será salvo, pois se fez filho de Abraão.

“A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.” (Romanos 10:9).

Em confessar que Jesus é o Cristo e crer com o coração que Deus o ressuscitou está a segurança do crente. O requerido do cristão é não se demover da esperança proposta no evangelho, ou seja, que permaneça fundado e firme em Cristo, o firme fundamento dos apóstolos e dos profetas, crendo até o fim.

“Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro.”  (Colossenses 1:23).

Confundir ‘confiança’ com ‘fé’, a verdade que liberta, é um erro que leva a inúmeros equívocos, como o argumento de que ‘sentimos que nossa reserva de forças não será suficiente para mais um dia’, e que ‘uma parte desses recursos é a confiança de que novos recursos nos serão dados amanhã’. 

O sentimento descrito por Piper nada mais é que esgotamento físico, pois repor energia ou força física depende de sono, alimentação, descanso, etc. Quando repousamos é porque sabemos e acreditamos que o sono trará os recursos necessários para termos força amanhã.

 

Deus determina problemas?

John Piper faz uma citação de um versículo da carta aos Coríntios, mas a interpretação é confusa e não reflete a exposição paulina.

“Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar.” (1 Coríntios 10:13).

O apóstolo Paulo destaca através do exemplo dos filhos de Israel que toda tentação é de natureza humana, ou seja, não é de ordem sobrenatural. Deus não se agradou dos filhos de Israel porque cobiçaram coisas más, e por isso se tornaram idolatras, promíscuos, murmuradores, etc.

Não foi Deus que determinou problemas aos filhos de Israel, antes foram eles que confeccionaram um bezerro e foram adorar. Havia mulheres em Israel, mas os filhos de Israel foram e coabitaram com estrangeiras. Mas, a transgressão dos filhos de Israel recebeu justa retribuição, ou seja, a retribuição não é problema causado por Deus, antes consequência do pecado.

A Bíblia é clara:

“Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta. Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.” (Tiago 1:13-14);

Embora a tentação seja fruto da condição humana, Deus não deixará que sucumbir, pois se vier a tentação, Deus dará o escape.

“Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado.” (Hebreus 4:15).

Certo é que Jesus orienta os seus ouvintes sobre não ficar ansiosos pelo dia de amanhã, pois o amanhã cuidará de si mesmo, e o mal de cada dia é suficiente.

“Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.” (Mateus 6:34).

Além de ler mal a abordagem do apóstolo Paulo, ao dizer que o hino sueco “Dia a dia” tem por base a passagem de Deuteronômio 33, verso 25, se realmente o é, compromete a poesia do poeta.

“E de Aser disse: Bendito seja Aser com seus filhos; agrade a seus irmãos, e banhe em azeite o seu pé. Seja de ferro e de metal o teu calçado; e a tua força seja como os teus dias.” (Deuteronômio 33:24-25).

Ao dizer: ‘… a tua força seja como os teus dias’, Moisés somente declarou que a força de Aser seria muita, como os seus dias. Não há supedâneo no versículo para a ideia de que se trata da ‘quantidade de problemas que podemos suportar a cada dia’.

 

Deus concede dor e misericórdia?

O alegado por Piper de que Deus dá dor para cada dia e, que também dá novas misericórdias é um absurdo. Mas, o pior é citar Lamentações 3, versos 22 e 23 para embasar tal posicionamento.

“As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; Novas são cada manhã; grande é a tua fidelidade.” (Lamentações 3:22-23).

As misericórdias apontadas por Jeremias não têm em vista indivíduos e nem eventos do dia a dia. Jeremias aponta para a misericórdia do Senhor como causa da preservação da nação de Isael e por isso ela não era completamente destruída, diferente do que ocorria com os membros de Israel em particular. O profeta Jeremias  lamenta e aponta para a misericórdia de Deus com relação a preservação da nação, portanto, o versículo não se aplica a indivíduos em particular.

Quando Habacuque roga a Deus que lembrasse da misericórdia tinha em mente a preservação da nação de Israel, embora ele soubesse que inúmeros filhos de Israel seriam mortos no confronto com os caldeus. Embora a ira do Senhor fosse contra membros da nação por serem infiéis à aliança, quando roga pela misericórdia, Habacuque tem em mente a promessa feita a Abraão.

“Ouvi, SENHOR, a tua palavra, e temi; aviva, ó SENHOR, a tua obra no meio dos anos, no meio dos anos faze-a conhecida; na tua ira lembra-te da misericórdia.” (Habacuque 3:2).

Como Deus prometeu a Abraão, mesmo os filhos de Israel sendo rebeldes, Deus sempre preservou um remanescente porque Ele é fiel.

“Não é por causa da tua justiça, nem pela retidão do teu coração que entras a possuir a sua terra, mas pela impiedade destas nações o SENHOR teu Deus as lança fora, de diante de ti, e para confirmar a palavra que o SENHOR jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó.” (Deuteronômio 9:5);

“Se o SENHOR dos Exércitos não nos tivesse deixado algum remanescente, já como Sodoma seríamos, e semelhantes a Gomorra.” (Isaías 1:9).

Com relação a nação de Israel a misericórdia de Deus é incondicional e irrestrita, por isso ela é descrita como novas a cada manhã e que não tem fim. A fidelidade de Deus à sua palavra anunciada a Abraão é imutável!

“E estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência depois de ti em suas gerações, por aliança perpétua, para te ser a ti por Deus, e à tua descendência depois de ti. E te darei a ti e à tua descendência depois de ti, a terra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã em perpétua possessão e ser-lhes-ei o seu Deus.” (Deuteronômio 17:7-8).

A natureza da misericórdia de Deus para com a nação de Israel é diferente da natureza da misericórdia de Deus para com os membros da nação de Israel, como se lê:

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos. E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará.” (Deuteronômio 7:9-10).

Como Deus é fiel, e Abraão foi obediente a palavra de Deus, Deus tem guardado a sua aliança e misericórdia até mil gerações, porém, aos membros da nação de Israel em particular, se não guardarem os mandamentos de Deus, Deus os fará perecer, a exemplo do que ocorreu com todos que saíram do Egito, exceto dois.

O livro Lamentações de Jeremias retrata exatamente essa verdade, pois como os filhos de Israel não obedeceram a Deus, foram desterrados e muitos pereceram pela espada, peste, fome, etc., mas o profeta ainda conseguia louvar a Deus porque jamais se esqueceria da boa palavra anunciada a Abraão.

É esdrúxula a aplicação do texto de Lamentações para enfatizar que ‘existem misericórdias suficientes para cada dia’. A misericórdia de Deus é única e evidenciada em Cristo, o Senhor.

“Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia.” (Romanos 11:32).

O evangelho não se ocupa com fardos de hoje ou amanhã, ou dos problemas de hoje ou de amanhã, antes tem por objetivo conscientizar os homens que devem tomar o jugo de Jesus, sujeitando-se a Ele como servos, e carregar o fardo de Cristo.

“Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (Mateus 11:30).

O alerta do apóstolo Pedro não se aplica as questões do dia a dia, e sim às vicissitudes decorrentes do evangelho.

“Amados, não estranheis a ardente prova que vem sobre vós para vos tentar, como se coisa estranha vos acontecesse; Mas alegrai-vos no fato de serdes participantes das aflições de Cristo, para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e alegreis.” (1 Pedro 4:12-13).

Ser provado por causa do evangelho não é algo estranho, antes as aflições atingem os cristãos do mundo todo por causa do evangelho, daí a necessidade de permanecer firme em Cristo, a nossa fé.

“Ao qual resisti firmes na fé, sabendo que as mesmas aflições se cumprem entre os vossos irmãos no mundo.” (1 Pedro 5:9).

Piper novamente se equivoca ao considerar o maná como misericórdia, sendo que, na verdade, era uma prova, e os murmuradores em Israel foram reprovados. Foram reprovados porque não acataram o mandamento de Deus e colheram porção superior ao determinado para cada dia!

“Então disse o SENHOR a Moisés: Eis que vos farei chover pão dos céus, e o povo sairá, e colherá diariamente a porção para cada dia, para que eu o prove se anda em minha lei ou não.” (Êxodo 16:4).

A misericórdia de Deus manifesta em Cristo é para um problema insolúvel para os homens: a salvação da alma! A misericórdia de Deus não tem relação com os problemas diários, antes visa prover algo que ao homem é impossível alcançar.

“Os seus discípulos, ouvindo isto, admiraram-se muito, dizendo: Quem poderá, pois, salvar-se? E Jesus, olhando para eles, disse-lhes: Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível.” (Mateus 19:25-26).

Para as questões debaixo do sol não temos que ter consciência de que tudo ocorre igualmente a todos!

“Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento.” (Eclesiastes 9:2).

Com relação às questões dessa vida o cristão deve estar cônscio de que depende do suor do rosto para comer, portanto, jamais comerá em função da misericórdia de Deus, como arremata Piper.

“No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás.” (Gênesis 3:19).

O apóstolo Paulo aponta para a fidelidade de Deus quando fala das coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Lembrando que todos os ressurretos com Cristo se encontra em igual posição: assentados nas regiões celestiais (Colossenses 3:1; Efésios 1:3 e 2:6).

Se os cristãos foram chamados para comunhão com Cristo, Deus é fiel e manterá tal comunhão, pois é Ele que justifica, santifica e torna irrepreensíveis os que creem em Cristo (1 Coríntios 1:9; 1 Tessalonicenses 5:24).

Esse artigo serve de alerta para julgarmos os espíritos, se eles procedem de Deus ou não, pois há muitos que saíram de nós (1 João 2:19), porém, ainda há muitos que continuam se banqueteando conosco (Judas 1:12).

Claudio Crispim

É articulista do Portal Estudo Bíblico (https://estudobiblico.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web. Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, Brasil, em 1973. Aos 2 anos de idade sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai, ‘in memória’, exerceu o oficio de motorista coletivo e, a mãe, é comerciante, sendo ambos evangélicos. Cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco, se formando em 2003, e, atualmente, exerce é Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. Casado com a Sra. Jussara, e pai de dois filhos: Larissa e Vinícius.

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