Judas – Defesa da fé

Judas sentiu a necessidade de concitar os cristãos a batalharem pela fé, ou seja, a lutarem em defesa da doutrina do evangelho (Filipenses 1.27), tendo em vista que algumas pessoas, que se diziam cristãs, estavam transtornando a mensagem do evangelho.


Judas em defesa da fé

“JUDAS, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago, aos chamados, santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo: Misericórdia, e paz, e amor vos sejam multiplicados”(Judas 1.1)

 

Apresentação

Judas se apresenta aos destinatários da carta como servo (δοῦλος – doulos) de Cristo e irmão de Tiago.

Ambos, Judas e Tiago, eram filhos de José e Maria, e, por sua vez, irmãos de Cristo segundo a carne por parte de Maria.

“Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas?” (Mateus 13.55).

Na apresentação fica evidente que Judas, apesar de ser irmão de sangue de Jesus, não se considerava privilegiado em relação aos demais cristãos quanto à salvação, pois a salvação em Cristo é comum a todos quantos crerem em Cristo como Senhor.

“À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso SENHOR Jesus Cristo, Senhor deles e nosso:” (1 Coríntios 1.2).

Observe que o crente Judas não se arroga no direito de escrever aos cristãos na condição de apóstolo de Cristo, embora reunisse em si todas as condições necessárias para fazê-lo, pois ele viu Jesus em carne. Mas, como não figura no rol dos doze discípulos escolhidos por Jesus (Mateus 9.1-4), Judas não se apresenta como apóstolo. Apesar de ser irmão de Jesus, com vínculo de sangue por causa de Maria, Judas demonstra através desta apresentação que se submeteu ao senhorio de Jesus Cristo como todos os demais cristãos.

“Judas, servo de Jesus Cristo…” (v. 1).

Foi na condição de servo obediente a Cristo que Judas escreveu aos cristãos (chamados), ou seja, àqueles que ouviram a mensagem do evangelho e creram. Através da mensagem do evangelho os cristãos foram chamados para serem propriedade (pertencerem) peculiar de Deus.

“Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” (Romanos 1:6).

Os cristãos estavam em Deus (1 João 3.24; 4.16), portanto, sobre a proteção do amor (cuidado) do Pai, e em Cristo Jesus guardados.

“Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Colossenses 3.3; 1 Pedro 1.5; Romanos 1.6; Êxodo 16.5).

 

Santos em Cristo

Toda e qualquer pessoa que ouve, crê e confessa a essência do evangelho são santos (2 Coríntios 1.1), pois o evangelho é água limpa que purifica o homem (Atos 26.18; João 15.3). Por ‘santificado’, ‘santo’ entende-se ‘separado’, uma propriedade para uso exclusivo de Deus. Por pertencer a Deus os cristãos são nomeados ‘santos’.

“E ser-me-eis santos, porque eu, o SENHOR, sou santo, e vos separei dos povos, para serdes meus” (Levítico 20.26);

“Entre as quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo” (Romanos 1.6).

O nome ‘santo’ decorre única e exclusivamente da condição da nova criatura, que está ’em Cristo’. Ser santo não decorre de questões morais ou de caráter (Romanos 1.7). O cristão alcançou a santificação ao crer em Cristo, mas como ocorre a santificação?

Nas Boas Novas de salvação há um convite, um chamado, e em função deste convite é dito que muitos são ‘chamados’. Mas, como são poucos os que atendem o ‘chamado’, é dito que poucos são escolhidos. A ordem ‘entrai’ pela porta estreita é direcionado a todos os homens, mas são poucos os que a encontram, ou seja, os que encontram a porta estreita são os escolhidos.

“Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos (Mateus 22.14; 7.13-14; 1 Coríntios 1.26);

“Esta é a porta do SENHOR, pela qual os justos entrarão.” (Salmos 118.20).

Observe que Cristo é a porta do Senhor, mas quem entra por Cristo é justo. ‘Escolhido’ e ‘justo’ são designações pertinentes a quem entrou por Cristo, e não uma seleção de quem entrará, ou que só quem já é justo entra por Cristo.

Os cristãos foram chamados quando evangelizados, e se tornaram escolhidos quando creram na mensagem do evangelho. No entanto, a Bíblia apresenta um outro chamado, que é diferente da ordem para entrar por Cristo, a porta estreita. Com relação ao convite do evangelho muitos são chamados, mas aqueles que estão em Cristo todos são designados ‘escolhidos’, ‘chamados’, ‘eleitos’.

Todos os salvos são nomeados ‘chamados’, ‘escolhidos’ e ‘eleitos’ em vista da vocação em Cristo, pois todos em Cristo são eleitos e predestinados. Cristo é o eleito de Deus, e os cristãos, por serem geração de Cristo, são santos e irrepreensíveis (Efésios 1.4). Por causa da vocação em Cristo, todos os salvos estão predestinados a serem conforme a imagem de Cristo, objetivando a primogenitura de Cristo, pois Ele é e será o primogênito entre muitos irmãos.

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8.29).

Os que são ‘chamados’, ou seja, aqueles que ouvem a mensagem do evangelho (poder de Deus) e creem (escolhidos), recebem poder para serem feitos (criados) filhos de Deus. Agora, na condição de salvos em Cristo, todos são chamados com santa vocação segundo o eterno propósito de Deus: a preeminência de Cristo em todas as coisas. Para salvação tem-se o evangelho, para o propósito estabelecido em Cristo, temos a eleição e a predestinação (João 1.12; 2 Timóteo 1.8-9; Efésios 3.11).

A nova criatura proveniente do poder criativo de Deus pertence exclusivamente a Deus (Efésios 4.24; 2 Coríntios 5.17), diferentemente da velha criatura, que é proveniente da semente corruptível de Adão e que pertence ao pecado. Como a nova criatura proveniente da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, é gerada em verdadeira justiça e santidade, agora, ela é designada ‘santa’, ‘irrepreensível’ (1 Pedro 1.23; Efésios 4.24).

A raiz da qual se origina a palavra ‘santificados’, e outras correlatas, é proveniente do vocábulo grego “hágios”, que na tradução do grego significa ‘o sublime’, ‘o consagrado’, ‘o venerável’, sem qualquer referência às questões de ordem moral ou comportamental. O termo ‘hágios’ aponta especificamente para questões de ordem funcional, pois entre os gregos tudo era definido pela função[1].

Quando o ‘servo’ de Jesus, Judas, nomeou os cristãos de ‘santos’, utilizou a raiz do vocábulo grego ‘hagios’, para enfatizar que os cristãos são propriedade de Deus, por pertencerem a Deus são verdadeiramente e inteiramente santos. Os cristãos, por serem gerados de novo, criados segundo a palavra da verdade e participantes da natureza divina (2 Pedro 1.4), são declarados santos porque Deus os separou por Seu.

Assim como os cristãos são nomeados ‘santos’, também são nomeados ‘primícias’ e ‘primogênitos’, porque funcionalmente são propriedades do Senhor. Nomear os cristãos de ‘primícias’ e ‘primogênitos’ são hebraísmo, que remetem a propriedade.

“À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hebreus 12.23);

“Mas o primogênito de um animal, por já ser do SENHOR ninguém o santificará; seja boi ou gado miúdo, do SENHOR é” (Levítico 27.26);

“Porque meu é todo o primogênito entre os filhos de Israel, entre os homens e entre os animais; no dia em que, na terra do Egito, feri a todo o primogênito, os santifiquei para mim (Números 8.17).

Em momento algum a santificação é apresentada na Bíblia como gradual ou processual. A ideia de que a santificação é processual decorre do trabalho e do entendimento de alguns lexicógrafos, que ao longo dos anos ‘amalgamaram’ ao termo ‘hagios’ a ideia de que santo é ‘aquilo que merece e exige reverência moral e religiosa’, sendo que esta não era a proposta dos apóstolos.

Para ser salvo basta ao homem crer na mensagem do evangelho, a graça de Deus que é ofertada através da revelação de Cristo Jesus aos homens, e é Deus que opera o milagre da Regeneração, a sua obra perfeita, visto que, para ser salvo é necessário nascer de novo (João 6.29).

Desta forma, segue-se que os de novo nascidos segundo a semente de Deus são guardados em Jesus Cristo, como bem demonstrou o apóstolo Paulo:

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoará, confirmará, fortificará e fortalecerá” (1 Pedro 5.10).

É Deus quem chama os cristãos à sua eterna glória por intermédio do evangelho de Cristo, e Ele mesmo há de conservá-los irrepreensíveis até a vinda de Cristo (1 Tessalonicenses 5.23-24).

 

Saudação

Quando o irmão Judas saudou os cristãos nos mesmos moldes que os apóstolos, ele o fez confiado em Deus que multiplica misericórdia, paz e amor. Após se identificar, Judas identifica os destinatários da carta como ‘chamados’, e os saúda com a misericórdia, a paz e o amor de Deus (v.2).

“A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (Romanos 1.7).

A misericórdia (prover de bem a quem merecia o mal), a paz (comunhão com Deus) e o amor (o cuidado de Deus) decorrem do evangelho de Cristo. Quando Judas solicita a Deus que benesses se multipliquem, ele tem em mente a mesma oração do apóstolo Paulo:

“E oro para que, estando arraigados e fundados em amor, possais perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” (Efésios 3.18).

O amor de Cristo já foi derramado sobre os cristãos em misericórdia, paz e amor, porém, é necessário compreender qual a dimensão deste amor. A compreensão revelará quais foram as benesses concedidas sem medida.

 

“Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos. Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (Judas 1.2-4)

Este verso demonstra que a epístola de Judas é fruto de uma necessidade, e não de mera frivolidade. Judas envidou todo esforço para escrever está epístola acerca da salvação que todos haviam alcançado, mas ao perceber que havia algumas pessoas mal-intencionadas infiltradas entre os cristãos, teve por necessidade exortar os cristãos a defenderem o evangelho.

Ao perceber que alguns homens ímpios estavam dissimuladamente introduzindo na comunidade cristã heresias de perdição, Judas viu o quanto era necessário concitar os cristãos a batalharem pela ‘fé’, ou seja, a se engajarem na luta pela doutrina do evangelho.

Estes indivíduos se introduziram em meio aos que professavam o evangelho e ensinavam doutrinas provenientes de uma concepção carnal, pois pervertiam a graça de Deus ao negar que Jesus era o Cristo. Judas descreve esses homens como ímpios, cuja atuação foi prevista no passado: perverter a graça de Deus em dissoluções, negando a essência da fé: Jesus Cristo Soberano Senhor (2 Pedro 2.1-2).

“Saiba, pois, com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.” (Atos 2.36).

Não podemos confundir o ajuntamento solene de pessoas, onde os ímpios também podem comparecer, com a Igreja de Cristo, que é formada somente por aqueles que efetivamente são membros do corpo de Cristo. Para fazer parte do corpo de Cristo como membro é necessário comungar da fé (doutrina) dos apóstolos: crer que Deus ressuscitou Cristo dentre os mortos e confessar a Cristo como Senhor (Romanos 10.9).

Os homens somente se tornam membros da igreja de Cristo quando batizados em um só espírito, ou seja, nas palavras de Cristo que são espírito e vida (João 6.63). É possível que haja heresias, mas jamais o corpo de Cristo, a Igreja de Deus, será maculado, pois, só é membro do corpo o batizado no único e verdadeiro batismo: batismo na morte de Cristo (Efésios 4.4 -6; Romanos 6.3; 1 Coríntios 12.13).

A exortação no início da epístola de Judas remete à recomendação do apóstolo Paulo aos Filipenses:

“O que é mais importante, deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo. Então, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais firmes em um mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho” (Filipenses 1.27).

 

“Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (Judas 1.4)

 

Ímpios

Os homens que dissimuladamente se introduziram na comunidade cristã negavam a Cristo, único Soberano e Senhor, são nomeados ‘ímpios’. Eles procuravam transtornar o evangelho ao impor as suas sujidades (doutrinas de engano). Quando Judas fez alusão aos ímpios, não estava se referindo aos descrentes, mas aqueles que se diziam irmãos e eram devassos.

“Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem; Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” (1 Coríntios 5.10-11).

A partir do momento que se iniciou a proclamação do evangelho aos povos, os seguidores de Jesus foram perseguidos e confrontados pelos judaizantes. Em um primeiro momento, os cristãos foram confrontados pelos judaizantes, ao imporem a necessidade de os cristãos convertidos dentre os gentios se circuncidarem segundo a lei de Moisés (Atos 15.1), embora Jesus e os apóstolos não tenham dado mandamento algum neste sentido.

“Porquanto ouvimos que alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras, e transtornaram as vossas almas, dizendo que deveis circuncidar-vos e guardar a lei, não lhes tendo nós dado mandamento” (Atos 15.24).

Os judaizantes queriam introduzir no evangelho elementos da lei mosaica, ou seja, deitar fermento à massa dos ázimos da sinceridade (evangelho), quando concitavam os cristãos a se circuncidarem. O apóstolo Paulo, porém, alerta que tal apelo é fruto de um outro evangelho (Gálatas 1.6-7), e que tal chamado não é proveniente de Cristo (Gálatas 5.8), e que estes homens queriam submeter novamente os cristãos à escravidão.

“Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade” (1 Coríntios 5.7-8);

“Um pouco de fermento leveda toda a massa” (Gálatas 5.9).

Os judaizantes negavam a eficácia da obra de Cristo, uma vez que, para se salvar, os cristãos convertidos dentre os gentios precisavam adotar práticas da lei, dentre elas a circuncisão do prepúcio da carne. Para ser salvo é suficiente crer que Jesus é o Filho de Deus, uma vez que, a salvação não está em ser descendente da carne de Abraão e nem em se tornar um prosélito (Gálatas 5.13).

Jesus alertou: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.” (Mateus 10.37), ou seja, quem dá mais valor à sua descendência ou nação não é digno de Cristo. O apóstolo Paulo deixou claro que, para ganhar a Cristo, abriu mão de todo conhecimento e práticas judaicas que, por tradição, herdou dos seus (Filipenses 3.4; Romanos 9.3).

Os ‘infiltrados’ entre os cristãos são descritos como transtornadores (perverter) da graça que se revela em Cristo Jesus, o único Soberano e Senhor. Como? Negando-O como Soberano Senhor, ou seja, contrariando o testemunho das Escrituras:

“Ao SENHOR dos Exércitos, a ele santificai; e seja ele o vosso temor e seja ele o vosso assombro” (Isaías 8.13; 1 Pedro 3.15).

Temos na epístola de Judas uma confissão da deidade de Cristo, pois o próprio irmão de Jesus segundo a carne se refere a Cristo como Soberano Senhor, em consonância com o anunciado pelos profetas na Antiga Aliança: Deus conosco, nosso Salvador (Romanos 10.9).

O intuito dos que desejavam transtornar o evangelho de Cristo é flagrante ação do anticristo, visto que, a ação do anticristo é negar que Jesus de Nazaré é o Cristo, o Filho do Deus vivo, negativa que compromete a verdade do evangelho.

“Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega o Pai e o Filho” (1 Jo 2.22).

O apóstolo João chama os ‘infiltrados’ de anticristos porque negavam a Jesus como Senhor e Cristo (1 João 2.22-23).

Judas adverte que as Escrituras já haviam previsto que haveria tais homens ímpios, e nos versos 5 à 6 demonstra onde tal predição se encontra nas Escritura. Assim como o apóstolo Paulo entendia que tudo o que consta nas Escrituras foi deixado para o ensino dos cristãos, Judas demonstra, através da história de Israel, que em meio aos cristãos também haveria enganadores (2 Pedro 2.1).

“Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança” (Romanos 15.4).

A sentença dos que rejeitam a verdade (não creem) foi prevista há muito tempo: destruição. Os que odeiam a Deus, ou seja, que não guardam o seu mandamento, estão destinados à perdição, pois permanecem na iniquidade.

“Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êxodo 20.5-6; Salmos 81.11-12).

Quando Moisés rogou a Deus para perdoar o pecado do povo de Israel por fazerem um bezerro de ouro, foi dito por Deus: “Então disse o SENHOR a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei do meu livro” (Êxodo 32.33), dando a entender o que foi anunciado posteriormente pelo profeta Ezequiel: ‘A alma que pecar, esta mesma morrerá’.

“Eis que todas as almas são minhas; como o é a alma do pai, assim também a alma do filho é minha: a alma que pecar, essa morrerá” (Ezequiel 18.4).

Embora Deus tenha dado ordem a Moisés para conduzir o povo de Israel pelo deserto, mais tarde foram destruídos no deserto, entrando somente dois dos que saíram do Egito na terra prometida, porque Deus disse: “porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado” (Êxodo 32.33), ou seja, nesta palavra estava predito a destruição dos que não creram.

“Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém no dia da minha visitação visitarei neles o seu pecado. Assim feriu o SENHOR o povo, por ter sido feito o bezerro que Arão tinha formado” (Êxodo 32.34-35).

Ora, rejeitar a Cristo como Senhor é causa de eterna perdição (2 Tessalonicenses 1.8-9), o que também foi predito pelos profetas acerca dos líderes de Israel, como se lê:

“A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se a cabeça da esquina” (Salmos 118.22);

“Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e rocha de escândalo, às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” (Isaías 8.14).

Há muito tempo estava previsto, por boca dos profetas, que aqueles que rejeitassem a verdade seriam passíveis de destruição, leitura semelhante a que foi feita pelo apóstolo Pedro:

“E assim para vós, os que credes, é preciosa, mas, para os rebeldes, A pedra que os edificadores reprovaram, Essa foi a principal da esquina, e uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados (1 Pedro 2.7-8). Compare:

“Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo…” (Judas 1.4).

Na segunda carta do apóstolo Pedro é feito alusão aos mesmos homens ímpios que se infiltraram em meio aos cristãos:

“E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita (2 Pedro 2.1 -2).

A sentença de destruição sobre os filhos de Jacó é enfatizada pelos escritores do Novo Testamento todas as vezes que apresentam o povo de Israel como exemplo de desobediência. 

 

“Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram; E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia; Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno” (Judas 1.5).

 

Exemplos de incredulidade

Embora os cristãos já soubessem da necessidade de estarem engajados na defesa da verdade do evangelho, Judas escreveu para trazer à lembrança algo que já sabiam: o que ocorreu com o povo que foi tirado do Egito (Judas 1.5; Filipenses 3.1; Hebreus 3.14).

Para relembrá-los da necessidade de perseverarem firme no evangelho (fé que foi dada aos santos), Judas apresenta três questões pertinentes aos filhos de Israel que saíram do Egito:

  1. a) a destruição dos que não creram após o povo de Israel ser resgatado do Egito (v. 5; Hebreus 4.11);
  2. b) e os anjos que não guardaram a sua posição, estão na escuridão e em cadeias até o dia do juízo (v. 6), e;
  3. c) os que não creram e foram destruídos são comparados aos habitantes das cidades de Sodoma e Gomorra, e cidades adjacentes, que se entregaram a prostituição, são exemplo de punição (v. 7).

O Senhor Jesus, àquele que os homens ímpios estavam negando, é o mesmo Senhor que resgatou o povo de Israel da escravidão no Egito, mas escondeu o Seu rosto deles.

“E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” (1 Coríntios 10.4).

Por causa da incredulidade dos filhos de Israel, o Senhor, que os resgatou do Egito, escondeu o Seu rosto deles.

“E disse: Esconderei o meu rosto deles, verei qual será o seu fim; porque são geração perversa, filhos em quem não há lealdade” (Deuteronômio 32.20).

O profeta Isaías, ao falar da salvação, aponta para o Senhor que esconde o seu rosto da casa de Jacó, pois o resplendor da glória de Cristo é a misericórdia de Deus manifesta aos homens.

“E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei” (Isaías 8.17);

“O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti” (Números 6.25);

“Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2 Coríntios 4.6; Salmos 80.3).

Através desta pequena alusão à desobediência do povo de Israel, Judas trouxe à memória dos irmãos uma lição que eles já haviam aprendido (v. 5). Uma lição que o escritor aos Hebreus também enfatiza:

“Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram” (Hebreus 4.2).

Sobre o resgate de Israel do Egito e os que foram destruídos no deserto, podemos nos socorrer dos ensinamentos do apóstolo Paulo. Embora tenha sido resgatado do Egito um povo, nem todos eram israelitas de fato “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas” (Romanos 9.6). Da mesma forma, nem todos que se apresentavam na assembleia solene dos santos eram verdadeiramente membros do corpo de Cristo.

Os que pereceram no deserto eram descendentes da carne de Abraão, porém, pela incredulidade que havia neles, não eram contados como filhos de Abraão. Na condição de descendentes da carne de Abraão foram resgatados do Egito, porém, por não terem a mesma fé que o crente Abraão, não foram contados como filhos de Deus.

Através desta pequena referência a Israel, Judas esperava que os cristãos considerassem que Deus resgatou Israel da escravidão do Egito transtornando os pensamentos de Faraó para tornar conhecido o seu nome em toda a terra, e cumprir a palavra dada aos pais: Abraão, Isaque e Jacó. Deus fez de Israel sua propriedade particular dentre todos os povos da terra.

“Mas, deveras, para isto te mantive, para mostrar meu poder em ti, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra” (Êxodo 9.16).

Embora saiu do Egito um povo livre da escravidão do Egito, contudo, cada membro do povo de Israel, em particular, ainda era prisioneiro do pecado, pois não confiavam verdadeiramente em Deus (Deuteronômio 9.4 e 6). Tomando Israel como exemplo, os cristãos deveriam considerar que, para serem participantes do corpo de Cristo, é imprescindível crer na verdade do evangelho e permanecer no evangelho (Colossenses 2.7).

Da mesma forma que foram destruídos os descrentes dentre o povo de Israel, visto que somente dois homens entraram na terra prometida (Números 26.65), os ímpios à época de Judas igualmente haveriam de ser destruídos por não crerem em Cristo (1 Pedro 4.17; Romanos 2.8).

Os filhos de Israel não eram salvos porque pesava sobre eles a condenação proveniente de nascimento segundo a maldição que há na semente corruptível de Adão (Salmos 53.3; Salmos 58.3). A circuncisão do prepúcio da carne não livrava os filhos de Jacó da condenação herdada de Adão. Somente quando circuncidassem o prepúcio do coração estariam livres do pecado, o que é realizado por Deus, sem auxílio de mãos humanas (Colossenses 2.11).

O irmão Judas propôs reavivar na lembrança dos cristãos um conhecimento que já dispunham, pois amplamente era lido nas Escrituras o que ocorreu com os desobedientes de Israel. O exemplo de desobediência dos filhos de Israel é apresentado aos cristãos para não incorrerem no mesmo erro:

“Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência. Porque também a nós foram pregadas as boas novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram (…) Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” (Hebreus 4.1-2 e11).

O apóstolo Paulo também faz referência a Israel como exemplo negativo:

“E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: O povo assentou-se a comer e a beber, e levantou-se para folgar. E não nos prostituamos, como alguns deles fizeram; e caíram num dia vinte e três mil. E não tentemos a Cristo, como alguns deles também tentaram, e pereceram pelas serpentes. E não murmureis, como também alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor. Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos” (1 Coríntios 10.6-11).

 

Anjos ou mensageiros

O termo traduzido por ‘anjo’ no Novo Testamento é ἄγγελος (ággelos), que pode fazer referência a um mensageiro (homem) ou a um ser celestial (anjo). É consenso que somente o contexto onde o termo ἄγγελος é empregado possibilita determinar se o termo faz referência a um mensageiro humano (profeta) ou a um ser celestial.

Por exemplo, temos João Batista, um mensageiro humano, e o termo ἀγγέλους (ággelos) é empregado quando da citação do profeta Malaquias:

“João é aquele de quem está escrito: Adiante da tua face envio o meu anjo, que preparará diante de ti o teu caminho” (Mateus 11.10; Malaquias 3.1).

O termo também é empregado para um ser celestial, conforme demonstra o contexto:

“E um anjo do Senhor lhe apareceu, posto em pé, à direita do altar do incenso.” (Lucas 1.11).

Em razão do uso do termo ‘ággelos’ ser comum a homens e anjos, destacando-lhes a missão de mensageiros, se faz indispensável para a leitura e compressão do verso 6, de Judas, compreender o contexto.

“E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia;” (v. 6).

Consideremos o Salmo 78, que contém um resumo da história de Israel:

“Porque ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e pôs uma lei em Israel, a qual deu aos nossos pais para que a fizessem conhecer a seus filhos. Para que a geração vindoura a soubesse, os filhos que nascessem, os quais se levantassem e a contassem a seus filhos; Para que pusessem em Deus a sua esperança, e se não esquecessem das obras de Deus, mas guardassem os seus mandamentos” ( Sl 78:5 ).

Qual era o encargo de cada membro do povo de Israel? Tinham que relatar aos seus filhos o que Deus havia feito para com os pais, de modo que os filhos que nascessem contassem aos seus filhos, e assim por diante. Considerando a ordem de Deus, todos em Israel eram mensageiros de Deus, comissionados a repassar aos seus filhos o testemunho estabelecido em Jacó.

“Tão-somente guarda-te a ti mesmo, e guarda bem a tua alma, que não te esqueças daquelas coisas que os teus olhos têm visto, e não se apartem do teu coração todos os dias da tua vida; e as farás saber a teus filhos, e aos filhos de teus filhos.” (Deuteronômio 4.9).

No segundo livro das Crônicas dos reis de Israel ficou registrado o seguinte:

“E o SENHOR Deus de seus pais, falou-lhes constantemente por intermédio dos mensageiros, porque se compadeceu do seu povo e da sua habitação. Eles, porém, zombaram dos mensageiros de Deus, e desprezaram as suas palavras, e mofaram dos seus profetas; até que o furor do SENHOR tanto subiu contra o seu povo, que mais nenhum remédio houve” (2 Crônicas 36.15-16).

Sobre essa questão, afirmou o escritor aos Hebreus:

“HAVENDO Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo” (Hebreus 1.1-2).

Quem é o anjo que o Pregador alerta para não dizer que foi um erro?

“Não consintas que a tua boca faça pecar a tua carne, nem digas diante do anjo que foi erro; por que razão se iraria Deus contra a tua voz, e destruiria a obra das tuas mãos?” (Eclesiastes 5.6).

Pelo contexto, percebe-se que este anjo é um sacerdote, e não um ser celestial. Na verdade, ao instruir os filhos de Israel a atentarem mais para o que era ensinado no templo, do que se apressar e fazer um voto, ou oferecer um sacrifício, que o ofertante não tinha condições de pagar ou cumprir (Eclesiastes 5.1-5), e depois, comparecer diante do sacerdote e dizer que foi um erro ao votar o que não tinha como cumprir (Eclesiastes 5.7; 1 Samuel 15.22).

É sabido que Deus é a habitação de Israel:

“O Deus eterno é a tua habitação, e por baixo estão os braços eternos; e ele lançará o inimigo de diante de ti, e dirá: Destrói-o.” (Deuteronômio 33.27).

Mas, se os filhos de Israel se rebelassem, seriam rejeitados e destruídos:

“Também Deus te destruirá para sempre; arrebatar-te-á e arrancar-te-á da tua habitação, e desarraigar-te-á da terra dos viventes. (Selá.)” (Salmos 52.5).

É importante frisar, que o apóstolo Pedro, quando apresentou o povo de Israel como exemplo negativo, pois havia falsos profetas no meio do povo, ou acerca dos profetas que ministravam bênçãos que não era para os filhos de Israel, acaba fazendo uso do termo grego ‘ággelos’, comumente traduzido por seres celestiais (anjos):

“E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores (…) Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram…” (2 Pedro 2.1 e 4);

“Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar” (1 Pedro 1.12).

Semelhantemente, o irmão Judas faz uso do termo ‘ággelos’ após fazer uma alusão negativa do povo de Israel:

“Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram; e aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia” (Judas 1.6).

O escritor aos Hebreus também faz uso do termo ‘ággelos’ quando contrapôs a condição dos cristãos diante de Deus, e o exemplo negativo do povo de Israel quando se apresentou diante de Deus no monte Sinai que fumegava:

“Mas chegastes ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos; À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados (…) Vede que não rejeiteis ao que fala; porque, se não escaparam aqueles que rejeitaram o que na terra os advertia, muito menos nós, se nos desviarmos daquele que é dos céus (Hebreus 12.22 -23 e 25).

O escritor aos Hebreus também utiliza o termo ‘ággelos’ bem no início da sua epístola:

“HAVENDO Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho (…) Porque, se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda a transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição…” (Hebreus 1.1 e Hebreus 2.2; Hebreus 10.28; Atos 7.53).

Em todos os versos citados acima é apresentado um anuncio grave de juízo e condenação para os desobedientes. Todos os versos apontam para uma mensagem anunciada pelos profetas de Deus, e que nenhuma das palavras anunciada por eles falhou.

“Que confirmo a palavra do seu servo, e cumpro o conselho dos seus mensageiros; que digo a Jerusalém: Tu serás habitada, e às cidades de Judá: Sereis edificadas, e eu levantarei as suas ruínas” (Isaías 44.26).

Observando a passagem do escritor aos Hebreus, somos informados de que Deus falou de muitas maneiras ao povo de Israel através dos profetas. Ora, os profetas eram mensageiros de Deus e toda palavra que eles anunciaram ao povo de Israel permaneceram firme, e toda transgressão e desobediência recebeu o justo juízo. A palavra falada que permaneceu firme era a palavra dos profetas ou a palavra de seres celestiais?

“Porque, se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda a transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição,” (Hebreus 2.2).

Pelo contexto, percebe-se que a palavra que permaneceu firme é a falada pelos profetas, sendo que o escritor aos Hebreus utilizou o termo ‘aggelos’ neste verso, e no verso 1, do capítulo 1 ‘prophētais’. O verso 2, do capítulo 2, da epístola aos Hebreus, retoma o que foi exposto no verso 1 do capítulo 1, portanto, o termo ‘ággelos’ (anjos) não se refere a seres celestiais, e sim aos santos profetas, os mensageiros de Deus que antigamente falaram aos pais.

A palavra que permaneceu firme não foi emitida por seres celestiais (Isaías 44.26), antes pelos profetas que falaram de muitas maneiras aos pais (Hebreus 1.1 e Hebreus 2.2), e a mesma mensagem, na plenitude dos tempos, foi notificada pelo Filho aos cristãos (Hebreus 2.3).

“Que confirmo a palavra do seu servo, e cumpro o conselho dos seus mensageiros; que digo a Jerusalém: Tu serás habitada, e às cidades de Judá: Sereis edificadas, e eu levantarei as suas ruínas;” (Isaías 44.26).

Quando escreveu aos Colossenses, o apóstolo Paulo faz referência a um ‘culto aos anjos’. O que seria esse culto? Sabemos que os judaizantes queriam dominar os cristãos com o pretexto de humildade e reverencia cerimonial (θρησκεία) aos anjos (ἀγγέλων), entretanto, verifica-se que os judeus reverenciavam os ‘profetas’, e por isso edificavam os túmulos dos profetas.

“Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão” (Colossenses 2.18);

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos,” (Mateus 23.29).

Se não considerarmos a passagem de Mateus e o fato de que o termo ‘aggelos’ aplica-se a profetas e seres celestiais, a primeira ideia é estabelecer que os judeus cultuavam seres celestiais, sendo que, na verdade, reverenciavam religiosamente os profetas da Antiga Aliança.

É corrente fazer a leitura do verso 12, de 1 Pedro, capítulo 1, como se os seres celestiais quisessem pregar o evangelho:

“Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar (1 Pedro 1.12).

Há uma grande diferença entre ‘pregar o evangelho’ e ‘atentar’, ou seja, perscrutar (olhar para dentro, compreender). Considerando o contexto, tem-se os profetas do Antigo Testamento que profetizavam acerca da graça do evangelho que seria dada aos gentios (1 Pedro 1.10), e eles indagavam e investigavam para saber acerca daquilo que anunciavam e quando tais coisas que o espírito de Cristo lhes revelava aconteceriam. Eles de antemão predisseram os sofrimentos de Cristo e a gloria que havia de suceder, porém, sabiam que tal glória não pertencia a eles, pois foi revelado a eles que o que anunciavam não lhes pertencia (1 Pedro 1.11-12).

Mas, a glória que os profetas do Antigo Testamento ministravam, e que agora era anunciada pelos apóstolos através do Espírito Santo aos cristãos, era o que os profetas, os mensageiros (ággelos) de Deus desejavam perscrutar, ou seja, entender, como que olhando para dentro. Ora, o contexto aponta para os profetas e não para seres celestiais. No entanto, a leitura de que anjos desejaram pregar o evangelho se sedimentou ao longo dos anos, o que promove grande prejuízo à compreensão dos cristãos.

Por causa dessas questões apontadas com relação ao termo ‘ággelos’, a leitura do verso 6 de Judas deve ser feita considerando o que foi dito pelo profeta Jeremias acerca dos profetas e dos sacerdotes contaminados, pois o caminho deles foi descrito como escorregadio na escuridão. Analisando os versos 9 em diante, do capítulo 23, de Jeremias, que aborda a questão dos profetas (mensageiros, anjos), a sequência de ideias utilizadas por Judas para falar da destruição dos filhos de Israel que saíram do Egito e não creram (v. 5), bem como dos ‘mensageiros’ que estão guardados em algemas para o dia da visitação (v. 6), que são comparados aos habitantes de Sodoma e Gomorra (v. 7), pois cometeram adultério e estão postos como exemplos, é semelhante a sequência de temas que são abordados na profecia do profeta Jeremias:

Quanto aos profetas: o meu coração está quebrantado dentro em mim (…) Porque tanto o profeta, como o sacerdote, estão contaminados; até na minha casa achei a sua maldade, diz o SENHOR. Portanto o seu caminho lhes será como lugares escorregadios na escuridão; serão empurrados, e cairão nele; porque trarei sobre eles mal, no ano da sua visitação, diz o SENHOR. Nos profetas de Samaria bem vi loucura; profetizavam da parte de Baal, e faziam errar o meu povo Israel. Mas nos profetas de Jerusalém vejo uma coisa horrenda: cometem adultérios, e andam com falsidade, e fortalecem as mãos dos malfeitores, para que não se convertam da sua maldade; eles têm-se tornado para mim como Sodoma, e os seus moradores como Gomorra.” (Jeremias 23.9 e 11-14).

“Certamente tu os puseste em lugares escorregadios; tu os lanças em destruição.” (Salmos 73.18).

Na profecia de Jeremias temos três pontos a destacar:

  1. Quanto aos profetas – os profetas de Israel eram os mensageiros, os anjos, postos por atalaias em Israel, mas que não guardaram a sua função, e deixaram o Senhor que os resgatou, portanto estão em lugares escorregadios na escuridão, preservados para o ano da visitação;
  2. Nos ministros de Samaria há loucura, mas nos de Jerusalém adultérios;
  3. São comparáveis as cidades de Sodoma e Gomorra.

Na abordagem de Judas, destacam-se três pontos:

  1. O povo de Israel foi resgatado do Egito, mas os que não creram foram destruídos;
  2. Dentre o remanescente que entrou na terra da promessa, os profetas que ficaram por atalaia (Isaias 56.10), não cumpriram com o seu dever (Miqueias 3.11), de modo que foram reservados na escuridão para o juízo do grande dia (Oseias 4.5; Oseias 9.7);
  3. De modo semelhante as cidades de Sodoma e Gomorra, esses que foram destinados à destruição praticaram imoralidades (prostituição), foram postos como exemplo de punição.

O profeta Jeremias anunciou o juízo de Deus sobre todos habitantes de Jerusalém, incluindo os reis, os príncipes, os sacerdotes e os profetas. Estes homens proeminentes em Israel são os ‘ággelos’ (mensageiros) que não guardaram a sua posição (principado).

“Mas tu dize-lhes: Assim diz o SENHOR: Eis que eu encherei de embriaguez a todos os habitantes desta terra, e aos reis da estirpe de Davi, que estão assentados sobre o seu trono, e aos sacerdotes, e aos profetas, e a todos os habitantes de Jerusalém” (Jeremias 13.13; Oseias 9.7-8).

O termo grego ἀρχή, transliterado ‘arché’, também possui o significado de chefe (acima de tudo), ou seja, diz de quem tem o primado porque está à frente do restante (“preeminente”), ou ‘principado’ (Judas 1.6). Como em algumas passagens bíblicas o termo ‘principado’ aplica-se aos seres celestiais, alguns teólogos consideraram que Judas, neste verso, estivesse tratando de anjos. Ora, não só os anjos exercem domínio, mas os homens também, cada qual em sua esfera de atribuição.

Como os filhos de Israel não deram ouvidos a voz de Deus, e os seus príncipes, profetas e sacerdotes não guardarem a sua posição (principado) e deixaram o Deus de Israel, ou seja, o local da sua habitação, o povo foi deportado segundo o juízo de Deus para Babilônia. Deixarem a própria morada (Deus) para juízo (deportação), o que dá um trocadilho, pois deixaram a própria terra quando foram deportados.

“O Deus eterno é a tua habitação, e por baixo estão os braços eternos; e ele lançará o inimigo de diante de ti, e dirá: Destrói-o” (Deuteronômio 33.27);

“Porque uma voz de pranto se ouviu de Sião: Como estamos arruinados! Estamos mui envergonhados, porque deixamos a terra, e por terem eles lançado fora as nossas moradas” (Jeremias 9.19).

Deus havia predito que haveria um grande dia de juízo, um dia de indignação, densas trevas e escuridão (Sofonias 1.15; Joel 2.2; Amós 518). De longa data Deus conclama os moradores de Jerusalém a se emendarem antes do grande e terrível dia.

“Dai glória ao SENHOR vosso Deus, antes que venha a escuridão e antes que tropecem vossos pés nos montes tenebrosos; antes que, esperando vós luz, ele a mude em sombra de morte, e a reduza à escuridão” (Jeremias 13.16).

Esta é a descrição da filha de Sião:

“Mas este é um povo roubado e saqueado; todos estão enlaçados em cavernas, e escondidos em cárceres; são postos por presa, e ninguém há que os livre; por despojo, e ninguém diz: Restitui” (Isaías 42.22).

“E serão ajuntados como presos numa masmorra, e serão encerrados num cárcere; e outra vez serão castigados depois de muitos dias” (Isaías 24.22).

O profeta Jeremias, ao confessar o pecado de Sião, assim descreve o resultado da ira de Deus:

“Assentou-me em lugares tenebrosos, como os que estavam mortos há muito. Cercou-me de uma sebe, e não posso sair; agravou os meus grilhões” (Lamentações 3.6-7).

O mesmo problema quanto ao uso do termo ‘ággelos’ ocorre na segunda carta do apóstolo Pedro:

“E TAMBÉM houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição. E muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita. Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo;” (2 Pedro 2.1-4);

“Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo. Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram; E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia;” (Judas 1.4-6).

Observe a semelhança de abordagem do apóstolo Pedro e Judas:

  1. Ambos demonstram que falsos doutores ou homens ímpios se introduziram na comunidade cristã:
  2. Houve falso profeta em meio ao povo de Israel, e dos que saíram do Egito foram destruídos os que não creram;
  3. Ambos demonstram que os falsos profetas ou homens ímpios negam a Cristo;
  4. Deus não perdoou os mensageiros que pecaram, da mesma forma que os mensageiros que não guardaram o seu principado estão reservados para a destruição.

Após exortar os cristãos a considerarem as palavras dos profetas, pois as profecias não foram produzidas pela vontade dos homens, o apóstolo Pedro destaca que os profetas falavam movidos pelo Espírito Santo (2 Pedro 1.19-21). Em seguida, o apóstolo Pedro destaca a problemática dos falsos doutores, lembrando aos cristãos que em meio ao povo de Israel também houve falsos profetas (2 Pedro 2.1).

Observe que o contexto não faz referência a seres celestiais, antes está focado em apresentar aos cristãos o povo de Israel como exemplo de desobediência e punição, posto que, para os falsos mestres o juízo já estava estabelecido (lavrado) (2 Pedro 2.3). Como a palavra das Escrituras é firme (2 Pedro 1.19), o apóstolo Pedro apresenta quatro exemplos, destacados pela partícula ‘se’:

  1. O juízo dos mensageiros que pecaram (2 Pedro 2.4);
  2. O juízo do mundo pré-diluviano (2 Pedro 2.5);
  3. O juízo de Sodoma e Gomorra (2 Pedro 2.6);
  4. O livramento do justo Ló (2 Pedro 2.7).

Após os quatros exemplos, segue uma conclusão: Deus livra os piedosos, mas reserva os injustos para o dia do juízo para serem castigados (2 Pedro 2.8; Jeremias 23.29-20).

Se há alguma dúvida com relação a abordagens de Judas e o apóstolo Pedro serem a mesma, estes versos são conclusivos:

“Mas principalmente aqueles que segundo a carne andam em concupiscências de imundícia, e desprezam as autoridades; atrevidos, obstinados, não receando blasfemar das dignidades;” (2 Pedro 2.10);

“E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as dignidades.” (Judas 1.8).

Em seguida, Judas e o apóstolo Pedro faz alusão a seres angelicais:

“Enquanto os anjos, sendo maiores em força e poder, não pronunciam contra eles juízo blasfemo diante do Senhor.” (2 Pedro 2.11);

“Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda.” (Judas 1.9).

A abordagem de ambos, Judas e o apóstolo Pedro, deriva de uma passagem do profeta Zacarias, no entanto, Judas cita uma passagem que não consta do Canon conhecido. Supõe-se que Judas citou passagem do livro “A Assunção de Moisés”, um livro apócrifo que continha a narrativa sobre a disputa entre Miguel e o diabo pelo corpo de Moisés, mencionado por Orígenes (c. 185-254), um estudioso e teólogo cristão primitivo. O livro judeu grego “A Assunção de Moisés” perdeu-se, e Orígenes supôs que esta era a fonte da narrativa em Judas.

“E ELE mostrou-me o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do anjo do SENHOR, e Satanás estava à sua mão direita, para se lhe opor. Mas o SENHOR disse a Satanás: O SENHOR te repreenda, ó Satanás, sim, o SENHOR, que escolheu Jerusalém, te repreenda; não é este um tição tirado do fogo?” (Zacarias 3.1-2).

Ora, os seres angelicais não fazem juízo difamador, mesmo com relação aos anjos caídos, como se verifica na passagem de Zacarias, mas os homens que Judas e o apóstolo Pedro estavam abordando em suas epístolas, blasfemavam do que não compreendiam (2 Pedro 2.12; Judas 1.10). Os falsos mestres são como os animais irracionais, que nascem para serem capturados e destruídos, ao que eles receberão pela injustiça a recompensa da injustiça (2 Pedro 2.12-13), e para eles está reservada a escuridão das trevas, pois são estrelas errantes.

“Ondas impetuosas do mar, que escumam as suas mesmas abominações; estrelas errantes, para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas” (Judas 1.13);

“Estes são fontes sem água, nuvens levadas pela força do vento, para os quais a escuridão das trevas eternamente se reserva” (2 Pedro 2.17).

Ambos, o apóstolo Pedro e Judas se socorreram do profeta Isaías:

“Mas os ímpios são como o mar bravo, porque não se pode aquietar, e as suas águas lançam de si lama e lodo.” (Isaías 57.20).

O apóstolo Pedro contrapõe os falsos mestres em meio aos cristãos com os falsos profetas que haviam em meio ao povo de Israel (2 Pedro 2.1). Em seguida, após ser dito que o juízo dos falsos mestres já está estabelecido – ‘o juízo de a muito não tarda e a destruição não dorme’ (2 Pedro 2.3) -, dos mensageiros (ággelos) é dito que não foram poupados por Deus, ou seja, a ira de Deus já sobreveio sobre eles.

“Portanto o seu caminho lhes será como lugares escorregadios na escuridão; serão empurrados, e cairão nele; porque trarei sobre eles mal, no ano da sua visitação, diz o SENHOR (…) Eis que saiu com indignação a tempestade do SENHOR; e uma tempestade penosa cairá cruelmente sobre a cabeça dos ímpios.” (Jeremias 23.12 e 19).

Com relação aos seres celestiais que se rebelaram contra Deus é certo que não foram poupados, antes foram precipitados dos céus, e a eles está reservado o lago de fogo e enxofre.

“E disse-lhes: Eu via Satanás, como raio, cair do céu” (Lucas 10.18);

“Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25.41).

É certo que o ‘lago de fogo e enxofre’ foi criado para todos os anjos que caíram, porém, Satanás e os demônios só serão lançados no lugar destinado a eles no fim dos tempos (Apocalipse 20.10), local que ainda será ‘inaugurado’ pela besta e o falso profeta (Apocalipse 19.20). Deste modo, certo é que no tempo presente não há nenhum ser celestial decaído (Satanás, demônios, diabos, etc.) que esteja preso no inferno.

A única notícia acerca de quando Satanás será preso, aponta para o início do reinado de Cristo antes do milênio.

“Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, e amarrou-o por mil anos” (Apocalipse 20.2).

A queda dos seres celestiais sujeitou a todos debaixo do pecado, e para eles não há resgate. Eles estão sob condenação, visto que não há como se livrarem do juízo estabelecido. Além da eterna condenação que Satanás trouxe sobre si e os seus seguidores, não logrou êxito na sua própria exaltação quando desejou estar acima dos outros anjos (Isaías 14.13). A queda de Lúcifer foi ilustrada como sendo conduzido à cova, o mais profundo do abismo: separação eterna de Deus (Isaías 14.15).

Embora o apóstolo Pedro tenha utilizado o termo ταρταρώσας[2] (tartaroó) para falar da punição dos mensageiros, não podemos pensar o termo do ponto de vista da mitologia grega, como se tratasse de uma região subterrânea, sombria e escura, habitação dos mortos, o local em que eram lançados os titãs e os gigantes que se rebelaram contra Zeus, e os malfeitores sofrem punição pelas suas más obras.

Se o apóstolo Pedro realmente fez referência aos seres celestiais que se rebelaram, pode-se considerar um exemplo de punição a queda dos anjos, visto que estão destinados à perdição eterna. Mas, considerando que o apóstolo Pedro não fez as suas exposições firmado em fábulas artificialmente compostas (2 Pedro 1.16), segue-se que as exposições não se firmam em questões mitológicas ou derivadas das tradições dos judeus.

“Não dando ouvidos às fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens que se desviam da verdade” (Tito 1.14).

Neste sentido, para compreender esta passagem, não se deve lançar mão dos escritos apócrifos como os livros de Enoque, Baruque, Eclesiástico, Sabedoria, etc. As crendices judaicas, principalmente as crendices referentes aos anjos e os nomes a eles atribuídos fora do Canon, não deve ser levado em conta, pois não é essa a recomendação dos apóstolos Pedro e Paulo (2 Pedro 1.16; 1 Timóteo 1.4).

Percebe-se do evento miraculoso no qual o apóstolo Pedro é solto da prisão por um anjo, que os cristãos primitivos entenderam que quem batia à porta do recinto era o anjo de Pedro “E disseram-lhe: Estás fora de ti. Mas ela afirmava que assim era. E diziam: É o seu anjo” (Atos 12.15). Alguns dos discípulos, por sua vez, acreditavam em fantasmas, como se lê: “Mas, quando eles o viram andar sobre o mar, cuidaram que era um fantasma, e deram grandes gritos” (Marcos 6.49).

Também vale destacar que, dependendo de quem é a fala nas Escrituras, a palavra deve ser considerada com reserva. Por exemplo, segue este verso: “Eis que ele não confia nos seus servos e aos seus anjos atribui loucura” (Jó 4.18). Este verso reflete o pensamento de Elifaz, derivado de uma voz abafada, de um espírito que ele não conseguiu distinguir a forma, e que fez lhe arrepiar os cabelos.

O contexto deixa claro que ‘servos’ e ‘anjos’ referem-se aos seres celestiais, visto que no verso seguinte Elifaz contrapõe os que têm casas de lodo com aqueles, demonstrando que os homens são formados do pó da terra e aqueles não (Jó 4.19).

Se o leitor considerar que o verso 4, da segunda epístola de Pedro, no capítulo 2 trata dos seres celestiais, deve restringir-se a considerar a severidade de Deus, visto que é sabido que Ele castigou os anjos que se rebelaram, não os poupando da perdição. Que se dirá dos falsos mestres que se introduziram entre os cristãos?

Mas, se considerarmos que os sacerdotes e os profetas em meio ao povo de Israel eram tidos por mensageiros[3] de Deus, e por terem prevaricado quanto as suas atribuições, não foram poupados, antes foram presos, entregues às cadeias de escuridão, sendo reservados para o juízo, certo é que os falsos mestres serão especialmente castigados (2 Pedro 2.10).

“Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens buscar a lei porque ele é o mensageiro do SENHOR dos Exércitos (Malaquias 2.7);

“Então Ageu, o mensageiro do SENHOR, falou ao povo conforme a mensagem do SENHOR, dizendo: Eu sou convosco, diz o SENHOR” (Ageu 1.13);

“Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” (Isaías 43.27);

“E sairão, e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e serão um horror a toda a carne” (Isaías 66.24);

Vale destacar que, na lei, estava estabelecido qual o tratamento dispensado aos falsos mensageiros:

“Mas certamente o matarás; a tua mão será a primeira contra ele, para o matar; e depois a mão de todo o povo. E o apedrejarás, até que morra, pois te procurou apartar do SENHOR teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão” (Deuteronômio 13.9-10);

“Porém o profeta que tiver a presunção de falar alguma palavra em meu nome, que eu não lhe tenha mandado falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá” (Deuteronômio 18.20), ao que assevera o escritor aos Hebreus:

“Quebrantando alguém a lei de Moisés, morre sem misericórdia, só pela palavra de duas ou três testemunhas” (Hebreus 10.28).

Considerando que os cristãos são tidos por embaixadores de Deus, os mensageiros de paz (Isaías 33.7), e que os falsos apóstolos se transfiguravam em apóstolos de Cristo, o fim deles está previsto conforme as suas obras.

“Porque tais falsos apóstolos são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo. E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus ministros se transfigurem em ministros da justiça; o fim dos quais será conforme as suas obras” (2 Coríntios 11.13-15);

“E o forte se tornará em estopa, e a sua obra em faísca; e ambos arderão juntamente, e não haverá quem os apague” (Isaías 1.31).

Assim como o juízo dos falsos mestres que se infiltraram entre os cristãos não tarda, e a destruição deles não dorme, os falsos mensageiros infiltrados em meio ao povo de Israel não foram poupados, antes foram entregues à morte, sendo guardados para o juízo de obras no Grande Trono Branco.

“E será que naquele dia o SENHOR castigará os exércitos do alto nas alturas, e os reis da terra sobre a terra. E serão ajuntados como presos numa masmorra, e serão encerrados num cárcere; e outra vez serão castigados depois de muitos dias” (Isaías 24.21-22).

Também não poderíamos deixar de observar que o termo ‘ággelos’ utilizado no Novo Testamento refere-se a homens e anjos, entretanto, é de se estranhar que somente em duas passagens de difícil interpretação: Judas 6 e 2 Pedro 2:4, o termo seria utilizado para anjos caídos. Em todas as outras passagens, exceto essas duas, claramente o termo ‘ággelos’ se refere aos seres celestiais, ou mensageiros homens, e em nenhuma outra é utilizada para fazer referência ao inimigo das almas dos homens.

Daí vale questionar o porquê o apóstolo Pedro não utilizou o termo ‘diabo’, ‘satanás’, ‘inimigo’, ‘adversário’, em vez de ‘ággelos’ em segunda Pedro 2, verso 4, visto que os termos ‘diabo’ e ‘adversário’ foram utilizados na primeira carta “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (1 Pedro 5.8).

Observe que os quatro exemplos apresentados pelo apóstolo Pedro servem para a seguinte constatação: Deus livra os piedosos da provação e impõe castigo aos ímpios, posto que eles estão reservados para o dia do juízo.

Comparando o verso 4, de segunda Pedro 2 com outros versos, percebe-se certa semelhança na abordagem:

“Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo (2 Pedro 2.4);

“Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo; Os quais, por castigo, padecerão eterna perdição, ante a face do Senhor e a glória do seu poder” (2 Tessalonicenses 1.8-9);

“O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor;” (Colossenses 1.13);

“Eu sou a luz que vim ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas.” (João 12.46);

Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração;” (Efésios 4.18);

“Para abrir os olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do cárcere os que jazem em trevas.” (Isaías 42.7);

Tirou-os das trevas e sombra da morte; e quebrou as suas prisões.” (Salmos 107.14);

“O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz.” (Isaías 9.2).

A certeza do juízo deve soar como alerta para os incautos e impenitentes, para os que não se submetem ao Senhorio de Cristo e querem transtornar o evangelho.

É interessante o irmão Judas fazer alusão às cidades de Sodoma e Gomorra, pois os filhos de Israel são comparados a essas duas cidades pelos profetas.

“Porque a sua vinha é a vinha de Sodoma e dos campos de Gomorra; as suas uvas são uvas venenosas, cachos amargos têm.” (Deuteronômio 32.32);

“Se o SENHOR dos Exércitos não nos tivesse deixado algum remanescente, já como Sodoma seríamos, e semelhantes a Gomorra. Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra.” (Isaias 1.9-10);

“Mas nos profetas de Jerusalém vejo uma coisa horrenda: cometem adultérios, e andam com falsidade, e fortalecem as mãos dos malfeitores, para que não se convertam da sua maldade; eles têm-se tornado para mim como Sodoma, e os seus moradores como Gomorra.” (Jeremias 23.14);

“Subverti a alguns dentre vós, como Deus subverteu a Sodoma e Gomorra, e vós fostes como um tição arrebatado do incêndio; contudo não vos convertestes a mim, disse o SENHOR.” (Amós 4.11);

“Em verdade vos digo que, no dia do juízo, haverá menos rigor para o país de Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade.” (Mateus 10.15).

As cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas ao seu tempo por causa das suas prostituições, de modo que, ao comparar os mensageiros com as cidades de Sodoma e Gomorra, Judas está denunciando as prostituições dos homens que se introduziram na comunidade cristã.

“Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno. E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as dignidades.” (Judas 1.7-8).

Ao considerarem as cidades de Sodoma e Gomorra, os cristãos veriam que os mensageiros foram punidos por serem promíscuos como os habitantes das cidades destruídas com fogo e enxofre, o que nos remete as considerações do apóstolo Paulo aos corintos:

“Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” (1 Coríntios 5.11).

Nos 4 versos que se seguem, temos dois pronomes demonstrativos, que são: τροπον (a estes) e ουτοι (estes). As cidades de Sodoma e Gomorra são semelhantes τροπον (a estes) (v. 7), ‘a estes’ refere-se: a) aos homens ímpios; b) aos que não creram e foram destruídos, ou; c) aos mensageiros que estão prisioneiros? ‘Ουτοι’ (estes) que, sonhando, contaminam a carne (v. 8), refere-se: a) aos homens ímpios; b) aos que não creram e foram destruídos, ou; c) aos mensageiros que estão prisioneiros?

5 υπομνησαι δε υμας βουλομαι ειδοτας υμας απαξ τουτο οτι ο κυριος λαον εκ γης αιγυπτου σωσας το δευτερον τους μη πιστευσαντας απωλεσεν 6 αγγελους τε τους μη τηρησαντας την εαυτων αρχην αλλα απολιποντας το ιδιον οικητηριον εις κρισιν μεγαλης ημερας δεσμοις αιδιοις υπο ζοφον τετηρηκεν 7 ως σοδομα και γομορρα και αι περι αυτας πολεις τον ομοιον τουτοις τροπον εκπορνευσασαι και απελθουσαι οπισω σαρκος ετερας προκεινται δειγμα πυρος αιωνιου δικην υπεχουσαι 8 ομοιως μεντοι και ουτοι ενυπνιαζομενοι σαρκα μεν μιαινουσιν κυριοτητα δε αθετουσιν δοξας δε βλασφημουσιν” Judas 1.5-8, Scrivener’s Textus Receptus(1894).

O pronome demonstrativo ‘estes’, no plural, refere-se aos ‘homens ímpios’ do verso 4, alternativa ‘a’, assim como os pronomes demonstrativos ‘estes’ nos versos 10,12, 16 e 19. Já com relação ao pronome demonstrativo ‘a estes’, dativo, no plural, refere-se aos mensageiros do verso 6, alternativa c, de modo que, Sodoma e Gomorra e as cidades vizinhas foram imorais e foram postas como exemplo sofrendo o fogo eterno como punição, semelhantemente, de igual maneira, os mensageiros (a estes) que não guardaram o seu principado, mas deixando a própria morada, em prisão eterna sob escuridão, tem sido preservado para o juízo do grande dia.

Estas três pequenas citações de eventos do A. T. deve ser analisados e tidos como lembrete, para que os que seguem a Cristo não venha a ser enganados por homens que se intrometem em meio aos cristãos e introduzem dissimuladamente heresias com o objetivo de transtornar a doutrina do evangelho.

Devaneios segundo a carne

“E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as dignidades. Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda. Estes, porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais se corrompem. Ai deles! porque entraram pelo caminho de Caim, e foram levados pelo engano do prêmio de Balaão, e pereceram na contradição de Coré. Estes são manchas em vossas festas de amor, banqueteando-se convosco, e apascentando-se a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos de uma para outra parte; são como árvores murchas, infrutíferas, duas vezes mortas, desarraigadas;” (Judas 1.8-12).

Judas passa a descrever os homens ímpios que haviam se infiltrado entre os cristãos dissimuladamente.

Tais homens ímpios destinados à destruição se posicionavam como mestres, pois ao se infiltrarem, passavam a negar a Cristo como Senhor. Eram sonhadores, como que adormecidos, pois com os seus devaneios segundo a carne tudo contaminavam (Eclesiastes 5.3 e 7). Acerca destes impuros, bem falou o apóstolo Paulo a Timóteo:

“Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão (Colossenses 2.18).

Por serem carnais, estavam destituídos do espírito, assim como aqueles que fascinaram os cristãos das regiões da Galácia (Gálatas 3.1-5; Judas 1.19). Ao negarem a Cristo como Senhor rejeitavam a pregação da fé, e dissimuladamente, introduziam rudimentos fracos e pobres (Gálatas 4.9-10).

Vale destacar que as questões da carne estão ligadas a mandamentos de homens, e que se apoiam em questões como nacionalidade, genealogias, tribo, circuncisão, lavar as mãos, jejuns, prolongadas orações, etc., como era o posicionamento de Saulo, antes de ter um encontro com Cristo:

“Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne. Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo.” (Filipenses 3.3-7).

Quem serve a Deus em espírito é porque serve a Deus por intermédio do evangelho, pois as palavras de Cristo são espírito e vida, e os cristãos são ministros do espírito, ou seja, da Nova Aliança.

“O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.” (2 Coríntios 3.6; João 6.63).

Quem anda segundo a carne anda segundo a letra que mata, ou seja, a lei. Como não utilizam a lei legitimamente, pois a lei foi feita para os injustos e obstinados, cumprem somente mandamentos de homens (1 Timóteo 1.8-11).

Observe que ‘carne’ e ‘espírito’ são antagônicos, e representam duas doutrinas diferentes, de modo que, ao mostrar o antagonismo do evangelho versus a lei, os apóstolos utilizam a ‘carne’ e o ‘espírito’.

Pela descrição de Judas e o apóstolo Pedro, percebe-se que tais homens ímpios, além de judaizantes, eram sediciosos, semelhantes aos Macabeus, judeus que, liderados por Matatias e seus filhos, lutaram contra os reis sírios (selêucidas) e seus aliados judeus, pela libertação religiosa e política da nação, opondo-se aos valores do helenismo. Por falarem das autoridades e dignidades, percebe-se que tal movimento levou a repressão de Roma aos judeus por mãos do general Tito.

“Mas principalmente aqueles que segundo a carne andam em concupiscências de imundícia, e desprezam as autoridades; atrevidos, obstinados, não receando blasfemar das dignidades;” (2 Pedro 2.10).

A pretensão dos homens ímpios fazia com que rejeitassem toda autoridade e blasfemassem das dignidades. O apóstolo Paulo fez um alerta aos cristãos de Roma, para se sujeitarem as autoridades (Romanos 13.1-7), e demonstra em seguida, que aquele que se reveste de Cristo não tem cuidado da carne e das suas concupiscências, o que demonstra que a concupiscência da carne é conhecida e que foi para tais pessoas que a lei foi feita:

“Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja.” (Romanos 13.13);

“Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas,” (1 Timóteo 1.9).

Os falsos mestres queriam a posição de mestre para fazer os cristãos seguirem as suas dissoluções, e com isso fazer dos cristãos negócio (2 Pedro 2.3).

Os homens ímpios não observavam o que preceitua a Escritura, quando ela demonstra que o arcanjo Miguel não ousou pronunciar juízo de maldições contra o diabo.

“Mas o SENHOR disse a Satanás: O SENHOR te repreenda, ó Satanás, sim, o SENHOR, que escolheu Jerusalém, te repreenda; não é este um tição tirado do fogo?” (Zacarias 3.2).

Conforme exposto anteriormente, supõe-se que Judas citou passagem do livro “A Assunção de Moisés”, mencionado por Orígenes (c. 185-254), um livro judeu grego apócrifo que se perdeu.

Podemos aventar mais duas possibilidades: a) talvez tenha se equivocado ao citar a tradição judaica, sendo que o texto base que Judas queria citar fosse o de Zacarias, ou; b) alguém que tenha copilado a carta, equivocou-se e substituiu o texto de Zacarias pelo texto da tradição judaica.

Especulações à parte, a ideia transmitida pelo texto se assemelha a exposição do apóstolo Pedro (2 Pedro 2.11), de que o anjo não proferiu juízo infamatório contra Satanás, quando este se opunha aquele na visão acerca do Sumo Sacerdote Josué, antes disse:

“O Senhor te repreenda, ó Satanás, sim, o Senhor que escolheu Jerusalém…” (Zacarias 3.2).

Devemos ter em mente que Miguel é um dos anjos de Deus, porém, não podemos confundi-lo com o Anjo do Senhor, que é Cristo “O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem, e os livra” (Salmos 34.7). Diferente de Miguel, o Anjo do Senhor é onipresente (acampa-se ao redor dos (todos) que o temem, e é temido (o temem). É de Cristo que o apóstolo Paulo disse:

“Porque esta mesma noite o anjo de Deus, de quem eu sou, e a quem sirvo, esteve comigo” (Atos 27.23).

Os homens ímpios apontados por Judas, se não compreendem algo, blasfemam ou difamam (v. 10). Até o que se compreende de modo natural, como animais irracionais, se corrompem.

“Querendo ser mestres da lei, e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam.” (1 Timóteo 1.7).

O irmão Judas apresenta três ‘ais’ em desfavor dos homens ímpios.

Com as heresias dissimuladas percorriam o caminho de Caim, que matou o próprio irmão (Gênesis 4.8). Com essa figura, Judas os declara homicidas, pois procuravam ‘matar’ com o erro os que alcançaram vida em Cristo.

No erro de Balaão se lançaram atrás de recompensa. Resolveram transtornar a verdade do evangelho por questões desta vida (Números 31.16; 2 Pedro 2.15-16 e 18).

Ao falarem contra as autoridades superiores, agiram da mesma forma que Coré, atitude que os condenava assim como os revoltosos que se levantaram contra Moisés (Números 16.1-2).

Nas reuniões solenes de amor, esses homens ímpios são como manchas. Enquanto os cristãos eram filhos, eles não passavam de geração perversa e distorcida.

“Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é.” (Deuteronômio 32.5).

Não se intimidavam em se fazer como tendo comunhão, descaradamente banqueteavam-se com os cristãos.

“Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais.” (1 Coríntios 5.11).

Esses ímpios tinham cuidado somente de si mesmos (apascentam), cujo deus é o ventre (v. 16).

“Cujo fim é a perdição; cujo deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas” (Filipenses 3.19).

Estrelas errantes

“Ondas impetuosas do mar, que escumam as suas mesmas abominações; estrelas errantes, para os quais está eternamente reservada a negrura das trevas. E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos; Para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele. Estes são murmuradores, queixosos da sua sorte, andando segundo as suas concupiscências, e cuja boca diz coisas mui arrogantes, admirando as pessoas por causa do interesse” (Judas 1.13-16).

Judas compara os homens que se introduziram entre os cristãos com as impetuosas ondas do mar, que espumam (multiplicam) as suas próprias vergonha (ignominia). O apóstolo Paulo alerta os cristãos para não se deixar levar.

“Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente” (Efésios 4.14).

Eles são comparados as estrelas errantes, ou seja, embora percorram um caminho, está reservado para eles a escuridão das trevas para sempre (Judas 1.6).

Os homens sem Cristo percorrem caminhos que aos seus olhos parecem conduzir a Deus, porém, ainda permanecem no caminho largo que conduz à perdição. Por não entrar por Cristo, a porta estreita, seguem caminhos variados, mas, por descenderem de Adão, o caminho largo, todos os caminhos que seguem são contemplados pela perdição eterna decorrente da natureza pecaminosa herdada em Adão.

Judas lembra que, acerca dos homens ímpios, profetizou Enoque, o sétimo após Adão:

“E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: ‘Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos; Para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele’.” (Judas 1.14-15).

No Canon sagrado não encontramos qualquer referência a Enoque como profeta ou que tenha dito algo. Acerca de Enoque temos somente esta passagem:

“E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou” (Gênesis 5.18-24).

Não é alvo deste estudo tentar descobrir a origem desta citação de Judas, porém, podemos analisá-la através de outros textos bíblicos verificando a sua veracidade e validade. A citação feita por Judas está no livro 1 Enoque 1, verso 9. Esse livro apócrifo é conhecido como Enoque Etíope, porque a cópia localizada estava preservada somente nessa língua.

Apesar de citar um verso do Livro de Enoque, tal citação não depõe em desfavor da epístola de Judas, e tão pouco inferir que o Espírito de Deus não tenha inspirado o teor da carta de Judas.

Sobre Enoque, o escritor aos Hebreus nos disse:

“Pela fé Enoque foi trasladado para não ver a morte, e não foi achado, porque Deus o trasladara; visto como antes da sua trasladação alcançou testemunho de que agradara a Deus” (Hebreus 11.5).

O escritor da carta aos Hebreus, com base no Livro do Gênesis, afirma que Enoque alcançou testemunho de que agradara a Deus, e que pela fé foi trasladado. O testemunho das Escrituras de que Enoque andou com Deus é um testemunho fidedigno (Gênesis 5. 22 e 24).

Primeiro a Escritura diz que Enoque andou com Deus “Andou Enoque com Deus…” (Gênesis 5.22), e só é possível andar com Deus quando se é obediente a Ele. Depois, a Escritura afirma que Enoque andou com Deus, e que foi tomado para Deus: “…e já não era, porque Deus para si o tomou” (Gênesis 5.24).

A narrativa do Gênesis demonstra que Enoque era justo, pois andava segundo a palavra de Deus, e que Enoque agradou a Deus pelo testemunho de que andava com Deus. Se Enoque andou com Deus e pela fé foi trasladado, isto significa que a promessa do Messias, proveniente da semente da mulher, era a temática da vida do Enoque.

Através da revelação do Novo Testamento, sabemos que o homem se tornou desagradável a Deus por causa da queda de Adão, ou seja, todos os homens gerados de Adão são filhos da desobediência e da ira, no entanto, aqueles que creem em Cristo são de novo gerados segundo a sua palavra, tornando-se agradáveis.

A profecia de Enoque é uma constatação: ‘Eis que veio o Senhor’. A Bíblia contém vários livros que apontam a vinda do Senhor.

“Disse pois: O SENHOR veio de Sinai, e lhes subiu de Seir; resplandeceu desde o monte Parã, e veio com dez milhares de santos; à sua direita havia para eles o fogo da lei.” (Deuteronômio 33.2);

“Então virá o Senhor meu Deus e todos os santos com Ele” (Zacarias 14.5 b).

A profecia de Enoque aponta o motivo da vinda do Senhor:

“… para fazer juízo contra todos, e para fazer convictos todos os ímpios…” (Judas 1.15).

Do mesmo modo disse o Senhor ao povo de Israel:

“Se eu afiar a minha espada reluzente, e se a minha mão travar o juízo, retribuirei a vingança sobre os meus adversários, e recompensarei aos que me odeiam” (Deuteronômio 32.41).

O apóstolo Paulo enfatiza:

“Deus recompensará a cada um segundo as suas obras” (Romanos 2.6; Jeremias 17.10).

Ora, sabemos que toda a humanidade foi julgada e condenada em Adão, mas os ímpios pecadores não sabem desta verdade. Porém, no dia da ira de Deus, ele tornará manifesto o seu juízo. Dará vida eterna aos que procuraram honra e glória e perseveraram fazendo o bem, mas, trará indignação e ira aos desobedientes à verdade, e que obraram o mal (Romanos 2.7-10).

Ao retribuir a cada um segundo as suas obras, Deus fará juízo (Apocalipse 20.12), e os homens conhecerão (convictos) que estavam condenados segundo a condenação de Adão (Romanos 5.18). Na essência, essa profecia atribuída a Enoque não destoa do restante das Escrituras.

 

As aspirações segundo a carne

“Mas vós, amados, lembrai-vos das palavras que vos foram preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo; Os quais vos diziam que nos últimos tempos haveria escarnecedores que andariam segundo as suas ímpias concupiscências. Estes são os que causam divisões, sensuais, que não têm o Espírito. Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo,” (Judas 1.17-20).

Judas reforça o seu posicionamento de servo de Cristo (Judas 1.1), quando aponta a necessidade de os cristãos terem na lembrança as predições dos apóstolos do Senhor Jesus. Em momento algum Judas procura igualar as suas palavras com as palavras dos apóstolos, antes recomenda que os cristãos não se esqueçam delas.

Através deste posicionamento, Judas demonstra que as palavras anunciadas pelos apóstolos de Jesus equivalem ao anunciado pelos profetas do Antigo Testamento. Apesar de ter apresentado vários personagens do Antigo Testamento para dar peso aos seus argumentos, Judas demonstra que as palavras dos apóstolos não destoam dos profetas.

Mesmo sendo irmão de Jesus na carne, e irmão de Tiago, Judas não se arroga no direito de se auto intitular apóstolo, ou utilizar de autoridade sobre os irmãos. Na verdade, Judas desempenha o verdadeiro papel da autoridade: cuidado para com o rebanho de Deus.

Em nossos dias, inúmeros líderes ‘cristãos’ se auto intitulam apóstolos, e não consideram o exemplo de Judas, ou dos apóstolos. Se considerassem o exemplo de Judas e do apóstolo Paulo, jamais utilizariam este título.

“Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus” (1 Coríntios 15.9).

Ao fazer referência as palavras dos apóstolos, Judas não cita as palavras ‘ipsis litteris’, e nem atribui a algum apóstolo específico o que foi predito. Isto demonstra que as palavras preditas pelos apóstolos eram de senso comum, e que Judas não considerava um apóstolo em detrimento dos outros. Mas, verifica-se na segunda epístola de Pedro essa mesma recomendação:

“Para que vos lembreis das palavras que primeiramente foram ditas pelos santos profetas, e do nosso mandamento, como apóstolos do Senhor e Salvador.” (2 Pedro 3.2)

O alerta é específico:

“No último tempo haverá escarnecedores, andando segundo as suas ímpias concupiscências” (Judas 1.18).

Tal alerta foi feito por Pedro:

“Sabendo primeiro isto, que nos últimos dias virão escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências” (2 Pedro 3.3).

Esses homens ímpios são os que provocam divisões, que pode ser no seio da comunidade, diferenciando judeus de gentios, ou escândalos na sociedade, visando afetar o evangelho.

“E rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles.” (Romanos 16.17).

Elas agem assim porque as suas aspirações são orientadas segundo a carne, ou seja, não tem em si o espírito. Somente aqueles que creem que Jesus é o Cristo e professam que Deus o ressuscitou dentre os mortos possuem o espírito. Ou seja, para ter o espírito de Deus é preciso ser nascido de novo (João 3.6), pois o Pai e o Filho só fazem morada no novo homem criado em Cristo, em verdadeira justiça e santidade (Efésios 2.21; 4.24; 1 Pedro 2.5).

“Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus ouve-nos; aquele que não é de Deus não nos ouve. Nisto conhecemos nós o espírito da verdade e o espírito do erro.” (1 João 4.6).

Quem não compreende (discerne) o que é o corpo do Senhor (assembleia de servos, livres, judeus, gregos, pobres, ricos, homens, mulheres, etc.), acaba promovendo divisão como as que o apóstolo Paulo teve que repreender na igreja de Coríntios (1 Coríntios 6.1-8 e 11.18).

Para ser espiritual é preciso tão somente cumprir com o mandamento de Deus, que é:

“…que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou” (1 João 2.3 e 23).

Basta crer em Cristo conforme diz as Escrituras, que o homem é gerado de novo, pois o velho homem é crucificado com Cristo e passa a viver segundo o evangelho de Cristo.

Judas encera a exortação acerca da ‘necessidade de se batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos’, e passa a falar da salvação que lhes é comum, o que inicialmente ele queria fazer diligentemente.

“Amados, enquanto eu empregava toda diligência para vos escrever acerca da salvação que nos é comum…” (Judas 1.3).

 

Edificados sobre a fé

“Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo. Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna. E apiedai-vos de alguns, usando de discernimento; E salvai alguns com temor, arrebatando-os do fogo, odiando até a túnica manchada da carne. Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória, Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém” (Judas 1.20-25)

Judas recomenda aos cristãos crescerem na graça e no conhecimento quando diz:

“…edificando-vos sobre a vossa santíssima fé…” (Judas 1.20).

No verso 3, ‘fé’ diz do evangelho que foi entregue aos santos e que os cristãos tinham incumbência de defender. Todos quantos receberam o evangelho (fé) da graça devem continuar construindo sobre o que é firme e permanente, a fé que nos foi entregue.

“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina;” (Efésios 2.20);

“Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo.” (1 Coríntios 3.11).

Sobre o evangelho, o apóstolo Pedro demonstra que cada cristão é pedra viva, e que são edificados como casa espiritual sobre a Pedra de Esquina, que é Cristo (1 Pedro 2.4-5; 2 Timóteo 1.15; 4.6 e 9). Cristo, o Verbo Eterno, é a Pedra de Esquina, anunciado através do evangelho, e Ele é a fé manifesta e recebida de uma vez por todas pelos cristãos (Gálatas 3.23; Judas 1.3).

Conforme promessa a Davi, primeiro Deus edifica casa para Si por intermédio de Cristo, o descendente prometido, ou seja, a igreja, onde temos Jesus como a cabeça, e cada crente em particular são os seus membros. A Pedra de Esquina e as pedras vivas são edificados como casa Espiritual.

Cada cristão constitui-se pedra viva e precisa deixar toda malícia, todo engano, todo fingimento e toda maledicência, desejando, como crianças recém-nascidas, o puro leite espiritual. Embora os cristãos sejam idôneos para participar da herança dos santos na luz (Colossenses 1.12), precisavam ser plenos do conhecimento da vontade de Deus. Judas está recomendando aos cristãos serem exercitados na palavra da verdade, que é a fé que foi dada aos santos, sobre a qual é preciso crescer (construir) todos os dias.

O evangelho é poder de Deus para salvação dos que creem (João 1.12; Romanos 1.16; 1 Coríntios 1.24), e quando o cristão é instruído a se fortalecer no Senhor e na força do seu poder (Efésios 6.10), percebe-se a necessidade de crescer no conhecimento da palavra da verdade, que é poder de Deus (Efésios 1.18-19; Colossenses 3.16).

A única forma de um cristão conservar a si mesmo é permanecendo firme no evangelho, o amor de Deus. Sobre esta necessidade escreveu Tiago:

“…sabendo que a prova da vossa fé desenvolve a perseverança. Ora, a perseverança deve terminar a sua obra, para que sejais maduros e completos, não tendo falta de coisa alguma.” (Tiago 1.4-5).

Permanecer firme no evangelho é a temática dos apóstolos, pois ao fazer a vontade de Deus, que é crer em Cristo, é imprescindível à salvação permanecer crendo.

“Portanto, o que desde o princípio ouvistes permaneça em vós. Se em vós permanecer o que desde o princípio ouvistes, também permanecereis no Filho e no Pai.” (1 João 2.24).

O crer (fé) é proveniente da mensagem do evangelho, é a fé (evangelho) que realiza a sua obra (João 6.29), pois através do evangelho é criando o novo homem, segundo Deus em verdadeira justiça e santidade (Efésios 4.24), e Deus constitui filhos para Si segundo o seu eterno poder (João 1.12).

A prova da fé, por sua vez, desenvolve a perseverança, e a perseverança conclui a obra que teve início na fé. Ora, a fé sem perseverança é inócua, assim como a fé sem a obra morta.

“Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa” (Hebreus 10.36);

“No corpo da sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis, se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro.” (Colossenses 1.22-23).

Ora, após receber a palavra da fé, é preciso perseverar (paciência), esperando a manifestação de nosso Senhor para a vida eterna (1 Coríntios 1.7).

Judas recomenda aos cristãos que tenham piedade de alguns que vacilam na fé, ou seja, que duvidam da graça em Cristo. Outros, que sejam salvos, arrebatando-os do fogo. E, outros, é necessário se compadecer, porém, rejeitando até a vestimenta contaminada pela carne (v. 23).

A ordem para se compadecer dos que duvidam se concretiza através de instrução na verdade do evangelho, demonstrando através das Escrituras a promessa de salvação e o seu cumprimento em Cristo (Efésios 4.14; Tiago 1.6-8).

Para salvar alguns, como que os arrebatando do fogo, deve ser cumprida do modo que o escritor aos Hebreus prescreveu:

“Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento” (Hebreus 5.12).

O cristão que não evolui no evangelho, que não vai além dos princípios rudimentares da palavra de Deus, corre sério risco, pois fica infrutífero (Marcos 4.19), e pode ser cortado da oliveira (João 15.2).

“Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo;” (2 Tessalonicenses 1.8).

Já com relação a ‘compadecer em temor’, refere-se aos contradizentes, pois é necessário conhecimento e discernimento para convencê-los.

“Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes.” (Tito 1.9).

Aos vacilantes são imprescindíveis admoestações com a sã doutrina, mas aos contradizentes devem ser identificados para, com o conhecimento da doutrina, convencê-los. Dos contradizentes é necessário rejeitar até mesmo as suas ‘roupas manchadas da carne’, ou seja, rejeitar tudo o que professam e praticam.

Um contradizente, por causa da túnica manchada, ainda é carnal, e carece do evangelho (v. 19). Após a conversão é preciso rejeitar todas as práticas deles, que é a roupa manchada da carne. Mesmo que a proposta deles seja boa do ponto de vista comportamental, tem que ser rejeitado pelo princípio existente. Lavar as mãos antes das refeições é bom do ponto de vista da higiene, mas lavar as mãos para se purificar, é túnica manchada da carne.

“Agora, porém, despojai-vos também de tudo…” (Colossenses 3.8).

Ao instruí-los, tudo o que disserem deve ser rejeitado. Somente após professarem a verdade do evangelho, segundo as Escrituras, é possível dizer que tal mente foi conduzida cativa à obediência de Cristo.

“Destruindo os conselhos, e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo.” (2 Coríntios 10.5).

Quando o apóstolo Paulo fala em se despir, ele faz referência à morte do velho homem (natureza pecaminosa), e o despojar é se desfazer das túnicas do velho homem (Colossenses 3:8-9).

Na doxologia, Judas demonstra que Deus guarda os que creem de tropeçar e de apresentar sem mácula na Sua glória radiantes de alegria (1 Coríntios 1.8; 1 Tessalonicenses 5.23). Ora, quem não tropeça na palavra da verdade é perfeito (Tiago 3.2)

A divindade de Cristo é enfatizada ao final da epístola, visto que Judas reconhece Jesus Cristo como Senhor, e a Ele atribui glória, majestade, domínio e autoridade para a eternidade, sendo que inicialmente não cria em Seu Senhor.

“Porque nem mesmo seus irmãos criam nele” (João 7.5);

A doxologia da Epístola de Judas é uníssona com o que foi dito pelos apóstolos (1 Coríntios 1.8; Filipenses 1.10; 1 Tessalonicenses 5.23-24; 1 Pedro 5.10). Esta epístola nos ensina que a palavra de um servo de Cristo precisa ser uníssona com as palavras dos apóstolos (Judas 1.1).

 

 

[1] “Todas as coisas se definem pelas suas funções” (Aristóteles, A Política. Tradução Nestor Silveira Chaves. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 2011, p. 22).

[2] “5020 ταρταροω tártaro de Tártaro (o abismo mais profundo do inferno); v 1) nome da região subterrânea, sombria e escura, considerada pelos antigos gregos como a habitação dos ímpios mortos, onde sofrem punição pelas suas más obras; corresponde ao “Geena” dos judeus 2) lançar ao Tártaro, manter cativo no Tártaro” Dicionário bíblico Strong.

[3] “(מלאך 04397 mal’ak procedente de uma raiz não utilizada significando despachar como um representante; DITAT – 1068a; n m 1) mensageiro, representante 1a) mensageiro 1b) anjo 1c) o anjo teofânico) de Deus” Dicionário Bíblico Strong