Abraão foi salvo pela fé ou pelas obras?

Se Abraão tivesse saído do meio de sua parentela e fosse habitar as regiões de Canaã sem que Deus lhe ordenasse, a sua decisão não seria por fé. Se Abraão tivesse decidido, de moto próprio, oferecer Isaque em holocausto a Deus, sem que Deus houvesse ordenado, o seu sacrifício não seria por fé e sua atitude não seria em função de uma provação (Hb 11:17).


Introdução

Na maioria dos comentários bíblicos, em que os termos ‘fé’ e ‘obras’ aparecem, a palavra ‘paradoxo’ acaba sendo utilizada. Há até quem afirme que no Novo Testamento há inúmeros “paradoxos aparentes”.

O que é um paradoxo?

Segundo definição que consta na Wikipédia:

“Paradoxo é uma declaração, aparentemente, verdadeira, que leva a uma contradição lógica, ou, a uma situação que contradiz a intuição comum. Em termos simples, um paradoxo é “o oposto do que alguém pensa ser a verdade”. A identificação de um paradoxo, baseado em conceitos aparentemente simples e racionais tem, por vezes, auxiliado, significativamente, o progresso da ciência, filosofia e matemática”. Wikipédia.

Diante dessa definição de paradoxo: ‘declaração aparentemente verdadeira’, é correto entender que as asserções[1] bíblicas são ‘aparentemente’ verdadeiras? Os dois versículos abaixo, são a exata expressão da verdade ou, ‘aparentemente’ verdadeiros?

“Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6);

“Porventura, o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?” (Tg 2:21).

Os versos acima são paradoxais? Há contradição entre o ensinamento do apóstolo Paulo e do irmão Tiago? A doutrina de Cristo possui pontos aparentemente discordantes? São ensinos aparentemente verdadeiros?

A palavra de Deus não é uma declaração aparentemente verdadeira, antes, é a verdade “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17), portanto, os ensinamentos bíblicos, não comportam essa definição de ‘paradoxo’.

Na comunicação falada ou escrita há ‘paradoxos’, porém, tais paradoxos são figuras de pensamento, um dos recursos linguísticos (figuras de linguagem) que tornam uma mensagem mais expressiva, que nada mais é do que uma proposição construída, através da união de ideias contraditórias.

Quando Jesus propôs a Nicodemos que era necessário nascer de novo, o alerta de Jesus era verdadeiro, entretanto, por desconhecer a natureza daquilo que Jesus propôs, surgiu na cabeça de Nicodemos um paradoxo: Como é possível um homem nascer, sendo velho? (Jo 3:4)

A mensagem de Jesus não era contraditória e nem aparentemente verdadeira, mas a limitação de Nicodemos que, sendo mestre, não compreendeu a mensagem, é que levou a questionar, sobre como seria possível um homem velho, nascer de novo.

Abraão foi salvo pela ‘fé’ ou, por ‘obras’? Há contradição entre a ‘fé’ e as ‘obras’, ou, a contradição decorre da má compreensão?

 

Abraão creu em Deus

“Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6).

Como ler esse versículo? A ‘confiança’ de Abraão é o que o justificou? O que dizer do versículo: ‘O justo viverá da fé?’

Quando o apóstolo Paulo escreveu, repreendendo os cristãos da Galácia, sobre o fascínio que os levou a se desviarem da verdade do evangelho, lembrou que anunciou aos Gálatas o Cristo crucificado (Gl 3:1; 1Co 1:23), e que não receberam o espírito pelas ‘obras da lei’, antes pela ‘pregação da fé’ (Gl 3:2 e 5).

Que ‘espírito’ eles receberam pela ‘pregação da fé’? O espírito que o apóstolo Paulo faz referência, diz do evangelho, a palavra de Deus, vez que os cristãos são ministros do espírito, ou seja, ministros da justiça, ministros da nova aliança: “O qual, nos fez, também, capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica (…) Como não será de maior glória o ministério do Espírito? Porque, se o ministério da condenação foi glorioso, muito mais excederá em glória o ministério da justiça” (1Co 3:6 e 8-9).

Jesus afirmou que as palavras d’Ele são espírito e vida: “O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são espírito e vida” (Jo 6:63).

A mensagem do evangelho é cumprimento do anunciado pelos profetas: água sobre o sedento, espírito derramado. É por isso que o homem nasce de novo, somente pela água e pelo espírito: “Porque derramarei água sobre o sedento e rios sobre a terra seca; derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes” (Is 44:3). “E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões” (Jl 2:28; Jo 3:5).

Como Deus dá do seu espírito? Como Deus opera milagres? O apóstolo Paulo afirma que Deus deu o seu espírito e opera milagres pela ‘pregação da fé’, ou seja, através do evangelho (Gl 3:5). Cristo foi ungido para evangelizar, ou seja, o espírito de Deus estava sobre Ele, o mesmo espírito foi dado aos cristãos pela pregação da fé. “Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 1:3; Is 11:1-3; Is 61:1-3).

O evangelho foi anunciado pelo apóstolo Paulo aos gentios, de modo que ele era ministro do evangelho, anunciando a ‘fé’ (evangelho) entre os gentios. “Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do evangelho que tendes ouvido, o qual foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, estou feito ministro” (Cl 1:23; Rm 1:8).

A ‘fé’ se refere à mensagem das boas novas, o espírito derramado sobre toda carne, o mesmo espírito do qual o apóstolo Paulo foi constituído ministro. A ‘fé’ diz do evangelho anunciado a toda criatura, que há debaixo do sol (judeus e gentios), esperança anunciada para que os homens creiam e sejam salvos: “Porque, se alguém for pregar-vos outro Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, com razão o sofrereis” (2Co 11:4).

O crente é salvo ao crer na ‘loucura da pregação’, mas a salvação decorre especificamente da ‘loucura da pregação’, que é Cristo crucificado, que para os judeus era escândalo e para os gregos, loucura “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” (1Co 1:21-23).

O poder para a salvação não está na capacidade do homem de acreditar, mas, sim, na mensagem pregada. Para aqueles que são salvos, a palavra da cruz é o poder de Deus: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1:16; 1Co 1:18).

Deus salva pela ‘loucura da pregação’, ou seja, pela fé. Para ser salvo, é imprescindível ouvir a palavra da verdade, pois, no evangelho, está o poder para que o homem seja feito filho de Deus (Jo 1:12; Ef 1:13). O homem é justificado pela fé, ou seja, por Cristo, pelo evangelho. “E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê” (At 13:39).

Acerca da salvação em Cristo, foi predito a Abraão: ‘Todas as nações serão benditas em ti’ (Gl 3:8). O apóstolo Paulo, ao ler Gênesis 12, verso 3, interpretou essa passagem bíblica como uma profecia, acerca de como Deus haveria de justificar os gentios: pela fé, ou seja, por meio de Cristo – a fé que havia de se manifestar: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar, pela fé, os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti” (Gl 3:8 compare com Gl 3:23).

Por que os gentios seriam benditos em Abraão? Por causa do descendente prometido a Abraão: Cristo. O descendente prometido a Abraão foi estabelecido como luz para todos os povos, não o patriarca (Is 42:6; Is 49:6). Cristo é a fé manifesta, na plenitude dos tempos, por quem os homens são justificados e não o patriarca (Gl 3:23-25).

O apóstolo Paulo apresenta Abraão como exemplo de alguém que foi justificado, ao crer em Deus (Gl 3:6). Mas, como Abraão confiou em Deus? Deus ordenou a Abraão que deixasse a sua parentela e partisse para uma terra que seria revelada e lhe fez uma promessa: Abraão seria uma grande nação e os seus descendentes seriam inumeráveis, assim como as estrelas do céu, apesar de Abraão não ter descendente, na época (Gn 15:4-5).

Abraão demonstrou que confiou em Deus, quando saiu do meio da sua parentela, porém, a bênção de Abraão não decorre do fato de ele ter saído do meio da sua parentela (confiança), antes, Abraão foi abençoado porque foi estabelecido que, se ele saísse do meio da sua parentela, Deus haveria de abençoá-lo grandemente. A bênção está na palavra que diz: ‘E far-te-ei uma grande nação e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção’ (Gn 12:2).

A força da salvação está na promessa de que Deus haveria de abençoar os gentios, através do descendente de Abraão e não em Abraão ter saído do meio da sua parentela. Semelhantemente, a força do pecado está na lei que estabelece: ‘certamente morrerás’, não nas ações dos pecadores: “Ora, o aguilhão da morte é o pecado e a força do pecado é a lei” (1Co 15:56).

Quando Ló se apartou de Abraão, Deus indicou ao patriarca qual a terra que os seus descendentes haveriam de herdar, em função do que lhe foi prometido, caso saísse do meio dos seus parentes. (Gn 13:15-16)

Por isso, é dito pelo escritor aos Hebreus que, pela fé, ou seja, pela palavra de Deus, Abraão, sendo chamado para um lugar que havia de receber por herança, obedeceu e saiu (Hb 11:8). O fato de Abraão ter saído, indica que ele creu na palavra de Deus. Pela fé, ou seja, por causa da palavra de Deus, Abraão peregrinou na terra da promessa, como que em terra alheia (Hb 11:9).

Se Abraão tivesse saído do meio de sua parentela e fosse habitar as regiões de Canaã sem que Deus lhe ordenasse, a sua decisão não seria por fé. Se Abraão tivesse decidido, de moto próprio, oferecer Isaque em holocausto a Deus, sem que Deus houvesse ordenado, o seu sacrifício não seria por fé e sua atitude não seria em função de uma provação (Hb 11:17).

Quando lemos que Abraão foi justificado pela fé, significa que Abraão foi justificado pela palavra de Deus. É por isso que é dito que a fé foi imputada[2] a Abraão (Rm 4:9). O que foi conferido a Abraão? Uma capacidade de crer? Não! O que foi imputado a Abraão foi a fé, a palavra de Deus, que é fato, prova,  sem tergiversações.

A capacidade de crer é pertinente a todos os homens. É um atributo natural do ser humano, acreditar no que é real, verdadeiro, firme, palpável, etc. O que foi dado a Abraão foi a fé, ou seja, uma promessa graciosa e firme (Rm 4:16). Abraão acreditou em Deus, por não atentar para a condição do seu corpo amortecido ou, para o amortecimento do ventre de Sara, e sim, se deixou fortificar pela palavra que lhe foi anunciada: fé! (Hb 11:19-21)

A certeza de Abraão não surgiu de suas próprias convicções, antes pela palavra da fé que lhe disse que haveria de ser abençoado, caso obedecesse. De posse da palavra de Deus, teve certeza que Aquele que prometeu, era poderoso para cumprir (Rm 4:21). Ao sair do meio de sua parentela, Abraão estava admitindo, através da sua ação, que Deus é fiel e poderoso para cumprir o que prometeu, pelo que ‘… isso lhe foi imputado para justiça’ (Rm 4:22); “Assim como Abraão creu em Deus, isso lhe foi imputado como justiça” (Gl 3:6).

Ao sair do meio da sua parentela, Abraão estava admitindo, por meio de sua ação, que Deus é fidedigno[3], ou seja, digno de ‘fé’ (πιστευω – pisteuo), digno de ‘confiança’, pela sua própria glória e virtude (2Pe 1:3).

É na fé (πιστις – pistis), ou seja, na palavra de Deus que há poder. Foi pela palavra de Deus que Sara recebeu poder de conceber um filho, mesmo sendo estéril e de avançada idade. Quando é dito que ‘… pela fé, a própria Sara recebeu poder…’, o termo ‘fé’ não diz das convicções de Sara, antes aponta para a fidelidade, a lealdade, o caráter de alguém em quem se pode confiar. A crença de Sara resume-se em ‘ter por fiel’ aquele que havia feito a promessa (Hb 11:11).

Foi pela palavra de Deus que os antigos alcançaram bom testemunho, pois sem a palavra de Deus, nada podiam esperar ou acreditar (Hb 11:1). A Bíblia diz que Abraão é o Pai da fé, pois o evangelho foi primeiramente anunciado a Ele: a vinda do Cristo em quem todas as famílias da terra seriam bem-aventuradas, e não porque Ele creu, até porque existiram heróis da fé antes do patriarca Abraão.

Abraão foi salvo pela ‘fé’, porque ‘creu’ em Deus, por causa do que lhe foi dito (fé):

“(Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí) perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos e chama as coisas que não são como se já fossem. O qual, em esperança, creu contra a esperança, tanto que ele tornou-se pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência” (Rm 4:17-18).

Deus deu a sua palavra e Abraão creu em Deus, que vivifica os mortos e chama as coisas que não são, como se já fossem, ou seja, Deus é poderoso para realizar o que prometeu, portanto, digno de confiança. Ao crer, Abraão tornou-se pai de muitas nações, isto conforme a palavra de Deus que diz: Assim será a tua descendência!

 

‘Fé’ e ‘crer’

Durante a leitura das cartas paulinas, verifica-se que o substantivo fé (πιστις – pistis) e o verbo crer (πιστευω – pisteuo) são empregados, quase que o mesmo número de vezes, por volta de 244 ocorrências e aquele, por volta de 243 vezes, sem falar no termo fé como adjetivo (πιστός – pistos), que ocorre 67 vezes.

Apesar de ser equivalente, o número de vezes que os termos πιστις e πιστός são empregados, vale destacar que o substantivo πιστις (pistis), quando empregado pelo apóstolo Paulo, em várias ocasiões, assume uma conotação especifica.

Geralmente, a definição de πιστις[4] nos dicionários, aponta para as disposições internas do indivíduo, ou seja, para questões de cunho subjetivo: convicção. Porém, ao fazer uso do termo, o apóstolo Paulo, na maioria das vezes, o faz como figura de linguagem, uma metonímia[5].

Como Cristo é o autor e consumador da fé (Hb 12:2), o substantivo fé é utilizado para fazer referência à pessoa de Cristo e à sua doutrina, havendo substituição do autor (Cristo) pela sua obra (fé).

Quando é dito pelo apóstolo Paulo que, ‘em todo o mundo é anunciada a vossa fé’ (Rm 1:8), o termo foi utilizado para fazer referência à doutrina de Cristo, ou seja, o evangelho. Quando é dito que ‘antes que a fé viesse’, ou ‘aquela fé que havia de se manifestar’ (Gl 3:23), o substantivo fé foi empregado para fazer referência à pessoa de Cristo.

Quando é dito que o homem é justificado pela fé, na verdade, o apóstolo está declarando que o homem é justificado por Cristo. Quando é dito que o homem é salvo pela graça de Deus, por meio da fé, na verdade, o apóstolo está esclarecendo que Cristo é o dom inefável de Deus, e que, através d’Ele, o homem é salvo (Ef 2:8).

Por que devemos fazer essa análise? Porque, quando emprega o substantivo ‘fé’, em sua epístola, o irmão Tiago o faz, somente com um único significado: crer, portanto, apontando, apenas, para as disposições internas do indivíduo, diferentemente do apóstolo Paulo, que emprega o termo, tanto no sentido de ‘doutrina’, quanto no sentido de ‘crer’.

Observe essa definição:

“A fé é mais do que uma crença intelectual em Deus. Se essa crença não nos leva a uma santa vida de justiça e misericórdia, ela não é a fé salvadora (Mt 7.21-23)” Radmacher, Earl; Allen, Ronald B.; House, H. Wayne, O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais – A Palavra de Deus ao alcance de todos. Rio de Janeiro, 2010, pág. 675.

De que ‘fé’ o autor está falando? De um corpo doutrinário, ou de crer?

Se a ‘fé’, em análise pelos editores do ‘O novo comentário bíblico do NT’, refere-se ao evangelho, efetivamente, por meio do evangelho (fé), o homem recebe poder de ser feito filho de Deus, portanto, é de novo criado, em verdadeira justiça e santidade (Ef 3:23). Está acima de uma crença intelectual em Deus, antes é a palavra de Deus pela qual o homem é santificado: “Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).

Se eles abordaram a ‘fé’, no sentido de ‘crer’, ‘acreditar’, tal fé não pode ser nada, além de uma crença intelectual na palavra de Deus. Quando o homem crê em Cristo, na verdade, exerce uma crença intelectual em Deus, conforme o Seu testemunho, exarado nas Escrituras. Deus deu testemunho do seu Filho nas Escrituras e crer nas Escrituras é exercer um culto racional.

Não é o crer, que leva o homem a uma ‘santa vida de justiça’, antes é a fé manifesta – Cristo – que santifica os que creem, concedendo-lhes uma nova vida: santa e justa. É a verdade, a ‘fé’ que santifica, e não o crer: “E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade” (Jo 17:19). Os equívocos quanto ao significado do termo ‘fé’, leva ao entendimento errôneo de que o dever de andar como filhos da luz (comportamento), diz de uma fé que ‘… é mais do que uma crença intelectual’.

 

A obra de Abraão

“Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque?” (Tg 2:21)

Comparando a escrita do apóstolo Paulo com a do irmão Tiago, percebe-se que, por causa do público alvo da carta, há uma mudança gritante no emprego de alguns termos, sem falar que o apóstolo Paulo, ao escrever, utiliza diversos recursos linguísticos de estilo, enquanto Tiago, pela graciosidade poética da sua epístola, fez uso somente de figuras e parábolas.

Quando Tiago diz ‘a prova da vossa fé’, diz da confiança do homem que é posta à prova, e não da palavra de Deus, que é simultaneamente fundamento e prova. Se o homem é provado e permanece confiante, a confiança transforma-se em ‘perseverança’. “Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus. Quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem, tanto o Pai, como o Filho” (2 Jo 1:9; Tg 1:3).

O não crente precisa crer para ser salvo e o salvo precisa portar-se de modo digno do evangelho e perseverar na fé, combatendo o bom combate: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo, como aos que te ouvem” (2Tm 4:16); “Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós, que estais num mesmo espírito, combatendo, juntamente, com o mesmo ânimo, pela fé do evangelho” (Fl 1:27).

Se alguém vai pedir algo a Deus, deve pedir com fé, ou seja, acreditando, crendo (Tg 1:6). O termo ‘fé’, foi empregado por Tiago, no sentido de ‘crer’, diferentemente do apóstolo Paulo que, muitas vezes, emprega o termo, no sentido de evangelho, doutrina.

Mas, por questões de estilo e escrita, há divergências entre o exposto pelo apóstolo Paulo e Tiago? Não! A má compreensão da exposição é que leva as divergências, não o conteúdo doutrinário exposto por eles.

O apóstolo Paulo afirma que o evangelho é poder de Deus para salvação (Rm 1:16), enquanto que Tiago, por sua vez, afirma que a palavra implantada nos cristãos é poderosa para salvar (Tg 1:21). Sem contradição alguma a exposição de ambos!

Entretanto, a linguagem utilizada por eles é diferente, em alguns aspectos, apesar de a doutrina não ser divergente, e, isto se dá em função do público alvo da mensagem.  Observe que o apóstolo Paulo diz que o evangelho é poder de Deus para a salvação ‘de todo aquele que crê’ e o irmão Tiago, em vez de dizer que é necessário crer, aponta a necessidade de cumprir a palavra, ou seja, de ‘ser executor da obra’ (Tg 1:25).

‘Acreditar’ e ‘crer’ são verbos que melhor se adequam à realidade dos gentios, enquanto a linguagem dos judeus traduz a ideia de que, quem crê em Deus, é executor de um ‘trabalho’, de uma ‘obra’.

A linguagem do Antigo Testamento aponta o obediente, como aquele que crê, acredita, daí a linguagem dos judeus em identificar ao que obedece, ou seja, quem é executor do que é ordenado por Deus, como quem crê. A linguagem do irmão Tiago evidencia a sujeição do crente e o senhorio de Deus, e a linguagem do apóstolo Paulo evidencia a condição de quem é livre no Senhor.

Entretanto, é imprescindível ao leitor notar a diferença da abordagem paulina da do irmão Tiago. Abordagem do apóstolo Paulo no verso 16 de Romanos 1 possui viés evangelístico, e a abordagem no verso 21 do capítulo 1 de Tiago possui viés exortativo. Este aborda a necessidade de os cristãos perseverarem firmes na palavra neles implantada, enquanto que, aquele, enfatiza a universalidade do evangelho: todo aquele que crê, tanto judeus quanto gentios.

A linguagem de Tiago é a mesma de Cristo, pois é própria aos judeus. Quando a multidão perguntou a Jesus qual era a obra de Deus para realizarem, Jesus respondeu que a obra de Deus é crer naquele que Ele enviou (Jo 6:28-29). O executor da obra, que é bem-aventurado em seu feito, diz de quem crê em Cristo, pois a lei perfeita, a da liberdade, diz do evangelho, a palavra poderosa para salvar: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25).

Tiago escreveu aos servos de Cristo das doze tribos da dispersão, ou seja, aos cristãos convertidos do judaísmo (Tg 1:1). Mas, entre esses cristãos, havia aqueles que diziam crer em Deus e cuidavam ser religiosos e não se sujeitavam a Cristo, consequentemente, a mensagem de Tiago enfatiza o que foi dito por Jesus aos seus discípulos: “… credes em Deus, crede também em mim” (Jo 14:1).

Daí o questionamento de Tiago nos versos 14 a 26, do capítulo 2, da sua epístola: “Que aproveito há se alguém disser que tem fé e não tiver obras?” (Tg 2:14). O termo ‘fé’ foi utilizado no sentido de ‘crer’, conforme o verso 19: “Crês tu que Deus é um só?”, e não no sentido de ‘evangelho’, ‘doutrina’, como quando o apóstolo Paulo diz que acabou a carreira e guardou a ‘fé’ (2 Tm 4:7).

Que proveito teriam os discípulos ao ‘crerem em Deus’ e não crerem em Cristo? Poderia tal fé salvar os discípulos? Não! Pois qualquer que diz crer em Deus, deve crer naquele que Ele enviou: “E Jesus clamou e disse: Quem crê em mim, crê, não em mim, mas naquele que me enviou” (Jo 12:44).

O termo ‘fé’, utilizado por Tiago, não faz referência ao evangelho e nem a Cristo, bem como o termo ‘obras’ no contexto, não faz referência à lei de Moisés. O termo ‘fé’ foi utilizado para fazer referência a uma crença em uma doutrina ou pensamento diverso da doutrina do evangelho de Cristo (Tg 3:19), e o termo ‘obras’ foi utilizado para fazer referência à lei perfeita, a da liberdade, e não às obras da lei de Moisés (Tg 1:22 e 25).

Acreditar que Deus é um só não salva, da mesma forma que não salva acreditar que o homem pode ser salvo por ser descendente da carne de Abraão ou, pela circuncisão. Os judeus acreditavam que nunca foram escravos de ninguém, mas tal ‘fé’ não os tornava livres do pecado (Jo 8:33). Há quem creia em Cristo, como alguns judeus, mas segundo a concepção do seu coração enganoso. Embora esta pessoa tenha ‘fé’ (creia), tal fé é sem proveito para a salvação, ou seja, não os faz livres do pecado: “Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos” (Jo 8:31).

Muitos judeus criam em Cristo, mas quando arguidos, continuavam confiados que eram livres por serem descendentes de Abraão (Jo 8:31 e 39). Poderia tal ‘fé’ salvá-los? Pode alguém ser salvo, por crer na existência de Deus? Não!

Neste sentido, que proveito há, se alguém diz que tem fé, mas não crê em Jesus? Que proveito há em dizer que conhece a Deus, se não guardar o Seu mandamento? Tal pessoa é mentirosa e nela não está a verdade (1 Jo 2:3-5). Que proveio há em dizer: ‘nunca fomos escravos de ninguém’, se não é liberto pela verdade? (Jo 8:31-32)

O irmão Tiago não estava questionando se há proveito em ter fé em Cristo, ou seja, se quem crê em Cristo não será salvo, pois é evidente que quem crê em Cristo será salvo (1 Jo 5:13). A fé em Cristo pode salvar o crente, pois, acerca de Cristo, testemunharam todos os profetas, de que recebem o perdão dos pecados, todos os que creem n’Ele (At 10:43). Por Cristo é justificado todo aquele que crê, ou seja, qualquer que tem fé n’Ele (At 13:39).

A abordagem de Tiago, em relação àqueles que diziam que tinham fé, é a mesma que fez o apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, quando disse: “Professam conhecer a Deus, mas o negam pelas suas obras…” (Tt 1:16). É sem proveito dizer que se conhece a Deus, ou dizer que se tem ‘fé’, se esse alguém não guarda o seu mandamento (1 Jo 2:4). E qual é o mandamento a cumprir, para que o homem passe a conhecer a Deus? Que creia em Cristo, no nome do Filho de Deus (1 Jo 3:23), pois, o que guarda esse mandamento, permanece em Deus e Deus nele (1 Jo 3:24; Gl 4:9).

Qual a obra que o homem deve realizar? Crer em Cristo! (Jo 6:28-29). É sem valor algum, professar que se conhece a Deus, mas não se crê em Cristo, ou seja, se o nega pelas obras. Cristo é salvação para todos quantos O obedecem, portanto, Ele salva quem realiza a sua obra: “E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb 5:9).

O questionamento de Tiago só é compreendido quando o leitor perceber que a obra a qual ele fez referência diz da obra de Deus, que é crer em Cristo e não das obras decorrentes da lei: guardar os sábados, a circuncisão, dias, luas, etc. Aquele que diz que crê em Deus, se não crê em Cristo, a obra exigida por Deus, tal ‘fé’ é morta em si mesma (Tg 2:17).

Ao ler esta passagem de Tiago, tem que se ter em mente que, quem crê em Cristo, não crê somente em Cristo, mas também em Deus e vice-versa: “E Jesus clamou e disse: ‘Quem crê em mim, crê, não somente em mim, mas também naquele que me enviou’” (Jo 12:44). Ora, quem diz ter fé, tem que ter a obra, ou seja, crer em Cristo. Quem crê em Cristo crê no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho Jesus Cristo (1 Jo 5:10).

Muitos judeus diziam que criam que Deus é um só, mas, apesar de ser bom crer na existência de Deus, não consideravam que os demônios também criam e estremeciam, mas, tal fé não salva os demônios.

O que salva o homem é o mandamento de Deus, contido no evangelho: realizar a obra de Deus, ou seja, crer em Cristo, não a disposição do homem em crer na existência de Deus, ou em milagres, ou em anjos, ou no sobrenatural, ou na circuncisão, ou na carne de Abraão, etc.

Quando Tiago utiliza o termo ‘louco’, ‘insensato’, deixa evidente que estava tratando com cristãos convertidos dentre os judeus. Os profetas utilizavam o termo ‘louco’, ‘ignorante’ para fazer referência aos filhos de Israel, e, Tiago ao escrever às doze tribos da dispersão, escreveu a cristãos convertidos, dentre os judeus (Dt 32:6; Jr 4:22).

Tiago destaca que, somente dizer acreditar (fé) em Deus, sem obedecê-Lo (obras) é inútil e utiliza a pessoa do patriarca Abraão como exemplo, que, ao oferecer o seu único filho em holocausto, demonstrou confiar em Deus (Tg 2:20).

O irmão Tiago evidencia que Abraão foi justificado pelas obras, quando ofereceu o seu filho Isaque sobre o altar (Tg 2:21). Como? Ao dizer que Abraão foi justificado pelas obras, isto não significa que Abraão foi justificado pelas obras da lei, visto que à época do patriarca ainda não havia sido entregue a lei aos filhos de Israel (Rm 4:13). O apóstolo Paulo é específico: ninguém é justificado ‘pelas obras da lei’, na verdade o homem é justificado pelas obras, em função da lei (mandamento) da fé.

As ‘obras da lei’ referem-se à lei de Moisés, que é antagônica à ‘lei da fé’, ou seja, ao mandamento do evangelho: crer em Jesus Cristo: “Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé” (Rm 3:27). “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei, nenhuma carne será justificada” (Gl 2:16).

Se Abraão tivesse proposto de si mesmo fazer um sacrifício, oferecendo o seu filho em holocausto, a sua ação não o justificaria. Mas, como Deus ordenou a Abraão que oferecesse o seu único filho em holocausto (Gn 22:2) e ele obedeceu ao mando do Senhor, foi justificado por sua obra: a palavra de Deus operou nele: “Por isso, também, damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes” (1 Ts 2:13).

Tudo o que não é ordenado por Deus, é pecado e oferecer um filho em holocausto, sem Deus ter ordenado, é pecado “… e tudo o que não é de fé é pecado” (Rm 14:23), pois o justo viverá da palavra de Deus, ou seja, da fé (Dt 8:3; Hc 2:4).

Abraão foi justificado por ter colocado o seu único filho sobre o altar? Não! Foi justificado por Deus, porque confiou que Deus era poderoso para ressuscitar o seu filho, quando iria imolá-lo sobre o altar (Hb 11:19).

Ao falar com Saul, Deus deixa claro que importa ao homem obedecer, não sacrificar. (1 Sm 15:22). Abraão demonstrou confiança em Deus, quando colocou o seu filho sobre o altar para imolá-lo, o que demonstra que, quem confia, obedece. É dito que Abraão foi justificado pelas obras, porque não se resignou em acreditar na existência de Deus, antes realizou o que Deus ordenou.

Com relação ao evangelho, o homem é salvo pela obra e não porque acredita que Deus é um só. Qual a obra em questão? Crer que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, pois este é o mandamento de Deus, para todos os homens durante o tempo sobre modo oportuno de salvação – hoje – (2 Co 6:2).

Enquanto de Abraão Deus exigiu o seu único filho, hoje, Deus exige de todos os homens que creiam em seu Filho, Jesus Cristo. Abraão acreditava na existência de Deus, e quando foi realizar a obra exigida por Deus, ficou claro que a sua crença na existência e poder de Deus, cooperou com a sua obra, e assim, pela obra, a confiança foi ‘aperfeiçoada’ (Tg 2:22).

A confiança do homem em Cristo é designada ‘perfeita’ (τελειόω – teleioó) quando o crente realiza o que lhe foi determinado. O termo grego traduzido por ‘aperfeiçoada’ é τελειόω, e não tem o sentido de melhorar a confiança, antes aponta para um quesito funcional: cumpre o propósito para o qual foi estabelecida.

Enquanto Tiago utilizou o termo ‘obra’, para fazer referência ao imperativo de obedecer ao mandamento de Deus, o apóstolo João faz uso do termo ‘amor’ (ágape), para fazer referência a esse mesmo imperativo.

“Bem vês que a fé cooperou com as suas obras e que pelas obras, a fé foi aperfeiçoada” (Tg 2:22);

“No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena e o que teme não é perfeito em amor” (1 Jo 4:18).

Considerando que, quem ama a Deus, cumpre o seu mandamento (Jo 14:15 e 23 e 24), segue-se que quem ama (obedece), não tem medo (temor), pois a obediência perfeita lança fora o medo. O medo decorre da pena, de modo que, quem tem medo é porque não obedeceu, de fato.

Pela palavra de Deus que disse: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12:1), ou seja, pela fé (a palavra de Deus é firme fundamento, prova do que não se vê), Abraão obedeceu e saiu, mesmo não sabendo para onde ia (Hb 11:8). A confiança só é perfeita quando cumpre, exatamente, a finalidade: a obediência.

Quando diz que o homem é justificado pela ‘fé’, o apóstolo Paulo está apontando para a verdade do evangelho, que evidencia Cristo como o salvador do mundo. Quando diz que Abraão foi justificado pelas obras, o irmão Tiago está apontando para o mandamento de Deus, que diz: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá e oferece-o ali em holocausto, sobre uma das montanhas, que eu te direi” (Gn 22:2).

Sem o mandamento para imolar o filho, Abraão poderia crer na existência de Deus, mas não seria aprovado. Sem o mandamento de Deus, para sair do meio da sua parentela, Abraão poderia deixar pai e mãe, mas não seria herdeiro da promessa. Abraão podia gerar um filho de suas entranhas, o que ocorreu com Hagar e Quetura (Gn 16:4; Gn 25:1-2), porém, tal capacidade não o tornaria pai de muitas nações.

É significativo que, diante da promessa de que a sua descendência seria como as estrelas do céu, Abraão nada fez, antes confiou em Deus, ao que isto lhe foi imputado por justiça. Diante da palavra da promessa, que disse que Abraão teria um filho com Sara (Gn 17:19), a jactância foi excluída, pois não havia nada que Abraão pudesse fazer para que Sara concebesse um filho.

Apesar do questionamento de Abraão, de que era impossível a um homem com mais de cem anos gerar filhos (Gn 17:17), posteriormente, Abraão teve filhos com Quetura (Gn 25:1). Dos filhos que teve com Quetura, Abraão podia jactar-se da sua carne, porém, do filho que teve com Sara, a promessa excluiu qualquer possibilidade de jactância, pela impossibilidade inerente ao homem, e ao oferecer sobre o altar o seu único filho, Abraão teve que, em figura, recobrá-lo dentre os mortos (Rm 3:27; Hb 11:19).

Sair do meio da parentela era algo que Abraão podia fazer, mas, ao fazê-lo, indica que ele se sujeitou, como servo, ao mandamento do Senhor. Oferecer Isaque sobre o altar era algo que Abraão podia fazer, e o fez, demonstrando total submissão à ordem de Deus. Agora, o nascimento de Isaque e a vinda do descendente, foram estabelecido pela palavra de Deus, ao que Abraão resignou-se a crer, pois, com relação à promessa, nada podia fazer a não ser crer naquele que é fiel e não pode mentir.

 

Fé com obras

Por má compreensão da exposição de Tiago, Martinho Lutero[6] chegou a classificar a epístola de Tiago como ‘insossa’, ou ‘cheia de palha’.

Se não compreender que o evangelho constitui um mandamento de Deus e que crer em Cristo é realizar a Sua obra, dificilmente o leitor compreenderá a epístola de Tiago: “Mas, nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação?” (Rm 10:16).

O apóstolo Paulo, ao escrever a Tito, utiliza a mesma linguagem do apóstolo João e Tiago:

“Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, desobedientes e reprovados para toda a boa obra” (Tt 1:16);

“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso e nele não está a verdade” (1 Jo 2:3-4).

Dizer que ‘conhece a Deus’ e ‘negar com as obras’, tem o sentido de honrar a Deus somente com a boca e com os lábios, vez que tal pessoa não guarda o mandamento de Deus (temor). É crer (ter fé) sem as obras (obediência, honra). Os filhos de Israel se aplicavam a um temor que não era o princípio da sabedoria, antes era mandamento de homens: “Porque o Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e  com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim e o seu temor para comigo, consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (Is 29:13).

Primeiro, é dada a palavra da fé, ou seja, o evangelho (Rm 10:8). A palavra da fé é condicionada, vez que ‘se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres, que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo’ (Rm 10:9).

A palavra implantada é fé e a condição estabelecida é crer, de modo que possibilita ao homem crer para a justiça e confessar para ser salvo (Rm 10:10). A confissão é o fruto dos lábios de um coração que recebeu a semente incorruptível, a palavra da fé (Hb 13:15; 1Pd 1:23).

A obra exigida de Deus, dos homens, é crer no coração (intelectualmente), que Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos e, com a boca, confessá-lo como Senhor e Cristo. Essa obra decorre da palavra da fé apregoada: “Porque esta palavra está mui perto de ti, na tua boca, e no teu coração, para a cumprires” (Dt 30:14). Por isso é dito: Cri, por isso falei (Sl 116:10), pois com a boca se confessa e com o coração (mente) se crê.

O exemplo que Tiago apresenta, através de Raabe, se dá da mesma forma que com o cristão, pois ela ouviu que Deus havia dado a Israel a terra onde estava a cidade de Jericó, bem como ouviu que Deus secou as águas do Mar Vermelho e o que foi feito dos povos que se opuseram aos filhos de Israel, após a travessia do Jordão, de modo que Raabe concluiu que Deus é Deus em cima nos céus e embaixo na terra (Js 2:11).

Raabe ouviu e creu em Deus, a ponto de confessar aos espias os seus temores e pedir por misericórdia (Js 2:11-13). Por crer que Deus é Deus encima nos céus e embaixo na terra, pelo que ouviu acerca dos feitos dos filhos de Israel, Raabe acolheu os espias no eirado da sua casa e os despediu por outro caminho (Tg 2:25).

A informação que Raabe ouviu, acerca dos filhos de Israel, era firme e verdadeira, pelo que é dito: “Pela fé Raabe, a meretriz, não pereceu com os incrédulos, acolhendo em paz os espias” (Hb 11:31). Pela informação que recebeu, acerca do povo de Israel e do Deus que tirou o povo da terra do Egito, ou seja, pela fé (πίστις-pistis), Raabe tomou a iniciativa de acolher em paz os espias (obra).

Seria sem proveito, Raabe dizer que acreditava no evento histórico em que Deus secou as águas do Mar Vermelho, se não tivesse rogado por misericórdia aos espias. Seria sem proveito Raabe confessar que Deus é Deus nos céus e na terra sem se sujeitar a Ele, servindo aos espias.

Se entender o termo ‘fé’, segundo o que é usual em nossos dias, Raabe seria uma mulher de fé, se ela acreditasse que não seria atingida pela guerra, ou em algum absurdo ou em algum evento mágico. Nesse diapasão, a fé de Raabe deveria se opor à razão, ou como propuseram: ‘credo quia absurdum’ (creio, porque é absurdo).

Semelhantemente, Abraão foi justificado quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque. Ora, oferecer um filho em holocausto é um absurdo, porém, Abraão o fez pela fé, ou seja, apoiado na palavra de Deus, que disse: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi” (Gn 22:2). Ele ofereceu o seu único filho, porque era a palavra de Deus e não porque era absurdo.

Embora Deus tenha ordenado a Abraão que oferecesse o seu único filho em holocausto, Abraão considerou a palavra que diz: “Em Isaque será chamada a tua descendência” (Hb 11:18). Sem Isaque não havia descendência, e nem viria o Descendente, pelo que se entende que ele considerou que “Deus era poderoso para, até dentre os mortos, ressuscitar a seu filho e daí, também, em figura ele o recobrou” (Hb 11:18-19).

É pela fé, ou seja, pela palavra de Deus, que diz: ‘Em Isaque seria chamada a sua descendência’, que Abraão foi aprovado por Deus. Por causa dessa promessa: “Como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí” (Rm 4:17), Abraão creu que Deus vivifica os mortos e que chama à existência as coisas que não são, como se já fossem, vez que Deus teria que cumprir a Sua palavra (Rm 4:21).

Sem a palavra de Deus (fé), seria impossível Abraão ter a esperança de que o seu descendente (Cristo), viria ao mundo, quando colocou o seu único filho sobre o altar (creu contra a esperança).

“Pela fé, ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, ressuscitá-lo; E daí também, em figura, ele o recobrou” (Hb 11:17-19)

Abraão tinha fé em Deus (cria na existência de Deus) e executou a obra que Deus mandou realizar, ou seja, a fé (crer) cooperou com as obras, de modo que, pelas obras de Abraão a fé (crer) foi aperfeiçoada, ou seja, cumpriu o seu propósito.

 

Identificando um erro na pergunta: “A salvação é somente pela fé ou pela fé, mais as obras?”

Há quem acredite que essa é a pergunta mais importante, em toda a Teologia Cristã. Outros, que essa pergunta motivou a Reforma: a separação entre a igreja Protestante e a igreja Católica, entretanto, não atentam para o fato de que há um erro na pergunta, que leva a um entendimento equivocado, acerca da fé e das obras.

Quando é perguntado: ‘A salvação é somente pela fé…?’, é essencial que se dê o significado do termo ‘fé’ na frase. Se o significado de fé for ‘crer’, jamais a salvação é somente pelo ‘crer’.

Quando a Bíblia apresenta a salvação somente pela fé, na verdade está dizendo que a salvação é somente por Cristo, ou seja, pelo evangelho. Não existe outra alternativa que não seja o evangelho (fé). A alternativa “… ou pela fé mais as obras?”, inexiste!

Quando questionam: “A salvação é pela fé mais as obras?”, geralmente, os termos ‘fé’ e ‘obras’ não possuem o mesmo significado que o empregado pelo irmão Tiago no verso: “Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé” (Tg 2:24). Tiago diz que ‘o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé’, o que é completamente diferente da ideia que a pergunta sugere: ‘Salvação é pela fé, mais as obras’.

Para quem construiu a pergunta, obras possui o significado de ‘boas ações’, ‘bom comportamento’ e até de ‘frutos’, questões que o irmão Tiago não aborda neste verso em comento. O homem é salvo ‘apenas’ quando crê em Cristo, pois crer em Cristo é o suficiente para ser salvo, vez que quem salva é Cristo.

Quem crê em Cristo, produziu a obra exigida por Deus, de modo que Tiago não está dizendo que, para ser salvo, é necessário ter fé (crer) e fazer boas ações (obras). É um equivoco entender que Tiago enfatizou o fato de que a fé em Cristo produz boas obras’[7].

Tiago não faz referência à fé em Cristo, antes à ‘justificação pelas obras’, que na verdade, é crer em Cristo. Quando ele diz: ‘não somente pela fé’, Tiago não se refere à fé, como a verdade do evangelho, mas, sim, a alguém dizer que crê em Deus, mas que não realiza a sua obra (mandamento).

Realizar boas ações (boas obras) não é prova de que o homem foi verdadeiramente justificado, antes o justificado já produziu a obra exigida por Deus, e Deus, por sua vez, gerou um novo homem, através da semente incorruptível, criado em verdadeira justiça e santidade. O bom porte, o bom comportamento, as boas ações, etc., não decorrem da fé (crer) em Cristo, antes, o bom comportamento se dá quando o homem é admoestado e redarguido, e muda o seu comportamento, pelo transformar do entendimento (Rm 12:2; 1Pd 1:13-14).

A segunda parte da pergunta é equivocada e também induz ao erro, pois Tiago diz que o homem é justificado pelas obras (crer em Cristo),  não pela fé (crer em Deus). Em momento algum Tiago aponta para uma salvação pela ‘fé mais as obras’, antes ele apresenta a salvação pelas obras (obediência ao mandamento de Deus) que decorrem da fé (crer) em Cristo.

 


[1] “Proposição que se assume como verdadeira, independentemente de seu conteúdo”;

[2] “3049 λογιζομαι logizomai voz média de 3056; TDNT – 4:284,536; v 1) recontar, contar, computar, calcular, conferir 1a) levar em conta, fazer um cálculo 1a1) metáf. passar para a conta de alguém, imputar 1a2) algo que é considerado como ou é alguma coisa, i.e., como benefício para ou equivalente a algo, como ter a força e o peso semelhante 1b) constar entre, considerar 1c) considerar ou contar 2) avaliar, somar ou pesar as razões, deliberar 3) de considerar todas as razões, para concluir ou inferir 3a) considerar, levar em conta, pesar, meditar sobre 3b) supor, julgar, crer 3c) determinar, propor-se, decidir Esta palavra lida com a realidade. Se eu “logizomai” ou considero que minha conta bancária tem R$ 25,00, ela tem R$ 25,00. Do contrário eu estaria me enganando. Esta palavra refere-se a fatos e não a suposições” Dicionário Bíblico Strong.

[3] “Fidedigno – adj. Merecedor de crédito (confiança); que é real e verdadeiro; autêntico: realizou um fidedigno levantamento das dívidas da empresa. P.ext. Figurado. Caracterizado por ser real e verdadeiro; autêntico.  (Etm. do latim: fide dignus)”. Dicionário Online de Português.

[4] “4102 πιστις pistis de 3982; TDNT – 6:174,849; n f 1) convicção da verdade de algo, fé; no NT, de uma convicção ou crença que diz respeito ao relacionamento do homem com Deus e com as coisas divinas, geralmente com a ideia inclusa de confiança e fervor santo nascido da fé e unido com ela 1a) relativo a Deus 1a1) a convicção de que Deus existe e é o criador e governador de todas as coisas, o provedor e doador da salvação eterna em Cristo 1b) relativo a Cristo 1b1) convicção ou fé forte e benvinda de que Jesus é o Messias, através do qual nós obtemos a salvação eterna no reino de Deus 1c) a fé religiosa dos cristãos 1d) fé com a ideia predominante de confiança (ou confidência) seja em Deus ou em Cristo, surgindo da fé no mesmo 2) fidelidade, lealdade 2a) o caráter de alguém em quem se pode confiar” Dicionário Bíblico Strong.

[5] “A metonímia consiste em empregar um termo no lugar de outro, havendo entre ambos estreita afinidade ou relação de sentido. Observe os exemplos abaixo: 1 – Autor pela obra: Gosto de ler Machado de Assis. (= Gosto de ler a obra literária de Machado de Assis.) 2 – Inventor pelo invento: Édson ilumina o mundo. (= As lâmpadas iluminam o mundo.) 3 – Símbolo pelo objeto simbolizado: Não te afastes da cruz. (= Não te afastes da religião.) 4 – Lugar pelo produto do lugar: Fumei um saboroso havana. (= Fumei um saboroso charuto.) 5 – Efeito pela causa: Sócrates bebeu a  morte. (= Sócrates tomou veneno.)” Só Português < http://www.soportugues.com.br/secoes/estil/estil3.php > Consulta realizada em 06/05/2016.

[6] “Em suma: o evangelho, segundo João e sua primeira epístola, as epístolas de Paulo, particularmente, as dirigidas aos romanos, gálatas, efésios, e a primeira epístola de Pedro, estes são os livros que lhe apresentam Cristo e lhe ensinam tudo que é necessário e bom saber, ainda que jamais visse ou ouvisse qualquer outro livro ou doutrina. alquer forma, não tem natureza evangélica. Mas disso ainda falaremos em outros prefácios” Lutero, Martinho. Pelo Evangelho de Cristo: Obras selecionadas de momentos decisivos da Reforma. Trad. Walter O. Schlupp. Porto Alegre: Concórdia & São Leopoldo: Sinodal, 1984. pp. 171-177; “Embora esta epístola de São Tiago fosse rejeitada pelos anciãos, eu elogio-a e considero-a um bom livro, porque estabelece não doutrinas de homens, mas vigorosamente promulga a lei de Deus. No entanto, afirmo a minha própria opinião sobre isso, embora sem prejuízo para ninguém, eu não considero como uma escrita de um apóstolo, e as minhas razões seguem. Em primeiro lugar, é terminantemente contra São Paulo e todo o resto da Escritura em atribuir a justificação às obras. Ela diz que Abraão foi justificado por suas obras, quando ofereceu seu filho Isaac, embora em Romanos, São Paulo ensine o contrário, que Abraão foi justificado sem as obras, por sua fé, antes que ele tivesse oferecido seu filho, e prova isso por Moisés em Gênesis 15. Agora, embora esta epístola pode ser ajudada e uma interpretação concebida para essa justificação pelas obras, não pode ser defendida em sua aplicação às obras da declaração de Moisés em Gênesis 15. Pois, Moisés está falando aqui apenas da fé de Abraão, e não de suas obras, como São Paulo demonstra em Romanos. Esta falha, portanto, prova que esta epístola não é o trabalho de qualquer apóstolo” Lutero, Martinho. Prefácio à tradução alemã das Epístolas de S. Tiago e S. Judas, em 1522.

[7] “Tiago e Paulo não discordam em seus ensinamentos sobre a salvação. Eles abordam o mesmo assunto, sob diferentes prismas. Paulo, simplesmente, enfatizou que a justificação vem somente pela fé, enquanto Tiago enfatizou o fato de que a fé em Cristo produz boas obras”. A salvação é somente pela fé ou pela fé mais as obras? Got Questions < http://www.gotquestions.org/Portugues/somente-a-fe.html > Consulta realizada em 19/05/16.

Ler mais

Gálatas 3 – Os filhos de Abraão

É Deus quem concede do Seu Espírito e faz maravilhas. É certo que na lei o homem somente encontra obrigações, mas, através da pregação, ou do que é anunciado acerca do evangelho (fé), a ação fica a cargo de Deus, que é poderoso para fazer abundar no homem a sua graça “E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra” ( 2Co 9:8 ). Perceba que na lei o homem encontra uma determinação: “Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis, pois o homem que os cumprir, por eles viverá” ( Lv 18:5 ).


A Inconstância dos Gálatas

1 Ó INSENSATOS gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?

O outro evangelho apresentado aos Gálatas é classificado pelo apóstolo Paulo como sendo obra de um fascínio. A insensatez de alguns cristãos os deixou subjugados. Eles foram alvos de um ‘encantamento’, subjugados pelos olhos, visto que, apoiaram-se na ‘boa aparência’ daqueles que transtornavam o evangelho de Cristo ( Gl 5:12 ).

A inconstância dos Gálatas era proveniente de uma insensatez.

Paulo estava perplexo, e quis saber quem havia fascinado os cristãos a desviarem da verdade do evangelho, principalmente porque Cristo foi apresentado a eles como crucificado: o poder de Deus ( 1Co 1:18 ).

Cristo crucificado é motivo suficiente para que ninguém se estribe na ‘aparência’ de outrem. O poder de Deus encontra-se no Cristo crucificado, onde o crente deve fixar a atenção. Esta deve ser a fixação do cristão, e não a aparência, que perante Deus nada é ( Jo 12:32 ). Por isso, o apóstolo Paulo chamou-os de insensatos.

 

2 Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?

Paulo questiona: De que maneira eles haviam recebido o Espírito de Deus? Seria por acaso por meio da lei? Ou seria por meio da fé? Paulo anseia por uma resposta de seus leitores.

A resposta à pergunta de Paulo seria suficiente para elucidar o quanto os Gálatas estavam equivocados (Só quisera saber isso).

 

3 Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?

Paulo demonstra que, por causa da insensatez, os gálatas haviam regredido. Estavam perdendo aquilo que já haviam alcançado: começaram pelo Espírito e acabariam na carne.

Eles haviam sido agraciados com uma nova vida por meio do Espírito de Deus, e agora, estavam submetendo-se à escravidão da carne.

Observe que é factível o cristãos desviar-se da palavra da verdade quando dá ouvidos a palavra de engano ( Hb 2:1 )

 

4 Será em vão que tenhais padecido tanto? Se é que isso também foi em vão.

O apóstolo Paulo procura envolve-los sentimentalmente. Ele traz a lembrança dos cristãos o quanto haviam sofrido por causa do evangelho.

O sofrimento também foi em vão?

 

5 Aquele, pois, que vos dá o Espírito, e que opera maravilhas entre vós, fá-lo pelas obras da lei, ou pela pregação da fé?

Aquele que concede o Espírito é Deus. Tal dádiva é concedida por meio da verdade do evangelho (fé), e não da lei.

É Deus quem concede do Seu Espírito e faz maravilhas. É certo que na lei o homem somente encontra obrigações, mas, através da pregação, ou do que é anunciado acerca do evangelho (fé), a ação fica a cargo de Deus, que é poderoso para fazer abundar no homem a sua graça “E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra” ( 2Co 9:8 ).

Perceba que na lei o homem encontra uma determinação: “Portanto os meus estatutos e os meus juízos guardareis, pois o homem que os cumprir, por eles viverá” ( Lv 18:5 ).

Na pregação da fé o homem depara-se com a promessa daquele que é fiel e poderoso em realizar. Enquanto o homem não consegue viver a altura da lei, através da oferta da graça, consegue abundar em toda a boa obra.

 

6 Assim como Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.

Paulo evoca a autoridade da Escritura. Se não davam ouvido ao apóstolo dos gentios, que pelo menos considerassem a Escritura.

Abraão foi justificado por meio da fé porque creu na promessa d’Aquele que é poderoso para cumprir.

 

7 Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão.

Os leitores das cartas de Paulo citavam a Escritura de cor (A. T.), mas precisavam saber que, somente os que creem são feitos filhos de Deus.

Somente os que crêem conforme o Pai Abraão é que recebem a filiação divina, ou seja, são contados como filhos de Abraão ( Jo 1:12 ).

Não podemos esquecer que, ser filho de Abraão, para os seguidores da lei, era o mesmo que ser filho de Deus ( Jo 8:39 -41).

João Batista ao verificar que os escribas e fariseus, que vinham ao batismo, continuavam se arrogando na condição de filho de Deus pelo fato de serem descendentes de Abraão, alertou: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por Pai a Abraão; porque eu digo que mesmo destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ).

Sobre este aspecto Jesus declarou que os fariseus eram filhos do diabo, visto que presumiam ser filhos de Deus em decorrência de serem descendente de Abraão (para eles a filiação decorre do sangue) ( Jo 8:44 ).

Eles eram descendentes de Abraão ( Jo 8:37 ), mas não eram filhos de Deus, visto que, ainda continuavam vendidos como escravos ao pecado por serem descendentes de Adão ( Jo 8:34 ). Sendo escravos do pecado, em decorrência da filiação em Adão, os fariseus eram de fato, filhos do diabo, e não de Deus ( Jo 8:44 ).

 

A Primeira Pregação da Fé

8 Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Todas as nações serão benditas em ti.

Paulo refere-se ao Antigo Testamento como sendo a Escritura.

Neste versículo ele faz referência ao livro de Gênesis, quando Deus diz: “…e em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ). A promessa de Deus registrada no livro do Gênesis é uma profecia acerca da justificação pela fé que seria concedida aos gentios, e que agora, através da igreja estava se cumprindo.

Quem haveria de bendizer as ‘nações’ em Abraão? Deus prometeu que, através de Abraão, haveria de dar ‘bom’ testemunho aos homens provenientes de vários povos. Homens de todos os povos haveriam de ser declarados justos por Deus do mesmo modo que Abraão.

Por meio da fé, as famílias da terra haveriam de ser benditas do mesmo modo que os antigos alcançaram bom testemunho ( Hb 11:2 ).

O evangelho é:

a) Promessa de Deus;

b) Independe da circuncisão na carne;

c) Alcançada a promessa pela fé;

d) Todos morrem (despojar do corpo da carne) na fé, e passam a viver para Deus;

e) Decorre do poder e da fidelidade de Deus;

f) Abraão julgou que Deus era poderoso para, até dentre os mortos, trazer o seu descendente a vida.

O evangelho é promessa de Deus a todos que creem, sem distinção alguma de origem e condições sociais. Por meio da fé todos morrem com Cristo e ressurgem com base no poder e na fidelidade de Deus. O poder de Deus fez Cristo ressurgir dentre os mortos, e este mesmo poder opera nos cristãos ( Ef 2:19 -20).

Todas as nações são benditas em Abraão por causa do descendente, que é Cristo ( Gn 3:15 ), pois através de Cristo alcançam bom testemunho de que são agradáveis a Deus.

Se os judaizantes entendessem a ‘linguagem’ de Jesus e cressem somente no descendente, ai sim, seriam de fato livres e filhos de Abraão (filhos de Deus) ( Jo 8:43 ).

 

9 De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão.

Deus não faz acepção de pessoas: se Abraão foi justificado por meio da fé em Deus, todos aqueles que crerem na promessa divina, estarão debaixo da mesma bem-aventurança: serão benditos conforme o pai Abraão, ou seja, são igualmente justificados.

Ora, a justificação de Abraão foi posicional ou objetiva? Deus tratou Abraão como justo, mas não tornou Abraão justo? Como é possível? Observe a seguinte declaração de Scofield: “A justificação é um ato de reconhecimento divino e não significa tornar uma pessoa justa (…) Ele declara justamente e trata como justo…” Bíblia Scofield de referências, Romanos 3:28, pág 1147.

Entendemos pelas Escrituras que Abraão foi efetivamente justificado por Deus, pois a palavra traduzida por ‘justificar’ e ‘justificação’ significa ‘tornar justo’, ‘declarar justo’, ‘declarar reto’, ou ‘declarar livre de culpa e de merecimento de castigo’.

Alguns teólogos entendem que Deus ‘não torna’ o homem justo, porém, sabemos que todos quantos creem em Cristo são de novo criados em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ). Por meio da fé em Cristo o homem recebe de Deus poder para ser feito (criado) filho de Deus ( Jo 1:12 ).

 

10 Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las.

Aqueles que se diziam cristãos, mas que estavam querendo transtornar o evangelho de Cristo ao buscarem elementos da lei como meio de se alcançar a salvação, permaneciam sob maldição.

Estes não atinavam que a natureza da lei é diversa da natureza humana sem Deus: a lei é espiritual e o homem sem Deus carnal. Esqueciam que é impossível cumprir a lei, uma vez que o não cumprimento de um único quesito da lei torna o homem culpado de toda a lei.

Para ser justificado por meio da lei, o homem necessariamente deveria cumprir todas as coisas estipuladas na lei. Os judaizantes esqueciam que na lei não há promessas de bênçãos, antes, faz referência à maldição para quem não cumpri-la.

Como já demonstramos anteriormente, na lei é necessário ao homem realizar. Na fé (promessa) é Deus que se propõe realizar, recomendando ao homem descansar n’Ele.

 

11 E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé.

Por que o apóstolo Paulo alega que é evidente que ninguém pode ser justificado pela lei? Por que o apóstolo cita uma declaração do profeta Habacuque?

“O justo viverá da fé” ( Hb 2:4 )

O verso retirado do Livro de Habacuque demonstra que é impossível ao homem ser justo à parte da vida que se alcança por meio da promessa de Deus (fé). A condição de justo é proveniente da nova natureza em comunhão com Deus.

O justo vive por meio da fé, ou seja, a existência de um justo só é possível através da fé. O homem natural existe por intermédio do nascimento natural, e o justo vem a existência por intermédio da palavra de Deus, que é esperança proposta (fé).

Observe que a condição de justo é invariável, conforme se lê: “Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito” ( Pr 4:18 ). O que sofre transformação é a vereda do justo, e não a sua condição. O que se compara à luz da aurora é o caminho do justo, e não a sua justiça (condição).

Segue-se que, para ser justo necessariamente o homem precisa nascer de novo. Por quê? Porque todos que creem na palavra do evangelho recebem de Deus poder para ser de novo criado ( Jo 1:12 ).

Após o novo nascimento (regeneração) o novo homem que surge em Cristo é justo e declarado justo por Deus, ou seja, é justificado!

A justificação fala da declaração que o homem recebe de Deus. Tal declaração só é concedida após a regeneração, sendo que, só o novo homem criado em Cristo recebe tal declaração (bom testemunho) ( Hb 11:2 ).

A justiça de Deus se alcança pela esperança proposta (fé), visto que, para ser justo, há a necessidade do novo nascimento, e a partir do novo nascimento o justo passa a viver para Deus ( Hb 6:18 ).

 

12 Ora, a lei não é da fé; mas o homem, que fizer estas coisas, por elas viverá.

A lei impõe obrigações, a fé promessa. Esta é só esperar que se alcança de Deus o prometido, enquanto aquela depende do homem cumprir todas as determinações prescritas na lei. Se o homem fizer o que a lei diz, pela lei terá vida – o que é impossível, visto que a carne tornou a lei enferma ( Rm 8:3 ).

Se o homem crer em Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos, passará a ter vida, ou seja, viverá por confiar (fé) n’Aquele que prometeu (fé).

 

13 Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro;

Ao morrer na cruz (pendurado no madeiro) o Senhor Jesus Cristo tomou sobre si a maldição que pesava sobre a humanidade, e se fez maldição.

O resgate da humanidade da lei, do pecado e da morte se deu através da entrega de Cristo.

Aquele que foi e é sem pecado cumpriu as exigências da lei e ao assumir a condição de maldito, estabeleceu um novo e vivo caminho de acesso dos homens a Deus: adquirimos em Cristo a bem-aventurança prometida a Abraão.

Qual a exigência da lei? Assim como o juízo e a ofensa veio de um homem, somente por outro homem perfeito e obediente veio a vida e justificação ( Rm 5:16 ). Assim como Adão morreu e toda a humanidade morreu, segue-se que, quando Cristo morreu, todos que creem também morrem com Ele para que possam ressurgir dentre os mortos ( 2Co 5:14 ).

Cristo nos resgatou com um único objetivo:

 

14 Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito.

A entrega de Cristo foi necessária para que a bênção de Deus prometida a Abraão pudesse chegar aos gentios. Da mesma forma que Abraão recebeu a promessa (fé) e descansou na esperança proposta (fé) recebendo a justificação, pela fé (mensagem do evangelho) o cristãos recebem a promessa do Espírito, que Deus prometeu a Abraão acerca do descendente.

Argumentos Fraternos

 

15 Irmãos, como homem falo; se a aliança de um homem for confirmada, ninguém a anula nem a acrescenta.

Paulo demonstra que, segundo as leis humanas, não há como anular ou acrescentar o que foi estabelecido em um testamento. Paulo deixa a argumentação bíblica e passa a argumentar segundo o conhecimento que lhes era próprio (como homem falo): a aliança, o trato, o testamento.

O apóstolo Paulo deixa bem claro que a argumentação que estava apresentando tinha por base questões humanas, e não as Escrituras.

A aliança que um homem confirmou não pode ser anulada ou acrescentada, que se dirá da aliança estabelecida por Deus?

 

16 Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo.

O apóstolo procura evidenciar qual a leitura correta a se fazer da Escritura, ou seja, quando se lê que a promessa foi feita a Abraão e à sua descendência, isto não quer dizer que todos os seus descendentes seriam benditos em Abraão ( Rm 9:7 ).

Eles precisavam observar que a Escritura não fala da descendência de Abraão como sendo muitos, mas de um descendente, alguém em específico “A tua descendência tomará posse das cidades dos teus inimigos, e em tua descendência serão benditas todas as nações…” ( Gn 22:17 -18).

A promessa de Deus a Abraão refere-se ao descendente, que é Cristo.

Para que o homem possa ser participante das bênçãos de Abraão é necessário ter a mesma fé que teve Abraão, pois através da fé, os que creem, passam a ser participantes de Cristo, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo “E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” ( Rm 8:17 ).

Como ter a mesma fé de Abraão? Ora, Abraão creu na palavra de Deus acerca do Descendente e isto lhe foi imputado por justiça. Qualquer que queira ter a mesma fé do crente Abraão deve crer na mensagem do evangelho, que é a mensagem do Descendente.

Qualquer que crê em Cristo possui a mesma fé do crente Abraão.

O cristão é descendente de Abraão segundo a promessa porque está em Cristo, ou seja, porque é nova criatura. Ao crer no evangelho, o homem recebe de Deus poder para ser feito, criado filho de Deus ( Jo 1:12 ), recebendo de Deus através de Cristo a natureza divina ( Cl 2:10 ; 2Pe 1:4 ).

 

17 Mas digo isto: Que tendo sido a aliança anteriormente confirmada por Deus em Cristo, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois, não a invalida, de forma a abolir a promessa.

O apóstolo Paulo demonstra que a aliança de Deus com os homens foi confirmada por Deus em Cristo (ou seja, no Descendente). Nem mesmo a lei, que foi concedida por Deus ao povo, teve força para abolir ou invalidar a aliança estabelecida por Deus com Abraão.

Todo evento posterior a aliança não pode invalidá-la, ou seja, sendo a lei posterior a promessa, de maneira alguma ela poderia invalidá-la.

Por que a lei não pode invalidar a promessa? Porque a promessa de Deus é irrevogável. Não depende do homem para ser levada a efeito, antes tem por base o poder e a imutabilidade de Deus.

 

18 Porque, se a herança provém da lei, já não provém da promessa; mas Deus pela promessa a deu gratuitamente a Abraão.

O raciocínio é simples! A lei e a promessa são excludentes: se a herança provém da lei, automaticamente a outra é excluída.

Todos deviam saber que a herança foi dada a Abraão gratuitamente, sem qualquer vinculo com a lei, por causa da promessa. A bênção deriva da promessa, e não da pessoa de Abraão.

 

19 Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos anjos na mão de um medianeiro.

Em ultima instância: qual a razão de ser da lei?

A lei foi estabelecida até que Cristo viesse ao mundo, por quem a herança é concedida. Ele é o herdeiro da promessa.

Porém, a lei foi estabelecida para:

a) evidenciar a natureza de Deus;

b) servir de ‘aio’ para conduzir os homens a Cristo;

c) tornar evidente a na natureza pecaminosa do homem;

d) faz o homem perceber que é impossível salvar-se a si mesmo.

Através da lei o homem se dá conta que é pecador e da sua impossibilidade de escapar da condenação estabelecida em Adão. Somente por intermédio da cruz de Cristo o pecador passa a ter acesso a Deus por um novo e vivo caminho, que é o corpo de Cristo.

Através do corpo de Cristo que foi sepultado o homem sepulta a carne proveniente de Adão, e através do corpo de Cristo, a igreja, o homem passa a estar em comunhão com Deus.

Houve um evento na história do povo de Israel, logo após terem sido resgatados do Egito, que esclarece o motivo da lei.

Deus determinou a Moisés que o povo fosse reunido para que Ele falasse diretamente com o povo ( Ex 19:9 ). Quando o povo viu os trovões e os relâmpagos, e o barulho das buzinas, e o monte fumegando, temeram, e se afastaram. Pediram a Moisés que ouvisse a voz de Deus e que repassasse a eles ( Ex 20:19 -20).

O povo não confiou em Deus, antes temeram, pensando que seriam mortos. Moisés, por sua vez, seguiu e adentrou nas densas trevas, onde Deus estava. Mesmo após serem salvos do Egito, ainda não confiavam em Deus. Que Deus seria este, que após resgatá-los da escravidão, os mataria em seguida?

A lei foi concedida ao povo para que aprendessem mais sobre a natureza divina. Elem precisavam aprender a confiar, e não temer. O temor (palavra) do Senhor é o principio da sabedoria, mas ter medo, demonstra falta de confiança n’Aquele que é amor eterno ( Ex 21:1 ).

O povo não confiava em Deus que lhes resgatara do Egito. Eles solicitaram a Moisés que intermediasse a conversa entre eles e Deus, e, por isso, pereceram, visto que não confiaram em Deus.

Solicitaram a Moisés que falasse com eles, e proibiram que Deus lhes falasse, com medo da morte. Moises demonstra que Deus veio ao povo não para matá-los, mas para prová-los. Se eles ouvissem a voz de Deus, viveriam ( Ex 20:19 ; Is 55:2 ).

Com medo dos raios e trovões, o povo se afastou de Deus e se puseram ao longe, demonstrando que não confiavam na palavra de Deus que anteriormente foi anunciada: “Faço misericórdia…” ( Ex 20:6 ), e nem mesmo consideram que, se Deus os havia resgatado do Egito, era para preservá-los em vida, e não para matá-los ( Hb 12:18 -28).

A lei foi dada até que viesse o Descendente (Cristo), a quem foi feita a promessa. Ela foi promulgada por causa das transgressões do povo, e entregue a Moisés por intermédio das mãos do mensageiro de Deus ( At 7:38 ).

A lei não foi entregue por anjos, antes, Moisés a recebeu do Anjo do Senhor, que falava com ele no monte Sinai e com os pais de Israel.

Não foram os anjos que entregaram a lei a Moisés, e sim, o Anjo do Senhor, que é Cristo. Somente o Anjo do Senhor tem a semelhança divina “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” ( Nm 12:8 ). Somente o Anjo do Senhor é onipresente, e acampa ao redor dos que o temem e o livra “O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem, e os livra” ( Sl 34:7 ).

A função de entrega da lei a Moisés coube ao Anjo do Senhor, e não aos seus santos anjos, que são ministros de Deus e não possuem a onipresença. É o Anjo do Senhor que se acampa ao redor dos que o temem. Somente Ele deve ser temido, e não os anjos, que são ministros de Deus.

Moisés foi constituído como Mediador no processo de entrega da lei ao povo, visto que o povo não confiou em Deus para ouvi-Lo ( Ex 19:9 ).

 

20 Ora, o medianeiro não o é de um só, mas Deus é um.

O medianeiro não foi estabelecido a favor de uma só pessoa, antes de muitos, no entanto Deus é um só, tanto na Antiga como na Nova aliança.

Com a vinda de Cristo, mudou-se o mediador ( Hb 12:24 ). Enquanto Moisés “…foi fiel em toda a casa de Deus, como servo, para testemunho das coisas que se haviam de anunciar” ( Hb 3:5 ), (o que se havia de anunciar é o evangelho de Cristo), ele entregou ao povo a lei (aio), que teve a função de conduzir o povo a Cristo, porém, o povo estava assombrado com a visão do monte Sinai ardente, com as tempestades, com as trevas e o ressoar das buzinas ( Hb 12:18 -21).

Cristo é mediador entre Deus e os homens, e dá acesso ao Pai. Por meio d’Ele os homens chegam-se a Deus e tem entrada na Jerusalém Celestial com os seus milhares de anjos. O homem passa a fazer parte da universal assembléia e igreja dos primogênitos que ressurgiram com Cristo dentre os mortos e estão inscritos nos céus ( Hb 12:22 -28).

 

21 Logo, a lei é contra as promessas de Deus? De nenhuma sorte; porque, se fosse dada uma lei que pudesse vivificar, a justiça, na verdade, teria sido pela lei.

O apóstolo Paulo espera que os leitores da sua carta respondam que a lei não invalida a promessa de Deus, visto que, a lei veio depois da promessa. A promessa é firme em Deus, e não depende do homem. A lei, sendo posterior a promessa, apenas evidencia que o homem não possui a natureza divina. Tudo o que a lei determina depende do homem realizar.

Observe que o objetivo da promessa está intimamente ligado à justiça e à vivificação em Deus ( Is 57:15 ). A lei nada pode fazer pelo homem, visto que o homem é quem precisava guardá-la.

De Deus os cristãos têm a promessa de que, por meio da fé (evangelho) Ele vivifica e justifica, pois o justo viverá da fé. Primeiro o homem alcança a vida que Deus lhe concede, e, em seguida, é declarado justo. O que remete à doutrina da justificação.

 

A Escritura, a Lei e a Fé

22 Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes.

A escritura aqui se refere ao Antigo Testamento, visto que, quando o apóstolo Paulo escreveu esta carta, os evangelhos e as cartas dos apóstolos ainda não pertenciam a Escritura, como hoje se vê.

Observe que não foi a lei que encerrou a humanidade debaixo do pecado, e sim, a Escritura. A lei somente evidencia qual é a natureza do homem.

Onde está escrito que a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado? Através da palavra que diz: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” ( Gn 12:3 ), ou seja, se as ‘famílias’ seriam benditas, segue-se que a condição delas era de maldição diante de Deus.

Quando a Escritura diz que na descendência de Abraão as nações haveriam de ser benditas, demonstra que, antes do Descendente, todos eram malditos por causa do pecado.

Há vários versículos no Antigo Testamento que demonstram que todos os homens estão debaixo do pecado, como o apóstolo Paulo demonstra aos cristãos em Roma ( Rm 3:11 -18).

A promessa acerca do descendente, feita a Abraão, é concedida àqueles que crêem. Todos os homens estavam presos ao pecado, e por isso, malditos. Os que têm fé em Cristo livram-se da maldição, tornando-se benditos como o crente Abraão, pois a promessa diz: “…em tua descendência serão benditas todas as nações da terra…” ( Gn 22:18 ).

 

23 Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.

Antes que Cristo se manifestasse, os homens de Israel estavam guardados pelo curador, ou tutor, que é a lei. Mas, não deviam confiar no tutor (lei), como se ele pudesse dar a herança (justificar), antes, deveriam crer, como o crente Abraão, e esperar o tempo determinado pelo Pai, confiando em Deus que prometeu o Descendente.

A promessa somente cumprir-se-ia, na plenitude dos tempos, com a vinda do Descendente, que é Cristo.

Agora que Cristo foi manifesto aos homens, a graça de Deus por intermédio do evangelho, o homem não pode permanecer debaixo da lei, antes deve tomar posse do que foi proposto pela fé (evangelho).

Observe a relação entre a fé que havia de vir e a fé que havia de se manifestar. A fé que se manifestou é Cristo, o Descendente, em quem Abraão creu, e a fé que havia de vir, diz da verdade do evangelho ( Gl 3:23 ).

 

24 De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados.

O apóstolo Paulo demonstra a utilidade da lei: levar, conduzir os homens a Jesus, aquele que tem poder para justificar o homem.

Pela fé o homem é justificado, e a função da lei deixou de existir. Não é mais necessário guia-se pelo ‘aio’, uma vez que já alcançou pela fé o Descendente.

Através da lei que diz: ‘certamente morrerás’ o homem conheceu o pecado, ou seja, ‘conhecer’ diz de estar intimamente ligado a, e o homem ao pecar passou a estar ligado (unido) ao pecado ( Rm 3:23 ). Através da lei de Moisés o homem conheceu (ciência) a sua condição diante de Deus, pois ela encerrou todos debaixo do pecado ( Gl 3:22 ).

 

25 Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio.

Após a chegada da fé (evangelho de Cristo), não há lugar para a lei, visto que a fé (evangelho) promove a promessa, que é anterior à lei.

Observe que o evangelho foi anunciado primeiramente a Abraão ( Gl 3:8 ), e ao vir Cristo, o autor e consumador da fé, a graça de Deus se manifestou a todos os homens. Cristo se manifestou a todas as nações para obediência do evangelho (fé) “Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé” ( Rm 16:26 ).

O apóstolo Paulo passa a tratar da nova condição dos cristãos, ao dizer: “… já não estamos debaixo de aio”. Tanto o apóstolo Paulo quanto os cristãos da Galácia não precisavam da lei.

 

26 Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus.

Este verso complementa o anterior: “Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio, porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo” (v. 25). O verso 26 apresenta o motivo pelo qual os cristãos não mais estavam debaixo da lei.

Os judaizantes acreditavam ter alcançado a filiação divina por serem descendentes de Abraão, e que a entrega da lei tornava eles diferentes diante de Deus, ou que Deus tinha eles em preferência, em detrimento dos gentios.

O apóstolo Paulo enfatiza que a lei não tinha razão de ser na vida dos cristãos, uma vez que todos eram filhos de Deus, por estarem unidos ao Descendente (Cristo) de Abraão. Em Cristo os cristãos são idôneos para participar da herança dos santos, e não necessita de curador: a lei ( Cl 1:12 ).

Mesmo após Abraão ser justificado por Deus por intermédio da fé, os seus filhos segundo a carne não eram provenientes de Deus. Eles continuaram a ser gerados segundo a carne, da vontade do varão e da vontade da carne ( Jo 1:13 ), e, portanto, os descendentes de Abraão não eram e não são filhos de Deus.

A promessa de se tornar filho de Deus somente tornou-se possível através do Descendente, que é Cristo. Somente Ele pode levar muitos filhos a Deus. Por meio da fé o homem alcança a filiação divina.

 

 

27 Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo.

O apóstolo Paulo demonstra que o batismo em Cristo é o mesmo que se revestir d’Ele.

Todos os cristãos já haviam sido batizados na morte de Cristo, e o apóstolo dos gentios faz com que eles lembrassem o significado do batismo ( Rm 6:3 ).

Como os cristãos batizado? Porque creu em Cristo, o cristão conforma-se com Cristo na sua morte, ou seja, é sepultado com Cristo. Por se tornar participante da carne e do sangue, o cristão ressurge com Cristo, para a gloria de Deus Pai.

Primeiro é necessário ao homem ser sepultado com Cristo (o batismo em águas representa esta verdade), para depois se revestir d’Ele, ou seja, adquirir a plenitude n’Ele ao ressurgir dentre os mortos ( Cl 2:10 ; Jo 1:16 ).

Como se alcança a filiação? Por meio da morte e ressurreição com Cristo. O cristão morre e ressurge com Cristo para a glória de Deus Pai.

Se o cristão foi batizado, é porque morreu para aquilo que estava retido: a lei. Ao morrer, o cristão não está mais preso ao que o retinha: o pecado ( Rm 7:6 ).

A força do pecado é a lei que diz: ‘certamente morrerás’ ( Gn 2:17 ), e por isso o homem precisa morrer com Cristo, porque aquele que está morto está justificado do pecado ( Rm 6:7 ). O pecado é o aguilhão da morte e, ao morrer com Cristo, o homem adquire nova vida, livrando se da condição do velho homem “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 ).

Ao se revestir de Cristo, o cristão não mais pertence ao pecado, agora pertence ao Senhor!

 

28 Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.

Quando se reveste de Cristo, o homem passa a fazer parte do corpo de Cristo, que é a igreja. Há um só corpo e um só Espírito ( Ef 4:4 ).

As distinções criadas na lei não se estabelecem diante da promessa, que é anterior a lei. Segue-se que, em Cristo, não há qualquer distinção entre macho e fêmea; escravo ou livre, judeu ou gentil, etc. Isto porque todos os cristãos são um corpo em Cristo.

Os Cristãos são:

  • Templo e morada do Espírito;
  • Um corpo;
  • Um só pão;
  • Filhos de Deus;
  • Herdeiros da Promessa;
  • Idôneos a participar da herança;
  • Luz;
  • Sacerdócio Real;
  • Pedras vivas;
  • Etc.

 

29 E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.

Enquanto os judeus pensavam ter alcançado a filiação divina por meio da carne e do sangue, por serem descendentes de Abraão, os cristãos alcançaram a filiação divina por meio da união com Cristo ( Rm 9:8 ; Gl 3:26 ).

Conforme a promessa, os cristãos são herdeiros de Deus. Por serem propriedade do Descendente, os cristãos passaram a ser filhos de Abraão (filhos de Deus), e conforme a promessa, herdeiros. O cristão é herança e possui uma herança ( Ef 1:11 e 14).

Observe estes três aspectos pertinentes aos Cristãos:

a) Pertencem a Cristo por serem propriedade exclusiva de Deus ( 1Pe 2:9 );

b) Cristo é o Descendente e os cristãos ao serem gerados de novo descendem de Abraão, ou seja, não são filhos segundo a carne e o sangue, mas da promessa, segundo a vontade de Deus, que os gerou para uma nova e viva esperança ( Jo 1:12 -13);

c) Em Cristo o cristão obteve herança (herdeiros) ( Cl 1:12 ).

Quando a bíblia demonstra que os cristãos obtiveram herança, diz das garantias que Deus a todos aqueles que crêem em Cristo.

O direito que o cristão obtém refere-se à herança dos santos na luz ( Cl 1:12 ), e não a bens materiais. As bênçãos que os cristão receberam estão enumeradas em Efésios capítulo um ( Ef 1:3 ).

O apóstolo Paulo disse que os cristãos receberam ‘todas’ as bênçãos espirituais. Da mesma forma, Pedro reiterou: “O seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito a vida e à piedade” ( 2Pe 1:3 ).

Não é correta a idéia de que os cristãos podem e devem exigir bens materiais de Deus por serem filhos. As promessas de Deus referem-se a bênçãos eternas, sem vínculo com bens terrenos.

Ler mais