Qual Maria derramou perfume nos pés de Jesus?

Maria, chamada Madalena, não é a irmã de Lázaro. A única informação que temos acerca de Maria Madalena, é que ela foi liberta de espíritos malignos e que estava presente na hora da crucificação e da ressurreição de Jesus, acompanhando sua mãe, Maria.

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O tesouro escondido e a pérola de grande valor

O apóstolo Paulo é um exemplo de judeu que abriu mão de tudo o que possuía para adquirir a Cristo: o tesouro escondido, a pérola de grande valor! O apóstolo Paulo buscava um tesouro nos céus e, para isso, abriu mão de tudo o que possuía: “Vendei o que tendes e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não corrói” (Lc 12:33).


“Também, o reino dos céus, é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem e compra aquele campo. Outrossim, o reino dos céus, é semelhante ao homem, negociante, que busca boas pérolas e, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha e comprou-a” (Mt 13:44-46)

 

Introdução

Qual o significado da parábola[1] do tesouro escondido num campo? Qual a aplicação prática da parábola do negociante que sai à procura de uma pérola de grande valor? Essas parábolas aplicam-se aos membros do corpo de Cristo?

Antes de narrar as parábolas do ‘tesouro escondido’ e da ‘pérola de grande valor’, o evangelista Mateus destaca que Jesus utilizava parábolas para ensinar à multidão, porque a eles não foi dado conhecer os mistérios do reino dos céus (Mt 13:11).

Os discípulos estavam intrigados e perguntaram o motivo pelo qual Jesus utilizava parábolas para falar ao povo. Jesus explicou que falava por parábolas ao povo de Israel, para que ‘vendo’, não ‘vissem’ e, ‘ouvindo’, não ‘ouvissem’ e nem ‘compreendessem’, de modo que a profecia de Isaías se cumpriria neles (Mt 13:13-14).

Além da explicação de Jesus, acerca do predito por Isaías, o evangelista Mateus lembra o que foi anunciado pelo salmista, no Salmo 78, e explica que Jesus nunca falava à multidão, sem se utilizar de parábolas.

A explicação de Jesus:

“Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem e, ouvindo, não ouvem, nem compreendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis, e, vendo, vereis, mas não percebereis” (Mt 13:13 -14);

A explicação de Mateus:

“Tudo isto disse Jesus por parábolas à multidão e nada lhes falava sem parábolas; para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta, que disse: abrirei em parábolas a minha boca, publicarei coisas ocultas, desde a fundação do mundo” (Mt 13:34-35; Sl 78:2).

O evangelista Marcos, também, destaca como se dava o ensinamento de Jesus à multidão:

“E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava, porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” (Mc 4:33-34).

Com base no exposto acima, verifica-se que o público alvo das parábolas de Jesus era o povo judeu. Jesus deixa claro que Ele foi enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel, o que corrobora com a ideia de que a mensagem de Jesus foi direcionada aos filhos de Israel: “E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15:24; Jr 50:6).

 

As parábolas

Mas, por que Jesus compara o reino dos céus a um tesouro que um homem achou e escondeu em um campo? O que os judeus, que ouviram a parábola, tinham que aprender com o homem que vendeu tudo o que possuía, para adquirir o campo onde o tesouro estava escondido? O que aprender com o negociante que estava em busca de uma pérola de grande valor?

Ora, a abordagem de Jesus não visava bens materiais, pois Ele mesmo disse que a vida de qualquer um não consiste na abundância de bens que possui (Lc 12:15). Jesus também não estava instando os judeus a adquirirem bens materiais ou serem empreendedores, pois Ele mesmo instruiu os seus ouvintes a ajuntarem tesouro nos céus (Mt 6:20).

Os ouvintes de Jesus, na sua grande maioria, eram desprovidos de bens materiais, o que nos faz perguntar: O que eles deveriam dispor (abrir mão, vender) para terem condições de adquirir algo de grande valor? O que seria esse algo de imensurável valor, que demandaria aos ouvintes de Jesus, abrir mão de tudo o que possuíam?

Jesus compara (é semelhante) o reino dos céus a um tesouro escondido num campo: “Também o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo…” (Mt 13:44). Com base nessa informação, Jesus estabeleceu que o reino dos céus é o ‘tesouro escondido’. De igual modo, a ‘pérola de grande valor’, que o negociante encontrou, refere-se ao reino dos céus.

Através do comparativo fixado por Jesus, identificamos o valor atribuído ao reino dos céus: um tesouro, uma pérola de valor inestimável.  Mas, o que seria esse reino dos céus a que Jesus se referiu?

 

O reino dos céus

João Batista apregoava, no deserto da Judeia, a seguinte mensagem:

 “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mt 3:2).

Após João Batista ter sido preso, Jesus também passou a pregar a mesma mensagem (Mt 4:17). Ao enviar os doze discípulos às ovelhas perdidas de Israel, Jesus mandou que anunciassem a chegada do reino dos céus (Mt 10:7).

Quando interrogado pelos fariseus, acerca do tempo em que o reino de Deus haveria de vir, Jesus esclareceu que o reino de Deus não viria com aparência exterior, de modo a possibilitar que os homens o identificassem. Ninguém estaria apto a apontar ou identificar o reino de Deus e o motivo era especifico: o reino de Deus estava entre eles!

“E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós” (Lc 17:20-21).

Ora, com base nessas passagens bíblicas, conclui-se que Cristo é o reino dos céus, portanto, Ele é o ‘tesouro escondido’ e a ‘pérola de grande valor’!

 

Vende tudo

Mas, o que os ouvintes de Jesus deveriam fazer para ter a Cristo?

Jesus mesmo informou o que os seus concidadãos teriam que dispor de tudo o que possuíam (abrir mão, vender) para tomar posse do ‘tesouro escondido’ ou, da ‘pérola de grande valor’:

“Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz e não segue após mim, não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á” (Mt 10:37-39);

“Vendei o que tendes e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam, tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não corrói” (Lc 12:33).

Considerando que ‘amar’, nas Escrituras, não diz de sentimento, mas, de honra, obediência, temor (Mt 6:24); considerando que aquele que ama a Jesus é o que cumpre os seus mandamentos: “Se me amais, guardai os meus mandamentos” (Jo 14:15), segue-se que aquele que está disposto a seguir os ensinamentos de seus familiares (tradições, ritos, costumes, mandamentos, etc., como no caso dos fariseus, que invalidavam a palavra de Deus, preferindo as tradições dos anciãos) mais do que os ensinamentos de Cristo, não é digno do reino dos céus.

Ora, os profetas haviam previsto que os inimigos do Filho do homem seriam os seus próprios familiares (Mt 10:36; Mq 7:5-6; Jr 9:4; Jr 12:6). Qualquer que seguisse os ensinamentos de seus familiares (pai e mãe) seria um adversário de Cristo, pois o ensinamento dos líderes de Israel não passava de tradições, segundo o mandamento de homens: “Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens” (Mc 7:7-8; Tt 1:14; Is 29:13).

Como os inimigos de Cristo eram os seus concidadãos, temos a ordem aos filhos de Israel: concilia-te depressa com o teu adversário, ou seja, com o Cristo.

“Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz e o juiz te entregue ao oficial e te encerrem na prisão” (Mt 5:25).

Quando é dito: ‘quem ama o filho, ou a filha, mais do que a mim, não é digno de mim’, Jesus requer dos judeus honra e que deixassem de honrar o vínculo de sangue que possuíam com Abraão: “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” (Jo 5:23).

Além de abrir mão das suas tradições e de não se vangloriarem pelo vínculo de sangue que tinham com Abraão, os filhos de Israel tinham que tomar e levar sobre si a própria cruz e seguir após Cristo! Cristo, pelo seu próprio sangue, santificou o seu povo ao padecer fora do arraial e todos os seus seguidores devem sair fora do arraial, levando a sua própria cruz: “E por isso, também, Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora da porta. Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério” (Hb 13:12-13).

“Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me” (Mt 16:24);

“E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8:34);

“E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz e segue-me” (Mc 10:21);

“E qualquer que não levar a sua cruz e não vier após mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14:27).

Jesus deixa claro que ‘quem perder a sua vida por obedecer a Ele, achá-la-á’ (Mt 10:39), pois, qualquer que for crucificado com Cristo, passa da morte para a vida: “Já estou crucificado com Cristo e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2:20; Jo 5:24).

O apóstolo Paulo é um exemplo de judeu que abriu mão de tudo o que possuía para adquirir a Cristo: o tesouro escondido, a pérola de grande valor! O apóstolo Paulo buscava um tesouro nos céus e, para isso, abriu mão de tudo o que possuía: “Vendei o que tendes e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça não corrói” (Lc 12:33).

Observe:

“E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” (Fl 3:8).

Quais foram as ‘coisas’ que o apóstolo Paulo se desfez (vendeu) para ganhar a Cristo? Temos uma lista:

“Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível” (Fl 3:5-6).

As ‘coisas’ enumeradas pelo apóstolo Paulo era tidas por ‘vantagens’, ‘ganho’:

“Mas o que para mim era ganho, reputei-o perda por Cristo” (Fl 3:7).

O apóstolo Paulo não honrou pai e mãe mais que a Cristo, pois quando se converteu, não consultou os seus concidadãos (carne e nem sangue) se deveria anunciar o evangelho aos gentios, mas partiu para a Arábia: “Revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue” (Gl 1:16).

Quem quiser seguir a Cristo, primeiro tem de abrir mão de tudo:

“E aconteceu que, indo eles pelo caminho, lhe disse um: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que fores. E disse-lhe Jesus: As raposas têm covis e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. E disse a outro: Segue-me. Mas, ele respondeu: SENHOR, deixa que primeiro eu vá a enterrar meu pai. Mas Jesus lhe observou: Deixa aos mortos o enterrar os seus mortos; porém tu vai e anuncia o reino de Deus. Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa. E Jesus lhe disse: Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus” (Lc 9:57-62).

Alguns discípulos, quando foram convocados por Cristo, haviam acabado de pescar muitíssimos peixes (encheram dois barcos que, quase foram a pique), uma riqueza de valor considerável para pescadores da época (Lc 5:7). Simão Pedro, Tiago e João deixaram tudo e seguiram a Jesus (Lc 5:11). O jovem rico, por sua vez, não quis abrir mão do que possuía! (Lc 18:22).

Por que era necessário aos ouvintes de Jesus, abrirem mão de tudo, para adquirirem um tesouro nos céus? A resposta é simples: “Porque, onde estiver o vosso tesouro, ali estará, também, o vosso coração” (Lc 12:34; Mt 6:21).

Abraão é um exemplo de quem abriu mão de tudo, para alcançar a cidade que tem fundamento, cujo arquiteto e artífice é Deus (Hb 11:10). Primeiro, ele saiu de sua parentela, ou seja, abriu mão de pai e mãe. Quando apareceu a oportunidade de ficar com os bens do rei de Sodoma, Abraão abriu mão para que o rei de Sodoma não viesse a dizer que enriqueceu Abraão (Gn 14:23).

O profeta Moisés é outro exemplo, pois abriu mão de ser chamado filho da filha de Faraó, por ter em vista a recompensa: “Pela fé, Moisés, sendo já grande, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, escolhendo, antes, ser maltratado com o povo de Deus, do que por um pouco de tempo ter o gozo do pecado; tendo por maiores riquezas o vitupério de Cristo, do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa” (Hb 11:24-26).

 

O ensinamento

Para interpretar a parábola do tesouro escondido, o leitor não tem que buscar um significado para a figura do homem, do campo ou do ato de esconder o tesouro. A parábola foi contada para que os ouvintes de Jesus refletissem se estavam dispostos a abrir mão de tudo, para poder alcançar o reino dos céus!

Em lugar de apresentar um mandamento: ‘Vai e vende tudo…’, Jesus apresentou uma parábola, que fizesse os seus ouvintes considerarem se estavam dispostos a abrir mão de tudo o que possuíam, para alcançar o reino dos céus.

Igualmente, ocorre com a parábola do negociante, que saiu em busca de boas pérolas. O leitor não tem que atribuir significado ao homem negociante ou, ao fato de ter encontrado uma pérola de grande valor. O objetivo da parábola é destacar se os ouvintes de Jesus estavam dispostos a cumprirem a ordem de Cristo: “Vai, vende tudo quanto tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; vem, toma a cruz e segue-me” (Mc 10:21).

Muitos erros surgem quando se ignora o público alvo da parábola, porém, eles se avolumam quando o intérprete procura atribuir significado a cada elemento que compõe a parábola.

De nada adianta interpretar corretamente um elemento da parábola e se equivocar no restante. Observe:

“Mas, há dois conceitos errados, sobre essas parábolas, que devem ser considerados. O primeiro foi proposto por Orígenes e afirma que Cristo é o tesouro escondido ou a pérola de inestimável valor que o pecador tem de encontrar e comprar. Na outra parábola, os papéis são invertidos, fazendo uma alusão descabida a Cristo como aquele que encontra a Igreja e a compra. Ambos, contudo, são conceitos errados (Cristo não está à venda nem vendeu Israel para comprar a igreja) e lidam com questões que estão fora do contexto” O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao alcance de todos. Editores: Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H.Wayne House, Rio de Janeiro, 2010.

Com base no apontado pelos editores do ‘O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento’, Orígenes estava corretíssimo quando aponta Cristo como o tesouro escondido ou a pérola de grande valor. Entretanto, cometeu o equívoco de não observar o público alvo das parábolas e de considerar que Cristo encontrou a igreja e a compra.

Os editores do ‘O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento’ erram quando afirmam que Orígenes errou ao dizer que Cristo é o tesouro escondido ou a pedra de grande valor. Ora, efetivamente Cristo é o tesouro escondido ou a pérola de inestimável valor.

A interpretação que Moody dá à parábola do tesouro escondido é equivocada, porque ele buscou dar significado a alguns elementos que compõem a parábola:

“44. O Tesouro Oculto. Embora o tesouro costume ser explicado como sendo Cristo, o Evangelho, a salvação, ou a Igreja, pelo que o pecador deveria estar pronto a sacrificar tudo, o uso consistente da palavra homem nesta série refere-se a Cristo e o ato de esconder, novamente, depois de encontrar, toma os quadros diferentes. Antes, o tesouro oculto num campo descreve o lugar ocupado pela nação de Israel durante o interregno (Êx. 19:5; Sl. 135:4). Cristo veio para essa nação obscura. A nação, entretanto, rejeitou-o, e assim, com propósito divino, foi privada de sua importância financeira; ainda hoje continua obscura no seu aspecto externo quanto ao seu relacionamento com o reino messiânico (Mt. 21:43). Mas, Cristo deu a sua própria vida (tudo quanto tem) para comprar todo o campo (o mundo, l Co. 5:19; I Jo. 2:2) e, assim, conseguiu plena posse de direito por descobrimento e redenção. Quando ele voltar, o tesouro será desenterrado e totalmente revelado (Zc. 12,13)” Comentário Bíblico Moody – Mateus.

Israel

As parábolas do tesouro escondido e da pérola de grande valor são exigências aos filhos de Israel, para que se desfaçam de tudo, pois acerca deles, protestavam os profetas, de que eram possuidores de muitas ‘riquezas’, a ponto de serem chamados ‘ricos’.

“Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação” (Lc 6:24);

“Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos e não vos arrastam aos tribunais?” (Tg 2:6);

“Eia, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir (…) Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” (Tg 5:1 a 6).

Essa era a condição dos filhos de Israel:

“Na verdade, todo homem anda numa vã aparência; na verdade, em vão se inquietam; amontoam riquezas e não sabem quem as levará (Sl 39:6; Lc 12:20; Jr 17:11);

“Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas” (Jr 9:23).

 

A igreja

Essas duas parábolas possuem algum elemento prático exigível dos membros do corpo de Cristo? Não, pois os que creem já ganharam a Cristo. O crente em Cristo não tem que dispor de nada para ganhar a Cristo, antes, já está de posse de Cristo, por crer na mensagem do evangelho.

O alerta para a igreja é diferente: “Sofre, pois, comigo, as aflições, como bom soldado de Jesus Cristo. Ninguém que milita se embaraça com negócios desta vida, a fim de agradar àquele que o alistou para a guerra” (2Tm 2:4), de modo que: “… os que têm mulheres sejam como se não as tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que folgam, como se não folgassem;  os que compram, como se não possuíssem; e os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa” (1Co 7:29-31).

Das parábolas do tesouro escondido e da pérola de grande valor, os cristãos retiram uma lição a ser utilizada no evangelismo, de modo a demonstrar ao pecador que, para ganhar a Cristo é necessário deixar tudo.

“Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Que daria um homem em troca de sua alma?” (Mc 8:36-37).

 


[1] As parábolas da Bíblia, geralmente, são narrativas curtas, que transmitem um ensinamento proposto por Deus, através dos profetas da Antiga Aliança, composta por símiles, figuras, enigmas e adágios.

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As bem-aventuranças e o ministério de Jesus Cristo

Uma mudança de concepção (metanoia) nos ouvintes de Jesus era imprescindível, pois tinham zelo de Deus, mas, como profetizou Davi, sem entendimento (Sl 53:3). Por não conhecerem a justiça de Deus, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeitando à justiça superior: a que vem de Deus: “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:3).


Parte II

Introdução

Este texto é a segunda parte do artigo “O Sermão da Montanha e o espírito inatingível da Lei”, disponível no Portal Estudos Bíblicos. Caso não tenha lido a primeira parte desse artigo, recomendamos a leitura da primeira parte, a fim de se ter compreensão plena da exposição a seguir.

Na primeira parte do artigo, foram analisadas as beatitudes, através do registro no Evangelho segundo Mateus e, agora, daremos continuidade à análise das beatitudes, por meio do registro efetuado pelo apóstolo Lucas, com especial destaque no público alvo do discurso de Jesus.

Vale salientar que a condição de ‘pobres bem-aventurados’ não tem relação com a condição financeira do indivíduo, pois, entre os apóstolos, havia um médico e um cobrador de impostos e, mesmo assim, Jesus classificou os seus discípulos como pobres.

Se a condição ‘pobre’ bem-aventurado fosse decorrente de questões socioeconômicas, no mínimo, Lucas e Mateus seriam exceções à regra. A bem-aventurança é uma espécie de hebraísmo[1], expressão linguística muito usual nas Escrituras, como encontramos no Salmo 32:

BEM-AVENTURADO aquele cuja transgressão é perdoada e cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não imputa maldade e, em cujo espírito, não há engano” (Sl 32:1-2).

Para um judeu da época de Jesus, falar no aramaico asheré ou no grego makários (bem-estar, abençoados, felizes, bem-aventurados,ditosos, venturosos), pelo contexto, teria o mesmo efeito: seriam remetidos às exclamações enfáticas que permeiam as Escrituras.

 

O evangelista Lucas e as beatitudes

“E, descendo com eles, parou num lugar plano e, também, um grande número de seus discípulos e grande multidão de povo de toda a Judéia, de Jerusalém e da costa marítima de Tiro e de Sidom; os quais tinham vindo para ouvi-lo e serem curados das suas enfermidades, como, também, os atormentados dos espíritos imundos; e eram curados. E toda a multidão procurava tocar-lhe, porque saía dele virtude e curava a todos. E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem e vos injuriarem e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas” (Lc 6:17-23).

Enquanto o evangelista Mateus registrou o Sermão da Montanha focado na mensagem do discurso, o evangelista Lucas incluiu no registro da mensagem uma descrição do local onde o discurso foi feito, bem como dá detalhes pertinentes ao público que estava ouvindo o Mestre e quando Ele muda a abordagem, em função dos grupos de pessoas que compunham a multidão.

O evangelista Lucas narra que Jesus subiu em um monte para orar e que Ele passou a noite em oração (Lc 6:12). Quando amanheceu, chamou os seus discípulos (seguidores) e, dentre eles, escolheu doze e deu-lhes o nome ‘apóstolos’ (Lc 6:13).

Após a escolha dos doze, Jesus desceu do monte, juntamente com os apóstolos e seus discípulos, e parou em um lugar plano, onde encontrava-se uma outra grande quantidade de discípulos, juntamente com uma grande multidão de diversas regiões da Judéia, Jerusalém e da costa marítima de Tiro e Sidom (Lc 6:17).

Muitos da multidão vieram para ouvir e serem curados por Jesus, pois bastava tocá-Lo para serem livres do mal que lhes afligia (Lc 6:18-19).

O evangelista Mateus enfatiza que Jesus se assentou, ato que indicou à multidão que Ele ia falar, pois à época os mestres ensinavam assentados (Lc 4:20). O evangelista Lucas, por sua vez, evidencia que Jesus selecionou o público alvo da sua mensagem, através de um olhar: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres…” (Lc 6:20).

Jesus olhou para os seus discípulos e enfatizou que eles eram bem-aventurados porque o tão almejado reino dos céus pertencia aos seus seguidores. Entretanto, Jesus não falou abertamente esta verdade, antes disse: “Bem-aventurados vós, os pobres…” (Lc 6:20).

Se os discípulos eram ‘os pobres’ e aos pobres ‘pertence o reino dos céus’, certo é que os discípulos eram ditosos, venturosos, pois estavam de posse do reino dos céus – Cristo (Jo 1:12).

E o que dizia os profetas acerca do reino de Deus?

“Do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto” (Is 9:7).

Os profetas anunciavam que o Messias seria firmado e fortificado com juízo e justiça sobre o trono de Davi. Como o reino é firmado e fortificado em juízo e justiça, e a essência do reino é o principado d’Aquele que se assenta sobre o trono de Davi, quem recebeu o rei está farto de justiça (Jo 1:12).

Os seguidores de Cristo que eram famintos, agora são ditosos, por serem fartos de justiça. A tristeza, o abatimento, foram substituídos por alegria, ou seja, eles foram consolados (Is 61:3).

Ao profetizar acerca do reino do Messias, o Salmista declarou que o rei se compadecerá do necessitado que clamar, como também do aflito e dos necessitados. O rei não fará acepção: atenderá o necessitado que clamar, de modo que todas as nações o servirão: “E todos os reis se prostrarão perante ele; todas as nações o servirão. Porque ele livrará ao necessitado quando clamar, como também ao aflito e ao que não tem quem o ajude. Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará as almas dos necessitados” (Sl 72:11-13).

Quem são os pobres, aflitos e necessitados? Responde-se: – Aqueles que invocam o nome do Senhor!

“E há de ser que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque no monte Sião e, em Jerusalém, haverá livramento, assim como disse o SENHOR e, entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar” (Jl 2:32);

“Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará as almas dos necessitados (Sl 72:13).

O publicano, quando orou, de pé e ao longe, no templo, portou-se como necessitado, pois invocou a Deus, dizendo: – “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!”  (Lc 18:13). O publicano invocou o Senhor como pobre, tradução do termo grego ‘ptojói’, que remete a alguém em absoluta miséria, penúria total. Reconheceu a sua condição miserável: – ‘Sou pecador’!

E os necessitados serão livres do que? Da opressão econômica? Do descaso social? Das políticas governamentais opressoras? Das lutas de classes? Da discriminação racial? Não! Ele libertará o homem que clamar – do engano, da violência (Sl 72:14).

Mais adiante, abordaremos essas duas figuras: ‘engano’ e ‘violência’, que compõem a parábola do Salmo de Salomão.

Cristo é a pedra de tropeço, a rocha de escândalo, colocada em Israel por Deus e todo aquele que n’Ele cresse, não seria confundido. Enquanto os filhos de Israel esperavam um rei que estabelecesse um governo, o rei veio para estabelecer um santuário. Antes de restaurar o reino de Israel, Ele veio edificar um templo – a Igreja – um santuário, uma casa de oração para todos os povos: “Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço e rocha de escândalo às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém” (Is 8:14); “Também os levarei ao meu santo monte e os alegrarei na minha casa de oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar; porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos” (Is 56:7).

Os discípulos creram em Cristo – a rocha de escândalo para as duas casas de Israel (Judá e Israel) – portanto, os discípulos não foram confundidos, daí o título de bem-aventurados. Ao crerem no enviado de Deus, os discípulos estavam de posse do reino dos céus, portanto, eram fartos de justiça e consolados por Deus. Por terem recebido o grande rei, o Filho de Davi, foram feitos filhos de Deus (Jo 1:12).

Jesus frisou que os discípulos eram bem-aventurados quando odiados e quando os homens buscassem separá-los, injuriando e rejeitando-os como maus, por causa d’Ele. Quando acontecesse de serem injuriados e rejeitados, era para os discípulos não se entristecerem, antes deveriam exultar, folgar, porque a recompensa do Pai celeste seria grande (Mt 6:19-20), visto que, os filhos de Israel, no passado, também haviam perseguido os profetas de Deus.

Diferente dos escribas e fariseus que ajuntavam tesouro na terra, os discípulos, quando perseguidos, estariam ajuntando tesouro nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem e nem está ao alcance de ladrões (Mt 6:19, compare com Mt 5:12).

 

Peso

O evangelista Lucas registrou alguns ‘ais’ anunciados por Jesus, durante a exposição do Sermão do monte e o evangelista Mateus, por sua vez, não faz esse registro. Somente no capítulo 23 o evangelista Mateus registra a censura do Senhor Jesus contra os líderes judaicos, porém, em outro contexto.

Após anunciar a venturosa alegria dos discípulos, o evangelista Lucas registra uma censura através de imprecações de ‘ais’, que Jesus fez, desfavorável a algumas pessoas que estavam ouvindo o discurso.

Seria contrassenso os discípulos serem congratulados e censurados no mesmo discurso. Os seguidores de Cristo não poderiam ser ‘pobres’ e ‘ricos’, portanto, a censura de Jesus torna evidente que o público alvo do Sermão mudou. Observe:

“Mas ai de vós, ricos! Porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós, quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” (Lc 6:24-26).

A conjunção adversativa ‘mas’ e o peso ‘ai’, indicam que Jesus deixou de falar com os seus seguidores e que o juízo que estava sendo anunciado tinha por alvo um outro grupo de pessoas. Isto significa que Jesus deixou de olhar para os seus discípulos e direcionou o seu olhar para um outro público, em meio à multidão: “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós…” (Lc 6:20).

Para censurar certo grupo de pessoas em meio à multidão, Jesus introduz a figura do ‘rico’. Jesus estava falando da condição social de algumas pessoas em meio à multidão? Não!

Qual o significado da figura dos ‘ricos’ no discurso de Jesus?

O salmista Asafe fez uma descrição das pessoas que se enquadram no perfil dos ‘ricos’:

“3 Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios.

4 Porque não há apertos na sua morte, mas firme está a sua força.

5 Não se acham em trabalhos como outros homens, nem são afligidos como outros homens.

6 Por isso a soberba os cerca como um colar; vestem-se de violência como de adorno.

7 Os olhos deles estão inchados de gordura; eles têm mais do que o coração podia desejar.

8 São corrompidos e tratam maliciosamente de opressão; falam arrogantemente.

9 Põem as suas bocas contra os céus e as suas línguas andam pela terra.

10 Por isso, o povo dele volta aqui e águas de copo cheio se lhes espremem.

11 E eles dizem: Como o sabe Deus? Há conhecimento no Altíssimo?

12 Eis que estes são ímpios e prosperam no mundo; aumentam em riquezas (Sl 73:3-12).

Para ler esse salmo e compreender as figuras utilizadas pelo salmista Asafe é necessário conhecimento básico de alguns recursos utilizados para a construção da poesia hebraica.

Os salmos, provérbios e a maioria das profecias são construídos através de um elemento formal denominado paralelismo. A poesia hebraica não possui rima, mas, sim, um encadeamento lógico que substitui a rima e o ritmo, que muitos chamam de “ritmo de sentido”.

O verso 3: “Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios”, foi construído através de um paralelismo sintético (ou: formal, construtivo), em que a segunda frase do verso amplia e acrescenta um conceito à primeira frase.

Asafe, profeticamente, diz que ‘tinha inveja dos néscios’, dos loucos e, em seguida, a justificativa: por causa da prosperidade dos ímpios! Se a inveja decorre da prosperidade, certo é que os ‘néscios’ são ‘ímpios’ e vice-versa.

Tudo o que é descrito nos versos seguintes rementem aos ímpios, por conseguinte, aos néscios e/ou loucos. Daí outra pergunta? Quem são os loucos? Ou, quem são os ímpios?

Considerando o que o apóstolo Paulo asseverou: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” (Rm 3:19), visto que os judeus se achavam excessão, e que o termo ‘lei’ empregado por ele engloba a lei, os profetas, os provérbios e os salmos (Escrituras), os ‘loucos’ em questão refere-se aos filhos de Israel, como foi dito por Moisés:

“Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai, que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” (Dt 32:6).

Quando é dito no Salmo 74: “Lembra-te disto: que o inimigo afrontou ao SENHOR e que um povo louco blasfemou o teu nome” (Sl 74:18). O inimigo que afrontou ao Senhor diz da Babilônia que derribou o tempo e ateou fogo ao santuário. Já o povo louco que ‘blasfemou’ o nome do Senhor diz dos filhos de Israel, como diz o profeta: “Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós” (Rm 2:24).

A censura de Deus recai sobre o seu próprio povo:

“Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22);

“Eu, porém, disse: Deveras estes são pobres; são loucos, pois não sabem o caminho do SENHOR, nem o juízo do seu Deus” (Jr 5:4);

“Chegarão os dias da punição, chegarão os dias da retribuição; Israel o saberá; o profeta é um insensato, o homem de espírito é um louco; por causa da abundância da tua iniquidade, também haverá grande ódio” (Os 9:7).

Retornando ao Salmo 73, o salmista descreve os ‘loucos’, ou o povo de Israel com outras figuras: a ‘soberba’ os envolvem como um colar, vestidos de ‘violência’ (Sl 73:6), ‘prosperam’ no mundo e aumentam em ‘riqueza’ (Sl 73:12).

O salmista estaria falando do acumulo de riquezas materiais? Não! A figura possui outro significado.

O que seria a violência que usam como vestimenta? O profeta Isaias responde:

“As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade e obra de violência há nas suas mãos” (Is 59:6).

Em lugar de vestes de justiça produzidas por Deus, os ‘loucos’ se cobrem com obras de iniquidade, trapos de imundície que, diante de Deus, são obras de violência. Em lugar do espírito do Senhor (palavra), preferem a força: “E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” (Zc 4:6).

Por que violência? Porque a palavra do Senhor na boca dos ‘loucos’ é transtornada em ‘opressão’ e ‘engano’, como se lê: “Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do SENHOR um opróbrio e ludíbrio todo o dia” (Jr 20:8).

Um exemplo de violência é trocar a obediência pelo sacrifício. Enquanto Deus requer do homem a obediência, os sacerdotes incitavam o povo ao sacrifício. Deus requer que o homem seja pobre, abatido de espírito, ou seja, que obedeça (tremer) a sua palavra, porém, cada qual seguiam os desvarios dos seus próprios corações e acabavam praticando a ‘violência’ do sacrifício, como se lê:

“Porque a minha mão fez todas estas coisas e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito e que treme da minha palavra. Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro é como o que degola um cão; quem oferece uma oblação é como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso em memorial é como o que bendiz a um ídolo; também estes escolhem os seus próprios caminhos e a sua alma se deleita nas suas abominações” (Is 66:2-3).

A violência de quem mata um homem é comparável à violência de quem sacrificava um boi a Deus, mas que não se sujeita a Ele.

Por toda a Escritura é utilizada a figura do rico, do violento, do mentiroso, do perverso, do maligno, etc.

“Porque os seus ricos estão cheios de violência, e os seus habitantes falam mentiras e a sua língua é enganosa na sua boca” (Mq 6:12);

“Porque o dia do SENHOR dos Exércitos será contra todo o soberbo e altivo, e contra todo o que se exalta, para que seja abatido” (Is 2:12);

“Estas seis coisas o SENHOR odeia e a sétima a sua alma abomina: Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, a testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos” (Pv 6:16-19).

Em função de outras passagens do Novo Testamento, verifica-se que a figura dos ‘ricos’, à época de Jesus e dos apóstolos, fazia referência aos escribas, aos fariseus e aos príncipes do povo de Israel. Os homens que condenaram e mataram a Cristo e arrastavam os seus seguidores aos tribunais eram ‘ricos’!

“Porventura, não vos oprimem os ricos e não vos arrastam aos tribunais? Porventura, não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado?” (Tg 2:6-7).

“EIA, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias, que sobre vós hão de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas e as vossas vestes estão comidas de traça. O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós e comerá como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras e que por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos exércitos. Deliciosamente, vivestes sobre a terra e vos deleitastes; cevastes os vossos corações, como num dia de matança. Condenastes e matastes o justo; ele não vos resistiu” (Tg 5:1-6).

Os textos de Lucas e de Tiago contra os ricos não possuem viés marxista, não abordam lutas de classes, não visam questões trabalhistas e sindicalistas e nem dão suporte à teologia da libertação.

Os ‘ricos’ como figura nas Escrituras não são decorrentes da ordem socioeconômica com base escravocrata, não deriva do capitalismo selvagem e nem decorre de ideologias de governo, etc.

‘Rico’ é uma figura empregada pelos profetas, para fazer referência àqueles que confiavam em si mesmos, que faziam da carne a sua força e o coração se apartava do Senhor (Jr 17:5).

Os profetas na Antiga Aliança descreveram tais homens como insensatos, loucos, que ajuntavam riquezas, mas não retamente (Jr 17:11; Sl 49:5-6 e 12-13; Sl 52:7).

O profeta Amós anunciou o peso do Senhor sobre homens ímpios que estavam em repouso na cidade de Jerusalém. Que, apesar da invasão inimiga iminente por causa da transgressão em Israel, continuavam deitados em camas de marfim, comiam cordeiros e bezerros cevados, cantavam ao som da lira, bebiam vinho e se ungiam com o mais excelente óleo, mas não se afligiam pela ruina da casa de Israel (Am 6:1-7).

Apesar da aparente segurança, os que viviam uma vida regalada em Jerusalém seriam conduzidos ao exílio (Am 6:7).

A figura do ‘rico’ foi utilizada pelos profetas para compor inúmeros símiles e diversas parábolas, e é com base no que foi anunciado na lei, profetas e nos salmos, etc., que Jesus apresentou a parábola do homem rico:

“E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros e edificarei outros maiores, ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi à minha alma: alma, tens em depósito muitos bens, para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas, Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus” (Lc 12:16 -21).

A quem Jesus propôs a parábola do homem rico? Para entendermos a parábola, primeiro temos que identificar quem era o público alvo da mensagem, pois pela quantidade de parábolas, até mesmo os discípulos ficaram confusos e perguntaram: “Senhor, dizes esta parábola a nós, ou a todos” (Lc 12:41).

Havia ajuntado milhares de pessoas ao redor de Jesus, tanto que empurravam uns aos outros (Lc 12:1). Inicialmente, Jesus fala com os seus discípulos, utilizando o fermento com figura para alertá-los da perniciosidade contida na doutrina dos fariseus (Lc 12:1).

Mas, enquanto falava aos seus discípulos, um homem O interrompeu, rogando: – “Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança” (Lc 12:13). Após repreender o homem, deixando claro que a sua função não era de juiz ou divisor de herança, ordenou aos seus ouvintes que se abstivessem da ‘avareza’.

Seria a ‘avareza’ abordada por Jesus um dos sete pecados capitais? Jesus estava falando de quem tem excessivo apego ao dinheiro?

Ora, anteriormente Jesus havia determinado cautela para com o ‘fermento’ dos fariseus, que era a hipocrisia (Lc 12:1; Mt 16:12). Jesus não estava falando de fermento biológico ou fermento químico ou de pão feito de trigo.

Jesus, também, não estava dizendo que a hipocrisia dos escribas e fariseus se resumia em fingirem ter crenças, virtudes, ideias ou sentimentos que não possuíam.

Na verdade, Jesus estava alertando quanto ao preceito de homens que era ensinado pelos escribas e fariseus. Substituir a palavra de Deus por preceitos de homens é o que os profetas declaravam como sendo ‘hipocrisia’. Mesmo que o homem creia piamente que o seu posicionamento seja correto, se não é conforme o mandamento de Deus, é hipocrisia: “Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens” (Mt 15:9).

A ‘hipocrisia’ não diz da falsidade, dissimulação, fingimento, etc., nas relações interpessoais. Certo é que, do ponto de vista das relações humanas, a hipocrisia é perniciosa e reprovável, porém, a hipocrisia abordada por Cristo tem relação com o que foi anunciado pelos profetas:

“Porque os guias deste povo são enganadores e os que por eles são guiados são destruídos. Por isso o Senhor não se regozija nos seus jovens e não se compadecerá dos seus órfãos e das suas viúvas, porque todos eles são hipócritas e malfazejos e toda a boca profere doidices; e nem com tudo isto cessou a sua ira, mas ainda está estendida a sua mão” (Is 9:16-17);

“O hipócrita com a boca destrói o seu próximo, mas os justos se libertam pelo conhecimento” (Pv 11:9).

O ‘hipócrita’ é o que diz ‘doidices’, que em lugar de anunciar a palavra do Senhor, que satisfaz o faminto e sacia o sedento, profere o engano, preceitos de homens que não satisfazem a alma faminta por justiça: “Porque o vil fala obscenidade e o seu coração pratica a iniquidade, para usar de hipocrisia e para proferir mentiras contra o SENHOR, para deixar vazia a alma do faminto e fazer com que o sedento venha a ter falta de bebida” (Is 32:6).

Se a ‘hipocrisia’ diz da doutrina de engano, certo é que a ‘avareza’ não diz daquele que está em busca do lucro econômico mas, sim, do que busca a falsidade, seguindo o devaneio do seu coração corrompido: “E eles vêm a ti, como o povo costumava vir e se assentam diante de ti, como meu povo e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza” (Ez 33:31); “Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade” (Jr 6:13).

Ter zelo de Deus, mas não ter entendimento, ou seja, o conhecimento, é o mesmo que hipocrisia e avareza (Rm 10:1-3; Pv 19:2). Não é possível servir a dois senhores, lisonjear um com a boca e o coração seguir a avareza, ou seja, servir a Deus e a Mamom: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom” (Mt 6:24).

Ninguém pode servir a Deus e seguir a sua avareza. Aquele que segue a sua ‘avareza’ elegeu o seu próprio ventre como deus. Lisonjeia a Deus com a boca, mas permanece sendo senhor de si mesmo, ou seja, não se humilha (se faz servo) debaixo das potentes mãos de Deus: “Porque, os tais, não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam os corações dos simples” (Rm 16:18).

Jesus destaca que a vida do homem não consiste na abundância de bens que possui (Lc 12:15), isso porque, as Escrituras evidenciam que a vida está em ser um abatido de espírito (Is 57:15), ou seja, alguém que se humilha a si mesmo para servir a Deus. A vida está na palavra de Deus e não no pão cotidiano (Dt 8:3).

Após Jesus anunciar que certo homem alcançou grande lucro e arrazoava consigo mesmo, que construiria celeiros maiores para poder dizer: – “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos. Descansa, come, bebe e folga” (Lc 12:19) e que Deus lhe disse: – “Louco, esta noite te pedirão a tua alma. Então, o que tens preparado, para quem será?”, Jesus compara ao homem louco qualquer que ajunta tesouro na terra e não é rico para com Deus (Lc 12:21).

O homem rico da parábola é louco por não ajuntar tesouro nos céus e não por ser abastado economicamente. A parábola introduz uma similitude entre aquele que ajunta bens materiais e não sabe quem desfrutará, com aqueles que ajuntam recompensa aqui, e não são ricos para com Deus (Mt 5:19-21).

A parábola do homem rico deriva do que escreveu o Salmista Davi: “Todo homem anda como uma sombra: em vão se inquieta; amontoa riquezas, sem saber quem as levará” (Sl 39:6). O homem rico foi nomeado ‘louco’ por causa do que foi anunciado por Jeremias: “Como a perdiz, que choca ovos que não pôs, assim é aquele que ajunta riquezas, mas não retamente; no meio de seus dias as deixará e no seu fim será um insensato (Jr 17:11).

O homem rico era um insensato, um louco, pois o que estava ajuntando não o tornava rico para com Deus. O termo ‘louco’ é uma figura que se aplica aos filhos de Israel, desde Moisés: “Recompensais assim ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” (Dt 32:6); “Atendei, ó brutais dentre o povo; e vós, loucos, quando sereis sábios?” (Sl 94:8).

Como tudo o que a lei diz, diz aos que estão debaixo da lei, ou seja, refere-se aos judeus, a figura do ‘louco’ aplica somente aos judeus, o que demonstra que a parábola do homem rico tinha como figurante um judeu (Rm 3:19). Quando é dito: “Todo homem anda como uma sombra”, o texto é inclusivo, demonstrando que os judeus não são exceção à regra, como equivocadamente achavam.

A parábola do homem rico era instrução para os discípulos, mas, como Jesus falava por parábolas ao povo e expôs um grande número de parábolas, isso trouxe um questionamento: – “Senhor, dizes esta parábola a nós, ou a todos?” (Lc 12:41).

Quando era anunciado algo à multidão, o evangelista Lucas deixou frisado: “Disse também à multidão: Quando vedes a nuvem que vem do ocidente, logo dizeis: Lá vem chuva e assim sucede” (Lc 12:54), o que evidencia a importância de se observar o público alvo da mensagem.

Retornemos às beatitudes anunciadas por Jesus aos seus discípulos, segundo o que foi registrado pelo evangelista Lucas:

“Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem, e vos injuriarem, e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Folgai nesse dia, exultai; porque, eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas” (Lc 6:20-23).

Após anunciar as bem-aventuranças, Jesus anuncia um peso contra algumas pessoas, em meio à multidão que estava ouvindo o discurso, ou seja, os ‘ais’ (peso) não eram em desfavor aos discípulos:

“Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas” (Lc 6:24-26).

Os escribas e fariseus deviam observar que, enquanto todos os homens diziam coisas boas acerca deles, assim também fizeram no passado os filhos de Israel aos falsos profetas. Os líderes da religião judaica eram os fartos que, em breve, sentiriam o quanto eram miseráveis. Agora estavam alegres, mas em breve haveriam de se lamentar e chorar.

Após anunciar o peso do Senhor através de ‘ais’ contra os líderes da religião, Jesus se dirige à multidão, mudando o público alvo da sua mensagem novamente, dizendo: “Mas a vós, que isto ouvis…” (Lc 6:27).

Após estabelecer um contraponto entre a condição dos Seus seguidores e os mestres da religião judaica através das beatitudes e dos ‘ais’, Jesus se volta à multidão para expor a sua doutrina.

Do capítulo 6 do evangelho de Lucas, dos versos 27 em diante, o público alvo da mensagem de Cristo é a multidão que os escribas e fariseus consideravam maldita: “Mas esta multidão, que não sabe a lei, é maldita” (Jo 7:49).

 

Cristo, a lei e os profetas

“17 Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir.

18 Porque, em verdade, vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido” (Mt 5:17 -18).

O evangelista Mateus não registrou a censura dos escribas e fariseus e o evangelista Lucas, por sua vez, não registrou a relação de Cristo com a lei e os profetas. Lucas não registrou a censura e a lembrança do que foi determinado nas Escrituras e vai direto para a ordem à multidão de amar os inimigos, o que foi feito por Mateus somente a partir do verso 44 do capítulo 5.

A transição do público alvo da mensagem de Cristo é mais perceptível através do registro do evangelista Lucas, como vemos no seguinte apelo: “Mas a vós, que isto ouvis, digo: Amai…” (Lc 6:27), no entanto, essa mesma transição de público ocorre no evangelho de Mateus, quando Jesus diz: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas…” (Mt 5:17).

O pronome na terceira pessoa do plural ‘vós’, e a referência ao que foi dito: beatitudes e censura, indica que Jesus passou a tratar com um outro público: a multidão, deixando de fora os seus discípulos e os líderes da religião judaica (escribas e fariseus).

O público alvo da mensagem de Cristo mudou, pois ele não está mais falando da condição dos seus discípulos (pobres, tristes, mansos, puros de coração, etc.), visto que é impossível ser bem-aventurado e ter grande galardão nos céus (Mt 5:12), quando não se compreende a relação de Cristo com a lei e os profetas.

Ele também não estava falando aos escribas e fariseus (ricos, fartos, etc.), uma vez que a mensagem de Cristo dá uma solução: entrem pela porta estreita (Mt 7:13), pois qualquer que ouvisse a sua doutrina e obedecesse, seria comparável ao homem prudente que constrói a sua casa sobre a rocha (Mt 7:24).

Do capítulo 5 do evangelho segundo Mateus, versos 17 em diante, o leitor terá um discurso voltado para a multidão que, em primeiro lugar, visa esclarecer a relação de Jesus com a lei e os profetas (não vim destruir a lei e os profetas) e, em seguida, alertar que o reino dos céus estava vetado à multidão, caso não adquirissem justiça superior à justiça dos escribas e fariseus (Mt 5:20).

Lembrando que a temática da mensagem de Jesus, desde quando João Batista foi preso, era revolucionar o modo de pensar dos seus concidadãos (Mt 4:12-17), o leitor do Sermão da Montanha precisa estar cônscio de que o sermão tem o escopo de operar uma mudança de compreensão (metanoia) nos judeus.

Mas, para entender o arrependimento (metanoia) exigido por Cristo, primeiro se faz necessário compreender quem eram os judeus e o entendimento que possuíam da lei, pessoas a quem, primeiramente, Jesus foi enviado (Jo 1:11; Mt 15:24; Jr 50:6).

Para o leitor ter noção de quem eram os judeus, basta ler o capítulo 7 do livro dos Atos dos apóstolos, onde o mártir Estêvão faz um resumo preciso da origem e crescimento do povo Judeu.

Os judeus são descendentes do patriarca Abraão, um gentio que veio da Mesopotâmia, antes de fixar residência em Harã. Quando em Harã, Deus apareceu a Abraão e disse-lhe: – “Sai desta terra e dentre a tua parentela para uma terra que Eu te mostrarei” (At 7:2-3).

Abraão deixou os seus parentes e passou a peregrinar nas terras de Canaã (Gn 12:1-5). Deus não deu herança a Abraão em Canaã (At 7:5), pois Abraão viveu como peregrino na terra da promessa (Hb 11:9). Abraão não herdou terras, antes era herdeiro da seguinte promessa: “À tua descendência darei esta terra” (Gn 12:7).

Abraão gerou Isaque, segundo a promessa e Isaque gerou a Jacó e Jacó os doze patriarcas. Os patriarcas cheios de inveja venderam José como escravo, porém Deus o fez governador do Egito e tudo o que foi revelado a Abraão cumpriu-se (At 7:6-7; Gn 15:13-14).

Os filhos de Israel foram feitos escravos no Egito e Deus levantou um profeta – Moisés – e o comissionou para resgatar o seu povo do jugo da servidão, como foi revelado a Abraão. O resgate do povo foi feito com poderosa mão, sendo realizado por Deus muitos prodígios e sinais memoráveis (At 7:34-35).

Moisés profetizou que, dentre os filhos de Israel, Deus levantaria um profeta como Moisés, e que o povo deveria ouvi-Lo (At 7:37). Mas, quando Moisés subiu ao monte Sinai para falar com Deus e ficou quarenta dias e quarenta noites. O povo achou que Moisés estava demorando e que poderia ter morrido e rebelou-se, pois intentou retornar ao Egito (At 7:39).

Por causa da rebeldia do povo, Deus se afastou e os abandonou à própria sorte. Em outras palavras, o Senhor que os seguia no deserto (a pedra) e que concedeu comida e bebida espiritual ‘escondeu’ o seu rosto: “Assim se acenderá a minha ira naquele dia contra ele e desampará-lo-ei, esconderei o meu rosto dele, para que seja devorado; e tantos males e angústias o alcancem, que dirá naquele dia: Não me alcançaram estes males, porque o meu Deus não está no meio de mim? Esconderei, pois, totalmente o meu rosto naquele dia, por todo o mal que tiver feito, por se haverem tornado a outros deuses” (Dt 31:17-18; Dt 32:20; Is 64:7); “E beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” (1Co 10:4).

Onde há relato nas Escrituras de uma pedra que seguia os filhos de Israel no deserto e contra quem se rebelaram?

“Porque apregoarei o nome do SENHOR; engrandecei a nosso Deus. Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos são justos; Deus é a verdade e não há nele injustiça; justo e reto é” (Dt 32:3-4 e 15).

A mesma Rocha que serviu de tropeço às duas casas de Israel, visto que os edificadores a rejeitaram (1Pe 2:6-8; Is 8:14; Is 28:16; Sl 118:22). A Rocha que os seguia é o Senhor, que escondeu o seu rosto da casa de Israel, para que aprendessem a esperar n’Ele: “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó e a ele aguardarei” (Is 8:17), pois, só há salvação quando Deus manifesta a sua glória na face de Cristo: “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2Co 4:6).

Manifestar o rosto é o mesmo que resplandecer, de modo que o resplendor da face de Deus é misericórdia e salvação: “O SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti” (Nm 6:25); “Faze-nos voltar, ó Deus e faze resplandecer o teu rosto e seremos salvos” (Sl 80:3).

Embora os filhos de Israel oferecessem sacrifícios no deserto por quarenta anos, dizendo que serviam ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó, continuamente eram censurados e repreendidos como transgressores (At 7:42-43).

Deus não se agradou da MAIORIA deles quando percorriam o deserto por serem cobiçosos (torpe ganancia), idólatras, promíscuos (prostituiam), tentadores e murmuradores (1Co 10:5-10).

Havia em Israel aqueles que cobiçavam coisas materiais, reverenciavam outros deuses, que se prostituiam, etc., porém, havia os religiosos que diziam seguir a lei de Deus (como o fariseu que orava no templo agradecendo a Deus por não ser como os demais homens, pois não matava, não roubava, não se prostituía, etc.), e mesmo assim Deus os denominava cobiçosos, idolatras, promíscuos, etc.

Ora, todos esses comportamentos, perniciosos do ponto de vista da moral humana, foram utilizados como figuras para apontar uma realidade espiritual, assim como tudo o que sobreveio sobre Israel foi feito para a Igreja de Cristo como figura (1Co 10:6 e 11).

Moisés protestou contra Israel, dizendo:

“Porque conheço a tua rebelião e a tua dura cerviz; eis que, vivendo eu ainda hoje convosco, rebeldes fostes contra o SENHOR; e quanto mais depois da minha morte?” (Dt 31:27).

O que é a rebelião? A rebelião não é o mesmo que feitiçaria? A mesma feitiçaria que os religiosos tanto apontavam como prática reprovável entre os gentios? Que são a iniquidade e a idolatria? A iniquidade e a idolatria não são o mesmo que persistir no erro (porfiar)? O mesmo julgamento que os filhos de Israel emitiam com relação aos povos vizinhos como iníquos e idólatras, arguia contra eles por rejeitarem a palavra de Deus (Rm 2:1-3).

“Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei” (1Sm 15:23).

Ao chamar os filhos de Israel de rebeldes e de dura cerviz, Moisés estava chamando-os de feiticeiros, de iníquos e de idólatras. Por que? Ora, basta analisarmos a confissão de Neemias:

“E recusaram ouvir-te e não se lembraram das tuas maravilhas, que lhes fizeste, e endureceram a sua cerviz e, na sua rebelião, levantaram um capitão, a fim de voltarem para a sua servidão; porém tu, ó Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-te e grande em beneficência, tu não os desamparastes” (Ne 9:17).

Em outras palavras, os filhos de Israel, na sua ‘feitiçaria’ (rebelião), levantaram um líder tencionando voltar ao Egito. Queriam permanecer escravos, ou seja, porfiar, o mesmo que iniquidade e idolatria.

É em função da transgressão e da iniquidade que os filhos de Israel são denominados de ‘loucos’, como já vimos acima: “Os loucos, por causa da sua transgressão e por causa das suas iniquidades, são aflitos” (Sl 107:17).

Ora, a maioria das figuras utilizadas pelos profetas para censurarem os filhos de Israel, primeiramente, foram utilizadas por Moisés em seu cântico profético: loucos, dura cerviz, ignorantes, perversos, depravados, Sodoma, Gomorra, veneno, peçonha, víboras, etc. (Dt 32:5-6 e 28-29 e 32-33).

Isaias clamou contra Israel dizendo: “Ouvi a palavra do SENHOR, vós poderosos de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, ó povo de Gomorra” (Is 1:10). Semelhantemente, clamou Jeremias: “Deveras o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios e não entendidos; são sábios para fazer  o mal, mas não sabem fazer o bem” (Jr 4:22). Ezequiel chamou os filhos de Israel de prostituta: “Portanto, ó meretriz, ouve a palavra do SENHOR” (Ez 16:35).

As figuras utilizadas pelos profetas para falar contra os filhos de Israel eram nomes que se davam aos comportamentos desregrados, do ponto de vista de convivência social, porém, essas figuras apontavam para uma realidade espiritual.

Equivocadamente, os filhos de Israel tornaram-se moralistas, legalistas e ritualistas, reprimindo comportamentos humanos desregrados (figuras) e se esqueciam da realidade: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas” (Mt 23:23).

Dessa prevaricação surgiram judeus religiosos que percorriam o mar e a terra para tornar um gentio seguidor do judaísmo (prosélito), e, quando conseguiam, o estado do prosélito se tornava duas vezes pior do que os seus instrutores: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós” (Mt 23:15).

Como mestres, os escribas e fariseus eram prevaricadores, ou seja, os interpretes não sabiam interpretar a lei e os profetas “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” (Is 43:27); “Os sacerdotes não disseram: Onde está o SENHOR? E os que tratavam da lei não me conheciam, e os pastores prevaricavam contra mim, e os profetas profetizavam por Baal e andaram após o que é de nenhum proveito” (Jr 2:8); “Lembrai-vos disto, e considerai; trazei-o à memória, ó prevaricadores” (Is 46:8); “Como o prevaricar e mentir contra o SENHOR, e o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade” (Is 59:13).

Os escribas e fariseus achavam que eram salvos por terem Abraão por pai e não atinavam que, somente, os que tem a mesma fé que Abraão são filhos de Abraão: “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mt 3:9); “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque, eu vos digo que, até destas pedras, pode Deus suscitar filhos a Abraão” (Lc 3:8); “Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres?” (Jo 8:33); “Responderam e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão” (Jo 8:39); “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão” (Gl 3:7).

O entendimento dos escribas e fariseus era de que bastava ser descendente da carne e do sangue de um judeu para ter direito à bem-aventurança prometida a Abraão, ou que um gentio se circuncidasse e guardasse as tradições dos anciões.

“1 E AJUNTARAM-SE a ele os fariseus e alguns dos escribas, que tinham vindo de Jerusalém.

2 E, vendo que alguns dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar, os repreendiam.

3 Porque os fariseus, e todos os judeus, conservando a tradição dos antigos, não comem sem lavar as mãos muitas vezes;

4 E, quando voltam do mercado, se não se lavarem, não comem. E muitas outras coisas há que receberam para observar, como lavar os copos, e os jarros, e os vasos de metal e as camas.

5 Depois perguntaram-lhe os fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos antigos, mas comem o pão com as mãos por lavar?

6 E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim;

7 Em vão, porém, me honram, Ensinando doutrinas que são mandamentos de homens.

8 Porque, deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens; como o lavar dos jarros e dos copos; e fazeis muitas outras coisas semelhantes a estas.

9 E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição.

10 Porque Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e quem maldisser, ou o pai ou a mãe, certamente morrerá.

11 Vós, porém, dizeis: Se um homem disser ao pai ou à mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta ao Senhor;

12 Nada mais lhe deixais fazer por seu pai ou por sua mãe,

13 Invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradição, que vós ordenastes. E muitas coisas fazeis semelhantes a estas” (Mc 7:1-13).

É em função da má leitura que se faz das Escrituras que muitos não conseguem compreender porque Saul foi rejeitado por Deus, e Davi, um homicida e adúltero, foi considerado um homem segundo o coração de Deus.

Aos olhos de Deus, Saul era feiticeiro, iniquo e idolatra, pois era um homem de torpe ganancia (queria a presença do profeta e sacerdote Samuel somente para ser honrado diante do povo), e hábil em mentir, desviar da palavra do Senhor e conceber e proferir do coração palavras falsas (1Sm 13:12; 1Sm 15:30; 1Sm 15:20 e 24-25).

Davi, por sua vez, portou-se de modo inconveniente e reprovável (2Sm 11:4 e 15), e recebendo a pena pelos seus crimes (2Sm 12:10-12). O comportamento de Davi deu azo aos inimigos de Deus blasfemarem, não só no seu tempo, pois onde a história de Davi tornar-se conhecida até hoje, questionam o Deus de Israel.

Mas, em que Davi é melhor que Saul? Errou, porque não foi instruído corretamente segundo a lei, mas quando Deus matou Uzá, de pronto buscou instrução nas Escrituras.

Certa feita os levitas receberam carros de bois, assim como os filhos de Israel receberam a arca da aliança dos filisteus sobre carros de bois, porém, à época de Moisés, somente os filhos de Coate nada receberam, pois o santuário estava a seu encargo e deveriam levá-lo sobre os ombros (2Sm 6:5-7; Nm 6:9).

Davi temeu ao Senhor e questionou como viria a ele a arca do Senhor (2Sm 6:9), e assim buscam ao Senhor segundo o que Deus prescrevera na lei (1Cr 15:2 e 12-15). No mesmo dia que trouxe a arca, Davi entregou pela primeira vez a Asafe e seus irmãos um Salmo de ações de graças ao Senhor onde ele instrui os filhos de Israel a jamais se esquecerem da aliança de Deus e das palavras que prescreveu (1Cr 16:7 e 15-17).

Ora, a multidão ao pé da montanha que estava ouvindo o discurso de Jesus era composta de judeus, descendentes do patriarca Abraão e que foram liderados por Moisés quando saíram do Egito. Desde sempre, aquela multidão foi instruída por prevaricadores que mentiam, pois concebiam e proferiam do coração palavras de falsidade dizendo que os filhos de Jacó efetivamente eram uma nação santa, um povo escolhido por Deus, pelo fato de serem descendentes da carne de Abraão: “Como o prevaricar, e mentir contra o SENHOR, o desviarmo-nos do nosso Deus, o falar de opressão e rebelião, o conceber e o proferir do coração, palavras de falsidade” (Is 59:13).

Entretanto, a Escritura que os mestres da lei liam para afirmar falsamente que os filhos de Israel eram possessão do Senhor, na verdade era condicional, pois dizia: se diligentemente ouvissem a voz de Deus e guardassem a aliança ENTÃO SERIAM propriedade peculiar: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar, dentre todos os povos, porque toda a terra é minha” (Êx 19:5).

As pessoas que estavam ouvindo o discurso de Jesus pensavam que eram salvas por serem descendentes da carne de Abraão (Mt 3:9; Jo 8:39). Achavam que eram mais justas e melhores que os outros povos vizinhos, simplesmente porque os seus pais receberam a lei de Deus das mãos de Moisés (Dt 9:4; Rm 3:9). Embora os seus antecessores tivessem matado os profetas que anunciavam a vinda de Cristo, eles religiosamente edificavam e adornavam os túmulos dos profetas sob pretexto de serem melhores que os seus pais (At 7:51-53; Lc 11:47-48). Eles religiosamente ouviam a lei, mas não seguiam os preceitos de Deus (At 7:53; Jo 7:19; Ml 3:7; Rm 2:13), etc.

Os ouvintes de Jesus foram instruídos a cumprir mandamentos de homens e, ao ouvirem a doutrina de Cristo, haveria conflito de ideias, pois o que Jesus haveria de ensinar não era conforme estavam acostumados a ouvir, daí o alerta de Jesus à multidão: “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas…” (Mt 5:17).

É nesse ponto que entra a questão do arrependimento, no seu sentido grego: ‘metanoia’. Quando Jesus apregoava ‘arrependei-vos’, não estava buscando uma reação emocional de pesar dos seus interlocutores por atos realizados ou não, quer fossem atos bons, por não terem sido realizados ou ruins, que foram realizados.

O arrependimento apregoado por Jesus diz da ‘metanoia’ dos gregos, ou seja, significa mudança de mente, mudança de concepção em vista de um novo conhecimento ou evento. Não é o arrependimento traduzido por ‘paenitentia’, que invoca sofrimento, fazer penitencia, pagar indulgência, etc.

A ordem era: arrependei-vos (mudem a concepção de vocês), porque é chegado o reino dos céus (a chegada do reino dos céus – Cristo – é o evento ou o conhecimento que deveriam mudar o modo de pensar dos judeus).

Como mudar a concepção de pessoas que eram acostumadas a ouvir que eram bem-aventuradas, por terem por Pai a Abraão? (Mt 3:9) Como mudar o pensamento de pessoas que estavam acostumadas a ouvir que eram filhos de Abraão e que nunca foram escravos de ninguém? (Jo 8:33) Como mudar o modo de pensar de pessoas acostumadas a ouvirem que era necessário fazer prosélitos, sob o argumento de que só assim os gentios seriam ditosos?

Jesus não podia dizer abertamente ao povo: – “Eu sou o Cristo”, por isso, Ele fez uso de parábolas, de modo que a multidão pudesse, pelas figuras utilizas no Sermão da Montanha, compreender pela Escrituras, que Ele era o Cristo: “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender. E sem parábolas nunca lhes falava (Mc 4:33-34).

Jesus não podia dizer abertamente que era o Cristo, porque quem testifica de si mesmo é mentiroso: “Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro” (Jo 5:31). Também era impossível os seus ouvintes reconhecerem o Cristo pela aparência, muito menos alguém iria indicá-lo: “E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós” (Lc 17:20-21).

Os sermões de Jesus visavam a mudança de concepção dos seus interlocutores, portanto, precisavam ser conduzidos genuinamente através da lei, dos profetas e dos salmos a Cristo. Para reconhecerem Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo, assim como confessou o apóstolo Pedro (Mt 16:16), os discursos de Jesus apontavam através de parábolas e figuras o testemunho (revelação) de Deus nas Escrituras.

O apóstolo Pedro confessou que Jesus é o Filho de Deus, porque Deus revelou a ele. Como? Quando? A revelação de Deus se deu pela manifestação de Cristo aos homens, conforme o testemunho das Escrituras (1Jo 5:9-11).

Não foi carne e sangue que revelou ao apóstolo Pedro que Jesus é o Filho de Deus, ou seja, não foram os seus concidadãos, os seus parentes, os judeus que deram o conhecimento necessário para o apóstolo chegar àquela confissão que lhe concedeu a bem-aventurança. ‘Carne’ e ‘sangue’ neste contesto remete a parentesco, nacionalidade: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não to revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16:16-17).

Para os escribas e fariseus, a lei e os profetas estavam intimamente ligados à guarda da tradição dos anciões (Mc 7:5), consequentemente, não conseguiam entender como era possível Jesus ser um mestre judaico e comer com os publicanos e pecadores (Mt 9:11), muito menos entender como era possível os discípulos de Jesus não jejuarem (Mt 9:14). Como era possível um seguidor da lei não guardar o sábado? (Mt 12:2)

Por questões semelhantes a essas, facilmente o povo poderia entender que Jesus estava destruindo a lei e os profetas. É em função da falta de compreensão dos seus interlocutores que Jesus enfatiza qual o seu papel em relação à lei e os profetas: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir” (Mt 5:17).

Quando Jesus disse que veio para ‘cumprir’ a lei e os profetas, não estava enfatizando os ritos e cerimoniais da lei, antes destacou que Ele era o cumprimento da lei e dos profetas. Jesus deixou claro que nada do que constava na lei acerca d’Ele (nem um jota ou um til) deixaria de se cumprir.

Quando Jesus disse: “Vim para cumprir” (v. 17), temos que interpretar esse verso segundo essa perspectiva: “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos” (Lc 24:44), ou seja, nem um jota ou til deixaria de se cumprir “Porquanto vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os malfeitores foi contado. Porque o que está escrito de mim terá cumprimento” (Lc 22:37).

Jesus estava preparando o entendimento do povo para que pudessem compreender, que todas as promessas que constam das Escrituras, sem exceção, estavam vinculadas à pessoa de Cristo: “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim e por ele o Amém, para glória de Deus por nós” (2Co 1:20).

Jesus não veio cumprir os preceitos dos escribas e fariseus que, pela tradição oral, compõem a Mishnah ou o comentário posterior que deu origem ao Talmud. Por Ele ser a realidade, vez que a lei era sombra, não precisava guardar os sábados (dias de descansos), pois Ele é o descanso que Deus prometeu à humanidade, cujos sábados simbolizavam.

O objetivo da lei era o Cristo, pois através do nascimento, morte e ressurreição Ele é a propiciação para todo que crê “Porque o fim (objetivo) da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:4). A lei é santa, justa e boa, porém, através da lei era impossível o homem se justificar, pois a lei era sombra da realidade que se encontra em Cristo “Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, Que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (Cl 2:16-17); “PORQUE sendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, podem aperfeiçoar os que a eles se chegam” (Hb 10:1).

Certa feita, Jesus e os discípulos estavam caminhando em um dia de sábado, e passando por uma seara, os discípulos de Jesus colheram espigas. Os fariseus de ponto criticaram a atitude dos discípulos de Jesus, ao que Ele respondeu apontando para Davi que, quando esteve em aperto e com fome, entrou no templo e comeu os pães da propiciação juntamente com os seus homens.

Jesus deixa claro que o sábado foi instituído por causa dos homens e não o homem por causa do sábado. E ao final da exposição, Jesus deixa claro que Ele é o Senhor que instituiu o sábado (Mc 2:23-28).

Ora, o sábado foi instituído para que o povo soubesse que precisavam de descanso para a alma, assim como precisavam de descanso para o corpo físico. Os filhos de Israel só teriam descanso quando perguntassem pelas veredas antigas e andassem nela, mas se faziam de rogados e rejeitavam andar segundo a palavra de Deus: “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos,  vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele” (Jr 6:16).

Jesus veio revelar a vontade de Deus aos homens e orientou a todos dizendo: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:29).

A instituição de sábados de festas tinha como foco a raiz de Jessé, ou seja, o Cristo – o Senhor que escondeu o seu rosto da casa de Israel – “E acontecerá naquele dia que a raiz de Jessé, a qual estará posta por estandarte dos povos, será buscada pelos gentios; e o lugar do seu repouso será glorioso” (Is 11:10); “E o efeito da justiça será paz, a operação da justiça, repouso e segurança para sempre” (Is 32:17).

De que adiantava guardar sábados e dias de festas, se eles não entrariam no repouso estabelecido por Deus? “Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim jurei na minha ira: Que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo” (Hb 4:3).

O escritor ao Hebreus deixa claro que Josué não deu descanso aos filhos de Israel, embora eles tivessem entrado na terra prometida com ele:

“Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim jurei na minha ira Que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo. Porque em certo lugar disse assim do dia sétimo: E repousou Deus de todas as suas obras no sétimo dia. E outra vez neste lugar: Não entrarão no meu repouso. Visto, pois, que resta que alguns entrem nele e que aqueles a quem primeiro foram pregadas as boas novas não entraram por causa da desobediência, Determina outra vez um certo dia, Hoje, dizendo por Davi, muito tempo depois, como está dito: Hoje, se ouvirdes a sua voz, Não endureçais os vossos corações. Porque, se Josué lhes houvesse dado repouso, não falaria depois disso de outro dia. Portanto, resta ainda um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas. Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” (Hb 4:3-11)

Como poderia Josué ter dado repouso aos filhos de Israel, se Davi, muito tempo depois, profetiza acerca de um dia – hoje – quando haveria de ser dado o descanso? Como poderiam ter alcançado descanso, se Deus jurou que aquele povo não entraria no descanso de Deus?

Mas, se ouvissem a voz de Deus anunciada por Davi – hoje – e não endurecessem o coração, certamente entrariam no descanso do Senhor. Se é dito para dar ouvidos à voz de Deus, certo é que há um descanso.

Enquanto os escribas e fariseus ordenavam ao povo que se lavassem antes das refeições, Jesus deixa claro que todos os que o ouviam já estavam limpos pela palavra. Ele deixa claro que o que sai pela boca é o que contamina o homem e não o que entra “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” (Jo 15:3).

Cristo é a água limpa providenciada por Deus que purifica o homem de toda imundície, portanto, não é a agua natural que purifica o homem, mas, sim, o Verbo de Deus: “Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” (Ez 36:25).

A lei e os profetas testificavam do Cristo e Jesus deixa claro essa função das Escrituras: “Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam” (Jo 5:39).

A lei foi dada aos filhos de Israel para que reconhecessem que eram pecadores, porém, por causa da carne (sou filho de Abraão) a lei se tornou enferma, ou seja, não produzia o seu efeito, visto que os filhos de Israel se achavam justos, por serem descendentes da carne de Abraão (Rm 8:3).

Por mais que a lei arguisse os judeus como transgressores encerrando tanto judeus quanto gentios debaixo do pecado (Gl 3:22), pois essa era a função da lei, ela tornou-se inócua (enferma) frente ao argumento: ‘Temos por pai Abraão’ (carne).

A lei serviu de ‘aio’ para que os judeus fossem conduzidos a Cristo (Gl 3:24), os judeus, por sua vez, buscavam ser justificados por meio do que foi dado para preservá-los até a vinda do Cristo: “Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar” (Gl 3:23).

 

O dever dos mestres

“19 Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus” (Mt 5:19).

Jesus evidencia a importância da lei e dos profetas, ao destacar que, qualquer que aviltar (transtornar) um dos mandamentos, por menor que fosse e ensinasse aos homens, será nomeado ‘menor’, ‘sem expressividade’ (ἐλάχιστος)[2] no reino dos céus. Porém, aquele que obedecer e ensinar, será chamado ‘grande’ no reino dos céus.

Torcer o mandamento de Deus é violentar a própria alma, pois o peso decorre de suas próprias palavras: “Porém, ele lhe disse: Mau servo, pela tua boca te julgarei. Sabias que eu sou homem rigoroso, que tomo o que não pus, e sego o que não semeei”  (Lc 19:22); “Mas nunca mais vos lembrareis do peso do SENHOR; porque a cada um lhe servirá de peso a sua própria palavra; pois torceis as palavras do Deus vivo, do SENHOR dos Exércitos, o nosso Deus” (Jr 23:36; Ez 22:26; Pv 8:32-36).

O apóstolo Paulo é exemplo de alguém que é chamado ‘grande’ no reino dos céus, pois creu que Jesus é o Cristo (cumpriu o exigido na lei e nos profetas) e ensinava o evangelho de Cristo aos seus ouvintes, através da lei de Moisés e dos profetas: “E, havendo-lhe eles assinalado um dia, muitos foram ter com ele à pousada, aos quais declarava com bom testemunho o reino de Deus e procurava persuadi-los à fé em Jesus, tanto pela lei de Moisés como pelos profetas, desde a manhã até à tarde” (At 28:23).

 

Justiça superior

“20 Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus (Mt 5:20)

Do mesmo modo que era impossível Nicodemos ver o reino de Deus, apesar de ser juiz, príncipe e fariseu, se não nascesse de novo, também era impossível à multidão que ouvia Jesus entrar no reino dos céus.

O reino dos céus estava vetado ao povo, do mesmo modo que o reino dos céus estava vetado aos escribas e fariseus, ou seja, a justiça deles era equivalente. Daí a ordem: se a justiça do povo não excedesse a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrariam nos céus.

Através desta colocação, Jesus estava demonstrando que os líderes da religião judaica não podiam entrar no reino dos céus, apesar de parecerem justos aos olhos dos homens (Mt 23:28).

Levando-se em conta a seguinte parábola: “E dizia-lhes uma parábola: Pode porventura o cego guiar outro cego? Não cairão ambos na cova?” (Lc 6:39), certo é que a multidão estava em igual condição à dos seus líderes religiosos (Mt 15:12).

Qual a justiça superior à dos escribas e fariseus? A justiça pela qual os seguidores de Jesus haveriam de ser perseguidos e injuriados (Mt 5:10-12).

Uma mudança de concepção (metanoia) nos ouvintes de Jesus era imprescindível, pois tinham zelo de Deus, mas, como profetizou Davi, sem entendimento (Sl 53:3). Por não conhecerem a justiça de Deus, procuraram estabelecer uma justiça própria, não se sujeitando à justiça superior: a que vem de Deus: “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:3).

A justiça da lei descrevia os seus ouvintes como mortos, pois o homem que fizesse o estipulado na lei haveria de viver pelo que cumprisse (Rm 10:5; Lv 18:5).

No evento das serpentes ardentes, temos uma alegoria que aponta para condição dos filhos de Israel, mortos em delitos e pecados, visto que qualquer que olhasse para a serpente de metal, viveria: “E disse o SENHOR a Moisés: Faze-te uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela” (Nm 21:8).

Para viver, era necessário cumprir a lei, que foi interposta com maldição: “Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo. E todo o povo dirá: Amém” (Dt 27:26). Para viverem, teriam que olhar para a serpente, segundo o que Deus ordenará ao povo, por intermédio de Moisés.

Os filhos de Israel desconheciam que a justiça superior foi dada gratuitamente a Abraão, quando Deus prometeu que, em seu Descendente, todas as famílias (judeus e gentios) da terra seriam benditas: “Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé” (Rm 4:13).

Apesar de os filhos de Israel horarem a Deus com os lábios, o coração deles estava longe de Deus (Mt 15:8), e justamente quem veio explicar tudo acerca da lei e dos profetas (Jo 5:25), não foi reconhecido por eles, porque a mensagem de Jesus era contrária a religiosidade judaica (formalismo, legalismo e ritualismo).

Os judeus não se consideravam transgressores da lei e nem atinavam que, qualquer que tentasse guardar a lei, mas tropeçasse em um único ponto dela, era transgressor de toda lei (Tg 2:11). Os descendentes de Jacó não analisavam o motivo pelo qual a lei protestava contra eles, como povo rebelde e fazia referência a eles como injustos, tanto que Moisés deixou claro que os judeus não eram melhores e nem mais justos que os povos vizinhos (Dt 9:4 e 6), principalmente, porque os judeus eram ouvintes da lei, mas nenhum deles a praticavam (Jo 7:19; Rm 2:13).

 

Continua: ‘Não matarás’ e o Sermão da Montanha

 


[1] Hebraísmos –  refere-se a termos ou expressões exclusivas da linguagem dos hebreus (algo semelhante as expressões idiomáticas) que, pela peculiaridade da língua ou do contexto, pode trazer certa dificuldade aos tradutores para verterem o texto em outra língua.

[2] “1646 ελαχιστος elachistos superlativo de elachus (curto); usado como equivalente a 3398; TDNT – 4:648,593; adj 1) o menor, o mínimo 1a) em tamanho 1b) em valor: de administração de negócios ​1c) em importância: que é o momento mínimo 1d) em autoridade: de mandamentos 1e) na avaliação de seres humanos: de pessoas 1f) em posição e excelência: de pessoas” Dicionário Bíblico Strong; “1. elachistos (ελαχιστος). “o mínimo, o menor”, o grau superlativo formado da palavra elachus, “pequeno”, de cujo lugar foi tirado por mikros (o grau comparativo de elassõn, “menos” ). É usado acerca de: (a) tamanho (Tg 3.4. “bem pequeno” ); (b ) quantidade, a administração dos negócios (Lc 16.10. duas vezes; Lc 19.17); (c) importância (1 Co 6.2); (d) autoridade, de mandamentos (Mt 5.19); (e) avaliação, sobre pessoas (Mt 5.19. segunda parte: Mt 25.40,45; 1 Co 15.9): sobre uma cidade (Mt 2.6); sobre atividades ou operações (Lc 12.26; 1 Co 4.3, “mui pouco” ). 2. eiachistoteros (éXaxicrrÓTepoç), grau comparativo formado do n° I , é usado em Ef 3.8. “o mínimo”. 3. mikros (piicpóç). “pequeno, pouco”, é usado em At 8.10 (“o mais pequeno” ) e Hb 8.11 (“o menor”). com referência a hierarquia ou influência. Veja PEQUENO (1), A. n° 1.” Dicionário VINE.

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O Sermão da Montanha e o espírito inatingível da lei

A expressão ‘os tristes’ bem-aventurados, não possui relação com o sentimento de desilusão, frente aos infortúnios da vida e nem decorre da ebulição das emoções a que todos homens estão sujeitos. Os ‘tristes’ enquanto figura que compõe um quadro profético, tem conexão com o advento do Messias, que, segundo o profeta Isaías, foi ungido para apregoar boas novas nos seguintes termos: a tristeza é substituída por glória, gozo e louvor com o objetivo de Deus ser glorificado (Ef 1:12).


As Bem-aventuranças – Parte I

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e dos fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” (Mateus 5:20)

Como compreender o Sermão da Montanha? Nele, Jesus apresenta princípios éticos e morais[1] do seu reino? O núcleo da mensagem do Sermão da Montanha é de cunho sociocultural? Além dos mandamentos cunhados na lei mosaica, Jesus apresentou novos mandamentos?

Antes de explicarmos algumas nuances pertinentes ao ensino de Cristo à multidão, primeiro faremos análise de alguns textos, que são essenciais à leitura do Sermão da Montanha.

Essa análise é imprescindível à leitura do Sermão da Montanha, vez que trará o conhecimento essencial de algumas peculiaridades pertinentes às Escrituras, que possibilitam a compreensão do discurso de Jesus à multidão.

 

Parábolas

Uma característica intrínseca à mensagem anunciada pelos profetas da Antiga Aliança era as visões, as parábolas e os enigmas: “Falei aos profetas e multipliquei a visão; e pelo ministério dos profetas propus símiles” (Os 12:10).

Os profetas anunciavam visões, propunham parábolas ou apresentavam enigmas, pelo fato de Deus não falar abertamente ao povo. Moisés era exceção à regra, visto que, nem mesmo os profetas, tinham o privilégio de falar cara a cara, boca a boca com Deus, a não ser por sonhos: “Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?” (Nm 12:8).

Nas Escrituras, encontramos alguns profetas que foram taxados pelo povo de contadores de parábolas, entretanto, os profetas se resignavam em falar estritamente o que Deus ordenou: “Então disse eu: Ah! Senhor DEUS! Eles dizem de mim: Não é este um proferidor de parábolas?” (Ez 20:4); “Filho do homem, propõe um enigma e profere uma parábola para com a casa de Israel” (Ez 17:2).

Deus falou, muitas vezes, ao povo de Israel, utilizando-se dos seus mensageiros, e, na plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho Unigênito para anunciar aos homens as boas novas (Hb 1:1-2), porém, algo não mudou: assim como os profetas da Antiga Aliança, Jesus falou ao povo utilizando parábolas: “E falou-lhe de muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que o semeador saiu a semear” (Mt 13:3).

Por que Jesus falava por parábolas? Uma das pistas é o anunciado pelos profetas:

“Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem” (Mt 13:13).

Falar à multidão por parábolas é uma das características mais importantes a se observar nos discursos de Jesus. O evangelista Marcos é contundente: Jesus só falava ao povo por parábolas! Esta observação do evangelista nos obriga a analisar com cuidado todos os discursos de Jesus, principalmente, quando identificamos o público alvo da mensagem: “E sem parábolas nunca lhes falava; porém, tudo declarava em particular aos seus discípulos” (Mc 4:34).

Se o discurso de Jesus tem como público a multidão, os escribas ou os fariseus, provavelmente, haverá uma parábola ou um enigma a ser interpretado.

Se o discurso tem os discípulos como público alvo, faz-se necessário analisar se Jesus falou abertamente ou expôs uma parábola: “E ele disse-lhes: a vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora, todas estas coisas se dizem por parábolas” (Mc 4:11).

Para fixar o que foi exposto, faça a seguinte análise: leia o capítulo 13 de Mateus, analise a mensagem de Jesus e qual era o público alvo. O discurso é uma parábola? Jesus estava falando com os discípulos, os escribas, os fariseus, os pecadores, a multidão? Seria possível compreender a mensagem de Jesus, sem a explicação que foi dada em particular aos discípulos?

O evangelista Mateus, assim como Marcos, deixou registrado que Jesus nada dizia à multidão, sem fazer uso de parábolas e, em seguida, apresenta o motivo: “Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão e nada lhes falava sem parábolas. Para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta, que disse: Abrirei em parábolas a minha boca; Publicarei coisas ocultas, desde a fundação do mundo” (Mt 13:34-35); “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” (Sl 78:2); “Inclinarei os meus ouvidos a uma parábola; declararei o meu enigma na harpa” (Sl 49:4).

Através da explicação do evangelista Mateus, conclui-se que o Salmo 78 não se refere ao salmista, antes que o Salmo é uma predição que aponta para o Messias. O salmista predisse que o Messias abriria a boca propondo parábolas e enigmas: “Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade” (Sl 78:2 compare com Mt 13:35).

Atentar para o público alvo da mensagem é de tamanha importância para a compreensão da mensagem, que até os discípulos questionaram se a mensagem era para todos, ou só para eles: “E disse-lhe Pedro: Senhor, dizes essa parábola a nós, ou também a todos?” (Lc 12:41).

Diante do que foi exposto, o leitor deve considerar se o que foi dito no Sermão da Montanha é um discurso ‘aberto’, ou se o discurso é uma grande parábola composta de enigmas e símiles, tendo em vista o público alvo tratar-se de uma multidão.

Certa vez, Deus mandou Moisés reunir os filhos de Israel ao pé do Monte Sinai para quando Deus falasse com Moisés, eles também pudessem ouvir. Quando o povo viu o monte fumegando, trovões e relâmpagos, se retiram do local onde deviam ficar reunidos e disseram a Moisés: “Fala tu conosco e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos” (Ex 20:18-21).

O povo ficou com medo de morrer quando vislumbraram a glória do Altíssimo, evidenciando o quanto eram rebeldes, incrédulos e descrentes. Tremenda injustiça não confiar naquele que é imutável e que não mente, ao que Moisés disse: “Não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, afim de que não pequeis” (Ex 20:20).

Deus se relaciona com o homem através da sua fidelidade, e o homem pela confiança, portanto, não pode ter medo de Deus. Deus somente estava colocando eles à prova, para apresentar a sua palavra (temor) para que não pecassem contra o Senhor.

O contexto da lei era para instruir o povo judeu em justiça, mas, dali em diante, Deus continuou enviando os seus santos profetas que utilizavam parábolas e enigmas. Jesus veio com o mesmo propósito: revelar Deus aos homens, por isso utilizou as mesmas figuras e parábolas anunciadas pelos profetas.

As parábolas e os enigmas serviam para facilitar a compreensão, mas os filhos de Israel rejeitavam a doutrina de Jesus “E com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender” (Mc 4:33).

Portanto, para uma boa interpretação do Sermão da Montanha é imprescindível essa análise inicial!

 

Divisões e títulos

As Bíblias oferecem o recurso de divisões em capítulos e versículos para facilitar a localização e citação de determinadas passagens, desde o Século XIII[2]. Embora úteis à localização e indicação de uma citação, não faz parte do original, portanto, o leitor não pode se pautar nessas divisões e subdivisões para determinar quando inicia ou encerra um assunto ou argumento.

Hoje, além das divisões em capítulo e versículo, introduziram títulos e subtítulos que, invariavelmente, influencia a leitura, ou acaba sugerindo ao leitor uma mudança de assunto ou desmembramento do discurso.

O palavra de Jesus no Sermão da Montanha é una e coesa, com começo meio e fim. Com a introdução de divisões, subdivisões, títulos e subtítulos, a ideia inicial que se tem é de que se trata de um discurso fragmentado, que aborda diversos temas, portanto, sem coesão.

A concepção de que Jesus aborda diversas questões ao longo do Sermão da Montanha é totalmente perniciosa para uma boa interpretação do discurso.

 

As bem-aventuranças

“1 E JESUS, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos;

2 E, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo:

3 Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;

4 Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;

5 Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;

6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;

7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;

8 Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;

9 Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;

10 Bem-aventurados os que sofrem perseguição, por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus;

11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa.

12 Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas, que foram antes de vós” (Mateus 5:1-12).

 

Após subir em um monte, por causa da multidão, Jesus assentou-se –  ação que indicou a todos que iria ensinar – quando se aproximaram dele os seus discípulos (Lc 4:20).

Jesus iniciou o seu discurso apresentando nove características essenciais aos bem-aventurados: pobres de espírito, tristes, mansos, famintos e sedentos de justiça, misericordiosos, puros de coração, pacificadores, perseguidos por causa da justiça e injuriados (Mt 5:3-11).

Todas estas características decorrem de parábolas e figuras utilizadas pelos profetas do Antigo Testamento, portanto, registradas nas Escrituras, ou seja, Jesus não inventou nenhuma delas.

‘Pobre de espírito’ é uma figura que remete a uma peculiaridade do bem-aventurado, assim como triste, manso, faminto e sedento de justiça, etc. É impossível ser manso e não ser pacificador. As peculiaridades do bem-aventurado são indissociáveis, pois os pobres de espírito também são identificados como aqueles que choram, ou que tem sede e fome de justiça, ou por serem puros de coração, ou por serem mansos, etc.

Considerando alguns aspectos do ministério de Jesus e o que foi anunciado pelos profetas, conclui-se que as bem-aventuranças anunciadas não visavam questões de cunho social. É um equívoco considerar que a bem-aventurança anunciada por Jesus, visava alcançar os pobres e marginalizados do seu tempo.

Quando Jesus anunciou as Bem-aventuranças, na verdade estava fazendo referência às profecias incrustadas nas Escrituras, ou seja, utilizou alguns elementos principais das profecias, como sujeito da promessa, para fazer o povo lembrar das promessas que apontavam um tempo de refrigério pela presença do Messias (At 3:19-20).

Como Deus anunciou a Abraão, que, em sua descendência, seriam benditas todas as famílias da terra (At 3:25), e essa promessa foi reiterada diversas vezes pelos profetas, e foram utilizados diversos recursos como figuras, parábolas, enigmas, símiles, etc., portanto, uma simples referência fez com que o povo se lembrasse das beatitudes decorrentes da presença do Cristo.

A abordagem de Cristo no Sermão da Montanha não possui viés socioeconômico ou de reestruturação política, pois a bem-aventurança anunciada no discurso decorre da promessa feita a Abraão, que Deus cumpriu quando ressuscitou o Senhor Jesus Cristo dentre os mortos.

 

Quem são os pobres de espírito?

“Porque a minha mão fez todas estas coisas e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito e que treme da minha palavra” (Is 66:2; Is 57:15).

Segundo o profeta Isaias, o ‘pobre’, o ‘abatido’ ou o ‘humilde’ de espírito é aquele que obedece (treme) a palavra de Deus. Ao dizer: “Bem-aventurados os pobres de espírito”, Jesus está anunciado que Deus é favorável (olharei) àqueles que Lhe obedecem (Mt 7:24).

Aquele que obedece (inclina o ouvido) o mando de Deus alcança vida, pois lhe é concedido por Deus as firmes beneficências prometidas a Davi: o Cristo, o reino dos céus: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim; ouvi e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” (Is 55:3; Mt 10:7).

O que Deus prometeu a Davi? Um descendente! A aliança eterna de Deus com os que inclinam os ouvidos (atende, obedece) é conceder o Cristo, o Filho de Davi, poderosa salvação na casa (descendência) de Davi (Lc 1:69).

Através da definição dada pelo profeta Isaias, é possível compreender quem são os pobres de espírito, quesito essencial para compreender o símile: “Bem-aventurado os pobres de espírito…”, visto que Jesus nunca falava abertamente ao povo, somente por parábolas (Mt 13:34).

Através do profeta Isaias verifica-se que Jesus não está tratando de questões sociais, políticas ou econômicas. Na verdade, Ele está tratando, tanto com pessoas ricas, quanto com pessoas pobres, do ponto de vista econômico, tanto com servos, quanto com reis, do ponto de vista social, tanto sábios, quanto com ignorantes, do ponto de vista cultural (Sl 49:2), para que reconheçam, através da mensagem de Cristo, que são miseráveis, necessitados, pobres.

A miserabilidade socioeconômica não dá ao homem a condição de pobre, abatido ou humilde diante de Deus. Deus reconhece o homem como pobre, abatido ou humilde, quando o homem se submete a Ele na condição de servo, ou seja, obediente. É humilde, ou antes, se humilha aquele que deixa de se guiar pela vaidade dos seus pensamentos e que se apresenta diante de Deus, na condição de servo, para obedecê-lo.

Neste ponto, o evangelho não se propõe a sujeitar o homem a Deus, através de ritos, leis e formas impostos pela religião. O evangelho não se propõe a controlar a existência do homem em sociedade, quanto ao que comer, beber, vestir, casar, procriar, comprar, vender, trabalhar, etc., antes, em que o homem creia que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, que havia de vir ao mundo.

O humilde de espírito, no advento da Nova Aliança, é aquele que se sujeita à seguinte ordenança de Deus:

“E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

Príncipes, cavalos, cavaleiros, força, violência, braço, etc., são figuras utilizadas pelos profetas para apontar os soberbos, altivos, ricos, abastados, etc. (Sl 49:13), mas, qualquer que confia no Senhor, é descrito como oprimido, faminto, pobre, abatido, etc., figuras utilizadas pelos profetas para propor símiles e compor parábolas (Sl 146).

Não há ninguém (rico ou pobre, judeu ou gentil) que possa dar o resgate por sua própria alma ou de outrem (Sl 49:6-8). Todos os homens necessitam da salvação providenciada por Deus, portanto, todos precisam de reconhecer que são necessitados. Os judeus, por sua vez, não reconheciam que eram necessitados, pobres, etc., antes se comportavam como ricos, abastados, etc., pois se vangloriavam da descendência (somos filhos de Abraão), se vangloriavam da carne (circuncisão) e se vangloriavam da lei (Moisés).

Quem obedece a Deus, se posiciona diante d’Ele, na condição de humilde, necessitado e pobre, portanto, é agradável ao Senhor, como fez o publicano:

“O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Lc 18:13); “O SENHOR se agrada dos que o temem e dos que esperam na sua misericórdia” (Sl 147:11; Mt 9:13).

‘Esperar’ na misericórdia, significa ‘confiar’. Para o homem alcançar a misericórdia de Deus, basta obedecê-Lo. Quando o homem obedece a Deus, demonstra, efetivamente, que espera em Deus, ou seja, que confia na sua palavra, que diz: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6).

 

Quem são os que choram?

“A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes. A ordenar acerca dos tristes de Sião, que se lhes dê glória, em vez de cinza, óleo de gozo, em vez de tristeza, vestes de louvor, em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do SENHOR, para que ele seja glorificado” (Is 61:2-3).

Quando é dito que os tristes são bem-aventurados, os ouvintes de Jesus deveriam lembrar-se da promessa de alegria registrada pelo profeta Isaias aos tristes!

A expressão ‘os tristes’ bem-aventurados, não possui relação com o sentimento de desilusão, frente aos infortúnios da vida e nem decorre da ebulição das emoções a que todos homens estão sujeitos.

Os ‘tristes’ enquanto figura que compõe um quadro profético, tem conexão com o advento do Messias, que, segundo o profeta Isaías, foi ungido para apregoar boas novas nos seguintes termos: a tristeza é substituída por glória, gozo e louvor com o objetivo de Deus ser glorificado (Ef 1:12).

O anúncio da bem-aventurança dos que choram indica a chegada do tempo de refrigério (salvação). A mensagem de boas novas anunciada por Cristo aos pobres era para possibilitar aos seus ouvintes elementos para que identificassem, pelas Escrituras, o reino de Deus, em meio aos homens: Cristo. “Respondendo, então, Jesus, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: que os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho” (Lc 7:22).

Ao dizer ‘Bem-aventurados os tristes…’, Jesus estava dando a entender que a profecia de Isaias naquele dia se cumpriu nos ouvidos dos que ali estavam e produziria refrigério naqueles que dessem crédito: “Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” (Lc 4:21); “O ESPÍRITO do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos pobres; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; A apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes” (Is 61:1-2); “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e para vivificar o coração dos contritos” (Is 57:15).

Os tristes bem-aventurados são os quebrantados, o mesmo que contritos de espírito “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado e salva os contritos de espírito” (Sl 34:18; Sl 51:17). O ‘quebrantado’ é aquele que deixa de ser ‘altivo’ e se faz ‘servo’, ou seja, obedece ao mandamento de Deus, que, na nova aliança, é crer em Cristo: “A minha alma está quebrantada de desejar os teus juízos em todo o tempo” (Sl 119:20).

 

Quem são os mansos?

“Guiará os mansos em justiça e aos mansos ensinará o seu caminho” (Sl 25:9; Mt 11:29).

Os mansos são aqueles que se deixam instruir como as crianças e aprendem de Cristo: o humilde e manso de coração. Os mansos são os humildes de espírito e vice-versa: “Melhor é ser humilde de espírito com os mansos, do que repartir o despojo com os soberbos” (Pv 16:19).

O Senhor convida os ‘meninos’ à instrução (Sl 34:11), não os ‘tolos’, porque diferente do tolo, a criança se deixa instruir. O mesmo Senhor, em outra passagem, diz: “Eis-me aqui, com os filhos que me deu o SENHOR, por sinais e por maravilhas em Israel, da parte do SENHOR dos Exércitos, que habita no monte de Sião” (Is 8:18); “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do SENHOR” (Sl 34:11); “Ainda que repreendas o tolo como quem bate o trigo com a mão de gral entre grãos pilados, não se apartará dele a sua estultícia” (Pv 27:22); “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela” (Pv 22:15).

Daí o imperativo: “Em verdade vos digo que, qualquer que não receber o reino de Deus como menino, não entrará nele” (Lc 18:17).

Os mansos são os que obedecem a Deus, ou seja, que põem por obra o seu mandamento: “Buscai ao SENHOR, vós todos os mansos da terra, que tendes posto por obra o seu juízo; buscai a justiça, buscai a mansidão; pode ser que sejais escondidos no dia da ira do SENHOR” (Sf 2:3).

 

Quem são os que tem fome e sede de justiça?

“E será para nós justiça, quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos perante o SENHOR nosso Deus, como nos tem ordenado” (Dt 6:25).

Aquele que se acorrenta a uma árvore defendendo uma causa ecológica? Quem abraça uma causa social? Que levanta uma bandeira à não beligerância? Não!

Na verdade, tem fome e sede de justiça aquele que anseia por obedecer ao mandamento de Deus, pois está escrito: Se cuidar em cumprir o mandamento como foi ordenado é justiça, ou seja, quem anseia por justiça é aquele que obedece, tem ‘fome’ e ‘sede’ de cuidar em cumprir como foi ordenado!

Quem tem fome e sede e justiça crê no enviado de Deus, pois este é o seu mandamento: “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29); “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3:23).

É no evangelho que se descobre a justiça de Deus, e somente nele é possível ao homem que tem sede e fome de justiça ser saciado!

A fome e a sede são figuras que remetem ao pobre, ao necessitado de espírito. O órfão, a viúva e o estrangeiro também são figuras que remetem aos necessitados, aos pobres de espírito, aqueles a quem Deus toma por filhos “Pai de órfãos e juiz de viúvas é Deus, no seu lugar santo” (Sl 68:5).

Deus fartará os necessitados, segundo a promessa que foi feita a Davi: o Cristo, como bem reitera o profeta no Salmo 132:

“O SENHOR jurou com verdade a Davi e não se apartará dela: Do fruto do teu ventre porei sobre o teu trono. Se os teus filhos guardarem a minha aliança e os meus testemunhos, que eu lhes hei de ensinar, também os seus filhos se assentarão perpetuamente no teu trono. Porque o SENHOR escolheu a Sião; desejou-a para a sua habitação, dizendo: Este é o meu repouso para sempre; aqui habitarei, pois o desejei. Abençoarei abundantemente o seu mantimento; fartarei de pão os seus necessitados” (Sl 132:11-15).

 

Quem são os misericordiosos?

“Saberás, pois, que o SENHOR teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia, até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Dt 7:9)

As pessoas que nutrem um sentimento de dor e de solidariedade em relação a alguém que sofre uma tragédia pessoal ou que caiu em desgraça? Dó? Compaixão? Piedade?

Quando Saul desobedeceu a Deus e deixou de eliminar Agague, rei dos amalequitas, bem como, o melhor do interdito, o que foi que Deus disse? Obedecer é melhor do que sacrificar, ou seja, melhor era exterminar todos os amalequitas que apresentar a Deus bois e ovelhas! (1Sm 15:22).

Essa passagem bíblica de Saul evidencia que a misericórdia de Deus decorre da obediência à Sua palavra, e não a um sentimento de solidariedade, compaixão ou piedade “Todas as veredas do SENHOR são misericórdia e verdade para aqueles que guardam a sua aliança e os seus testemunhos” (Sl 25:10).

Quando poupou a vida de Agague, Saul não exerceu misericórdia. Ele estava sendo misericordioso, enquanto estava exterminando os amalequitas, estava cumprindo o mandamento de Deus, que diz: Misericórdia quero! “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Os 6:6).

Deus deixa claro a quem a sua misericórdia e amor é direcionado: “E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos” (Êx 20:6), ou seja: “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17).

A misericórdia de Deus é só para os que O obedecem, portanto, os ‘misericordiosos’ bem-aventurados, que alcançam misericórdia, são os que ‘amam’ a Deus, ou seja, que O obedecem.

Deus já havia instruído Israel, quando disse a Moisés que teria misericórdia de quem Ele tivesse misericórdia, um trocadilho para evidenciar que Deus tem misericórdia dos que O obedecem.

Os que obedecem a Deus são recebidos como filhos, portanto, são nomeados misericordiosos, assim como o Pai Celeste é misericordioso.

A misericórdia de Deus foi evidenciada a todos os homens, inclusive aos gentios, na pessoa do seu Filho – Jesus Cristo – entretanto, os desobedientes, iníquos e pérfidos não estão sob o abrigo da misericórdia de Deus: “Tu, pois, ó SENHOR, Deus dos Exércitos, Deus de Israel, desperta para visitares todos os gentios; não tenhas misericórdia de nenhum dos pérfidos que praticam a iniquidade. (Selá.)” (Sl 59:5).

 

Quem são os limpos de coração?

“Tal é a geração daqueles que o buscam, daqueles que buscam a tua face, ó Deus de Jacó” (Sl 24:6).

O Salmo 24 tem resposta para essa pergunta!

Os limpos de coração são aqueles que buscam a face do Senhor, ou seja, os gerados de novo da semente incorruptível (1Pd 1:23). É através do novo nascimento que o homem se torna geração do Senhor, portanto, limpo de coração, tal qual Ele é neste mundo “Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” (1Jo 4:17).

São limpos de coração, porque foram circuncidados pelo Pai celeste! Através da circuncisão de Cristo o coração de pedra é extraído e Deus concede um novo coração de carne limpo: “E dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 36:26).

É através da aspersão da água pura, pelo Espírito Eterno, que o homem alcança um coração novo e limpo, ou seja, o homem nasce de novo da água e do Espírito, pois Deus diz: “Então aspergirei água pura sobre vós e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” (Ez 36:25).

Os que creem veem a salvação de Deus, pois Deus se manifestou ao mundo na pessoa do seu Filho (Jo 1:18), pois Cristo veio revelar o Pai aos homens: “E pôs um novo cântico na minha boca, um hino ao nosso Deus; muitos o verão e temerão e confiarão no SENHOR” (Sl 40:3); “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14:21); “E a glória do SENHOR se manifestará e toda a carne juntamente a verá, pois a boca do SENHOR o disse” (Is 40:5); “O SENHOR desnudou o seu santo braço, perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” (Is 52:10).

É através do resplendor do rosto de Cristo – o Senhor que escondeu a sua face da casa de Israel – que o homem é salvo: “Faze-nos voltar, ó Deus, e faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos” (Sl 80:3); “Esconderei, pois, totalmente, o meu rosto naquele dia, por todo o mal que tiver feito, por se haverem tornado a outros deuses” (Dt 31:18); “E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó e a ele aguardarei” (Is 8:17).

 

Quem são os pacificadores?

“Ah! se tivesses dado ouvidos aos meus mandamentos, então seria a tua paz como o rio e a tua justiça como as ondas do mar!” (Is 48:18).

Qualquer que dá ouvidos (crédito, obedece) ao mandamento de Deus é pacificador!

Aquele que se deixa instruir pelo Senhor Jesus, que é manso e humilde de coração, cumpre o mandamento de dar ouvidos ao anunciado por Deus, portanto, são filhos ensinados do Senhor, e a paz deles é abundante: “E todos os teus filhos serão ensinados do SENHOR; e a paz de teus filhos será abundante” (Is 54:13); “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11:29).

O termo grego ειρηνοποιος, traduzido por ‘pacificador’, significa ‘que ama a paz’, ou seja, que honra, que obedece a paz, e Cristo é a nossa paz (Ef 2:14). Cristo concede filiação divina a todos os que O recebem: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” (Jo 1:12); “Aparta-te do mal e faze o bem; procura a paz e segue-a” (Sl 34:14).

Cristo é o tema da mensagem de paz anunciada pelos ‘pacificadores’: paz para os que estão longe (gentios) e paz para os que estão perto (judeus): “Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” (Is 57:19); “Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio” (Ef 2:13-14); “Escutarei o que Deus, o SENHOR, falar; porque falará de paz ao seu povo, e aos santos, para que não voltem à loucura” (Sl 85:8); “Muita paz tem os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço” (Sl 119:165).

Aqueles que têm fome e sede de justiça são pacificadores, pois Deus diz: “Até que se derrame sobre nós o espírito lá do alto; então o deserto se tornará em campo fértil e o campo fértil será reputado por um bosque. E o juízo habitará no deserto, e a justiça morará no campo fértil. E o efeito da justiça será paz, e a operação da justiça, repouso e segurança para sempre” (Is 32:15-17); “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” (Is 26:12).

 

A quem pertence o reino dos céus?

“E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2Tm 3:12)

O reino dos céus pertence a todos quantos sofrem perseguição, por causa da justiça, ou seja, do evangelho de Cristo. Todos quantos são injuriados e perseguidos, ou que, mentindo, disserem em desfavor deles toda sorte de mal, são bem-aventurados por causa de Cristo: “Mas também, se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados” (1Pd 3:14-16).

As bem-aventuras decorrem de Cristo, pois Ele é a justiça de Deus e o rei estabelecido para reinar em Sião: “Eu, porém, ungi o meu Rei, sobre o meu santo monte de Sião. Proclamarei o decreto: o SENHOR me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Sl 2:6-7); “Porque o trono se firmará em benignidade, e sobre ele, no tabernáculo de Davi, se assentará, em verdade, um que julgue e busque o juízo e se apresse a fazer justiça” (Is 16:5); “EIS que reinará um rei com justiça e dominarão os príncipes segundo o juízo” (Is 32:1); “Justiça e juízo são a base do teu trono; misericórdia e verdade irão adiante do teu rosto” (Sl 89:14; Sl 97:2; Sl 98:2).

Cristo é o louvor e a mão direita (destra) de Deus cheia (plena) de justiça, o santo braço desnudado perante todos os povos: “Segundo é o teu nome, ó Deus, assim é o teu louvor, até aos fins da terra; a tua mão direita está cheia de justiça” (Sl 48:10); “Do aumento deste principado e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar com juízo e com justiça, desde agora e para sempre; o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto” (Is 9:7); “Perto está a minha justiça, vem saindo a minha salvação e os meus braços julgarão os povos; as ilhas me aguardarão e no meu braço esperarão” (Is 51:5); “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça e paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14:17).

Quando anunciou as beatitudes, Jesus fez uso de algumas figuras utilizadas pelos profetas da Antiga Aliança, que fazem referência àqueles que obedecem a Deus.

Pobres, tristes, mansos, famintos e sequiosos de justiça, misericordiosos, limpos de coração, pacificadores, perseguidos, são figuras que remetem aos obedientes.

As beatitudes são um anúncio de que as profecias das Escrituras estavam se cumprindo.

Observe o que foi profetizado por Isaias:

“E naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro e dentre a escuridão, dentre as trevas, os olhos dos cegos as verão. E os mansos terão gozo sobre gozo no SENHOR; e os necessitados entre os homens se alegrarão no Santo de Israel. Porque o tirano é reduzido a nada e se consome o escarnecedor e todos os que se dão à iniquidade são desarraigados; Os que fazem culpado ao homem por uma palavra e armam laços ao que repreende na porta e os que sem motivo põem de parte o justo. Portanto, assim diz o SENHOR, que remiu a Abraão, acerca da casa de Jacó: Jacó não será agora envergonhado, nem agora se descorará a sua face. Mas, quando ele vir seus filhos, obra das minhas mãos no meio dele, santificarão o meu nome; sim, santificarão ao Santo de Jacó e temerão ao Deus de Israel. E os errados de espírito virão a ter entendimento e os murmuradores aprenderão doutrina” (Is 29:18-24).

Jesus Cristo é o Senhor que foi convidado a se assentar à destra da Majestade nas alturas (Sl 110:1), a quem os filhos de Israel deveriam santificar o nome, conforme profetizou Isaias e o apóstolo Pedro evidenciou ao falar da perseguição que sofre os que seguem a Cristo: “Mas também, se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados. E não temais com medo deles, nem vos turbeis; Antes, santificai ao SENHOR Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1Pe 3:14-15); “Não chameis conjuração a tudo quanto este povo chama conjuração; e não temais o que ele teme, nem tampouco vos assombreis. Ao SENHOR dos Exércitos, a Ele santificai; e seja Ele o vosso temor e seja Ele o vosso assombro” (Is 8:12-13).

É impossível alguém ser manso e não ser misericordioso ou ter o coração limpo e não ser pacificador, pois as beatitudes são características que remetem à pessoa que ouve a doutrina de Cristo e a pratica (Mt 7:24). Todas essas figuras se complementam e remetem àqueles que se sujeitam a Deus, como servo, crendo em Cristo como o enviado de Deus.

Os profetas utilizaram essas figuras para anunciarem a vinda do Cristo, pois Cristo é a base da nova aliança, perpétua, estabelecida por Deus com os povos, segundo o que foi prometido a Davi: um Renovo justo, o rebento da raiz de Jessé, o Descendente, etc., sendo que todos os profetas da Antiga Aliança foram perseguidos por falarem a seus compatriotas dessa Nova Aliança: “Inclinai os vossos ouvidos e vinde a mim; ouvi e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” (Is 55:3; Jr 31:31-34; Hb 8:13).

Os profetas, ao darem testemunho de Cristo, utilizaram as mesmas figuras que Cristo empregou, quando anunciou as beatitudes. Os profetas da Antiga Aliança somente sabiam (porque foi revelado a eles), que o que ministravam não pertencia a Israel e por isso se questionavam sobre o tempo, ou ocasião de tempo, que se dariam as maravilhas anunciadas (1Pe 1:10 -12).

Esta é a essência do Sermão da Montanha:

“E dizendo: O tempo está cumprido e é chegado o reino de Deus. Arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1:15).

No Sermão da Montanha, Jesus revela ao povo, através das figuras utilizadas pelos profetas, que o tempo de refrigério que constava nas Escrituras foi inaugurado pela presença do reino de Deus em meio aos homens – Cristo – que anunciava o reino dos céus, um reino que não era desse mundo: “Ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e este é o refrigério; porém não quiseram ouvir” (Is 28:12); “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados e venham, assim, os tempos do refrigério pela presença do SENHOR” (At 3:19).

O que aquela multidão esperava? O que foi ensinado pelos escribas e fariseus: que o reino de Israel seria restaurado com a vinda do Messias! Para os judeus, profecias como a de Joel: “PORQUE, eis que naqueles dias e naquele tempo, em que removerei o cativeiro de Judá e de Jerusalém” (Jo 3:1), se cumpriria com o advento do Cristo.

Mas, não foi o que ocorreu, pois a restauração prevista nas Escrituras não era primeiramente nacional, mas sim, para os gentios, para que se cumprisse a bem-aventurança prometida a Abraão, que diz: “… e em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:3); “E, respondendo ele, disse-lhes: Em verdade, Elias virá primeiro, e todas as coisas restaurará; e, como está escrito do Filho do homem, que ele deva padecer muito e ser aviltado” (Mc 9:12).

Quando anunciou que faria casa (descendência) a Davi, Deus anunciou que o Descendente de Davi edificaria uma casa a Deus e, em seguida, prometeu que estabeleceria o trono do descendente dado a Davi para sempre.

Como Deus não habita em casa feita por mãos de homens, o Descendente prometido a Davi – Cristo – está a edificar a Sua Igreja como templo santo ao Senhor, do qual todos os que creem se constituem ‘pedras vivas’ edificadas sobre a pedra angular, para morada de Deus em Espírito.

Somente após o advento da igreja, quando se dará o encerramento do tempo dos gentios, que será restaurado o reino prometido a Israel (1Sm 7:13). O povo de Israel estava tão fixo na promessa de restauração do reino de Israel, que se esqueceu de que havia uma promessa a Abraão, acerca de todas as famílias da terra.

Quando Jesus veio, João Batista o precedeu – o Elias – e a restauração implementada não era de um reino visível, mas, sim, de um reino que não era deste mundo, do qual todos os que creem em Cristo, não importando a nação, podem ser participantes.

Mas, como mudar a concepção de um povo que estava fito na promessa: “À tua semente darei esta terra” (Gn 12:7), e não dava ouvidos à voz de Deus, para que o juramento feito aos pais fosse confirmado? (Jr 11:4-5). Como mudar a concepção de um povo que, por circuncidar o prepúcio da carne, mas não deixava Deus circuncidar o coração, achava que era melhor que as nações vizinhas? (Jr 9:26) Como mudar o entendimento de um povo que tinha a lei de Moisés chegada à boca, mas longe do coração? (Jr 12:2; Is 29:13).

A mensagem do Sermão do Monte visa produzir uma mudança de concepção (metanóia) no povo, por isso, Jesus não deu testemunho abertamente de Si mesmo, dizendo: “Eu sou o Cristo”, antes, teve que anunciar por parábolas e símiles o testemunho que Deus deu acerca do Filho do homem. Os filhos de Israel deveriam comparar a doutrina de Cristo com as Escrituras e reconhecer que Jesus era o enviado de Deus, por conseguinte, reconhecendo Cristo como o Filho de Davi, estariam crendo no testemunho de Deus “Jesus lhes respondeu, e disse: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo” (Jo 7:16-17).

Enquanto o povo aguardava o reino messiânico, Jesus – o Renovo Justo prometido a Davi – se apresenta como a justiça, pela qual os seus seguidores seriam perseguidos e injuriados: “Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente e praticará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias Judá será salvo e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA” (Jr 23:5-6).

Nas entrelinhas, Jesus se revela como a justiça, que dá direito ao reino dos céus, e qualquer perseguido por causa d’Ele seria recompensado: “Não rejeiteis, pois, a vossa confiança, que tem grande e avultado galardão” (Hb 10:35), mas, a multidão pensava, equivocadamente, que o reino estava na iminência de se manifestar, quando Jesus chegou próximo de Jerusalém. Por causa da cegueira espiritual, não perceberam que o reino de Deus já estava manifesto: “E, ouvindo eles estas coisas, ele prosseguiu e contou uma parábola; porquanto estava perto de Jerusalém, e cuidavam que logo se havia de manifestar o reino de Deus” (Lc 19:11).

A causa de Cristo é a causa da justiça e todos que seguirem a Cristo serão perseguidos e injuriados, do mesmo modo que os profetas foram perseguidos: “E neste teu esplendor cavalga prosperamente, por causa da verdade, da mansidão e da justiça; e a tua destra te ensinará coisas terríveis” [assombrosas] (Sl 45:4).

 

As similitudes

“13 Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens.

14 Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte;

15 Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador e dá luz a todos os que estão na casa.

16 Assim, resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 5:13-16).

A leitura que se faz das similitudes deve ser extensão das beatitudes, portanto, o entendimento de que as ‘figuras’ (sal, luz) aplicadas aos discípulos não decorrem das bem-aventuranças, como se o discurso de Jesus fosse estruturado em divisões e subdivisões, como se não fosse coeso e uno, não é uma boa leitura.

Na verdade, as características enumeradas nos versos 3 ao 9: pobre, triste, manso, faminto e sedento por justiça, misericordioso, puro, pacífico, definem os seguidores da doutrina de Cristo, ou seja, aqueles que serão perseguidos e injuriados por causa de Cristo, mas que serão recompensados entrando no reino dos céus.

Vale destacar que Abel foi perseguido por Caim; Isaque foi perseguido por Ismael; Jacó foi perseguido por Esaú, etc., eventos que servem de alegoria, pois com os seguidores de Cristo não é diferente, serão perseguidos por serem filhos da promessa: “Dei-lhes a tua palavra e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo” (Jo 17:14; Gl 4:29).

As características pertinentes aos bem-aventurados descrevem os obedientes, os humildes, os servos, portanto, a obediência a Cristo é o que torna os seus seguidores ‘sal da terra’ e ‘luz do mundo’.

Na lei, estava estabelecido que todas as vezes que fossem ofertados alimentos a Deus, que a oferta deveria ser temperada com sal: “E todas as tuas ofertas dos teus alimentos temperarás com sal; e não deixarás faltar à tua oferta de alimentos o sal da aliança do teu Deus; em todas as tuas ofertas oferecerás sal” (Lv 2:13).

As ofertas de alimentos eram voluntárias, pois Deus nunca requereu holocaustos e sacrifícios dos filhos de Israel, porém, quando, voluntariamente, fossem oferecer algo a Deus, o sal era obrigatório. A oferta era voluntária, mas o sal era obrigatório! Por que? Porque é a obediência que torna o ofertante agradável e aceito por Deus, consequentemente, a oferta será aceita (Gn 4:4-5).

Acrescer sal à oferta demandava obediência por parte do ofertante, uma ordenança para que os filhos de Israel entendessem que Deus quer a obediência, mais que o sacrifício, assim como o fato de os filhos de Israel permaneceram 40 anos no deserto, sendo guiados por Deus, para que entendessem que o homem vive pela palavra de Deus “Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de Israel: Ajuntai os vossos holocaustos aos vossos sacrifícios e comei carne. Porque nunca falei a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios” (Jr 7:21 -22); “E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o SENHOR teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não. E te humilhou,  te deixou ter fome e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt 8:2-3; Sl 50:9; Mq 6:6-7).

Vale destacar que Deus se agrada da obediência, pois obedecer é melhor que o sacrifício “Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1Sm 15:22).

A ordenança acerca do sal demonstra que a obediência é superior ao sacrifício, pois a aliança é selada pela obediência e o homem aceito por Deus, porém, através do sacrifício ninguém é aceito por Deus.

O profeta Miquéias ilustra essa questão:

“Com o que me apresentarei ao SENHOR e me inclinarei diante do Deus altíssimo? Apresentar-me-ei diante dele com holocaustos, com bezerros de um ano? Agradar-se-á o SENHOR de milhares de carneiros, ou de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu ventre pelo pecado da minha alma? Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça e ames a benignidade e andes humildemente com o teu Deus?” (Mq 6:6-8).

A determinação para acrescer sal ao alimento ofertado remetia o ofertante a não se esquecer de, diligentemente, guardar a aliança. Toda ação voluntariosa em apresentar a Deus oferta, holocausto, sacrifício, etc., no momento de adicionar sal, o ofertante estava sendo instruído sobre o que Deus realmente requer do homem: obediência: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha” (Êx 19:5); “Disse, mais, o SENHOR a Moisés: Escreve estas palavras; porque conforme ao teor destas palavras tenho feito aliança contigo e com Israel” (Êx 34:27).

Assim como o sal era imprescindível à oferta de alimentos, a obediência é imprescindível ao homem, para estar sob a proteção da aliança. O que preserva o homem é a aliança estabelecida por Deus e não uma oferta, mesmo que temperada com sal.

O ‘sal’ que o ofertante não deveria deixar faltar ao sacrifício era a obediência à aliança estabelecida por Deus, o que refletiria no ato ímpar de não se esquecer de acrescentar sal à oferta.

Exemplo vivo de obediência encontramos nos patriarcas, pois foi a aliança de Deus que preservou Noé durante o dilúvio (Gn 6:18), que, sendo justo, sujeitou-se à ordem de Deus para construir uma arca e se abrigar nela. Quando entrou na arca que construíra sob ordem de Deus, Noé honrou a aliança, o que demonstra a sua plena confiança em Deus: “Portanto, diz o SENHOR Deus de Israel: Na verdade, tinha falado eu que a tua casa e a casa de teu pai andariam diante de mim, perpetuamente; porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados” (1Sm 2:30).

De nada serviria o trabalho árduo de construir a arca e aguentar a oposição dos pecadores, se no momento em que Deus ordenasse a Noé entrar na arca, ele deixasse de entrar sob o argumento de que Deus era poderoso para preservá-lo, mesmo fora da arca.

Deus ordenou a Abraão que saísse de sua parentela, sob a promessa de que seria grandemente recompensado. Abraão obedeceu ao Senhor (Gn 12:4) e Deus firmou uma aliança com juramento (Gn 26:4-5). Abraão foi escolhido para ordenar os seus filhos e a sua casa para obedecerem a Deus, pois só quando o homem honra a Deus como Senhor e Pai é que se alcança a bênção de Deus, contida na promessa (Gn 18:19).

Já os filhos de Israel desprezaram a aliança e foram levados cativos, ou seja, não foram ‘preservados’, porque não permaneceram sob a aliança (Ex 6:4: Jz 2:20-22; Sl 78:10; Jr 11:8; Jr 31:32).

O sacrifício do qual Deus se agrada, é um espírito quebrantado, ou seja, um coração contrito, obediente à palavra de Deus, portanto, o ofertante não poderia esquecer o sal da aliança, ou seja, de obedecer: “E todas as tuas ofertas dos teus alimentos temperarás com sal; e não deixarás faltar à tua oferta de alimentos o sal da aliança do teu Deus; em todas as tuas ofertas oferecerás sal” (Lv 2:13).

Quando foi dito: “Vós sois o sal da terra…”, Jesus estava apontando para os seus discípulos e dizendo: “Vocês são os que obedecem a Deus na terra”! “Vocês ouviram as minhas palavras e as praticam”! (Mt 7:24)

Quando foi dito: “e se o sal for insípido, com que se há de salgar?”, temos uma breve alusão aos desobedientes – à nação de Israel. Como não obedeceu à aliança, a nação de Israel foi rejeitada e lançada fora, uma alusão à dispersão de Israel, quando perdeu a proteção de Deus e passou a ser governada pelos gentios: “E persegui-los-ei com a espada, com a fome e com a peste; e dá-los-ei para deslocarem-se por todos os reinos da terra, para serem uma maldição, um espanto, um assobio e um opróbrio entre todas as nações para onde os tiver lançado” (Jr 29:18; Hb 4:6 e 11;1Pd 2:8).

Com relação aos sacerdotes, por estatuto Deus deu todas as ofertas dos filhos de Israel a eles, visto que não possuíam possessão de terra e nem herdade, a não ser o próprio Deus (Nm 17:20). Essa aliança estabelecida com os sacerdotes foi chamada de ‘aliança perpétua de sal’, ou seja, que Deus havia dado as coisas santas ofertadas pelos filhos de Israel para preservá-los: “Todas as ofertas alçadas das coisas santas, que os filhos de Israel oferecerem ao SENHOR, tenho dado a ti e a teus filhos e a tuas filhas contigo, por estatuto perpétuo; aliança perpétua de sal perante o SENHOR é, para ti e para a tua descendência contigo” (Nm 18:19).

Pelas Escrituras, verifica-se que as alianças que Deus fez com os homen, tinham o fito de preservá-los, dando mandamentos para que observassem cuidadosamente. Mas, o cuidado de Deus somente é efetivo sobre a vida dos homens que são obedientes, de modo que, através da obediência, o homem fica sob a aliança.

Deus disse: “Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão” (Pv 8:17), e também: “…porém, agora, diz o SENHOR: Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados” (1Sm 2:30), pois aquele que cumpre o mandamento de Deus – que na Nova Aliança é crer que Jesus é o Filho de Deus – em si mesmo tem sal, como foi dito: “Bom é o sal; mas, se o sal se tornar insípido, com que o temperareis? Tende sal em vós mesmos e paz uns com os outros” (Mc 9:50).

Na palavra de Deus está expresso o cuidado de Deus pelo homem e em obedecê-la, o homem se coloca debaixo da proteção de Deus. O sal representa tanto o cuidado de Deus quanto o dever de obediência, pois onde há mandamento tem que haver obediência.

O cuidado de Deus pela humanidade foi manifesto em Cristo e todo o que crê será salvo. Os apóstolos testemunharam a vinda do Filho de Deus ao mundo e eles testificaram acerca dessa verdade, de sorte que qualquer que também confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus: “Vimos e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo. Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele e ele em Deus” (1Jo 4:14 -15).

Quem crê em Cristo, deve militar pelo evangelho, pois no evangelho se descobre a justiça de Deus – Cristo – ou seja, aquele que crê e anuncia ao mundo o evangelho de Cristo é sal da terra. Se o crente não desempenha a sua função de levar Cristo ao mundo, torna-se insípido e será lançado fora, assim como o sal, quando perde a sua propriedade: “Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto” (Jo 15:2; Lc 14:34-35).

A perseguição por causa do evangelho de Cristo, revela aqueles que são o sal do mundo e a luz do mundo. A perseguição por causa do evangelho vem somente sobre aqueles que levam a preciosa semente incorruptível: “Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina!” (Is 52:7).

Os pacificadores são filhos de Deus e, como filhos da Luz, são luz no Senhor, portanto, luz do mundo: “Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz. Estas coisas disse Jesus e, retirando-se, escondeu-se deles” (Jo 12:36); “Porque, noutro tempo, éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” (Ef 5:8).

Assim como o sal tem a sua serventia, a luz também. Assim como é impossível esconder uma cidade quando edificada sobre um monte, também é impossível deixar um crente em Cristo camuflado aos olhos do mundo.

Da mesma forma que uma lamparina (candeia) não é colocada debaixo do alqueire (pote, vaso, vasilhame) ou debaixo da cama, mas no velador, assim é com os seguidores de Cristo: são luz que alumiam no mundo que está em densas trevas: “LEVANTA-TE, resplandece, porque vem a tua luz e a glória do SENHOR vai nascendo sobre ti; Porque eis que as trevas cobriram a terra e a escuridão os povos; mas sobre ti, o SENHOR virá surgindo e a sua glória se verá sobre ti. E os gentios caminharão à tua luz e os reis ao resplendor que te nasceu” (Is 60:1-3); “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” (Is 9:2).

Todos os que creem em Cristo são feitos filhos da luz e, por conseguinte, despenseiros de Deus (1Co 4:1-2; 1Pe 4:10), portanto, quando abrem a boca para anunciar o evangelho, faz com que a sua luz brilhe diante dos homens: “E se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita; então, a tua luz nascerá nas trevas e a tua escuridão será como o meio-dia” (Is 58:10); “Atendei-me, povo meu e nação minha, inclinai os ouvidos para mim; porque de mim sairá a lei e o meu juízo farei repousar para a luz dos povos” (Is 51:4).

A boa obra que Jesus ordena ao cristão, para que deixe os homens verem, não se refere ao comportamento do cristão – embora um despenseiro da glória de Deus deva ter um bom comportamento diante dos homens – mas, sim, manifestar ao mundo a boa nova que o Senhor realizou ao manifestar Cristo ao mundo: “O SENHOR trouxe a nossa justiça à luz; vinde e contemos em Sião a obra do SENHOR, nosso Deus” (Jr 51:10); “SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” (Is 26:12).

O bom porte do crente não se refere ao bom perfume de Cristo, que é o mesmo que a boa obra, que se refere ao que Deus realizou: “Jesus respondeu e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29); “E graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo, e por meio de nós manifesta em todo o lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque para Deus somos o bom perfume de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem” (2Co 2:14-15).

É Deus que deu Cristo – a paz – portanto, Ele realizou no crente todas as obras, de modo que, a obra que o mundo vê no crente refere-se ao testemunho que Deus deu acerca do seu Filho Jesus Cristo. Só é luz do mundo aquele que fala segundo a palavra de Deus, ou seja, aquele que anuncia as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz: “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles” (Is 8:20).

A leitura do verso: “Assim, resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5:16), demanda uma compreensão da linguagem judaica, pois ‘obra’ refere-se ao resultado do cumprimento de um mandamento, de modo que crer em Cristo é uma obra.

Jesus mesmo disse: “A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” (Jo 6:29). Qualquer que atenta para o evangelho, a lei perfeita da liberdade, e persevera, ou seja, crê que Jesus é o Filho de Deus, é bem-aventurado, pois executou a obra: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25).

A obra está ligada às palavras que os homens proferem: “Por isso, se eu for, trarei à memória as obras que ele faz, proferindo contra nós palavras maliciosas” (3 Jo 1:10). Portanto, a boa obra que os homens devem ver naqueles que são luz é o anúncio desta verdade:

“Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque, todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” (Jo 3:17:21).

Continua: As bem-aventuranças e o ministério de Jesus Cristo


[1] “Todos iam a Ele para ouvir sobre o Reino; Jesus, em vez disso, falava sobre o estilo de vida daqueles que queriam viver no Reino. 0 Sermão do Monte contém a essência do ensinamento moral e ético de Jesus” O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais — A Palavra de Deus ao alcance de todos. Editores: Earl Radmacher, Ronald B. Allen e H.Wayne House, Editora Central Gospel, Rio de Janeiro: 2010, Pág. 27.

[2] Os judeus utilizavam as letras PE e SAMECH para apontar os parágrafos há muito tempo. Já na era cristã, primeiro foi introduzida uma divisão por capítulos pelo Arcebispo Estêvão Langton e outra pelo Cardeal Hugo de Sancto Caro, ambas realizadas no século XIII, porém, a divisão do Arcebisbo Langton, realizada em 1205 acabou prevalecendo. Somente 300 anos mais trade foi introduzida a divisão em versículos pelo italiano Santi Pagnini (1470-1541), e em 1551, Roberto Estienne propôs uma divisão diferente que acabou prevalecendo, sendo aplicada na sua edição grega do Novo Testamento e depois na versão em francês de 1553, e é utilizada até hoje.

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Nascer da Água e do Espírito

A doutrina de Jesus somente tornou evidente o que estava registrado nos profetas: nascer da água e do Espírito é o mesmo que Deus espargindo água pura sobre o homem. Somente Deus pode conceder um novo coração e um novo espírito, ou seja, uma nova vida ao homem!


Água e Espírito

“Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” ( Jo 3:5 )

A resposta de Jesus satisfaz a seguinte pergunta: “Como pode nascer um homem, sendo velho?” A resposta é precisa: o novo nascimento é por meio da água e do Espírito!

Para entendermos a resposta de Jesus é preciso saber que a doutrina apregoada por Ele em nada difere da mensagem apregoada na lei e pelos profetas.

Sabemos que a lei nunca pode aperfeiçoar ninguém por conter somente a sombra dos bens futuros ( Hb 10:1 ). Porém, ela sempre apontou a necessidade da circuncisão do coração.

O que a lei propunha era impossível o homem alcançar por meio dela, visto que, a própria lei estava enferma pela carne (Romanos 8: 3). A lei somente serviu de ‘tutor’ para conduzir o homem a Cristo ( Gl 3:24 ), ou seja, ao apontar a necessidade da circuncisão do coração, a lei conduz o homem a Cristo, pois somente nele é possível alcançar circuncisão através do despojar do corpo da carne: a circuncisão de Cristo ( Cl 2:11 ).

Podemos extrair uma grande lição da lei: ela foi escrita em tábuas de pedras e entregue ao povo, mas, não pode aperfeiçoar ninguém, visto que, mesmo após a entrega da lei, Moisés continuou apregoando a necessidade da circuncisão do coração ( Dt 10:16 ; Dt 30:6 ; 2Co 3:3 e 7).

Caso a lei fosse essencial para a salvação do homem não haveria a necessidade de Moisés apregoar a circuncisão do coração. Conclui-se que, a lei entregue em tábuas de pedra não operou a transformação necessária no coração do povo, visto que, eles ainda precisavam da circuncisão do coração.

A ação divina nunca foi por intermédio da lei, visto que, a mensagem de Deus sempre foi: “Ouve, ó Israel…”, pois a fé é o único meio de se achegar a Deus ( Rm 10:17 ). Caso ouvissem a voz de Deus, haveria uma mudança radical neles: deixariam de ter um coração de pedra e passariam a ter um coração de carne ( Dt 11:18 ; Jr 4:4 ).

A intervenção divina na vida do povo só ocorreria no momento em que eles ouvissem e gravassem a lei em seus corações. A circuncisão é uma ação divina por meio da sua palavra ( Dt 30:6 -8).

 

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O profeta Ezequiel sobre este assunto disse o seguinte: “Então espargirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” ( Ez 36:25 -27).

O mestre Nicodemos já conhecia esta passagem bíblica. Há muito que ele lia acerca da promessa de uma nova vida (um novo coração e um novo espírito), porém, não conseguia abstrair a essência do que Deus propôs.

Para alcançar a nova vida é necessário que o próprio Deus venha a espargir água pura sobre o homem (“EU” espargirei água pura sobre vós).

A doutrina de Jesus somente tornou evidente o que estava registrado nos profetas: nascer da água e do Espírito é o mesmo que Deus espargindo água pura sobre o homem. Somente Deus pode conceder um novo coração e um novo espírito, ou seja, uma nova vida ao homem!

Nascer da água é o mesmo que nascer da palavra: Jesus é o Verbo de Deus, ou seja, a Palavra encarnada ( Jo 1:14 ). Sobre este aspecto Paulo escreveu: “Para santificá-la, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra…” ( Ef 5:26 ) “Se alguém tem sede, vem a mim e beba” ( Jo 7:37 ). Jesus é a água que produz vida naqueles que são purificados por Ele, ou seja, naqueles que creem.

Nascer do Espírito é o mesmo que nascer de Deus, visto que, Deus é Espírito e aqueles que d’Ele são nascidos recebem um novo espírito e um novo coração. Portanto, “…o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ), e os que creem recebem poder para serem feitos filhos de Deus! Ora, se o homem crê, da plenitude de Deus já recebeu ( Jo 1:16 ; Cl 2:7 -8). Passa a ser participante da natureza natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

Quem crê na Palavra encarnada como diz as Escrituras, do seu interior terá rios de água viva fluindo, ou seja, isto foi dito: “… do Espírito que haviam de receber os que nele cressem” ( Jo 7:37 -39), o nascer do Espírito.

Há uma ordem específica para se nascer de novo? Sim! Primeiro o homem nasce da água, depois do Espírito! Como?

Primeiro o homem precisa da Palavra de Deus para que possa crer, ou seja, para crer, primeiro é preciso ouvir (ser espargido por Deus com água limpa), acerca da fé (evangelho) que é poder de Deus que faz dos homens que descansam na esperança proposta filhos de Deus “Porque não me envergonho do Evangelho de Cristo, pois é Poder de Deus para a Salvação de todo aquele que crê” ( Rm 1:16 ).

O homem só tem acesso ao poder de Deus depois que ouve a palavra da verdade, conforme Paulo escreveu a Tito: “… Ele nos salvou mediante a lavagem da regeneração e da renovação pelo Espírito Santo” ( Tt 3:5 ).

Paulo ao escrever a Tito demonstra que Deus lava e renova o homem por meio da palavra e do seu Espírito, ou seja, ele reafirma o que foi dito por Ezequiel: (“EU” “espargirei água pura sobre vós…”).

Através da Palavra de Deus, que é água pura espargida sobre o pecador, ocorre a lavagem da regeneração. Os que de Deus são nascidos, são renovados pelo Espírito Eterno, recebendo um coração de carne em lugar do coração de pedra e um novo espírito ( Sl 51:10 ).

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Como nascer novamente?

Ao preocupar-se em como um velho poderia nascer novamente, vemos que Nicodemos despiu-se de seus méritos e posições. Ele poderia ter perguntado como era possível alguém na posição de juiz, ou de mestre nascer de novo, mas diante de Jesus, Nicodemos viu a sua real posição: um homem já velho, que carecia de salvação (novo nascimento)!

 


A Universalidade da Mensagem

“Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que quem não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” ( Jo 3:3 )

A resposta de Jesus a abordagem de Nicodemos é taxativa e universal.

É taxativa porque se não for satisfeita a exigência, não há como o homem ver o Reino de Deus. É universal por englobar toda humanidade.

Visto que o novo nascimento é uma necessidade que abrange todos os homens, podemos inferir que a salvação não diz de uma restauração moral, nem tão pouco de uma restauração física. Se assim fosse, os homens de moral mais elevada não necessitariam do novo nascimento.

Através da declaração de Jesus vemos que, tanto aqueles que possuem, quanto os que não possuem qualidades e méritos, precisam do novo nascimento. Nicodemos é um exemplo claro desta verdade.

Nicodemos era membro do Sinédrio, supremo tribunal dos Judeus ( Jo 3:1 ). Ele era um dos mestres em Israel ( Jo 3:10 ). Era membro também de uma das mais severas seitas do judaísmo, o farisaísmo ( Jo 3:1 ). Perante a sociedade, os da seita do farisaísmo eram tidos por justos pelo comportamento distinto que apresentavam ( Mt 5:20 ).

Mas, apesar de todas as suas qualidades pessoais (moral, caráter e comportamental), Nicodemos precisava nascer de novo, assim como qualquer outro homem desprovido de qualidades e méritos.

A abordagem de Jesus deixa evidente que os valores que os homens tanto primam (prezam) seguir não operam e nem mesmo promovem o novo nascimento.

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Jesus demonstrou que todos os homens precisam do novo nascimento, ou seja, é imprescindível o novo nascimento para se ver e ter acesso ao Reino de Deus.

Desta forma, verifica-se que o novo nascimento não está vinculado aos princípios em que as relações humanas se firmam.

O homem procura aprovação na religião, na sua origem, no comportamento, na moral, no caráter, na justiça própria, na justiça humana e até mesmo através dos sacrifícios, mas estas coisas também não promovem o novo nascimento.

Geralmente as religiões propõem uma melhora ou uma mudança no caráter e no comportamento do homem, o que é proveitoso para as relações humanas, porém, tal proposta não possui valor algum na obtenção da salvação.

Nicodemos era o melhor que a sociedade da época podia apresentar, mas a resposta de Jesus deixa implícito que o Reino de Deus não é conquistado por questões pertinentes a este mundo.

 

Como Nascer Novamente?

“Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Poderá voltar ao ventre da sua mãe e nascer?” ( Jo 3:4 )

A resposta de Jesus mudou as convicções de Nicodemos sobre como alcançar a salvação, visto que, até aquele momento ele acreditava que tinha direito ao reino de Deus por ser descendente (filho) de Abraão ( Mt 3:9 ; Jo 8:33 ).

Quando ele soube que era necessário um novo nascimento para ter acesso ao o reino de Deus, questionou: Como pode um homem velho nascer novamente? É possível que ele volte ao ventre materno para novamente nascer?

Ao preocupar-se em como um velho poderia nascer novamente, vemos que Nicodemos despiu-se de seus méritos e posições. Ele poderia ter perguntado como era possível alguém na posição de juiz, ou de mestre nascer de novo, mas diante de Jesus, Nicodemos viu a sua real posição: um homem já velho, que carecia de salvação (novo nascimento)!

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A conjectura de Nicodemos é descartada: ‘Poderá voltar ao ventre materno, e nascer?’, uma vez que o novo nascimento não tem relação com a descendência humana (maternidade ou paternidade).

Mesmo após ser descartada a conjectura de Nicodemos, ela nos auxilia na compreensão do sentido exato da palavra ‘nascer’ quando empregada por Jesus neste capítulo.

Quando Jesus falou da necessidade do novo nascimento, a idéia primária da palavra ‘nascer’ permaneceu a mesma (foi preservada).

Nascer ou nascimento refere-se à chegada de um novo ser ao mundo. Diz do início de uma nova vida neste mundo pleno da mesma vida que há em seus pais (natureza).

Se Nicodemos entendeu que, para ocorrer o novo nascimento era preciso voltar ao ventre materno, podemos inferir que o sentido exato da palavra ‘nascer’ utilizado por Jesus não diz de uma reforma na natureza do homem. Ela também não diz de uma possível recuperação moral e comportamental do homem. Não diz de uma conformidade. Não diz de uma reversão de atitude. Não é uma revitalização de uma vida que se extingue etc.

Quando Jesus disse que é preciso nascer de novo, ele falou da vinda de um novo ser a existência, pleno da vida que há em Deus, e de posse da natureza divina.

Jesus falou de uma ‘nova geração’, ou seja, de uma nova criação. Da mesma maneira que a palavra nascimento diz da vinda de um ser ao mundo, pleno da vida que há em seus pais, o novo nascimento diz da criação de um novo ser pleno da vida que há em Deus.

Continua no artigo ‘Nascer da água e do Espírito’.

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É possível tomar o reino dos céus à força

A voz de Cristo ecoou em Jerusalém, e os seus súditos por se acharem ricos e abastados não o atenderam. Os ricos de “violência” não reconheceram as suas misérias quando o rei clamou: “Bem-aventurado os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus” ( Mt 5:3 ). Eles se escandalizaram de Cristo e da sua mensagem ( Mt 11:6 ; Mt 13:57 ). A rejeição à justiça de Deus é violência ao reino dos céus. Onde não se estabelece a justiça há violência! ( Lc 11:50 ).


 

“E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele” ( Mt 11:12 )

O escritor Myer Pearman deixou registrado o seguinte na tentativa de explicar Mateus 11: 12:

Ninguém entra por descuido na vida cristã vitoriosa; são os ativos que tomam o Reino por assalto (Mt 11. 12)” Pearlman, Myer, Mateus, o Evangelho do Grande Rei, 1. ed, Rj, CPAD, 1995, pág. 42.

É isto mesmo que Jesus procurou evidenciar àqueles que O ouviam? Ele apregoou ao povo que é possível ao homem se apossar do reino dos céus à força?

Para compreender a ideia da mensagem que Jesus apregoou ao povo de Israel, é preciso analisar alguns textos da Escritura (Antigo Testamento).

 

“Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:5 )

 

Quando o profeta Jeremias disse: “Maldito o homem que confia no homem”, ele quis demonstrar que o homem que confia em si mesmo é maldito. Mas, por que o homem que confia em si mesmo é maldito?

É certo que o homem não é maldito por utilizar a força dos seus braços para trabalhar e obter o seu sustento, uma vez que Deus determinou ao homem viver do suor do seu rosto ( Gn 3:19 ).

A quem Deus reputa por maldito?

Os ouvintes de Jeremias eram dados a seguir o propósito de seus corações malignos ( Jr 16:12 ), e não davam ouvidos a palavra do Senhor. Confiavam em suas capacidades de articulação política e desviavam-se da determinação divina.

Eles se apartavam do Senhor pela incredulidade, pois confiavam em si mesmos e em elementos provenientes da carne.

Diferente da perspectiva dos ouvintes de Jeremias é a perspectiva dos que conhecem a verdade do evangelho.

À época de Cristo os judeus confiavam na carne, ou seja, confiavam que eram filhos de Deus por serem descendentes de Abraão. Através do evangelho de Cristo sabemos que todos que confiam na carne apartam o seu coração do Senhor “Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência” ( Rm 9:8 ).

Quando o homem confia em sua carne, rejeita a salvação que é proveniente dos braços de Deus, como se lê: “Perto está a minha justiça, vem saindo a minha salvação, e os meus braços julgarão os povos; as ilhas me aguardarão, e no meu braço esperarão” ( Is 51:5 ; Is 33:2 ).

Através da perspectiva do evangelho, verifica-se que Deus tem por maldito o homem que faz da carne a sua salvação, ou seja, que considera a descendência de Abraão (carne) o seu braço.

Sabemos que a fé (confiança) é a única maneira de o homem aproximar-se de Deus ( Hb 11:6 ). A ausência de fé mantém-no afastado de Deus, ou seja, apartado de Deus.

Mas, em que confiam os homens?

 

“Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do SENHOR nosso Deus” ( Sl 20:7 ).

 

Dentre aqueles que confiam em si, ou que seus próprios braços os ‘salvará’, há aqueles que confiam em carros e cavalos (riquezas). São os néscios ( Sl 49:6 -9 ; Lc 12:20 ). Porém, também há os que se dizem religiosos, que confiam em suas ‘boas’ ações e que elas os salvará.

Dentre estes, há aqueles que confiam na carne, ou seja, que faz da sua origem em Abraão a sua força (salvação) “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ).

Observe a presunção dos fariseus e escribas: ‘temos por pai a Abraão’, ou seja, eles consideravam que não precisavam de arrependimento, pois entendiam que já estavam salvos por simplesmente serem descendentes de Abraão. Eles confiavam efetivamente na carne.

O apóstolo Paulo demonstrou que jamais voltaria a confiar na carne como os demais judeus. Eles tinham zelo de Deus, porém, sem entendimento: “Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu:” ( Fl 3:4 ; Rm 10:2 ).

Enquanto o homem confia que é filho de Deus por ser descendente de outro homem (ex.: os judeus), permanecerá debaixo da maldição de Adão. Todos os homens são gerados em pecado e concebidos em pecado por serem descendentes de Adão, sendo, portanto, filhos da desobediência e da ira ( Sl 51:5 ).

Aqueles que confiam no Senhor, e cuja esperança é o Senhor, receberão um novo coração e um novo espírito, e serão chamados filhos de Deus, porém, é preciso crer conforme diz as Escrituras “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ).

Através deste versículo conseguimos determinar que:

a) Somente pela fé o homem aproxima-se de Deus;

b) A carne representa todos os elementos pertinentes ao velho homem criado em Adão;

c) O braço expressa força e salvação.

Se o homem confia na sua carne e faz dela a sua força, braço ou salvação, será maldito. Mas, quem crer em Deus verá o ‘braço’ do Senhor que é Cristo revelado aos homens “O SENHOR desnudou o seu santo braço perante os olhos de todas as nações; e todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus” ( Is 52:10 ).

 

“E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” ( Zc 4:6 )

Se a palavra de Deus a Zorobabel diz que não é por força e nem por violência, porque muitos entendem que é possível tomar o reino de Deus por assalto?

O erro na interpretação bíblica tem início quando se utiliza somente do trabalho de lexicógrafos para interpretá-la. Só porque a palavra grega ‘harpazeia’ significa apanhar, agarrar, arrebatar, isto não determina que seja possível tomar o reino dos céus à força.

É preciso comparar as coisas espirituais com as espirituais, ou seja, somente a bíblia pode explicar a si mesma!

Os judeus entendiam que o ‘reino dos céus’ seria estabelecido quando eles obtivessem poder e força bélica, mas Deus disse a Zorobabel que não seria por força e nem por violência, antes é Deus quem faria todas as coisas, ou seja, pelo Espírito de Deus “Porque a minha mão fez todas estas coisas, e assim todas elas foram feitas, diz o SENHOR; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra” ( Is 66:2 ).

O homem que confia na sua carne, ou melhor, que por meio de sua origem é agradável a Deus é aquele que não ‘treme’ da sua palavra. Quem confia na sua carne não é bem-aventurado, pois não reconhece que é um pobre de espírito.

Mas, todos aqueles que confiam no Senhor, que temem ao seu nome ou que ‘treme’ da sua palavra, são bem-aventurados, uma vez que Deus olha para os ‘pobres’ de espírito “E bem-aventurado é aquele que não se escandalizar por minha causa” ( Mt 11:6 ).

Os pobres de espírito são aqueles que não se escandalizam da doutrina de Cristo! Para não se escandalizar de Cristo é preciso não confiar na carne, como fazia os escribas e fariseus.

Jesus disse que o homem é bem-aventurado por não se escandalizar dele, ou seja, a partir do momento que o homem treme (confia) da palavra de Deus, que é Cristo, ele é bem-aventurado.

Para isto Cristo veio: para anunciar as boas novas do evangelho aos pobres de espírito, aos que não confiam na carne ( Mt 11:5 )!

Jamais a força ou a violência poderia estabelecer o reino dos céus! Enquanto os habitantes de Jerusalém esperavam estabelecer o reino de Deus através de alianças políticas, ou através de forças bélicas, a palavra de Deus por intermédio dos seus profetas alertava: o reino de Deus haveria de se revelar em glória através do seu servo, o ‘Renovo’ ( Zc 3:8 ).

Somente o Renovo do Senhor, que é Cristo, estabeleceria o reino de Deus entre os homens.

Há muito tempo, bem antes de Zorobabel nascer, Ana profetizou: “Ele guarda os pés dos seus santos, porém os ímpios emudecem nas trevas. Não é pela força que prevalece o homem” ( 1Sm 2:9 ).

A exemplo de Ana, a força do homem deve estar no Senhor ( 1Sm 2:1 ). As outras mulheres confiam literalmente na carne, pois elas não eram estéreis. Ana, porém, por ser estéril, passou a confiar exclusivamente no Senhor “O arco dos fortes está quebrado, mas os fracos são cingidos de força” ( 1Sm 2:4 ).

 

“Os seus profetas são levianos, homens aleivosos; os seus sacerdotes profanaram o santuário, e fizeram violência à lei” ( Sf 3:4 )

 

Há muito tempo os profetas de Deus denunciavam a violência dos homens em Israel. Por não ouvirem a palavra de Deus, deixavam de confiar em Deus e distorciam a lei de Deus ao bel prazer.

Os profetas e sacerdotes em Israel não seguiam aquilo que Deus havia preceituado, porém sobrecarregavam o povo de regras para poderem surrupiá-los “Ao povo da terra oprimem gravemente, e andam roubando, e fazendo violência ao pobre e necessitado, e ao estrangeiro oprimem sem razão” ( Ez 22:29 ).

A mesma mensagem anunciada por Jeremias é a de Sofonias: “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!” ( Jr 17:5); “Não ouve a voz, não aceita o castigo. Não confia no Senhor, nem se aproxima do seu Deus” ( Sf 3:2 ).

Embora a palavra de Deus fosse transmitida por intermédio dos seus profetas, o povo não ouviam a sua voz. Não confiavam em Deus, e por isso, apartavam-se do Deus, permanecendo debaixo de maldição.

Através desta primeira análise já é possível determinar se é possível a alguém pela força se apoderar do reino dos céus.

 

“E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele” ( Mt 11:12 )

 

Para compreender Mateus 11, verso 12 é preciso determinar o público alvo da mensagem de Cristo, ou seja, é preciso contextualizar o versículo.

Após instruir os seus discípulos, aproximou-se de Jesus os discípulos de João Batista ( Mt 11:1 -2). Eles foram enviados por João para saber se Cristo era aquele que estava por vir, ou se era preciso esperar outro (v. 3).

Os discípulos de João foram instruídos por Jesus e foram anunciar as obras de Cristo a João Batista, que estava preso (v. 4- 6).

Em seguida Jesus passou a dizer a multidão, ou seja, ao povo de Israel acerca da missão de João Batista.

Verifica-se, então, que a mensagem do verso 7 ao 19 foi direcionada ao povo de Israel, pessoas que precisavam crer em Cristo para serem salvas.

Para crer em Cristo o povo não podia escandalizar-se dele. Porém, o povo olhava a aparência e se escandalizavam da sua pessoa “Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas? E não estão entre nós todas as suas irmãs? De onde lhe veio, pois, tudo isto? E escandalizavam-se nele. Jesus, porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, a não ser na sua pátria e na sua casa” ( Mt 13:55 -57).

Jesus passou a demonstrar que João Batista foi enviado como precursor do reino dos céus, conforme o predito por Isaías ( Mt 11:10 ).

Jesus questiona o interesse do povo em ir ver João Batista. Por que a necessidade de ir ver um profeta, se não davam ouvido a sua mensagem? ( Mt 11:7 -9).

Jesus também demonstrou ao povo que, dentre os nascidos de mulher (homens e mulheres), não havia ninguém maior que João Batista. Porém, o menor dentre o reino dos céus era maior que João Batista.

Jesus destaca o papel de João Batista no reino dos homens, e demonstra que ele era o maior dentre os homens por ter sido escolhido como mensageiro do Senhor “Mas, então, que fostes ver? Um profeta? Sim, vos digo eu, mais do que profeta (…) não apareceu alguém maior do que João Batista” ( Mt 11:9 -11 ).

Lucas registrou: “E eu vos digo que, entre os nascidos de mulheres, não há maior profeta do que João o Batista; mas o menor no reino de Deus é maior do que ele” ( Lc 7:28 ).

Dentre os homens (nascidos de mulher) João era o maior, porém, o ‘menor’ dentre os homens e profetas, no reino dos céus é maior do que João, e consequentemente, maior do de todos os profetas. Como pode ser isso? Quando Cristo demonstra que o menor no reino dos céus é maior do que João, Jesus estava falando de sua pessoa. Cristo é maior que João Batista no reino dos céus (mas, o menor é maior do que ele no reino de Deus), pois, Cristo se fez o menor dentre os homens, assumindo a condição de servo, para ser o maior no reino ( Mt 11:11 ).

Tudo o que Jesus disse ficou na dependência de seus ouvintes (povo) darem crédito “E, se quiserdes dar crédito, ele é o Elias que havia de vir” ( Mt 11:14 ).

 

“E, desde os dias de João o Batista até agora, faz-se violência ao reino dos céus…” ( Mt 11:12 )

 

Desde os dias que João Batista passou a anunciar o reino dos céus até aquele momento em que Jesus estava falando ao povo, estava ocorrendo violência ao reino dos céus.

Agora, surgem as perguntas: sobre que tipo de violência Jesus fez menção? Que é o advento do reino dos céus? Que tipo de força utilizam? E, por que a violência passou a ocorrer após o início do ministério de João Batista?

 

O Reino dos Céus

Sabemos que nos dias de João Batista passou a ser proclamado o reino dos céus “Arrependei-vos, pois está próximo o reino dos céus” ( Mt 3:2 ). Como João era precursor de Jesus, verifica-se que o reino dos céus vincula-se a pessoa de Cristo.

A mensagem de Jesus e dos seus discípulos era: “E, indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus” ( Mt 10:7 ).

Os fariseus ao interrogarem a Cristo acerca do reino dos céus obtiveram a seguinte resposta: “E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes, e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior” ( Lc 17:20 ).

Os homens queriam ver o reino de Deus, porém, não entendiam no que consistia o reino dos céus. Eles queriam dizer uns aos outros: Olha ali o reino dos céus, porém, não conseguiam identificar que o reino dos céus já estava entre os homens “Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós” ( Lc 17:21 ).

Quando Jesus disse que “o reino de Deus está entre vós”, ele não disse que o reino havia se estabelecido no coração dos seus ouvintes (fariseus), antes demonstrou que o Cristo encarnado é o reino dos céus. ‘Dentro em vós’ também pode significar ‘no meio de vós’.

Ora, quando Jesus disse que ‘desde os dias de João Batista até agora, faz-se violência ao reino dos céus’, ele estava demonstrando que faziam violência a sua pessoa. Isto porque a mensagem de João era acerca da pessoa de Cristo, e Cristo também falava do seu ministério entre os homens.

Cristo identificou-se como sendo o reino de Deus entre os homens, alvo de ‘violência’ desde os dias de João Batista até aquele momento que Jesus estava falando ao povo de Israel.

Por que Jesus identifica-se como sendo o reino dos céus?

Porque Cristo é o filho de Davi, e será rei sobre o reino literal, físico e visível sobre Israel e o mundo. Uma vez que os judeus aguardavam o reino de Deus, Cristo sendo o rei, apresenta-se aos seus ‘súditos’, e o seus não o receberam simplesmente pela sua aparência exterior.

A igreja é templo e morada do Espírito de Deus proveniente da mensagem do evangelho, que é: “Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me;” ( Mt 16:24 ). Desta forma o crente torna-se participante de Cristo (em Cristo = nova criatura), promessa superior e condição superior a de súdito do reino.

A igreja herda com Cristo todas as coisas ( Rm 8:17 ), e reinará em glória com Ele ( 2Tm 2:12 ).

A mensagem do reino dos céus foi apresentada inicialmente aos judeus, ou seja, os discípulos de Jesus não deviam ir em direção aos gentios “Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidades de samaritanos” ( Mt 10:5 ).

Embora os judeus esperassem um reino visível e físico, havia um aspecto da missão do Messias que desconheciam. Este aspecto que desconheciam sobre o Messias é demonstrado em Miqueias: “Porque o filho despreza o pai a filha se levanta contra a mãe, a nora contra a sogra; os inimigos do homem são os da sua própria casa” ( Mq 7:6 ).

Em sua primeira vinda, o Messias não traria paz aos reinos deste mundo e nem haveria de governá-los, antes traria espada, ou seja, julgamento e morte (quem não toma a sua cruz e vem a pós mim, não é digno de mim).

Para o homem não ser condenado com o mundo é preciso ser julgado com Cristo, tomando a sua própria cruz e morrer com Ele. Jesus jamais declararia paz ao mundo pecaminoso que teve origem em Adão.

Jesus trouxe espada, ou seja, todos que negam a si mesmo deixando a sua origem em Adão e morrem por amor a Cristo através da fé no evangelho, serão de novo criados em verdadeira justiça e santidade através do último Adão, que é Cristo.

 

A violência

 

“E, desde os dias de João o Batista até agora, faz-se violência ao reino dos céus…” ( Mt 11:12 )

Sabemos que não é possível aos homens tomarem o reino dos céus a força, e que não foi esta a ideia que Cristo transmitiu ao povo de Israel. É correta a tradução que diz: “Desde os dias de João Batista até agora o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele” ( Mt 11:12 )?

Nunca foi possível aos homens ‘tomar’ o reino dos céus à força, e por que isto seria diferente nos dias de João Batista? O esforço humano é contado na conquista do reino dos céus?

Esta não é a ideia bíblica. Jamais será possível ao homem tomar posse do reino dos céus através da força. Seria aquela geração à época de Cristo diferente das demais? Vemos que não: “Mas, a quem hei de comparar esta geração?” ( Mt 11:16 ).

A geração à época de Cristo era indiferente a mensagem de Cristo, pois as suas obras era segundo a sabedoria carnal ( Mt 11:16 -19 ; Lc 11:50 ). Estes versos demonstram efetivamente que pelas obras ninguém pode entrar ou tomar por assalto o reino dos céus. Muito menos a geração dos dias de João Batista poderia tomar o reino dos céus a força.

Percebe-se através da fala de Cristo, quando anunciou que ‘faziam violência ao reino dos céus’, que é uma reprimenda, uma censura a atitude do povo de Israel que rejeitavam a justiça de Deus. O que eles queriam apresentar na conquista do reino dos céus eram verdadeiramente obras de violência “As suas teias não prestam para vestes nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade, e obra de violência há nas suas mãos” ( Is 59:6 ).

Por deixarem de dar crédito à palavra de Deus, estavam fazendo violência ao reino dos céus “Assim diz o SENHOR: Exercei o juízo e a justiça, e livrai o espoliado da mão do opressor; e não oprimais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva; não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar” ( Jr 22:3 ).

Onde há falta de justiça, sobra a violência “Só permanecem o perjurar, o mentir, o matar, o furtar e o adulterar; fazem violência, um ato sanguinário segue imediatamente a outro” ( Os 4:2 ). Onde não aceitam o conhecimento de Deus que estabelece a sua justiça, sobra obras de violência ( Os 4:6 ).

Ou seja, desde que começou ser anunciado o reino dos céus (desde João Batista até agora), faz-se violência ao reino dos céus, pois rejeitavam a mensagem de João e de Cristo “A voz do SENHOR clama à cidade e o que é sábio verá o teu nome. Ouvi a vara, e quem a ordenou. Ainda há na casa do ímpio tesouros da impiedade, e medida escassa, que é detestável? Seria eu limpo com balanças falsas, e com uma bolsa de pesos enganosos? Porque os seus ricos estão cheios de violência, e os seus habitantes falam mentiras e a sua língua é enganosa na sua boca” ( Mq 6:9 -12).

A voz de Cristo ecoou em Jerusalém, e os seus súditos por se acharem ricos e abastados não o atenderam. Os ricos de “violência” não reconheceram as suas misérias quando o rei clamou: “Bem-aventurado os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus” ( Mt 5:3 ). Eles se escandalizaram de Cristo e da sua mensagem ( Mt 11:6 e Mt 13:57 ).

A rejeição à justiça de Deus é violência ao reino dos céus. Onde não se estabelece a justiça há violência! ( Lc 11:50 ).

 

Que Força?

 

“…e pela força se apoderam dele” ( Mt 11:12 ).

Será que os ‘enérgicos’ lançam mão do reino dos céus? É possível apoderar-se dele através da força?

Sabemos que pela fé em Cristo é possível ao homem tornar-se participante do reino de Deus na condição de súdito. Porém, é impossível alguém apoderar-se dele, visto que o reino é do Senhor e do seu Cristo ( Ap 11:15 ).

A palavra ‘apoderam’ está mais para uma afronta ao reino do que para uma conquista.

Como é impossível ‘apoderar-se do reino’, a frase “…e pela força se apoderam dele” assume um valor irônico, pois apresenta um sentido oposto ao original. É comum em nossa literatura utilizar um termo com o sentido oposto ao original, e Jesus fez uso desse recurso com a idéia que se depreende da frase. Ele faz uma frase de valor irônico diante da impossibilidade dos homens ‘apoderarem-se’ do reino dos céus à força.

 

Ironia (figura de pensamento) – utilização de termo com sentido oposto ao original, obtendo-se, assim, valor irônico. Alguns denominam de antífrase. Ex: O ministro foi sutil como um elefante.

 

Agora, faz-se necessário utilizar todo o conhecimento que adquirimos anteriormente.

  • É preciso lembrar que o público alvo da mensagem de Cristo era o povo incrédulo;
  • É preciso ter em mente que nada é por força e nem por violência no reino dos céus, antes é pelo Espírito de Deus;
  • É preciso compreender a relação que a bíblia estabelece entre força, braço e salvação;
  • A força do homem é proveniente da carne, sendo que os gerados da carne são carnais, e, portanto, não podem agradar a Deus;

 

Quem confia na carne e faz dela a sua força simplesmente continua apartado do Senhor, pois diante de Deus só é agradável aquele que crê em Cristo como diz a Escritura.

Qual a força do homem na tentativa de alcançar o reino dos céus?

Os Zelotes queriam estabelecer o reino de Deus através da força bélica, pois não compreendiam no que consiste o reino e quem irá estabelecê-lo.

Os escribas e fariseus confiavam que eram filhos de Deus por serem descendentes de Abraão. Eles confiavam na carne (origem em Abraão) como sendo a força ou o braço que lhes concedia o direito de serem participantes do reino de Deus.

O povo de Israel entendia que a força dele era proveniente da lei entregue por Moisés. Entendia que, pela lei alcançava força suficiente para conquistar o reino dos céus.

  • O povo esqueceu que “no estarem quietos”, haveria força ( Is 30:7 );
  • Esquecera que pela força o homem não prevalecerá ( 1Sm 2:9 );
  • Esquecera que não é por força e nem por violência ( Zc 4:6 );
  • Esquecera que o arco dos fortes está quebrado, ou seja, a força do forte é sem valia, uma vez que o arco para nada serve ( 1Sm 2:4 );
  • Esquecera que as outras nações não poderiam salvá-lo; esquecera que carros e cavalos não tem serventia; esquecera que as obras de suas mãos era sem valor ( Os 14:3 ).

 

“Não vos salvará a Assíria, não iremos montados em cavalos, e à obra das nossas mãos não diremos mais: Tu és o nosso Deus; porque por ti o órfão alcançará misericórdia” ( Os 14:3 ).

 

A mensagem de Jesus ao povo de Israel quando disse: “Desde os dias de João Batista até agora, faz-se violência ao reino dos céus, e pela força apoderam-se dele” ( Mt 11:12 ) é a mesma do profeta Isaias, que no capítulo 30, em resumo, diz: “Por isso, assim diz o Santo de Israel: porquanto rejeitais esta palavra, e confiais na opressão e perversidade, e sobre isso vos estribais, Por isso esta maldade vos será como a brecha de um alto muro que, formando uma barriga, está prestes a cair e cuja quebra virá subitamente” ( Is 30:11 -12).

Quem confia na opressão e na perversidade faz violência ao reino dos céus. Quem se estriba na violência, faz dela a sua força! Mas, a obra do homem (muro) proveniente da sua força está prestes a ruir subitamente.

 

“Porque assim diz o Senhor DEUS, o Santo de Israel: Voltando e descansando sereis salvos; no sossego e na confiança estaria a vossa força, mas não quisestes” ( Is 30:15 )

 

A confiança em Cristo é a força que o homem precisa, mas eles não quiseram.

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As religiões são a ‘porta larga’ que conduz à perdição?

Os monges, padres, hindus e todos que procuram uma vida de ascetismo pessoal pensam alcançar a bem-aventurança prometida por Cristo despojando-se de bens materiais e dos prazeres. Porém, a verdade do evangelho demonstra que só é possível ao homem ser bem-aventurado após despojar-se da carne (natureza herdada de Adão), através da circuncisão de Cristo (…) As religiões são ‘pseudo’ caminhos que os homens pensam que conduz a Deus. Eles seguem os desvarios de seus corações enganosos, pois seguem por um caminho de perdição.

 


Sobre o Sermão do Monte o Dr. J. Dwight Pentecost, autor do ‘Manual de Escatologia’, escreveu:

“A primeira bem-aventurança do Senhor está em Mateus 5: 3: ‘Bem-aventurado os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus. Só Deus é bem-aventurado. Ele é digno de receber benção em virtude de sua santidade absoluta, inalterável”  Pentecost, J. Dwight, O Sermão do monte, Capítulo Os humildes de espírito, Ed Vida.

Não consegui abstrair (entender) a declaração do Dr. Pentecost. Só Deus é bem aventurado? ( Mt 5:11 ) Deus é digno de receber bênçãos? ( Jó 41:11 ) Quem abençoaria Deus?

Não há quem possa dar algo ou retribuir uma dádiva divina. Não há quem possa abençoá-lo, visto que só ele habita a eternidade e detém todo poder e concede dádivas às suas criaturas. É impossível o menor abençoar o maior, e quem é maior que o Altíssimo?

De modo enfático, o Dr. Pentecost reitera na seqüência que só Deus é digno de ser chamado bem aventurado ou bendito por aquilo que ele é em seu caráter.

Ora, Deus possui vários atributos, porém, dentre eles não encontramos a humildade. A humildade é pertinente ao homem. Humilde é aquele que reconhece suas limitações, e Deus não é limitado. Não encontramos qualquer referência a um Deus humilde. Antes, Ele é o que é. É o Eu Sou, e habita a eternidade.

“Só Deus é bem-aventurado” Idem.

Se considerarmos que tal comentário refere-se a Cristo, como é possível Ele oferecer bem-aventurança aos seus ouvintes? Jesus apontou os seus discípulos como sendo bem-aventurados, o que contraria a ideia em destaque.

Vemos que a bem-aventurança é uma dádiva pertinente aos homens, e, por isso Jesus convida os seus ouvintes a aprenderem dele que é manso e humilde de coração “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” ( Mt 11:29 ).

A mansidão da qual Jesus fez referência não diz de uma característica pertinente ao caráter ou comportamento humano. Antes a mansidão e a humildade de coração é uma característica pertinente à nova natureza do novo homem que é gerado em Cristo, que é semelhante à natureza de Cristo.

Somente os gerados de Deus são mansos e humildes de coração! Somente os que recebem poder para serem feitos (criados) filhos de Deus ( Jo 1:12 ), são criados em verdadeira justiça e santidade, recebendo a plenitude de Deus em Cristo ( Cl 2:10 ).

Sobre este aspecto da nova criatura (plenitude da divindade) João disse: “… porque, qual Ele é, somos nós também neste mundo” ( Jo 4:17 ). Ora, neste mundo não somos semelhantes a Jesus com relação ao corpo glorificado, ou seja, ainda não fomos revestidos da imortalidade. Porém, assim como ele é, nós também somos neste mundo: mansos e humildes de coração, isto porque aprendemos deste modo de Cristo “Se é que o tendes ouvido, e nele fostes ensinados, como está a verdade em Jesus” ( Ef 4:21 ).

Sabemos que o homem gerado segundo a carne é ‘mentiroso’, pois a verdade encontra-se em Cristo ( Rm 3:7 ). Os filhos de Adão não possuem um coração manso e humilde, pois esta característica pertence tão somente aos filhos de Deus.

Os monges, padres, hindus e todos que procuram uma vida de ascetismo pessoal, pensam alcançar a bem-aventurança prometida por Cristo despojando-se de bens materiais e dos prazeres. Porém, a verdade do evangelho demonstra que só é possível ser bem-aventurado após o homem despojar-se da carne, recebendo a circuncisão de Cristo.

Só são bem-aventurados aqueles que recebem a Cristo por meio da verdade do evangelho (fé que uma vez foi dada aos santos), e descansam na proposta de vida eterna (fé ou descansar em Cristo). É por isso que Paulo diz que a justiça do evangelho descobre-se de fé em fé: a) a primeira fé refere-se à verdade do evangelho, e; b) a segunda fé refere-se a confiança do crente.

Ora, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus. Sem a ‘fé (evangelho) que uma vez foi dada aos santos’ é impossível confiar (fé) em Deus. Primeiro é preciso ouvir a verdade do evangelho (fé), para depois crer para salvação.

O Dr. Pentecost não incorreria no erro de afirmar que só Deus é bem-aventurado se compreendesse a parábola dos dois caminhos. Para ele o caminho largo refere-se à doutrina dos fariseus:

“Contrastando seu ensino como o dos fariseus, ele havia comparado o farisaísmo a uma porta muito larga pela qual muitas pessoas podiam entrar” Idem, Capítulo Alicerçado na Rocha (grifo nosso).

Analisando a parábola dos dois caminhos “Entrai pela porta estrita. Pois larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( Mt 7:13 -14), percebe-se que Cristo é a porta estreita, e o único caminho que conduz a salvação. Não há outro nome pelo qual devamos ser salvos.

Mas, seria a doutrina dos fariseus o caminho largo que conduz muitos a perdição? E quem não segue a doutrina dos fariseus, mas seguem outros posicionamentos religiosos ou filosóficos, porventura não teriam entrado no caminho largo?

Apontar sistemas religiosos ou pensamento filosóficos como sendo o caminho largo que conduz a perdição não condiz com a verdade que a parábola contada por Jesus busca ilustrar “Jesus refere-se à religião humana, como o ‘caminho largo’ e espaçoso” Pág. 158, Idem.

Ora, um interprete não pode prevaricar “Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim” ( Is 43:27 ). Como os interpretes judeus prevaricaram? Ora, adotaram o mesmo posicionamento do Dr. Pentecost, uma vez que esqueceram que a porta larga é o primeiro pai da humanidade (Adão), e não as religiões.

As religiões são ‘pseudo’ caminhos que os homens pensam existir para alcançar a Deus. Eles seguem os desvarios de seus corações, mas é certo que trilham um caminho de perdição, pois entraram pela porta larga. É por isso que alguns dizem que todos os caminhos levam a Deus. Esquecem que existem somente ‘dois caminhos’, o que contrasta com a existência de inúmeras religiões.

A porta larga é Adão e o modo de entrar pela porta larga é o nascimento natural segundo a carne. A porta estreita é Cristo e o único modo de entrar pela porta estreita é nascendo de novo ( Jo 3:3 ).

Os fariseus prevaricaram porque acreditavam que eram filhos de Deus por serem descendentes de Abraão. Esqueceram do primeiro pai (Adão), e que em decorrência do nascimento carnal eram iguais a todos os outros homens: carnais e destituídos da glória de Deus.

Todos os homens juntamente se desviaram e tornaram-se escusáveis diante de Deus por causa do primeiro pai que pecou (Adão), mas os judeus se achavam abastados espiritualmente (privilegiados) por terem por pai Abraão. Tremendo engano!

O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente, e após pecar todos os seus descendentes foram destituídos da glória de Deus. De modo distinto, Cristo, o último Adão, é espírito vivificante, a porta estreita, e todos os que por ele ‘entram’ (nascem de novo), são filhos de Deus.

A parábola dos dois caminhos é um resumo da ideia contida no Sermão do Monte. Se não houver uma interpretação fidedigna de tal parábola, qualquer tentativa de interpretar o Sermão do Monte será um fracasso.

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