Romanos 6 – O homem velho foi crucificado com Cristo

Há homens que, por causa da condenação em Adão permanecem sob condenação e em inimizade com Deus, e homens que, pela redenção em Cristo, o último Adão, estão justificados e em paz com Deus. Mas, para demonstrar a consistência do que expôs, Paulo retroage no tempo para demonstrar onde e como se deu a condenação de todos os homens, contrastando com a redenção em Cristo ( Rm 5:12 -21).


Romanos 6 – O homem velho foi crucificado com Cristo

Introdução

“Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante” ( 1Co 15:45 )

 

Para compreendermos a exposição de Paulo nos capítulos 6 e 7 é preciso entendermos as comparações que Paulo faz entre Cristo e Adão.

No capítulo 5 Paulo demonstrou que Adão e Cristo constituem-se ‘os cabeças’ de duas famílias distintas. Este trouxe à vida (existência) os filhos de Deus, e àquele traz à existência na condição de mortos e em inimizade com Deus os filhos da ira, filhos da desobediência, filhos do diabo, ou filhos de Adão.

Comparando Adão e Cristo, os contrastes são evidentes:

  • Em Adão a transgressão e em Cristo o dom gratuito ( Rm 5:15 );
  • Em Adão a condenação e em Cristo a justificação ( Rm 5:16 );
  • Em Adão morte e inimizade, e em Cristo vida e paz ( Rm 5:17 );
  • Em Adão ofensa e em Cristo justiça ( Rm 5:18 );
  • Adão desobedeceu e Cristo obedeceu ( Rm 5:19 );

Em Adão todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus e são justificados em Cristo (o último Adão), gratuitamente pela sua graça por meio da fé ( Rm 3:23 -24).

Paulo iniciou a exposição do livro de Romanos demonstrando o comportamento dos homens destituídos de Deus, e que, todos sem exceção serão trazidos a juízo por causa de suas obras no dia da retribuição de Deus (dia da ira), quando também será manifesto o juízo de Deus que se deu em Adão a todos os homens ( Rm 2:5 -11).

Paulo aponta questões futuras, demonstrando que Deus recompensará a cada um segundo as suas obras ( Rm 2:7 -8), quando forem estabelecidos o Tribunal do Trono Branco para os ímpios ( Rm 2:6 ), e o Tribunal de Cristo para os justos ( 2Co 5:10 ).

Depois, Paulo passou a demonstrar qual a condição dos homens que hoje estão sem Cristo: todos pecaram e juntamente se extraviaram, sem que houvesse um único homem que fizesse o bem ( Rm 3:10 -20). Concomitantemente, ele demonstra a condição daqueles que estão em Cristo: justificados gratuitamente pela graça de Deus por meio da fé em Cristo!

Desta forma, há homens que, por causa da condenação em Adão permanecem sob condenação e em inimizade com Deus, e homens que, pela redenção em Cristo, o último Adão, estão justificados e em paz com Deus.

Mas, para demonstrar a consistência do que expôs, Paulo retroage no tempo para demonstrar onde e como se deu a condenação de todos os homens, contrastando com a redenção em Cristo ( Rm 5:12 -21).

A exposição que Paulo faz aos cristãos Romanos é argumentativa e principalmente teológica, diferente da exposição de Cristo, que é por parábolas e ilustrativa.

Desta forma temos que as parábolas como os dois caminhos, as duas portas, as árvores boas e as árvores más, as plantas que o Pai não plantou, etc, fazem referência a Adão e a Cristo.

Depois de fazer uma exposição teológica, Paulo também apresenta uma figura para ilustrar as considerações teológicas: os vasos para honra e os vasos para desonra ( Rm 9:21 ).

Isto posto, verifica-se que, para estudarmos o capítulo 6 e 7 e chegarmos a uma conclusão plausível, é preciso analisados segundo a ótica do primeiro e do último Adão.

 

1 QUE diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?

A pergunta deste versículo decorre do versículo 20 do capítulo anterior.

“Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse. Mas onde o pecado abundou, superabundou a graça (…) Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça aumente?” ( Rm 5:20 e Rm 6:1 ).

Após demonstrar que ‘onde o pecado abundou, superabundou a graça’, Paulo antecipa-se àqueles que poderiam argumentar que permaneceriam no pecado visando aumentar a graça.

‘Que diremos…’, ou seja, qual deve ser o entendimento do cristão? Permanecer no pecado (em Adão), para que a graça aumente? Não! Este não deve ser o entendimento do cristão.

Não é porque a graça superabundou onde o pecado abundou que o comportamento do cristão deva ser de devassidão.

O pecado reinou pela morte (pena decorrente da transgressão de Adão), e a lei somente fomentou a ofensa ( Rm 5:20 ). Mas, a graça de Deus se há manifestado para que, da mesma forma que o pecado reinou por meio da natureza decaída do homem (carne) e em obediência as suas concupiscências (conduta aquém da lei de Deus), a graça também reine pela justiça através da nova natureza (espiritual) e em obediência à justiça (conduta segundo a lei da liberdade).

 

2 De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?

De modo nenhum! Os cristãos em Roma e o próprio escritor da carta não permanecem no pecado.

Paulo espera que os cristãos raciocinem e cheguem a uma conclusão sobre o ‘permanecer no pecado’ através do parâmetro estabelecido neste verso: Se os cristãos ‘Estão mortos para o pecado’, como é possível permanecer nele? Para os que estão mortos para o pecado não há como viver ou permanecer no pecado.

Da mesma forma que Cristo, quanto a ter morrido, ‘de uma vez morreu para o pecado’ ( Rm 6:10 ), os que morreram com Cristo também de uma vez estão mortos para o pecado ( Rm 6:8 e 10).

 

3 Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?

Para os leitores da carta que argumentassem que permaneceriam no pecado para que a graça aumentasse, Paulo demonstra que quem assim pensa desconhece o real significado do batismo.

Tanto Paulo quanto os leitores da sua carta havia sido batizados na morte de Cristo por meio da fé “…fomos batizados em Jesus…”, ou seja, todos os que creem são batizado na morte de Cristo Jesus “…um morreu por todos, logo todos morreram” ( 2Co 5:14 ).

Se todos morreram porque Cristo morreu, isto demonstra que ‘de uma vez morreram para o pecado’ conforme Paulo demonstra no verso 10.

 

4 De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida.

É pela fé que o cristão torna-se participante da morte e da ressurreição de Cristo. O batismo nas águas somente simboliza o que o cristão já alcançou pela fé em Cristo: o verdadeiro batismo do homem efetivasse na morte com Cristo.

O cristão é batizado na morte de Cristo e sepultado juntamente com ele. Isto porque, da mesma forma que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória e poder de Deus, os que com ele ressurgem obtenham nova vida (espírito) e andem conforme ele andou (comportamento).

Neste ponto está o grande mistério revelado: Da mesma maneira que através do primeiro Adão todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus, sendo que não há nenhum deles que pratique o bem (embora pratiquem boas ações) ( Rm 3:10 -18 e 23), por meio de Cristo, o último Adão, os homens são justificados e conduzidos à glória dos filhos de Deus, e estes por sua vez não praticam o mau (embora sejam suscetíveis de praticar más ações).

Como isto é possível? Este versículo é uma explicação teológica da figura da árvore que Cristo apresentou aos seus discípulos: “Do mesmo modo, toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir maus frutos, nem a árvore má produzir frutos bons” ( Mt 7:17 -18).

Ou seja, os homens nascidos segundo a semente corruptível de Adão não fazem o bem, e jamais poderão fazer o bem. Eles são plantas que o Pai não plantou ( Mt 15:13 ), nascidos da semente corruptível, e portanto, árvores más, e só podem produzir frutos maus.

Da mesma forma, os homens nascidos da semente incorruptível, que é a palavra de Deus, estes fazem o bem, visto que as suas obras foram preparadas por Deus de ante mão para que andassem nelas. Estes são plantas que o Pai plantou, árvores boas, e que só produzem frutos bons.

Como Deus fez (plantou) os cristãos novas criaturas para as boas obras (bons frutos), resta que não há como andar segundo o pecado, pois Deus já preparou para as suas criaturas para que andassem em boas obras ( Ef 2:10 ).

Resta que, é impossível àqueles que creem em Cristo, e que, portanto, são boas árvores (participantes da videira verdadeira), pratiquem más obras ou deem maus frutos ( Tg 3:11 -12).

Com base no princípio demonstrado anteriormente é que Paulo demonstra que é impossível aos que foram agraciados com nova vida por meio a fé em Cristo permanecer (v. 1), viver (v. 2) ou andar segundo a velha natureza que foi crucificada com Cristo (v. 4).

 

5 Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição;

Este versículo apresentada a mesma ideia que o apóstolo João apresenta em uma de suas carta: “Nisto é aperfeiçoado em nós o amor, para que no da do juízo tenhamos confiança, porque, qual ele é, somos nós também neste mundo ( 1Jo 4:17 ).

A exposição de João é declarativa, enquanto a de Paulo argumentativa. João afirma categoricamente que os cristãos são como Cristo é, e aqui e agora, neste mundo. João não aponta o mundo vindouro, quando os cristãos serão revestidos da imortalidade, mas que, neste sistema de coisas (mundo) o Cristão já alcançou a mesma posição do Filho de Deus.

É a maneira de João dizer que os cristãos já estão assentados nas regiões celestiais em Cristo Jesus ( Ef 2:6 ).

Como a exposição de Paulo é argumentativa, ele conduz o leitor para chegar a uma conclusão. ‘Se fomos…’ é o mesmo que ‘fomos’ plantados juntamente com Cristo na semelhança da sua morte, uma vez que com ele morremos.

Por terem sido plantados na semelhança da sua morte, os cristãos também ressurgem dentre os mortos à semelhança de Cristo. Desta maneira, da mesma forma que Cristo é, os cristãos também são aqui neste mundo. Estão assentados nas regiões celestiais em Cristo.

 

6 Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado.

Não há como um cristão dizer que permanecerá no pecado com a ideia de que aumentará a graça de Deus, visto que:

  • O velho homem (nosso) foi crucificado com Cristo;
  • O corpo do pecado (carne) é desfeito, e;
  • Não serve mais ao pecado.

Como seria possível a alguém que crê em Cristo permanecer no pecado, visto que os que creem são crucificado com Cristo e tiveram o corpo do pecado desfeito? Se o corpo do pecado foi desfeito, como viver ou andar no pecado?

O crente é crucificado e sepultado com Cristo para que não mais sirva ao pecado, e segundo este saber, as possíveis argumentações do verso 1 são inconsistentes.

 

7 Porque aquele que está morto está justificado do pecado.

Ou seja, aquele que morreu com Cristo (que está morto) justificado está do pecado. Por assim dizer, também cessou do pecado.

Aquele que está morto para o pecado, não permanece inerte, antes ressurge dentre os mortos para a glória de Deus Pai. O novo homem que ressurge com Cristo, este é declarado justo diante de Deus (justificado).

Aquele que está morto para o pecado é o mesmo que vive para Deus. Por viver para Deus é que o homem recebe a declaração de que é justo.

Os que vivem para o pecado jamais serão justificados por Deus, uma vez que os vivos para o pecado estão mortos para Deus. Paulo disse que, quem está morto para o pecado está justificado, isto por causa do versículo seguinte, onde ele demonstra que quem morre com Cristo, vivem para Deus (v. 8).

A declaração de justo (justificação) é concernente a nova vida adquirida de Deus. Para receber a nova vida é preciso morrer (ter um encontro com a cruz de Cristo). Segue-se que a graça de Deus veio sobre todos os homens, “… para justificação e vida” ( Rm 5:18 ).

 

 

Abordagem Histórica das Transformações Lingüística

Antes de prosseguirmos o estudo da Carta de Paulo aos Romanos, faz-se necessário nos deter em observar as transformações que ocorreram ao longo da história recente sobre o modo de exposição e argumentação do pensamento humano.

A abrangência interlocutiva da linguagem é um fenômeno de todos os tempos e de todas as sociedades, porém, o estudo cientifico deste fenômeno (Pragmática) é recente.

A tendência da metafísica ocidental a partir de Platão (428 – 427 a.c), salvo exceções, tendeu privilegiar a dimensão apofântica (lógica do verdadeiro e falso), declarativa e locutória da linguagem. Perseguiam um ideal de linguagem (lógico-matemático).

O que a metafísica não alcançou, a ciência moderna se declarou herdeira. Para os da ciência moderna (Kepler, Galileu, Descartes e Newton), fazer ciência consiste em matematizar e formalizar, eliminando da linguagem as considerações implícitas, tendo estes elementos da linguagem natural como equívocos ou inadequadas ao discurso científico.

Veja o que Perelman diz da metafísica e da ciência moderna sobre o discurso declarativo como única forma de descrição da linguagem:

“Negar as outras formas de discurso, ou a desvalorizá-las como fazia Platão, acusando de sofístico todo o uso linguístico não apoiado na essência, na definição, na clareza a priori” (Perelman, citado em Meyer, 1992: 120).

Apesar do ostracismo imposto pelas regras da metafísica quando realçadas pela ‘linguagem’ adotada pela ciência moderna, temos na história um outro tipo de abordagem linguística do discurso: a retórica.

A primeira referência a retórica remonta ao século V a.C, tendo em dois sicilianos (Corax e Tisia) os seus idealizadores, por causa de Hiéron, um certo tirano de Siracusa, que, segundo a lenda, teria proibido os seus súdito de utilizar a fala.

A Retórica cresceu em importância na democracia ateniense, visto que, saber falar para persuadir e convencer nas assembleias, tribunais, praças públicas, etc transformou-se em necessidade.

Era preciso a quem fizesse o uso da fala saber convencer o interlocutor da pertinência de sua abordagem. Por fim, os Sofistas, que se auto intitulavam ‘mestres de Retórica’ os seus principais representantes.

Aristóteles ao abordar a Retórica, transforma a ‘técnica de persuasão’ em ciência quando dedica três livros a Retórica, ao compor um conjunto de conhecimentos, categorias e regras.

Essencialmente, Aristóteles demonstrou que a Retórica visa criar meios de persuadir um auditório acerca de uma determinada matéria. Sem fixar-se naquilo que é demonstrável ou analítico, a Retórica tem o que é verossímil ou provável como seu objeto, através de uma natureza puramente discursal (dialética).

O declínio da Retórica teve início no final do século XVI num processo que estendeu-se até o século XIX, que marca o seu desaparecimento. Ela perdeu a influência e sofreu modificações: perdeu o seu objetivo pragmático, deixando de aplicar-se ao persuadir para aplicar-se ao ensino de ‘belos’ discursos.

Tal declínio deve-se a ascensão do pensamento burguês através da evidência pessoal do protestantismo, racional do cartesianismo ou sensível do empirismo (Perelman 1993: 26). Este processo é marcado pelo racionalismo de Descartes, quando erigiu a evidência em critério de verdade. Ele excluiu a argumentação do campo do saber geral e da filosofia em particular. Para ele evidência só através da demonstração, e nunca através da discussão (Perelman 1987: 264).

Mas, qual a relação entre a Retórica, a Metafísica e a linguagem da ciência moderna com a abordagem a Carta de Paulo aos Romanos? A Retórica como uma ‘ciência’ da argumentação de modo a persuadir e convencer o interlocutor teve o seu ápice entre os Gregos e Romanos, sociedade que Paulo, como cidadão Romano fazia parte, e que acabou por influenciar o estilo de composição de suas cartas.

Para uma melhor compreensão dos escritos de Paulo, é preciso utilizar como ferramenta de interpretação de texto e contexto elementos da Retórica. É plenamente verificável que o método de ensino de Paulo é segundo a arte do bem falar, de modo que ele procurava persuadir e convencer os seus interlocutores

As várias condições que Perelman enumera como sendo necessárias a argumentação (Retórica) são plenamente observáveis nas Cartas de Paulo. Paulo sempre:

  • Situa e insere- o seu discurso em um contexto determinado e dirige-se a um auditório determinado;
  • Paulo como orador, através do seu discurso procurava exercer uma ação (de persuasão ou convicção) sobre o auditório;
  • Os interlocutores precisam estar dispostos a escutar, ou seja, a sofrer (aceitar)a ação do orador;
  • Querer persuadir implica renúncia por parte do orador em dar ordens ao auditório, procurando antes, a sua adesão intelectual;
  • Paulo, além do estilo argumentativo, que nada tem a ver com a verdade do evangelho, aponta e defende a verdade do evangelho desvinculado do seu conhecimento humano ou do próprio uso da Retórica;
  • Ao argumentar, Paulo demonstra que é tão possível defender uma tese como a sua contrária. Aplicação prática do exposto por: (Perelman, 1987: 234).

A argumentação (Retórica) de Paulo é distinta da demonstração (lógica), visto que, a concepção da argumentação insere a noção de auditório “O conjunto daqueles que o orador quer influenciar mediante o seu discurso” (Perelman, 1987: 237). O ‘auditório’ de Paulo é os cristãos, e ele conhecia os valores e as teses do seu auditório em especial.

Paulo era versado na Retórica, uma vez que ele não apresenta erros como orador, que é a petição de princípio, que segundo Perelman é: “Supor admitida uma tese que se desejaria fazer admitir pelo auditório” (Perelman, 1987: 239-240). Durante as suas exposições, Paulo trabalha as teses e valores do seu auditório (cristãos), mesmo quando constituído de apenas uma ou algumas pessoas (cartas pastorais e cartas as igrejas), através do questionamento, técnica muito utilizada por Sócrates em seus diálogos platônicos. (Perelman, 1987: 240).

O Capítulo 6 é composto por frases argumentativas, e, portanto, elas não devem ser consideradas ou confundidas com frases conclusivas ou afirmativas.

Quais as diferenças entre frases argumentativas, conclusivas e afirmativas? Como interpretá-las?

Um exemplo claro de frase afirmativa é: “E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” ( 1Jo 1:5 ). O apóstolo João é quem trabalha muito com frase afirmativas, ou por vezes declarativas.

Ao relembrar a mensagem anunciada por Cristo, João faz menção de uma frase declarativa e afirmativa: Deus é luz! Tais frases são utilizadas para evidenciar uma verdade inconteste, ou para declarar algo acerca de alguém.

Por exemplo: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje e eternamente” ( Hb 13:8 ). Temos uma verdade e uma declaração acerca de Cristo Jesus. Estas frases podem ser tomadas de maneira isolada do texto e contexto que não trarão grande prejuízo ao leitor.

Ao citar Hb 13:8 é quase impossível alguém intentar negar a imutabilidade de Cristo, embora há quem intente.

As frases afirmativas, declarativas constituem-se premissas que dão sustentabilidade às frases argumentativas e conclusivas.

O apóstolo Paulo é dado a linguagem argumentativa, visto que, o seu discurso visa convencer ou persuadir, seja qual for os seus interlocutores (judeus ou gentios). Argumentar é fornecer argumentos e razões a favor ou contra uma determinada tese ou matéria.

A linguagem de Paulo é segundo a retórica dos Gregos e dos Romanos, que foi concebida como a arte do bem falar, embora a doutrina apregoada por Paulo não tenha se firmado em sublimidade de palavras ou de sabedoria ( 1Co 2:1 ). A arte do bem falar é o falar de modo a persuadir e a convencer através da dialética e tópica, ou seja, uma arte no conduzir o diálogo e a exposição de temas controversos.

A arte do bem falar trabalha com operadores argumentativos que a língua dispõe. Estes dispositivos são designados operadores e conectivos argumentativos. Por causa destes operadores argumentativos, os enunciados de uma frase ou oração, embora tenha uma significação própria do ponto de vista lógico, acaba por divergir quando analisadas do ponto de vista argumentativo.

Vejamos o seguinte exemplo:

a) “Ora, a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra até que ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés?”;

B) “Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?” ( Hb 1:13 -14).

Temos dois enunciados que se analisados do ponto de vista lógico e argumentativo, somente o ponto de vista argumentativo faz com que o segundo enunciado complemente o primeiro. Observe: a pergunta ‘b’ quando tida como um enunciado de cunho lógico somente carece de respostas: Os anjos são ou não ministros enviados a servir em favor dos santos?

Porém, quando analisadas argumentativamente, os operadores argumentativos transformam simples premissas que conduzem a uma única conclusão, diferente do que é próprio a abordagem lógica (verdadeiro – falso).

Desta forma, verifica-se que o enunciado ‘b’ exerce somente a função de enfatizar a divindade de Cristo, sem a pretensão de especificar qual o ‘serviço’ desenvolvido pelos anjos.

Os operadores argumentativos aplicados aos enunciados transforma-os em premissas que conduzem a uma única conclusão, posicionando o enunciado numa certa direção que implicam em conclusões específicas.

Já os conectores argumentativos são dispositivos (advérbios, conjunções e locuções de subordinação ou de conjunção, etc.) que permitem a conexão ou a ligação recíproca de dois ou mais enunciados. Numa argumentação, os conectores podem ligar as premissas entre si, as premissas com a conclusão e a conclusão com as premissas.

Bibliografia: Retórica e Argumentação, Paulo Cesar, Universidade da Beira Interior, 95/96.

 

As argumentações deste capítulo devem ser analisadas segundo o que Paulo demonstrou nos versos 12 à 19 do capítulo 5, da mesma forma que o capítulo 3, versos 23 ao capítulo 5, verso 11, deveriam ser analisados com base no exposto nos versos 21 à 22 do capítulo 3.

Ao declarar que a justiça de Deus é pela fé em Cristo ( Rm 3:21 -22), Paulo apresenta um vasto repertório de argumentos no intuito de demonstrar e convencer alguns dos cristãos da validade do exposto, e, para demonstrar que os seus argumentos não comportam mais que uma conclusão, ele apresenta a seguinte conclusão: “Sendo, pois, justificados pela fé…” ( Rm 5:1 ), e no que ela implica: “… temos paz com Deus…” ( Rm 5:1 ).

A exposição do verso 1 do capítulo 6 segue o mesmo molde do exposto acima. Neste verso o apóstolo simplesmente antecipa-se a possíveis ‘contradizentes’, demonstrando que, qualquer argumento contrário ao que ele haveria de expor, não chegaria a uma conclusão válida segundo a verdade do evangelho, que é conforme o exposto acerca de Adão e Cristo ( Rm 5:12 -19).

O verso 1 deste capítulo fundamenta-se no verso 20 do capítulo 5, onde fica claro que ‘onde o pecado abundou, superabundou a graça’, ou seja, a graça já foi demonstrada abundante (passado) em Cristo (na sua morte), não sendo mais necessário que alguém procurasse ‘promover’ a graça (para que a graça aumente).

O pecado abundou sobre os nascidos em Adão, porém, a graça de Deus demonstrou-se superabundante por intermédio de Cristo, nosso Senhor. Qualquer tentativa humana em promover a graça, é inócua, visto que, ela já foi demonstrada em plenitude (superabundou), quando Cristo morreu pelos homens, sendo eles ainda pecadores ( Rm 5:8 -10).

 

Mortos com Cristo

8 Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos;

Os versos 1 à 6 traz o leitor a seguinte conclusão: o cristão já morreu com Cristo (juntamente). Observe que Paulo inclui-se na narrativa ao demonstrar que, ele e os destinatários da carta, morreram com Cristo.

Até o verso 2 deste capítulo o apóstolo tão somente fez referência à morte de Cristo, demonstrando que, Ele foi entregue e morto por causa dos pecados dos homens que foram gerados em Adão ( Rm 4:25 ). As questões acerca da morte de Cristo, que reconciliou os que creem com Deus, são plenamente respondidas ( Rm 5:10 ), porém, como se deu a justificação dos que creem, está questão é respondida através dos versículos que demonstram que os cristãos também morreram com Cristo.

O verso 8 é um enunciado argumentativo por causa dos conectores argumentativos (ora, se e que), porém, o enunciado apresenta o seguinte pressuposto: Já morremos (os cristãos) com Cristo.

Em primeiro lugar, o apóstolo demonstrou que Cristo morreu ( Rm 5:8 ) (argumentação segundo valores intrínsecos a ele e seus interlocutores: a fé no evangelho). Todos os cristãos sabiam que Cristo havia morrido na cruz do calvário! Temos na argumentação uma premissa: Cristo morreu.

Logo em seguida, Paulo apresenta outro enunciado argumentativo, do qual podemos extrair a seguinte premissa: todos os cristãos estão mortos para o pecado ( Rm 6:2 ). Após apresentar um novo enunciado argumentativo, Paulo procura certificar-se de que todos possuíam o mesmo conhecimento: “Ou não sabeis que…” ( Rm 6:3 ), de que o batismo do cristão representa a sua morte com Cristo.

Dai segue-se o seguinte raciocínio:

a) Cristo morreu (premissa 1);

b) Os que creem morreram com ele para o pecado (premissa 2 – é o que o batismo representa);

c) surge a conclusão ao relacionar a premissa 1 com a premissa 2: Como Cristo morreu e os cristãos também morreram, logo, assim como Cristo ressurgiu dentre os mortos, os cristãos também ressurgiram com Ele ( Cl 3:1 ).

Mas, por que o versículo aponta que com Cristo viveremos (futuro), e não que com ele vivemos (presente)? Por causa do exposto no verso 5, onde o apóstolo destaca a semelhança com Cristo. Ou seja, os cristãos foram plantados juntamente com Cristo na semelhança da sua morte para que os cristãos alcancem a semelhança do Cristo ressurreto, o que ocorrerá quando o que é mortal se revestir da imortalidade (futuro).

Hoje o cristão vive e anda em Espírito, pois o corpo do pecado foi desfeito na cruz do calvário, porém, só alcançará a semelhança da ressurreição de Cristo, quando da manifestação dos filhos de Deus ( Rm 8:19 ), que serão semelhantes a Cristo.

Desde o momento em que o homem crê, ele passa a viver e andar segundo a vida concedida por Deus, porém, este versículo destaca que a vida com Deus é sempiterna (viveremos = habitaremos para sempre). “Ora se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos”, ou seja, o viveremos indica a eficácia da salvação poderosa providenciada por Deus e manifesta na morte de Cristo (graça superabundante).

 

9 Sabendo que, tendo sido Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte não mais tem domínio sobre ele.

No verso três Paulo, lembra os cristãos que todos foram batizados na morte de Cristo “Ou não sabeis que…” (v. 3), e nos versos 6 e 9, ele demonstra que todos tinham um conhecimento em comum “Pois sabemos isso (…) Pois sabemos que…” (vs. 6 e 9).

Os cristãos sabiam que Cristo morreu (v. 3), e que havia ressuscitado dentre os mortos, e que Ele jamais voltaria a morrer novamente. Cristo jamais voltará a se sujeitar a passar pela paixão da morte, uma vez que ela foi vencida na cruz do calvário.

 

10 Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus.

O verso 10 complementa o verso anterior. Paulo reafirma que, quanto a ter morrido, Cristo morreu uma só vez por causa do pecado da humanidade decorrente de Adão. Porém, com relação a vida decorrente da ressurreição, Ele vive para sempre à destra de Deus.

Este verso demonstra que, se os cristãos realmente criam que efetivamente morreram à semelhança de Cristo, isto significava que eles também morreram de uma vez (não é preciso morrer outra vez) e para sempre para o pecado. Da mesma forma, quanto a viver, viverão para sempre com Deus à semelhança de Cristo “…cremos que também com ele viveremos” (v. 9).

 

11 Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor.

Paulo procura conscientizar os seus leitores a considerarem (Retórica perfeita) que estavam mortos para o pecado e vivos para Deus. “Assim também…” remete as considerações apresentadas anteriormente.

Ou seja, da mesma maneira que ‘conheciam’ que Cristo morreu uma única vez por causa do pecado e foi sepultado, os cristãos deveriam considerar estarem mortos para o pecado e vivos para Deus em Cristo Jesus.

Esta relação entre a morte de Cristo e a morte dos cristãos, e a vida de Cristo e a nova vida dos cristãos Paulo Já havia estabelecido no verso 8, porém, discorre de forma a não deixar dúvidas quando a morte dos cristãos para o pecado, e ressurreição deles para vida, por meio de Cristo Jesus.

Considerar é ter em conta, ou seja, é andar conforme a nova vida alcançada “…assim andemos nós também em novidade de vida” (v. 4). Paulo não recomenda um faz de conta ao pedir que os cristãos considerassem estarem mortos para o pecado e vivos para Deus. Eles deviam contar com a nova vida e descansar por estarem de posse dela (regeneração), porém, andarem de modo digno da nova condição alcançada graciosamente (comportamento).

 

12 Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências;

Os versos 12 e 13 não devem ser considerados como uma determinação (ordem), pois é próprio à retórica a renúncia, pelo orador, a dar ordens ao auditório.

A conjunção coordenativa conclusiva (portanto) demonstra que todo o enunciado (vs 12 e 13) depende das considerações expostas anteriormente (vs 9- 12), ou seja, o verso 12 não é uma ordem direta e inflexível (Não reine.), como se o homem possuísse domínio sobre o pecado (isto considerando o pecado quanto a figura de senhor).

A partir do momento que o cristão considera que está morto para o pecado (v. 11), automaticamente estará cônscio de que o pecado não exerce domínio sobre ele (reinado), e que já não cumpre com as obrigações do pecado.

O pecado não exerce domínio (reine) sobre o corpo mortal dos que creem, de maneira que o cristão ‘deva’ se submeter as suas concupiscências (do pecado).

Este verso apresenta a mesma ideia do verso 14: a partir do momento que o homem passa a estar debaixo da graça, é porque o corpo do pecado foi desfeito (v. 6) e a lei não exerce qualquer influência sobre ele. O pecado deixa de ter domínio, e portanto, já não reina o pecado sobre o corpo mortal dos que creem.

Este versículo apresenta uma nova realidade aos cristãos, e não uma determinação do apóstolo aos cristãos.

 

13 Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça.

A nova condição em Cristo permite aos cristãos não apresentar os seus membros (corpo mortal) ao pecado (antigo senhor) por instrumento de iniquidade. Diante da nova realidade decorrente da morte com Cristo que é a do pecado não exercer domínio (não reine) sobre os seus ouvintes, Paulo apresenta argumentos que demonstram ser possível também andar em novidade de vida.

Os que morreram com Cristo passaram à condição de vivos para Deus, uma vez que rejeitaram o pecado através da fé em Cristo, e podiam apresentarem-se a Deus, visto que estavam de posse da nova condição: vivos dentre mortos.

Apresentar-se a Deus refere-se ao serviço voluntário do servo ao seu novo Senhor, ou seja, é estar consciente de que os seus membros (corpo) deve estar a serviço do seu Senhor como instrumento de justiça.

Observe que a função de instrumento é estabelecida através de um comparativo: ‘como’ instrumento. Os homens não são instrumentos, porém, podem entregar-se ‘como’ instrumento de iniquidade ou de justiça. Um instrumento não tem iniciativa própria, ficando na dependência de quem o usa. Este comparativo nos remete à carta de Paulo aos Gálatas: “Estes se opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” ( Gl 5:17 ).

Um instrumento não possui vontade própria, e por isso carne, e Espírito se põem, para terem os homens como instrumentos. Desta forma os homens como instrumento não fazem o que desejam, antes, são utilizados como instrumento, ou da carne para a iniquidade, ou do Espírito para a justiça.

Um instrumento não possui vontade própria, da mesma forma se estabelecermos este comparativo a pessoa de um escravo. Apesar de um escravo possuir ‘vontade’ por ser um ser humano reduzido a servidão, a condição de servidão faz com que o escravo não passe da condição de um objeto.

Um escravo era tido como um instrumento de produção (máquina), e a sua vontade não era levado em conta, visto que:

a) um escravo não podia possuir propriedades (bens);

b) tudo quanto produz pertence por direito ao seu Senhor, e;

c) em última instância, o escravo não passa da condição de propriedade do seu senhor.

A única certeza de um escravo quanto a receber alguma coisa desta vida era a morte, que o tornaria livre do seu senhor. Desta forma, a morte seria o único salário (recompensa) que um escravo teria direito, pois, como ‘coisa’ que era, um escravo não podia ter posses ou herdades.

 

14 Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.

Após saber ou conhecer que Cristo ressurgiu dentre os mortos e que a morte não tem domínio sobre Ele, resta que o pecado não tem domínio sobre os cristãos, uma vez que ressurgiram com Cristo (v. 9) “Portanto, se fostes ressuscitados com Cristo…” ( Cl 3:1 ).

O fato de os cristãos terem sido batizados com Cristo na sua morte, e ressurgido dentre os mortos para a glória do Pai (v. 4), tirou-os da condição de sujeição a lei, para estabelecê-los debaixo da graça de Deus.

A premissa é: o pecado não tem domínio sobre o cristão. Mas, tal premissa é introduzida por um operador e conectivo argumentativo: porque – conjunção coordenativa explicativa. Ou seja, a premissa (o pecado não terá domínio sobre vós) do verso 14 é introduzida como uma explicação sobre porque o cristão deve considerar-se morto para o pecado e vivo para Deus.

 

 

Jesus Cristo Crucificado

Paulo foi instruído (versado) na arte do bem falar, porém, as suas mensagens não estavam apoiadas e nem consistiam em conhecimento humano (retórica). O tema das suas mensagens era e é a cruz de Cristo “E EU, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado ( 1Co 2:1 -2).

Demonstramos anteriormente que (pág. 17), através da arte do bem falar, Paulo trabalhava a concepção dos ouvintes através da persuasão, porém, em momento algum ele esteve apoiado em elementos provenientes da sabedoria humana (retórica) “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiam em palavras persuasivas de sabedoria humana…” ( 1Co 2:4 ).

Ao expor o evangelho de Cristo, Paulo não estava confiado na Retórica (sublimidade de palavras ou palavras persuasivas de sabedoria humana), antes estava cônscio de que a mensagem do evangelho é poder de Deus ( 1Co 2:5 ; Rm 1:16 ).

Paulo demonstrava efusivamente que a mensagem do evangelho é Espírito e poder (vida), para que os cristãos não depositassem confiança em meras palavras de conhecimento humano “O Espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse são Espírito e vida ( Jo 6:63 ) compare: “A minha palavra, e a minha pregação, não consistiam em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder ( 1Co 2:5 ).

Observe a relação entre ‘poder’ e ‘vida’: a vida eterna decorre do poder que emana de Deus por meio da fé em Cristo, o Verbo de Deus, que é a vida de Deus concedida graciosamente aos homens ( Jo 1:4 ).

Jesus, ao falar de si mesmo, apresentou-se como a vida de Deus concedida aos homens ( Jo 14:6 ), e Paulo ao testificar d’Ele, apresenta-O como ‘poder de Deus’, visto que, somente através do poder de Deus (evangelho) os homens alcançam a vida eterna.

Observe a primeira carta aos Coríntios, onde é possível inferir que as divisões entre os cristãos em vários partidos eram provenientes do entendimento de alguns que estabeleciam aqueles que detinham maior conhecimento humano em uma posição de preeminência sobre os demais ( 1Co 1:13 ).

O que percebemos através dos textos bíblicos é que Paulo não promovia estas desavenças. Paulo procurava demonstrar que todos os cristãos foram agraciados e enriquecidos em Cristo, em toda palavra e conhecimento, de modo que, nenhum dom faltava aos cristãos ( 1Co 1:5 ). Se todos foram de igual modo enriquecido em conhecimento e sabedoria, porque estavam se gloriando nos homens se tudo pertencia a eles? ( 1Co 3:21 ).

Se todos os cristãos foram enriquecidos em Cristo em tudo, para quê focar elementos provenientes do conhecimento humano “…os quais são vãos” ( 1Co 3:20 ), se a maior riqueza está na cruz de Cristo?

Paulo demonstra que nada propôs saber aos cristãos, a não ser a Cristo, e Este crucificado “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” ( 1Co 2:2 ), ou seja, o apóstolo não apresentou aos cristãos elementos de sabedoria humana, visto que, tal sabedoria é vã e não vem do alto, conforme também atesta o apóstolo Tiago ( Tg 3:14 -15).

As dissensões nas igrejas eram provenientes daqueles que estavam equivocados em sua carnal compreensão. Tinham a si mesmos por sábios, mas esqueciam que a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus ( 1Co 3:18 -19).

Além daqueles que consideravam a si mesmos por sábios segundo a sabedoria deste mundo, havia outros que se gloriavam naqueles que se diziam sábios, o que potencializava as contendas entre os cristãos “…portanto, ninguém se glorie nos homens!” ( 1Co 3:21 ).

Através do exposto por Paulo aos cristãos de Coríntios, verifica-se que a mensagem do evangelho não se mescla à sabedoria humana. Enquanto esta é vã, aquela promove a vida eterna.

Quando Paulo escreveu que a sabedoria deste mundo é vã, ele não estava descartando de todo o conhecimento humano. É salutar que os cristãos sejam instruídos no conhecimento secular, porém, é preciso compreender que o homem jamais se achegará a Deus por meio deste conhecimento.

Enquanto na condição de ‘peregrinos’ nesta vida, o cristão precisa instrui-se para melhor relacionar-se com os concidadãos deste mundo, mas deve estar ciente de que a instrução deste mundo não o torna apto a compreender as coisas do reino de Deus.

Alguém pode perguntar: por quê? A Bíblia apresenta vários motivos:

  • Ter um diploma ou ser versado em ciências humanas não habilita homem algum a compreender a mensagem do evangelho “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” ( 1Co 2:14 );
  • A mensagem do evangelho é loucura para os sábios deste mundo “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem…” ( 1Co 1:18 );
  • A sabedoria deste mundo não promove o conhecimento de Deus “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria…” ( 1Co 1:21 );
  • O evangelho apresenta Deus se revelando aos homens por intermédio do seu Espírito, mas nenhum dos ‘príncipes’ deste mundo conheceu a Cristo, embora fossem sábios e entendidos “A qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu (…) Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito…” ( 1Co 2:8 -10).

O que observamos em Paulo é que, apesar de ele ter sido instruído nas questões seculares, ele não usou desta sabedoria para se impor sobre os demais cristãos. Porém, não podemos negar que, ao expor o evangelho em suas cartas, Paulo utiliza elementos da retórica para melhor expor a verdade do evangelho.

Mas, quando comparamos as cartas de Paulo e Pedro, verificamos que, com relação à mensagem apregoada, as cartas de Pedro não ficam aquém do exposto pelas cartas Paulinas.

O problema quanto à sabedoria deste mundo surge quando alguém se arroga na posição de sábio e mestre, porém, firma-se na sabedoria deste mundo, e não na sabedoria que é do alto, proveniente da revelação de Deus por intermédio do evangelho ( 1Co 3:18 -20).

O homem movido pelo conhecimento deste mundo se vangloria em suas conquistas pessoais e apresentam os seus títulos como troféus. Acaba ensoberbecendo-se contra o seu irmão, e esquece que, as conquistas pessoais deste mundo não tornam ninguém diferente perante Deus “Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” ( 1Co 4:7 ).

Um exemplo claro de como o conhecimento humano interfere na compreensão da palavra do evangelho encontramos na doutrina da justificação.

Muitos estudiosos ao examinar a Bíblia compreendem que a justiça divina é semelhante a apresentada nos tribunais humanos, e estabelecem esta relação pura e simplesmente por causa da palavra ‘justificação’.

Scofield e Bancroft comungam da mesma opinião quando fazem referência à justificação:

“A justificação é o ato judicial de Deus, mediante o qual aquele que deposita sua confiança em Cristo é declarado justo a Seus olhos…” Teologia Elementar, Bancroft, Emery H., Editora EBR, 3º Ed., pág. 255 (grifo nosso), e nota explicativa do rodapé da Bíblia de Scofield com Referências à Rm 3: 28.

Na mesma página, Bancroft dá uma definição ‘bíblica’ para a palavra justificação: “A palavra ‘justificação’, tanto na terminologia religiosa como na linguagem comum, é um termo ligado à lei (…) É termo técnico e forense…”. Destas colocações surge a pergunta: Onde está definido que a palavra justificação é termo técnico e forense? O que se percebe, é que homens versados em ciências jurídicas passaram a adotar o termo ‘justificação’ como sendo um termo jurídico por entenderem que a justiça divina assemelhasse a justiça humana, ou seja, que Deus também trabalha com ‘ato judicial’.

Ledo engano! Isto quando não apresenta contradições em suas definições. Se considerarmos as notas de Scofield, o que é justificação? É um ato judicial ou um ato de reconhecimento divino?

Se considerarmos a Bíblia, verificaremos que os dois conceitos não condizem com a verdade. A Bíblia não trás uma definição, porém, ela apresenta elementos que apontam para a seguinte definição: Justificação resulta de um ato criativo de Deus!

Por que um ato criativo? Por que envolve o poder de Deus. O homem só é justificado (tornar justo, declarar justo, declarar reto ou livre de culpa e merecimento de castigo) quando crê no evangelho e recebe poder para ser feito (criado) novamente (regeneração) um novo homem em verdadeira justiça e santidade ( Jo 1:12 ; Ef 4:24 ).

A necessidade da justificação do homem não é por causa de seus atos, antes por causa da natureza herdada em Adão. Por isso a justificação é de vida, através da ressurreição com Cristo, onde o poder manifesto em Cristo, também se manifesta sobre os que creem “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida ( Rm 5:18 ; Ef 1:19 -20).

Desta maneira, verifica-se que o conhecimento humano não alcança a magnitude da revelação de Deus por meio do evangelho. A sabedoria de Deus não surpreende somente os homens uma vez que a multiforme sabedoria de Deus é revelada aos principados e potestades por intermédio da igreja.

Enquanto o mundo procura sabedoria, o cristão deve fixar-se na mensagem da cruz de Cristo, que é escândalo para os sábios deste mundo, porém, a sabedoria de Deus confunde a sabedoria dos sábios deste mundo, pois o que é anunciado por meio do evangelho constitui-se poder de Deus.

 

Debaixo da graça

15 Pois que? Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? De modo nenhum.

A argumentação apresentada no verso 2 é complementada através deste verso e apresenta a mesma colocação de João e uma de suas cartas: “Qualquer que permanece nele não peca (…) Qualquer que é nascido de Deus não comente pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus” ( 1Jo 3:6 -9).

Sem esquecer que os argumentos deste capítulo fundamenta-se no capítulo 5, do verso 12 ao 21, João apresenta uma figura que ilustra a condição daquele que á nascido de Deus, ou seja, é uma planta plantada por Deus “Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

João apresenta o motivo pelo qual o homem nascido de Deus não peca: porque a semente de Deus permanece nele, ou seja, o que determina o tipo de uma planta é a semente.

A Bíblia apresenta dois tipos de sementes: a corruptível e a incorruptível. Está é a palavra de Deus e aquela refere-se a semente corruptível de Adão, por quem todos os homens pecaram e foram destituídos da glória de Deus por causa da semente de Adão.

Sabemos que uma planta não pode produzir dois tipos de frutos, e nesta ilustração, verifica-se que a planta plantada pelo Pai só pode produzir segundo a semente planta. É um contra senso considerar que a planta que o Pai plantou possa produzir dois tipos de frutos: o bem e o mau.

Segundo o que Paulo apresentou temos:

  • Os mortos para o pecado não podem viver para o pecado ( Rm 6:2 );
  • Ao ser plantado na semelhança da morte de Cristo, o homem é semelhante a Cristo na ressurreição ( Rm 6:5 ). Uma vez que os cristãos já ressuscitaram com Cristo ( Rm 6:8 ; Cl 3:1 ), segue-se que, qual Ele é, os cristãos o são neste mundo “Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” ( 1Jo 4:17 );
  • A única referência às questões comportamentais no capítulo 6 refere-se a “andar em novidade de vida” ( Rm 6:4 ), visto que ‘viver em Espírito’ diz da nova vida proveniente de Deus;
  • Uma vez que os cristãos não estão debaixo da lei, mas da graça, segue-se que o pecado perdeu o seu domínio ( Rm 6:14 ). Como um servo só pode servir a um senhor, conclui-se que é impossível aos que tem a Cristo como Senhor em suas vidas produzir para Deus e para o pecado.

Neste versículo (v. 15) Paulo retoma a abordagem do verso 2, e demonstra que não há como o cristão pecar (De modo nenhum). Paulo demonstra que este saber era comum aos cristãos, visto que eles sabiam que haviam morrido com Cristo (v. 6). Também sabiam que Cristo havia ressuscitado dentre os mortos (v. 9). Mas, no que implica a morte e a ressurreição de Cristo?

Uma vez que o velho homem foi crucificado com Cristo (v. 6), segue-se que, com a ‘morte’ do velho homem, o cristão é declarado justo (v. 7), conforme demonstra o verso 5: “Porque, uma vez que temos sido plantados juntamente com Ele na semelhança da Sua morte…” assim é o cristão, justo e santo ‘na semelhança da Sua ressurreição’ ( 1Jo 4:17 ).

Uma vez que os cristãos já morreram com Cristo e a ressurreição é na semelhança da ressurreição de Cristo, segue-se que aqueles que morrem juntamente com Cristo, de uma vez por todas morrem para o pecado, já que tanto Cristo como os cristãos passaram a viver para Deus por intermédio da ressurreição. Desta forma os cristãos estão assentados nas regiões celestiais em Cristo, por causa da nova condição do homem espiritual gerado em Cristo (v. 10).

Muitos entendem que neste versículo (v. 15) Paulo está perguntado aos seus leitores se é pertinente aos cristãos permanecerem em uma vida de devassidão simplesmente por não terem o freio da lei, uma vez que agora estão na graça.

Mas, não é esta a colocação do apóstolo. É preciso considerar a primeira pergunta: “Pois que?”, que introduz os elementos necessário à compreensão do leitor, quando ler a conclusão: “De modo nenhum”.

Paulo através da pergunta: “Pecaremos porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça?” procurou introduzir uma nova figura que ilustrasse e trouxesse conhecimento aos Cristãos: “Não sabeis vós que…” (v. 16), contrastando com o conhecimento que era comum: “Sabendo isto…” (v. 6 e 9).

Após apresentar Adão e Cristo, o pecado e a graça no capítulo anterior ( Rm 5:12 -21), neste capítulo, a primeira referência à lei encontra-se no verso 15. Através deste versículo Paulo demonstra que a ausência da lei não determina a condição de submissão ao pecado, e sim o fato de o homem ter herdado de Adão tal condição. Antes mesmo de ser instituída a lei, já estava o pecado no mundo ( Rm 5:13 ), o que demonstra que a abundante graça de Deus promove a justificação de vida ( Rm 5:18 ), em contraste à condenação herdada de Adão.

Na justificação, Deus declara o homem livre de pecado e culpa, ou seja, o homem é justo perante Ele. Para receber tal declaração de Deus é preciso que o homem não esteja na condição de sujeição ao pecado, e, para isso, não pode pecar, uma vez que somente os escravos do pecado pecam “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ).

Somente cometem pecado os servos do pecado, ou seja, àqueles nascido da semente corruptível de Adão. Isto porque, segundo o apóstolo João, os que tem em si a semente de Deus, nascidos da vontade de Deus ( Jo 1:12 ), estes não pecam ( 1Jo 3:6 -9).

A frase ‘De modo nenhum (…) Pecaremos…” não é uma determinação divina que o homem deva cumprir como uma lei, antes diz da impossibilidade da nova natureza criada na regeneração através da semente incorruptível pecar.

Por não estarmos debaixo da lei (tutelados) pecaremos? De modo nenhum! Pois que os que morreram e ressurgiram com Cristo, de uma vez morreram para o pecado.

 

16 Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?

A frase ‘De nenhum modo’ pede uma explicação da parte do apóstolo sobre a impossibilidade de o homem pecar quando alcançado pela graça. Tal explicação advém de elementos pertinente à figura do escavo, que é introduzida através da argumentação seguinte “Não sabeis vós…?”.

Não sabeis vós que é impossível servir a dois senhores? Não sabeis vós que a árvore só produz fruto segundo a sua espécie? Ou não sabeis que um fonte não pode jorrar água doce e salgada? ( Tg 3:12 ). Todas estas figuras complementam-se e apontam para os elementos apresentados por Cristo acerca das duas portas e dos dois caminhos.

Como o homem apresenta-se como servo para obedecer ao seu senhor (…a quem vos apresentardes por servos…)? Ou seja, como o homem passa a condição de servo daquele a quem ele obedece (pecado ou obediência)?

A Bíblia é clara sobre este aspecto. Todos os homens quando vem ao mundo através do nascimento natural, segundo Adão, apresentam-se ao pecado para o servir e obedecer. Ou seja, o nascimento natural é a porta larga que dá acesso a um caminho espaçoso que conduz a perdição “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela” ( Mt 7:13 ).

O nascimento segundo a semente corruptível de Adão (natural) é a maneira como o homem se apresenta como servo ao pecado. É o nascimento segundo a vontade da carne, segundo a vontade do varão e do sangue que coloca o homem em sujeição e em obediência ao pecado ( Jo 1:13 ).

Como o homem se apresenta a Deus como servo? Através da obediência a palavra da verdade (evangelho) “…obedecestes de coração a forma de doutrina a que fostes entregues” (v. 17).

 

17 Mas graças a Deus que, tendo sido servos do pecado, obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues.

Paulo agradece a Deus por de modo nenhum ser possível àqueles que morreram e ressurgiram com Cristo pecarem. Graças a Deus, pois outrora os cristãos foram escravos do pecado, mas, agora, em Cristo, por terem obedecido de coração à forma de doutrina a que foram entregue, foram feitos servos da justiça.

 

Servos da justiça

18 E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça.

Esta é a condição daqueles que obedeceram a verdade do evangelho: libertos do pecado e servos da justiça.

É Deus que, por intermédio de Cristo, faz (feitos= criados) os que creem servos da justiça ( Jo 1:12 ).

 

19 Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne; pois que, assim como apresentastes os vossos membros para servirem à imundícia, e à maldade para maldade, assim apresentai agora os vossos membros para servirem à justiça para santificação.

(Falo como homem) – Observe o comentário ao capítulo 3, verso 5. Por causa da fraqueza da carne ou para evidenciar a condição da carne é que Paulo ilustra o tema como se os cristãos judeus ainda estivessem na carne.

Observe que ao falar aos Judeus Paulo se inclui na explicação “Qual é a vantagem do Judeus? (…) E, se a nossa injustiça for causa da justiça de Deus? … (Falo como homem)” ( Rm 3:1 -5).

Da mesma forma, ao escrever aos cristãos da Galácia, Paulo assim diz: “Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito. Irmãos, como homem falo; se a aliança de um homem for confirmada, ninguém a anula nem a acrescenta” ( Gl 3:14 -15).

‘Nós’ quem? Paulo fala acerca da bênção de Abraão aos gentios e da promessa do Espírito aos judeus, e que, tanto Paulo e os cristãos judeus receberam (nós).

Por ter feito referência a sua condição como judeu, ou seja, quando Paulo ainda estava na carne, é que ele introduz a ressalva: falo como homem. Isto demonstra que Paulo jamais quis se valer da sua condição de judeu para anunciar a verdade do evangelho.

Neste versículo Paulo registrou que falava como homem porque no verso 1 do capítulo 4 ele fez referência a seu irmãos na carne “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne” ( Rm 4:1 ), sendo que, as escrituras foram deixadas aos descendentes de Abraão segundo a carne “Ora, não só por causa dele está escrito, que lhe fosse tomado em conta, mas também por nós, a quem será tomado em conta…” ( Rm 4:23 -24).

Em seguida Paulo demonstra que ser descendente de Abraão é ser fraco, visto que, ser descendente de Abraão não é ser filho de Abraão “Porque Cristo, estando nós ainda fracos…” ( Rm 5:6 ). Ser filho de Abraão só é possível por meio da fé.

Desta maneira, ao chegar no capítulo 6, verso 19, Paulo reitera que, falou como homem, por causa da fraqueza da carne dos judeus, que não aproxima homem algum de Deus “Falo como homem, pela fraqueza da vossa carne…” (v. 19).

Compare: ‘nós ainda fracos’ diz de Paulo e dos judeus quando ainda estavam sem Cristo, e ‘pela fraqueza da vossa carne’ diz da condição dos judeus que confiavam da carne (descendência de Abraão) para a salvação, condição que Paulo não mais estava.

Após evidenciar a nova condição daqueles que estão em Cristo (v. 18), Paulo procurou tratar do comportamento dos cristãos judeus, visto que, por ter sido evidenciado que eles não estavam mais tutelados pela lei (v. 14), consideravam Paulo um libertino “Façamos males para que venham bens?” ( Rm 3:8 ).

Ora (pois que), se os cristãos judeus haviam apresentado os seus corpos para servirem à imundície e a maldade através da sujeição à lei, embora as suas ações fossem alvo de louvor por parte dos homens por causa da moral e ética que seguiam, por que não continuar a fazer boas ações e receber de Deus o louvor?

Paulo estabelece um comparativo entre o antes e o depois de aceitarem a verdade do evangelho: “…assim como apresentastes os vossos membros (…) assim apresentai agora os vossos membros …” ( Rm 6:19 ).

Compare:

Na fraqueza da carne, ou seja, na submissão à lei, por acreditar que eram filhos de Abraão (de Deus) por serem descendentes de Abraão, permaneciam filhos da ira e da desobediência, permaneciam carnais.

No poder do Espírito, ou seja, na submissão à graça por meio da fé em Cristo, os judeus cristãos tornaram-se filhos de Abraão, livrando-se da fraqueza da carne e foram criados homens  espirituais Jo 1: 12 e 3: 6.

Por quererem servir a Deus por intermédio da lei, os judeus possuíam uma conduta ilibada se comparado aos outros povos de sua época, porém, esta devoção à lei somente era um serviço à maldade e a imundície. Assim como possuíam uma conduta ilibada diante dos homens por pensarem que era possível servir a Deus por intermédio da lei, agora, libertos da lei e servos da justiça, os cristãos judeus deveriam da mesma forma comportarem-se de modo ilibado e receberiam o louvor de Deus.
Por serem escravos do pecado, tudo o que cumpriam da lei era um serviço à imundície e a maldade, pois o senhor deles continuava sendo a maldade, ou o pecado. Agora, sendo servos da justiça pela fé em Cristo, tudo o que os cristãos realizassem estava sendo realizado em Deus, que preparou as boas obras para que os de novo nascido andassem nelas Ef 2: 10.
Ou seja, se eles não se livrassem da condenação de Adão que os fez filhos da ira e da desobediência, permaneceriam mortos em delitos e pecados, embora as suas ações fossem louvadas pelos homens. Mas, diante dos homens, tais obras não passavam de trapo de imundície, visto que tentava cobrir o velho homem decorrente da natureza de sujeição ao pecado herdada de Adão. Ou seja, agora, livres da condenação de Adão e feitos filhos de Deus, deveriam comporta-se de modo digno da nova condição em Cristo. Embora o que importa é a nova natureza adquirida por meio da fé que opera pelo amor Gl 5: 6, não deveriam entregar-se a devassidão, por não estarem debaixo da lei.

Como os cristãos apresentaram os seus membros para servir à justiça? Por intermédio da fé na mensagem do evangelho, que é poder de Deus, que faz dos homens que creem filhos de Deus.

Após ter sido liberto do pecado, os cristãos foram feitos servos de Deus, e tudo que produzem pertence àquele que os santificou “… para santificação” (v. 19). Não é a prática do que é puro e bom que promove a santificação dos cristãos como alguns pensam, antes, os cristãos foram santificados pela fé em Cristo At 26: 18.

Quando a bíblia diz que é preciso servir à justiça “…para santificação”, ocorre o que chamamos em português de figuras de palavras, e neste caso em específico temos a ‘antonomásia’ ou a ‘perífrase’, que consiste em uma transposição de significado de uma palavra que usualmente significa uma coisa para ser usada com outro significado.

Neste versículo temos a palavra santificação, que é a obra de Cristo no homens que creem, sendo usada em lugar do nome do autor da santificação, dada a relação de semelhança ou possibilidade de associação entre eles. O cristãos serve à justiça ‘para Cristo’, aquele que santifica, ou seja, o autor da santificação.

metonímia: consiste numa transposição de significado, ou seja, uma palavra que usualmente significa uma coisa passa a ser usada com outro significado. A metonímia explora a relação lógica entre os termos. Ex.:
Não tinha teto em que se abrigasse (teto em lugar de casa).

 

20 Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça.

Este versículo expressa o principio: “Nenhum servo pode servir dois senhores” (Lucas 16: 13). A sujeição de um servo a um senhor o torna livre de qualquer outro senhor.

Servo do pecado, livre da justiça. Servo da justiça, livre do pecado. Como servos da justiça os cristãos devem servi-la segundo aquele que santifica. É o mesmo que: “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” (Gálatas 5: 25), ou seja, se servimos a justiça por vivermos em Espírito, devemos ser puros e bondosos para andarmos em Espírito, andarmos segundo a vontade de Deus.

 

21 E que fruto tínheis então das coisas de que agora vos envergonhais? Porque o fim delas é a morte.

Como entender este versículo? Qual era o fruto (resultado) que os judeus tinham, e que agora, por estarem em Cristo, era causa de vergonha? Que ‘coisas’ eram estas que o fim delas é a morte?

Este versículo é melhor traduzido desta maneira: “Naquele tempo que resultado colhestes? Somente as cousas de que agora vos envergonhais; por que o fim delas é a morte” Ed. Revista e Atualizada no Brasil, SBB.

Que fruto os judeus colheram por terem se escudado no sobre nome judeu, repousado na lei e se gloriado em ‘saber’ a vontade de Deus? Nenhum, visto que, a verdadeira circuncisão é a do coração, no Espírito, não na letra (lei) Rm 2: 17 e 29.

O que eles ensinavam podia livrar-lhes da condenação em Adão? Não! Não bastava professar serem filhos de Deus por serem descendentes de Abraão Mt 3: 9, antes precisavam produzir frutos digno de arrependimento, ou seja, professar o nome de Cristo que estava trazendo o reino dos céus aos homens.

Era motivo de vergonha aos judeus terem assumido a posição de mestres, quando na verdade estavam igualmente perdidos como os demais homens, pois todos pecaram e destituídos estavam da glória de Deus Rm 2: 19- 23. Os judeus não estavam em uma posição privilegiada se comparada a dos gentios Rm 3: 9, porém, os seus discursos eram de falsidade e promovia a morte.

 

22 Mas agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna.

Paulo demonstra que, por estarem em Cristo, agora estavam libertos do pecado e em sujeição à justiça.

Os cristãos judeus por serem servos da justiça deveriam professar (fruto) a verdade do evangelho, e não mesclar a lei ao evangelho.

Observe que ‘fruto’ neste versículo não se refere a comportamento, visto que comportamento é ‘semear’, conforme vemos em Gálatas 6: 7- 8.

De igual modo, o Fruto do Espírito não diz de comportamento humano, antes diz daquilo que o Espírito produz naqueles que vivem e andam em Espírito, por terem crucificado a carne com as suas paixões e concupiscência Gl 5: 22- 24.

O fruto que os cristãos judeus precisavam produzir era o fruto dos lábios que professa àquele que os santificou, ou seja, a Cristo “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13: 15). Compare: Pv 18: 20; Is 57: 19; e Mt 7: 20.

“Do fruto da boca de cada um se fartará o seu ventre” Pv 18: 20, ou seja, é o mesmo que: “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca.” (Mateus 12: 34), visto que, segundo aquilo que professa um homem podemos saber se ele é uma árvore boa ou má Mt 7: 18. Se ele é ou não nascido da semente incorruptível, que é a palavra de Deus.

Segue-se que ‘a morte e a vida está no poder da língua’, visto que aquele que professar a Cristo receberá poder para ser feito filho de Deus Jo 1: 12, e aquele que não professar, já está condenado à morte eterna Pv 18: 21; Jo 3: 18.

Desta forma temos: tenha o vosso fruto, ou seja, professe a Cristo, e por fim, obtenha a vida eterna.

23 Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor.

Segue o motivo pelo qual é preciso ao homem professar a Cristo como Senhor: o salário do pecado é a morte, ou seja, o escravo do pecado só terá a morte como possessão.

Em contra partida, o dom gratuito de Deus para aqueles que tem o seu ‘fruto’ para a santificação é a vida eterna.




Efésios 2 – Vivificados com Cristo

Quando o homem vem ao mundo, está morto para Deus. Este fato não depende de conduta, tendências, propensão, vontade, etc. Todos quantos nascerem, nascem sob a égide do pecado, sob a égide da ofensa de Adão.


Introdução

Aqueles que já tiveram um contato com o comentário feito ao capítulo um de Efésios terão maior facilidade em assimilar os conceitos que aqui serão apresentados.

O capítulo um da carta de Paulo aos cristãos em Éfeso apresenta várias ideias que são detalhadas a partir do segundo capítulo.

Para início de nosso estudo, faremos um breve resumo do que já estudamos.

  • As cartas de Paulo possuem um público alvo pré-definido: os cristãos. Em decorrência destas características das Epístolas Paulo utiliza várias vezes o pronome “nós”;
  • Logo após a apresentação do remetente e saudações aos destinatários da carta, Paulo passa a agradecer a Deus pelas bênçãos recebidas;
  • Para descrever a nova condição que os cristãos alcançaram em Cristo Jesus, Paulo utiliza a maioria dos verbos que fazem referência à ação divina no pretérito perfeito: abençoou, elegeu, predestinou, etc. Estes verbos no pretérito apontam para a nova condição dos cristãos no presente: Eles são abençoados, eleitos, predestinados, redimidos, etc “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas…” ( Ef 1:7 ); O verbo ter indica a nova condição dos cristãos no presente, e a desinência do verbo (-mos) indica que o apóstolo inclui-se entre os que alcançaram a redenção;
  • Após agradecer a Deus, Paulo procura conscientizar os Cristãos da nova condição que eles haviam adquiridos em Cristo “Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa…” ( Ef 1:13 );
  • Por último, analisemos a oração de Paulo:

a) Paulo não cessava de agradecer a Deus pela vida dos novos cristãos;

b) Paulo passa a orar a Deus para que os olhos do entendimento dos cristãos fossem iluminados para que soubessem:

1. Qual a esperança da vocação divina;

2. Qual a riqueza da glória da herança divina nos santos, e;

3. Qual a suprema grandeza do poder de Deus para com todos.

Sobre o terceiro quesito que Paulo orou a Deus para que os cristãos conhecessem, ele demonstra que Deus manifestou a suprema grandeza do seu poder ressuscitando a Jesus Cristo.

“E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, Que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos” ( Ef 1:19 -23).

A grandeza do poder de Deus foi manifesto em Cristo. Sobre nós, os que cremos está a operação da força do mesmo poder que atuou sobre Cristo.

O capítulo dois de Efésios é uma continuação precisa dos versículos acima.

Observe:

A sobre excelente grandeza do poder de Deus foi manifesto naqueles que creem em seu nome “E qual a sobre excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder…”, da mesma forma que a sobre excelente grandeza do poder de Deus foi manifesto em Cristo Jesus, ressuscitando-o dentre os mortos “… que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus…”.

Deste ponto continua o nosso estudo.

Veremos o capitulo dois de Efésios sob o prisma da declaração de Paulo aos cristãos em Roma:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 )

Ele enfatiza que o evangelho é poder de Deus para os que creem. Estudaremos a transformação que ocorre naqueles que são agraciados com este poder.

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 )

 

 

A Condição sob o Pecado

1 E VOS vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados,

Paulo passa a demonstrar aos cristãos que todos foram vivificados por estarem em Cristo Jesus.

A sobre excelente grandeza do poder de Deus vivificou os cristãos “E vos vivificou…”. Antes de demonstrar os elementos pertinentes a operação do poder de Deus Paulo passa a falar da condição anterior a nova vida em Cristo “..estando vós mortos…”.

O que define o homem como morto ou vivo diante de Deus?

É impossível ao homem assumir as duas condições (vivo e morto) ao mesmo tempo diante de Deus. Ou se está morto ou se está vivo.

Quando o homem vem ao mundo, está morto para Deus. Este fato não depende de conduta, tendências, propensão, vontade, etc. Todos quantos nascerem, nascem sob a égide do pecado, sob a égide da ofensa de Adão.

Quando o homem está morto para Deus ele se encontra na condição de vivo para o mundo.

A condição de vivo para o mundo é em decorrência do pecado que herdamos de Adão e o salmista Davi assim diz: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” ( Sl 51:5 ).

Para o homem passar a viver para Deus necessariamente ele precisa morrer para o mundo. Isto só é possível após o homem ter um encontro com a cruz de Cristo. Após o encontro com Cristo, o homem morre para o mundo e passa a viver para Deus.

“Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor” ( Rm 6:11 );

“Nem tampouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça” ( Rm 6:13 );

“Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” ( Cl 3:3 ).

Desta forma devemos nos conscientizar que por estarmos vivos para Deus estamos mortos para o mundo. Aqueles que estão vivos para o mundo, estão mortos para Deus.

No passado, todos estavam mortos em ofensas e pecados, e hoje, os cristãos estão vivos em Cristo.

Há uma tênue diferença entre ofensa e pecado. Esta diferença é facilmente percebida ao lermos o capítulo cinco da carta aos Romanos.

Se observarmos as referências bíblicas, veremos que ofensa geralmente aponta para o pecado decorrente de Adão “E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação” ( Rm 5:16 ).

A ofensa em Adão (um só que pecou) trouxe juízo e condenação sobre toda a humanidade. Já o dom gratuito de Deus veio de muitas ofensas para a justificação.

A ofensa de Adão deixou a humanidade diante de Deus na condição de mortos. Por quê? Por que a determinação divina a Adão foi clara: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:17 ).

Na determinação divina vem incluso a lei, o juízo e a condenação: Não comerás – a lei; No dia em que dela comerdes – o juízo foi estabelecido no momento que comeram do fruto proibido; certamente morrerás – a sentença é morte.

Em decorrência desta condenação Jesus declara: “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ). Se aquele que não crê já está condenado é porquê este homem já passou pelo juízo e condenação divino.

A morte pertinente ao velho homem é em decorrência da queda de Adão e resulta da condenação adquirida no Éden.

“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça” ( Ef 1:7 );

“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ).

Paulo coloca uma nota explicativa nas frases acima: A redenção pelo sangue é remissão das ofensas e dos pecados!

“Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” ( Ef 2:5 ).

Geralmente a palavra ofensa vem em conexão com a condição de morto diante de Deus.

A palavra ‘pecado’ acaba por abranger duas perspectivas: a ofensa em Adão e a conduta do homem: “E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas” ( Cl 2:13 ).

A vivificação em Cristo ocorre quando as ofensas são perdoadas, quando o escrito de dívida que pesa sobre o homem é riscado.

“Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz” ( Cl 2:14 ).

Só é possível a vivificação em Cristo quando se tem um encontro com a cruz de Cristo. É necessário morrer com Cristo para que o homem possa ressurgir uma nova criatura, livre da ofensa e dos pecados.

“Se dissermos que temos comunhão com ele, e andarmos em trevas, mentimos, e não praticamos a verdade. Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” ( 1Jo 1:7 ).

Andar em trevas é o mesmo que não praticar a verdade. A prática da verdade só é possível quando se anda, ou se comporta na luz.

Observe a exposição de João: Quando se diz que possui comunhão com Deus e não pratica a verdade, o homem anda em trevas, ou seja, é mentiroso ( Rm 3:7 ).

‘Mas…’, ou seja, se andar na luz, o mesmo que dizer que tem comunhão com Deus, segue-se que o sangue de Cristo purifica o homem de todo o pecado.

O pecado aqui está no singular. João não faz referência a conduta pecaminosa através da palavra pecado. A conduta pecaminosa é abordada através da expressão “andarmos em trevas”.

Quando se tem comunhão com Deus (se anda na luz), é porque o sangue de Jesus já purificou de todo o pecado (da morte decorrente das nossas ofensas).

Aquele que tem comunhão com Deus anda na luz; quem não tem comunhão, anda em trevas. Este princípio é semelhante ao da árvore: A árvore boa só produz bons frutos e a árvore má só produz frutos segundo a sua espécie: maus.

Se o homem disser que tem comunhão com Deus e anda em trevas, é mentiroso e não faz o que é verdadeiro. Por outro lado, se na luz andar, é o mesmo que dizer que tem comunhão com Deus, fato que leva a estar livre de pecado (nova condição).

Alguém pode pensar que o versículo compõe uma gradação para alcançar a libertação do pecado. Primeiro o homem teria que andar na luz, e; Segundo, ter comunhão com os irmãos, e, somente então, o sangue de Cristo haveria de purificar-lo dos pecados.

A ‘comunhão’ com os irmãos nunca livraria o homem do pecado, antes é a comunhão com Deus, por meio do sangue de Cristo, que torna o homem livre. A comunhão é um dos aspectos da nova vida com Deus, que demonstra efetivamente que o cristão prática a verdade. Para ter comunhão com os irmãos, primeiramente é necessário ter comunhão com Deus ( 1Jo 1:6 -7).

A ofensa de Adão é específica e nenhum outro homem teve ou terá a possibilidade de transgredir a mesma maneira de Adão “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

Não existe a possibilidade de alguém pecar à semelhança da transgressão de Adão: Adão antes de pecar era santo, justo e bom. Perfeito diante de Deus. A determinação de não comer da árvore do conhecimento só foi feita a Adão, e não aos seus descendentes; o ambiente onde Adão estava era perfeito, etc.

Pecado não envolve questões relativo a conduta. A ofensa refere-se ao pecado (desobediência) de Adão, e por ele todos os homens pecaram. O sangue de Cristo foi derramado para que a humanidade fosse redimida da ofensa herdada de Adão ( Ef 1:7 ).

Desta forma a palavra ‘pecado’ é genérica e abrange tanto as ofensas quanto o pecado de conduta: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” ( Cl 1:14 ).

A remissão dos pecados refere-se a toda transgressão contra Deus. Ou seja, a remissão engloba tanto o pecado em Adão, que subjugou toda a humanidade, quanto às condutas errôneas dos homens que haverão de ser julgadas perante o Grande Trono Branco.

 

Mudou o Calendário para os Cristãos

2 Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência.

Paulo fala de outro tempo. Percebe-se que ele fala do passado dos cristãos pelo fato de o verbo ‘andar’ estar no passado (andastes).

Por que Paulo fala do passado desta maneira: “…noutro tempo…”? Porque os cristãos vivificados nunca viveram o tempo do pecado. Ou seja, os cristãos vivificados, regenerados, que foram criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade nunca viveram sob a égide do pecado.

Como? Noutro tempo existia o velho homem, escravo do pecado e sem Deus no mundo. Este velho homem ao ter um encontro com Cristo morreu. Foi crucificado com Cristo. Ao ressurgir, é criado por Deus um novo homem.

O novo homem vive num novo tempo: tempo de gozo, paz e amizade com Deus.

Observe que Paulo faz referência ao passado como se tal tempo não fosse o passado dos cristãos “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 ); “Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne…” ( Ef 2:11 ).

Da mesma forma que o nascimento de Cristo mudou a contagem do tempo, o nascimento da nova criatura estabelece um novo tempo de vida e paz no Espírito Santo para os que recebem um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ).

Compare este versículo com o versículo dez.

Os cristãos, quando ainda não eram cristãos, haviam andado segundo o curso deste mundo e segundo o maligno. O curso deste mundo é morte. O príncipe das potestades do ar é o diabo. O espírito que opera nos filhos da desobediência e o engano.

Andar refere-se a conduta. Observe o que Paulo escreveu na carta aos Gálatas: “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” ( Gl 5:25 ). Paulo exorta a todos que nasceram de Deus, e que agora vivem em Deus, a também se comportarem como filhos de Deus.

Para se viver em Espírito, necessário é nascer do Espírito, conforme Jesus diz a Nicodemos: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ).

O andar em Espírito diz da conduta da nova criatura: “Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências” ( Rm 13:13 -14).

‘Viver em Espírito’ não é o mesmo que ‘andar em Espírito’. Este não ocorre em consequência daquele. A ordem é dupla: revesti-vos do Senhor e não tenhais cuidado com a carne ( Rm 13:14 ).

Desta maneira podemos verificar que, se o homem viver em Cristo, também precisa andar em Espírito.

O viver em Espírito é o mesmo que ser revestido de Cristo, ou o despojar da carne ( Cl 2:11 ). O andar no Espírito refere-se ao cuidado diário que os cristãos precisam se aplicar para não praticar o que é pertinente à carne. Não é o cuidado que santifica o homem, porém, como o cristão foi santificado por estar em Cristo (nova criatura), esta é a vontade de Deus para a nova condição alcançada em Cristo.

“Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no SENHOR; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 )

Há principados e potestades dos céus e principados e potestades do ar ( Ef 2:2 e Ef 3:10 ). Existem anjos e também existem demônios. Posteriormente aprofundaremos o estudo sobre os seres celestiais.

Os filhos da desobediência são atraídos e engodados pelo engano e este é o espírito que sobre eles opera. Mas, ‘nós’ (os cristãos), os que cremos em Cristo, temos a verdade do evangelho e o Espírito Santo de Deus.

 

3 Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também.

Entre os filhos da desobediência, todos os cristãos, tanto judeus quanto gentios, antes andavam no desejo da carne.

Quando Paulo diz: ‘…todos nós também (…) como os outros também…’, ele esta fazendo referência a judeus e gentios. Está é uma das maneiras que Paulo utiliza para incluir os judeus na mesma condição dos gentios antes de terem um encontro com Cristo.

Os Judeus convertidos também andaram nos desejos da carne e eram também filhos da ira como os demais (gentios).

Paulo fala sobre o desejo da carne. Todos os homens antes de terem um encontro com Cristo andam nos desejos da carne. É possível ao homem desvencilhar-se do desejo da carne sem a cruz de Cristo? Não!

O desejo da carne refere-se à ofensa ocorrida em Adão. Só através do novo nascimento o homem torna-se livre do desejo pertinente à carne.

Qual é o desejo da carne? Paulo ao escrever aos Gálatas demonstrou que o desejo da carne é contrário ao desejo do Espírito de Deus “Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis” Ef 5. 17.

Em que o desejo da carne se opõe ao Espírito? A oposição entre a carne e o Espírito se resume em morte e vida “Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz” ( Rm 8:6 ).

Desta maneira o apóstolo Paulo esclarece o que ocorre quando se está na carne: “Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ).

Quando se está no Espírito a inclinação do novo homem é amizade com Deus (vida), sendo certo que o novo homem produz exclusivamente fruto para Deus ( Rm 7:4 e Rm 8:7 ).

Só é possível andar no desejo da carne quando se está efetivamente na carne. Andar no desejo da carne só é possível àqueles que, por natureza, são filhos da ira, ou seja, é condição pertinente a todos aqueles que não tiveram um encontro com Cristo.

Todos os cristãos antes de terem um encontro com Cristo andavam no desejo da carne. Agora, em Cristo, não mais se anda no desejo da carne.

“… antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos”

“… quando estávamos na carne” é o mesmo que dizer “antes andávamos nos desejos da carne”.

Por estar na carne o homem faz a vontade da carne e dos pensamentos.

Qual a diferença entre desejos da carne, vontade da carne e vontade do pensamento?

 

 

Os desejos da carne

“Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons” ( Mt 7:18 )

Os fariseus faziam boas obras perante os olhos de seus semelhantes, entretanto, por rejeitarem a Cristo, continuavam sob o pecado de Adão e tudo o que produziam era segundo a natureza pecaminosa que possuíam.

Jesus ilustra a condição dos fariseus através da relação fruto – árvore. É pertinente à natureza das árvores boas produzirem frutos bons, e as árvores más produzirem frutos maus.

Por mais que os fariseus procurassem fazer as obras estipuladas na lei, não conseguiam realizar o bem, visto que a natureza deles era má. Eles não haviam nascido de novo, e, por tanto, eram filhos da ira, e tudo o que produziam eram frutos para a morte ( Rm 7:5 ).

Jesus dá o veredicto: “Toda árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo” ( Mt 7:19 ). Não há exceção. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo.

Quando Jesus falou a Nicodemos, ele demonstrou que para ver o reino dos céus necessariamente o homem precisa nascer de novo, e neste aspecto também não há exceção.

Os fariseus diziam: “Senhor, Senhor…”, mas, nem todos que assim dizem entrarão no reino dos céus, visto que estes não fazem a vontade de Deus.

Os fariseus não entrariam nos céus por não creem naquele que Deus enviou, pois esta é a vontade do Pai “E a sua palavra não permanece em vós, porque naquele que ele enviou não credes vós” ( Jo 5:38 ); “Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou” ( Jo 6:29 ).

O que determina a qualidade do fruto é a natureza da árvore. Se alguém crê em Cristo, o seu fruto é bom. Como os fariseus não criam em Cristo, eles permaneciam em seus pecados, e por tanto, os seus frutos eram maus “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” ( Jo 8:24 ).

João Batista disse aos fariseus que lhes era necessário produzirem frutos dignos de arrependimento. Frutos dignos de arrependimentos são boas obras? Não! As obras que os fariseus faziam eram ‘superiores’ as obras do povo, no entanto, eles não produziam frutos dignos de arrependimento “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus” ( Mt 5:20 ). Quem pensa que basta dizer que tem por pai Abraão que está salvo, não produz fruto digno de arrependimento ( Mt 3:9 ).

João Batista alerta: “E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo” ( Mt 3:10 ). Todas as árvores que não produzem bom fruto devem ser cortadas e destruídas.

Em contra partida, todos os que têm um encontro com Cristo também morrem para poderem ressurgir. Estes ressurgem e fazem parte da oliveira verdadeira e dão bom fruto “Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15:5 ).

Os fariseus vieram ao mundo em pecado, e por tanto, andavam no desejo da carne. Eram filhos da ira, filhos da desobediência, filhos de Adão por natureza “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira” ( Jo 8:44 ), ou se preferir, filhos do diabo.

Os fariseus por não nascerem de novo andavam segundo o curso deste mundo, ou seja, andavam nos desejos da carne “Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência” ( Ef 2:2 ).

Os fariseus eram árvores não plantadas pelo Pai, como Jesus disse: “Toda planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada” ( Mt 15:13 ).

 

 

Fazendo a vontade da carne

“E tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele estão presos ( 2Tm 2:26 )

As obras da carne são conhecidas: “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia…” ( Gl 5:19 ).

A humanidade num todo andava segundo o desejo da carne: mortos em delitos e pecados. As obras da humanidade seguia o curso estipulado pela natureza perniciosa “Não há quem faça o bem, não há nem um só” ( Rm 3:12 b).

A pratica pecaminosa é uma constante na vida dos homens, pois fazem a vontade da carne. Fazem a vontade da carne, pois ela não é sujeita a lei de Deus “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” ( Rm 8:7 ).

 

Fazendo a vontade do pensamento

Qual era o pensamento dos escribas e fariseus? Eles pensavam que eram filhos de Abraão, e que, portanto, eram filhos de Deus.

E o que João Batista disse? “E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão” ( Mt 3:9 ).

Os homens sempre presumem de si mesmo que é preciso fazer algo para alcançar a salvação. O jovem rico é um exemplo: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” ( Mc 10:17 ). O homem sempre presume de si mesmo que para agradar a Deus é necessário fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Este é um dos maiores erros do pensamento humano.

Certa feita Jesus foi interpelado sobre o que deveriam fazer para fazer a obra de Deus: “Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus?” ( Jo 6:28 ).

Os pensamentos do homem se estruturam na religião, na justiça própria, no conhecimento humano e na consciência.

“Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os” ( Rm 2:15 )

Paulo ao escrever aos Romanos demonstrou que a obra que deriva da lei sempre esteve presente no coração dos homens. Os gentios, mesmo não tendo a lei de Moisés, sempre praticaram as obras da lei naturalmente.

Por quê? Porque os homens sempre se guiaram por meio de seus pensamentos tendo como parâmetro a consciência.

Desta maneira os homens seguem o que presumem “Há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte” ( Pv 14:12 ).

A vontade do homem é guiada pelas obras da lei. Muitos não se salvam por meio da crença em Cristo por se guiarem através da consciência e do pensamento. Estes se sentem seguros por estarem pautados na própria consciência (quer acusando ou defendendo), e continuam perdidos em decorrência da concupiscência do engano.

Aqueles que seguem a vontade do pensamento acabam por se sentirem ‘certinhos’ e com direito a salvação. Estes pensam que a salvação se dá por meio de boas obras e procuram respaldo e orientação em suas consciências. Ledo engano! Caem no engano do diabo.

O desejo da carne é que o homem faça a vontade da carne e do pensamento. Já a vontade do Espírito é que façamos a vontade do Espírito.

A luta entre carne e Espírito é para que não façamos a nossa vontade “…para que não façais o que quereis”, antes, devemos fazer a vontade de Deus, que é crer naquele que Ele enviou, e que nos amemos segundo o seu mandamento.

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” ( Rm 7:18 ).

Quando o apóstolo Paulo diz: “… na minha carne, não habita bem algum…”, ele faz referência ao desejo da carne. Não há bem algum na natureza decorrente da queda e condenação de Adão. Através da queda de Adão os homens passaram a ser filho da ira, filho da desobediência, e não há bem algum nesta natureza.

Quando Paulo diz: “…com efeito o querer está em mim…”, ele faz referência a vontade do pensamento, o que é pertinente a todos os homens. Todos os homens querem e procuram fazer o bem, mas se não nascerem de novo é impossível fazerem o bem, visto que a carne não é sujeita a lei e Deus.

Quando Paulo diz que: “…não consigo realizar o bem”, ele faz referência a vontade da carne que decorre do desejo da carne.

O pecado de Adão tornou todos os homens escravos do pecado. Por mais que o homem queira realizar o bem, isto só fica na vontade. Por quê? Porque tudo aquilo que o escravo produz, produz para o seu senhor.

Há outra ilustração desta verdade: a árvore má não pode produzir bons frutos, isto porquê bons frutos não derivam de uma má árvore.

“… e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também”

A natureza de filhos da ira foi transmitida a todos os homens por meio da ofensa de Adão. Não podemos nos esquecer que filhos de Adão, filhos da desobediência e filhos da ira fazem referência a transgressão no Éden.

Faz-se necessário observarmos a estrutura de texto que Paulo construiu.

Paulo ora a Deus para que fosse dado aos cristãos: ‘…em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação’;

Segue-se que Deus iluminou os olhos do entendimento dos cristãos, para que:

  • Soubessem qual a esperança da vocação;
  • Quais as riquezas da glória da sua herança, e;
  • Qual a sobre-excelente grandeza do seu poder.

O poder de Deus foi manifesto em Cristo ( Ef 1:20 ), e este mesmo poder vivificou os cristãos ( Ef 2:1 ).

“E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar no lugares celestiais, em Cristo Jesus; para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela benignidade para conosco em Cristo Jesus” ( Ef 2:6 -7).

“… segundo a operação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” ( Ef 1:19 -21).

No capítulo primeiro da carta, Paulo faz referência à operação do poder de Deus sobre aqueles que creram (v. 19). Em seguida Paulo demonstra que o poder de Deus foi manifesto em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos.

É característica própria às cartas de Paulo fazer um adendo contendo aspectos importantes acerca de Cristo.isto.

Na carta aos Efésios Paulo descreve a ação do poder de Deus em estabelecer a glória que Jesus tinha antes de haver mundo ( Ef 1:20 -23; Jo 17:5 ). Na carta aos Colossenses Paulo descreve a pessoa de Cristo, a imagem do Deus invisível ( Cl 1:15 -20).

Em seguida Paulo traz a lembrança dos leitores a condição passada ( Ef 2:1 ). Paulo demonstra que Deus vivificou os cristãos e a condição pecaminosa na qual se encontravam.

Do versículo quatro em diante Paulo passa a descrever o que o poder de Deus fez aos cristãos. Observe que a estrutura de texto que Paulo utiliza para descrever a ação divina na vivificação dos cristãos é semelhante ao que foi realizado em Cristo na ressurreição.

4 Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou,

No capítulo anterior o apóstolo Paulo demonstrou que os cristãos haviam crido segundo a operação da força do poder de Deus e que este mesmo poder foi manifesto ao ressuscitar Jesus dentre os mortos ( Ef 1:19 -23).

Quando Paulo fala do poder de Deus manifesto em Cristo, ele passa a descrever o que aconteceu com Cristo após a ressurreição.

Logo em seguida, Paulo passa a falar da ação de Deus sobre os cristãos: “Ele vos vivificou…”. Mas, antes de falar da vivificação Paulo faz um adendo e fala da condição do homem no pecado ( Ef 2:1 -3).

Agora, no versículo quatro Paulo volta ao tema que teve início no capítulo um, versículo dezenove: vivificou!

Apesar da condição pecaminosa do homem, Deus é riquíssimo em misericórdia. A expressão ‘riquíssimo em misericórdia’ se deve ao grande amor demonstrado aos homens.

5 Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo ( pela graça sois salvos ),

Observe que a morte decorre da ofensa.

O poder de Deus que foi manifesto em Cristo ressuscitando-o dentre os mortos e por meio deste poder os cristãos creram e foram vivificados juntamente com Cristo.

“E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder” ( Ef 1:19 ).

6 E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus;

Os cristãos foram ressuscitados (vivificados) juntamente com Cristo “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” ( 1Pe 1:3 ).

Cristo ao ressurgir assentou-se a destra de Deus nos céus e nos fez assentar nos lugares celestiais.

Os cristãos foram abençoados com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo; é o mesmo que estar assentado nos lugares celestiais ( Ef 1:3 ; Ef 1:20 e Ef 2:6 ).

7 Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus.

O objetivo dos cristãos terem ressurgido com Cristo é específico: “… mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus” ( V. 7).

Cristo assentou-se a destra de Deus acima de todo principado, autoridade, poder, domínio e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas no vindouro.

Jesus, além de receber todo domínio e poder, também demonstrará nos séculos vindouros as abundantes riquezas da graça de Deus.

8 Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.

Pela graça somos salvos, por meio da fé.

Paulo retorna ao versículo dezenove do capítulo um: os cristãos haviam crido segundo a operação da força do poder de Deus “E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do teu poder” ( Ef 1:19 ).

A salvação é por meio da fé segundo a força do poder de Deus. Como? A salvação é por meio da fé segundo a pregação do evangelho:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” ( Rm 1:16 )

E novamente:

“Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” ( 1Co 1:18 )

Desta maneira conclui-se que: “A fé vem pelo ouvir…” .

A salvação é graça, pois foi dada aos homens por promessa. Deus prometeu salvação poderosa a todos os homens através do descendente de Abraão

“Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós…” ( Rm 4:16 ; Gl 3:16 ).

Primeiro Deus prometeu a Abraão o descendente e só após ouvir a promessa Abraão creu, sendo a sua fé em Deus imputada como justiça. Foi por graça a promessa. Abraão nada fiz e Deus lhe prometeu o descendente.

A promessa refere-se a graça de Deus dada aos homens por intermédio de Abraão e do descendente, que é Cristo.

“… mas Deus pela promessa a deu gratuitamente a Abraão” ( Gl 3:18 ).

A promessa foi concedida por Deus. A promessa é dom de Deus. Não foi o homem que conquistou a salvação, mas Deus a deu gratuitamente.

9 Não vem das obras, para que ninguém se glorie;

A salvação vem da promessa e não das obras. Caso a salvação fosse concedida por meio daquilo que produzimos, haveria motivo para alguém se posicionar de maneira altiva: “Eu conquistei a minha salvação. Fiz por merecer”.

10 Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.

Não há como a salvação ser pelas obras. Por quê? Porque somos feituras de Deus.

Observe a grandeza da exposição de Paulo: antes de conhecermos a Cristo todas as nossas obras pertencia por direito ao pecado. Éramos escravos do pecado, e por tanto, tudo o que produzíamos pertencia ao pecado.

Por mais que o homem trabalhe e se esforce em fazer boas obras, elas não poderão salvá-lo, visto que tais obras não lhe pertencem.

Um escravo não adquire bens. Um escravo não ajunta fortuna. Como é possível a um escravo adquirir a própria liberdade se ele não possui recursos? Tudo o que se produz pertence ao seu senhor! O escravo é propriedade de seu senhor.

O trabalhador escravo do pecado só tem um salário estipulado: a morte!

A salvação não vem das obras porque há a necessidade de se nascer de novo. O novo homem é criado em Cristo, e só a partir de então é que se produz a boa obra.

A obra realizada por meio da antiga natureza não é contada como algo necessário para a existência da nova criatura. O salário que o pecador recebe é morte.

A vinda a existência da nova criatura fica na pendência única e exclusiva do poder de Deus. Primeiro há a regeneração e após as obras. Não há como inverter os fatores.

Não é por obras, visto que o novo homem é criado em Cristo; todos os que creem recebem poder para serem feitos filhos de Deus com o objetivo de produzirmos boas obras.

São poucas as citações do antigo testamento, mas Paulo buscou em Isaías esta última declaração:

“SENHOR, tu nos darás a paz, porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” ( Is 26:12 ).

O profeta vaticinou o recebimento da paz que excede a todo entendimento. Há paz para aqueles que estão em Cristo Jesus, pois estes não necessitam realizar qualquer obra para alcançar a salvação.

Tudo que havia para ser feito foi realizado.

“Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo…” (v. 2);

“Não vem das obras (…) Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus…” (v. 10)

Por ser feitura de Deus, criado em Cristo, houve ‘um’ outro tempo em que o cristão não era feitura de Deus. Neste tempo a nova criatura (os cristãos) nunca existira.

Os versículos seguintes são conclusivos. Todo arcabouço doutrinário demonstrado nos versículos anteriores é utilizado como base para tocar o pensamento dos leitores.

Com base nos elementos doutrinários Paulo conclui: “Portanto…”

Gentios e Judeus

11 Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens;

O apóstolo reiterou aos seus leitores que eles haviam sido vivificados dentre os mortos.

Até o versículo anterior o apóstolo expõe questões de ordem doutrinária. Deste versículo em diante Paulo utiliza-se das questões doutrinárias para tratar do relacionamento entre gentios e judeus que se tornaram cristãos.

Os cristãos gentios não deveriam esquecer que ‘noutro tempo’ eles eram gentios na carne, ou seja, noutro tempo eles não pertenciam a Deus. Ser gentio na carne refere-se à descendência, a origem do indivíduo quando separado da comunidade de Israel.

Deus estabeleceu uma distinção entre gentio e judeu quando escolheu Abraão e lhe fez promessa. Esta distinção tinha a finalidade de preservar a linhagem que introduziria Cristo ao mundo.

Porém os judeus não entenderam este contexto e se achavam melhores que os outros povos simplesmente por terem o rito da circuncisão. Tinham na circuncisão um elemento de salvação, visto que, através dela, avocavam a filiação de Abraão com direito a promessa.

Por isso os judeus nomeavam os gentios de incircuncisos. Os judeus nomeavam os gentios de ‘incircuncisão’ e se auto-intitulavam de ‘circuncisão’.

Com a classificação feita por Paulo entendemos que os judeus são carnais, visto que eles não aceitaram a Cristo “… pelos que na carne …”.

A circuncisão dos judeus é caracterizada por Paulo de: “… feita pela mão dos homens”, para diferenciar da circuncisão realizada por Cristo ( Cl 2:11 ).

12 Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo.

Paulo aponta cinco situações diferentes em que se encontravam os gentios:

a) Sem Cristo;

b) Separados da comunidade de Israel;

c) Estranhos às alianças da promessa;

d) Não tendo esperança, e;

e) Sem Deus no mundo.

Neste versículo Paulo refere-se ao ‘outro’ tempo através da afirmação: “naquele tempo”. A qual tempo o apóstolo se refere? A outro tempo, o que é diferente quando se refere ao passado.

Paulo enumera estas cinco situações de maneira peculiar: no tempo em destaque, os cristãos ainda eram incrédulos. As situações enumeradas por Paulo retroagem no tempo: os gentios estavam sem Cristo, condições sanadas quando creram na mensagem do evangelho.

Somado a situação de não terem Cristo, os gentios também estavam à parte da comunidade de Israel como conseqüência de não serem participantes das alianças.

Anterior a tudo isto, os gentios não tinham esperança, visto que a humanidade perdeu o vínculo com Deus em Adão.

13 Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto.

Porém, no tempo presente, o agora, os cristãos estavam em Cristo. O estar em Cristo remete a nova natureza, visto que aqueles que estão em Cristo, são novas criaturas “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ).

“…vós, que antes estáveis longe…” refere-se aos gentios.

O sangue de Cristo aboliu o pecado que fazia a separação entre Deus e os homens, e a lei, que fazia separação entre judeus e gentios. Desta maneira os gentios se achegaram a Deus.

14 Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio,

Cristo é a paz de Deus dada aos homens. Os que receberam a paz de Deus passam a fazer parte do grupo que Paulo intitula como sendo ‘nós’. Jesus é a nossa paz, visto que por meio da igreja ele uniu judeus e gentios em um único corpo ( Ef 3:6 ).

15 Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz,

Na carne de Cristo foi desfeita a inimizade entre os homens e Deus. Sabemos que a lei só pode disciplinar a carne, sem valor algum para o espiritual. Conforme esta verdade, Cristo ofereceu a sua carne na morte, e com ela desfez a lei dos mandamentos.

Todos quantos creem em Jesus também se desfazem da carne e tornam-se espirituais, pois se conformam com Cristo na as morte ( Cl 2:11 ), e não mais estão sujeitos a lei, pois ela só tem poder sobre aqueles que vivem na carne.

Ao destruir a barreira de inimizade, Cristo criou em si mesmo dos dois povos um novo homem, e estabeleceu a paz.

16 E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades.

Reconciliar ambos, judeus e gentios, com Deus. É o mesmo que matar na cruz as inimizades. A cruz é o elemento reconciliador dos homens com Deus. Por quê? Porque por meio dela o homem morre para o mundo e é criado um novo homem que vive para Deus.

Quando Paulo aponta as inimizades, ele tem em mente a inimizade entre Deus e os homens pecadores, e a inimizade que existia entre judeus e gentios, visto que o véu do templo rasgou-se de alto a baixo.

17 E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto;

Paulo demonstra que Jesus não fez acepção de pessoas ao anunciar o evangelho da paz. Ele anunciou aos gentios e aos judeus a paz que excede todo entendimento.

18 Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito.

Por que paz? Porque por Jesus, tanto judeu quanto gentio, tem acesso a Deus em um mesmo Espírito. Alguém poderia contestar onde estaria a paz evangelizada, e Paulo aponta a paz no acesso que ambos, judeus e gentios, têm acesso a Deus.

19 Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus;

Antes, os gentios eram estrangeiros e forasteiros. Em Cristo os gentios tomaram a posição de cidadãos e pertencentes à família de Deus.

20 Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina;

O apóstolo aponta a solidez no qual os elementos que foram adquiridos em Cristo sustentam a condição anterior. Cristo é a pedra onde podemos construir um edifício a Deus “Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina” ( At 4:11 ); “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” ( 1Pe 2:5 ).

21 No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor.

Em Cristo, a Principal Pedra de Esquina, está sendo construído um só edifício, e o edifício cresce bem ajustado para habitação de Deus ( Is 57:15 ).

22 No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito.

Paulo aponta para os gentios demonstrando que eles também estavam incluídos no edifício destinado à morada de Deus em Espírito “…vós juntamente sois edificados…” (judeus e gentios).

O elemento ‘comunhão’ é essencial para a construção deste edifício ( Jo 1:7 ).




Aquele que está ‘morto’ está Justificado

A pena não pode passar da pessoa do transgressor, ou seja, outra pessoa não pode ser punida em lugar do transgressor. A determinação divina é contundente: a alma que pecar, esta deve morrer! O que fazer da realidade seguinte: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” ( Rm 3:23 ). Como todos pecaram, é certo que todos devem morrer.


Aquele que está ‘morto’ está Justificado

Já vimos quem são os justificados (nós) ( Rm 6:2 ).

Também vimos qual a melhor ideia a se traduzir por justificação. Agora veremos qual o ‘objetivo’ de estarmos mortos em Cristo e ‘porquê’ os mortos para o pecado são justificados.

Este versículo contém três afirmações a respeito de nosso Deus: “Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” ( Rm 3:26 ).

Jesus é a justiça de Deus dada aos homens com o evidente propósito de que Deus seja justo e justificador daqueles que creem em Cristo.

O versículo 26 de Romanos 3 aponta os motivos pelos quais Deus revelou Cristo aos homens:

a) Para demonstrar a sua justiça de Deus neste tempo presente;

b) Para Ele ser justo, e;

c) Para Ele ser justificador.

A primeira afirmação demonstra que Cristo é a Justiça de Deus neste tempo presente! Sem contradição alguma.

“Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas” ( Rm 3:21 ).

Neste tempo presente, ou seja, o agora, Cristo se manifestou aos homens, conforme o que foi dito pelos profetas e pela lei. Ele é a justiça de Deus concedida ou manifesta aos homens.

Para tomar posse desta justiça, todos os homens devem crer em Cristo, sem exceção (judeus e gentios) ( Rm 3:22 ).

Porém, surge um entrave: como Deus sendo Justo e Verdadeiro justifica o pecador?

De acordo com a lei, a justiça e a retidão temos:

  • Deus não justifica o ímpio ( Ex 23:7 );
  • A alma que pecar está morrerá ( Ez 18:20 );
  • Deus não tem o culpado por inocente ( Na 1:3 );

A pena não pode passar da pessoa do transgressor, ou seja, outra pessoa não pode ser punida em lugar do transgressor.

A determinação divina é contundente: a alma que pecar, esta deve morrer! O que fazer da realidade seguinte: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” ( Rm 3:23 ). Como todos pecaram, é certo que todos devem morrer.

Deus não tem o culpado por inocente, e de que maneira ele justifica o homem sem ferir a sua própria palavra?

Se a pena não pode passar do transgressor, como Jesus morreu no lugar do pecador?

Se considerarmos as quatro premissas acima, só é possível declarar alguém justo, quando este alguém nunca tenha cometido pecado.

Quem cometeu pecado deve ter certa a sua morte. Quem cometeu pecado não será tido por inocente. A quem cometeu pecado só resta a punição, pois outrem não pode sofrer a pena em seu lugar.

Como declarar justo o pecador sem ferir as premissas acima?

“A alma que pecar, essa morrerá. O filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” ( Ez 18:20 );

“O SENHOR é tardio em irar-se, mas grande em poder, e ao culpado não tem por inocente…” ( Na 1:3 ).

Como a justiça de Deus é imputada ao homem, se a justiça do justo ficará sobre o justo e a impiedade do ímpio sobre o ímpio? Como Cristo levou sobre si os pecados da humanidade, se o filho não pode levar a iniquidade do Pai, e nem o Pai a iniquidade do filho?

Esta pergunta somente será respondida quando entendermos plenamente a doutrina da justificação em Cristo.




A salvação em Cristo

Que mudança será operada por Deus na vida de quem crê?

  • Será filho de Deus“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ; Gl 3:26 );
  • Gerado de Novo“Segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição dos mortos…” ( 1Pd 1:3 ).

A salvação em Cristo

A Bíblia apresenta à humanidade uma oferta de salvação. Ora, se há uma oferta de salvação é porque a humanidade está perdida.

Antes de entender como o homem é salvo por Deus, é necessário compreender do que o homem é salvo e como a humanidade se perdeu.

 

Adão – A Porta Larga

O homem é salvo por intermédio do evangelho de uma condição herdada do primeiro Pai da humanidade. Foi Adão quem pecou, e por causa da ofensa dele, todos os homens pecaram ( Rm 5:19 ).

Através da ofensa de Adão todos os homens tornaram-se pecadores, ou seja, separados de Deus, alienados da vida que há em Deus, destituídos da glória de Deus.

Não importa a posição social, a religiosidade, a moral, o comportamento, a nacionalidade, o cargo, etc., todos os homens gerados segundo a carne e do sangue de Adão são pecadores. Ora, são pecadores em conseqüência da condição herdada de Adão, e não por causa do comportamento ou moral que adotaram.

A Bíblia compara a condição do pecador como sendo semelhante à condição de um escravo.

Na antiguidade havia homens ‘livres’ e ‘escravos’. A diferença entre livres e servos não estava na constituição física, mental ou comportamental do homem, antes a diferença era produto de uma condição social.

O homem livre era submetido a servidão quando não saldava suas dívidas, por ser despojo de guerra ou quando gerado de pais escravos!

Assim como os filhos de escravos também eram escravos, todos os homens tornaram-se servos do pecado por serem filhos de Adão. Adão vendeu-se ao pecado tornando-se escravo do pecado, e todos os seus descendentes vêem ao mundo em igual condição ao pai ( Is 43:27 ).

Não são as ações dos homens que determina se ele é ou não pecador, antes é da sua origem que decorre a condição de sujeição ao pecado.

Jesus demonstrou que todo aquele que comente pecado é escravo do pecado, ou seja, por ser escravo do pecado é que o homem peca. A condição de sujeição ao pecado é que determina a condição do homem: pecador. Na condição de pecador todas as suas ações são reputadas como sendo pecado.

O apóstolo Paulo demonstra que todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus ( Rm 3:23 ). A doutrina anunciada pelo apóstolo Paulo também foi anunciada pelos profetas, visto que Davi declarou ter sido formado em iniquidade e concebido em pecado ( Sl 51:5 ).

Davi demonstrou que todos os homens se desviaram e num mesmo evento (juntamente) se tornaram imundos ( Sl 14:3 ). A queda de Adão foi o único evento que comprometeu toda a humanidade, e após a queda, todos os homens tornaram-se abomináveis em suas obras: não há quem faça o bem ( Sl 14:1 ).

A condição do homem é miserável, visto que o melhor dentre os homens é comparável a um espinho, e o mais justo a uma sebe de espinhos. Desde que Adão pecou (pereceu), não há entre os filhos dos homens um que seja reto ( Mq 7:2 e Mq 7:4 ).

Desde o ventre materno os homens estão desviados, pois entraram por um caminho que os conduz a perdição, em decorrência da desobediência, julgamento e condenação de Adão ( Sl 58:3 e Sl 53:2- 3).

Não importa condição social, religiosa, boas ações, comportamento, moral, sacrifícios, votos, etc., a condição herdada de Adão tornou todos os homens pecadores, ou seja, homens a serviço do pecado. Pecam por que são pecadores! Não fazem o bem porque são maus.

 

O Evangelho

Por intermédio do evangelho, os homens são informados que Deus é rico para com todos que o invocam. Não importa a condição social, moral ou comportamental, Deus é generoso para com todos os homens ( Rm 10:12 ).

O evangelho de Cristo alcança tanto Nicodemos que era mestre, juiz e religioso, quanto a samaritana, que teve cinco maridos e o que agora tinha, não lhe pertencia.

Através da fé que se manifestou, o homem reconhece a sua condição de pecador que decorre da condenação em Adão, e compreende o quanto necessita de salvação ( Gl 3:23 ; Rm 5:18 ).

Nos dias atuais as pessoas procuram as igrejas em busca de um milagre, de um emprego, de um casamento, porém, a graça de Deus se revelou salvadora, ou seja, o evangelho destina-se tão somente a salvar os pecadores da condenação herdada de Adão.

Caso o homem não aceite a Cristo como Senhor, o seu destino é o inferno de fogo e enxofre, pois entrou por um porta larga (Adão) que o faz andar por um caminho largo que conduz à perdição ( Mt 7:13 ).

Qualquer que não aceitar a mensagem que concede nova vida não pode entrar no reino dos céus ( Jo 3:3 ). Basta ao homem ouvir e crer que será salvo da condição que o leva para um tormento eterno.

A Bíblia demonstra que o evangelho foi anunciado primeiramente a Abraão. Abraão creu na promessa e isto lhe foi imputado por justiça ( Gl 3:8 ). Do mesmo modo, todo aquele que crê na mensagem do evangelho, será justificado.

Para ser salvo, basta crer na mensagem do evangelho, ou seja, conforme diz as Escrituras ( Jo 7:38 ).

Crer em Cristo não tem relação com um sentimento de medo, tremor, terror do inferno, antes decorre da mensagem anunciada, a fé que uma vez foi dada aos santos ( Jd 1:3 ).

O evangelho é poder de Deus para todo que crê. Por intermédio do evangelho o homem ganha nova vida, uma vez que Deus concede ao que crê um novo coração e um novo espírito ( Is 57:15 ).

Observe que o evangelho de Cristo, a fé que foi manifesta aos homens, também é nomeado de: poder de Deus, fé, esperança, promessa, etc. Observe o emprego da palavra fé e crer em um mesmo verso:

  • “…sabemos que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, também temos crido em Jesus Cristo…” ( Gl 2:16 );
  • “Pois nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé ( Rm 1:17 ).

Nestes versos o apóstolo Paulo faz referência à fé contrastando-a com a lei, ou seja, ele fez referência à mensagem do evangelho quando utilizou o substantivo ‘fé’. Em seguida, ele demonstra que, por meio da fé, os cristãos têm crido, ou seja, no evangelho se descobre que a justiça de Deus se dá por intermédio da mensagem do evangelho (fé), quando o homem descansa (fé) na esperança proposta.

 

A Salvação

Jesus demonstrou que quem ouve a sua palavra e crê em Deus, tem a vida eterna, ou seja, não entrará na condenação, pois passou da morte para a vida ( Jo 5:24 ).

A condição do pecador é morte, o mesmo que escravo do pecado, destituído da glória de Deus, filho da desobediência, filho da ira, etc. Quem crê deixa a condição de morto e passa a condição de vida. Quem crê em Cristo não é condenado, mas quem não crê já está condenado, pois permanece sob a condenação imputada a Adão e todos os seus descendentes ( Jo 3:18 ).

A condenação e a ira de Deus veio sobre todos os homens por causa da ofensa de Adão. Através da ofensa de Adão todos pecaram e morreram, ou seja, foram separados d’Aquele que é a vida. Qualquer que crê em Cristo possui vida eterna e não mais será alvo da ira de Deus ( Jo 3:36 ).

A todos que ouvirem a mensagem do evangelho e confessar a Cristo, o sumo sacerdote da nossa confissão, crendo que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos para a glória de Deus Pai, serão salvos ( Rm 10:9 -10 ).

Serão salvos de que? Da atual condição financeira? Da família problemática? Dos problemas socioeconômicos? Etc. Não! Jesus alertou que os que n’Ele crê serão salvos da condenação estabelecida em Adão, porém, não seriam tirados do mundo e continuariam tendo aflições ( Jo 16:33 ).

Qualquer que crer em um pseudo-evangelho que anuncia que Deus mudará a condição social do homem, ou que haverá uma mudança financeira radical daquele que segue a Cristo, não será salvo, nem da ira vindoura, nem das questões relativo a este mundo, pois o evangelho de Deus é segundo as escrituras e não se constitui programa social.

A Bíblia é clara: “Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” ( Rm 10:13 ), porém, a promessa de Deus diz da esperança futura, e não das coisas deste mundo.

Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna, ou seja, o evangelho não veio promover riquezas deste mundo ( Jo 3:16 ). Por que é necessário ao homem crer em Cristo? Para justificação de todo que crê ( Rm 10:4 ).

Qual a preocupação do carcereiro que guardava Paulo e Silas? Aumento de salário? Mudança na sua posição social? Comandar uma empresa? Ser um magistrado? Não! A pergunta dele é clara: “E, tirando-os para fora, disse: Senhores, que é necessário que eu faça para me salvar?” ( At 16:30 ).

 

O Novo Nascimento – Cristo: a Porta Estreita

Quando o pecador crê em Cristo, ao mesmo tempo está recebendo a Cristo. Crer e receber refere-se ao mesmo evento “Mas, a todos quantos o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” ( Jo 1:12 ).

Há quem diga que é necessário crer e depois receber, porém, o apóstolo João demonstra que, crer é o mesmo que receber.

Que mudança será operada por Deus na vida de quem crê?

  • Será filho de Deus“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” ( Jo 1:12 ; Gl 3:26 );
  • Gerado de Novo“Segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição dos mortos…” ( 1Pd 1:3 );
  • Nova Criação“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 );
  • Nova condição“Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus…” ( Rm 8:1 );
  • Nova Natureza“Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo” ( 2Pe 1:4 ).

Assim como a morte (condenação) veio por um homem, assim também a salvação, pois assim como todos morrem em Adão, somente em Cristo serão vivificados ( 1Co 15:21 –22).

A relação que o apóstolo Paulo estabelece entre Cristo e Adão demonstra que Adão é a porta larga por onde a humanidade entrou e segue para perdição. E que Cristo é a porta estreita, por onde todos que entram são salvos.

Em Cristo e em Adão temos o espiritual e o carnal. Os nascidos de Adão são carnais, e os nascidos do último Adão, espirituais. Primeiro veio o homem carnal, para depois vir a existência os homens espirituais ( 1Co 15:46 ).

Adão, o primeiro homem, por ser da terra era terreno, feito por Deus alma vivente ( 1Co 15:47 ). Mas Cristo, o último Adão, pertence ao céu.

Ambos, Cristo e Adão, concedem as suas imagens aos seus descendentes: Do mesmo modo que os homens terrenos têm a imagem de Adão, os homens espirituais possuem a imagem de Cristo, visto que, assim como o terreno, assim também são os terrenos, e ‘qual o celestial, tais também os celestiais’ ( 1Co 15:48 ).

Através do novo nascimento (regeneração) o homem de novo gerado passa a ser participante da natureza divina ( Jo 1:16 ; Cl 2:10 ). A nova condição da nova criatura se efetiva ainda neste mundo “Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” ( 1Jo 4:17 ).

Por ter sido gerado de uma semente incorruptível, que é a palavra de Deus, os cristãos tem uma viva esperança ( 1Pe 1:23 e 1Pe 1:3 ). Foi de novo criado na condição de idôneo para participar da herança dos santos ( Cl 1:12 ). É herdeiro de Deus ( Gl 4:7 ), e co-herdeiro com Cristo ( Rm 8:17 ). É templo e morada do Espírito ( 1Co 3:16 ), pois tem em si mesmo o penhor da herança ( Ef 1:13 ).

Qualquer que crê em Cristo é testemunha fiel, pois de Deus vem o fruto dos lábios, que confessam a Cristo ( Os 14:8 ; Hb 13:15 ).

 

Eterna Redenção

Sabemos que Cristo efetuou eterna redenção “Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção” ( Hb 9:12 ).

Que, além da salvação os cristãos foram agraciados com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais, visto que estão assentados em Cristo ( Ef 1:3 ). Tudo que diz respeito a vida e a piedade foi concedido aos que creem no seu divino poder (evangelho) ( 2Pe 1:3 ; 1Co 1:18 ).

Além de ser salvo da condenação estabelecida em Adão, não há outro destino para os que são salvos pela fé em Cristo: são filhos de Deus, ou seja, predestinados a serem filhos por Adoção, ou seja, condição diferente da dos salvos em outras dispensações.

As novas criaturas geradas segundo Deus em Cristo foram predestinadas a serem filhos. A predestinação não diz da velha criatura, antes se refere ao destino da nova criatura. Como sabemos, aquele que está ‘em Cristo’ nova criatura é, e foi ‘em amor’, ou seja, ‘em Cristo’ que a nova criatura foi predestinada a ser filho por Adoção, visto que somente por intermédio de Cristo são conduzidos muitos filhos à glória de Deus “Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles” ( Hb 2:10 ).

A salvação de Deus se dá por meio da fé em todas as dispensações, porém, a filiação divina é concedida especificamente a igreja de Cristo, pois toda a criação geme na expectativa da revelação dos filhos de Deus “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” ( 1Jo 3:2 ; Rm 8:21 ).

Os que creem em Cristo foram escolhidos para serem santos e irrepreensíveis, visto que, ‘em Cristo’ foram criados em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ).

Antes da fundação do mundo Deus elegeu os cristãos para serem santos e irrepreensíveis porque em Cristo seriam criados nesta condição. Aquele que fez dos cristãos herança em Cristo ( Ef 1:11 ), também é o que operou a nova criação, concedendo poder aos que creem para que fossem feitos filhos de Deus, santos e irrepreensíveis.

Porém, há um adendo do apóstolo Paulo: “TAMBÉM vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado; o qual também recebestes, e no qual também permaneceis. Pelo qual também sois salvos se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão” ( 1Co 15:2 ).

O apóstolo procura relembrar aos cristãos o evangelho anunciado, o mesmo que receberam e permaneciam nele. Os cristãos foram salvos por que creram na mensagem do evangelho, porém, se não o retiver o evangelho tal qual ele foi anunciado, ou seja, se abraçar um outro evangelho, terão crido em vão ( 1Co 15:2 ).

Qualquer que se distanciar da verdade do evangelho sofrerá as conseqüências de ter caído da graça: separado está de Cristo “Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído” ( Gl 5:4 ).

Qualquer que está separado de Cristo continua sob condenação, pois a salvação pertence somente aos que conhecem a Deus, ou antes, são conhecidos d’Ele.