O arrebatamento da Igreja

A orientação paulina é para que os cristãos não fiquem preocupados ou, assustados com o arrebatamento da Igreja, pois o dia do Senhor só surpreenderá quem está nas trevas.

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Qual a medida da depravação da humanidade?

Ao dirigir a palavra aos escribas e fariseus, Jesus os chamava de condutores cegos e insensatos ( Mt 23:16 -17). A figura da cegueira e da surdez aplica-se aos judeus, portanto, utilizá-las para descrever a humanidade sem Deus estabelece um entendimento equivocado de que a humanidade é cega e surda. Pelo fato de a humanidade estar morta em delitos e pecados, aplicam à humanidade as figuras da ‘cegueira’ e ‘surdez’, sendo que tais figuras apontam para Israel. Dai surge a ideia de que, para ver e ouvir a palavra de Deus, é necessário uma graça especial dada somente a alguns.


Alienação ou depravação

Após ler o artigo ‘Os cinco pontos’ do Rev. Alderi Souza de Matos, especificamente o subtítulo ‘Depravação Total’, fez-se necessário comentar o evento da criação do homem e analisar o que chamam de depravação total.

Assim se expressou o Ver. Alderi:

“A Bíblia diz que Deus criou o primeiro homem, Adão, à Sua imagem e semelhança. Deus fez um pacto com esse homem a fim de que, através da obediência aos Seus mandamentos, este pudesse obter vida. Contudo, o homem falhou desobedecendo a Deus deliberadamente, fazendo uso do seu livre-arbítrio, rebelando-se contra o seu Criador. Este pecado inicial de desobediência (conhecido como a Queda do Homem) resultou em morte espiritual e ruptura na ligação de sua alma com Deus, o que mais tarde trouxe também sua morte física. Sendo Adão o representante de toda a raça humana, todos caímos com ele e fomos afetados pela mesma corrupção do pecado. Tornamo-nos objetos da justa ira de Deus e a morte passou a todos os homens” Os Cinco Pontos, Alderi Souza de Matos < http://ipbo.org.br/cincopontos.html > Consulta realizada em 23/09/13.

O Rev. Alderi diz que Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança, no entanto, o apóstolo Paulo esclarece a exposição acerca da criação do homem que consta do Gênesis dizendo que Adão foi criado à imagem de Cristo, e não a imagem e semelhança do Deus invisível “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir” ( Rm 5:14 ).

O apóstolo Paulo deixa claro que Adão é a figura daquele que havia de vir, ou seja, através das Escrituras sabemos que Cristo homem é o que veio na plenitude dos tempos, portanto, a imagem que foi dada ao primeiro homem é a imagem do Cristo que haveria de vir ao mundo.

Quando Cisto foi manifesto aos homens na terra, manifestou-se em carne, e não em glória. A imagem que Adão recebeu foi a de Jesus Cristo homem, e não a imagem de Deus, visto que Deus é espírito. Para saber mais, acesse o artigo A criação do homem e a encarnação de Cristo .

Através do mandamento: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16 -17), Deus alertou que havia a possibilidade de o homem abrir mão da comunhão que possuía com o Criador.

O fim da comunhão com Deus seria tão funesto que foi nomeada morte. Separação que o homem não pode remediar, e que emprestou o nome ao evento ‘descer ao pó da terra’. O homem se preocupa com o ‘descer ao pó’ como se fosse o mais grave evento para a existência do homem, e muitos não sabem que a separação de Deus pode perdurar pela eternidade.

Enquanto possuía comunhão com Deus não havia nenhuma obrigação para o homem, mas se decidisse comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, a comunhão com Deus estaria cortada (morte).

Deus é vida, e a comunhão com Ele é vida, portanto, estar alienado d’Ele é morte. A ideia de morte no mandamento que foi dado no Éden significa separação de Deus, alienação, consequência muito mais gravosa e danosa para o homem do que o término das funções vitais, que é o descer ao pó (separação dos entes queridos) “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” ( Gn 2:16- 17); “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” ( Gn 3:19 ).

A ofensa de Adão (conhecida como a Queda do Homem) resultou em separação (morte), ruptura entre o Criador e a criatura. A criatura continuou existindo, no entanto, após a ofensa, uma parede de separação foi erguida. O homem tornou-se separado de Deus, perdeu a liberdade que havia na comunhão “Porque, quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça” ( Rm 6:20 ).

Por causa da ofensa a terra foi amaldiçoada, a mulher foi apenada a ter filho com dores e o homem a comer do suor do seu rosto até tornar para o pó da terra, isto porque o homem foi tomado do pó da terra. É neste ponto que surge o conceito de morte física, que não pode ser confundida com a morte espiritual que é alienação de Deus ( Gn 3:19 ).

Adão é a cabeça da raça humana e, através da desobediência dele toda a humanidade foi afetada. Por causa da ofensa de Adão a humanidade tornou-se filha da ira e da desobediência, e a alienação passou a todos os homens. Toda a humanidade herdou as consequências da ofensa de Adão e, por isso, todos os homens nascem alienados da Vida.

A queda de Adão escancarou uma porta larga pela qual todos os homens entram quando nascem. Esta porta larga dá acesso a um caminho largo que conduz os homens à perdição ( Mt 7:13 ). Por causa da ofensa de Adão todos os homens que veem ao mundo são ímpios, pois se desviam de Deus desde a madre. Andam errado desde que nascem, pois estão em um caminho largo que os conduz à perdição ( Sl 58:3 ).

Em Adão desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos, pois toda a humanidade estava na coxa de Adão ( Hb 7:9 -10), e neste quesito não há distinção de carne e sangue. Tanto judeus quanto gentios tornaram-se impróprios para a glória de Deus ( Sl 53:3 ; Rm 3:9 ).

Com a queda, os homens passaram a ser descritos como escravos do pecado, portanto, filhos da desobediência, herdeiros da ira.

Ser escravo do pecado não é ser escravo da própria natureza. É equivocada a concepção de que alguém é escravo de si mesmo, antes um escravo é aquele que, mesmo contra a sua vontade está sob domínio de outrem.

O pecado alcançou o senhorio por intermédio do mandamento santo, justo e bom que foi dado no Éden. Foi através do mandamento dado no Éden que o pecado tem força para dominar a humanidade, pois sem o mandamento não existiria o pecado “Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:8 ).

Sem o mandamento que diz: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”, não haveria alienação, morte, separação entre Deus e os homens, mas por causa da ofensa, veio a morte por força do mandamento divino que não pode ser invalidado “Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei” ( 1Co 15:56 ).

Ora, toda a humanidade herdou as consequências da ofensa de Adão, ou seja, a morte. Não existe nada mais grave do que a alienação de Deus. Mas, me surpreende a concepção de que os homens nascem ‘totalmente depravados’, ou seja, a concepção e o conceito ‘extensivamente maus’.

“Toda a humanidade herdou a culpa do pecado de Adão e por isso todos nascemos totalmente depravados e espiritualmente mortos. A morte espiritual não quer dizer que o espírito humano esteja inativo, mas sim que o homem é culpado (tem um passado manchado) e corrupto (possui uma natureza má). A depravação total não quer dizer que os homens são intensivamente maus (que somos tão maus quanto poderíamos ser), mas sim que somos extensivamente maus (todo o nosso ser, intelecto, emoções e vontade estão corrompidos pelo pecado)” Os Cinco Pontos, Alderi Souza de Matos.

A colocação do Rev. Alderi começa com o equivoco de afirmar que a humanidade herdou a culpa do pecado de Adão, sendo que a bíblia demonstra que o homem herdou a condenação: alienação, separação de Deus. No Novo Testamento, o termo grego traduzido por culpa.

(1777 ενοχος enochos de 1758; TDNT – 2:828,286; adj 1) constrangido, sob obrigação, sujeito a, responsável por 1a) usado de alguém que está nas mãos de, possuído pelo amor, e zelo por algo 1b) num sentido forense, denotando a conexão de uma pessoa seja com o seu crime ou com penalidade ou julgamento, ou com aquilo contra quem ou o que ele tem ofendido 1b1) culpado, digno de punição 1b2) culpado de algo 1b3) do crime 1b4) da penalidade 1b5) sujeito a este ou aquele tribunal i.e. a punição a ser imposta por este ou aquele tribunal 1b6) do lugar onde a punição é para ser sofrida) Dicionário Strong, aparece em conexão com a ideia de punição, o que difere do conceito jurídico recente de culpa, que deriva das intenções.

Quando encontramos na bíblia que o homem é culpado, não significa que a Bíblia está levando em conta as questões de foro íntimo do indivíduo como certo e errado, conhecedor ou ignorante, motivos e intenções, etc. O termo culpado aponta somente para a penalidade imposta.

Um jurista entende que a humanidade herdou a culpa de Adão, mas a Bíblia demonstra que o homem herdou a condenação “Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ).

Mas, no que consiste a condenação? Alienação, separação, morte. Ora, todos os homens nascem separados da vida que há em Deus, portanto, mortos. A penalidade da desobediência é única: certamente morrerás. Na penalidade não está inclusa a ideia de depravação.

O que querem dizer com ‘depravado’? Por que a necessidade de enfatizar a ‘depravação’ com o termo ‘totalmente’. Por que a necessidade de inserir um novo termo para ilustrar a condição da humanidade se o termo morte demonstra com clareza a condição do homem?

O homem não possui um passado manchado, antes, segundo a Bíblia, é o homem que está manchado, ou seja, maculado, impróprio para comunhão com Deus. O homem não possui uma natureza má, antes o homem é apresentado na Bíblia como sendo mau “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” ( Mt 7:11 ).

Surpreende-me a colocação de que os homens não são ‘intensivamente’ maus, e sim, extensivamente maus. Quando comparo com o que Jesus disse: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos…” (Mateus 7 : 11), verifico que nenhuma das duas premissas resistem à verdade.

Quando Jesus diz: “Se vós, sendo maus…”, indica que a plenitude do ser é má, ou seja, está comprometida. Se houvesse como mensurar o mau que decorre da ofensa, e esse mau fosse mínimo, mesmo assim o homem estaria aquém da gloria de Deus. Por que? Porque Deus é luz e não há n’Ele trevas nenhuma ( 1Jo 1:5 ).

A morte não comporta intensidade de modo que dizer que o homem é totalmente depravado é sem significado. O homem está morto em delitos e pecados e é mau, o que contraria a assertiva do Rev. Alderi.

Por outro lado, Jesus demonstra que, apesar de os seus interlocutores serem maus, sabiam dar boas coisas aos seus filhos ( Mt 7:11 ), o que demonstra que os homens não são extensivamente maus, como afirma o Rev. Alderi.

Ora, apesar de serem inteiramente maus, o intelecto dos fariseus não foi afetado, pois davam aos seus filhos boas dádivas. A emoção não foi afeta, pois o ato de dar boas dadivas aos filhos demonstra que o pecado não tolhe o forte vínculo emocional entre pai e filho.

Observe que, apesar de os fariseus serem maus, caso o filho deles pedisse pão, jamais dariam uma pedra. Ou, se o filho pedisse um peixe, jamais dariam uma serpente, o que evidencia que a vontade do homem não foi comprometida após a queda.

O que foi comprometida foi a relação do homem com Deus. Antes da queda havia comunhão, liberdade e vida, após a queda instalou-se a morte, perdeu-se a comunhão e o homem tornou-se escravo do pecado.

No instante após comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, Adão passou à condição de morto para Deus, alienado, separado, etc. A morte foi a penalidade estabelecida na lei: certamente morrerás. O homem não ficou extensivamente mau após a queda visto que não há no mandamento dado no Éden a penalidade ‘certamente ficarás extensivamente mau’.

Após a queda Adão não praticou nenhuma maldade que pudéssemos indicar que ele tornou-se tão mau quanto poderia ser, e nenhuma atitude dele após a queda indica que o seu intelecto, emoções e vontade foram corrompidos, porém, uma coisa é certa: ele estava completamente separado de Deus.

A morte espiritual é alienação de Deus, mas isto não significa que, por estar ‘separado de Deus’ o homem é ‘extensivamente mau’, ou seja, que o intelecto, as emoções e a vontade do homem estão corrompidos pelo pecado.

Há o mau proveniente da ofensa de Adão e o mau proveniente do fruto da árvore do conhecimento. Temos que divisar bem o que é ser mau por causa da ofensa de Adão, e o que é ter o conhecimento do bem e do mal proveniente do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal que estava no meio do jardim.

Através do seu intelecto, sentimento, emoções e vontade o homem pode executar intentos nobres e bons, como também pode executar ações reprováveis e más. Tanto o que faz boas ações quanto o que faz más ações estão alienados de Deus e, diante de Deus estão em pé de igualdade, pois o mais reto dos homens diante de Deus é como um espinho, e o mais justo como uma cerca de espinho ( Mq 7:4 ).

Quando a Bíblia afirma que o homem é mau, temos que entender o conceito de mau assim como entendemos o conceito de trevas.  Deus é luz, e o homem sem Deus é trevas. Dentro do mesmo princípio, Deus é bom e o homem sem Deus é mau.

Quando dizemos que Deus é bom, temos que entender o conceito ‘bom’ segundo a concepção do homem da antiguidade, e não com o olhar e o sentimento do homem moderno. Na Bíblia ‘bom’ (aghatos) vincula-se à nobreza, e o conceito de mau que se aplica ao homem é o de vil, baixo, ralé. Ou seja, há uma barreira de separação entre Deus e os homens, não porque o homem é maldoso e Deus é bondoso, antes porque a natureza de Deus é distinta da do homem, este inferior e aquele superior.

Quando a bíblia diz que o homem está separado, alienado de Deus, estabelece um conceito de totalidade. Não há como estar ‘parcialmente’ alienado. Não há como apor uma adjetivação na condição do homem, como ‘totalmente’ morto, ‘plenamente’ morto, ‘incomparavelmente’ morto, etc.

Mas, muitos adeptos da reforma protestante apresentaram o conceito da depravação total, dizendo que os homens são extensivamente maus, ou seja, que o pecado afetou o intelecto, as emoções e a vontade do homem.

A ofensa afetou a relação entre o homem e Deus, já o intelecto do homem, bem como as emoções e vontade adquiriram um novo ingrediente: o conhecimento do bem e do mal. O evento negativo que afetou o homem foi a alienação de Deus, porém, adquirir o conhecimento do bem e do mal não pode ser considerado como algo negativo, visto que o próprio Criador é detentor deste conhecimento.

O fato de o homem desprezar a palavra de Deus o deixa entregue a um sentimento perverso de modo que praticam coisas inconvenientes ( Rm 1:28 ), porém, as coisas inconvenientes que praticam não é o que os tornam escusáveis diante de Deus.

O pecado está na desobediência de ter comido do fruto, e não no conhecimento do bem e do mal que o homem adquiriu por ter comido do fruto do conhecimento do bem e do mal. Conhecer o bem e o mal não é pecado, visto que Deus é conhecedor (saber)do bem e do mal (Gn 3.22) e n’Ele não há trevas nenhumas. Pecado é a condição do homem após a ofensa.

O pecado é a condição imposta pela lei em função da ofensa, condição que impossibilita que o homem restaure a comunhão com seu Criador. Por causa da morte que mantém o homem preso ao pecado, o homem natural por si mesmo é incapaz de reatar a comunhão com Deus.

Mas, diante da impossibilidade do homem, Deus tomou a iniciativa de salvar a humanidade. Por intermédio de Cristo Jesus, Deus tomou a providência necessária para que o homem volte a ter comunhão com Deus.

No Éden Deus deu um mandamento que preservaria a condição do homem em comunhão com Deus, com o advento de Cristo, o último Adão, Deus deu um novo mandamento que restaura a comunhão com Deus.

E qual é este mandamento? Encontramos o mandamento de Deus estampado nas Escrituras: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” ( 1Jo 3:23 ).

Em todos os tempos Jesus é o único caminho que reata a comunhão dos homens com Deus, pois Jesus foi dado para este fim “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” ( At 4:12 ). No entanto, a humanidade, no afã de se salvar promovem inúmeras religiões na tentativa de que Deus lhes seja propício, porém, essas tentativas são inócuas, pois o homem natural por si mesmo não pode agradar a Deus. Somente a justiça agrada a Deus.

Além de dizerem que a ‘depravação total’ significa que ‘o pecado afetou o intelecto, as emoções e a vontade do homem’, muitos que seguem a doutrina produzida na reforma protestante alegam que o homem natural é totalmente incapaz de crer em Deus, pois está morto, cego e surdo para as coisas espirituais.

Ora, primeiro analisaremos esta alegação sob o prisma da nação de Israel, lembrando que Deus anunciou através do profeta Isaías que estendeu a suas mãos o dia todo a um povo rebelde “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” ( Is 65:2 ).

Como pode ser isto? Apesar de Deus saber que o povo de Israel era totalmente incapaz de crer por estarem mortos, cegos, surdos e com o intelecto, as emoções e a vontade comprometida pelo pecado, estendeu a mão aos filhos de Jacó? Seria um tremendo contra censo! Apesar de Deus saber que o homem é completamente inabilitado para atendê-Lo, faz um convite de salvação e estende a mão? “Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos” ( 1Co 14:33 ).

Como Deus pode acusar o povo de Israel de não querer ouvi-Lo, se, na verdade, o povo era completamente surdo e cego? “Porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do SENHOR” ( Is 30:9 ).

Não querer ouvir é completamente diferente de ser surdo, ou seja, impossibilitado de ouvir. Estar morto é uma condição, não querer ouvir é atitude rebelde.

Como é possível Deus clamar ao povo que volte, se o povo era surdo? “Vai, pois, e apregoa estas palavras para o lado norte, e dize: Volta, ó rebelde Israel, diz o SENHOR, e não farei cair a minha ira sobre ti; porque misericordioso sou, diz o SENHOR, e não conservarei para sempre a minha ira” ( Jr 3:12 ).

Ora, a Bíblia é clara em demonstrar que os filhos de Israel podiam ouvir. Primeiro porque Deus lhes dirigiu a palavra. Segundo porque eles podiam ouvir ou deixar de ouvir “Mas tu lhes dirás as minhas palavras, quer ouçam quer deixem de ouvir, pois são rebeldes” ( Ez 2:7 ); “Mas, quando eu falar contigo, abrirei a tua boca, e lhes dirás: Assim diz o Senhor DEUS: Quem ouvir ouça, e quem deixar de ouvir, deixe; porque eles são casa rebelde” ( Ez 3:27 ).

Já no Novo Testamento, quando Jesus conversa com Marta, irmã de Lazaro, disse: “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá ( Jo 11:25 ). Mesmo os ‘mortos’ podem ouvir e crer, e se crerem, viverão, ou seja, voltarão a ter comunhão com Deus “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” ( Jo 5:25 ); “Ouvi, e a vossa alma viverá” ( Is 53:3 ).

Isaias profetizou que o povo que andava em trevas e que habitava nas regiões da morte viu uma grande luz, demonstrando que os homens, apesar de estarem mortos (alienados de Deus), pode ver “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” ( Is 9:2 ).

Deus estendeu as suas mãos todos os dias anunciando a seguinte mensagem aos ‘mortos’: “Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, dando-vos as firmes beneficências de Davi” ( Is 55:3 ). Como posso afirmar que a mensagem era para os ‘mortos’? Porque se desse ouvidos (inclinar os ouvidos) e viesse a quem anuncia a mensagem alcançaria vida.

Só é possível passar a viver quem está morto, portanto, é anunciado aos mortos a possibilidade de viverem se derem ouvidos a voz de Deus.

Primeiro é necessário que o autor da mensagem tenha poder para dar vida. Em segundo lugar é necessário que a mensagem seja anunciada, pois se não há quem pregue, não há como crer. Em terceiro lugar é necessário ao homem morto inclinar os ouvidos, o que conduzirá o homem a Deus (vinde a mim). Quando o homem dá ouvidos, ou seja, ouve, volta à comunhão com Deus, terá vida dentre os mortos.

O que dissemos acima, o apóstolo Paulo escreveu aos Romanos:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz: Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre judeu e grego; porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas. Mas nem todos têm obedecido ao evangelho; pois Isaías diz: SENHOR, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus. Mas digo: Porventura não ouviram? Sim, por certo, pois Por toda a terra saiu a voz deles, E as suas palavras até aos confins do mundo. Mas digo: Porventura Israel não o soube? Primeiramente diz Moisés: Eu vos porei em ciúmes com aqueles que não são povo, Com gente insensata vos provocarei à ira. E Isaías ousadamente diz: Fui achado pelos que não me buscavam, Fui manifestado aos que por mim não perguntavam. Mas para Israel diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente” ( Rm 10:8 -21).

Como havia uma barreira de separação entre Deus e os homens, o homem não podia aproximar-se de Deus e nem Deus do homem. Se Deus se aproximasse do homem após a queda, violaria a sua própria palavra e comprometeria a sua justiça e santidade. Já o homem não podia aproximar-se pela falta do conhecimento necessário, o que foi satisfeito quando Deus enviou o seu Único Filho como mediador “Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si” ( Is 53:11 ).

Para ser justo e justificar o homem, Deus enviou ao mundo Jesus Cristo homem na condição de mediador entre Deus e os homens. Por intermédio de Cristo, o Verbo de Deus, foi estabelecido um novo e vivo caminho para que o homem volte à comunhão com Deus.

O homem não é cego e nem surdo. A surdez e a cegueira são figuras especificas utilizadas pelos profetas para fazer referencia ao povo de Israel “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver” ( Is 42:18 ).

Como é possível o apóstolo Paulo afirmar que é possível entender a divindade pelas coisas criadas se o homem está impossibilitado de ver? “Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas…” ( Rm 1:20 ).

Na Bíblia você encontrará os termos ‘surdo’ e ‘cego’ utilizados como figuras para fazer referencia aos filhos de Jacó. O povo de Israel acreditava que via e ouvia ( Jo 9:39 -41), ou seja, entendia que eram guia dos cegos e dos que estavam em trevas ( Rm 2:19 ), porém, se admitissem que eram cegos, seriam como o servo do Senhor: perfeitos! “Quem é cego, senão o meu servo, ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio? E quem é cego como o que é perfeito, e cego como o servo do SENHOR? Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves ( Is 42:19 -20).

O povo de Israel era tido por cego e surdo não porque eram portadores de deficiência visual e auditiva, antes porque ouviam e viam, mas não obedeciam “Tu vês muitas coisas, mas não as guardas; ainda que tenhas os ouvidos abertos, nada ouves” ( Is 42:20 ).

Ao dirigir a palavra aos escribas e fariseus, Jesus os chamava de condutores cegos e insensatos ( Mt 23:16 -17). A figura da cegueira e da surdez aplica-se aos judeus, portanto, utilizá-las para descrever a humanidade sem Deus estabelece um entendimento equivocado de que a humanidade é cega e surda. Pelo fato de a humanidade estar morta em delitos e pecados, aplicam à humanidade as figuras da ‘cegueira’ e ‘surdez’, sendo que tais figuras apontam para Israel. Dai surge a ideia de que, para ver e ouvir a palavra de Deus, é necessário uma graça especial dada somente a alguns.

Após a queda Adão morreu. Estava separado de Deus em função da ofensa. No entanto, quando Deus chamou Adão dizendo: – “Onde estás?”, apesar de morto, Adão disse: “Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me” ( Gn 3:10 ). Os ouvidos do primeiro homem que morreu estava em pleno funcionamento.

Mas, para quem os profetas disseram estas palavras: “Todos os seus atalaias são cegos, nada sabem; todos são cães mudos, não podem ladrar; andam adormecidos, estão deitados, e gostam do sono” ( Is 56:10 ); “Apalpamos as paredes como cegos, e como os que não têm olhos andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas, e nos lugares escuros como mortos ( Is 59:10 ). Não era para os judeus?

Observe o que diz o Rer. Alderi:

“A depravação total também significa que o homem possui uma inabilidade total para restaurar o relacionamento com seu Criador. Por causa da depravação, o homem natural, por si mesmo, é totalmente incapaz de crer verdadeiramente em Deus. O pecador está morto, cego e surdo para as coisas espirituais. Desde a Queda o homem perdeu o seu livre-arbítrio e passou a ser escravo de sua natureza corrompida e por isso ele é incapaz de escolher o bem em questões espirituais. Todas as falsas religiões são tentativas do homem de construir para si um deus que lhe seja propício. Porém, todas essas tentativas erram o alvo, pois o homem natural por si mesmo não quer buscar o verdadeiro Deus” Idem.

A cegueira e a surdez espiritual são figuras que se aplicam ao povo de Israel, porém, a doutrina calvinista da ‘depravação total’ utilizam figuras que tratam do povo de Israel para descrever a humanidade, e por isso dizem: ‘O pecador está morto, cego e surdo para as coisas espirituais’.

No entanto, quando as Escrituras diz: “Trazei o povo cego, que tem olhos; e os surdos, que têm ouvidos” ( Is 43:8 ); “Surdos, ouvi, e vós, cegos, olhai, para que possais ver” ( Is 42:18 ), ela aponta para os que receberam a lei, e não aos gentios “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

 

 

Os Cânones de Dort (1618-1619)

Os Cânones de Dort, ou cânones de Dordrech, intitulados formalmente como ‘A Decisão do Sínodo de Dort sobre os Cinco Pontos Principais de Doutrina’ em disputa na cidade holandesa de Dordrech, em 1618/19, conhecida também como os Cinco pontos contra os Remonstrantes, registra a seguinte ideia no primeiro ponto:

“1. Todos os homens pecaram em Adão, estão debaixo da maldição de Deus e são condenados à morte eterna. Por isso Deus não teria feito injustiça a ninguém se Ele tivesse resolvido deixar toda a raça humana no pecado e sob a maldição e condená-la por causa do seu pecado, de acordo com estas palavras do apóstolo:  ‘… para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus… pois todos pecaram e carecem da glória de Deus…’, e: ‘…o salário do pecado é a morte…’ ( Rm 3:19- 23; Rm 6:23 )”.

Os autores do Cânones de Dort no afã de rebater a doutrina arminianista cometeram o equivoco de não observar que a assertiva paulina: ‘… para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus’, tinha por alvo os judeus, e não  a humanidade. É certo que todos pecaram em Adão. É certo que todos estão debaixo de maldição e condenados à morte eterna. Também é certo que se Deus não houvesse resgatado o homem não haveria injustiça n’Ele.

O erro está em utilizar a passagem bíblica de Romanos 3, verso 19 para embasar a assertivas acima, visto que o apóstolo Paulo estava incluindo o povo judeu sob o pecado e a condenação. Que todos pecaram e carecem da glória de Deus é fato, porém, os judeus se consideravam privilegiados por serem descendentes da carne de Abraão.

Censurando os judeus, o apóstolo Paulo diz: “Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus” ( Rm 2:17 ), demonstrando que, o que exporia a seguir depunha contra os judeus, incluindo-os debaixo da maldição do pecado.

Após apresentar a vantagem e a utilidade do povo judeu ( Rm 3:1 -2), o apóstolo Paulo demonstra que em nada eram diferente dos gentios ( Rm 3:9 ). Neste contexto, todas as afirmações do apóstolo Paulo são absolutas no sentido de demonstrar a inutilidade da circuncisão para ser salvo.

Dai a conclusão: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ).

Se a lei foi escrita para os que estavam debaixo da lei, significa que o povo de Israel também estava sob condenação, de modo que todo mundo é condenável diante de Deus por causa da ofensa de Adão.

Quando é dito: “… pois todos pecaram e carecem da glória de Deus…’, devemos considerar a inclusão dos judeus sob a maldição do pecado e, subsidiariamente, subentende-se que os gentios são pecadores. A ênfase do texto, porém, está nos judeus.

A exposição do apóstolo Paulo foi necessária para conscientizar o povo de Israel da sua real condição. Israel era nomeado povo de Deus, o que dava a entender que era uma nação constituída de homens que não eram pecadores.

Ler a carta de Paulo aos Romanos como se fosse uma carta direcionada apenas aos gentios é ficar alijado do sentido exato do texto, e a compreensão ficara distorcida. O apóstolo Paulo só fala aos gentios a partir do capítulo 11 da carta aos Romanos “Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo dos gentios, exalto o meu ministério” ( Rm 11:13 ), enquanto os capítulos iniciais foram escritos para os cristãos judeus “Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus…” ( Rm 2:17 ).

No segundo ponto do Cânones de Dort, fica demonstrado que Deus manifestou seu amor ao enviar o seu Filho, Jesus Cristo:

“2. Mas ‘Nisto se manifestou o amor de Deus em nós, em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo…’, ‘…para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ( 1Jo 4:9 ; Jo 3:16 ).

No ponto três do Canones de Dort tem-se algumas distorções que decorre de uma má leitura que já demonstramos no ponto um:

“3. Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em sua misericórdia, mensageiros desta mensagem muito alegre a quem e quando Ele quer. Pelo ministério deles, os homens são chamados ao arrependimento e à fé no Cristo crucificado. Porque ‘…como crerão naquele de quem nada ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados?…’ ( Rm 10:14- 15)”.

A Bíblia demonstra que os homens necessitam de comunhão com Deus, e não que os homens devam ser conduzidos à ‘fé’.

A Bíblia demonstra que há uma barreira entre Deus e os homens, e não uma barreira entre os homens e Cristo, que é a ‘fé’ manifesta. Seria um contra senso Deus enviar um mediador e haver uma barreira entre os homens e o mediador.

É um absurdo entender que há uma barreira entre o pecador (homens) e o mediador (Cristo), ou que há uma barreira entre o pecador e o sacerdote como sugere a asserção:

‘Para que os homens sejam conduzidos à fé, Deus envia, em sua misericórdia, mensageiros desta mensagem…’.  Idem

Se entendemos que Cristo é a fé manifesta ( Gl 3:23 ), é sem sentido afirmar que os homens devam ser conduzidos à fé. Ora, foi Deus que enviou o seu Filho ao mundo.

Se entendemos que a ‘fé’ é a mensagem anunciada que tem por tema o Cristo ( Jd 1:3 ; Rm 1:5 ), o mensageiro é porta-voz da fé aos homens para que eles possam por intermédio de Cristo serem conduzidos a Deus.

Ora, Deus em sua misericórdia, enviou o seu Filho amado ao mundo, ou seja, a todos os homens, e não ‘a quem e quando Ele quer’. O apóstolo Paulo é claro: “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ; Jo 3:16 ).

O homem precisa ser conduzido a Deus, e para isto Cristo veio. O homem não precisa ser conduzido a Cristo, antes a Deus, e Cristo é o mediador. Cristo foi posto como um novo e vivo caminho, e pelo seu corpo o homem tem acesso a Deus.

O Canones de Dort faz distinção entre ‘arrependimento’ e ‘fé’ por causa do conceito deturpado de arrependimento oriundo da concepção católica que decorre do termo ‘penitência’.

Arrependimento é mudança de concepção, abandono de uma ideia para abraçar uma nova, de modo que, quando ocorre o arrependimento, consequentemente, o homem abraça a fé. Se abraçou a fé, significa que se arrependeu, e vice-versa, pois arrependimento é ‘metanoia’, mudança de concepção, conversão.

No ponto 4 temos a seguinte assertiva:

“4. A ira de Deus permanece sobre aqueles que não creem neste Evangelho. Mas aqueles que o aceitam e abraçam Jesus, o Salvador, com uma fé verdadeira e viva, são redimidos por Ele da ira de Deus e da perdição, e presenteados com a vida eterna ( Jo 3:36 ; Mc 16:16 )”.

Basta ao homem crer em Cristo segundo as Escrituras que aceitaram a Jesus como salvador com uma fé verdadeira e viva. A fé verdadeira e viva é a verdade do evangelho, e aquele que crê no evangelho tem uma fé verdadeira e viva.

O ponto cinco possui duas incongruências com as Escrituras:

“5. Em Deus não está, de forma alguma, a causa ou culpa desta incredulidade. O homem tem a culpa dela, tal como de todos os demais pecados. Mas a fé em Jesus Cristo e também a salvação por meio d’Ele são dons gratuitos de Deus, como está escrito: ‘Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus…’ ( Ef 2:8 ). Semelhantemente, ‘Porque vos foi concedida a graça de…’ crer em Cristo ( Fp 1:29 )”.

Deus não trata com a humanidade a questão da culpa, antes da condenação. Foi um só homem que pecou, e todos pecaram. Um só homem ofendeu, e a condenação veio sobre todos os homens, mesmo a humanidade não tendo transgredido à semelhança da transgressão de Adão ( Rm 5:14 ).

A humanidade está condenada por causa da ofensa de Adão, e este é o pecado que alienou o homem de Deus. Sobre a humanidade pesa a condenação por causa da ofensa de Adão, portanto, não há que se falar que ‘o homem tem a culpa dela, tal como de todos os demais pecados’.

A segunda incongruência se dá pela má leitura do texto de Efésios 2, verso 8: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus…” ( Ef 2:8 ). O apóstolo Paulo estava explicando que os cristãos são salvos graciosamente mediante a fé, ou seja, mediante Cristo, pois Ele é a fé que ‘havia de se manifestar’. O termo ‘fé’ no versículo não é o que os tradutores vertem por ‘crer’. Não se trata do verbo ‘fé’, antes é a forma substantivada, um recurso linguístico (figura de linguagem) para fazer referência à pessoa do Cristo  ( Gl 3:23 ).

A salvação em Cristo, a ‘fé’ manifesta não vem dos homens, é dom de Deus, pois Jesus mesmo disse a mulher samaritana: “Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” ( Jo 4:10 ). Cristo é o dom de Deus, a fé que havia de se manifestar e foi manifesta na plenitude dos tempos.

Já o que foi escrito aos Filipenses diz respeito a batalhar pela fé ( Jd 1:3 ), pois além de terem crido em Cristo, a eles foi concedido defender a mensagem do evangelho “Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não somente crer nele, como também padecer por ele” ( Fp 1:29 ).

No ponto 6 do Canones de Dort, ao afirmar a doutrina da eleição e da reprovação calvinistas, é enfatizado que Deus faz distinção entre homens:

“6. Deus dá nesta vida a fé a alguns enquanto não dá a fé a outros. Isto procede do eterno decreto de Deus. Porque as Escrituras dizem que Ele “…faz estas cousas conhecidas desde séculos.” e que Ele “faz todas as cousas conforme o conselho da sua vontade…” ( At 15:18 ; Ef 1:11 ). De acordo com este decreto, Ele graciosamente quebranta os corações dos eleitos, por duros que sejam, e os inclina a crer. Pelo mesmo decreto, entretanto, segundo seu justo juízo, Ele deixa os não-eleitos em sua própria maldade e dureza. E aqui especialmente nos é manifesta a profunda, misericordiosa e ao mesmo tempo justa distinção entre os homens que estão na mesma condição de perdição. Este é o decreto da eleição e reprovação revelado na Palavra de Deus. Ainda que os homens perversos, impuros e instáveis o deturpem, para sua própria perdição, ele dá um inexprimível conforto para as pessoas santas e tementes a Deus”.

Quando afirmam que ‘Deus dá nesta vida a fé a alguns enquanto não dá a fé a outros’, contrariam a bíblia, visto que Cristo é a fé manifesta que Deus deu a todos os homens. Cristo é descrito como o Sol nascente das alturas, e o sol nasce sobre todos sem distinção, pois Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para todo aquele que crê seja salvo ( Lc 2:32 ).

A fé foi manifesta salvadora a todos os homens, pois Deus deseja que todos se salvem “Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” ( 1Tm 2:4 ); “Porque para isto trabalhamos e lutamos, pois esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis” ( 1Tm 4:10 ); “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam” ( At 17:30 ).

Deus não faz distinção entre homens e homens, pois todos entram neste mundo por uma mesma porta, a porta larga (Adão) e alienados estão de Deus “Quanto menos àquele, que não faz acepção das pessoas de príncipes, nem estima o rico mais do que o pobre; porque todos são obras de suas mãos” ( Jó 34:19 ; Dt 10:17 ; Dt 16:19 ). Todos entram por Adão, ou seja, todos são filhos da desobediência, para que Deus use igualmente de misericórdia para com todos “Porque Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” ( Rm 11:32 ).

Por causa da separação, Deus estabeleceu Jesus Cristo homem como mediador entre Deus e os homens, de modo que não há ninguém que seja especial diante da mensagem do evangelho, e ninguém que seja preterido ao ouvi-lo “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” ( 1Tm 2:5 ).

Ao escrever aos Gálatas, o apóstolo Paulo deixou claro o motivo pelo qual todos foram encerrados debaixo do pecado: “Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes ( Gl 3:22 ). Não importa se judeus ou gregos, a promessa que e segundo a fé é para os que creem.

Deus faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade ( Ef 1:11 ), e é da vontade de Deus salvar os crentes, ou seja, os que creem na mensagem do evangelho, que é poder de Deus. Na pregação está o poder de Deus e, todos quantos creem recebem poder para serem feitos filhos de Deus “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação” ( 1Co 1:21 ; Jo 1:12- 13).

A salvação é para os que creem na pregação, pois na mensagem anunciada por Cristo e os apóstolos está o poder de Deus para salvação ( Rm 1:16 ; Hb 5:9 ).

A salvação não é segundo o que propõe a predestinação calvinista, de que o homem é salvo antes mesmo de ouvir a palavra da verdade, o evangelho da salvação. Ao ouvir e crer em Cristo o homem é salvo, e após ser salvo é designado eleito de Deus para ser santo e irrepreensível, predestinado a ser conforme a imagem de Cristo Jesus “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” ( 1Jo 3:2 ).

 

Alienados

Como já verificamos, a força da lei dada no Éden somada a ofensa de Adão fez surgir a parede de separação (pecado) entre Deus e os homens. O termo utilizado para descrever esta separação é alienação, diferente da ideia que o termo ‘depravação total’ transmite.

O termo depravação tem relação com o que o homem realiza do ponto de vista moral, já a alienação demonstra a quebra da comunhão com Deus. Do ponto de vista da moral é possível mudarmos o nome ‘depravado’ através do adjunto ‘totalmente’, mas se falarmos da relação entre Deus e os homens sob o domínio do pecado, o termo ‘alienado’ não comporta o adjunto ‘totalmente’.

O pecador está separado de Deus, e ponto. Nem mais nem menos. Utilizarmos o adverbio totalmente, ou completamente, é sem valor, pois o termo alienado encerra uma ideia.

O equivoco de tentar demonstrar que o homem está totalmente depravado surge da má leitura que fizeram da explicação de várias passagens do Antigo Testamento que o apóstolo Paulo citou na carta aos Romanos.

Quando o apóstolo Paulo explicou aos cristãos convertidos dentre os judeus que eles não eram melhores que os gentios, porque ambos os povos estavam debaixo do pecado ( Rm 3:9 ), citou os Salmos: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só ( Rm 3:10 -12).

Os judeus, por serem descendentes da carne de Abraão, terem a lei e a circuncisão, consideravam que eram melhores que os gentios, porém, o apóstolo Paulo utilizou os Salmos para demonstrar que as Escrituras protestavam contra os judeus e não contra os gentios.

Apesar de os gentios serem pecadores, o alvo das Escrituras era os judeus. Apesar dos judeus comparecerem continuamente no templo para orar e oferecer sacrifícios, Deus protestava continuamente contra eles de que não eram justos, não entendiam a vontade de Deus, não buscavam a Deus. Juntamente judeus e gentios se extraviaram em Adão, são imundos e não fazem o bem.

Após citar outras passagens bíblicas, o apóstolo Paulo enfatiza a essência da sua abordagem: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus” ( Rm 3:19 ). Os únicos que possuíam uma boca dilatada eram os judeus, pois confiavam na lei, mas a própria lei foi dada para que eles também estivessem de bocas fechadas, pois eram condenáveis diante da lei e estavam alienados de Deus “Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?” ( Jo 7:19 ; Rm 2:27 ;  ).

A alienação da humanidade é igual para judeus e gregos. Ambos os povos carecem da glória de Deus. A única diferença entre judeus e gentios é que foi dado aos judeus a lei para conduzi-los a Cristo ( Rm 3:2 ). Não existe uma alienação maior ou uma menor. Não existe alienação total ou parcial. O homem quando no pecado está separado, alienado, e ponto!

É de se estranhar que a doutrina calvinista utilize termos como ‘totalmente’, ‘completamente’, para enfatizar a condição do homem separado de Deus. No entanto, desconsideram o fato de que Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que TODO aquele que crê não pereça, ou o fato de que Deus quer que TODOS os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade. Nosso Deus é Deus de paz e não de confusão.

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Gálatas 2 – O apóstolo Pedro é repreendido

A dissimulação do apóstolo Pedro contagiou outros cristãos de origem judaica, de forma que até Barnabé se deixou levar e se afastou dos cristãos convertidos dentre os gentios.


As Origens do Apóstolo

1 DEPOIS, passados catorze anos, subi outra vez a Jerusalém com Barnabé, levando também comigo Tito.

Somente após quatorze anos, o apóstolo Paulo deliberou ir a Jerusalém para novamente falar com os apóstolos que conviveram com Cristo.

Paulo foi a Jerusalém acompanhado de Barnabé e Tito.

 

2 E subi por uma revelação, e lhes expus o evangelho, que prego entre os gentios, e particularmente aos que estavam em estima; para que de maneira alguma não corresse ou não tivesse corrido em vão.

Paulo deixa claro que ‘subiu’ a Jerusalém motivado por uma revelação.

O apóstolo Paulo aproveitou a oportunidade, e fez uma exposição do evangelho que pregava aos gentios. A exposição foi direcionada àqueles que eram estimados pela igreja de Jerusalém.

Ele expôs o evangelho que estava sendo pregado aos gentios com o intuito de verificar se não havia nenhuma discrepância entre o evangelho que estava anunciando, comparando com o evangelho exposto pelos outros discípulos.

Paulo não queria correr em vão, e estava disposto até mesmo a corrigir qualquer desvio ou discrepância quanto ao que ele estava apregoando aos gentios. Esta exposição, ou verificação, foi realizada durante o concílio em Jerusalém.

A exposição de Paulo foi diante de alguns irmãos que ‘pareciam’ ter um maior destaque. Ele demonstra que ‘pareciam’ ser, porque diante do evangelho de Cristo, a aparência do homem não é levada em conta. O que tem valor diante de Deus, é a fé que opera pelo amor (v. 6).

 

3 Mas nem ainda Tito, que estava comigo, sendo grego, foi constrangido a circuncidar-se;

A atitude daqueles que ouviram a exposição do evangelho apregoado aos gentios, demonstrou que o anunciado por Paulo estava em conformidade com o evangelho apregoado pelos outros apóstolos de Cristo.

Aceitaram o apóstolo Paulo de bom grado, e nem mesmo recriminaram a Tito, seu companheiro grego a circuncidar-se. A atitude deles demonstrou de maneira clara que o evangelho proclamado por Paulo estava em conformidade com o evangelho anunciado pelos outros apóstolos e por Cristo.

A expressão ‘nem mesmo’ demonstra que, se algum cristão precisava cumprir com alguma determinação decorrente da lei, este alguém deveria ser Tito: ele era grego e incircunciso. Caso os apóstolos de Jerusalém estivessem apregoando a circuncisão, o primeiro a ser recriminado seria Tito, pois ele era grego e incircunciso.

 

4 E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão;

A exposição do evangelho que Paulo pregava entre os gentios se fez necessário porque havia em Jerusalém falsos irmãos.

Os ‘falsos irmãos’ são caracterizados por tentarem levar os servos de Cristo à servidão da lei. Eles observavam a liberdade dos cristãos concedida por Cristo (não observância da lei mosaica), para tentarem levar cativo os cristãos incautos.

O objetivo de Paulo ao demonstrar que expôs o evangelho de Cristo aos outros apóstolos, e que em nada foi contestado, era dirimir qualquer dúvida dos cristãos quanto as falsas doutrinas dos judaizantes, e defender o seu apostolado.

 

5 Aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós.

Paulo não se submeteu as determinações judaizantes, nem mesmo por um instantes, por ser aquele um momento estratégico e decisivo para a continuidade da verdade do evangelho ( At 15:2 -5).

Estrategicamente, para a propagação do evangelho entre os judeus, Paulo fez com que Timóteo fosse submetido à circuncisão. Não foi circuncidado para salvação, e sim para que eles obtivessem uma melhor abertura quanto à proclamação do evangelho ( At 16:3 ). Porém, quanto da visita a Jerusalém, Paulo demonstra que não devemos nos curvar, nem por uma hora, a ensinamentos errôneos.

Não podemos ser condescendestes a erros que comprometam a verdade do Evangelho.

 

6 E, quanto àqueles que pareciam ser alguma coisa (quais tenham sido noutro tempo, não se me dá; Deus não aceita a aparência do homem), esses, digo, que pareciam ser alguma coisa, nada me comunicaram;

Ao interpretar as cartas de Paulo, o leitor deve ter em mente que várias vezes ele quebra a seqüência da narração principal, faz uma pequena abordagem em um aspecto secundário a esclarecer, e em seguida, volta a discorrer sobre o tema central.

Exemplos típicos de quebra na narração encontra-se neste capítulo: o verso dois deste capítulo é uma continuação da narração histórica das viagens que Paulo realizou, sendo que o verso três foi inserido somente para demonstrar que o evangelho por ele anunciado, foi confirmado pelos outros apóstolos.

O verso três aparece isolado no texto, e somente torna-se compreensível por causa do contexto geral da carta. Já o verso quatro explica o porquê dele ter exposto o evangelho anunciado aos gentios, aos cristãos de Jerusalém.

O verso cinco demonstra qual a atitude e posicionamento de Paulo frente aos judaizantes, e neste verso, ele volta a explicar porque classificou algumas pessoas da igreja de ‘parecer ser alguma coisa’.

Paulo procurou, dentre os cristãos de Jerusalém, aqueles que aparentemente detinham maior destaque, e expôs o evangelho (v. 2). Porém, a aparência que era tida em destaque no seio da igreja de Jerusalém, nada acrescentou a Paulo (v. 6).

A aparência destes cristãos, que eram tidos em destaque, teve o seu valor a seu devido tempo. Paulo refere-se a este ‘outro’ tempo como se dele nem se lembrasse mais.

Noutro tempo refere-se ao tempo em que os cristãos ainda eram trevas, ao tempo em que os cristãos eram considerados incircuncisos pelos da circuncisão. Noutro tempo refere-se ao passado dos cristãos, quando andavam segundo o curso deste mundo ( Ef 2:11 ; Ef 5:8 e Cl 1:21 ).

Aqueles que pareciam ter destaque na igreja através da aparência que detinham (aparência do homem), não tiveram nada a acrescentar à pregação de Paulo.

 

7 Antes, pelo contrário, quando viram que o evangelho da incircuncisão me estava confiado, como a Pedro o da circuncisão

A mesma autoridade que Pedro teve entre os judeus ao pregar o evangelho, os cristãos em Jerusalém reconheceram que Paulo detinha ao comunicar a graça de Deus entre os gentios.

A autoridade de Paulo tornou-se evidente aos irmãos de Jerusalém através da exposição.

 

8 (Porque aquele que operou eficazmente em Pedro para o apostolado da circuncisão, esse operou também em mim com eficácia para com os gentios),

Os irmãos reconheceram o apostolado de Paulo, e que Deus operava por intermédio de Paulo da mesma forma que operava com Pedro.

O serviço de Paulo e Pedro em prol do evangelho não se apoiou em homens, mais em Deus.

Deus operou eficazmente tanto com Paulo quanto com Pedro. A intrepidez de Pedro ao falar do evangelho aos da circuncisão foi semelhante à de Paulo quando anunciava a mensagem do evangelho aos gentios.

 

9 E conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas, a graça que me havia sido dada, deram-nos as destras, em comunhão comigo e com Barnabé, para que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão;

O relato de Paulo aos cristãos da Galácia demonstra que o evangelho que ele anunciava nunca esteve divorciado do que era apregoado pelos outros apóstolos.

Pedro, João e Tiago eram considerados como colunas da igreja, e quando se inteiraram do serviço desenvolvido por Paulo entre os gentios, não o recriminaram. Antes, estenderam-lhe a mão demonstrando que estavam e plena comunhão.

Com isso, estava claro que Tiago, Pedro e João também aceitaram o serviço de Barnabé, que trouxe o apóstolo Paulo aos outros apóstolos ( At 9:27 ). A comunhão foi estabelecida e definiram duas frentes de evangelismo: os de Jerusalém iriam aos judeus e Paulo e Barnabé aos gentios.

 

10 Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência.

A única recomendação a Paulo não se referia ao conteúdo do evangelho, mas a administração de alguns bens direcionados aos pobres. Com isso fica demonstrado que nenhum apóstolo de Jerusalém contestou o evangelho anunciado por Paulo.

Após receber a determinação dos pais da igreja com referência ao cuidado com os pobres, Paulo passou a cumpri-la a risca. Este cuidado fica demonstrado nas cartas aos Corintos, em que ele busca incessantemente a ‘sinceridade do amor’ dos irmãos ( 2Co 8:8 ).

Todas as vezes que Paulo vai tratar do cuidado que se deve ter com os pobres, ele interrompe a seqüência da narração e introduz o tema desta forma: “Ora, quanto a coleta para os santos…” ( 1Co 16:1 );“E agora, irmãos…” ( 2Co 8:1 ); “Ora, quanto a assistência…” ( 2Co 9:1 ).

Isto demonstra que as verdades do evangelho já havia sido anunciado pessoalmente, porém, havia a necessidade de se enfatizar em suas cartas a necessidade da contribuição para sustento dos pobres, conforme a recomendação que recebera.

 

11 E, chegando Pedro à Antioquia, lhe resisti na cara, porque era repreensível.

A chegada de Pedro a Antioquia deveria confirmar o evangelho pregado por Paulo, entretanto, o comportamento dele não condizia com a verdade do evangelho.

Como o comportamento de Pedro poderia influenciar o evangelho de Cristo, por ele ser uma das colunas da igreja, Paulo não se conteve, e o resistiu, ou seja, repreendeu.

Paulo levantou-se contra a atitude de Pedro, mesmo ele sendo uma das colunas da igreja. Aquele comportamento de Pedro, embora fosse normal para ele, poderia por em risco a essência do evangelho.

Paulo se posicionou contra a atitude que poderia trazer um entrave ao evangelho, e não contra a pessoa de Pedro. Em momento algum houve uma disputa por posição.

 

12 Porque, antes que alguns tivessem chegado da parte de Tiago, comia com os gentios; mas, depois que chegaram, se foi retirando, e se apartou deles, temendo os que eram da circuncisão.

Aqui está o motivo da repreensão de Paulo a Pedro.

Pedro estava comendo com os gentios, e quando percebeu que Tiago estava chegando com outros irmãos, e que estes irmãos eram da circuncisão, um sentimento de temor tomou o coração de Pedro, que o fez se apartar dos gentios, para se acomodar junto aos da circuncisão.

De maneira explicita, Pedro se retirou do meio dos cristãos ‘gentios’ por temer os da circuncisão.

 

 

13 E os outros judeus também dissimulavam com ele, de maneira que até Barnabé se deixou levar pela sua dissimulação.

A dissimulação de Pedro contagiou outros cristãos de origem judaica, de forma que até Barnabé se deixou levar.

Paulo toca em um assunto muito interessante: a questão comportamental. Não podemos assumir uma postura que vá contra os princípios bíblicos. Se Deus não faz acepção de pessoas, nós, como cristãos, devemos ter uma postura conforme os princípios da escritura.

Nada faz os homens diferentes diante de Deus, a não ser o novo nascimento.

 

14 Mas, quando vi que não andavam bem e direitamente conforme a verdade do evangelho, disse a Pedro na presença de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?

Aqui há vários exemplos a se seguir. Exemplos da parte de Paulo e da parte de Pedro:

  • Paulo saiu em defesa do evangelho, sem buscar uma posição ‘melhor’, ou de destaque na igreja;
  • A repreensão foi na frente de todos. Paulo não fez um comentário de cunho faccioso. Ele não queria um ambiente de fofocas;
  • A repreensão foi na presença de todos, para que nenhum dos cristãos que presenciaram a dissimulação saíssem com a idéia de que havia um distinção entre judeus e gentios após a conversão;
  • A palavra foi dirigida a Pedro, o responsável por aquele clima de dissimulação;
  • Pedro, um dos principais da igreja, foi bastante humilde para aceitar a correção;
  • Pedro não utilizou o seu prestígio para desculpar-se ou agir arrogantemente;
  • O erro de Pedro fixa-se em uma pequena questão comportamental, porém, se não fosse repreendida a tempo, tornar-se-ia um problema que acabaria por afetar a sua vida espiritual.

Há várias lições nestes versículos, mas a abordagem do apóstolo dos gentios demonstra que jamais um cristãos deve aceitar passivamente pensamentos e comportamentos de outros cristãos que não condizem com o a verdade do evangelho.

Os líderes precisam aprender com o apóstolo Pedro humildade, como servos de Cristo, e não serem senhores de si mesmso.

O apóstolo Paulo argumenta: O que motiva alguém que vive como gentil, exigir que os gentios vivessem como judeus?

 

A fé em Cristo

15 Nós somos judeus por natureza, e não pecadores dentre os gentios.

Paulo construiu aqui, uma frase que demonstra a falsa superioridade dos judeus.

Por natureza os da circuncisão eram judeus e pecadores. Sem contradição alguma, pois todos os homens pecaram em Adão.

A condição de judeu é determinada pela filiação em Abraão (natural), e não por Deus. Da mesma forma que a condição de pecadores não decorre de Deus, mas da natureza decaída herdada de Adão.

 

16 Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada.

Paulo enfatiza um saber comum a todos cristãos: o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Cristo!

Todos os cristãos creram em Cristo para serem justificados, uma vez que era de conhecimento que pelas obras da lei ninguém é justificado.

Como a lei não pôde justificar, é Cristo quem justifica.

 

 

17 Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma.

Todos os cristãos professavam que eram salvos (justificados) pela fé em Cristo (v. 16), o que leva a concluir que todos buscaram a Cristo para serem justificados.

Os cristãos estavam professando uma verdade, mas demonstravam que não entendiam o que era ser justificado em Cristo.

Como os cristãos haviam procurado justificação em Cristo por meio da fé, e não por intermédio das obras da lei, é certo que eles haviam deixado de ser pecadores. Não é razoável ser justificado em Cristo, e ao mesmo tempo permanecer sendo pecador.

Um judeu por natureza é pecador, e se permanecer separado da vida que há em Deus, será achado pecador. Mas, qualquer homem que se refugiar em Cristo, for ainda achado pecador, é o mesmo que dizer que Cristo está sendo ministro do pecado. Que contradição!

O apóstolo não está falando de comportamento, de condutas errôneas, mas da cadeia, ou da natureza que prende todos os homens que não tem a Cristo como Senhor.

Paulo é bem claro: Se após estar em Cristo, o cristão ainda permanecer sendo pecador, ou seja, de posse da velha natureza herdada em Adão, Cristo haveria de ser ministro do pecado.

Só em expor este raciocínio, Paulo interpõe uma ressalva: De maneira nenhuma! Ou seja, o cristão deixa de ser pecador.

Este fato é atestado também pelo apóstolo João: “Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado. Porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus” ( 1Jo 3:9 ). Por que o cristão não peca? Porque o homem que creu em Cristo compartilha da natureza divina ( 2Pe 1:4 ).

Se qualquer que é nascido de Deus não comete pecado, todos quantos não são nascidos de Deus cometem pecado.

Para ser nascido de Deus é preciso ter a semente de Deus, isto demonstra que aqueles que não tem a semente de Deus (a palavra do evangelho), são nascidos da vontade da carne, da vontade do varão e do sangue ( Jo 1:13 ).

Paulo queria que os cristãos compreendessem que, se mesmo após serem justificados em Cristo, ainda estivessem necessitados da lei para serem justificados, ainda estavam em pecado, e Cristo estaria assumindo o papel de ministro do pecado.

É certo que Cristo morreu pelos cristãos, sendo eles (nós) ainda pecadores. Quando o homem aceita a Cristo, ainda está na condição de pecador. Depois de aceitá-lo, porém, vive um novo tempo de paz, amor e justiça, pois é uma nova criatura em Cristo Jesus.

‘Noutro tempo’ éramos pecadores, hoje, estamos assentados nas regiões celestiais em Cristo. A condição do Cristão hoje difere totalmente em essência, da condição de outrora.

 

18 Porque, se torno a edificar aquilo que destruí, constituo-me a mim mesmo transgressor.

Este versículo é significativo para a compreensão da salvação.

Paulo estava alertando que, caso os cristãos voltassem a seguir a lei, estariam se constituindo transgressores.

Não era Cristo que estava lançando fora os cristãos, antes, eles mesmos estavam lançando mão de conceitos errôneos, que os levaria de volta a perdição.

O versículo evidencia que em momento algum a salvação de Deus deixa de ser efetiva na vida do crente. A salvação em Cristo é poderosa e eterna, e desde que permaneça em Cristo, o homem jamais se perderá. Porém, se este mesmo homem voltar a edificar o que antes havia destruído, voltará a ser transgressor diante de Deus.

O homem deve crer em Deus para ser salvo, porém, a fé tem uma obra: a perseverança, conforme disse Tiago.

Aqueles que estão perante o Pai, jamais serão lançados fora, mas se o homem recuar, há de trazer sobre si perdição.

Se a salvação fosse segundo a idéia da ‘predestinação’ anunciada pelos reformadores, ou decorresse de um destino previamente traçado, conforme a mentalidade humana atina, não haveria a necessidade de alertar os cristãos quanto aos possíveis desvios. Paulo não precisaria falar em perseverança na fé proposta, e nem mesmo haveria a necessidade de defender o evangelho.

O que foi destruído por meio da fé em Cristo, e que Paulo fala de sua reedificação? A carne do pecado por meio do corpo de Cristo. Como e quando ocorre a destruição da carne? Quando se morre com Cristo, conformando-se com o seu sofrimento, morte e sepultamento. Em outro lugar Paulo fala da circuncisão de Cristo, que é o despojar do corpo da carne. Que é o desfazer-se por completo da carne, e não só do prepúcio ( Cl 2:11 -13).

Paulo argumentou que, se torno a edificar o que destruí, acabo por tornar transgressor, ou seja, o homem volta a condição de antes, pecador e sob o domínio do pecado.

Quando se morre com Cristo e ressurge com ele, a inimizade com Deus é desfeita através da carne do seu corpo, isto é, pelo novo e vivo caminho ( Hb 10:20 ).

 

19 Porque eu, pela lei, estou morto para a lei, para viver para Deus.

Paulo demonstra que, perante a lei, ele estava morto, e que não possuía vínculo algum com ela, visto que o apóstolo já havia morrido com Cristo.

O objetivo de não mais cumprir a lei era o de viver para a Deus, e não para a lei.

Observe que a própria lei isentava o apóstolo quanto a sua submissão, visto que ele estava morto para a lei.

 

 

20 Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.

Paulo se considerava morto, uma vez que foi crucificado com Cristo. Observe que a nossa crucificação é com Cristo, ou seja, juntamente com ele, e não a parte dele.

Mesmo que milhares de pessoas morreram crucificados, a nossa morte não tem relação alguns com elas. Há argumentações que tentam demonstrar que a nossa morte é lenta, conforme a morte de algumas pessoas que foram crucificadas à época de Cristo. Outros tentam demonstrar que alguns cristãos ainda não morreram, devido ao fato de que alguns condenados pelo governo Romano eram tirados da cruz pelos seus familiares, permanecendo vivos, mas tidos como mortos.

Seja anátema tal ensinamento! Cristo diz: “…se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmo” ( Jo 6:53 ; 2Tm 2:11 ; 2Co 5:14 ; 1Co 15:36 ). É preciso ser participante da carne e do sangue, ou seja, morrer com Cristo, e não ‘aparte’ d’Ele.

Todos aqueles que crêem que Cristo morreu em favor dos pecadores, tornam-se participantes da morte de Cristo e recebem poder para serem feitos filhos de Deus: nascidos não da vontade da carne, do sangue ou da vontade do varão, mas de Deus.

A ideia de que a morte do cristão se dá aos moldes da crucificação Romana não é consistente, visto que a nossa morte é conforme a morte do Santo Cristo: “Para conhecê-lo, e a virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suas aflições, sendo feito conforme a sua morte” ( Fl 3:10 ).

 

“Pois, se nós, que procuramos ser justificados em Cristo, nós mesmos também somos achados pecadores, é por ventura Cristo ministro do pecado? De maneira alguma” v. 17.

 

“Se procuramos ser justificados por Cristo é para que não sejamos pecadores, mas se fomos achados pecadores mesmo após estarmos com Cristo, Ele tornar-se-ia ministro do pecado. Visto que Cristo não é ministro do pecado, nós não podemos ser mais tido por pecadores”

Se estamos em Cristo e ainda continuamos sendo pecadores e necessitados da lei, só resta desesperança.

O ‘Eu’ que Paulo utiliza nos versos 19 e 20 é figurativo, ou seja, representa o velho homem de Paulo. ‘Eu’ pela lei estou morto, ou, ‘eu’ estou crucificado com Cristo. Quando Paulo fala da sua pessoa, ele enfatiza com a palavra ‘mesmo’, ou seja: “Eu mesmo” ( 2Co 8:13 ; Rm 9:3 ).

Paulo (eu) estava morto, e não mais vivia, ou seja, agora, Cristo vivia nele. Por se uma nova criatura, o que é o mesmo que estar em Cristo, segue-se que Cristo vivia em Paulo.

A vida que Paulo passou a viver na carne, apoiava-se em Deus, diferente da vida de outrora, que se apoiava na lei e nas tradições de seus pais.

 

21 Não aniquilo a graça de Deus; porque, se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu debalde.

Deus é fiel e jamais retira a sua salvação de sobre os seus servos A graça de Deus, de maneira alguma será retirada, visto que ele é fiel e poderoso para suster os seus servos ( Rm 8:31 -39). Em Deus a salvação é eterna! Deus jamais encolherá a sua mão quanto ao propósito de salvar.

Mas esta passagem é peculiar: Deus é fiel e poderoso para cumpri o que prometeu, mas é possível ao homem aniquilar a graça de Deus?

Paulo argumenta que Ele não aniquilaria a graça recebida, visto que não mais se utilizava da lei para se justificar. Se Paulo não anula a graça, verifica-se que o homem pode rejeitar a graça de Deus quando lança mão da lei para se justificar “…da graça tendes caído” ( Gl 5:4 ).

Paulo vai além: se alguém considerar que a justiça vem da lei, está dizendo que a morte de Cristo foi em vão.

O verso 21 soma-se ao 18: Se torno a edificar aquilo que destruí, anulo a graça de Deus!

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Romanos 7 – Mortos para a lei

Quando os cristãos estavam na carne produziam frutos para a morte, agora, ‘em Cristo’, os cristãos servem a Deus em novidade de espírito, e, portanto, produzem frutos para Deus “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ). Só é ´possível servir a Deus após adquirir um novo espírito. O mesmo Deus que cria a paz é o Deus que vivifica o coração e o espírito dos abatidos ( Is 57:15 -19). O Deus que cria um novo coração é o mesmo que produz o fruto dos lábios (Is 57:19). É próprio à carne produzir frutos para a morte, assim como é próprio do Espírito produzir frutos para a vida eterna ( Rm 6:16 ).


Epístola aos Romanos – Capítulo 7

Introdução e Conteúdo

Devido a complexidade do tema abordado nesta exposição, indico aos leitores e estudantes que façam um estudo sistemático e progressivo de alguns textos essenciais à compreensão deste capítulo, e que estão à disposição neste portal.

Leia atentamente os comentários aos capítulos anteriores, principalmente aqueles pontos que apresentam a metodologia de interpretação da carta paulina.

O leitor precisa conhecer e distinguir no que implica o caminho largo e o caminho estreito. Necessita conhecer quais são as plantas plantadas por Deus, e as que não são. É de suma importância saber quais são os vasos para honra e os vasos para desonra, etc. Todas estas questões foram abordadas neste portal e continua à disposição.

O estudo sobre Romanos 7 não passou por revisão ortográfica, e, desde já pedimos desculpar por possíveis erros de ortografia e gramática.

Agradeço a minha esposa (Jussara) por colaborar na elaboração deste estudo.

Tenha uma boa leitura, e que Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo ilumine os olhos do nosso entendimento ( Ef 1:18 ).

 

Prefácio

Este é um dos capítulos de maior complexidade para se interpretar de toda a bíblia. Ao longo dos séculos o capítulo sete da carta aos Romanos tem desafiado inúmeros teólogos e estudiosos quanto à sua real interpretação.

Uma correta interpretação deste capítulo é essencial à compreensão de toda carta, e, para interpretá-lo, precisaremos de todos os elementos que foram realçados através das análises feitas nos capítulos anteriores.

Antes de ler este capítulo, recomendo que seja feita uma leitura minuciosa de todos os comentários aos capítulos anterior da carta aos Romanos.

Além de observar os comentários versículo a versículo, é preciso observar também todas as introduções feitas aos capítulos, pois eles contêm elementos essenciais à interpretação deste capítulo em particular.

O primeiro ponto a se considerar na leitura deste capítulo é: Paulo escreveu uma carta, e ela originalmente não foi redigida em capítulos e versículos. Ao ler uma carta, o leitor não pode ater-se às divisões em versículos e capítulos, pois tal divisão interfere na interpretação do texto.

Para um maior proveito na leitura da carta que está sendo estudada, recomendo a quem tem um computador, que imprima a carta de Paulo aos Romanos sem as divisões em capítulos e versículos, pois a leitura do texto sem estes divisores será muito mais proveitosa para a interpretação.

Quem analisa qualquer texto bíblico precisa de algumas premissas centrais para não perder o foco durante a interpretação, uma vez que surgirão inúmeras perguntas, porém, dependendo da pergunta ela não vem ao caso no momento da análise.

Um exemplo claro de perca de foco, e que algumas pessoas incorrem ao ler a bíblia, verifica-se na passagem acerca da vida de Caim. Há vários aspectos a serem analisados e compreendidos na vida de Caim, porém, muitos restringem a análise e não progridem por se fixarem em questionar quem foi a mulher de Caim.

Diante de um texto bíblico surgirão inúmeras questões, porém, é necessário estar resolvido somente levantar questões que focam o texto. Antes de prosseguir em certas questões é preciso ter em mente as seguintes questões: É pertinente tal pergunta? É necessária no momento? Tem relação direta com a idéia do texto em análise?

Estas são algumas perguntas que devem ser feitas durante a análise do texto bíblico para evitar divagações desnecessárias quando da interpretação de um texto complexo.

Exemplo: Questionar quem foi a mulher de Caim é plausível? Há na bíblia qualquer referência à mulher de Caim? É possível encontrar uma resposta bíblica acerca da mulher de Caim que não seja mera especulação? Se não há nenhuma referência direta sobre a mulher de Caim, como descobrir quem foi sua mulher? De que adiantaria descobrir quem foi a mulher de Caim?

Paulo recomendou a Tito: “Mas não entres em questões loucas, genealogias e contendas, e nos debates acerca da lei; porque são coisas inúteis e vãs” ( Tt 3:9 ). Muitos há que procuram demonstrar conhecimento bíblico, e que, em qualquer conversa interpõe perguntas semelhantes: Quem foi a mulher de Caim? Quem eram os Nefilins? Qual o sexo dos anjos?

 

 

Convite ao Raciocínio

“NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive? Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido” ( Rm 7:1 – 3).

1 NÃO sabeis vós, irmãos (pois que falo aos que sabem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive?

Após demonstrar que todos os cristãos foram batizados em Cristo, ou seja, tornaram-se participantes da Sua morte, e que, por estarem mortos, não havia como viverem no pecado, Paulo convoca os seus interlocutores ao raciocínio.

Se os cristãos em Roma desconheciam que todos que foram batizados em Cristo ( Rm 6:3 ), destruíram de uma vez por todas o corpo do pecado ( Rm 6:6 ), e que não mais serviam ao pecado, este ponto em específico foi esclarecido no capítulo seis. Porém, caso alguém permanecesse agarrado à ignorância, Paulo propõe os mesmos argumentos aos seus leitores, só que agora, através de figuras.

Este modo de exposição foi utilizado anteriormente nesta mesma carta. Basta analisar os elementos do texto que Paulo escreveu após falar da justificação por meio da fé ( Rm 3:21 – 26), para compreendermos o modo e porque Paulo introduziu os argumentos que há no capítulo 7.

Para ilustrar a doutrina do evangelho no capítulo 3, que foi exposta em poucas linhas, Paulo apresentou Abraão, o homem que foi justificado por Deus pela fé na promessa divina ( Rm 4:1 – 5). Em seguida o apóstolo Paulo apresenta alguns versos do salmista Davi para dar sustentação aos seus argumentos ( Rm 4:6 – 8).

Novamente ele fala da justificação pela fé em Cristo ( Rm 5:1 ), e, somente então, Paulo apresenta a primeira figura na carta aos Romanos: a escravidão, para dirimir qualquer ignorância da parte dos cristãos acerca da justificação: “Ou, porventura, ignorais que (…) e não sirvamos o pecado como escravos” ( Rm 6:6 ).

Diante da ignorância dos cristãos “Porventura ignorais, irmãos…” ( Rm 7:1 ), Paulo apresenta uma nova figura: a mulher ligada ao marido pelo matrimônio ( Rm 7:1 – 3).

Paulo geralmente introduz uma figura ou uma alegoria através da expressão interrogativa: “… não sabeis…?”:

  1. “Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis” ( 1Co 9:24 );
  2. “Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa?” ( 1Co 5:6 ), e;
  3. “Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura diz de Elias, como fala a Deus contra Israel, dizendo:” ( Rm 11:2 );

Paulo conhecia bem a sua ‘platéia’, o que é próprio à retórica (arte do bem falar), uma vez que ele estava escrevendo a quem conhecia à lei. A quem Paulo estava escrevendo? Ora, sabemos que ele escreveu aos cristãos em Roma, porém, a carta do capítulo dois ao doze tinha como público alvo um grupo mais específico: os cristãos judeus.

Como aos cristãos judeus? A resposta a esta pergunta encontra-se no início da carta, isto porque, ao registrar que estava falando a quem conhecia a lei, é possível demonstrar que Paulo estava tratando especificamente com os cristãos de origem judaica e que agora pertenciam à igreja que estava em Roma.

Por ser uma carta intitulada: ‘Epístola de Paulo aos Romanos’, muitos são levados a entender que Paulo escreveu especificamente aos cristãos chamados dentre os gentios que habitavam em Roma. Porém, ao observar alguns versos desde o início da carta, veremos que Paulo escreveu focado em dois grupos de cristãos: cristãos chamados dentre os judeus e cristãos chamados dentre os gentios. Observe:

  • “Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso Pai segundo a carne?” ( Rm 4:1 ) – Com base neste versículo, Paulo estava escrevendo aos cristãos judeus ou aos cristãos gentios? De quem Abraão é pai segundo a carne? Dos Judeus ou dos gentios? Observe que Paulo está tratando especificamente com os judeus desde o capítulo 2;
  • “… mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é Pai de todos nós” ( Rm 4:16 ) – Através deste verso, Paulo procura convencer os filhos de Abraão segundo a carne (os judeus) que todos os cristãos, tanto gentios quanto judeus, efetivamente são filhos de Abraão segundo a fé. Ora, segundo a fé Abraão é pai de todos os que creem, sem distinção alguma, tanto de judeus quanto gregos;
  • “… porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” ( Rm 6:14 ) – Ora, quem esteve debaixo da lei a não ser os cristãos chamados dentre os judeus? Perceba que o público alvo da carta aos Romanos inicialmente eram os judeus convertidos, embora os cristãos gentios também pudessem se beneficiar da exposição de Paulo;
  • “Convosco falo, gentios” ( Rm 11:13 ) – Observe que, após tratar diretamente com os judeus, Paulo direciona o seu discurso aos cristãos chamados dentre os gentios, para que eles não se ensoberbecem contra os cristãos que foram chamados dentre os judeus.
  • “Mas tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus” ( Rm 2:17 ) – Paulo direcionou o seu discurso especificamente aos cristãos judeus a partir deste ponto em diante, embora, o alvo da mensagem do evangelho seja todos os homens sem distinção alguma ( Rm 2:3 ).

 

Quem eram os irmãos que conheciam a lei? Os cristãos judeus ou os gentios? É certo que Paulo diz dos cristãos judeus ( Rm 7:1 ).

O que os cristãos estavam aparentando desconhecer? Eles demonstravam desconhecer que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que viver ( Rm 7:1 ).

Paulo questiona os seus interlocutores se eles desconheciam que a lei só tem domínio enquanto o homem está vivo. Ora, se eles morreram com Cristo (foram batizados), como era possível questionarem a possibilidade de permanecerem no pecado para que a graça aumentasse ( Rm 6:1 ).

Ora, como é possível a alguém que morreu para o pecado estar sob o domínio do pecado? (Romanos 6: 2). Para quem não compreendeu que a lei não mais tinha domínio sobre os cristãos, visto que todos morreram com Cristo, Paulo apresenta a figura da mulher ligada à lei do marido, para ilustrar a verdade exposta no capítulo 6.

 

 

A Figura da Mulher ligada ao Marido

2 Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido.

Um exemplo claro de que é impossível a alguém que morreu para o pecado permanecer no pecado é apresentado através da figura da mulher sujeita a lei do marido (lei estabelecida no matrimonio).

Enquanto o marido viver, a mulher estará ligada ao marido pela lei. Porém, morto o marido, qual o papel da lei? A viúva deveria continuar submissa à lei mesmo após a morte do marido?

É certo que, morto o marido, a lei continuará a existir, porém, a viúva não mais será alcançada pela lei, por mais que a mesma lei continue a submeter outras mulheres casadas a seus maridos, ela não submeterá a viúva.

Os leitores da carta de Paulo deviam construir um paralelo entre eles, que morreram para o pecado, e os não crentes, que permaneciam vivos para o pecado.

Quem não foi batizado (morreu) em Cristo, e que, portanto, não morreu com Cristo, permanece vivo para o pecado e sob a égide da lei. Quem não é batizado em Cristo, mesmo sem causa é transgressor “Na verdade, não serão confundidos os que esperam em ti; confundidos serão os que transgridem sem causa” ( Sl 25:3 ).

Quem crê em Cristo, ou seja, quem espera na salvação providenciada por Deus (esperam em ti), jamais serão confundidos. Porém, todos os que não confiam em Deus serão confundidos, pois mesmo sem causa são transgressores ( Sl 25:3 ).

O que isto quer dizer? Ora, todos os nascidos em Adão são transgressores por natureza, sem qualquer relação direta com questões comportamentais ou morais. Mesmo quando não transgridem leis sociais, morais e comportamentais, são transgressores diante de Deus.

Quem confia no Senhor, morre para o pecado e ressurge uma nova criatura, que jamais será confundida, pois a salvação providenciada por Deus não advém das regras sociais, morais ou comportamentais, antes, é salvo por ter sido novamente criado na condição de filhos de Deus.

A lei do marido só tem razão de ser enquanto o marido estiver vivo, pois tal lei estabelece a sujeição da mulher ao marido, porém, após a morte do marido, a viúva está livre da lei do marido.

 

3 De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera, se for de outro marido.

Paulo convida os seus interlocutores a pensarem e a chegarem a uma conclusão. Enquanto o marido viver, a mulher será chamada adúltera se for de outro homem, porém, após morrer o marido, a mulher estará livre da lei, e não mais será adultera se for de outro homem.

As figuras utilizadas por Paulo, tanto da escravidão quanto da mulher ligada ao marido pela lei são simples de entender.

Diante da lei jamais um escravo seria livre sem a aquiescência do seu senhor. Caso o senhor viesse a falecer, o escravo simplesmente fazia parte dos espólios do seu antigo senhor, porém, não seria livre.

Somente a morte do escravo é que o tornava livre do seu senhor, uma vez que a lei e o antigo senhor nada representavam para o escravo após a sua morte. Como é sabido, o pecado é um senhor tirano que não concede liberdade a seus escravos. Somente a morte deixa livre o pecador do seu tirano senhor, no entanto, seguirá para a eternidade sob condenação eterna.

O cristão efetivamente morre com Cristo, e é por isso que o pecado deixa de exercer domínio como senhor sobre ele.

Quem morre (a morte natural) como servo do pecado seguirá para a eternidade sob condenação, porém, aquele que morre com Cristo, é julgado em Cristo para não ser condenados com o mundo. Quem morre para o pecado em Cristo, ressurge uma nova criatura, e passa a viver para Deus.

O ponto principal que Paulo demonstra neste verso é que, após morrer o marido a mulher está livre da lei do marido. Do mesmo modo, após o escravo morrer, livre está do seu senhor.

Por certo, ao morrer para o pecado e para a lei, o cristão é livre da lei e do pecado. A figura da escravidão demonstra que o cristão é livre do pecado ( Rm 6:6 ), e a figura da mulher ligada ao marido pela lei, que o cristão é livre da lei ( Rm 7:4 ).

 

 

Argumentos Conclusivos

A figura da mulher ligada a lei do marido ( Rm 7:2 ) e a figura da escravidão ( Rm 6:18 ) que Paulo apresentou anteriormente conduz o leitor à conclusão que é apresentada nestes três versos a seguir.

Paulo novamente enfatiza que os cristãos estão mortos ( Rm 7:4 ), o que foi demonstrado nos capítulos anteriores exaustivamente “Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 ). Todos cristãos estão efetivamente mortos para o pecado.

Paulo descreve de modo retroativo os eventos pertinentes àqueles que morreram em Cristo:

  • “Nós, que estamos mortos…” ( Rm 6:2 ) – diz do agora (presente), diz da nova condição pertinente a vida dos cristãos. Para alcançar esta posição (mortos para o pecado), os cristãos ressurgiram com Cristo (vivos para Deus);
  • “…todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?” (v. 3) – Antes de ressurgir com Cristo, os cristãos foram sepultados pelo batismo na morte de Cristo, ou seja, o batismo que Paulo faz referência não é o batismo em águas, antes ao batismo na morte;
  • “…fomos sepultados com ele pelo batismo na morte…” (v. 4) – o sepultamento se dá efetivamente no batismo na morte, o que não dá vazão a doutrina da regeneração batismal;
  • “…fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte…” (v. 5) – a semelhança não é um faz de conta, antes a semelhança que os cristãos foram plantados é conforme a morte de Cristo;
  • “Pois sabemos isto, que o nosso velho homem foi com ele crucificado…” (v. 6) – antes de estar efetivamente morto, antes de ser batizado, ou seja, ser plantado com Cristo, em primeiro lugar o ‘velho homem’ foi crucificado com Cristo.

É pertinente ao modo literário do apóstolo Paulo, apresentar inicialmente a condição efetiva dos cristãos “É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade,…” ( Ef 1:13 ), para depois demonstrar como alcançaram tal condição “Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados…” ( Ef 2:1 ). Geralmente o apóstolo dos gentios apresenta aos cristãos a nova condição em Cristo, para depois demonstrar como se alcançou tamanha graça. Para tanto, ele demonstra qual era a condição do homem sem Cristo.

Paulo faz alusão a um princípio doutrinário do evangelho nos versos três a cinco do capítulo 7, mas para compreendê-los é preciso relembrar o que Jesus disse aos discípulos através da figura da árvore e seus frutos: “Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus” ( Mt 7:17 ).

Através da figura da árvore e seus frutos Jesus demonstrou que é impossível uma árvore boa produzir frutos maus, e que é impossível uma árvore má produzir frutos bons. Ora, este princípio é observável na natureza, porém, que aplicação há com relação às questões espirituais?

Jesus demonstrou que é impossível um falso profeta (lembre-se que eles têm aparência de ovelha), produzir frutos bons, ou seja, dizer o que é verdadeiro. Ora, nem todo o que diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos céus, porque produzem frutos maus, ou seja, não professam a Cristo segundo a verdade do evangelho (não produzem bons frutos).

Qual é o fruto bom? O fruto dos lábios que professam a Cristo! ( Hb 13:15 ). Quem professa a Cristo, conforme diz a Escritura, é porque nasceu da semente incorruptível. É plantação do Senhor, árvores de Justiça ( Is 61:3 ).

Os nascidos em Adão são árvores más, plantas que o Pai não plantou, e todos os seus frutos são maus. Porém, aqueles que crêem na palavra da verdade são plantação do Senhor, árvores de Justiça, e produzem frutos bons, ou seja, professam a Cristo, pois este é o fruto que Deus criou Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

É preciso relacionar Rm 6:19 e Rm6:22 com Rm 7:4 sem esquecer que, antes de serem libertos do pecado, os cristãos eram escravos do pecado, e, portanto, só podiam produzir para o seu senhor.

Lembrando que um servo não pode servir a dois senhores e esta mesma impossibilidade é encontrada na figura da árvore, pois do mesmo modo que um servo do pecado não pode servir à justiça, uma árvore má não pode produzir frutos bons.

Como pode um servo da justiça servir ao pecado, se é impossível servir a dois senhores? ( Rm 6:20 ). Ou melhor, como pode alguém que está morto para o pecado, viver ainda nele? ( Rm 6:2 ). Como é possível a uma árvore que germinou de uma semente incorruptível produzir frutos maus? ( 1Pe 1:23 ). Como ser achado ainda pecador, quem já se refugiou em Cristo? ( Gl 2:17 ).

O capítulo 7 da carta aos Romanos apresenta uma resposta a estas perguntas.

 

 

Os Frutos

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus. Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte. Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra” ( Rm 7:4 – 6).

 

4 Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo, para que sejais de outro, daquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto para Deus.

O comparativo é estabelecido entre os cristãos e a figura da mulher que estava ligada ao marido através da lei “Assim, meus irmãos, também vós…” (v. 4).

Observe a similaridade entre este verso e Efésios 1: 13:

“É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade…” ( Ef 1:13 );

“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo…” ( Rm 7:4 ).

‘Estar em Cristo’ e ‘estar morto para a lei’ aponta para uma mesma condição diante de Deus: uma nova criatura. Dizer que o cristão está ‘em Cristo’ é dizer que ele é uma nova criatura. Dizer que o cristão está ‘morto para a lei’ é o mesmo que dizer: você é uma nova criatura “Portanto, se alguém está em Cristo, nova criatura é…” ( 2Co 5:17 ).

Por que os cristãos estavam mortos para a lei pelo corpo de Cristo? Porque através do evangelho conclui-se que, se um morreu por todos, logo todos morreram ( 2Co 5:14 ). Ora, foi através da oferta do corpo de Cristo que os cristãos deixaram a condição de velha criatura e passaram à condição de nova criatura ( Hb 10:10 ).

A oferta diz do corpo de Cristo, do corpo que o Verbo encarnou. Foi através do corpo humano que Deus preparou para o seu Filho ( Hb 10:5 ), que os cristãos passaram a estar mortos para a lei.

Quando Paulo faz referência ao corpo de Cristo, ele está fazendo referência à morte de Cristo, ou seja, ao corpo que foi apresentado imaculado como oferta a Deus. Deste modo, por causa do corpo de Cristo, que foi entregue aos pecadores, os cristãos estão mortos para a lei.

Como? Ao apresentar um paralelo entre a figura da mulher que estava ligada ao marido pela lei, e que após a morte do marido não mais estava sujeita à lei, Paulo demonstra que a lei só teve alcance sobre os cristãos pelo tempo que em que viveram na carne ( 2Co 5:15 ).

Uma vez que todos que creram em Cristo foram crucificados, mortos com Cristo, e sepultados com Cristo, que relação há entre a lei e o cristão?

Da morte com Cristo surge uma nova condição: livres da lei e do pecado.

Enquanto filhos de Adão, gerados da semente corruptível, o homem está sob o domínio da lei e da escravidão do pecado, através do corpo de Cristo, o homem efetivamente morre, e passa a compartilhar da natureza divina através da ressurreição com Cristo.

Antes de morrer com Cristo, a quem os cristãos pertenciam? Ao pecado, ao mundo, às trevas, à ira, à perdição e estavam debaixo da lei (certamente morrerás). Agora, por estarem em Cristo, os cristãos passaram a pertencer àquele que ressurgiu dentre os mortos.

Os cristãos não pertencem ao Cristo que veio em carne, antes pertencem àquele que ressurgiu dentre os mortos para louvor da glória e graça de Deus ( 2Co 5:16 ).

Por que os cristãos estão mortos para a lei? Por que eles passaram a pertencer àquele que ressurgiu dentre os mortos? A resposta é simples: “… a fim de darmos fruto para Deus”.

Como é possível dar fruto para Deus? Assim como é próprio a árvores produzir frutos segundo a sua espécie é próprio à natureza daqueles que estão mortos para a lei produzirem frutos para Deus! Não depende do esforço do homem.

Como os cristãos são árvores de justiça, plantação do Senhor é próprio da nova natureza produzir fruto para Deus.

Repassando:

  1. Os cristãos estão mortos para o pecado e não podem viver nele. Paulo não fez uma recomendação aos cristãos: – Vocês não devem viver no pecado! Antes, ele demonstrou que é impossível viver no pecado, quando se está morto para o pecado ( Rm 6:2 ). Paulo demonstra que é impossível viver no pecado, o que difere completamente da concepção de que ele tenha ordenado a que não vivessem em pecado. Ou o homem vive para a justiça ou vive para o pecado. É impossível o homem viver para ambos;
  2. Os cristãos andam em novidade de vida porque ressurgiram com Cristo, ou seja, só é possível ‘andar em novidade de vida’ quando se vive no Espírito, ou seja, após morrer e ressurgir com Cristo ( Rm 6:4 ; Gl 5:25 );
  3. Os cristãos foram plantados juntamente com Cristo, na semelhança da sua morte, e, portanto, são semelhantes a Ele na ressurreição: a morte não tem mais domínio ( Rm 6:5 e Rm 6:9 ; “…qual ele é, somos nós também aqui neste mundo” 1Jo 4:17 );
  4. O pecado não mais tem domínio sobre os cristãos, pois não estão debaixo da lei (morreram), ou seja, o pecado não reina sobre os cristãos de modo que venham a produzir frutos que tenham do que se envergonhar ( Rm 6:14 e Rm 6:21 ).

É próprio à natureza daqueles que foram gerados de novo produzirem frutos de justiça, e que o comportamento humano não se vincula ao fruto que Deus cria Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz, para o que está longe; e para o que está perto, diz o SENHOR, e eu o sararei” ( Is 57:19 ).

Os frutos que os cristãos produzem para Deus são provenientes do próprio Deus sem qualquer relação com o esforço humano. Quem é nascido da semente incorruptível, que é a palavra de Deus ( 1Pe 1:23 ), é plantação do Senhor, ou melhor, plantas que o Pai plantou ( Mt 15:13 ). Ora, as plantas que o Pai plantou produzem frutos segundo a sua espécie: frutos bons.

É por isso que o profeta Isaias registrou: “Eu crio o fruto dos lábios…”. Por quê? Ora, se a boca fala do que o coração está cheio “Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca” ( Mt 12:34 ), um coração mal só fala malignidade, mas de um coração novo, que é criado por Deus ( Sl 51:10 ), só é possível produzir fruto bom.

Somente Deus pode conceder um novo coração e um novo espírito. Tudo que é proveniente do novo coração foi criado por Deus, e, por isso mesmo, Ele criou o fruto dos lábios.

Quem vive de acordo com a verdade do evangelho é porque está em Cristo, de modo que todos podem ver claramente que as suas obras são feitas em Deus, pois quem vive em trevas e nela anda, não vem para Cristo, porque amam mais as trevas do que a luz para preservarem as suas próprias obras ( Jo 3:19 – 21 ).

 

 

A Carne e o seu Fruto

5 Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte.

Paulo neste verso faz referência à antiga condição dos cristãos, quando estavam vivos para o pecado e mortos para Deus.

Naquele tempo específico, quando os cristãos estavam na carne, eles davam frutos para a morte. Hoje, em Cristo, os cristãos servem a Deus em novidade de espírito, e, portanto, produzem frutos para Deus Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 ).

O mesmo Deus que cria a paz é o Deus que vivifica o coração e o espírito dos abatidos ( Is 57:15 e Is 57:19 ). O Deus que cria um novo coração é o mesmo que produz o fruto dos lábios ( Is 57:19 ).

É próprio à carne produzir frutos para a morte, assim como é próprio do Espírito produzir frutos para a vida eterna ( Rm 6:16 ). Os cristãos estão livres do pecado e os seus frutos são para Deus e por fim herdarão a vida eterna ( Rm 6:22 ), porém, antes de aceitarem a Cristo eram servos do pecado, os seus frutos eram para o pecado, e por fim herdariam a morte eterna.

As paixões pertinentes ao corpo do pecado existem pela lei e operam nos membros do corpo do pecado. Quem morre com Cristo, crucifica o corpo do pecado e as suas paixões “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” ( Gl 5:24 ).

Não são as paixões da carne e suas concupiscências que produzem fruto para a morte, antes é a natureza carnal que produz tal fruto, pois, a inclinação da carne é morte, mesmo para aqueles que não se entregam com avidez às paixões e concupiscência da carne.

Analisando a seguinte tradução com base em outros versículos: “Porque, quando estávamos na carne, as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros para darem fruto para a morte” ( Rm 7:5 ), chega-se à seguinte conclusão: não são as paixões dos pecados que produzem fruto para a morte. Como? Ora, dizer que as paixões e as concupiscências produzem fruto para morte é o mesmo que dizer que o comportamento humano é que produz a morte (separação de Deus).

Porém, como é de conhecimento geral, a natureza pecaminosa herdada de Adão, designada carne, é que estabeleceu a morte (condenação) e produz para a morte (iniqüidades). É por isso que quando os cristãos crucificam a carne, crucificam também as paixões e as concupiscências ( Gl 5:24 ).

Não são as paixões e as concupiscências que se inclinam para a morte, antes é a carne. A carne é sujeita à lei, e a lei realça as paixões e as concupiscências nos membros (corpo) que pertencem à carne.

Assim sendo, o versículo é melhor traduzido quando evidencia a condição da carne (sujeição ao pecado), e para quem ela produz o seu fruto (para a morte). Ou seja: “… quando estávamos na carne (…), frutificávamos para a morte”. Com relação às paixões, Paulo somente evidenciou que elas são (realçadas) através da lei, e que efetivamente tais paixões operavam nos membros da carne.

Sugestão de emenda a tradução: “Porque, quando estávamos na carne (as paixões dos pecados, que são pela lei, operavam em nossos membros) frutificávamos para a morte”.

Basta comparar os versos ( Rm 7:4 e Rm 7:5 com o verso 16: “… sóis servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça” ( Rm 6:16 ).

É possível o homem escolher não obedecer ao pecado sem ter obedecido a Cristo? É possível ao homem abandonar o pecado sem ser adquirido por Cristo? Não!

Ora, a humanidade sem Cristo (escravos) obedece ao pecado (senhor) porque foram introduzidos no mundo sob o domínio do pecado. Em Adão a humanidade ‘obedeceu’ ao pecado! Adão é a porta larga pela qual todos os homens entraram, e seguem por um caminho largo que os conduz à perdição.

Embora muitos procurem realizar boas ações, as suas obras não passam de trapos de imundície. Por serem servos do pecado todas as obras dos homens são más, ou seja, os servos do pecado frutificam para a morte.

Em Cristo, o último Adão, os homens são novamente criados segundo Deus, livre do poder do pecado, e sob o jugo da justiça. Ao entrar pela porta estreita, o homem deixa de produzir para a morte e passa a produzir para a justiça, pois se inclinam para a vida que há em Deus e para a paz que excede a todo entendimento.

 

 

 

Em Espírito e em Verdade

6 Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.

Paulo apresenta uma conclusão à sua exposição: agora, após serem libertos da lei, ou seja, mortos para aquilo que estavam retidos (a lei), os cristãos servem a Deus em novidade de espírito.

Por que em novidade de espírito? Porque após crer em Cristo o homem adquire um novo coração e um novo espírito, criados segundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Sl 51:10 ; Ef 4:24 ).

Paulo demonstra que os judeus não serviam a Deus, antes, só tinham zelo, porém, sem entendimento ( Rm 10:2 ). Por quê? Porque só é possível servir a Deus em espírito e em verdade, ou seja, quando o homem é gerado do Espírito, o mesmo que ser circuncidado no coração. Somente em Cristo é possível ao homem alcançar a condição de servir a Deus em espírito ( Jo 4:23 ).

A condição ‘em espírito’ só é possível quando o homem é gerado de Deus. É por isso que Jesus disse a Nicodemos: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3:6 ). Somente após o homem ser gerado de novo através da fé em Cristo torna-se possível servir a Deus (o Espírito Eterno) em espírito.

Os judeus pensavam servir a Deus, porém, a qualquer homem nascido de Adão (nascido da carne) é impossível servir a Deus. Deus somente ‘conhece’ aqueles que o adoram em espírito e em verdade ( Jo 4:24 ; Gl 4:9 ).

Paulo estava tratando diretamente com os judeus convertidos, como foi demonstrado anteriormente, e aqui temos outra evidência: somente os cristãos judeus tentaram servir a Deus através da velhice da letra (lei de Moisés), ponto abordado por Paulo que não tem relação com os gentios.

Só é possível servir a Deus em novidade de espírito, e, somente Ele, é quem ‘renova’ (cria) no homem um espírito reto ( Sl 51:10 ). Só é possível ter novo coração e um novo espírito quando o homem está livre da lei, ou melhor, quando morre para aquilo em que se estava retido.

Como é possível ao homem morrer para o que estava retido (lei)? Através da circuncisão do coração! Quando Moisés apregoou a circuncisão do coração ao povo de Israel, tal circuncisão só era possível através da fé em Deus, Aquele que tem o poder de circuncidar o coração, ou seja, Ele mata o homem gerado em Adão e concede um novo coração “E o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas” ( Dt 30:6 ).

Somente após alcançar novo coração (novo nascimento) o homem compreende a palavra de Deus “Porém não vos tem dado o SENHOR um coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao dia de hoje” ( Dt 29:4 ).

Em resumo: Os cristãos morrerem com Cristo, portanto, estavam livres da lei. Qual o objetivo de os cristãos terem morrido para a lei, ou antes, morrido com Cristo? Para servirem a Deus com um novo espírito e um novo coração ( Ez 36:25 – 27 ). Ora, o novo coração e o novo espírito só são possíveis alcançar através da regeneração em Cristo.

A lei de Moisés (velhice da letra) não poderia proporcionar o novo nascimento. Somente o evangelho de Cristo, que é a água limpa aspergida pelo Espírito Eterno, faz nascer o novo homem para louvor de sua glória ( Jo 3:5 ; Ez 36:26 ). É através do evangelho que o homem recebe poder para ser criado em verdadeira justiça e santidade ( Jo 1:12 ; Ef 4:24 ).

Após declarar que os cristãos eram livres da lei ( Rm 7:6 ), do mesmo modo que eram livres do pecado ( Rm 6:6 ), poderia surgir um entrave na mente de alguns cristãos: acharem que Paulo estava equiparando a lei ao pecado ( Rm 7:7 ).

 

 

Verbos, flexões e Interpretação

Como interpretar este versículo:

“Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado” ( Mc 16:16 ).

Quem crê em Cristo é (presente) salvo ou será salvo (futuro)? Por que Jesus disse: quem crer será salvo? Você é salvo ou ainda será salvo no futuro?

Há pessoas que dizem que ainda não estão salvas, mas que serão salvas. Ao serem indagadas, citam o seguinte versículo: “quem crer será salvo”, ou seja, porque o verbo salvar está no futuro essas pessoas entendem que somente estarão salvas no futuro.

O argumento anterior é válido? Não! Por quê?

Porque a frase: ‘quem crer será salvo’ está corretíssima, porém, ‘quem crê está salvo’, também é correta e não contradiz a afirmação anterior.

No verso 16, do capítulo 16, do evangelho de Marcos (Mc 16:16 ), o verbo ‘crer’ está no infinitivo, ou seja, neste caso o verbo conserva a forma não flexionada: ‘crer’.

A frase ‘Quem crer…’ é impessoal, ou seja, o verbo ‘crer’ não faz referência a nenhum sujeito específico. Qualquer homem que ouvir a mensagem do evangelho e crer assumirá a condição de salvo, ou seja, assumirá a condição de sujeito desta frase.

Como o verbo ‘crer’ está no infinitivo, e neste caso o infinitivo não é flexionado, o verbo ‘ser’ é conjugado no futuro simples. Porém, se colocarmos o verbo ‘crer’ no presente ‘crê’, o verbo ‘ser’ é posto no presente: ‘é’. Compare:

Quem crer será salvo;
Quem crê é (está) salvo.

É só substituir o pronome indefinido ‘Quem’ por um substantivo, que a frase apresenta os verbos em tempos flexionados: João crê, portanto, é salvo.

Por que o verbo ‘crer’ foi colocado no infinitivo? Porque a mensagem do evangelho destina-se a todas as pessoas em todos os tempos. A mesma mensagem apregoada por Cristo e os apóstolos continua atual, e destina-se a todos os homens, em todos os tempos e lugares.

Esta primeira análise é gramatical, porém, é possível analisar o mesmo versículo através de outros recursos.

Ao escrever aos cristãos de Coríntios, Paulo disse: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” ( 2Co 5:17 ). Paulo aponta a nova condição dos cristãos efetiva no presente. Ora, se alguém (sujeito indeterminado) está (presente) em Cristo é uma nova criatura, ou seja, a salvação é efetiva hoje: “(Porque diz: Ouvi-te em tempo aceitável E socorri-te no dia da salvação; Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação)” ( 2Co 6:2 ).

Paulo utiliza neste verso todos os verbos no presente para falar de uma condição pertinente a todos quantos crêem em Cristo.

João, ao falar da salvação, registrou: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome” ( Jo 1:12 ). João fala da salvação como sendo um evento do passado. Todos quantos creram no nome de Jesus receberam poder para serem feitos filhos de Deus. Quem creu, recebeu poder, o que nos leva a seguinte conclusão: quem crê está salvo.

Os tempos verbais podem causar muitos problemas na hora de interpretar um versículo específico ou uma carta. Erros podem surgir da má compreensão dos tempos verbais, principalmente quando há regras para se estabelecer a correta correlação verbal proveniente de questões gramaticais.

O capítulo 6 da carta aos Romanos contém alguns versículos que podem causar alguns problemas na hora da interpretação. Observe:

  • “Se formos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição?” ( Rm 6:5 ) – O versículo é argumentativo, ou seja, o apóstolo não fez uma afirmação. Por causa desta peculiaridade do argumento apresentado por Paulo é preciso estabelecer uma correlação verbal entre as orações, que é ‘a articulação temporal entre duas formas verbais’. No argumento apresentado por Paulo, ‘se formos plantados’ surge a correlação com o verbo ‘ser’ no futuro (seremos). Porém, é assente que os cristãos já morreram com Cristo ( Cl 3:3 ), e, portanto, são semelhantes a Cristo na sua ressurreição ( Cl 3:1 ; 1Jo 4:17 ), pois assim como Jesus é, são os cristãos aqui neste mundo;
  • “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” ( Rm 6:8 ) – Neste verso o apóstolo baseia-se na premissa de que os cristãos já morreram com Cristo (para morrer com Cristo é preciso crer), segue-se que os cristãos creram, morreram, ressurgiram, e que também esperam que viverão para sempre com Cristo. O fato de Paulo ter colocado o verbo ‘viver’ no futuro, o que dá uma idéia de algo que será alcançado, é proveniente do argumento introduzido pela partícula ‘se’. Caso o apóstolo tivesse apontado a morte efetiva dos cristãos, a conclusão seria: com ele vivemos.

 

 

É a Lei Pecado?

“Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

Diante do que foi exposto, Paulo convoca os cristãos ao raciocínio: “Que diremos, pois?”.

Com base no que já foi demonstrado anteriormente, qual a conclusão que os cristãos deveriam abraçar? Que a lei é pecado? A resposta é clara: De modo nenhum! A lei não é pecado!

Embora o apóstolo não tenha afirmado no decurso da carta que a lei é pecado, alguns judaizantes poderiam distorcer os argumentos e afirmar que Paulo anunciou que a lei é pecado. Como Paulo anunciava que os cristãos eram livres do pecado e da lei, alguém mal intencionado poderia anunciar que Paulo estava equiparando a lei com o pecado, distorcendo o que o apóstolo dos gentios procurou evidenciar.

Paulo demonstra incisivamente que a lei não é pecado para desfazer qualquer conclusão diferente da verdade do evangelho. Ele apregoou a necessidade dos cristãos livrarem-se da lei, porém, nunca disse que a lei é pecado.

Este deve ser um dos cuidados de quem interpreta as escrituras: não concluir por si só algo que não foi afirmado categoricamente. É necessário saber diferenciar argumentação, asserção e conclusão. Uma argumentação é construída com premissas, porém, as premissas e as argumentações não podem ser consideradas como sendo uma asserção (afirmação).

Do mesmo modo, uma conclusão não tem o mesmo valor de uma asserção, pois a asserção deriva da conclusão ou da argumentação. Isto porque, as premissas utilizadas em uma argumentação que levará a uma conclusão geralmente foram retiradas de asserções. Exemplo:

  • Uma asserção: “Nós, que estamos mortos…” ( Rm 6:2 );
  • Uma argumentação: “…como viveremos ainda nele?” ( Rm 6:2 );
  • Uma conclusão: “Pois o pecado não terá domínio sobre vós…” ( Rm 6:14 );
  • Duas premissas: “…porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça ( Rm 6:14 ).

Observe que as duas premissas apresentadas em Romanos 6: 14b são excludentes ( Rm 6:14 ). Ora, quem está debaixo da graça não pode estar sob a lei, e vice-versa.

Deste ponto em diante, o leitor deve estar atento as peculiaridades apresentadas acima, sabendo divisar bem o que é argumento, premissa, asserção e conclusão.

Quando questionou os seus interlocutores acerca da lei (É a lei pecado?), Paulo esperava ter como resposta uma negativa (De modo nenhum!). Em seguida, ele apresenta argumentos que desfaz qualquer argumentação dos judaizantes que vincule a lei ao pecado (versos 7b a 11), para que seus leitores possam chegar à seguinte conclusão: “Portanto, a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom” ( Rm 7:12 ).

Agora analisaremos os versos 7b a 11 de Romanos 7, para que possamos chegar à mesma conclusão que Paulo estabeleceu: a lei é santa e o mandamento também ( Rm 7:12 ). Qualquer conclusão que destoe da conclusão que Paulo apresenta no verso 12 de Romanos 7, demonstra que o interprete ‘prevaricou’ na sua atribuição.

Para chegar à conclusão de que ‘a lei é santa e o mandamento santo, justo e bom’, é necessário analisar criteriosamente os cincos versículos ( Rm 7:7 -11) e algumas questões pertinentes à linguística.

 

 

Figuras de Linguagem

Durante a leitura da carta aos Romanos é fácil perceber que Paulo utiliza um recurso linguístico (figura de linguagem) ao falar do evangelho de Cristo. Observe:

  • “… para a obediência da fé entre todos os gentios…” ( Rm 1:5 );
  • “… porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé ( Rm 1:8 );
  • “… seja consolado pela fé mutua, assim vossa como minha” ( Rm 1:12 ).

Tal figura de linguagem é denominada perífrase, onde temos a palavra ‘fé’ substituindo a palavra ‘evangelho’, assumindo a ideia da palavra substituída. O evangelho foi anunciado aos gentios para obediência. Do mesmo modo, em todo mundo era anunciado o evangelho, ou seja, a vossa fé. Paulo e os cristãos seriam consolados mutuamente através do evangelho (fé mutua).

Perceba que, para não repetir várias vezes a palavra ‘evangelho’ e dar maior graciosidade a escrita da carta, Paulo substitui alguns termos por outros, utilizando-se de alguns recursos pertinentes à linguagem.

Após descobrir este uso de uma figura semântica, faz-se necessário observar com acuidade toda a carta, visto que, algumas ‘figuras de linguagem’ ou ‘recurso de estilística’ pode interferir na interpretação do texto.

Desta forma, analisemos a seguinte afirmação de Paulo: Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade…” ( Rm 2:2 ). O que o ‘apóstolo dos gentios’ expõe neste verso era de conhecimento geral dos cristãos, uma vez que eles ‘bem sabiam’ do que Paulo estava tratando.

Percebe-se através do contexto que a palavra ‘verdade’ em Romanos 2: 2, substitui a palavra ‘evangelho’, como se verifica no verso 16.

  • “Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade…” ( Rm 2:2 );
  • “Isto sucederá no dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por meio de Jesus Cristo, segundo o meu evangelho” ( Rm 2:16 ).

Ora, se o julgamento de Deus é segundo a verdade do evangelho, fica claro que o julgamento de Deus não é segundo a lei. Perceba também que o juízo é segundo a verdade (presente), e que há um dia preordenado para ser manifesto este juízo ( Rm 2:5 ), o que indica que o juízo segundo a verdade já ocorreu e está estabelecido.

Porém, ‘segundo o evangelho (de Paulo)’, Deus também julgará os segredos dos homens. Isto demonstra que o juízo de Deus foi estabelecido no passado em Adão “O Juízo veio de uma ofensa (…) Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo…” ( Rm 5:16 e Rm 5:18 ), e, que, Deus julgará todos os homens segundo as suas obras no futuro (Grande Trono Branco) ( Ap 20:11 ).

Procuramos demonstrar que é similar a idéia entre ‘evangelho’ e ‘verdade’, ‘fé’ e ‘evangelho’, porque recursos literários semelhantes a este foram utilizados diversas vezes pelos apóstolos.

 

 

Qual a relação entre Pecado, Lei e Conhecimento?

“Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado” ( Rm 7:7 – 8).

Para compreender a declaração: “Mas eu não conheci o pecado senão pela lei”, é necessário saber:

a) de qual lei o apóstolo estava falando;
b) o que é pecado, e;
c) o que é ‘conhecer’. Após responder as questões acima, será possível verificar de que ‘eu’ o apóstolo estava falando.

A primeira citação da palavra ‘lei’ Paulo fez na carta aos Romanos no capítulo 2, verso 12: “Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados” ( Rm 2:12 ).

Já analisamos este verso, porém, faz-se necessário aprofundar a análise.

É possível inferir de Rm 2:12 que os que sob a lei pecaram são os judeus, do mesmo modo, que os gentios pecaram sem lei. Isto demonstra que Paulo estava escrevendo acerca da lei de Moisés, visto que, desde Adão até Moisés todos pecaram, mesmo não tendo uma lei específica.

Não é porque os gentios não possuíam uma lei que não estavam sob condenação. Do mesmo modo, não é porque os judeus possuíam uma lei, que não haveriam de perecer. Ou seja, todos pecaram e estavam debaixo de condenação, e seguiam para a perdição ( Rm 3:9 ).

Isto demonstra que a transgressão à lei mosaica não é o que subjugou a humanidade ao pecado. Porém, Paulo demonstra que o homem ‘conheceu’ o pecado, ou seja, passou a ter comunhão intima com o pecado através da lei ( Rm 7:7 ), o que indica que em Rm 7:7 ele não está se referindo a Lei de Moisés, antes fez referência a lei perfeita da liberdade concedida ao homem no Éden ( Gn 2:16 – 17).

Ora, Adão perdeu a comunhão com o criador quando desobedeceu a ordenança divina que foi dada no Éden, e por causa da ofensa dele, todos pecaram, tanto gentios quanto judeus. Todos ficaram alienados da glória de Deus, ou seja, ‘conheceram’ o pecado.

O pecado subjugou a humanidade por causa da desobediência à lei dada no Éden. Ora, tanto os que estavam sob a lei de Moisés quanto os gentios, ambos pecaram, o que demonstra que o pecado decorre da desobediência de Adão.

Desta análise é possível concluir que Paulo faz referência a dois tipos de lei na sua carta. Uma refere-se à lei de Moisés, e a outra à lei de Deus outorgada no Éden. Desta última decorre a penalidade eterna: ‘certamente morrerás’, ou seja, o homem ‘conheceu’ a separação da vida que há em Deus através da ofensa no Éden.

Ora, se o pecado decorre da desobediência à lei dada no Éden, logo, o ‘eu’ da qual o apóstolo faz alusão refere-se a algo proveniente de Adão, e que é comum a todos os homens destituídos da glória de Deus.

 

 

O que é pecado?

Se uma das definições de pecado é a transgressão da lei ( 1Jo 3:4 ), como é possível pecar sem lei? ( Rm 2:14 ) Qual lei transgredida é pecado: a lei de Moisés ou a lei dada no Éden?

Paulo afirma categoricamente que a lei não é pecado ( Rm 7:7 ). Também afirmou que os gentios pecaram mesmo sem lei. Estas afirmações levam-nos a concluir que, o pecado surgiu da transgressão à lei dada no Éden, e não da transgressão das prescrições de Moisés.

Uma das definições de pecado geralmente é extraída da I carta do apóstolo João, que diz: “Todo aquele que comente pecado, transgride a lei, pois o pecado é a transgressão da lei” ( 1Jo 3:4 ) Bíblia Sagrada, Edição Contemporânea, Ed. Vida. Se adotarmos este verso da carta de João como sendo a definição de pecado, como é possível aos gentios pecarem, se eles não têm lei?

Observando a carta de João, perceba que apenas neste verso a palavra ‘lei’ foi utilizada. No decurso da carta de João a palavra que foi utilizada diversas vezes é ‘mandamento’, porém, 1Jo 3:4 destoa da carta. A palavra “lei” também não é utilizada nas outras cartas do apóstolo João.

Já a versão João Ferreira Corrigida não utiliza a palavra lei em I João 3: 4, observe: “Qualquer que comete pecado, também comete iniquidade; porque o pecado é iniquidade” ( 1Jo 3:4 ). Versão Corrigida e fiel.

Ora, surge a dúvida: o pecado é ‘iniquidade’ ou o pecado é a ‘transgressão da lei’?

Pois bem, dúvidas a parte, segue-se que, ao ler os versículos nestas traduções, faz-se necessário analisar o seu contexto para chegarmos a um entendimento acerca das palavras utilizadas pelos tradutores, e qual a ideia que os apóstolos procuram evidenciar.

Ora, inferimos de Rm 2:12 que é plenamente possível pecar mesmo sem lei. Bem antes da lei de Moisés a morte reinou sobre todos os homens ( Rm 5:13 ). Desde Adão até Moisés a morte reinou sobre os homens o que significa que todos pecaram ( Rm 5:14 ). Daí, vale destacar que, o pecado impera aparte da lei mosaica.

Como? Um homem pecou, todos pecaram ( Rm 5:18 ). Ora, se um só homem pecou e todos pecaram, segue-se que o pecado que subjugou a humanidade não decorre da desobediência à lei de Moisés, visto que, após a desobediência de Adão, Deus não instituiu de imediato leis, porém, mesmo assim, todos morreram, o que demonstra que todos estavam em pecado.

O homem peca porque foi vendido como escravo ao pecado, e isto através da ofensa de Adão. Jesus é claro ao afirmar: “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado” ( Jo 8:34 ). O homem peca porque é escravo do pecado, e não porque transgride a lei de Moisés.

Resta a pergunta: O que é pecado? ‘Pecado’ diz da condição da criatura quando divorciada do Criador.

Quando a criatura se distancia do Criador, a condição ‘em pecado’ se manifesta. Ou seja, pecado é o mesmo que estar destituído da glória de Deus (morto para Deus e vivo para o mundo).

Se pecado fosse a transgressão da lei de Moisés ( 1Jo 3:4 ), não haveria como o homem ser formado em iniquidade e nem gerado em pecado, pois como poderia alguém transgredir no ventre materno? ( Sl 51:5 ).

Verifica-se nas Escrituras que um homem transgrediu e que todos transgrediram. Um pecou e todos vêem ao mundo separados de Deus, destituído da Sua Glória, porque todos pecaram pelo simples fato de serem descendentes de Adão.

O que toda humanidade passou a compartilhar após a ofensa de Adão? A mesma condenação! Como o apóstolo Paulo demonstrou que através da lei o ‘eu’ ‘conheceu’

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Colossenses 3 – Ressurretos em Cristo

‘Ressuscitar’ e ‘morrer’ com Cristo são fatos conclusos que fazem parte do passado da vida dos cristãos (já e estais). ‘Morrer’ e ‘ressuscitar’ soam como sendo elementos antagônicos quando da composição da ideia, mas ‘em Cristo’ são elementos que se complementam. Primeiro é necessário conformar-se com Cristo na sua morte, e só então, ressurge com Ele em uma nova vida, sendo um novo homem. Tanto o ressurgir quanto o morrer só ocorrem quando se está ‘COM’ ou ‘EM’ Cristo.


Colossenses 3

1- Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus.

Este capítulo tem inicio com uma conclusão que decorre de elementos apresentados em versículos anteriores: “Portanto…”.

Antes de toda e qualquer análise de um texto bíblico é necessário ter em mente que as divisões em capítulos e versículos só servem para auxiliar na localização dos textos, e que tais divisões podem influenciar negativamente o interprete.

A ideia da carta não fica estagnada ou restrita a um só capítulo ou versículo. A ideia transcende e engloba toda a carta, e, para entendê-la, é necessário analisar a carta como um todo, e não somente algumas partes ou referências.

Quando Paulo disse: “Portanto, se…”, ele está fazendo referência a uma ideia anterior para introduzir uma outra. Observe:

Paulo expôs no versículo vinte do capítulo anterior que: ‘se eles estavam mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo’, quais eram os motivos que prendiam os cristãos as ordenanças como se eles ainda vivessem no mundo? Eles estavam mortos, ou não?

O versículo em questão volta a mesma temática: “se estais mortos com Cristo” é o mesmo que dizer “se já ressuscitastes com Cristo”. O fôlego de vida de quem crê não termina quando se morre com Cristo. A morte com Cristo é o caminho para a ressurreição com Ele.

‘Morrer com Cristo’ tem o mesmo valor que ‘ressurgir com Ele’:

“Portanto, se ressuscitastes com Cristo…”;

“Se, pois, estais mortos com Cristo…”.

‘Ressuscitar’ e ‘morrer’ com Cristo são fatos conclusos que fazem parte do passado da vida dos cristãos (já e estais). ‘Morrer’ e ‘ressuscitar’ soam como sendo elementos antagônicos quando da composição da ideia, mas ‘em Cristo’ são elementos que se complementam.

Primeiro é necessário conformar-se com Cristo na sua morte, e só então, ressurge com Ele em uma nova vida e um novo homem.

Tanto o ressurgir quanto o morrer só ocorre quando se está ‘COM’ ou ‘EM’ Cristo.

Observe o contraste:

“Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus

“Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: Não toques, não proves, não manuseies?”

As ‘coisas’ que são de cima pertencem àqueles que morreram e ressurgiram com Cristo. Por quê? A resposta está no versículo 3.

As ‘coisas’ deste mundo são rudimentos, ordenanças, regras, comportamentos, etc, pertencentes à vida que o cristão tinha no pecado, ou seja, aquela vida que possuía antes de morrermos e ressurgir com Cristo.

 

2 – Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra;

Enquanto vivos para o pecado, os homens buscam viver segundo os princípios do mundo, e se ocupam de ordenanças como: não faça isto ou aquilo. Estes entendem que tais elementos podem ‘melhorar’ a condição deles diante de Deus. Ledo engano.

A partir do momento que o homem morre com Cristo, em seguida passa a viver para Deus (ressurge), e é necessário buscar as coisas que são de cima, e ocupar-se em pensar nelas.

Quais são as ‘coisas’ de cima? E por que Paulo faz referência ao local onde Cristo está assentado? Para obter uma resposta é necessário considerar o que Paulo escreveu aos cristãos em Efésios:

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (…) E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” ( Ef 1:3 ; Ef 2:6 ).

É possível vislumbrar a grandeza que é ressuscitar com Cristo? Se o homem já ressuscitou com Cristo, isto significa que está assentado nos lugares celestiais, onde Cristo está assentado à destra de Deus.

O ‘assentar’ indica descanso!

Da mesma forma que ao terminar a obra da criação Deus descansou no sétimo dia, Jesus, ao terminar a sua obra de redenção, assentou-se à destra do Pai. Isto significa que a obra de Jesus também é completa “Mas este, havendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, está assentado à destra de Deus” ( Hb 10:12 ).

Os sacerdotes ao oferecerem sacrifício pelos seus semelhantes em momento algum podiam tomar assento, visto que, o que eles faziam não podia aperfeiçoar os pecadores.

Cristo ao se oferecer em sacrifício, e sendo sumo sacerdote dos bens futuros, ao fazer oferta de si mesmo pode assentar-se à destra de Deus nas alturas

Por isso Paulo concita a que pensemos nas coisas que são de cima, pois de lá temos recebido todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo.

Enquanto as pessoas que vivem segundo o curso deste mundo se ocupam de ordenanças, o cristão deve se ocupar em pensar das coisas que recebemos de Deus, tais como: redenção, regeneração, eleição, justificação, santificação, predestinação, herança, etc ( Ef 1:1 -14).

 

3 – Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.

O motivo é bem simples: estamos mortos e a nossa vida está escondida com Cristo em Deus! Compare com ( Cl 2:20 e Cl 3:1 ).

Não há como desvincular o ‘morrer’ e o ‘ressurgir’ com Cristo. Só é ressurreto dentre os mortos aqueles que de uma vez por todas morreram para aquilo que estavam retidos.

 

4 – Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória.

Este versículo trata do futuro de todos os cristãos. No momento em que Cristo se manifestar haveremos de nos manifestar com ele em glória, pois assim como Ele é, haveremos de ser em glória.

O apóstolo Paulo disse que toda a criação geme na expectativa da revelação dos filhos de Deus, que é a igreja (corpo) de Cristo em glória ( Rm 8:19 ).

Porém, antes de ocorrer a adoção, ou a redenção deste corpo, entendemos que, qual Cristo é, os cristão também são neste mundo: filhos da Luz ( 1Jo 4:17 ).

 

5 – Mortificai, pois, os vossos membros, que estão sobre a terra: a prostituição, a impureza, a afeição desordenada, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria;

A condição do cristão perante Deus é a de assentados nos lugares celestiais, e é na coisas concernentes a esta posição que deve pensar.

O cristão já morreu e ressurgiu com Cristo para a glória de Deus:

“Portanto, se já ressuscitastes com Cristo…”;

“Se, pois, estais mortos com Cristo…”

Agora, deve mortificar os seus membros (mortificai, pois,…). As premissas dos versos 1 e 3 não podem ser desprezas enquanto se analisa o versículo 5.

O cristão adquiriu uma condição perante Deus, entretanto, ainda está sobre a terra e possuí um corpo material (vossos membros). Paulo pede aos cristãos que ‘mortifiquem’ o seus membros considerando o que Deus já realizou em suas vidas.

Ao se abster da prostituição, da impureza, das afeições desordenadas, da vil concupiscência e da avareza, o cristão está mortificando o seu corpo mortal.

Não podemos concluir que a morte com Cristo e a ressurreição com ele advém da abstenção das impurezas aqui relacionadas, pois muitas religiões apregoam estes princípios e seus seguidores se aplicam a observá-los em busca de salvação, no entanto, não morreram, não ressuscitaram e não estão em Cristo.

O morrer e o ressurgir com Cristo, ou seja, ser uma nova criatura advém da graça de Deus por meio do evangelho e dá fé que tais verdades nos proporcionam. Agora, o mortificar o corpo diz de elementos comportamentais e não espirituais.

Este versículo apresenta as mesmas considerações do versículo: “Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” ( Gl 5:25 ). A morte do velho homem e a ressurreição em uma nova criatura é uma obra proveniente de Deus, e agora deve seguir o estipulado por Paulo na carta aos ( Ef 4:1 e 17).

Os versículos seguintes elucidam melhor estas verdades.

 

6 – Pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência;

Este versículo é pequeno, mas a ideia que ele contém é grandiosa e complexa.

“Pelas quais coisas…”

Quais coisas? A resposta é: “a prostituição, a impureza, a afeição desordenada, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria”.

A ira de Deus virá sobre os filhos da desobediência por eles andarem nas práticas que foram enumeradas, mas a condenação é proveniente da natureza que participam por serem descendentes de Adão. A condenação de Deus no Éden em Adão, e a ira procede das ‘coisas’ enumeradas pelo apóstolo Paulo.

Não são as ‘tais coisas’ que trouxe condenação sobre todos os homens, e sim, a origem deles em Adão. A ira diz do julgamento de obras que se dará no Grande Trono Branco.

O versículo possui dois elementos distintos que devem ser alvo de análise: a ira de Deus e os filhos da desobediência.

 

1. Os filhos da desobediência

Os filhos da desobediência são os filhos de Adão, ou seja, os filhos da desobediência tiveram origem na desobediência de Adão “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores…” ( Rm 5:19 ). Se os filhos da desobediência tiveram origem na desobediência de Adão, segue-se que pelo juízo de Deus eles já estão condenados “E não foi assim o dom como a ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para condenação…” ( Rm 5.:16 ).

“Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” ( Jo 3:18 ). Mas aqueles que creem podem dizer conforme o apóstolo Paulo: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” ( Rm 8:1 ).

Observem que sobre os filhos da desobediência pesa uma condenação, não porque praticam as coisas pelas quais vem a ira de Deus, mas porque são filhos segundo a desobediência de Adão, filhos nascido: “… do sangue,(…) da vontade da carne, (…) e da vontade do homem…” ( Jo 1:13 ).

Sobre os filhos da desobediência pesa uma condenação, e por mais que se procure ter uma vida regrada é impossível livrar-se de tal condenação se não for por meio da cruz de Cristo.

 

2. A ira de Deus

“Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus” ( Rm 2:5 )

Este tema é um pouco complicado, e por isso, é preciso iniciar o comentário através de ( Rm 2:5 ).

Paulo alerta que as pessoas com o coração impenitente entesouram ira para um dia específico. Será o dia da ira e o dia da manifestação do juízo de Deus.

Desde que Jesus veio ao mundo está a manifestar-se aos homens a justiça de Deus, mas haverá um dia marcado para manifesta-se o juízo de Deus. Desde que o homem pecou foi estabelecido o juízo de Deus e o homem está sob condenação, mas isto não é manifesto. Mas, no dia em que Deus manifestar a sua ira, também haverá de manifestar-se o juízo e quando se deu este juízo. Neste dia todos os homens verão qual é a condenação para aqueles que estão sob juízo.

O juízo de Deus trouxe condenação Rm 2. 16, e a justiça de Deus concede justificação ( Rm 1:17 ).

Isto posto, já é possível falar de alguns princípios que são pertinentes à ira de Deus.

 

 

“Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo” ( 1Ts 5:9 ).

A ira de Deus fala de punição. Além de o incrédulo estar condenado por ser filho da ira, ou filho da desobediência em Adão (perdição), ele também estará sujeito à ira em decorrência de suas obras, isto porque ‘Deus recompensará a cada um segundo as suas obras’ ( Rm 2:6 ).

Para os filhos da luz há o tribunal de Cristo, e para os filhos da desobediência haverá o Grande Trono Branco.

“A vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção” ( Rm 2:7 ).

Como interpretar Rm 2:7 ? Observe:

“Com perseverança em fazer o bem” é um termo acessório da oração, ou seja, é um aposto.

Aposto é um termo acessório de uma oração que tem a função de ampliar, explicar, desenvolver ou resumir a ideia contida numa oração ou em parte dela.

A oração sem este termo integrante ficaria redigida assim: “A vida eterna aos que (…) procuram glória, honra e incorrupção”. A vida eterna não é alcançada por aqueles que praticam o bem, antes ela é alcançada por aqueles que procuram glória, honra e incorrupção, sendo que tais coisas só se encontram em Cristo.

Agora, após ter encontrado incorrupção em Cristo, o homem deve perseverar em fazer o bem, pois haverá de receber o bem e o mal que houver feito por meio do corpo no tribunal de Cristo.

Observe que a idéia exposta no versículo sete é complementada no versículo oito:

“Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade” (v. 8);

A indignação e a ira de Deus recairá sobre aqueles que não obedeceram a verdade do evangelho, e que portanto são contenciosos e desobedientes à verdade. A ira de Deus permanece por serem arredios ao evangelho, e não por não praticarem o bem com perseverança.

Mas, se não obedeceram ao evangelho, estes haverão de receber tribulação por também terem obrado o mal, e para isso não há acepção de pessoas.

Pelas quais coisas vêm a ira de Deus sobre os filhos da desobediência;

Concluindo:

A ira de Deus virá sobre aqueles que não se abstêm das vis concupiscências deste mundo, ira que recai sobre os filhos da desobediência de Adão.

 

7 – Nas quais, também, em outro tempo andastes, quando vivíeis nelas.

Este versículo contém a mesma ideia que ( Ef 5:8 ):

“Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” ( Ef 5:8 )

‘Em outro tempo’ refere-se ao tempo em que por natureza se era filho da desobediência, ou seja, éreis trevas.

‘Nas quais’ refere-se ao comportamento desprezível que os filhos das trevas possuem.

Após comparar os elementos que compõe os dois versículos, verifica-se que ‘andar’ fala de questões comportamentais, e ‘viver’ fala de qual natureza o homem pertence (luz ou trevas; carne ou Espírito).

“Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” Gl 5. 25.

Aqueles que, após nascerem da água e do Espírito, passaram a viver em Espírito, e, por tanto, são espirituais, também deve andar, ou seja, a ter um comportamento a altura de sua nova natureza.

Em outro tempo andávamos em concupiscências, pois vivíamos segundo o pecado. Por natureza éramos trevas, e andávamos como filhos das trevas.

Hoje é diferente: “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” ( Rm 6:4 ).

Ao cremos em Cristo, morremos com ele e ressurgimos e passamos a viver uma nova vida por meio de Cristo. Como fomos ressuscitados e vivemos em novidade de vida, devemos também andar em novidade de vida.

 

8 – Mas agora, despojai-vos também de tudo: da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca.

Paulo convoca os cristãos a experimentarem um novo patamar na conduta cristã.

Antes todos andavam segundo o curso do mundo, mas agora há o dever de se desfazer de tudo que era pertinente ao velho homem que foi crucificado com Cristo: ira, cólera, malicia, etc. O cristão deve se despojar, desfazer de tudo que era pertinente a velha criatura.

A velha criatura foi morta na cruz de Cristo, e não mais vive, mas Cristo vive nos que creem ( Gl 2:20 ). Segue-se que agora deve se desfazer das coisas que pertenciam ao velho homem.

 

9 – Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos,

A mentira é um tipo de comportamento pertinente ao velho homem, pois o novo homem é segundo a verdade do evangelho, o que o torna livre. Livre do velho homem, da velha natureza e despido do comportamento desprezível segundo o pecado.

 

10 – E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou;

Há uma nova ‘roupa’ para aqueles que estão em Cristo. O cristão JÁ se despiu e JÁ se vestiu do que é pertinente ao novo homem “E vos revestistes do novo…”.

Este novo homem se renova para o conhecimento, segundo o que Paulo falou aos romanos: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” ( Rm 12:2 ).

O novo homem é segundo a imagem de Deus! Como?

A transformação que ainda esta sendo submetidos os filhos de Deus é quanto ao entendimento, e isto sim é um processo, pois o objetivo de Deus é que experimentemos a sua boa vontade.

Mas quanto a filiação, o novo homem é criado segundo Deus “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” ( Ef 4:24 ).

O novo homem é criado segundo o poder de Deus, e de Cristo temos recebidos a plenitude “E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade” ( Cl 2:10 ). Qual a Adão são os filhos de Adão, qual Cristo são os filhos de Deus ( 1Co 15:48 ).

Sendo Cristo a imagem de Deus “O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” ( Cl 1:15 ), novamente estabeleceu o propósito eterno de fazer convergir em Cristo todas as coisas, sendo nós os que cremos, feitos a imagem e semelhança de Deus “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” ( Gn 1:26) .

 

“Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles”
( Hb 2:10 )

 

11 – Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos.

Qual é o único lugar que não há diferença entre os homens? No corpo de Cristo, visto que Ele disse ao repartir o pão: “E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim” ( 1Co 11:24 ). O corpo de Cristo estaria repartido, ou seja, cada um deles eram o corpo de Cristo.

O corpo de Cristo consegue abrigar a todos os homens e ele não faz distinção entre os seus. Cristo passa a ser tudo em todos. Qualquer aspecto que se queira evidenciar, devemos considerar primeiramente a Cristo, o apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão ( Hb 3:1 ).

12 – Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade;

No versículo dez Paulo demonstrou que o cristão foi vestido do novo, e aqui ele recomenda revestir de misericórdia, benignidade, humildade, etc.

Qual a diferença entre vestir e revestir? Qual é a vestimenta do novo homem? Qual o motivo de ser necessário revestir?

Antes de conhecer a Jesus as vestes do velho homem eram trapos de imundícies, hoje, o cristão cobre-se de salvação e é envolvido pelo manto da justiça de Deus ( Jó 29:14 ; Is 61:10 ). Ao ser criado em verdadeira justiça e santidade, o novo homem não é achado nu a semelhança de Adão, mas está vestido do que Deus lhe providenciou.

Do novo homem o cristão já está vestido, agora, por ser eleito, santo e amado precisa revestir-se de misericórdia, benignidade, humildade, mansidão, longanimidade ( Gl 5:22 ).

 

13 – Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também.

Paulo interpõe a pessoa de Cristo como exemplo.

 

14 – E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição.

Ademais, o amor não deve faltar na vida do cristão, pois n’Ele está o vínculo perfeito “E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele” ( 1Jo 4:16 ).

 

15 – E a paz de Deus, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações; e sede agradecidos.

A paz de Deus excede a todo entendimento. Por meio de Cristo temos paz com Deus, e isto foi realizado por meio do corpo dele.

Por meio da fé nos unimos a Cristo, e isto se dá por meio da sua morte. Após a morte ressurgimos um novo homem e em paz com Deus “Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz” ( Ef 2:15 ).

Fomos chamados por meio do corpo de Cristo e passamos a ter paz com Deus. Agora fazemos parte deste corpo que é composto por pessoas de diferentes classes sociais, etnias, línguas, nações, etc. A paz que temos com Deus transcende e alcança os nossos semelhantes, o que prova que somos nascidos dele.

 

16 – A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração.

A palavra de Deus deve fazer morada no crente “Mas a sabedoria que do alto vem é, primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia” ( Tg 3:17 ).

Após adquirir sabedoria conforme expõe o apóstolo Tiago, o ensinar e o admoestar se dá através de salmos, hinos e cânticos, ou seja, através da palavra de Deus.

 

17 – E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.

O louvor pertence a Deus por meio de Cristo ( Ef 2:10 ).

O contexto muda completamente e Paulo passa a exortar grupos em particular. Paulo determina as mulheres cristãs que residiam em colossos a que fossem sujeitas aos seus maridos, o que é conveniente no Senhor. Não há nesta carta qualquer referência que esclareça os motivos pelas quais o apóstolo Paulo solicita esta submissão àquelas irmãs em particular.

A carta aos cristãos de Efésios possui tal ordenança e outros elementos, mas é temerário nos socorrer de outra carta para tentar elucidar o propósito de Paulo em dar tal recomendação. Por quê? Os cristãos de Efésios viram o apóstolo Paulo pessoalmente e os cristãos de Colossenses não. Isto porque a carta possui destinatários e serve quase que exclusivamente àquela comunidade cristã. Observe que Paulo é bem genérico na exortação.

 

19 – Vós, maridos, amai a vossas mulheres, e não vos irriteis contra elas.

Paulo recomenda aos maridos o amor para com as esposas e que não se irritassem com elas. É bem genérico, e não é de bom alvitre tentar dar um motivo pela qual os maridos se irritavam com suas esposas.

 

20 – Vós, filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor.

Paulo recomenda a obediência aos filhos, e arremata que tal atitude agrada ao Senhor.

 

21 – Vós, pais, não irriteis a vossos filhos, para que não percam o ânimo.

Paulo aponta aos pais o motivo pela qual não se deve irritar os filhos: para que não percam o ânimo.

 

22 – Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus.

Analisando as determinações verifica-se um parâmetro que preserva a autoridade na sociedade e na família. Quando Paulo fala àqueles que estão sob autoridade, ele aponta o Senhor (esposa, filhos, servos). Quando Paulo fala aos detentores de autoridade (marido, pais, senhores), ele não fala como ao Senhor, mas aponta a causa pela qual não se deve tomar tal atitude.

 

23 – E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens,

Deixando as questões pertinentes a autoridade de lado, Paulo recomenda a todos os cristãos que tudo o que fizessem, que fizessem como ao Senhor.

 

24 – Sabendo que recebereis do Senhor o galardão da herança, porque a Cristo, o Senhor, servis.

Tudo o que o cristão faz é serviço ao Senhor. Hoje somos escravos da justiça, conforme Paulo diz aos Romanos (v. 17 ; Rm 6:18 ).

 

25 – Mas quem fizer agravo receberá o agravo que fizer; pois não há acepção de pessoas.

Vide explicação do versículo seis.

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